domingo - 01/02/2026 - 04:14h

Recordações da casa da fome

Por Marcos Ferreira

O sapateiro, de Ayala Gurgel — Óleo sobre tela

O sapateiro, de Ayala Gurgel — Óleo sobre tela

Vários autores, à falta de assunto melhor, escrevem acerca de suas próprias recordações. Assim o resultado desse artifício não raro finda descambando para a pieguice ou sentimentalismo. O passado, todavia, abriga um acervo existencial bastante vasto, senão inesgotável. Acontece, entrementes, que há escritores que transformam essas memórias em textos bons. Dito isto, conforme procedo neste instante, talvez não haja tanto problema em aqui e acolá usarmos essa receitinha introspectiva. Contarei, pois, mais um bocado de minha vida pregressa. São acontecimentos de fato melancólicos vinculados a um período que marcou meu coração e meu espírito.

Estudei pouco. Tive uma vida escolar muito breve. Minha presença em sala de aula foi curta, porém inestimável. Aquela educação formal, embora fragmentada, cultivou em mim a semente da leitura. Descobri que podia ler e daí por diante, ainda que fora da escola, segui lendo com máximo encanto. Debrucei-me sobre autores e obras com uma fome ancestral. É isso, li com extrema voracidade. Apesar dos pesares, adquiri acesso a clássicos importantes da literatura brasileira quanto estrangeira. Daí a pouco eu já não era tão só um leitor, mas um estudioso da produção intelectual que chegou ao meu alcance. Estudei, sobretudo, poetas parnasianos e suas regras fixas: esquemas rimários, metrificação, cesura, hemistíquio, diérese, sinérese e sílabas tônicas e pós-tônicas. Como autodidata, assimilei e fiz uso dessas técnicas. Não vou expor uma lista de títulos e autores que fizeram minha cabeça. Isso é enfadonho.

Não posso reclamar de nada a esta altura da vida. Tive sorte por sair do analfabetismo. Foi por um triz. Cheguei ao colégio para desasnar (analfabeto de pai e mãe) com onze anos de idade. A merenda escolar, admito, foi um incentivo de grande importância. Tempos bicudos, difíceis. Passamos graves dificuldades nas décadas de setenta, oitenta e meados de noventa. Não faltava escassez. Sapateiro, meu pai precisava realizar um contorcionismo financeiro enorme para alimentar nove filhos esfaimados. Éramos onze. Ocorreu que Hugo e Márcia (sou o primogênito) demoraram pouco naquele mundo sovina.  Hoje os dois habitam o campo-santo. O restante, nove magricelos, escapou fedendo. Àquela época um pão dormido era um tipo de item, uma iguaria nem sempre acessível na casa dos Ferreiras. Os vizinhos mais próximos sabiam que no 3521 da Avenida Alberto Maranhão havia uma família em insegurança alimentar. A senhora Branca, minha mãe, que não sabia assinar o próprio nome, era doutora em fazer render os víveres que o senhor Vicente trazia para casa adquiridos, no mais das vezes, na Cobal e no então pujante Beco das Frutas. Certas coisas, a exemplo do charque, ovos, mortadela e cereais, costumavam vir do Mercado Novo, no Bom Jardim.

Naquela quadra de minha existência não havia essa história de Bolsa-Família ou algo semelhante. Vivíamos sob a vergasta dos generais. Os militares governavam o país com mão de ferro e sede de sangue. Uma imensa parte da população estava sob o cabresto, contando com migalhas. O salário mínimo fazia rigorosamente jus à denominação de mínimo. A carestia causava um estrago medonho em inúmeros lares brasileiros. Sei que isso não é assunto agradável para submeter aos leitores, mas nem só de amenidades se constitui a literatura. Façamos de conta, portanto, que estou aqui com os meus botões, de papo comigo mesmo. Trago hoje recordações da casa da fome. Cada um relata o passado que vivenciou. Sobretudo memórias da infância.

Agora, ao contrário de antanho, encontro-me resignado com os tostões que pingam na minha conta-corrente a cada fim do mês. Olho à volta e posso dizer que, se compararmos à era de minha meninice e adolescência, usufruo de uma condição confortável. Diferentemente de agora, não mais escrevo a bico de caneta em cadernos ordinários. Não. Componho estas notas em um computador.

Possuo outros elementares bens materiais, todavia são objetos absolutamente impensáveis nas décadas de meu universo pueril. No tempo da casa da fome, permitam-me a repetição, a gente nem sonhava ter, por exemplo, uma geladeira. Sequer um fogão a gás. Íamos ver televisão à noite na praça do bairro. Tínhamos na cozinha de nossa moradia de pau-a-pique um fogão a lenha que revestia as paredes com uma tisna de um preto retinto. Lembro-me de que não possuíamos nem mesmo uma mesa de madeira onde pudéssemos fazer nossas refeições. Em vez disso, quando se fazia necessário, a senhora Branca dispunha no piso de chão batido da cozinha uma esteira de palha sobre a qual sentávamos ao redor e era servido o que houvesse para comer. Em especial no tocante ao almoço, quando panelas de barro e algumas de alumínio ficavam em cima da referida esteira. Mas isso não era uma situação cotidiana. Certos dias a comida nos faltava e precisávamos nos contentar com um café com farinha, entre outras improvisações alimentares que minha mãe nos oferecia como almoço ou jantar.

Bem cedo meus irmãos e eu começamos a buscar determinados serviços, pequenos trabalhos que nos rendiam algumas patacas. Limpávamos o mato de quintais nas imediações de nossa residência, casa alugada e que nos primeiros anos não contava com luz elétrica nem água encanada. O proprietário não tinha muito interesse em fazer melhorias no imóvel. Pertencia a um cidadão de nome Nelito Apolinário. Ganhávamos uns trocados juntando peças de ferro, alumínio, garrafas e litros de vidro que vendíamos em um ferro-velho que existia, se não me engano, nos Paredões. Além disso, sem nunca termos sido apanhados, subtraíamos frutas do quintal do senhor José Pereira, nosso vizinho. Especialmente goiabas, bananas e mangas. Retirar as cinzas, limpar o forno da Panificadora Canindé, entre outras atividades, nos rendia boa quantidade de pães e bolachas. Embora esses produtos fossem do dia anterior.

Hoje me pego revirando estas memórias desagradáveis, cenas de um passado remoto. As pessoas não gostam de saber de histórias tristes, penosas. Querem relatos positivos, algo que lhes desperte otimismo, alto-astral, bem-estar. Não lhes tiro a razão. Basta, enfim, de recordações da casa da fome.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/05/2025 - 10:26h

Depoimento – XV

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 21-1402/2022

NATUREZA: DENÚNCIA DE CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO IMATERIAL

DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE JUNHO DE 2022

COMUNICANTE: LÚCIA EMÍLIA SILVEIRA DE ANDRADE E ALVAREZ

A senhora Lúcia Emília Silveira de Andrade e Alvarez Cabral, sessenta e cinco anos, casada, doutora em letras, professora aposentada, escritora e acadêmica imortal da Academia de Letras de Tugúrio, cadeira número dezesseis, e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia para oferecer denúncia, perante mim, escrivã de polícia, sobre fatos dos quais diz ter notícia. A depoente solicitou que se registrasse que possui competência intelectual, profissional e moral amplamente reconhecida nos devidos meios para avalizar a notícia crime que veio oferecer junto a esta delegacia e seu testemunho deve ser considerado inconteste e prova de si mesmo, para o bem da cultura e defesa do patrimônio imaterial deste país. Disse que tem conhecimento de fato atentatório contra o patrimônio imaterial e cultural do nosso povo que põe em risco a simbologia e ritualística literária dos acadêmicos e imortais, tanto aqui quanto no país de Camões. Acrescentou que o fato sobre o qual pretende se queixar veio a seu conhecimento recente e tão logo tomou ciência, decidiu, pelo dever que impera sua digna condição de acadêmica imortal, literata e jurada defensora da língua portuguesa, oferecer denúncia para que a intenção ofensiva dos seus autores não prospere nem dê frutos. Que soube do fatídico por ter sido convidada a participar de importante concurso literário nacional, na qualidade de juri, graças ao reconhecimento de sua dedicação às letras. Que, graças ao convite, tomou ciência do que as mentes ansiosas por notoriedade e oportunidade de visibilidade estão a produzir. A depoente exigiu que não fosse usado o gerundismo para a transcrição do seu depoimento. Satisfeita com a promessa e esforço desta escrivã, disse que, em virtude da referida participação, da ânsia pela inovação e desprezo pela nossa cultura, percebeu que há excessivos desvios de mentalidade e do bom uso da nossa língua, fazendo com que estilos muito bem determinados enfrentem uma avalanche anarquista de ataques. Que, do mesmo modo que um soneto é o que é, pela sua forma, ou um cordel não pode ser uma trova, pelas mesmas razões, um conto é o que é por sua estruturação. A nossa academia tomou, desde as sábias e irretorquíveis palavras do grande folclorista nacional, o imortal potiguar Câmara Cascudo, a estrutura destas peças, que são os dois mais nacionais estilos literários, o conto e a crônica, e com isso, o assunto está encerrado. Não há mais o que discutir. Assegurou que se encontrava habilitada para fornecer informações complementares sobre esse estrutura, caso fosse preciso e requisitada. O delegado achou por bem dispensá-la dessa obrigação e pediu para se ater aos fatos. A depoente exigiu que ficasse registrado nesta ocorrência que não concordava com a visão positivista de sua excelência sobre a redutibilidade fatídica do relato policial, mas que se compromete a atender seu pedido. Retomando a narrativa, disse que, graças à sua participação no concurso, tomou conhecimento da preferência de alguns literatas, como o doutor José Roberto Alves Barbosa, que ameaçam a solidez dos nossos rituais de escrita e bens imateriais. Que o acadêmico está a fazer concessões à neoliteratura que subvertem a estética da língua culta e bem trabalhada em favor da linguagem ordinária. Que a presente denúncia se sustenta em virtude de saber que esse acadêmico está a considerar positivamente produção de um ignoto Ayala Gurgel, que reuniu sob sua autoria uma contoria na forma de boletins de ocorrência, profanando uma coisa e outra, não é conto nem boletim de ocorrência. Que, se todo esse liberalismo for permitido, o que se pode prever não é o melhor cenário para a manutenção dos costumes mais arraigados de tão alta estilística literária. É perceptível o risco que nosso patrimônio corre, tendo que inserir na contologia contemporânea escreveniências banais como receitas médicas, anamneses, correções de provas, laudos periciais, e tudo o mais que for escrito mesmo sem a menor ou qualquer intenção literária. Estaríamos a erigir à condição máxima da obra de arte que dignifica a nossa língua casos da linguagem comum, só porque no passado algumas pessoas de destacado talento fizeram isso com as cartas. Que, para o bem da proteção da nossa cultura e defesa do nosso patrimônio imaterial, o devaneio que ora se instaura deve ser impedido e limites precisam ser impostos. Por fim, solicitou que os acusados sejam intimados e o trabalho do neoliterata desacreditado enquanto ainda há tempo para evitar que dê frutos. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

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Leia também: Depoimento XIV (04/05/2025)

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domingo - 04/05/2025 - 05:40h

