Por Marcos Ferreira
Quanta gente boa e capaz temos agora a oportunidade de ver e ouvir na chamada propaganda eleitoral gratuita. Cada rosto e mensagem cativam o eleitor por inteiro, transmitem a mais completa seriedade e comprometimento com a nossa cidade, estado e país. É uma pena não podermos votar em todos eles. Eleição passada, em crônica para este espaço do BCS — Blog Carlos Santos, falei, lamentei o desperdício que é nós termos que votar em apenas um ou outro indivíduo. São diversos homens e mulheres da melhor índole disputando as nossas intenções de voto.
É difícil não nos sensibilizarmos com tantos e falantes elementos dispostos a derramar o próprio sangue em favor (sobretudo) das camadas mais necessitadas da sociedade. É um espetáculo de altruísmo e filantropia sem tamanho. As propostas e promessas de campanha não deixam a desejar a seu ninguém. Nossos corações se enchem de esperança e positividade diante das referidas promessas. Essas pessoas têm estampados no rosto absoluta honestidade e inquestionável bom caráter. Nasceram com a vocação de bem servir ao próximo. Especialmente, repito, o povo pobre e desassistido de nossa Mossoró, do Rio Grande do Norte e do nosso Brasil.
Há candidatos para todos os gostos e credulidades. Sobre suas cabeças pairam aquelas auréolas angelicais, como nas imagens sacras. Os seus lustrosos rostos brilham na televisão, irradiam muita pureza, lisura, boa-fé. Os nomes, em especial os apelidos, são um show à parte. Bom número desses cidadãos que almejam um mandato atende por nomes escalafobéticos, inusitados, para não dizer ridículos. É preciso levar em conta também a lábia desses futuros benfeitores sociais.
No meio dos aventureiros se encontram as raposas velhas, as cobras criadas, os sujeitos e sujeitas passados na casca do alho. São aqueles elementos que buscam se manter no jogo de cena, conseguir a reeleição. Aí é possível toparmos, na propaganda eleitoral gratuita, com verdadeiros encantadores de serpentes, mestres do ilusionismo, da prestidigitação. Cada um mais convincente que o outro. Dá vontade até de metermos a mão na carteira e doarmos tudo que houver para colaborar financeiramente com os samaritanos. Alguns parecem mexer com a nossa sanidade.
Desejo encerrar o meu relato deste domingo com uma desconcertante sextilha (estrofe de seis versos e de sete sílabas poéticas) do inesquecível, saudoso poeta e violeiro Onésimo Maia. Repentista formidável, Onésimo se encontrava uma noite em uma cantoria de viola com outro colega. Ignoro a data e o local. Era, coincidentemente, época de campanhas. E é tradição, quando desses eventos de poesia, os circunstantes contribuírem com algum dinheiro ofertado aos cantadores.
Eis que estava presente nessa oportunidade, junto com outros parlamentares, o ex-governador Aluízio Alves. Ciente da tradição de se fazer uma oferta aos violeiros, Aluísio pegou uma cédula hoje equivalente a cinquenta ou cem reais, dobrou-a entre os dedos indicador e o maior de todos e, com simpatia, colocou a nota no bolso da camisa de Onésimo. Daí veio a estrofe impiedosa e perfeita:
“Doutor Aluízio Alves
Agora compareceu;
Vou conferir no meu bolso
O valor que ele me deu…
Aluízio é muito vivo,
Pode ter levado o meu.”
Marcos Ferreira é escritor
























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