domingo - 26/09/2021 - 08:42h

Rebeca não tomará vacina

Menina sendo vacinada, vacina, ilustração, criança e vacinaPor Inácio Augusto de Almeida

Quem é Rebeca?

Rebeca é uma menina pobre que sempre aparecia pedindo comida, chinelo e roupa usada. Tinha um olhar angelical num rosto marcado pela fome. Os seus cabelos finos fios de arame.

Na boca o riso dos inocentes.

Faz tempo que Rebeca não aparece e o meu egoísmo impediu de saber onde Rebeca mora. Eu até perguntei, mas ela dizia que era muito longe. E assim a minha curiosidade morria. Morria facilmente, porque na realidade eu queria mesmo era amortecer a minha consciência.

Um dia dei a Rebeca um caderno, um lápis e um livro infantil cheio de figurinhas. Seus olhos de anjo encheram-se de brilho.

Observei que Rebeca olhava apenas as figurinhas.

Rebeca deixou de aparecer e fiquei imaginando que isto aconteceu porque a Assistência Social estava ajudando a família dela.

O que a gente não é capaz de fazer para tentar enganar nossos sentimentos?

Vejo que estão anunciando vacina para jovens. Em breve chegará a vez da Rebeca se vacinar.

Penso em ir pegar a Rebeca, menina com olhar de Santa, para levá-la ao centro de vacina.  Nesse momento lembrei-me o quanto fui egoísta nunca tendo ido até a casa da Rebeca.

Quantas crianças pobres como ela, em Mossoró, ficarão sem vacina por total falta de recursos para pagar o transporte para si e para o responsável que autorizará a aplicação da vacina?

Como Rebeca vai conseguir dinheiro para quatro passagens se dinheiro não para comida, calçado e roupa?

Rebeca não será vacinada.

E todos rezarão por Rebeca.

Somos cristãos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/09/2021 - 07:10h

Um icônico referencial cultural na serra do Martins

Por Marcos Pinto

“…Falar  de  coisas   que  só  batem  nos  que

Conjugam   a  metáfora  do  peso  dos  anos”.

(José   Sarney).

Nada  mais  impressionante  na   região  do  alto  Oeste  potiguar  do  que  a  fantástica  serra  do  Martins,  cuja  denominação  toponímica  atrela-se  ao  seu   fundador  Francisco  Martins  Roriz.  Suas  matas  nativas  revelam  mistérios  circundantes,  aromatizados  por  clima  ameno, instigante   e  salutar,  emoldurando   misterioso  e   sepulcral  silêncio.

As  suas  contagiantes  belezas  naturais  tem  proporcionado  o  surgimento  de  expressivas  intelectualidades  em  todos  os  contextos  dos   valores  humanos   do  país.  Desde  os  primórdios,  evidencia   a  rubrica  de  ser  feudo  e  celeiro  de  intelectuais.

Júnior Marcelino, densidade intelectual sem afetação e zelo pela cultura e conhecimento (Foto: reprodução BCS)

Júnior Marcelino, densidade intelectual sem afetação e zelo pela cultura e conhecimento (Foto: reprodução BCS)

Sobressai-se   como  manancial  de  valorosos  homens e  indômitas  mulheres,  enchendo  de  vivas  ações  de  acentuado  cunho  espiritual  as   páginas  que  marcam  os  anais  da  sua  arraigada   história.  A  sua  vasta   panorâmica  sociocultural   embeleza-se  pela  correção  da  linguagem  a  colorir  os  pensamentos  do  seu  pacato  e  hospitaleiro  povo.  Revela-se  numa  tessitura  simples   e  natural, ao   todo  desprovida  de  apelos  eruditos.  Sob  estes  matizes  envolventes, surge  a  cativante  e  referencial  figura  humanista  e  icônica  em   intelectualidade,  de  nome  Júnior Marcelino.

Homem  de  profunda  fé  e  sólidas  convicções  religiosas, características  peculiares  que   induziram  os  seus  amáveis  genitores  a  encaminhá-lo   ao  famoso  Seminário  Santa   Terezinha,  em  Mossoró-RN, lá ele  amealhou vastíssimos  conhecimentos  em  Humanismo, Classicismo, Geografia  Histórica  e  História  local,  Genealogia, Corografia, Ordenamentos  Políticos  e  Jurisprudência.  O  renomado  Seminário  foi  a  fonte   primordial  e  precípua  da  sua  sua  imensurável  e  respeitável  erudição.

Nesta  conspícua  instituição  eclesiástica  foi  aprovado  com  destaque e  Grau  Superior  em  todas  as  matérias:  Latim, Leitura, Canto, Gramática, Missa  e  demais  cerimônias.  O  Consuetudinário  e  metódico  rigor  aplicado  no  desenvolvimento  espiritual  dos  notáveis  Seminaristas  incluía  matérias  de  casos  de  consciência  e  dos  sacramentos   contidos  na  famosa  Obra  litúrgica  denominado  de  “Breviário”  e, também,  o   “Manual dos Confessores”,  do   Aspilcueta   Navarro.

Pela  sua  acentuada  desenvoltura  intelectual,  deve  ter  participado  das  percucientes  e  famosas  “Visitações Pastorais”,   do  eminente  e   reverendíssimo  Bispo  Diocesano  da  sua  contemporaneidade  de  admirável  seminarista, época  em  que  era  comum  o  vestir-se  com  batina  preta, o  que  imprimia uma  circunspecta  impressão  visual   litúrgica.

Apesar  das  culminâncias  intelectuais  e  espirituais  condensadas  no  seminário,  o  jovem  seminarista  não  resistiu  aos  encantos  de  uma  recatada  e  competente  professora, visão  alicerçada  em  seu  espírito  durante  suas  férias  de  final  de ano,  em  sua  amada  e  nunca  esquecida  Martins.  O  coração  falou  e  calou  mais  alto.

Após  longa  explanação  ao  seu  genitor   quanto  às  razões  de  cunho  sentimental,  de  certa  forma  inesperado, da  sua   firme  decisão  de  desistir  da  sua  iminente  ordenação  sacerdotal, teve  incontinenti  acolhida  do  seu  compreensivo  genitor.  Desfecho  com  emblemático  consórcio  matrimonial  com  a  ditosa  e  elegante  mestra  Perpétua.

Com simplicidade  e  modéstia, criou  e  instalou  em  sua  residência  um  vultoso  museu   com  relevante  acervo  de  fósseis  animais  milenares, destacando-se  como  sendo  o  único  do  estado  do  Rio  Grande  do  Norte  que  tem  em  seu  acervo  um  osso  fóssil  constitutivo  da  mandíbula  do  Mamute,  o  ancestral  do  Elefante.  Como  intelectual  polivalente,  desfruta  de  largo  prestígio  em  todos  os  segmentos  sociais  e  administrativos  do  Estado  do  RN,  e   também  em   âmbito  nacional.

Tudo  em  decorrência  do  seu   arquétipo. Homem  atuante,  embora  comedido. Liberal  sem  demagogia, tradicionalista sem  fanatismo;  construtivo  sem  imprudência.

Impelido  por  um ardoroso  ânimo  de  trabalho,  sabe  aproveitar  as  oportunidades  na  consecução  dos  virtuosos  propósitos.  Sou  testemunha  da  austeridade  e  probidade,  perenes  e  inexpugnáveis  em  seu  “modus  vivendi”, repudiando   tenazmente  o  chamado  e  detestável  ‘culto à personalidade’, configurador  de  asqueroso  vedetismo.

Nunca  se  deixou  vencer   pelas  circunstâncias  adversas, sempre  vencendo  as  barreiras  do   desânimo.  Como  “cultor  da  história”,  lança  mão  do que  tem  na  memória  para  vestir  suas  ideias  acerca  do  processo  evolutivo  da  sua  amada   terra   natal.  A  sua  excepcional  simplicidade  de  estilo  desperta   intensa   empatia, dado  o  seu  boníssimo  coração.

O  nobre  amigo  Júnior Marcelino   contextualiza-se  na  assertiva   de  que  é  uma  pessoa  brilhante, discreto,  justo,  sempre  intervindo  com  maestria  nos  momentos  mais  difíceis  da  pesquisa  em  vetustos  documentos   cartoriais  ou  eclesiásticos.

Visitar  a  inesquecível   cidade  de  Martins  e  não  procurar  conhecer  o icônico intelectual  Júnior Amorim equivale  a    ir  a  Roma   e  não  ver  o  Papa.

Habemus Junius Marcelinus!

Inté!

Marcos Pinto é advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 26/09/2021 - 06:18h

Guia turístico

Por Marcos Ferreira

Seja bem-vindo. Esta é Mossoró, a minha cidade. O ‘minha’, claro, é mera força de expressão; mais pertenço que possuo. Bom, eis a famosa Mossoró, terra da liberdade, conforme apregoam há quase um século. Município este que, segundo a lenda, expulsou o destemido Lampião e justiçou o também cangaceiro Jararaca quando os fora da lei invadiram esta província lá pelos idos de 1927.

Particularmente, embora os doutores do cangaço torçam o nariz, não me orgulho nem um pingo dessa história de brabeza de Mossoró. No fim das contas, depois de tanta chuva de bala, os bandoleiros dominaram esta comuna na trincheira da cultura. Sim.

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Hoje ninguém mais fala nos resistentes, mas tão só no bando de salteadores. Olhe ali, por exemplo, o espaço denominado Arte da Terra: dois bonecos gigantes de Lampião e Maria Bonita bem na frente, dando boas-vindas.