Depoimento – XIV

Por Ayala Gurgel

Imagem ilustrativa com recursos de inteligência artificial para o BCS

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B.O: N° 12-7192/2021

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 08 DE FEVEREIRO DE 2021

COMUNICANTE: SANDRA MARIA DA CONCEIÇÃO SALDANHA

A senhora Sandra Maria da Conceição Saldanha, trinta e quatro anos, casada, enfermeira do SAMU e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia e noticiou, na qualidade de testemunha, perante mim, escrivã de polícia, fatos de que tem conhecimento envolvendo a morte do senhor Bartolomeu Barbosa da Silva. A depoente disse que foi a primeira a chegar ao local e não estava de serviço naquele dia, mas aquele era seu caminho habitual para retornar ao domicílio alugado por ela e outras colegas de trabalho durante a pandemia, como forma de proteger seus familiares. Disse que passa pela rua onde se deu o acontecido três vezes por semana, e, naquele início de noite estava voltando quando ouviu três disparos, o que a deixou atenta e a fez diminuir a marcha do carro, pois não sabia de onde vinha o perigo. Que, mais adiante, avistou o corpo ensanguentado na parada de ônibus e reconheceu se tratar de uma emergência, talvez associada aos disparos ouvidos, o que a levou a ligar para a polícia e o SAMU. Que, na qualidade de profissional qualificada e tendo observado não haver sinais de perigo, parou o carro no local para prestar os primeiros socorros. Logo constatou que a vítima estava sem vida, alvejada com três disparos, todos na região torácica. Ainda no local, achou a vítima parecida com um autor que gosta de ler, desde os tempos da faculdade, e, para tirar essa dúvida e ajudar na identificação, procurou por documentação nos bolsos da vítima e não encontrou nada, o que a levou a julgar que se tratava de latrocínio. A vítima pode ter reagido a um assalto, o meliante não gostou da reação e o alvejou à queima-roupa. Indagada sobre o que podia informar sobre a vítima e o estilo de vida que ela levava, a depoente declarou que sabia pouco sobre a vida pessoal do escritor, apenas que era considerado um dos maiores autores do século XXI, tendo deixado vasta produção literária, embora apenas um livro venha fazendo sucesso. Sabe também que ele não tinha recursos, pois os lucros das vendas não ficavam com ele, mas com sua editora, que comprou os direitos patrimoniais da obra. Que ele escrevia para ajudar as pessoas, como ele mesmo declarou em entrevista, de que de sua caneta nunca sairia uma palavra sequer para denegrir ou colocar qualquer pessoa para baixo, fosse quem fosse. Com sua arte, enaltecia a alma ou não escreveria, pois seus olhos só viam o que há de melhor nas pessoas. A depoente disse que tem conhecimento de vários escritos dele, dedicados às mais diferentes categorias sociais, inclusive uma composição que enaltece o trabalho das enfermeiras, a quem ele chamou de “anjos da guarda”. Segundo a depoente, ele foi, em vida, aquilo que podemos chamar de pronóico. Indagada sobre o significado do termo, a depoente esclareceu que se trata de classificação psiquiátrica para o tipo de pessoa que tem uma visão de mundo na qual as coisas que acontecem, acontecem sempre para o seu melhor possível. Completou dizendo que pessoas pronóicas são o oposto de pessoas paranoicas e estão sempre falando que tudo vai ficar bem, que vai dar certo, pois alguém ou algo está olhando por você, cuidando para que tudo ocorra da melhor forma possível. Que ela conhece muitas pessoas pronóicas, mas como ele, nunca tinha visto. Em vida, ele foi o exemplo vivo de pessoa pronóica, e o meio que usou para expressar isso foi a escrita. Que ele estava muito empenhado com a ideia de que podia mesmo ajudar as pessoas por meio das palavras. Que foi com o objetivo de ajudar as pessoas que escreveu o seu mais famoso livro, cujo título é “Humanos Melhores Virão”. Disse que o autor acreditava e escreveu que depois da pandemia irá surgir uma nova humanidade, que está sendo gestacionada no plano quântico, com o advento do que chamou de homo quanticum. Esta será a nova espécie, que substituirá o homo sapiens e passará a viver em simbiose com a vida do planeta. Seu livro foi traduzido para vários idiomas, um best-seller, e há quem o considere o novo Capital, graças ao conceito de “economia quântica” que ele introduziu. Que ao autor não coube nenhuma participação nos lucros, apenas conviver com a fama de ver seu livro sendo vendido sob outro nome, pois a editora achou que Bartolomeu Barbosa da Silva não era comercial. Foi assim que o livro passou a ser publicado sob o pseudônimo Barth S. A vítima afirmou, certa vez, não se importar, que Barth S era seu “eu quântico”. Indagada como a depoente reconheceu a vítima, mesmo o senhor Bartolomeu estando sem seus documentos, disse que foi o local do crime que a ajudou. Que, ao lado da parada de ônibus onde a vítima foi alvejada, havia um outdoor imenso com a propaganda do livro “Humanos Melhores Virão” e uma foto dele ao lado. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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domingo - 27/04/2025 - 11:30h

Depoimento – XIII

Por Ayala Gurgel 

Imagem ilustrativa com recursos de inteligência artificial para o BCS)

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B.O: N° 10-6492/2020

NATUREZA: DENÚNCIA CRIME – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 08 DE AGOSTO DE 2020

COMUNICANTE: KELLY ANNE SORAYA DE ARRUDA MATIAS

A senhorita Kelly Anne Soraya de Arruda Matias, vinte e um anos, solteira, vendedora, universitária e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia e declarou, perante mim, escrivã de polícia, o desejo de prestar queixa de forma não identificada contra o senhor Félix Roberto Diniz Dantas por maus tratos e violência doméstica contra Débora de Almeida Dantas, cônjuge do denunciado. A depoente diz que, no início desta noite, por volta das dezoito horas e quarenta e cinco minutos, fez uma vídeo chamada para a senhora Débora de Almeida Dantas, com a qual mantém relação de amizade e compartilha o mesmo curso na faculdade, para falar sobre a aula da manhã de hoje, uma vez que a amiga faltou e o professor passou atividades para serem desenvolvidas em grupo e entregues até a próxima quarta-feira, dia treze de maio. Queria saber da amiga se desejava ficar no mesmo grupo que ela. Que não é incomum as duas se falarem, inclusive por meio de vídeo chamada, bem como realizarem atividades em grupo, o que ocorre desde o colegial, mas não é normal a amiga faltar às aulas sem avisá-la; que isso nunca aconteceu e essa foi a principal razão para procurar falar com ela. Que se lembrava de fato importante que pode também tê-la motivado a fazer a ligação, mas prefere falar adiante, pois quer primeiro narrar como foi a ligação. Que sua primeira tentativa de vídeo chamada resultou em vão, e que ela não sabe se foi porque o celular da amiga estava sem rede ou ela não pôde ou não quis atender, visto que não há como saber sobre isso. Diante da dúvida, não aguardou e enviou mensagem de texto na qual explicitou a necessidade de falar com ela sobre a última aula e o trabalho que precisava ser feito com urgência. Quase cinco minutos depois recebeu como resposta apenas um “ok”. A depoente mostrou ao delegado de plantão a tela do seu celular com a conversa aberta, para atestar o hiato temporal entre a mensagem enviada e a resposta recebida. Em seguida, a depoente narrou que, pouco depois, seu celular começou a vibrar, anunciando o recebimento de uma chamada de vídeo. Era sua amiga, Débora de Almeida Dantas. A depoente disse que a amiga estava sozinha no vídeo, na cozinha de casa, mas achou estranho porque a imagem se mexia um pouco, como se o celular estivesse apoiado em algum lugar que balançava ou alguém o estivesse segurando, enquanto gravava. Que aquilo era o tipo de coisa que sua amiga não costumava deixar acontecer, pois sempre usava o tripé e procurava um enquadramento que a valorizasse. A amiga, que sempre aparecia bem arrumada nas chamadas, mal havia se penteado. Aquilo não parecia coisa dela, ou coisa normal, pelo menos, mas, superado a impressão inicial, a depoente continuou a conversa. Disse que explicou sobre a atividade que deveria ser feita e como ela tinha pensado na distribuição do conteúdo, pois seriam quatro colegas na mesma equipe. Como notou apatia na sua amiga e vez outra um corte na fala, como um engasgar ou para engolir algo, ela perguntou se estava tudo bem, ao que ouviu como resposta que sim, e justificou que estava apressada porque ela e Félix Roberto estavam conversando sobre algumas coisas que precisavam em casa. A depoente disse que ao ouvir aquilo, cismou que houvesse algo de errado, pois conhecia a amiga há muitos anos e acompanhou o namoro dela com o atual marido desde o início. Sabia o suficiente para ter certeza que ela não gostava de chamá-lo Félix Roberto, a não ser que houvesse muita raiva ou alguma coisa muito séria. Que ao ouvir a amiga se referir ao marido pelo nome composto, foi tomada pela desconfiança que tinha algo de errado e precisou tirar suas dúvidas. Disse que tem ciência dos riscos aos quais as mulheres estão sujeitas e que o marido vinha tendo crises de ciúmes recentes depois que ela entrou para a faculdade. Que, em primeiro lugar, quis saber se o marido estava por perto, e, para tanto, falou apenas que mandava um abraço para ele, o que obteve como resposta um indiscreto “dou sim, ele está bem aqui”. Como não podia perguntar mais nada de forma direta e percebeu que a amiga estava querendo encerrar a ligação, que ela supôs por pressão do marido, a depoente disse que se lembrou de um código que as mulheres da sala tinham combinado para caso alguma estivesse em perigo, que chamaram de “o tchau do perigo”. A depoente disse que anunciou que ia finalizar a ligação e falou para a amiga não se esquecer do “nosso tchauzinho”. Que, para sua tristeza, foi exatamente o gesto que a amiga fez. Naquele instante, a depoente tirou todas as dúvidas e tem certeza que a amiga está em perigo, razão pela qual veio às pressas a esta delegacia prestar queixa e pedir providências imediatas. Insiste a depoente que o fato de sua amiga ter se referido ao marido pelo nome composto e feito o sinal de socorro no vídeo é um claro indício de que a vida dela corre perigo. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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domingo - 20/04/2025 - 08:36h

Depoimento – XII

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 19-1402/2022

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 23 DE MAIO DE 2022

COMUNICANTE: VICTOR RODRIGO DOS RAMOS

O senhor Victor Rodrigo dos Ramos, conhecido popularmente como Neto de dona Zefinha, trinta e oito anos, casado, trabalhador rural e autônomo, residente no Distrito Oiticica, pertencente a esta freguesia, compareceu a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos naquele distrito dos quais é testemunha. O depoente disse que conhece seu Nanô, como é chamado o senhor Juvenal Olympio de Vaz e Sousa, há mais de vinte anos, desde que começou a trabalhar na residência dele como um faz-tudo e sabe da fama que ele tem na Oiticica de ser considerado o pior velho do mundo. Disse que a fama é justa e, de fato, o velho não saía de casa para nada, nem se dava bem com a vizinhança ou com qualquer outro morador da região. Que as poucas vezes que pôde trocar algumas palavras com ele foram sobre o serviço a ser feito ou o pagamento, mas o trabalho na sua casa foi o suficiente para ficar sabendo que ele nunca se casou e gosta muito de anjos. Que começou a desconfiar desse gosto quando notou que havia para mais de cem peças de anjos na casa, entre quadros e estatuetas. Que há anjos de vários estilos diferentes, desde os gordinhos e bonitos até anjos feios, magrelos, mais puxados para o capeta do que para as coisas de Deus. Que dona Ritinha de Deoclécio falou para ele que se não fossem cinco bocas que tem para alimentar não pisava na casa daquele velho nem para fazer caridade. Ela morria de medo dos anjos mais esquisitos e, às vezes, deixava de limpá-los. Que não tirava a razão dela nem das outras pessoas que não gostam de passar em frente à casa de seu Nanô. Que entende até mesmo as Testemunhas de Jeová, que desistiram de tentar visitá-lo. Que seu Nanô é muito casmurro e ninguém gosta dele, por isso foi um espanto geral quando o povo viu, no Domingo de Ramos, que o velho havia decidido sair de casa e ir à igreja. Disse que ficou pasmo quando viu seu Nanô entrar na igreja com um ramo na mão e depois se dirigir à fila da procissão. Só acreditou no que estava vendo depois de ficar muito tempo olhando. Pensou que pudesse ser uma pessoa muito parecida com o velho ou estivesse vendo assombração. Que teve dúvidas e perguntou a seu Raimundinho, que estava ao seu lado, se era mesmo seu Nanô quem estava ali diante deles, para saber se não era mal-assombro. Que Raimundinho ficou com dúvidas, pois não via o velho há muito tempo, e disse que se havia uma pessoa que poderia confirmar ou não se aquele era o velho, essa pessoa era ele. Que, diante daquela incerteza, procurou dona Ritinha de Deoclécio, mas ela não estava na igreja, e só desfez a dúvida depois de muito olhar e perceber que ele falava com outras pessoas, dando as horas, e elas estavam lhe respondendo. Não era o único que estava vendo o velho e se convenceu de que não era assombração. Aquilo mexeu com sua cabeça e também com a das outras pessoas e quase ninguém acreditou que se tratava de seu Nanô, mas era ele mesmo. Disse que o novo comportamento se fez observar durante a semana inteira, pois na segunda-feira o velho foi ao comércio local e comprou todos os ovos de chocolate, coisa que os comerciantes acharam bom, pois os ovos estão muito caros neste ano e eles já contabilizavam o prejuízo. Que ele mesmo já havia anunciado a seus filhos não ter condições de dar ovos de páscoa para nenhum deles, por mais que isso fosse dolorido. Que a solução foi comprar chocolate e fazer os ovos em casa. Que assim foi feito e agradece muito a Deus por sua esposa ter tido a ideia, pois foi a salvação. Muitos pais ficaram surpresos e felizes quando viram que seu Nanô começou a distribuir os ovos que havia comprado à todas as crianças da Oiticica, sem fazer qualquer discriminação. Na porta da casa do velho, na tarde da quinta-feira santa, tinha mais menino em busca de ovos que na missa do lava-pés. Seus filhos ficaram tristes porque não puderam pegar nenhum ovo. Souberam tarde demais, mas ele se comprometeu a falar com seu Nanô e, caso ainda tivesse algum, iria pedir. Que a ação de seu Nanô foi tão comovente que muitos ficaram sentidos e a maioria simpatizou com a atitude. Um ou outra falou que era um milagre, afinal o acontecimento se dava na semana santa, no ano que Deus já havia acabado com a pandemia e estava de bem com o povomandando chuvas ao sertão. Que essas não foram as únicas conversas que ouviu. Também soube de pessoas dizendo que era psicológico, quando o homem está diante da morte fica com a consciência mais pesada, ocasionando mudanças no fim da vida. Dona Ritinha de Deoclécio falou a ele que aquilo só podia ser fruto de uma paixão escondida. Ouviu também o boato que Zé de Luzia, o vereador local, havia falado com o prefeito para fazer uma homenagem a seu Nanô, que tanto estava fazendo pelas crianças da Oiticica num ano tão difícil. Que soube de todo esse rebuliço e não sabia explicar o que realmente levou seu Nanô a fazer o que fez, mas começou a desconfiar, no domingo de páscoa, quando as crianças mais novas começaram a morrer. A coisa ficou feia com os pais desesperados, sem saber o que fazer, colocando a culpa numa nova pandemia. Que já haviam morrido oito crianças. Que tudo piorou e começou a fugir do controle quando alguém divulgou no grupo do WhatsApp que o médico legista diagnosticou que as crianças morreram por infecção ou, mais grave, por envenenamento. Assim que isso começou a ser divulgado, as pessoas suspeitaram logo de seu Nanô e correram à casa dele, para atear fogo com o velho dentro. Que isso só não aconteceu porque a guarda local acalmou a população. Que o depoente foi um dos primeiros a chegar ao local e chamou pelo suspeito, mas nada ouviu em resposta, e repetiu várias vezes, com batidas fortes na porta e na janela lateral. Que, incentivado por populares e pela guarda municipal, adentrou o recinto pela janela lateral, e, por conta disso, foi ele quem encontrou seu Nanô morto, com o seguinte bilhete: “não quis chegar lá sozinho, por isso levei alguns anjinhos comigo”. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

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Depoimento – XI

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 20-1402/2022

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 31 DE MAIO DE 2022

COMUNICANTE: MANOEL CARLOS BARRETO

O senhor Manoel Carlos Barreto, mais conhecido como seu Carlos, setenta e dois anos, casado, técnico em construção de estradas, aposentado, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos nesta cidade dos quais é testemunha. O depoente disse que estava no dia 18 de maio, às dezenove horas, na Padaria do Oscar, como é de costume há mais de dez anos, para tomar café com seus amigos, e foi nessa ocasião que se deu o fato ocorrido. Estava na companhia de José Francisco Santos e Silva, mais conhecido como Birita, e Roberto Maria da Conceição Almeida, mais conhecido como Fidalgo, além de outros populares que frequentam o lugar regularmente. De duas a três vezes por semana, os três se encontram na padaria para tomar café, comer tapioca com queijo e jogar conversa fora. Disse que um desses encontros tem que ser na quarta-feira, quando tem sorteio da Mega sena, para que Fidalgo possa conferir seu bilhete. Indagado quanto a essa peculiaridade, o depoente disse que os três se conhecem da igreja, há muitos anos, e lá descobriu que todos eram viciados, cada um do seu jeito. Que velho é assim mesmo, cheio de mania. Tanto ele quanto seus amigos são assim, não tem jeito. Advertido que não era de bom tom falar dessa forma sobre apessoas idosas, disse que não queria ofender ninguém e se referia só a ele e seus amigos. Para esclarecer o que queria dizer, declarou que Birita é viciado em placas de trânsito e tem essa mania desde que trabalhou no DNIT. Teve uma época que ele tinha mais de cinco mil placas guardadas em casa, e só se desfez delas porque a mulher ameaçou largá-lo. Apesar de melhor, tem dia que fica sofrendo, com saudades das placas. Que seu problema é com cachaça e esse vício trouxe muitos aborrecimentos e o deixou com um problema no fígado e um par de chifres. Não fosse o AA, nem sabe onde estaria hoje. Fidalgo tem problemas com jogo, qualquer tipo de jogo. O que ganhou com jogo, e nunca foi muito, jogou de volta e perdeu. Explicou que não se deve fazer isso, jogar de volta o dinheiro ganho com jogo, pois dinheiro do jogo quer ficar no jogo. Solicitado a não fugir dos fatos, o depoente retomou a narrativa e disse que os três são velhos cheios de manias, e Fidalgo tava com o bilhete da Mega sena, conferindo o sorteio. Já tinha acertado três números e esperava o quarto. Que deu sorte e fez logo promessa a Nossa Senhora. Disse que Fidalgo é assim, se empolga rápido, e quem o conhece, não liga, mas tem gente que não sabe o que ele já passou. Ao sair o número sete, Fidalgo gritou de alegria, dizendo que a quina estava garantida. O pessoal da mesa já o conhece e entrou na brincadeira, foi a maior gritaria, era a primeira vez que ele acertava cinco números daquele bilhete. O depoente disse que a ansiedade do amigo era grande, só faltava o número treze, e todo mundo ficou torcendo para que saísse e número da sorte, e, de fato, saiu. Fidalgo estava com sorte. Que ele nem pensou direito e gritou “bingo!”. O depoente registra que achou engraçado, porque percebeu que Fidalgo estava tão fora de si que chegou a pensar que estava no bingo, mas nem deu tempo de brincar. Assim que Fidalgo gritou “bingo”, levou um sopapo e deu com a cara no chão. Alguém se atirou em cima dele e roubou o bilhete. Na teima, o ladrão deu uma pernada no velho que o deixou estatelado no chão. Indagado se a queixa é só pelo roubo ou agressão seguida de roubo, o depoente disse que não havia por parte de nenhum deles, até o momento em que foram conduzidos à delegacia, a intenção de prestar queixa. Disse que, como havia falado antes, Fidalgo teve problemas com jogo, mas largou. Largou o jogo e ficou com a mania. O bilhete que ele carregava no bolso tinha mais de dez anos, era só para ele sentir a emoção e se lembrar do tempo em que era viciado e não cair mais na tentação. Completou que não precisava dar queixa porque o bilhete não vale nada e o ladrão vai descobrir o erro, talvez depois de passar a semana pensando que está rico e fazendo planos. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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Depoimento – X

Por Ayala Gurgel

Imagem em estilo aquarela gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem em estilo aquarela gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 17-1402/2022

NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE AÇÃO DELITUOSA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 01 DE ABRIL DE 2022

COMUNICANTE: ALICE DIONÍSIO NEVES FONTES

A jovem Alice Dionísio Neves Fontes, vinte e seis anos, solteira, fonoaudióloga, funcionária da Clínica Ouvindo Melhor, residente nesta freguesia, compareceu de livre e espontânea vontade a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, notícia da qual diz ter conhecimento envolvendo a clínica na qual trabalha e alguns de seus clientes. A depoente disse que trabalha na referida clínica desde que estava no último ano da faculdade, ainda como estagiária, e sempre viu o lugar como um espaço acolhedor, familiar e que traz esperanças às pessoas com problemas auditivos, a maioria formada por pacientes adultos ou idosos, com poder aquisitivo em torno de cinco salários mínimos. Que sua vocação para trabalhar com a reabilitação da escuta vem desde a infância, quando passou a conviver com a avó, uma senhora surda, após a separação dos pais. Convivência essa fundamental para aprender a respeitar e procurar entender a pessoa com limitação auditiva, em especial a pessoa idosa. Em função disso, vê, até hoje, em cada paciente que atende a figura da avó e Se lembra a gratidão que tem para com ela, já morta. Que tem sido assim e os pacientes gostam muito da forma como são atendidos por ela, o que tem lhe projetado destaque na empresa e contribuído para que as comissões com vendas de aparelhos sejam satisfatórias. Que nunca induz nenhum paciente a comprar o aparelho auditivo, mas a maioria compra, pois sente a diferença na qualidade de vida quando passa a ouvir melhor. Que tem visto o impacto que o uso frequente do aparelho auditivo causa na vida das pessoas e, justamente por isso, procura indicar somente o que há de melhor para garantir que o paciente não apenas passe a escutar bem, como inicie o processo de recuperação da audição prejudicada. A autonomia auditiva é um aspecto da saúde para o qual a depoente se disse muito sensível e sua vida não faz sentido se não for para ajudar as pessoas que precisam e estão em busca desse bem-estar. Que, em virtude do seu empenho, o gerente da sua unidade clínica a convidou para fazer um workshop, com tudo pago pela empresa que confecciona a principal marca de aparelhos auditivos usada na clínica. Que participou do workshop e recebeu treinamento sobre o produto e suporte técnico necessário, de onde saiu com a chance de se tornar embaixadora da marca na cidade. Informou que a clínica opera atualmente com duas marcas de aparelhos, ambas do mesmo fabricante, ofertadas de acordo com o poder aquisitivo dos pacientes, sendo a marca Alto e Bom Som mais popular e Puro Som mais elitizada. Que é sobre a última que deseja relatar. A depoente disse que depois daquele workshop passou a ter acesso tanto ao sistema de monitoramento à distância do uso dos aparelhos quanto às tabelas de vendas e parcerias da marca. Que esse acesso é importante caso exista a necessidade de atender a algum paciente remotamente ou precise fazer ajustes nos aparelhos. Que passou a usar o sistema com frequência porque alguns pacientes começaram a relatar desconforto auditivo, em virtude de zumbidos. Que sempre colocou a necessidade dos pacientes em primeiro lugar e ficou incomodada com aquilo, mas não conseguiu ver razões objetivas para a reclamação, uma vez que os aparelhos estavam calibrados na frequência programada para cada paciente. Que às vezes isso é normal, uma vez que parte da audição é subjetiva e o processo de adaptação ao aparelho demanda tempo, de modo que algumas pessoas se adaptam mais rápido que outras. Em razão da informação relatada pelos pacientes, ofereceu respostas protocolares pedindo para aguardarem mais tempo, até que estivessem adaptados. Contudo, em virtude do seu compromisso com o bem-estar dos pacientes, decidiu testar um aparelho programado para o seu perfil auditivo e pôde confirmar a queixa. Que havia um ruído quase imperceptível, mas podia se tornar incômodo. Antes de abrir uma reclamação junto à empresa, decidiu entrar no sistema para averiguar a possibilidade de encontrar algo a respeito no FAQ e fazer os ajustes. Que passou várias horas do seu tempo livre fuçando o sistema e procurando entender as tabelas e frequências de som que são usadas, inclusive para o monitoramento à distância. Que foi durante a investigação que notou o aumento de vendas dos produtos das empresas parceiras coincidindo com o aumento da venda e instalação dos aparelhos. Que achou a coincidência um pouco esquisita, em especial por aparecer nos gráficos da empresa, como se alguém quisesse atrelar o uso dos aparelhos ao aumento de consumo de produtos nada associados. Pensou que nada daquilo fazia sentido e não era do seu interesse, uma vez que sua única preocupação era com os ruídos que incomodavam os usuários. Que se debruçou sobre a logística do sistema e funcionamento dos aparelhos até que percebeu a emissão de sons em frequências que não são perceptíveis pelo ouvido humano, mas podem atingir o pavilhão auditivo. Tais frequências eram emitidas sem o controle do operador do sistema, o que significa que não elas tinham nada a ver com ajustes ou reparos solicitados. Pensou que pudesse ser alguma ferramenta do próprio sistema para monitorar o aparelho e sua carga ou sua capacidade de resposta aos estímulos sonoros externos. Que, em virtude de sua curiosidade, decidiu copiar as frequências e traduzi-las de forma triangulada em frequências audíveis que façam sentido ao ouvido humano. Que, para a sua surpresa, conseguiu decifrar as frequências copiadas e notou que eram mensagens enviadas aos usuários de aparelhos auditivos sugerindo que realizassem compras nas marcas parceiras. Que não sabe explicar como isso funciona, mas os gráficos que ela observou mostram que as vendas das marcas indicadas aumentaram à medida que o paciente se tornava usuário do aparelho auditivo. Que não sabe quais outras mensagens foram passadas, mas tem o arquivo das que conseguiu decifrar. Perguntada se essa teoria fazia algum sentido ou não poderia ser classificada como mera conspiração, a depoente disse que não estudou nada sobre o assunto e a única prova que tinha para mostrar era o arquivo decifrado e o testemunho de que ela mesma ouviu os zumbidos reclamados, bem como que a ocorrência dos zumbidos coincide com a hora dos disparos dessas mensagens. Sobre a possibilidade de serem passadas outras mensagens igualmente perigosas, como indução ao suicídio ou do voto, a depoente disse que não sabe informar, pois tudo é muito novo para ela, mas não descarta a possibilidade, uma vez que a parte ativada do cérebro para compras pode ser acessada pelo sistema auditivo e é a mesma para as tomadas de decisões, como votar ou dobrar à esquerda no trânsito. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

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Depoimento – IX

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 18-1402/2022

NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE SUPOSTA AÇÃO DELITUOSA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 11 DE ABRIL DE 2022