Isto sem falarmos num Memorial da Resistência que não resistiu à tentação de oferecer mais destaque aos invasores do que aos defensores. Hoje em dia, sendo otimista, talvez apenas uma dúzia de nomes que defenderam este fim de mundo à época do ataque ainda seja lembrada pelos mossoroenses de um modo geral, como o então prefeito Rodolfo Fernandes. Pudera, trata-se do prefeito.

Outra coisa. Jararaca, ferido com um balaço e enterrado ainda vivo no São Sebastião, de acordo com alguns historiadores, foi alçado à condição de santo milagreiro pelo povo desta cidade e adjacências. É o que estou dizendo. O sujeito passou de facínora a santo da noite para o dia. A sua cova no São Sebastião é simplesmente a mais visitada no Dia de Finados. Já o túmulo do herói Rodolfo Fernandes, sepultado no mesmo cemitério, salvo exceções, ninguém sabe onde fica.

Aquele prédio imponente ali era o glorioso Cine Pax, ora transformado em loja de roupas. Foi inaugurado em janeiro de 1943 e funcionou por mais de seis décadas. Fechou de vez as portas no ano de 2008, se não me engano. Assisti a ótimos filmes nesse importante símbolo da vida cultural mossoroense. O ponto alto do fim de semana das pessoas do meu tempo era ver um filme no Pax.

Cuidado com a moto! Melhor subirmos na calçada. Nosso trânsito é um bicho traiçoeiro. Aqui não se pratica direção defensiva, mas predatória. Alguns donos desses carrões, sobretudo, só faltam passar por cima da gente. Parece até que eles têm aversão a pedestres, a ciclistas e motociclistas. Tipos arrogantes, tanto os condutores dos carrões quanto os motoqueiros. A maioria vira para um lado e para o outro sem ligar a seta. Em especial os referidos donos dos carros luxuosos.

Está quente, não? Pois bem, meu amigo. Mossoró, entre outras características, é a terra do calor, do siroco em tardes mormacentas como esta e de eventuais madrugadas com uma cruviana gostosa. Durante o inverno, quando há, é uma maravilha, apesar do Centro alagar com facilidade. As noites costumam ser bastante aprazíveis, e os bairros periféricos ficam cheios de cadeiras nas calçadas.

Esta é a Praça Vigário Antônio Joaquim. Mas o busto do vigário se encontra escondido naquela pracinha ao lado da Catedral de Santa Luzia. Por incrível que pareça, a enorme estátua que você está vendo no centro da Praça do Vigário não é do vigário. Esse é um monumento em homenagem ao ex-prefeito desta urbe e ex-governador do Rio Grande do Norte Jerônimo Dix-sept Rosado Maia, que morreu no auge da carreira política em acidente aviatório no ano de 1951.

Como eu disse, ali é a Catedral de Santa Luzia, onde os fiéis curvam os joelhos com peditórios ao Todo-Poderoso. Em geral, apesar da nossa estatística de homicídios ser uma das maiores do planeta, o mossoroense é um povo religioso, com supremacia católica. Aqui predomina a política do olho por olho, dente por dente, contudo as pessoas morrem de medo de ir parar no Inferno. Então, como se buscassem uma espécie de habeas corpus celeste, correm para os pés de Jesus.

Vamos para o outro lado. Que calor, hein? Mossoró não é para amadores, nem para turistas desavisados. Beba sua aguinha gelada, se ainda estiver gelada. Ali é o Mercado Central, primeiro shopping de Mossoró. Eu e meus irmãos ficávamos animadíssimos quando chegava o domingo e meu pai nos trazia, antes do sol raiar, para fazermos algumas compras no Mercado. Era uma festa!

Tempos idos e vividos. Tenho saudades de muita coisa daquela época, embora o pão fosse tão caro e a liberdade pequena, como no poema do Ferreira Gullar. Hoje, entretanto, o pão voltou a custar muito caro, e a liberdade vive sob constante ameaça, se me faço entender. Mas voltemos ao pujante Mercado de outrora. Fico com a boca cheia d’água só de me lembrar do pastel quentinho, feito naquela horinha, que a gente devorava com um copázio de vitamina de abacate.

Quando não era uma abacatada com pastel, traçávamos uma panelada com molho de pimenta-malagueta. O bucho ficava em tempo de espocar, e o suor porejava na testa. “Caiu na fraqueza”, dizia meu pai caçoando de mim e dos meus irmãos. De outra feita, menino já taludo, trabalhei algumas vezes no entorno do Mercado, pastorando as bicicletas da clientela para descolar uns tostões.

Agora quero lhe mostrar o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, suntuosa construção que homenageia outro político da tradicional família Rosado e também ex-prefeito desta província, morto no ano de 1996. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, isso é algo fácil deduzir, é irmão do ex-governador Dix-sept Rosado, cuja impressionante estátua, como o senhor constatou, se encontra no meio da Praça do Vigário. Aí está, portanto, o Teatro Municipal, palco da cultura mossoroense.

Veja aquela casa de drinques do outro lado da rua, na Avenida Rio Branco. Ali, durante uns bons anos, funcionou a Livraria Café & Cultura. Lugar excelente, ponto de encontro da intelectualidade local. Escritores, jornalistas, poetas, historiadores, médicos, advogados, professores, juízes, arquitetos, artistas, enfim, toda uma constelação pensante ocupava as cadeiras e mesas da Café & Cultura.

Era uma livraria como hoje não mais existe neste município, administrada e mantida pela senhora Ticiana Rosado. Nesse endereço, permita-me a autopropaganda, fiz o lançamento da primeira edição do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que contou com público expressivo. Foi no ano de 2006.

Atualmente, ouso dizer, no tocante a uma livraria de verdade, com amplo acervo de autores e obras, disponibilizando um bom café para a clientela, estamos órfãos.

Bem, acredito que o senhor está cheio desse papo de letras. Vamos agora a um reduto não menos cultural e emblemático desta aldeia: o Alto do Louvor. Já ouviu falar no Alto do Louvor? Não?! Então, meu caro, apresentá-lo-ei, como diria, cheio de mesóclises, o missivista federal Michel Temer. Trata-se do berço recreativo e sifilítico deste fim de mundo. Mal comparando, vir até aqui e não conhecer o Alto do Louvor é mais ou menos como você ir a Roma e não ver o Papa.

Alto do Louvor é a nossa extinta zona de meretrício. Muitos dos nossos ilustres e respeitáveis homens (não foi o meu caso!) foram iniciados sexualmente nesse antro do amor remunerado. O antes glamouroso Alto do Louvor fechou as portas há muito, porém a lenda das suas casas de tolerância e mulheres de vida nada fácil sobrevive até hoje no imaginário popular como uma ferida benigna.

Beba mais água. O senhor está ofegante.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/09/2021 - 15:16h

À presença do ‘Seu’ Chico Honório

Imagem de um homem tentando escrever no notebook, olhando à janela, copo com água, óculos,Por Carlos Santos

Para Honório de Medeiros, meu irmão!

Sua crônica (veja AQUI) desse domingo (19) transportou-me no tempo e espaço.

Devolveu-me à presença do seu pai, ‘Seu’ Chico Honório. Até o “Carlinhos” à boca, que não me deixava envelhecer, voltou.

Há pouco mais de dois anos e quatro meses eu consegui a duras penas escrever sobre o meu velho (Um beijo para dizer que “te amo”). Mas, sobre dona Maura, não.

Olhe que já tentei. Parei, mas não desisti.

Em algum momento, passados quase 12 anos, ela vai me inspirar – como sempre o fez.

Não chegou o momento.

Preciso pacientar mais um pouco.

Carlos Santos é editor do Canal BCS – Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 19/09/2021 - 12:44h

Duas cabeças da justiça

Por Marcelo Alves

Embora seja sua face mais brilhante, no que toca à presença do direito, não é só de Franz Kafka (1883-1924) e do seu “O processo” (1925) que é feita a literatura em língua alemã. Outros rostos devem ser iluminados, como o de Jakob Wassermann (1873-1934), em especial pelo seu romance “O Processo Maurizius” (1928).

Jakob Wassermann nasceu em Fürth, cidade industrial próxima de Nuremberg, na Alemanha. Era filho de modestos comerciantes judeus. Abandonou o comércio e foi viver sua juventude aventureiramente. Começou a escrever artigos, contos e pequenas novelas. Era um democrata. Como judeu, sofreu bastante com o antissemitismo da época. Com o nazismo, foi para o exílio, sendo também destituído de sua cadeira na então Academia Prussiana de Letras. Faleceu em Alt-Aussee, na Áustria.Anton Reiser_ Ilustração de Pedro Franz

Wassermann é considerado um representante maior da ficção psicológica. Seu primeiro romance foi “Os Judeus de Zindorf”, de 1897, no qual ele trata da história judaica na Alemanha, o que vem, claro, a ser uma temática comum nos seus primeiros textos. Mas é sobretudo uma “segunda fase” na carreira literária de Wassermann que nos interessa, esta focada na relatividade e nos problemas da Justiça.

Começa com “Caspar Hauser ou A Preguiça do Coração”, de 1900. E “Christian Wahnschaffe”, de 1918, obra já à moda de Dostoiévski (1821-1881), coloca seu nome definitivamente nos círculos intelectuais de então.

É dessa segunda fase, já em 1928, a sua obra-prima “O Processo Maurizius”, que, em síntese, cuida da estória de um erro judicial e do empenho de um jovem idealista (Etzel Andergast) para libertar o homem (um tal Otto Leonardo Maurizius, que dá título à obra) condenado injustamente, há quase duas décadas, à pena de prisão perpétua, pelo seu próprio pai (o íntegro promotor/magistrado Wolf Andergast).