COMUNICANTE: RAIMUNDO NONATO DE SOUZA

O senhor Raimundo Nonato de Sousa, cinquenta anos, casado, operador de empilhadeira, residente nesta freguesia, em pleno gozo da faculdade dos seus juízos, compareceu a esta delegacia para denunciar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos com sua pessoa que constituem agravo contra a honra de sua pessoa. O depoente disse que tem o hábito de sair todos os sábados à tarde para se encontrar com a amante, que mora no outro lado do Rio do Mangue e faz isso há mais de cinco anos. Indagado pelo delegado sobre a informação prestada há poucoconfirmou se tratar disso mesmo, de uma amante, e que a esposa e filhos sabem do seu relacionamento extraconjugal e aceitam. A amante também sabe da esposa, da qual foi manicure, e não há problemas entre elas. Que os únicos a se meterem em sua vida amorosa são dois vizinhos, com os quais não se dá bem, mesmo antes de ter arranjado a amante. O depoente atribuiu à inveja a causa da desavença entre ele e seus vizinhos, por ter trabalho fixo, ao passo que ninguém daquela família consegue passar mais de um ano no mesmo posto de trabalho. Que a existência da amante só aumentou a inveja, pois ela tem metade de sua idade e já desfilou como madrinha de bateria na escola de samba do bairro onde moram. Que as fofocas inventadas por seus vizinhos aumentaram, mas ele não se importou, nem mesmo as que o colocaram como corno da amante, sob a falsa alegação de que ela só quer ficar com ele por conta do dinheiro. Que sabe da fofoca não acredita nelaQue já perguntou à amante e ela jurou pela alma da própria mãe que nada disso é verdade. Que ninguém jura pela alma da mãe se estiver mentindo. Que não são essas histórias que o preocupam, bem como não é sobre elas que veio relatar, e sim sobre o ocorrido neste último sábado, dia 09, quando atravessava a ponte do trem para chegar ao outro lado do Rio. O depoente narrou que nos dias que vai se encontrar com a amante é de praxe tomar banho com óleos essenciais, fazer a barba, colocar roupa limpa, passar perfume e sair de casa depois das três horas da tarde, para não bater com o horário do trem. Disse que o risco de se encontrar com o trem no meio da ponte é a coisa que mais tem medo. Que não sabe nadar, caso precise um dia se jogar no rio. Que tem sonhos recorrentes com sua própria morte, sendo atropelado por um trem. Que só de pensar nisso, chega a lhe faltar o fôlego. Que, em virtude desse medo, toma todo o cuidado do mundo para atravessar a ponte e sempre tem ido no mesmo horário, quando tem certeza que não passa trem ou outro transporte ferroviário. A pedido, o depoente explicou que atravessar o rio pela ponte ferroviária é o caminho mais perigoso, mas os outros não são viáveis. Ou é a estrada, que fica longe da casa dele, transformando uma viagem de minutos em mais de hora, ou pagar para atravessar de canoa, o que acha caro. Que não tem tanto dinheiro para pagar duas corridas na canoa todos os sábados e que só faz isso se precisa levar a feira ou outra coisa para a amante. Que no dia em tela se arrumou como de costume, esperou a hora propícia, deu um beijo na esposa e saiu de casa. Como tem que passar na frente da casa dos seus desafetos, se preparou para ouvir as piadas de sempre e ouviu da velha cega a praga que naquele dia o trem iria pegá-lo. Ele não respondeu nada, mas se benzeu com o sinal da Santa Cruz e pediu proteção a São Cristóvão, protetor dos viajantes, pois não gosta de vacilar contra praga de cego. Em seguida, foi até a cabeceira da ponte, olhou para os lados, além de perguntar a algumas pessoas que costumam beber num bar que tem na beira do rio e pôde confirmar que o trem havia passado, no horário de sempre, e o próximo era o da volta, às sete da noite. Confirmada a informação que desejava, criou a coragem de sempre e saiu empurrando a bicicleta sobre a ponte. Que é preciso cautela para andar na ponte ferroviária, para não acontecer nenhum acidente. Que haviam outras pessoas passando por ele, nos dois sentidos, o que o deixou mais seguro para seguir em frente, sem pensar em mais nada, até que a desgraça começou. Que, ao passar da metade da ponte, ouviu ao longe um apito, como o de trem. Não pensou duas vezes, olhou para a frente e para as costas e não viu nada de trem, mas não ficou em paz, tranquilo, ao contrário, ficou com medo, àquela altura era o único ser vivo sobre a ponte. Decidiu que era bom apressar o passo e saiu empurrando a bicicleta, até que ouviu novamente o apito, dessa vez mais alto. Que não teve coragem de olhar para trás e confirmar o que eraseu coração estava para sair pela boca. Que apertou mais ainda o passo, não havia condições para voltar nem podia se jogar no rio. Além de não saber nadar, a maré estava baixa e havia muita lama. Só pensou que teria uma morte triste, esmagado pelo trem ou afundado na lama. Que, apesar das palpitações e do medo, arranjou forças e conseguiu empurrar a bicicleta, se aproximando cada vez mais da margem, quando poderia sair da ponte em segurança, e vivo. Pensou que pudesse ser um cargueiro atrasado ou fora de hora, pois não é incomum, embora o povo do bar saberia informar. Que não tinha o que fazer e todas as forças estavam voltadas para tentar escapar daquela situação com vida. Uma terceira vez ouviu o apito, mais alto, bastante perto, e o coração quase infartouNesse momento, ganhou coragem e decidiu se jogar no rio. Pelo trem não seria esmagado. De fato, declarou o depoente, com o apito mais perto, sentiu como se a locomotiva estivesse nas costas. Sentia os trilhos tremerem e o calor da morte fuçando sua nuca. Que não queria se virar para confirmar a morte em forma de ferro fundido, como acontecia nos seus pesadelos. Decidiu e se jogou no mangue com bicicleta e tudo. Que ao cair, não se afundou muito, estava próximo à margem e foi socorrido por dois catadores de caranguejo que estavam no local. Agradecido e todo enlameado olhou para cima para ver o trem que poderia ter lhe ceifado a vida, quando ficou sem condições de falar. Bem ali, em cima da ponte, sobre os trilhos que ele cruza todos os sábados para se encontrar com sua amante, estavam os dois netos da velha cega que lhe rogou as pragas com uma buzina de ar comprimido imitando o apito do trem. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

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domingo - 23/03/2025 - 12:50h

Depoimento – VIII

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa gerada com Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 09-6492/2020

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 21 DE JULHO DE 2020

COMUNICANTE: ELEANOR DAS DORES E SILVA

O senhor Eleanor das Dores e Silva, vulgo Nanô, sessenta e oito anos, casado, carroceiro licenciado, nascido e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia na companhia de advogado, devidamente identificado na forma da lei, para oferecer versão dos fatos, perante mim, escrivã de polícia, sobre ato que consta em inquérito investigativo. O depoente disse ter conhecimento da denúncia e dos fatos que foram trazidos a esta delegacia por meio da jovem Pâmela Chair da Costa Rodrigues e suas testemunhas e acha um absurdo o poder público, por meio desta delegacia de polícia, ser envolvido numa questão simplória como a apresentada. Declarou que, realmente, reside na mesma rua da reclamante há mais de cinquenta anos, antes mesmo da mãe dela nascer. Que a família dela é conhecida por ter muita gente feia e já saiu reportagem sobre isso. Que tem uma música de Falcão sobre gente feia que os ouvintes costumam dedicá-la a eles na rádio comunitária. Os que escaparam da feiura são bem poucos. Mas, assegurou o depoente perante esta delegacia, que sempre teve boa relação com os Costa Rodrigues e nunca antes fez qualquer ofensa nem brincadeira que pudesse ser mal interpretada. Que, na qualidade de homem casado e pai de família, sabe se comportar e respeitar os mandamentos da lei de Deus, em especial os que mandam não matar, não roubar e não desejar a mulher do próximo. Que é preciso respeitar o próximo e procura fazer isso. Que, no dia em questão, estava na rua da matriz conversando com sua madrinha, dona Titonha, sobre a morte de seu Guilhermino e como essa doença é uma praga infeliz. Que a morte de seu Guilhermino foi por covid, a quinta no bairro em que mora e tem certeza que não será a última, e, por conta disso, tem raiva das pessoas que não usam máscaras e não se protegem contra a doença. Que tem toda a certeza do mundo que Guilhermino só morreu porque o neto dele levou a doença pra dentro de casa, pois os jovens de hoje estão brincando com fogo e não respeitam os mais velhos. Solicitado para se ater aos fatos importantes para o inquérito, o depoente retomou dizendo que naquele dia falava sobre a morte de Guilhermino com dona Titonha e estava muito triste por ter que se despedir de mais um amigo, sem poder sepultá-lo com a dignidade que ele merecia. Naquela hora, viu que havia um grupo de jovens na praça, a poucos metros de onde estavam, e percebeu que estavam rindo, bebendo e furando a quarentena. Como percebeu que alguns estavam sem máscaras, começou a ficar incomodado com aquele comportamento e avisou a dona Titonha que iria lá para reclamar. Que dona Titonha se posicionou contra o que ela chamou de intromissão e até alertou que os jovens de hoje têm uma língua muito grande, e ele podia ouvir uma resposta que não iria gostar. Que não levou nada disso em consideração e apenas pensou na morte dos amigos e no sofrimento que todo mundo vem passando por conta da pandemia e como aumentaram os riscos por conta de pessoas que não se cuidam. Que ele mesmo tem muito medo de contrair a doença, de precisar ser entubado e morrer. Que tem mulher e filhos que dependem de seu trabalho como carroceiro, não tem aposentadoria e não pode morrer agora. Que, munido desse sentimento, decidiu ir até o grupo de jovens e pedir que colocassem a máscara e respeitassem a quarentena. Disse que se dirigiu ao grupo e manteve distância de dois metros, o suficiente para ser ouvido e seguro para não ser contaminado. Que, dessa distância, pediu ao grupo para que respeitassem a quarentena e os que estavam sem, colocar a máscara. Que nesse momento, a moça de nome Pâmela se virou para ele, tirou a máscara e perguntou se ele era da vigilância sanitária para querer obrigá-la a ter que usar máscara. O depoente disse que a reclamante estava, até aquele momento, com máscara e somente quando ela retirou, ele a reconheceu como sua vizinha e lhe pediu para colocar a máscara de volta. Que a jovem não atendeu o pedido e ainda respondeu que não tinha covid e ninguém iria obrigá-la a usar máscara. Que, diante disso, pensando nos amigos que já morreram, o sangue lhe subiu pela cabeça e falou a frase que se tornou objeto de denúncia, para a qual veio prestar seus esclarecimentos. Que na raiva, olhou para a reclamante e falou que no caso dela era melhor colocar a máscara, porque ninguém era obrigado a conviver com uma feiura tão medonha. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

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Depoimento – VII

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B.O: N° 08-6492/2020

NATUREZA: COMUNICAÇÃO DE ANIMAL DESAPARECIDO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE JUNHO DE 2020

COMUNICANTE: OLEGÁRIO DE MARIA ANUNCIADA

O senhor Olegário de Maria Anunciada, vulgo padre Olegário, cinquenta anos, celibatário, sacerdote, formado em filosofia e teologia, pároco e morador desta freguesia, compareceu a esta delegacia para comunicar o sumiço de animal equino de propriedade paroquial e solicitar toda a ajuda policial e civil possível para captura ou obtenção de informações sobre o seu paradeiro. O depoente, perante mim, escrivã de polícia, comunicou que se deslocou nesta quarta-feira passada ao sítio de nome Oiteiro, propriedade do popular conhecido como seu Malaquias, a pedido do mesmo, para averiguar fato estranho ou provável atuação do sobrenatural e dar bênção no local. Disse que tinha conhecimento das histórias que o povo conta sobre a existência de uma maldição no local e acrescentou que a ciência dessas histórias nunca foi motivo para dar ou tirar crédito delas. Como São Tomé, gosta de acreditar depois de provar; que é assim que a Igreja ensina e os tempos modernos exigem. Explicou que a história da maldição começou assim que o coronel Manoel Bento, depois de ter morado muitos anos naquele logradouro, decidiu deixar o sítio. Uma parte do povo conta que ele decidiu sair porque encontrou uma botija no lugar, visto ser essa a regra para quem arranca esse tipo de tesouro: não tapar o buraco, não dar as costas ao sair do lugar e nunca mais voltar. E, completou, se houver algum pedido por parte da alma que revelou a botija, a pessoa fica com a obrigação de cumprir essa parte do acordo. E, disse o depoente, como o coronel não cumpriu com a parte dele, a alma continua lá, perturbando quem põe os pés na casa grande. Indagado, o depoente disse que essas crendices não são de todo contrárias à fé e acha por bem manter a mente aberta, embora não conheça nenhuma pessoa que tenha enriquecido com botija. Que o próprio coronel Manoel Bento já era rico antes dessa história. Que se ele, o padre, fosse uma alma penada nunca escolheria um homem daquela espécie para dar coisa alguma. Que pensa assim, mas acredita que os planos de Deus são sempre um mistério. Interpelado pelo delegado sobre a relevância dessa história para os fatos, pediu que fosse ouvido e depois o agente da lei decidia sobre o que fazer com a história ouvida. O depoente concordou em ser mais objetivo, porém pediu que ficasse também registrada a outra versão, a do povo, que tem outra causa para a origem da maldição, dessa vez, ligada a dona Dotinha, mãe do coronel, e os horrores que ela infligiu aos escravos naquela casa. Disse que, pelo que ouviu o povo contar, foi uma escrava, que tinha sido ama de leite do coronel, que foi escorraçada da casa e jogada no pátio para ser açoitada até à morte; que foi ela que rogou as pragas e amaldiçoou a casa, e que, desde então, ninguém mais consegue viver em paz naquela residência. Que a alma da falecida começou a perturbar o coronel e por isso ele foi embora, para nunca mais voltar, e foi nesse estado de abandono, com a habitação caindo aos pedaços, que o novo proprietário, seu Malaquias, a adquiriu e começou a reformá-la. Que, tão logo começou a reforma, apareceram os problemas. O depoente soube, por meio de populares, que a casa, em suas palavras, “começou a cuspir barro nos moradores”. Que os peões contaram que quem se atrevia a dormir lá, acordava com a rede e a boca cheia de terra. Que era muito barro caindo do teto e das paredes sobre eles. Que ouviu de um peão que um deles, um rapaz muito corajoso, ficou acordado, armado de facão e revólver, para ver o que acontecia, e o que aconteceu foi que ele amanheceu cego, de tanto barro que levou nos olhos. Que não tem mais ninguém querendo trabalhar na reforma da casa, não importa o valor que ofereçam, e, por conta disso, seu Malaquias, corajoso do jeito que é, prometeu passar a noite na casa, nem que fosse sozinho; ele disse que se houvesse algum assombramento, botava pra correr; mas se fosse desse mundo, só um dos dois sairia vivo pra contar a história. Que o proprietário estava mesmo determinado a cumprir com a promessa, e por isso passou cedinho na igreja, confessou os pecados, encomendou o corpo e pediu ao padre para ir no outro dia, o mais cedo que pudesse, fazer a bênção na propriedade ou recolher seus restos mortais. Disse que, como o acesso ao local é difícil, não dá para chegar de carro nem de moto, pegou um cavalo de propriedade da paróquia e se dirigiu ao logradouro, na montaria, como os padres de antigamente. Tão logo chegou ao pátio da casa e passou pelo tronco onde a escrava foi brutalmente espancada até à morte, deu um pé de vento tão forte que o derrubou da montaria e caiu de cara no chão, sem conseguir ver mais nada, pois havia terra saindo de tudo quanto era lugar em sua direção. Não pensou duas vezes e se apegou ao rosário pedindo a proteção da Virgem Maria. Que não sabe onde foi parar o breviário nem o frasco com a água benta, menos ainda a sua montaria. Só deu tempo de se benzer e sair correndo dali, para se esconder atrás de uma moita. Que não sabe notícias de seu Malaquias nem do animal, mas deseja muito saber como ele se encontra e recuperar o cavalo, e espera que os dois estejam bem. Perguntado sobre o que ele acha da maldição, disse que prefere não comentar mais sobre o assunto. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