O jovem Etzel não admite o contraditório. Ele quer a justiça perfeita (e ela existe?) em lugar da justiça possível. E, sobretudo, sua luta padece de uma ilegitimidade original: sua motivação principal não é fazer justiça, mas se vingar do pai, a quem atribui os males do mundo, inclusive os padecimentos da mãe adúltera.

Para o direito, “O Processo Maurizius” é interessante por incontáveis aspectos.

De logo, segundo registra a minha edição do dito cujo (Abril Cultural, 1982), “o romance constitui um soberbo retrato da época da República de Weimar”, e sabemos nós a importância dessa república na história do direito, sobretudo pela sua célebre Constituição, tida pioneira na previsão dos direitos fundamentais sociais e cujo legado acabou se espalhando mundo afora.

Ademais, é obra inspirada por um grande senso ético e de Justiça (perfeita ou imperfeita). Como anota Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), trata-se de “um romance deliberadamente tendencioso, ético, como o são de tendência ética todos os grandes romances da literatura universal”. E mais: “Der Fall Mauritius [seu título no original] precede por pouco a ruína da sociedade alemã pelo nazismo”.

Não obstante as nuanças da trama, sobretudo as motivações e intransigências das personagens, “O Processo Maurizius” deve ainda ser interpretado como uma advertência – e mais do que isso, como um libelo – contra o erro judiciário, que é tão desprezado por um certo grupo de pessoas, sejam juristas ou só idiotas da aldeia, que passam a vida ruminando ódio. Erro judicial, proposital ou não, isso não importa, devemos repeli-lo, já que ninguém – ninguém mesmo – deve ser condenado, assim privado de sua liberdade, ainda mais levado à morte (da qual, que eu saiba, não há volta), injustamente.

Por fim, de interesse mais geral, temos os aspectos geracionais e os motivos psicológicos que condicionam a trama/processo, condições que o autor conhecia e fabulava tão bem.

Duas mentalidades. Duas motivações. Duas faces da Justiça? Dois direitos? E tudo forjado por um drama familiar na forma de diversos conflitos. Mas isso aí já lembra outro grande russo, Tolstói (1828-1910), e a sua Ana Karênina (1877): “Todas as famílias felizes são iguais, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/09/2021 - 09:38h

Sonhos de criança

Por Odemirton Filho 

De vez em quando vem à memória os sonhos acalentados na infância. Uns, foram concretizados, outros, continuam guardados no coração.

Quando eu era criança, enquanto comia as seriguelas verdes no quintal da minha casa, lá na rua Tiradentes, sonhava em trabalhar na Petrobras e ter um Jeep Willys preto, equipado com som, um santo Antônio e “rodão”.sonhar-com-criança

Estudava no Colégio das irmãs. Toda quinta-feira a turma cantava o Hino Nacional no pátio da escola, antes de assistir às aulas. Diariamente íamos rezar na capela, sob o olhar atento de irmã Aparecida. Eu gostava mesmo era do recreio. À tarde, praticava educação física com o professor Pereirinha e tentava jogar basquete.

Não era, nem sou, como o nosso escritor e poeta Marcos Ferreira, um craque no jogo de voleibol e na construção de belos textos.

Na infância, cheguei a andar no trem da estação de Mossoró. Lembro-me, também, dos velhos armazéns, prédios caindo aos pedaços, ali, na avenida Alberto Maranhão.

Gostava de ver o desfile na noite do dia trinta de setembro. Tinha de preguiça de acordar cedo para ver o desfile na manhã do dia 07. Algumas vezes cheguei a desfilar. Era bacana a disputa entre as fanfarras das escolas. Admirava o desfile da Polícia Militar, do Tiro de Guerra 07-010 e dos maçons vestidos com os seus paramentos.

Quando eu era criança, como todos os garotos, queria ficar adulto, nem sabia que a maturidade traz inúmeros problemas e decepções. Eu sonhava alto, embalado pelos desejos de minha meninice.

É. Não trabalhei na Petrobras. Aliás, nunca tentei ingressar em seus quadros de empregados. Mas, quem sabe, eu ainda realize parte do meu sonho de criança e compro um Jeep Willys preto, equipado com vários acessórios. Ah, como seria massa.

Afinal, diria Dostoiévsk, “o sonhador remexe nos seus antigos sonhos, como se ainda procurasse no rescaldo uma centelha, uma só, por pequena que fosse, sobre a qual pudesse soprar, e com a nova chama assim ateada, aquecer depois o coração gelado e voltar a despertar nele o que dantes lhe era tão querido”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/09/2021 - 08:34h

De uma quieta tendência a negar o barulhento mundo

Por Honório de Medeiros

Enrique Vila-Matas, em seu inigualável Bartleby e Companhia, chama-nos a atenção para os “seres que imitam a aparência do homem discreto e comum” no qual “habita, no entanto, uma inquieta tendência à negação do mundo.” Estranha, mas compreensível pulsão!Silêncio, cadeira, mansisão, vazio, calma, paz, enigma,

Isso me conduz à lembrança de meu pai e seus silêncios, sua deliberada omissão em falar acerca do seu passado, seu instintivo jogo retórico no qual se escudava para evitar qualquer manifestação que implicasse em juízos de valor, sua disponibilidade convidativa para escutar quem lhe procurava, ao mesmo tempo em que levava o interlocutor a expor a própria alma, enquanto a dele permanecia resguardada.

Profundamente quieta era sua negação do barulhento mundo, sob o manto da discrição e das palavras comuns, triviais, incolores de tão banais, tudo sabiamente usado. Uma sábia estratégia.

Hoje percebo, enquanto cuido de ir fechando o balanço de minha vida: em certos e raros instantes, uma sóbria colocação de sua parte estabelecia um silêncio que era um golpe profundo na ordem circunstancial das coisas. Feito isso, se recolhia, e voltava à aparente reserva plácida de sempre.

E eu, e nós, que sempre o achamos tão comum! Quanto engano. Como poderia ser assim, ele que sempre foi um sobrevivente, que viveu tantas guerras inglórias e só aparentemente insignificantes?

Quanta arrogância, a nossa, em pensar que podemos conhecer algo ou alguém em profundidade!

Meu pai, aparentemente, sabia muito e percebia que não valia a pena que o ninguém soubesse disso. Ou, então, pensava que saber era um caminho único, áspero, mas intensamente solitário.

E assim viveu seus anos, principalmente os últimos, envolto nesse manto de humildade intelectual que era uma consequência de seus questionamentos mais íntimos, nunca uma predisposição, um intuito hipócrita de galgar atenção.

Quando faleceu, como que despertando de um sonho iniciei a longa caminhada em busca de compreendê-lo, analisando suas palavras e posturas mas, principalmente, seus silêncios tão plenos de uma anônima rica vida interior.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/09/2021 - 07:52h

Crepúsculo do domingo

Por Marcos Ferreira

Meu muro frontal é baixo, conforme declarei num texto publicado não faz muito tempo. Deito os olhos no comprido da rua. O domingo boceja sob um manto de arrebol. O domingo vai saindo de cena feito um velho exausto. Sim, examino esta estreita e esburacada Euclides Deocleciano à hora do crepúsculo. Para ser mais dramático, talvez à maneira de um poeta parnasiano, digo que o domingo está morrendo, agonizando em lânguidos raios sanguíneos na linha do horizonte.

Já não mais é tarde nem ainda é noite. Há um impasse entre o claro e o escuro. O tempo se encontra momentaneamente enguiçado no lusco-fusco, todavia pende devagarinho para os braços da noite. Assim mesmo nos restam uns retalhos de claridade solar. Os tensos postes desta via, como militares em fileira, continuam apagados. Logo, entretanto, acenderão as suas fortes luminárias de led.gato debaixo de pano

Não há cadeiras nas calçadas. Suponho que meus vizinhos esticaram a sesta, estão ocultos em suas casas, possivelmente deitados, curtindo o ócio após uma semana puxada. Sobretudo as donas de casa, que parecem nunca ter descanso, reféns da herança maldita das infindáveis tarefas domésticas. É injusta, machista, essa cultura que impele as mulheres aos afazeres do lar, enquanto a marmanjada assiste a futebol na televisão, no bem-bom do sofá, de uma cama ou de uma rede.

O vento açoita as acácias, derrubando folhas secas; ergue poeira dos paralelepípedos sujos e tortos. Dois vira-latas brincam de gato e rato, gozando da ausência de veículos. Só agora, a propósito, surge uma picape de vidros fumês. Os cães suspendem a brincadeira por um instante e a retomam logo após. A seguir um levanta a perna e urina ao pé do poste sobre a calçada da senhora Raimunda.

Os pássaros começam a se recolher na mangueira aos fundos. Uns quatro morcegos dão voos rasantes de uma ponta à outra do meu quintal, passam raspando sobre o muro, ganham o espaço aéreo da rua e, audazes, repetem essa e outras manobras arrojadas. Onde estão as andorinhas? Alguém sabe dizer? Nem sei a última vez que as avistei. Este céu sem andorinhas é como um mar sem o sobrevoo de gaivotas. Sequer há pombos. Noto que os pombos também andam sumidos.

A senhora Raimunda surge na calçada com uma vassoura. Põe-se a varrer a cerâmica rústica. A poeira sobe. Alguns minutos depois, quiçá ofegante, interrompe a varrição. Olha para um lado e outro, porém não se dá conta da minha espreita. Percebe que um motoqueiro se aproxima e volta para dentro. Ela sabe que há ocorrências de assaltos no bairro. Agora surgem dois gatos no terreiro de Cristina, a vizinha aqui defronte. É um bichano amarelo e o outro é um cinza felpudo.

Após farejarem e demarcarem o perímetro, os cachorros dobraram a esquina da lanchonete de Zecão. Nenhum possui coleira. Possivelmente alguém lhes reivindique a tutela, contudo vivem soltos. São animais dóceis e ordeiros. Exceto por alguns sacos de lixo que, vez por outra, aparecem rasgados nas calçadas. Semana passada, por exemplo, ouvi a senhora Raimunda contrariada por causa disso.

— Que cachorros safados! — ralhava sozinha.

O vento assobia. Às vezes semelha um uivo nas rótulas das portas e janelas; ergue a areia das pedras, desacata os ramos das árvores e os fios do posteamento. O bairro inteiro parece imerso numa atmosfera modorrenta. Os rádios estão mudos. Por incrível que pareça, não ouço os aparelhos de som executando o nauseante gosto musical de alguns cidadãos. Tenho estômago fraco para certos sucessos gritados por uma récua de cuspidores de microfone que se consideram artistas.

Neste momento são os gatos que aproveitam a ausência daquela dupla de vira-latas brincalhões. Os felinos, como é típico da espécie, também brincam, encenam um combate inofensivo. Um salta sobre o outro, rolam pelo chão. O amarelinho, um tanto menor, dá um zapetrape no cinza, que reage da mesma forma. A senhora Raimunda retorna à calçada, posto que o motoqueiro vai longe.

Vem outro carro. Passa devagar. Os gatos sobem a calçada. A senhora Raimunda não receia o condutor do automóvel. Decerto acredita que indivíduos atrás de um volante não cometem crimes à mão armada, só os que pilotam motocicletas. É verdade, seja dito, que pouco se tem notícia de assaltantes guiando carros. A predominância (e daí advém o preconceito) é dos criminosos sobre motocicletas. Eu mesmo presenciei um vizinho sendo pilhado aqui diante do meu portão.

Dois sujeitos armados tomaram a carteira e o celular do homem. Fiquei me tremendo do lado de cá do muro. Recordei que trinta anos atrás sofri esse tipo de violência. Novamente dois bandidos. Um deles (ambos estavam encapuzados) botou o revólver atrás da minha cabeça. Nessa ocasião sequer me assustei. Horas depois, porém, bateu aquele mal-estar, uma sensação de quase morte.

Enfim os postes acenderam. Os morcegos intensificam as acrobacias aéreas. É incrível como não esbarram em nada. Ainda não são dezoito horas. Está próximo da noite se configurar. Pouco a pouco, em pontos esparsos, vão surgindo alguns moradores. A rua vai ganhando vida. A senhora Raimunda já se encontra sentada numa cadeira na calçada, em companhia da nora Navegante, também numa cadeira de balanço, tendo sobre o colo sua pequena e mimada cadela Pretinha.

Dentro de minha casa já está escuro. Penso em acender as luzes, no entanto me detenho por mais uns minutos observando a paisagem da Euclides Deocleciano. Zecão aparece na calçada, nu da cintura para cima, trajando bermuda estampada e sandálias de borracha. Hoje, pelo que percebo, não abrirá a lanchonete. Será que tem jogo do Flamengo? Sim, ele é flamenguista, e do tipo apaixonado.

Chega a ser divertido ouvi-lo torcendo em dia de jogo. É um show à parte. Se o time está perdendo ou no sufoco, xinga os jogadores, critica o técnico, esculhamba o juiz, larga um palavrão aqui, outro acolá. Ninguém se aborrece com Zecão. Os vizinhos gostam dele. Inclusive eu, que nutro, digamos assim, uma simpatia pelo rubro-negro. Isto, devo dizer, sem nunca ter vestido uma camisa do Flamengo. Só me interesso mesmo se o time já estiver na iminência de ser campeão.

O domingo está praticamente liquidado. Volto para dentro e acendo as luzes. Minha gata Gudãozinho ronrona aos meus pés. Olho a panelinha dela e coloco mais um pouco de ração. Sento à mesa e tento finalizar esta crônica crepuscular de modo a compensar o tempo empregado pelas senhoras e senhores. Eis um final nada brilhante, mas é o que eu tenho para hoje. Zecão acabou de gritar gol.

Com licença. Vou dar uma olhadinha no jogo.

Marcos Ferreira é escritor

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sábado - 18/09/2021 - 09:18h
Filhos

Crônica para dizer que quero bem

pai e filho, mãos, adulto e criançaCrianças, a gente vibra com o engatinhar.

Qualquer macaquice e achamos o máximo.

As primeiras palavras ininteligíveis ecoam como sonata.

Na escola, na vida, nos passos que dão longe de nós, um misto de temor e alegria.

Crescem e continuamos bobos.

Filhos – agora – somos nós.

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domingo - 12/09/2021 - 15:38h

O amigo José Augusto Delgado

Por Ney Lopes

Faleceu (veja AQUI) o conterrâneo e amigo José Augusto Delgado, 83, ministro do STJ e magistrado exemplar.

Nasceu no município de São José do Campestre-RN, em 7 de junho de 1938, filho de João Batista Delgado e de Neuza Barbosa Delgado.

O ministro iniciou sua carreira de magistrado em abril de 1965, assumindo o cargo de juiz de Direito na Comarca de São Paulo do Potengi (RN).

José Augusto Delgado é potiguar de origem, tendo nascido em São José de Campestre (Foto: arquivo)

José Augusto Delgado é potiguar de origem, tendo nascido em São José de Campestre (Foto: arquivo)

Com 10 anos na magistratura estadual, o ministro Delgado foi indicado, por merecimento, para o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), mas o governador não o escolheu.

Na época, tinha 34 anos. Em razão de não ter sido escolhido para o cargo de desembargador, fez concurso para juiz federal substituto, tendo sido aprovado em 1º lugar.

O concurso na época era nacional.

Ingressou no STJ em 15 de dezembro de 1995, aposentando-se em 5 de junho de 2008.

Na UFRN exerceu o magistério durante anos, como professor de Direito Administrativo, meu colega, visto que eu lecionava Direito Constitucional.

São inúmeros os trabalhos jurídicos publicados de sua autoria.

Ao aproximar-se a sua aposentadoria, em 2008, foi homenageado com um livro, que traça o seu perfil biográfico, de autoria do colega e amigo Dr. Diógenes da Cunha Lima.

Ficou registrado nos anais do STJ a entrega do gabinete, com quase 120 mil decisões proferidas e menos de 50 processos pendentes.

O livro dá testemunho de uma pessoa profundamente humana, que representa fidelidade, constância, afeto dos familiares.

Amigos há mais de 40 anos, Cunha Lima fala da vida e traça um perfil do ministro José Delgado, a quem considera um vitorioso.

A morte do Ministro Delgado significa uma perda nas letras jurídicas nacionais. Ele, que começou como advogado, dignificou a atividade jurídica e merece o respeito das gerações futuras.

Integrou a Academia Brasileira de Letras Jurídicas, sediada no Rio de Janeiro; a Academia Brasileira de Direito Tributário, sediada em São Paulo; a Academia Norte-rio-grandense de Letras e a Academia Tributária das Américas, como membro do Conselho Honorífico.

Certa vez indagado sobre as coisas de que mais gosta, o ministro Delgado foi direto: do sol de Natal, das praias do Rio Grande do Norte, do sorriso e do amor de Zezé (sua esposa), do carinho dos filhos, da doçura de suas quatro netas, do amanhecer familiar e do abraço dos amigos.

Que Deus o receba na Eternidade!

Ney Lopes é jornalista, ex-deputado federal e advogado

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domingo - 12/09/2021 - 14:16h

O autor e seu processo

Por Marcelo Alves

Há alguns anos estive em Praga. Era minha segunda vez na capital da República Tcheca. Dessa feita, amante da literatura e do direito, decidi visitar um café/restaurante que, me disseram, havia sido frequentado por Franz Kafka (1883-1924). Já não lembro o nome do estabelecimento (e olhem que gosto muito de cafés, bares e assemelhados). Recordo apenas que era fora do miolo turístico da cidade. E, não sei se foi a bebida, um vinho tcheco honesto, tomado à abundância, mas a lembrança que eu tenho do meu encontro com o autor de “O processo” (1925) foi de uma natureza bastante estranha.

Frame do filme "O Processo", de Orson Welles (Reprodução)

Frame do filme “O Processo”, de Orson Welles (Reprodução)

O café estava quase vazio, tirando um ou outro habitué, que parecia estar ali, sem que soubesse o porquê, detido/amalgamado, há mais de um século, à decoração decadente. Foi uma assustadora volta a um tempo já ido, ao qual, mesmo sem ter feito qualquer mal, receei ficar preso eu também. “Sinistro”, como dizem hoje.

Dito isso, posso desenvolver duas ou três ideias sobre Kafka e sua obra. O autor nasceu em Praga, à época parte do grande Império Austro-húngaro. Sua família era judia da região da Boêmia. Falavam alemão e ele assim foi educado. Nunca casou. Diz-se haver simpatizado com o socialismo. Muito importante para nós, Kafka escreveu em alemão. Romances (inacabados) e contos, sobretudo. Seu trabalho mistura o real e o fantástico, beirando o que hoje temos por realismo mágico. Daí decorre haver o termo “kafkiano” entrado nas línguas ocidentais para descrever situações absurdas como aquelas encontradas nos seus textos. Seus principais títulos são “A Metamorfose” (1915), o já citado “O Processo” e o “Castelo” (1926). Faleceu de tuberculose, ainda jovem.

É tido com um dos grandes nomes da literatura alemã e mundial do século passado. Um cult. E a impressão que tenho, quando se fala da presença do direito na literatura alemã, é que nos vem logo à mente Kafka e o seu “O processo”.

Segundo consta, “O processo” foi escrito entre 1914 e 1915, embora só publicado postumamente, em 1925, por iniciativa de Max Brod (1884-1968), também escritor judeu, assim como amigo, biógrafo e executor literário de Kafka.