Leia tambémDepoimento II (09/02/2025)

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Leia tambémDepoimento V (02/03/2025)

Leia também: Depoimento VI (09/03/2025)

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domingo - 09/03/2025 - 09:22h

Depoimento – VI

Por Ayala Gurgel

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 06-6492/2020

NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE AÇÃO CRIMINOSA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE ABRIL DE 2020

COMUNICANTE: JOSÉ JOAQUIM EFRAIM DA SILVA BRITO

O senhor de nome José Joaquim Efraim da Silva Brito, vulgo Zé Brito, vinte e nove anos, divorciado, porteiro, residente nesta freguesia, compareceu de livre e espontânea vontade a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, notícia da qual diz ter conhecimento sobre a verdadeira razão da morte do senhor José de Ribamar da Anunciação, porteiro falecido e ex-ocupante do cargo do qual o depoente diz ter se desligado na manhã de hoje. O depoente disse que assumiu a função de porteiro no Residencial Portal do Paraíso há dois dias e na noite de ontem teve seu primeiro plantão noturno. Que assumiu essa vaga após a morte do referido porteiro, que o antecedeu e foi encontrado morto no local de trabalho, ao amanhecer do dia. Que a causa da morte foi dada como natural, mas ele tem informações fidedignas a repassar que o levam a crer que a morte do colega de profissão não foi de causa natural. Disse que há nas filmagens armazenadas do condomínio em questão as provas que a delegacia precisa e pede que sejam solicitadas ao síndico com a máxima urgência. Que este tem o hábito de apagar as filmagens pela manhã cedo, dizendo que não gosta de guardar imagens da noite, a não ser que haja algum crime ou ato obsceno. Que é sobre as filmagens que pretende falar, mas que para isso precisa explicar como é o sistema de vigilância eletrônica do condomínio. Que há câmeras espalhadas por quase todos os lugares, da entrada do prédio aos corredores, passando pelos elevadores, e que só não há câmeras nos banheiros, dentro da guarita, dos apartamentos e nas escadas que ligam um piso ao outro. Que os corredores são bastante longos. Que há trinta unidades por andar, quinze de cada lado. O depoente fez questão para que registrasse que, apesar de todo esse sistema de monitoramento, a iluminação em alguns corredores é precária, pois muitas lâmpadas foram desligadas para economizar energia e em alguns pontos o sensor de presença não funciona, de modo que as câmeras nem sempre capturam uma boa imagem do que aconteceu. Dito isso e verificado que foi anotado por mim em seu depoimento, o depoente continuou e disse que na noite em que estava na guarita tinha como olhar pelo monitor as imagens produzidas pelas câmeras e numa delas viu passar um vulto, mas não se preocupou, pois na hora pensou que pudesse ser apenas uma criança correndo ou alguém andando rápido. Que viu novamente o vulto, e desta vez estava parado no final do corredor, no sexto andar, que é mal iluminado, e lhe chamou a atenção o fato de o vulto estar de camisola, dessas que só velho ainda usa, e parado. Disse que pensou ser alguma senhora de idade que ficou presa fora do apartamento, ou pior, sonâmbula. Que, com o intuito de ajudar e interfonar para o apartamento correto, selecionou a câmera que capturava a imagem e ficou de olho, tentando identificar ou entender o que se passava, mas não havia como dar mais zoom e a iluminação não era boa. Para sua surpresa, num piscar de olhos, o vulto sumiu. Que imaginou na hora que pudesse ter sido um delay da imagem. Que a câmera tivesse parado de funcionar e quando voltou ao normal a pessoa já tivesse conseguido entrar no apartamento. Por conta disso, relaxou, mas não demorou, o vulto tornou a aparecer, na mesma posição, no corredor do andar de baixo, que também é mal iluminado. Que ficou pensativo e focado naquilo, até porque não havia outra coisa com a qual se preocupar, a noite estava calma e chuvosa. Que, com a câmera fixa, percebeu que o vulto se movimentava vagarosamente, como se não mexesse os pés, em direção às escadas, mas sempre que acontecia alguma interferência estática, a imagem borrava e o vulto sumia, até que viu, numa imagem melhor, que o vulto andava pelo corredor do terceiro andar. Ao ser indagado, disse que não tinha como saber se era homem ou mulher, mas como estava de camisola e touca, concluiu que se tratava de uma senhora. Que percebeu um padrão nas imagens: que o vulto aparecia, andava lentamente em direção às escadas, acontecia um pouco de estática, sumia e reaparecia no andar de baixo. Sempre aparecia próximo às escadas, na ponta do corredor, quando começava a atravessar o corredor. E foi assim até chegar ao primeiro andar. Como nas escadas não há câmeras, ele deixou as do primeiro andar e as do térreo, que dão para as saídas das escadas, fixadas no monitor. Desta vez não havia como sumir, pois o vulto voltava para o corredor de onde tinha saído ou apareceria no térreo, pelas escadas. Que isso demorou de dez a quinze minutos e não apareceu nada. Que desta vez não teve estática e as imagens estavam boas, e não havia como se esconder, a pessoa só podia estar parada nas escadas, mas fazendo o quê, se perguntava. Disse que estava decidido e não tiraria os olhos do monitor enquanto o vulto não aparecesse novamente, nem que passasse a noite inteira olhando parra as telas. Que assim estava, quando sentiu a presença de alguma coisa. O ar ficou mais frio e ouviu uma respiração pesada em suas costas. Ficou com muito medo de se virar, pois tinha certeza que era o vulto atrás dele. O depoente disse que, congelado de medo, começou a rezar um Pai Nosso e pediu a proteção da Virgem Maria. Disse que tinha certeza que aquela seria sua última noite na terra. Aquele vulto estava ali para matá-lo. Estava só esperando ele se virar. Que aquilo demorou mais de meia hora, até que um trovão estourou nos céus e ele pensou que era chegada a hora. Quepara a sua sorte, não foi o que aconteceu. Quando o som dissipou, não havia mais nada, não sentia nenhuma presença, mesmo assim, não olhou para trás em nenhum momento. Na manhã seguinte, mal esperou o síndico aparecer, pediu demissão e veio direto a esta delegacia. Por fim, o depoente disse que tem certeza sobre a forma da morte do porteiro que o antecedeu, que foi a coragem dele de se virar para trás que o matou. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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domingo - 09/03/2025 - 04:10h

Os habitantes do BCS

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign

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Duvidar, não duvido. Pois decerto existe no Brasil e no mundo quem desconheça o significado da nossa familiar sigla BCS, tão notória, por exemplo, quanto SUS, FBI, CIA, ONU ou a temida e extinta KGB, agência de espionagem e polícia secreta da igualmente morta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Alguém ariscará dizer, entre outros equívocos, que se trata de Banco Central da Suíça. É possível, portanto, que existam indivíduos neste planeta que nunca tenham ouvido falar no Blog Carlos Santos (BCS). Além disso, alguns terráqueos não têm conhecimento (ignorância não menos grave) do rol de colaboradores do referido Blog.

Todo domingo, desde tempos imemoriais, cabeças singulares da intelectualidade mossoroense e de além fronteiras do RN exibem as suas tintas neste ilustrado espaço de opinião, arte e cultura. Temos aqueles que marcam presença de modo bissexto, esporádico, contudo há um punhado de articulistas que muito raramente deixam uma lacuna nestas manhãs domingueiras que contam ainda com o brilho e categoria de um sem-número de leitores e comentaristas de alto nível.

Os habitantes do BCS, tanto os cronistas, os poetas, os ficcionistas e, repito, o precioso rol de leitores e comentaristas, mantêm uma sintonia e fidelidade admiráveis. Encontramos neste gueto das palavras várias cucas talentosas, beletristas de responsa. Ninguém pode se queixar da produção intelectual que os homens de engenho deitam dominicalmente entre as quatro linhas desta vitrine da prosa, do verso e, como não poderia deixar de ser, com informes do atacado e do varejo da política norte-rio-grandense, nacional e mundial. Aqui, no tocante à informação e à cultura como um todo, os leitores dispõem de grande sortimento de ideias e debates.

Sendo um pouco indiscreto, permito-me citar os nomes de expressivos escribas que têm concorrido para o brilho e sucesso do BCS. Falo, entre outros, de malhadores de teclados como o próprio Carlos Santos, Marcelo Alves Dias de Souza, Honório de Medeiros, David Leite, William Robson, Marcos Pinto, Odemirton Filho, Bruno Ernesto, François Silvestre, Marcos Araújo e, mais recentemente, surge para enriquecer o escrete um tal de Ayala Gurgel. Este último, a meu ver, representa uma das mentes mais engenhosas e prolíferas da nova ficção norte-rio-grandense.

Quem quiser que diga que estou puxando o saco do BCS e dos seus habitantes dominicais. Não tem problema. O aplauso e a vaia são livres. Vivemos (ao menos até o momento) num país democrático. Sim. A democracia esteve seriamente ameaçada no governo anterior, todavia não sucumbimos ao golpismo.

Creio que em breve o “mito” (o espírito de porco, a degradante alma sebosa que infectou o Brasil, fez pouco-caso dos mortos pela pandemia e zombou de famílias enlutadas) está prestes a conhecer as acomodações de Bangu 8 ou da Papuda. Deixem estar.

Voltando à audiência e relevância do Blog, penso que não existem por aí muitos espaços assim, com tantos e tão bons poetas e prosadores. É um ambiente digital dos mais procurados pelo público leitor. Enfim, agora parodiando aquele frevo do Caetano Veloso, digo que só não vai atrás do BCS quem já morreu.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 02/03/2025 - 06:42h

Depoimento – V

Por Ayala Gurgel

Imagem gerada com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 05-6492/2020