Basicamente, o livro conta a estória do bancário Jofeph K., que, por um “crime” ou por razões nunca reveladas, nem a ele nem ao leitor, é preso, processado e condenado por um misterioso e inacessível tribunal. É verdade que “O processo” é um livro inacabado, mas um dos seus capítulos também dá a entender que esse foi um dos objetivos – objetivo paradoxal, sem dúvida, como de estilo – do seu autor.

O absurdo existencial é a tônica da narrativa, em meio a sonhos, pesadelos e fatos do cotidiano. A trama é a loucura ou o absurdo, e daí, mais uma vez, enxergamos a consagração do adjetivo “kafkiano”, também para as questões ou os procedimentos do direito.

Na verdade, há várias interpretações sobre esse romance que é considerado uma das obras-primas da literatura alemã. “O processo” é Top 5 entre os romances do século XX, com certeza. Algumas são consistentes; outras, nem tanto. Já se disse, por exemplo, ser ele uma meditação/análise/crítica sobre a burocracia estatal, sobre o totalitarismo, sobre Deus, sobre estados psicológicos, sobre a desesperança e a alienação do homem moderno, sobre a própria vida de Kafka e por aí vai. Cada um desses temas destacadamente ou tudo isso junto e misturado.

Há, evidentemente, interpretações mais pé no chão. “O processo” seria tão somente uma análise, em forma de fábula, sobre instituições – e, em especial, os aparelhos policial e judicial – e sobre a impotência do cidadão em relação a elas. Uma fotografia poética da tão comum absurdez dos processos policiais/judiciais, hoje ditos “kafkianos”, a que são submetidos sobretudo os mais vulneráreis. Uma interpretação, digamos, mais sociológico-jurídica. E bem atual, convenhamos.

E, claro, tem a minha interpretação. Que processa literatura, Praga, um café misterioso, muito vinho e o medo de ficar preso, sem ter feito mal algum, a um passado sem futuro.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/09/2021 - 10:46h

Vai chover

Por Inácio Augusto de Almeida

Espio para este céu azulzinho e me avexo.

Tão bonito e ameaçador.

A plantação desde há muito não dá nada, desde a era em que Jesus levou Cecinha para junto dele. chuva, guarda-chuvaAinda me arrecordo dela, tão magrinha, tossindo, tossindo, tossindo. Seus óios crescendo todos os dias como se fossem ficar do tamanho da lua.

Até que um dia ela assossegou pra sempre.

Compadre Bento, que entende destas coisas, me jurou que foi do gosto de Deus, porque se não fosse ela teria ficado junto deu e hoje era uma mocinha.

Se eu tivesse recurso naquele dia para ter levado ela para o Doutor da cidade olhar, talvez Deus tivesse esperado um pouco mais.

Mas eu não tinha dinheiro nenhum e me acanhei de pedir ao Coroné.

Ele já tinha sido tão bom comigo.

Até comprimido de Melhoral ele já tinha me dado para ver se a Cecinha ficava boa daquela tossideira.

Seu vigário me disse que compadre Bento tinha razão.

Cecinha só se foi porque Deus quis.

Se chovesse um bocadinho que fosse eu saía desse aperto. Plantar eu plantei, só falta um tiquinho de água, uma gotinha só.

Mariazinha já está com a mesma tossideira da Cecinha. Dá vontade de chorar, mas não posso chorar.

Me disseram, desde que eu era menino que só servia para apanhar algodão, que sertanejo não chora, que choro fica para quem é do brejo. Mas que sinto uma vontade lascada de chorar, eu sinto, não vou mentir.

Meu coração parece que está sendo cortado por uma peixeira cega.

Dói muito, muito mesmo.

Naquele último ano em que deu safra, foi muito bom.

Eu me arrecordo de que comprei até um vestido novo para a Cecinha.  Foi bom demais, como foi bom.

O homem que veio da cidade comprar as coisas da gente pagava tudo com dinheiro novinho que parecia pão quente que a gente come quando vai à cidade.

Compadre Bento me explicou que o dinheiro estava estalando porque era dinheiro do banco que tinha sido emprestado ao homem para comprar o que a gente tinha apanhado.

O homem só queria comprar tudo barato e terminou a gente vendendo barato mesmo, senão estragava tudo. Mas mesmo destes modes ainda deu pra gente tomar umas pingas na bodega do seu Manuel e ir ver a novena na cidade.

Como a Santa tava bonita e como o seu vigário tava alegre.

Mariazinha continua tossindo, o céu continua azulado, tão azulado como o pano que enrolou Cecinha.

Mas vai chover, se Deus quiser, vai chover.

E Deus é bom.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 12/09/2021 - 08:48h

Bruna fascistinha

Por Marcos Ferreira

Terça-feira passada, feriado do 7 de setembro deste sombrio 2021, por volta das cinco e meia da tarde, eu pilotava a minha Fan 160 em direção à casa de Natália Maia, a quem comecei a namorar justamente num 7 de setembro, e que reside no bairro Aeroporto. Esta última e irrelevante informação me força a revelar (talvez eu devesse dizer relembrar) que moro no conjunto Walfredo Gurgel, no grande Alto de São Manoel, distante sete quilômetros da residência de Natália.

Pois bem. Eu trafegava pela Avenida Augusto Severo e, quando parei no semáforo diante do Teatro Municipal Dix-huit Rosado, eis que a minha moto estancou. Acionei a partida elétrica, porém sem êxito. O sinal ficou verde, o motorista de uma Pajero buzinou atrás de mim, indelicadamente, e precisei descer da moto e sair do meio da rua à pressa. Dirigi-me, então, para o lado da praça.pneu-clássico-da-motocicleta-40392160

Parei junto ao meio-fio. Sob a grande árvore que margeia o canteiro defronte ao teatro, pelos meus cálculos, estavam cerca de dez motocicletas superpotentes, tendo ao lado os seus respectivos proprietários, todos vestidos com trajes característicos desse pessoal que integra algum clube motociclístico.

A uma pequena distância, um tanto constrangido e preocupado com o defeito do meu transporte, estimei que eu não conseguiria comprar uma supermoto daquelas nem que vendesse bem vendida (não vejam isso como coitadismo) a minha humilde residência. De forma alguma. Motocicletas daquele porte e cilindrada, se não me engano, custam até mais caro que um carro popular. Especialmente porque naquele meio se encontravam uns quatro modelos da fabricante BMW.

Bom. Eu tentava fazer a moto funcionar na partida, pois não cogitava a necessidade de fazê-la pegar no empurrão, mesmo porque não sei se alguém estaria disposto a me ajudar a empurrá-la. Daí a pouco notei que duas moças entre os vinte e cinco e trinta anos se aproximaram. A que supus mais velha sentou no banco de alvenaria e a outra ficou em pé perante a que estava sentada. A moça em pé achava-se virada para o meu lado; conversava animadamente com a amiga.

— Então, tá gostando? — indagou ela.

— Eu não sei — respondeu a mais velha.

A moça sentada, a exemplo de outras pessoas à volta, usava a camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Foi aí que eu me dei conta de que a maioria daqueles indivíduos na praça defronte ao teatro (uns gatos-pingados) estava no local numa fraca manifestação de apoio ao sujeito da Casa de Vidro.

Quem me chamou realmente a atenção, entretanto, foi a moça de pé diante da que vestia o amarelo-canário. Sim. A moça de pé, que logo depois fiquei sabendo chamar-se Bruna, trajava uma camiseta branca de algodão com o rosto impresso do canalha-mor ladeado por dois fuzis. Vejam que coisa esdrúxula: blusa branca com estampa da fuça do Energúmeno, em tinta preta, adornada por fuzis. Por um instante a angústia pelo defeito da moto se transformou em repulsa.

— Olha, Bruna, eu confesso que pensei que fosse ter mais gente — comentou, desapontada, a garota com a camiseta da Seleção.

É de causar desgosto (estou certo de que não apenas a mim) o modo e circunstância como a camisa da nossa seleção de futebol tem sido usada nos últimos tempos, sobretudo por uma elite golpista e fascista. Não só a camisa, mas também a bandeira nacional, cuja legenda está prestes a ser modificada para “desordem e retrocesso”. Pior que muitos pobres emprenharam pelos ouvidos.

A poucos metros de mim, portanto, com as suas cabecinhas cheias de porcarias politicantes, estavam aquelas duas moças bem-parecidas, de pele branca, cabelos e olhos claros, ambas recrutadas por esse fascismo acintoso que ora toma conta deste país tão rico e com gigantesco número de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, curtindo fome em todos os recantos. Sim! Há muitas pessoas catando comida no lixo, disputando com os ratos. Inclusive em Mossoró.

Eu insistia na partida elétrica, contudo a moto não pegava. Os donos das supermotocicletas já me olhavam de quando em vez. As duas moças papeavam descontraídas, indiferentes ao meu drama automobilístico. Alguns circunstantes agitavam bandeiras do Brasil. Não avistei ali nenhum político desta urbe ou estado, muito menos um pobre desses que passam fome, entre os manifestantes.

— Pouca gente — disse a moça do banco.

— Não sei não, mulher — reagiu a outra.

— Veja isso, Bruna. Acho que não tem cinquenta pessoas nessa praça. Mossoró é fraca demais nessas coisas. Aposto que lá em Natal, em Fortaleza e Recife o negócio tá bombando. Aqui, infelizmente, tá muito fraco.

— É verdade, amiga. A coisa tá fraca, sim. Mas a gente tem que apoiar nosso presidente. Querem derrubar o mito de qualquer jeito. Por mim, amiga, ele mandava o Exército fechar o Senado, a Câmara e, principalmente, o STF, e prender aqueles ministros bandidos. Essa é a vontade, tenho certeza, da grande maioria do povo brasileiro. Mas concordo com você. O movimento tá fraquinho.

— Além disso, mulher, eu só vejo homem feio.

— Eu acho aquele ali, de boné virado, um gato.

— Qual? O alto de regata verde e bermuda jeans?

— Exatamente, amiga. E ele tá olhando pra cá.

— Então vamos mais pra perto dele, mulher.

— Vamos sim, amiga. Mas disfarça, por favor.

Felizmente, apesar de todo o cerco, rompantes e aspirações fascistoides dos bolsopatas na Praça dos Três Poderes no último dia 7, o Senado, a Câmara Federal nem o STF foram fechados. Nem haverão de ser. A nossa ainda jovem democracia há de resistir a esses fanáticos e maus-caracteres que apregoam a volta da ditadura militar. O verdadeiro Brasil voltará aos trilhos nas eleições de 2022.

As duas moças saíram de mansinho em direção ao suposto gato. Observei ainda que Bruna fascistinha, de pernas benfeitas e saia verde-amarelo, usava um par de botas pretas de cano comprido que mais pareciam coturnos.

Enfim, após várias tentativas, a moto pegou, e eu segui viagem. Penso agora que esta crônica poderia ser unicamente sobre os seis abençoados anos do meu relacionamento com a minha adorável noiva Natália Maia. Entretanto, como vocês viram, surgiu essa Bruna fascistinha no meio do caminho e roubou a cena e o tema. Chamemos a isso de acidente de percurso. Forte abraço e até a próxima.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/09/2021 - 11:32h

7 de Setembro

respeitoPor Inácio Augusto de Almeida 

Engana-se redondamente quem imagina esta manifestação do dia 7 de setembro ser de apoio a determinado grupo político.

Este movimento é um grito de alerta do povo brasileiro a ouvidos insensíveis.

O Brasil já não suporta ver, passivamente, o bate cabeça de poderes que não se respeitam e, por não se respeitarem, perderam o respeito do povo brasileiro.

O Brasil já não suporta tanta fome, desemprego, carga absurda de impostos, privilégios descabidos, corrupção e impunidade.

O Brasil vai mostrar a sua cara neste 7 de setembro, inundando ruas e avenidas, para clamar:

CHEGA!

Os que têm ouvidos, que ouçam. E não façam como Maria Antonieta.

A história recente do país nos deixou um legado de dor e sofrimento. Os fatos ainda presentes na memória das gerações que vivenciaram aqueles anos gritam que tudo aconteceu porque viver na anarquia é impossível.

Lágrimas ainda rolam em muitos corações, mas a desestruturação social vigente à época, causadora da miséria e do atraso, exigiu o remédio amargo.

O povo, na sua sabedoria, grita ainda existir tempo de tudo corrigir e evitar tanta dor e sofrimento.

A mensagem é clara.

Do jeito que está não continua.

Não pode e não vai continuar.

Viver na miséria num país rico é revoltante. E esta revolta se agiganta quando se sabe que a fome existe por conta da impunidade.

Todos os brasileiros sabem que os seus direitos não são respeitados.

Por ter consciência desta falta de respeito é que dia 7 de setembro estará nas ruas.

RESPEITEM O POVO BRASILEIRO.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 29/08/2021 - 06:48h

Recado às nuvens

Por Marcos Ferreira

Já estamos no finalzinho de agosto e há muito não cai do céu uma gota d’água. Não ao menos nesta Mossoró, terra do Sol e do calor. E por este resto de ano, ao que indicam as sérias projeções da moça do tempo, não mais haverá de chover por aqui. Um verdadeiro suplício para a nossa ressequida aldeia.

Onde vocês estão, nuvens de chuva, que tantas águas derramam por este imenso país, no entanto não vêm aqui trazer uma garoa sequer? A fauna e a flora, o nosso poluído rio, os açudes e os trabalhadores do campo, todos estão por demais necessitados. A falta d’água, sobretudo na zona rural, faz brotar a fome com espantosa velocidade, contribui drasticamente para a escassez de alimentos.nuvens, céu, menino, escada, pinturaHá muita poeira sobre nossos telhados e espíritos, em nossos olhos e corações. Venham lavar as nossas almas, benditas nuvens. Tragam algumas boas chuvas para esta província de céu escandalosamente azul. Sim, um pouquinho de gris não fará mal a estes longes onde é possível estrelar ovos no asfalto.

Quando a chuva vier, quem sabe uma por quinzena, aí daremos uma festa. Faremos, por que não, uma dança da chuva. Que tal, senhoras nuvens chuvosas?! Imagino que não estou pedindo muita coisa, posto que há diversos lugares neste Brasil e no mundo padecendo justamente devido ao excesso de precipitações pluviométricas, usando aqui expressão bem típica dos meteorologistas.

Vindo a chuva, de preferência no período da tarde, sairemos para as calçadas de peito aberto. Buscaremos as calhas, as biqueiras com maior volume d’água. Homens, mulheres e crianças, todos numa confraternização líquida e pura. Algumas pessoas, como se dava outrora, usando sabonetes e xampus.

Nesses dias, em caráter excepcional, os patrões dispensarão os seus empregados mais cedo, para que estes possam usufruir do grande e abençoado evento de uma tarde de chuva. Assim como se fazia em jogos de copa do mundo de futebol. Mossoró inteira prestigiará a duradoura, volumosa e serena água caindo do espaço, sem necessidade de guarda-chuvas nem ocorrência de raios e trovões.

— Obrigado! — diremos olhando pro céu.

Ninguém se incomodará (quero me referir ao público feminino) se o cabelo arrumado e engomado na véspera perderá o efeito da pranchinha e do secador. É provável que tais mulheres, sabedoras de que se trata de uma semana com chuva iminente, evitarão gastos desnecessários com salões de beleza.

O ponto alto na programação recreativa dos mossoroenses, não importando a classe econômica do indivíduo, seu status ou religião, será unicamente um longo e revigorante banho de chuva. Pode ser em qualquer parte do município onde a pessoa se encontre, debaixo ou não de uma biqueira. O que vale, senhoras nuvens, é nos deixarmos lavar e envolver pelo abraço benfazejo da água.

Aqueles que porventura estiverem no meio do trânsito, guiando os seus veículos, não podem se furtar dessa experiência. Orienta-se, pois, que estacionem de imediato e se exponham ao fenômeno pluviométrico (eis a palavrinha outra vez). Cidadão algum há de ignorar ou desmerecer tal acontecimento.

Será uma imagem graciosa, um colírio para os olhos, assistirmos à meninada festiva em meio ao aguaceiro, bandos de moças com as suas roupinhas casuais e ainda mais coladas a seus corpos pela ação da água, felizes, descontraídas, suscitando pensamentos outros em nossas cabeças de marmanjos à espreita. Dias venturosos serão esses, senhoras nuvens. Tudo isso depende de vocês.

Tragam chuva para Mossoró. Pode ser, como eu disse, apenas uma por quinzena. Contanto que seja duradoura e, se possível, à tarde. Que o bom São José me perdoe por tê-lo driblado, prescindo da sua intercessão junto a vocês, amigas nuvens carregadas. Deus sabe que assim procedo por causa nobre.

Minha terra é bonita, embora a violência, a criminalidade, ofusque e contradiga a nossa propaganda de povo hospitaleiro, gente pacata; essas velhas e batidas peças publicitárias de que o Palácio da Resistência faz uso sem muita veracidade e nenhum pudor. De resto, amigas nuvens, este é um lugar interessante. O que está nos faltando, e desde sempre, é a dádiva de um refrigério climático.

Não lastimarei que em minha rua, que possui escoamento extremamente precário, fiquemos com a água na altura dos joelhos. O que é que tem?! Será este um pequeno transtorno em favor de um bem maior, coletivo. Outros locais ficarão alagados, a exemplo do Centro, ainda assim agradeceremos.

Vocês precisam ver o pequeno rio em que se transforma esta Euclides Deocleciano, aqui no Conjunto Walfredo Gurgel, quando bate uma boa chuva. É um espetáculo! A água invadia as casas e aí os moradores, sem o socorro dos políticos desta urbe há décadas, tiveram que construir barreiras diante de suas portas. Aqui em casa ela ultrapassa o portão e vem lamber a minha soleira.

Todavia, amigas nuvens, não se preocupem com isso. Não lhes compete. Esse é tão só um problema crônico de drenagem que nossos homens públicos, principalmente por parte daqueles que se aboletaram na cadeira da prefeitura, têm ignorado olimpicamente há longos anos. Por ora, façam chover.

Nesses começos de tarde, quando o calor nesta província atinge níveis abrasadores, por mais de uma vez abandono esta escrivaninha e vou para debaixo do chuveiro. Poucos minutos depois, ao deixar o banho e percorrer alguns metros até alcançar uma toalha pendurada no varal, eis que meu corpo já se encontra praticamente seco. O vento que circula parece originário de uma fornalha.

Tragam-nos chuva, amigas nuvens. Não liguem para as goteiras no meu telhado. Eu me viro aqui com umas panelas e baldes. Estamos carecidos do líquido que vem do alto. Nossas árvores vêm sofrendo. O céu de Mossoró está num completo desmantelo azul, como naquele soneto do Carlos Pena Filho.

Será bom, repito, um pouco de gris no espaço. Daí a pouco o Sol reaparece e todas as cores retomarão exuberantemente os seus devidos lugares. Mas a chuva, ao menos uma a cada quinze dias, representará uma bênção. A vegetação renascerá das cinzas, os pássaros cantarão intensamente, a orquestra dos sapos e rãs convocará seus membros para uma apresentação em caráter urgentíssimo.