NATUREZA: AVERIGUAÇÃO DE FATO ATÍPICO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 03 DE MARÇO DE 2020

COMUNICANTE: VALENTINA CUNHA E AZEVEDO

A menor de nome Valentina Cunha e Azevedo, treze anos, solteira, estudante, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia na companhia de sua progenitora e mãe, a senhora Margarida de Almeida Cunha, e da senhora Ruth de Sá, na qualidade de representante do Conselho Municipal da Infância e Adolescência, para fornecer sua versão sobre a investigação em aberto, a pedido do sargento Edson Nogueira, do Primeiro Batalhão do Corpo de Bombeiros desta cidade. A menor, perante mim, escrivã de polícia, e devidos responsáveis legais, disse que tudo começou na fila da comunhão quando conversava com uma amiga, outra menor, que não será aqui identificada, sobre a hóstia ser o corpo de Cristo ou se tratar apenas de uma lenda católica. Que, em virtude dessa conversa, sem qualquer intenção planejada anteriormente ou em combinado com a amiga, ela decidiu fingir que havia colocado a hóstia na boca, mas, na verdade, manteve-a escondida na mão e levou-a para casa, onde colocou-a dentro de uma caixa de acrílico, após retirar suas bijuterias, e manteve-a fechada, desde então. Que não sabia o que fazer depois que fez isso, pois não havia pensado em nada, mas decidiu deixar a hóstia guardada para ver o que acontecia. Que não lembra quantos, mas em poucos dias começou a falar para a hóstia sobre alguns dos seus sentimentos, desejos e problemas que tinha em casa ou com suas amigas. Que não ficou apenas nisso e começou a tratar a hóstia como prisioneira e passou também a exigir que lhe fizesse favores, em troca de liberdade. Que fazia ameaças como “se não me atender, vou te dar ao gato” ou “vou te vender na internet para os satanistas”, e pedia favores como “que meus pais me deixem sair com as minhas amigas e permitam que eu possa voltar tarde da noite” ou “que meus pais aumentem minha mesada”. A menor disse que não faz ideia do porquê estava fazendo essas coisas, mas se sentia bem ao fazê-las, além disso, coincidência ou não, seus desejos começaram a ser realizados. Interpelada por sua mãe, neste momento, a menor concordou em acrescentar à sua narrativa que, paralelo a isso, mudou de comportamento e adotou a moda gótica, o que desagradou a seus pais, mas não se importou. Que apenas procurou continuar com sua vida, pois estava feliz e conseguindo tudo que queria, graças à sua prisioneira. Que um mês depois, com a crítica dos pais, especialmente do seu pai, contra seu gosto e novos hábitos, a depoente começou a ficar chateada com a hóstia e exigiu dela que fizesse com que os pais se separassem, do contrário, a jogaria na privada e daria descarga. Que não sabe explicar, mas na semana seguinte, seus pais começaram a falar em divórcio. [mãe tomou a fala, interrompendo a menor, e disse que isso era verdade; que ela e o marido nunca haviam tido uma crise, até então, e naquela semana, começaram a falar em divórcio. A mãe foi instruída a não interromper a fala da menor e que poderia ser ouvida, posteriormente, caso tivesse algo a acrescentar]. A menor foi convidada a continuar e disse que começou a se sentir poderosa e feliz com tudo que estava conseguindo e, por isso, decidiu falar com a melhor amiga sobre seu segredo. Indagada, respondeu afirmativo à pergunta se a amiga à qual se refere era a mesma pessoa com a qual conversou na fila da comunhão. Disse que não havia revelado a ninguém sobre ter guardado a hóstia e as exigências que vinha fazendo, e já haviam passado dois meses e dez dias desde o início dos eventos. Que foi mais motivada por orgulho e vaidade que decidiu contar tudo à amiga. Disse que a amiga ficou em choque com a novidade e quis ver a hóstia, quem ela chamava de “minha prisioneira”. As duas concordaram em vê-la e isso seria feito no mesmo dia, após as aulas, quando deveriam se dirigir à residência da menor, o que veio a ocorrer. Ao chegarem ao local, a mãe era a única pessoa que se encontrava em casa, de modo que, além da outra menor, é a única que pode dar testemunho do acontecido. Disse que, ao abrir a porta do seu quarto, não conseguiu entrar, nem ela nem ninguém, pois exalou um odor horrível de podridão que tomou conta da casa, provocando ânsia de vômito nas três. Que até o gato da família, que se encontrava no sofá, fugiu ao sentir o fedor. Que a mãe correu em direção às duas para tomar ciência do que estava acontecendo, mas nenhuma delas teve estômago para continuar dentro de casa e enfrentar a podridão que exalava do quarto. Que acionaram o corpo de bombeiros, narraram o odor e pediram ajuda para saber do que se tratava, no que foram atendidas. A menor disse que os bombeiros entraram no quarto e encontraram um pedaço de carne em putrefação dentro de uma caixa e suspeitaram se tratar de tecido humano, razão pela qual solicitaram explicações e as envolvidas foram encaminhadas à delegacia para que prestassem esclarecimentos. A menor relatou que a caixa na qual foram encontrados os restos de tecido humano é a mesma na qual ela mantinha a hóstia prisioneira e nunca a abriu desde que a colocou lá dentro. Que não sabe explicar o que aconteceu. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

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domingo - 23/02/2025 - 06:38h

Depoimento – IV

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com uso da Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso da Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 04-7871/2019

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 17 DE DEZEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: MARCELO DE LUNA MATOS

O senhor Marcelo de Luna Matos, mais conhecido pela alcunha cabo Matoso, trinta e dois anos, casado, técnico de segurança, prestador de serviço na Escola Superior de Tugúrio e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia, na qualidade de testemunha, e narrou perante mim, escrivã de polícia, que, apesar de já ter visto muita coisa ruim na vida, ainda se encontra apavorado com a cena que presenciou na manhã de hoje. Disse que, como de costume, foi a primeira pessoa a comparecer no setor onde trabalha, quando o sol mal havia quebrado a barra; que foi ele quem acionou a polícia e guardou o local para que ninguém contaminasse a cena do crime. Sobre a ordem dos acontecimentos, declarou que ao chegar ao trabalho percebeu gatos no local, o que não é incomum na área, mas não é normal naquele setor em específico, uma vez que ali não costuma haver comida para eles. Quando viu os gatos, pensou que fosse bicho morto ou resto de comida que alguém havia esquecido; e que, ao se aproximar do local viu, pela parede de vidro, a cena que fez seu estômago revirar e ter ânsia de vômito; mas fechou a boca e saiu às pressas. Que voltou pouco depois, desta vez mais bem preparado, para verificar o que havia ocorrido, acionar a polícia e avisar aos outros setores. Que, ao retornar ao local, confirmou o que temia, se tratava de uma cena de crime, e concluiu isso porque havia muito sangue e os corpos estavam dilacerados. Disse que conhecia cada funcionário daquele setor e os tinha em consideração, que sempre se falavam e se davam muito bem, e acrescentou que não entende como Deus pode deixar que uma maldade como essa aconteça no mundo. [O depoente me pediu um tempo para se recompor e diante de flagrante necessidade, o depoimento foi interrompido por trinta minutos. Findo esse lapso temporal, o depoente apresentou condições psicológicas ainda abaladas para continuar e solicitou outra pausa, dessa vez com tempo necessário para fazer uma oração e pedir que Deus nos protegesse de coisa parecida. O delegado insistiu na urgência da coleta de informações e o depoente voltou a fornecer detalhes sobre os fatos]. Retomando, disse que os corpos estavam todos com fraturas e vísceras expostas, havia muito sangue no recinto e o cheiro de morte misturado ao de café era forte. Que a sala estava fechada por dentro e a assassina se encontrava ali, à vista, parada, no centro da sala, impiedosa e fria. Que não havia outra coisa a ser feita a não ser se benzer, chamar a polícia e torcer para que a assassina ficasse onde estava, quieta, até a polícia chegar. Ao ser questionado sobre como conseguiu identificar a assassina na cena do crime, o depoente se levantou da cadeira e disse que repetiria a mesma história que contou aos policiais quando chegaram à cena e que, por mais absurdo que possa parecer, é a mais pura verdade. Convidado e se sentar, aceitou e passou a narrar o que viuDisse que conhece os funcionários daquele setor há muitos anos e os três gostam muito de café, mas tinham ficado sem cafeteira. anterior queimou e estavam providenciando uma vaquinha para outra. Destacou que sabe disso porque conversou com eles mais de uma vez sobre o assunto, tendo inclusive visto alguns preços com eles na internet. Que a compra só não foi em frente porque o novo chefe do setor, que assumiu há alguns meses, chegou com uma cafeteira nova e a deu de presente ao grupo. Acrescentou que a alegria da equipe foi muita, mas durou pouco, uma vez que ninguém esperava o pior, que a cafeteira estivesse endemoniada. Neste momento, o delegado interrompeu e solicitou ao depoente para repetir a palavra usada e, se possível, explicar de forma clara o seu significado, ao que o depoente atendeu e disse se tratar de pessoa ou objeto que está sob atuação de um demônio, o mesmo que endemoniado. Perguntado sobre o uso de fármacos controlados ou drogas, o depoente negou fazer uso e enfatizou que, por mais que o delegado não acreditasse na sua história, a verdade é que a cafeteira estava possuída por um demônio. Que tem certeza porque viu acontecer. Que, de início, ouviu histórias de vozes estranhas saindo da cafeteira quando a água começava a ferver e pensou se tratar de brincadeira, mas foi chamado para ouvi-las e pôde confirmar com seus próprios ouvidos, pelo menos uma vez. Que recomendou a equipe se desfazer do objeto amaldiçoado, pois não era de Deus, mas nenhum teve coragem, visto que não queriam ficar sem café. Que soube de outra ocasião, quando um deles foi olhar o café e a água espirrou, chegando a queimá-lo. Que, mais de uma vez, quando a cafeteira era ligada, a energia do setor começava a oscilar, e isso acontecia só naquela sala. Soube de uma vez que todos os computadores do setor ficaram loucos, tocando músicas esquisitas, dessas que o demônio canta, quando a cafeteira foi ligada, mas os funcionários atribuíram a um vírus ou coisa parecida e o resto tinha sido mera coincidência. Que, para ele, a gota d’água foi quando um dos funcionários foi passar um café e o computador ligou sozinho e na tela apareceu a cara do demônio, rindo, mas eles atribuíram novamente a um vírus. Que estava convicto que não se tratava de vírus, mas do demônio, pois nenhum vírus de computador faz aquilo. Por fim, disse que quando viu a cena, os três mortos e a cafeteira no centro da sala, não teve dúvidas. Tem certeza que foi ela que os matou. O depoente recusou ser ouvido por médico especialista e fez questão de que seu depoimento fosse mantido do jeito que foi colhido. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

Leia tambémDepoimento II (09/02/2025)

Leia também: Depoimento III (16/02/2025)

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domingo - 16/02/2025 - 05:24h

Depoimento – III

Por Ayala Gurgel

Imagem gerada pela Inteligência Artificial do Grok do X para o BCS

Imagem gerada por Inteligência Artificial do Grok para o BCS

B.O: N° 03-7871/2019

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 03 DE DEZEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: IVALNETE MARIA APARECIDA IMACULADA E SILVA

A senhora Ivalnete Maria Aparecida Imaculada e Silva, vulgo Neta, quarenta anos, casada, ensino médio completo, do lar, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia distrital em dia e hora agendados, na companhia de duas testemunhas e sua advogada, todas devidamente identificadas na forma da lei. A depoente narrou, perante mim, escrivã de polícia, que se encontrava profundamente abalada com o ocorrido e estranhava as acusações que pesam contra sua pessoa. Que não passa de um mal-entendido; que nunca foi sua intenção falar mal de ninguém, quanto mais de um defunto, muito menos ainda em frente à família enlutada. Que a mãe lhe ensinou que falar mal dos mortos pode trazer bastante azar e nunca faria uma coisa dessa. Solicitada para se ater aos fatos, disse que tem ciência da acusação aberta contra ela e que tudo não passa de mal-entendido. Quando indagada, assumiu que esteve no local da ocorrência e permaneceu ali por cerca de meia hora. Que o local a que se refere é a sala cinco da funerária central desta cidade e que ali ocorreu o episódio motivo desta oitiva. Que esteve a convite da família de um amigo de infância que havia morrido recentemente e há muito não se viam. Que foi justamente para o velório dele. Que convidou para irem ao funeral consigo duas pessoas, amigas de vizinhança, visto que o marido da depoente se recusou a acompanhá-la. Indagada, disse que as amigas às quais se refere são as mesmas que estão presentes como testemunhas nesta oitiva. Que tomou a atitude descrita para não correr o risco de ficar sozinha, pois não conhecia ninguém da família do morto além da amiga que a convidou. Que chegaram ao local por volta das oito horas da noite e não pretendiam demorar. Que nenhuma delas gosta de ficar em local onde há gente morta por muito tempo, especialmente à noite. Que, ao chegarem à funerária, não pararam na recepção e foram direto para a sala onde acontecia o velório, a sala de número cinco, conforme sua amiga e irmã do falecido lhe informou ao telefone. Ao adentrarem o recinto, percebeu que não eram as únicas a estarem atrasadas. Que a sala estava quase vazia, só haviam três pessoas no local, uma senhora e duas pré-adolescentes, todas sentadas no canto da parede. A depoente fez questão de explicar que quando disse que não havia mais ninguém não contabilizou o morto, que estava no caixão aberto no centro da sala, exposto à visitação. Que, chegando ao local, não viu sua amiga ou outra pessoa parecida com ela, que pudesse ser da família, nem qualquer pessoa conhecida, o que achou estranho, mas não parou para pensar no caso. Que, ao entrar na sala, fez uma saudação discreta à mulher e às meninas que estavam sentadas e foi direto ao caixão, para dar uma olhada rápida no morto. Que rezou um Pai Nosso junto ao falecido e somente depois foram se sentar, no lado oposto ao do grupinho que já estava na sala, para aguardarem a amiga ou outro parente. Que, nesse intervalo, para quebrar um pouco o clima chato de velório, ela começou a contar às amigas algumas lembranças que tinha do falecido. Indagada, disse que pode ter falado em voz alta, de modo que qualquer pessoa que estava na sala poderia ter ouvido o que ela falou. Sobre o conteúdo do que falou, disse que contou às amigas que se lembrava de poucos episódios sobre a vida do falecido, a maioria de quando eram crianças. Contou que o falecido costumava se vestir com roupas de mulher e brincar com as amigas, até altas horas. Que esse hábito foi mantido, escondido dos pais, até a adolescência; quando, em mais de uma ocasião, ela o ajudou a se maquiar antes de sair, mesmo tendo ensinado-o a fazê-lo sozinho. Que foi somente após o falecido começar a namorar com meninas que ele diminuiu o hábito, mas, vez por outra, passava na casa dela e os dois ficavam muito à vontade, e ele fazia questão de experimentar os sapatos e vestidos que ela tivesse. Que ele não gostava de outras coisas femininas além de vestidos, sapatos e maquiagem. Disse às amigas, naquela ocasião, que, certa vez, ainda na adolescência, ele levou para ela o seu primeiro cigarro de maconha e fumaram juntos. Que o falecido era muito divertido e que ela não sabe por qual razão os dois se afastaram. Disse que foi somente isso que falou às suas amigas naquela noite e não viu nada de mais nisso. Respondendo a pergunta do delegado, disse que sim, percebeu que enquanto falava do falecido a mulher e as duas meninas choravam bastante, mas não fazia ideia de quem eram ou por que estavam ali. Declarou que não sabia nada sobre a vida do falecido nos últimos dez ou doze anos, mas tinha certeza que ele não havia se casado e aquela mulher não podia ser esposa dele nem as meninas suas filhas, e se fossem da família deveriam saber muito bem o que ela estava falando, pois o próprio falecido abriu a boca e confessou tudo sobre sua vida sexual numa noite de natal em família. Que se lembrava muito bem da ocasião, apesar de não se recordar mais do ano, pois ele teve que ir dormir na casa dela após a confissão, e levou algum tempo para a família aceitá-lo, mas acabou dando tudo certo. Que a família não tinha mais segredos quanto a isso e aceitava seus namorados, por isso ela se sentiu à vontade para falar o que falou. Que não viu razão para se preocupar com a discrição sobre a intimidade do falecido, pois não acha vergonhoso ser gay. Quando perguntada, disse que se lembrava sim de ter falado às amigas que ela havia conhecido o grande amor da vida dele. Que se lembrava de ter dito isso e na mesma hora acrescentado que não se recordava mais do nome, mas sabia que os dois trabalhavam juntos quando se conheceram. Que, por mais de uma vez, teve vontade de perguntar àquela senhora o que era do falecido, mas como estava sempre chorando, achou por bem esperar a amiga chegar, pois não sabe lidar com gente chorona. Que isso demorou cerca de meia hora. Como não viu chegar ninguém da família, as três decidiram que estava na hora de irem embora. Que, ao saírem da sala cinco onde o corpo estava sendo velado, viu sua amiga no bebedouro e chamou por ela, que lhe perguntou o que faziam ali, visto que o velório estava sendo realizado na sala quinze. Que somente nesse momento percebeu que falou do morto errado na frente de uma família que ela não faz a menor ideia de quem é e que ficou morta de vergonha, mas não teve coragem de voltar e pedir desculpas. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