Ah, amigas nuvens! A água é a origem da vida. E nossas vidas ficarão mais alegres com a chuvarada. Atendam, se acaso me ouvem, esta súplica mossoroense. Prometo, para me redimir com São José, acender uma vela ao padroeiro das chuvas no sertão. Fico por aqui. Suponho que já falei muita água.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 22/08/2021 - 13:50h

A vaquinha Vitória

Por Inácio Augusto de Almeida 

Era uma vez uma vaquinha chamada vitória.

A vaquinha morreu.

Acabou-se a estória.Vaca, vaquinha,Leu e releu, mas não deu para entender a estória que não dizia do que a vaquinha tinha morrido. Apenas dizia que a vaquinha morreu.

Muito complicado.

Fez um longo comentário exigindo do autor da estória que explicasse, com riqueza de detalhes, a causa da morte da vaquinha vitória.

Como não recebeu resposta, imaginou que um mistério enorme existia por trás do que parecia ser uma estoriazinha sem pé nem cabeça.

Deu asas à imaginação e concluiu tratar-se de uma mensagem dirigida a um grupo que poderia estar colocando em risco a segurança nacional.

Respirou fundo e olhando as estrelas, cheias de brilho daquela noite de verão, teve a certeza de que a estória da vaquinha era uma mensagem deixada por alienígenas para outros extraterrestes que já estavam entre nós preparando a invasão.

A morte da vaquinha era os longos soluços dos violinos de outono do poema do Paul Verlaine.

Riu e sentiu-se mais inteligente do que Arquimedes.

Pensou em sair gritando pelas ruas, na madrugada quente de Mossoró; descobri, descobri, DESCOBRI! Lembrou-se dos assaltantes e se consolou dizendo para si que não seria original se assim o fizesse, que logo iriam aparecer os caçadores do calcanhar de Aquiles para dizer que seu gesto era um arremedo do que fizera Arquimedes.

Resolveu deixar para revelar a bomba tão logo o dia amanhecesse.

Na calçada viu duas crianças esperando o transporte escolar. Falavam da vaquinha vitória com tristeza porque a tia encerrou a estória dizendo que a vaquinha morreu e a estória acabou.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 22/08/2021 - 07:50h

Querido Texto…

Por Marcos Ferreira

Bom dia, querido Texto. Ou boa tarde ou boa noite, a depender do momento em que você se faça presente ao longo destas páginas.

Aqui estamos, mais uma vez, neste encontro ameno e silencioso. E é sempre assim, você comigo e eu com você, sujeito às suas conveniências. Escrevo, porém, com o mesmo carinho, com renovada alegria e prazer. Exatamente, querido. Toda vez é uma grande satisfação colocar-me diante deste velho notebook, sentado a esta escrivaninha já bamba, e estabelecer contigo este diálogo. Jamais um solilóquio. Porque sei que da sua parte, com as suas particularidades, interagimos.

Como percebe, hoje amanheci coberto de lirismo. Sinto a alma leve. Estou de bem com a vida, aqui tomando o meu cafezinho escoteiro e ouvindo a passarada trinando na copa da mangueira, no quintal da residência aos fundos da minha. É uma beleza essa trilha sonora. Isso ocorre, sobretudo, cedinho.escrita, texto, escrever, diálogo,

Nessas ocasiões sequer aciono a playlist com oito horas de blues. Dou preferência à maviosa e diversa música dos cantores alados. Sei que isso não é novidade, recordo que falei sobre esses artistas outro dia. No entanto, como costumo dizer, não faz mal recordar o que faz bem. Ao menos a mim, que desafino até batendo palmas, a música propicia um lenitivo, um bem-estar indescritível.

Então, querido Texto, ouçamos mais o que nos têm a dizer os passarinhos. Quanta poesia existe em suas vozes polifônicas! É um privilégio poder ouvi-los, “mal rompe a manhã”, como no verso de Drummond. Quisera eu ter maior engenho, um tanto mais de poeticidade na escrita para homenageá-los.

Há ainda o farfalhar dos ramos da grande árvore, expostos ao sabor do vento. Isso, de repente, lembra-me “as folhas de coqueiro amareladas pelo tempo” aqui e acolá referidas pelo cronista Inácio Augusto de Almeida, visão de que usufrui deitado em sua cama, através da janela do quarto. Inácio, não nos enganemos, é um enfeitiçador de palavras. Possui o que contar e faz isso com qualidade.

— Canta, canta, passarinhos — murmuro aqui, como se eles fossem capazes de ouvir e de entender o que eu digo. Não é, Bilac?

Após um bocejo leonino, tomo mais um gole da rubiácea. Estalo os dedos, conserto os óculos no alto do nariz, e me aprumo na cadeira giratória. Penso em soltar o blues, porém o trinado do passaredo continua em alto e bom som. Gudãozinho, minha grácil e trêfega gatinha, aninha-se aos meus pés.

— Oi, Gudãozinho? — converso com ela, como de costume. Isso ocorre o dia todo. Ela ronrona, comprime os olhos azuis. Adora deitar-se sobre meus chinelos. Arranha de leve meu pé esquerdo, ameaça mordiscar-me o tornozelo. É brincalhona à beça. Mas só comigo. Quando recebo alguém, ela foge, vai se esconder no banheiro, atrás do vaso sanitário. Fica lá encolhida até a visita ir embora.

— Quer seu sachê? — aí ela arregala os olhos.

Permita-me uma digressão, ou um parêntese.

Imagine você, querido Texto, o estado em que Gudãozinho me apareceu. Certa manhã, quando abri o portão para colocar um saco de lixo na calçada, era dia de coleta, notei aquele vulto branco invadindo o quintal. “Um gato!”, concluí imediatamente. Larguei o saco e voltei para expulsar o suposto invasor.

Coisa nenhuma. Ao me inteirar da situação da felina, não tive coragem de jogá-la de volta na rua. Quando me aproximei, Gudãozinho correu para o fundo do muro. De tão fraca, entretanto, ela tropeçou nas próprias pernas e caiu. Não mais se ergueu, abdicou da fuga. Encontrava-se às vascas da morte. Era tão somente pele e ossos. Consegui uma xícara de ração com uma vizinha e dei à gata.

Estimei que tivesse uns três meses de idade. Comeu deitada, as patas dianteiras sob o colo. Não conseguia ficar de pé. Adotei Gudãozinho, que é felpuda e branquinha. Então apliquei essa corruptela à palavra algodão. Era abril. Daí para cá Gudãozinho dobrou de peso e, agora, esbanja saúde e boniteza.

Bom, fechemos o parêntese, retomemos a pauta. Penso em você, querido Texto, a cada palavra inserida nesta crônica adocicada. Sim. Um pouco de doçura não faz mal. Vivemos tempos tão amargos, nefastos. Viu aquele bizarro desfile bélico em Brasília? Pois é. Que ridículo! Felizmente, sempre combativo, temos aqui um François Silvestre, que já entra dando uma voadora nesses fascistas.

Basta! Não quero (por higiene mental) discorrer acerca de política. Não pelo menos nesta crônica, que desejo oferecer exclusivamente a você, meu querido Texto. Que estas páginas, ao fim e ao cabo, adquiram algum brilho, exibam algo de belo, quem sabe como os lindos olhos azuis de Gudãozinho.

— Não é, Gudãozinho? — ela nem liga.

Repito, com alguma variação, o que falei ao meu editor Carlos Santos e à amiga Rozilene Ferreira da Costa: você, querido Texto, dignifica estas publicações dominicais. As pessoas (leitores) me vêm saudando, parabenizando por nossa parceria. Isso tem feito valer a pena cada minuto, cada hora que dedico a esta sadia relação; eu que passei longos quinze anos sem publicar em periódicos.

Portanto, querido Texto, tenho recebido muitos incentivos de leitores também queridos e gentis. Vem-me à lembrança a amiga Cristiane dos Reis, que domingo passado me brindou com este gratificante comentário: “Por favor, não ouse me deixar sem crônica no café da manhã. Já estou acostumada”.

Como posso não me inspirar com essas pessoas? Daí a pouco surge alguém do quilate de um João Bezerra de Castro, autor de Pegadinhas da Língua Portuguesa, rica obra publicada em três volumes, e declara isto:

“Com o texto ‘Hoje não tem crônica’ o autor esbanjou talento e nos encantou. Sem dúvida, é um craque do gênero crônica. Estou na fila aguardando o livro com todas as crônicas já publicadas porque, pela excelente qualidade, precisam ficar registradas na história da Literatura Brasileira”. Obrigado, João.

Nesse exato domingo, no espaço do leitor, Luiza Maria escreveu a certa altura: “Alguns clientes batiam na mesa para chamar minha atenção para poder pagar… eu estava totalmente enfeitiçada… e esse mesmo feitiço se repete toda vez que leio Marcos Ferreira. Continuo encantada!” Gratíssimo, Luiza.

Desculpe se, porventura, exibir tais vozes lhe parece cabotinismo. Não é cabotinismo, tão só orgulho. Orgulho de ser lido, entre outros, por um Odemirton Filho, um Marcos Rebouças, uma Vanda Jacinto, um Rocha Neto, uma Simone Martins, um Aluísio Barros, uma Rizeuda da Silva, um Jessé Alexandria, um Airton Cilon, um Marcos Aurélio, um Fabiano Souza, um Marconi Amorim.

Gente de lugares diversos. Daqui: Mário Gaudêncio, Francisco Nolasco, Zilene Medeiros, Elias Epaminondas, Vanda Maia, Misherlany Gouthier… De fora, uns mais longe, outros menos: Túlio Ratto (Natal); Clauder Arcanjo (Fortaleza), e Alcimar Jales (Rio). Sinto-me honrado com a leitura de todos.