Leia tambémDepoimento (02/02/2025)

Leia também: Depoimento II (09/02/2025)

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 16/02/2025 - 03:46h

Quando eu crescer

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Web

Arte ilustrativa Web

Estamos às portas do carnaval, infelizmente. Falo por mim, claro. Há ocasiões em que imagino que não sou deste planeta. Bom. Não é da minha conta o fato de um mundo e meio de indivíduos curtirem o momo. É uma espécie de cartão de visita do Brasil. Eu, entrementes, desprezo essa tradição com todas as minhas forças. Tanto o carnaval oficial quanto os ditos “fora de época”.

Sim, sou avesso a multidões, a fuzarcas, furdunços, frevos, pândegas, etc. Agrada-me, todavia, uma boa roda de amigos, que prefiro com a ausência ou sem excessos alcoólicos. Possuo, tenho meus motivos, um forte desconforto (um trauma, na verdade) quanto à cultura etílica.

Esqueçamos o carnaval e o álcool. Fui bobo ao tocar nesse ponto nevrálgico, pois pretendo discorrer acerca de outras coisas. Aqui estou, nos acréscimos do segundo tempo, com mais um desafio de produzir uma crônica para este meu domingo de bocejos e de preguiça. Bocejo é um negócio contagiante. Ao ver alguém bocejar, dificilmente a gente não boceja. Só de pensar já estou abrindo a boca.

Fixando-me agora no compromisso da escrita, confesso que estou enchendo linguiça, conforme o ditado. Careço extrair dos meus quatrocentos ou quinhentos neurônios uma página minimamente atrativa, digna da atenção do leitor. No mais tenho plena consciência de que escrever sobre o ato de escrever é um legítimo lugar-comum, um tema pisado e repisado, um tipo de artimanha tão desagradável e perniciosa quanto o ogro Donald Trump. Desta vez, observem só, aqui me vejo ocupando, gastando tinta com o lodaçal, o charco político que voltou à Casa Branca.

Num domingo como este cai bem certas amenidades, um bocado de pacatez, uma escrita branda. Nada de mau humor, de ranço ou polêmicas. Isso, em particular o âmbito da política partidária, finda abespinhando alguém. Quando eu crescer, por exemplo, quero que a minha pena adquira determinadas qualidades.

Assim sendo, suponhamos que meu texto possuiria a suavidade e leveza de Odemirton Filho, que é o cronista mais cuca-fresca que vejo no Blog Carlos Santos. É o que estou dizendo. Odemirton escreve macio como algodão. O homem demonstra a fleuma, a mansuetude de um peixinho de aquário. Sou fã dele tanto quanto Natália Maia e Bernadete Lino.

Quem quiser, talvez por mera inveja, que diga que sou puxa-saco. Não me importa. Estou sendo tão somente franco e justo. Assim como devo aplausos à memória prodigiosa de nosso confrade Rocha Neto. Essa benquista figura (eis mais um puxão de orelha) está nos devendo um livro com suas reminiscências faz muito tempo. Não sei por que tanto protela. Falta de estímulo é que não é.

Ambiciono, no bom sentido, o fôlego e a inventividade de Clauder Arcanjo e Ayala Gurgel, dois escritores versáteis e fecundos. E o que dizer do causídico Bruno Ernesto? Ora! O rapaz é ilustrado, carrega no quengo uma rara ciência das coisas de antanho, fortuna histórica, amplo conhecimento relativo ao passado desta nossa capital do embuste. Coisa mesmo das priscas eras. É um cronista-historiador e vice-versa. Não menos me encanta a prosa cristalina e saborosamente erudita do meu xará Marcos Araújo. Como diria o saudoso cronista e filólogo José Nicodemos, sou-lhe macaca de auditório. Favor nenhum. O sujeito faz jus aos seus predicados.

Admiro, também, o verbo de Antonio Alvino da Silva Filho, pensador, filósofo contemporâneo e autor do livro de crônicas intitulado Contrapontos — Reflexões a partir da vida em rebanho, cujo prefácio tive a honra de escrever. Permitam-me alongar a lista de meus escribas diletos, a maior parte articulistas deste blogue. Isto porque não posso esquecer de maneira alguma do senhor delegado da Polícia Civil (homem de armas e de letras) Inácio Rodrigues, cuja escrita ficcional me encantou logo de cara. Esta não é a primeira vez que destaco o talento de Inácio.

Quando eu crescer, pois, quem sabe meu estro amarre as chuteiras dos beletristas ora citados. Neste universo das palavras, como ninguém é de ferro, almejo até uns vestígios, uns mínimos resquícios de um Graciliano Ramos e de um Machado de Assis. Exatamente nesta ordem. Além de mestres do gênero crônica como Otto Lara Resende e Rubem Braga. Mas, repito, só quando eu crescer.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 09/02/2025 - 10:20h

Depoimento – II

Por Ayala Gurgel

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

B.O: N° 02-7871/2019

NATUREZA: COMUNICADO DE AÇÃO CRIMINOSA OU SUSPEITA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 22 DE NOVEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: MARIA DO ROSÁRIO ANDRADE FREITAS

A senhorita Maria do Rosário Andrade Freitas, conhecida pela alcunha de Rose Mary, quarenta e dois anos, solteira, empregada doméstica e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia de polícia acompanhada de advogado, devidamente identificado, e solicitou ser ouvida pelo delegado responsável. A depoente narrou, diante de mim, escrivã de polícia, que trabalhou nos Estados Unidos por dez anos, onze meses e seis dias, sendo os últimos dez anos e cinco dias na mesma residência, que disse pertencer a um capelão do presídio do condado de Riverside, Califórnia, de onde partiu, após a morte dele. Que começou a trabalhar naquela residência um mês depois que seu patrão assumiu o posto de capelão e que ele lidava diretamente com os condenados que estavam no corredor da morte. Que era um homem respeitado, amado pela comunidade, levando uma vida cristã exemplar e participava de eventos de caridade. Deu como testemunho da boa fama dele o fato de que não apenas a igreja de Riverside o convidava para pregações e orientação de retiros, como também as igrejas de condados vizinhos. Não poucas vezes, disse a depoente, o capelão passava a semana fora, administrando retiros espirituais, e que, quando isso acontecia, ela ficava sozinha, na casa que pertenceu a ele, visto que confiava nela. Do ponto de vista físico, era bonito, alto, branco, asseado, com dentes ajeitados e voz calma e grossaboa de ouvir. Acrescentou que não sabe por qual razão um homem daquele porte não tinha se casado, e jurava, pela hóstia consagrada, que não era gay. Ao dizer isso, a depoente fez questão que constasse que ele vivia de forma celibatária e não havia nada que maculasse a honra dele como pastor e guia daquelas almas condenadas por crimes tão horrendos, a ponto de merecerem pena de morte. Que chegou à casa dele por meio de uma agência na qual ela trabalhou nos Estados Unidos e deveria ser um trabalho rotativo, como nas outras residências, mas ele exigiu mudança no contrato e ela ficou fixa, como doméstica. Que o trabalho do capelão junto aos condenados era o de levar conforto espiritual. Que mais de uma vez ele contou a ela sobre detalhes da missão, como fazia com cada um, sobre o que conversavam e como pedia que os condenados escrevessem cartas para Deus, nas quais deveriam confessar os crimes, e outras para as famílias das vítimas, declarando o arrependimento, ou, pelo menos, contando o que elas desejavam saber. Que o capelão lhe contava que as famílias, às vezes, queriam apenas saber onde estava o corpo, se a vítima tinha sofrido, quais foram as últimas palavras ou se o criminoso havia se arrependido do que fez. Que ele ouvia das famílias quais eram seus desejos e repassava aos condenados, com esperança de que lhes escrevessem ou dissessem algo que pudesse levar conforto aos enlutados. Que alguns condenados aceitavam escrever tais cartas, tanto aquelas endereçadas a Deus, confessando os crimes, tudo nos mínimos detalhes, tal como o capelão solicitava, quanto as endereçadas às famílias, de acordo com o que elas pediam. Que isso durou todo o tempo em que ele serviu no presídio. Em seguida, a depoente disse que a razão de estar na delegacia hoje, na presença de seu advogado, é que tem a intenção de devolver a quem de direito as cartas, que estão sob sua custódia desde que deixou a casa do falecido, dias depois da sua morte. Que foi ele mesmo que pediu em segredo para que ela não deixasse que as cartas viessem a público caso algo de ruim lhe acontecesse, e ela apenas cumpriu sua vontade, mas agora, passado o tempo que passou, se arrepende. Que não sabe exatamente como ele morreu, mas ouviu que foi infarto. De acordo com a depoente, ela ficou com as cartas e muitas memórias ruins do que viu naquela casa e não acha mais certo manter o segredo, de modo que decidiu confessar tudo à polícia e não pretende voltar aos Estados Unidos. Que hoje só consegue dormir à base de remédios e já pensou em se matar. Que as cartas endereçadas às famílias nunca foram entregues, embora o capelão tenha repassado uma ou outra informação aos interessados, dizendo tê-la obtido de ouvido. As cartas endereçadas a Deus, que ela chegou a ler algumas, são de perturbar qualquer alma cristã com tanto mal que há nos detalhes descritos. A depoente contou que o capelão ficava com as cartas para deleite próprio. Que lia e relia diversas vezes, enquanto tomava vinho. Que mais de uma vez presenciou ele cheirando o papel e se masturbando enquanto lia as cartas. Que, nessas horas, não era o mesmo homem que estava acostumada a ver como um amado pastor de almas, era outra pessoa, da qual tinha medo e não se atrevia sequer a lhe dirigir a palavra, menos ainda fazer qualquer comentário sobre o que viu. Que foi ele mesmo que chegou junto a ela e explicou o que fazia: aquelas cartas eram a única forma de obter prazer na vida. Era por meio delas que ele se sentia vivo, como se os crimes tivessem sido cometidos por ele, com a diferença de que não era ele que estava no corredor da morte. Que ele acompanhava a vida de cada um daqueles infelizes como se fosse a sua, se imaginando no lugar deles em cada cena do crime, cada gesto, cada sentimento. Tão logo o condenado era executado, procurava outro, para reviver tudo de novo. A depoente também disse que nunca falou com ninguém sobre o assunto com medo de colocar a própria vida em risco. Que ele não dizia nada, mas ela se sentia ameaçada pelo jeito que contava seus segredos. Que até hoje tem medo que ele possa perturbá-la, nos sonhos ou como alma penada. Que vai à missa todos os domingos e ao psiquiatra a cada três meses com a intenção de sair dessa situação e ter uma vida normal. Que ouviu o conselho do advogado e por isso veio entregar tudo o que tem e dizer tudo o que sabe. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

Leia também: Depoimento (02/02/2025)

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Categoria(s): Conto/Romance / Crônica
domingo - 29/09/2024 - 05:32h

Dois sapateiros

Por Marcos Ferreira

Marcos Ferreira e Ayala Gurgel (Foto: José Arimatéia)

Marcos Ferreira e Ayala Gurgel (Foto: José Arimatéia)

Conhecedor de uma boa parcela do meu histórico de apuros, especialmente no tocante à minha experiência e de meu pai enquanto sapateiros, na última quinta-feira, 26, recebi aqui na Casa Branca da Rua Euclides Deocleciano, 32, o versátil artista Ayala Gurgel. Além de escritor premiado, é um pintor de valioso talento. Fui presenteado por ele com uma arte personalizada, óleo sobre tela no tamanho 40×50, onde vemos um sapateiro desempenhando o seu ofício com um menininho ao lado, imagem dedutível como a de um filho auxiliando o pai na referida atividade.

Nascido em 1971, Ayala é natural do município potiguar de Alexandria. Escritor prolífero, contista, romancista sempre com lastro na temática do sertão, tem vasta formação acadêmica, com passagem por importantes universidades brasileiras. Entre outras especializações e habilitações, é doutor em Políticas Públicas e Filosofia. Ele é professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) desde 2014. Possui experiência no campo da Filosofia, sobretudo em Ética, Bioética, Tanatologia e Saúde Mental. Atualmente, além da literatura e das artes plásticas, desenvolve pesquisas na área de filosofia da linguagem ordinária e teoria da argumentação.

O pai de Ayala, que está com oitenta e três anos, também foi sapateiro. Algumas obras do autor estão expostas na pinacoteca da Ufersa. @ayalagurgel é seu contato no Instagram.

Comecei com apenas dez anos de idade ajudando meu pai, o sapateiro Vicente Ferreira. Primogênito de uma prole de onze irmãos, e com nossas finanças descompensadas pela inflação, era de se esperar que o filho mais velho seguisse o genitor na faina da sapataria. Assim, como na letra do Milton Nascimento, coloquei o pé (as mãos, aliás) na profissão. Eu não tinha carteira assinada, obviamente. Isso só aconteceu no dia primeiro de março de 1986, estando eu com dezesseis anos incompletos. O cargo? Auxiliar de apalazamento; palavra inexistente nos dicionários.

Não havia nesse tempo essa coisa de que criança não pode trabalhar. Eu (assim como os demais) dava expediente das sete às onze e das treze às dezessete e trinta. Não raro, porém, acontecia de estarmos com muitos pedidos e aí todos fazíamos plantão até as nove ou dez da noite. Isso melhorava o salário.

Naquela época, início dos anos oitenta, ainda existiam em Mossoró algumas indústrias e fabriquetas de calçados. Depois, com a pesada concorrência da produção em série das grandes empresas do ramo, as fábricas não suportaram e começaram a falir, a exemplo da Indústria e Comércio de Calçados Arruda Ltda., situada à Rua Adauto Câmara, 154, empresa essa onde trabalhávamos. Devo dizer que possuo uma memória pouco confiável, com a durabilidade dum Sonrisal num copo d’água, como já falei noutra oportunidade, mas certas coisas continuam intactas na minha mente. Consigo lembrar, por exemplo, o cheiro do couro e de alguns tipos de cola.

Ainda analfabeto com onze anos de idade, fui matriculado no Instituto Dom João Costa, onde hoje funciona o Centro de Práticas Múltiplas Dom João Costa. O mingau de milho com coco servido ali na hora da merenda era uma verdadeira delícia. Concluí a quinta séria primária e depois abandonei o colégio, novamente impelido pela necessidade de contribuir para colocar comida em nossa casa.

Alguns anos depois retomei os meus estudos, desta feita na Escola Estadual Hermógenes Nogueira da Costa, no Abolição IV. Ali concluí o sétimo ano. Por essa época as sapatarias já haviam quebrado e eu e meu pai nos tornamos faz-tudo. Eram ocupações de toda sorte que agora não me disponho a narrar. A fome se agravou na casa dos Ferreiras e tivemos, como se diz, que matar um leão a cada dia.

Tudo isso são águas passadas! Hoje, como feliz recordação dos meus anos como sapateiro ao lado do meu pai, tenho essa bela arte em tela produzida pela sensibilidade do meu amigo das letras Ayala Gurgel. Muito obrigado!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Política
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domingo - 25/02/2024 - 06:48h

O universo fantástico de Ayala Gurgel

Por Marcos Ferreira

Livro de Ayala Gurgel (Reprodução)

Livro de Ayala Gurgel (Reprodução)

Não sou estudioso da produção livresca potiguar. De modo algum. Nem mesmo do âmbito mossoroense. Ignoro, destarte, que tenhamos entre nós um literato mais sombrio e fiel às surpresas do estilo sobrenatural, com os recursos criativos, as características e peculiaridades de Ayala Gurgel. Sim. Trata-se de um ficcionista engenhoso, fecundo, versátil, autor, principalmente, de títulos nas modalidades conto, novela e romance.

Conquistou posições de destaque em relevantes prêmios literários, além de integrar antologias organizadas e lançadas ao longe de nossa província.

Embora pouco conhecido nos meios intelectuais do RN e de Mossoró, Ayala já escreveu e publicou quase uma dezena de livros através de edições particulares. Unindo criatividade e elementos verídicos, o seu estro adota como pano de fundo a temática e vastidão da caatinga. Transita, invariavelmente, pelo gênero sobre-humano, sempre arraigado na ficção teológica. Nessa esfera, que conhece a fundo, apresenta as suas garras de escritor ácido. É aí que estabelece e desenvolve uma escrita iconoclástica, pródiga em sistemáticas críticas à instituição da Igreja Católica.

Nascido em 1971 no município norte-rio-grandense de Alexandria, Ayala Gurgel reúne vasta formação acadêmica. Tem passagem por importantes universidades brasileiras, informações estas que não gosta de divulgar. Entre outras habilitações, é doutor em Políticas Públicas e Filosofia. Desde 2014 é professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).

Possui experiência no campo da Filosofia, sobretudo em Ética, Bioética, Tanatologia e Saúde Mental. Atualmente desenvolve pesquisas na área de filosofia da linguagem ordinária e teoria da argumentação. 

Em Brumas & Brenhas, cujo prefácio leva a minha assinatura, mas que poderia lhes expor a avaliação de alguém mais familiarizado com o simbolismo do místico, ouso dizer que o autor de O Segredo da Ordem do Santo Sacrifício se revela em sua melhor forma enquanto criador de mundos e personagens. Inventivo, de pulso firme e se utilizando das tintas de um demiurgo como Stephen King, de quem é confesso admirador, Ayala nos mostra que também sabe contar uma boa história e infundir algum medo em pessoas menos habituadas a leituras dessa natureza.

Não pretendo esmiuçar, traduzir nem oferecer a bem elaborada narrativa de Brumas & Brenhas toda mastigadinha para o respeitável leitor. Não. Isso está fora de minha competência. Ao menos é o que eu presumo. Recomendo ao público, portanto, mergulhar na trama e ver de perto o saboroso e extraordinário conto acerca de indivíduos tão incríveis quanto verossímeis. Em especial a jornada que dois padres jesuítas empreendem pelas brenhas do alto oeste potiguar no ano de 1751.

Gurgel: instigante (Foto: divulgação)

Gurgel: instigante e ácido (Foto: divulgação)

A HISTÓRIA É CONTADA em primeira pessoa por um narrador onisciente e ignoto. Na segunda parte do causo, com uma prosa clara e instigante, é relatado o aparecimento do seguinte fenômeno climático:

“A situação estava feia e não dava sinais de melhora, anjos e santos pareciam não se apiedarem, mas naquele exato dia 06 de abril de 1751, ainda de madrugada, antes do sol raiar, uma névoa úmida começou a subir da areia fina do riacho onde se encontravam as últimas cacimbas com alguma serventia. Não houve relâmpago ou trovão durante a noite toda, nenhum sinal de que cairia uma gota d’água, nada que indicasse mudança do tempo, apenas a bruma que começou a subir da terra, atingindo, em pouco tempo, a copa das árvores ciliares”.

A trama é construída a partir de um documento fictício que supostamente aponta para a origem da cidade natal do romancista, um lugarejo de nome Barriguda. Aí encontramos tipos cativantes, a exemplo do protagonista e contador de histórias Zé Preto, escravo que conseguiu sua alforria por meios que ninguém sabe ao certo.

À volta de Zé Preto, que relata aos jesuítas o mistério da súbita bruma, gravita uma série de catingueiros interessantes como Dona Antônia, Seu Zé de Brejeiro, Dona Amélia, Preá, Baraúna, Filomena, Zefa, Cocota, Mundico, Zefinha e Madalena.

Posso afirmar que, entre todos os trabalhos artísticos de Ayala, Brumas & Brenhas é o meu preferido. Digo mais: estamos perante um homem de letras que realmente sabe escrever, talento este que não é regra em nosso habitat. Então, sem querer me alongar nem chover no molhado, fico por aqui e convido vocês a se embrenharem no universo fantástico de Ayala Gurgel. Afianço que vale a pena.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/04/2023 - 04:30h

Clube do Cafezinho

Por Marcos Ferreira

Esta semana precisei ir ao banco. Parei diante da porta giratória e dentro de uma caixa em acrílico (creio que fosse em acrílico) larguei alguns pertences que trazia comigo. Eram nada mais que um celular, as chaves de minha casa e algumas moedas embaladas numa fita adesiva transparente. Apenas depois disso foi que a desconfiada porta autorizou o meu ingresso naquele típico reduto do capital.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Peguei uma ficha no porteiro eletrônico e, a seguir, tomei uma maçada de quase hora e meia até meu número ser chamado no monitor de televisão afixado no alto de uma parede. Nem sei dizer se toda aquela espera valeu a pena, pois o motivo de eu estar ali era um só: receber um novo cartão do Banco do Brasil. O outro estava vencido e com uma rachadura. Então, para obter esse objeto de importância nenhuma no tocante a dinheiro em caixa, lá estava eu, um cidadão ordinário e igualmente desimportante com uma merreca de setenta e quatro reais na conta-corrente.

Deixei a agência da Alberto Maranhão convicto do quanto o meu viver é uma espécie de zero à esquerda. Hoje me permitam estar assim, melodramático. É uma espécie de trejeito, um cacoete. Imagino que não se trate de vitimismo ou autocomiseração. Como se alguém houvesse perguntado, digo também que no próximo dia 10 de abril (peço que isto fique somente entre nós) completarei cinquenta e três anos de idade. Até o momento, para lhes ser franco, não me tornei outra coisa à exceção de um homem de letras sem relevo nesta terra e menos ainda por aí afora.

O que possuo de valor, outra vez sendo honesto comigo e com um bocado de gente bacana, não é muita coisa material, mas amigos que me têm honrado com sua amizade e consideração gratuitas. Alguns são de longa data, desde 1912, como Antonio Alvino, outros se achegaram não faz muito tempo. Talvez devido à minha súbita mudança de açougueiro do verbo para cronista dominical. Então, feito um sonâmbulo, eu caminhava devagar pela Avenida Alberto Maranhão, escolhendo os passos nas calçadas irregulares desta cidade, pensando à toa numa coisa e noutra.

Meti a mão no bolso, peguei o telefone e consultei as horas: 16:05. Com a mixaria no banco e aquelas moedinhas, cogitei entrar num café e pedir uma xícara da rubiácea. Mas, num reflexo de bom senso, larguei tal ideia e rumei para outro endereço: o do meu próprio casulo, onde uma porção do velho e saboroso moca não desfalcaria o meu orçamento como certamente ocorreria no comércio.

Quem sabe num dia qualquer, acompanhado de cafezistas como Elias Epaminondas, Marcos Rebouças, Odemirton Filho, Rocha Neto, Antonio Railton, Clauder Arcanjo, Carlos Santos, todos esses notórios apreciadores do líquido citado, sentemos para tomar essa bebidinha quente e odorífica. Por onde andarão Mário Gaudêncio, Ayala Gurgel, José Arimatéia, Francisco Amaral Campina, Túlio Ratto?… Estarei feliz ao redor dessas pessoas. Ontem mesmo, antes que eu me esqueça, recebi a visita do Dr. Marconi Amorim. E, evidentemente, tomamos mais um cafezinho.

Marconi veio conferir como ficou esta nova morada da Euclides Deocleciano, 32, fruto, em grande parte, do apoio de amigos. Claro que esta crônica não deveria ser tristonha, como se vê de modo predominante, todavia alguns ímpetos depressivos ainda me acometem, morbidez que combato seguindo as prescrições do Dr. Dirceu Lopes. Então, geralmente devido ao meu estado psíquico, às vezes esqueço do quanto a vida é maravilhosa e este mundo não é tão ruim quanto parece.

Portanto, às quatro e pouco da tarde, lá ia eu um tanto sem rumo, decerto em busca de algum amigo com o qual não havia agendado me encontrar. Realmente não encontrei ninguém, nenhum dos meus colegas batendo pernas.

Entrei no meu lar, tomei um banho, fiz café e bebi uma xícara sozinho. Após uns minutos o telefone tocou. Era o poeta Rogério Dias. Trocamos umas ideias através da invenção de Graham Bell e combinamos em ele vir aqui na próxima semana. Trará os seus apetrechos culinários para produzir algumas de suas boas e famosas tapiocas recheadas. De minha parte ficarei encarregado do café.

No fim das contas, dando o braço a torcer, reconheço que esta tarde não foi nada infecunda. Vez por outra, cheio de caraminholas, é o meu quengo que inventa as penas em que vivo, como no belo soneto de Olavo Bilac.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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