— Esqueci-me de alguém, Gudãozinho?

Mirando meus olhos, ela balança a cabeça afirmativamente. Bom, fiquemos por aqui. Receba o meu abraço, querido Texto. Aproveito para erguer um brinde com café a este nosso antigo e prazeroso convívio. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 15/08/2021 - 12:38h

Diário de um voluntário – XLIII

George foi um dos vários médicos que morreram em meio à batalha contra a Covid-10 no RN (Foto: cedida)

George foi um dos vários médicos que morreram em meio à batalha contra a Covid-10 no RN (Foto: cedida)

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

O padre Fábio de Melo tem o dom da palavra, aquilo que ele nas suas missas tanto afirma: “Senhor, dizei uma só palavra e serei salvo”. No seu livro É sagrado viver, há momento de pura salvação:

– “A vida tem cores cinzas quando vista a partir das retinas do porto. Navios em espera cumprem o destino de sacramentar partidas e chegadas”.

Um sábado de junho de 2020. Chamada de vídeo, logo cedo. Era George Bezerra, um amigo que a pandemia da Covid-19 nos aproximou mais ainda: um tentava aliviar a angústia do outro, todas as noites. Ele tinha sido meu colega contemporâneo de medicina e quando entrei na UFRN, logo assumindo a coordenação da residência de cirurgia, tive o prazer de ser o seu tutor.

Ele informava que estava indo para UTI e logo seria realizada a tão temida IOT (Intubação orotraqueal). Ele lutou bravamente, conseguiu até sair da UTI, o que nos deixou extremamente alegres, mas a Covid-19 mostrou a sua verdadeira face traiçoeira e George não resistiu.

Acordei hoje lembrando dele. E como a sua morte foi decisiva para minha decisão de ser um voluntário da pesquisa da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Imaginem, há um ano, com tantos absurdos colocados por uma seita de fanáticos negacionistas, divulgando vídeos de chips e jacarés: não era fácil ser um voluntário da pesquisa…

Mas, o que dá significado a vida, tem que dá significado a morte. E isso só se consegue através do amor. E a amizade é o amor philia dos gregos.

O escritor Hermann Hesse, no seu livro Demian, tem uma bela passagem que reflete isso:

– “Os mortos permanecem vivos entre nós, com essencial de suas influências, enquanto nós seguimos vivendo. Às vezes podemos falar com eles, conversar e pedir conselhos, melhor do que com os vivos”.

Lembrar de George, hoje, após um ano de sua partida é a certeza de que só há morte, quando há esquecimento.
George, portanto, vive.

Vive em cada um dos seus amigos. Vive em cada vacina aplicada nos braços dos brasileiros que acreditam que só o amor vencerá o ódio e a ignorância.

Francisco Ediilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 15/08/2021 - 10:30h

Ler para não crer

Por Marcelo Alves

A sábia menina Mafalda, do cartunista Quino (1932-2020), tem uma frase fantástica, que vivo repetindo por aí: “viver sem ler é perigoso. Te obriga a crer no que te dizem”. Não sei de quando é essa sentença, já que a tira de quadrinhos foi criada lá nos anos 1960. Mas a ideia por detrás dela nunca foi tão atual.Fake News - tecla

Hoje, a desinformação proposital, que batizamos de “fake news”, ganhou o mundo e, para atender aos interesses dos nossos milicianos digitais, fez casa no Brasil, sobretudo por meio do WhatsApp. Li na Internet dados estarrecedores. Em 2018, o instituto francês Ipsos divulgou o estudo “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” (“Notícias falsas, filtro de bolhas, pós-verdade e verdade)”, realizado em 27 países, que revela o buraco em que nos metemos: 62% dos entrevistados brasileiros disseram ter acreditado em fake news, valor bem acima da média mundial de 48%.

Já o “Reuters Institute Digital News Report” (relatório anual feito pelo Instituto da Universidade de Oxford), na versão 2021, constata que o WhatsApp é, com o Facebook, uma das principais redes de notícias no país. 47% dos brasileiros pesquisados usam o WhatsApp como fonte de informação. E isso é muito superior – muito mesmo – à média dos países desenvolvidos, a exemplo do Reino Unido e dos EUA, onde se tem 14% e 6%, respectivamente.

Embora “a incerteza trazida pela pandemia tenha encorajando o apetite das pessoas por informação confiável” – e esse é o dado positivo de 2021 –, vocês podem imaginar, por comparação, a borda/precipício da “terra plana” em que a milícia do WhatsApp nos pendurou.

As fake news crescem a partir da divulgação criminosa por gente de má-fé. Mas também na medida do compartilhamento, sem a leitura questionadora, das pessoas de boa-fé. Uma coisa que sempre me indignou, agora muito mais, é a capacidade do ser humano de repetir lugares-comuns e cretinices.

As sofisticadas fake news são um plus em relação a isso. Com títulos ou imagens sensacionalistas, distorcendo a verdade, apelam ao emocional do divulgador. Corroboram os seus preconceitos inconfessáveis. Fazem-no divulgar aquilo que acredita mas não tem a coragem de assumir com suas próprias palavras. As leis da imitação, de Gabriel Tarde (1843-1904), nunca encontraram terreno tão fértil como no estrume iletrado do WhatsApp.

O caso dos movimentos antivacina ilustram tragicamente a situação. Amalucados criminosos, contrários às vacinas, espalham falsidades, sugerindo que as vacinas podem ser ineficazes ou mesmo prejudiciais à saúde. Coisas sutis como provocar autismo nas crianças ou conspirações como modificar o nosso DNA. De mentira em mentira, volta o sarampo ou temos uma explosão de Covid nos não vacinados, perigando o fim da pandemia em prejuízo de todos.

Há gente como Pierre Lévy (1956-) e Yuval Harari (1976-) que veem na Internet e na inteligência artificial, em contrapartida ao lado positivo, um perigo enorme à democracia e ao mundo civilizado. O controle imperceptível que as fake news – e as bolhas de informação criadas por elas – podem ter sobre o que pensamos e compartilhamos é imenso. E acabam nos dando de volta sempre mais do mesmo, insuflando os nossos – às vezes, terríveis – preconceitos. Peter Sloterdijk (1947-) nos fala de um mundo ou vários mundos forjados a partir de “bolhas”. Bolhas cheias de “idiotas da aldeia”, como dizia Umberto Eco (1932-2016).

A pergunta é: existe solução para isso no estado democrático de direito? Não queremos um big brother, por óbvio. Há dicas para não se cair nas mentiras das redes sociais.

Desconfie de títulos milagrosos ou sensacionalistas. Eles são criados para gerar robotização. Confira a data da publicação. Notícia real, mas antiga, distorce a verdade. Confira e investigue a fonte. Ela existe ou é apenas um print de WhatsApp? A fonte tem credibilidade? Aliás, é bom consultar os sites de verificação gratuitos. Existem vários.

Sinceramente, eu não sei a solução. Apenas acredito no infinito poder das palavras. Das bibliotecas, dos livros e da leitura questionadora, assim como o autor de “O nome da rosa”. E que “viver sem ler é perigoso”, como diz a Mafalda.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 15/08/2021 - 09:42h

De volta ao inferno

nimitz-de-volta-ao-inferno-blu-ray-luxo-caixa-de-papel-16543-MLB20122115926_072014-F (1)Por Inácio Augusto de Almeida 

Assisti ao filme NIMITZ e me deixei influenciar.

O filme mostra um porta-aviões nuclear de volta ao dia do ataque japonês a Pearl Harbor.

Filme que nos leva a reflexões profundas e mexe demais com a sensibilidade das pessoas que conseguem ver no filme mais que combates aéreos. Filme terminado e mal me estiro na cama já me vejo entre escravos numa grande senzala.

Um feitor, com um enorme chicote a gritar que, ruim não era a vida na senzala, onde existia comida, que ruim era a vida fora da senzala onde só havia fome, miséria e perseguição.

Olho os outros escravos e todos com os olhos fixos no chão, mostrando seus espíritos caídos, abatidos, vencidos.

Vejo o retrato em preto e branco do total desânimo.

Desânimo causado por nada conhecerem além da vida na senzala.

Tento falar da existência de um mundo diferente, um mundo onde nenhum homem é propriedade de outro. Um mundo de liberdade.

O feitor me bate com o chicote.

Observo que os escravos me olham como se eu fosse um louco.

Mais tarde, com quase todos já dormindo, digo para um escravo próximo, ainda acordado, que eu conhecia este mundo de liberdade.

Ele apenas virou-se para o outro lado, convencido de que, realmente, eu era um louco.

Nem lhe dizer que em breve a escravidão seria abolida, consegui.

Terminei dormindo e acordado fui pelo apito do carro elétrico a me avisar que a bateria estava com a carga completada.

Levantei-me e fiquei a matutar acerca do sonho que tivera.

Lembrei-me dos que continuam trabalhando em troca de um salário que não dá sequer para cobrir as necessidades básicas. Salário que chegava a sofrer atraso de pagamento de até oito meses e quem reclamasse era sumariamente demitido.

Recordei-me do feitor a me bater e fico a me perguntar se eu não estava enchendo a cabeça dos escravos de fantasias.

Na senzala os escravos tinham comida.

E LIBERDADE?

Tinham os escravos liberdade?

E hoje?

Hoje os trabalhadores têm liberdade?

Que liberdade têm hoje os trabalhadores?

Liberdade de escolher seus governantes?

Ou não vivem submetidos a um falso dilema, onde são condicionados, por uma propaganda massificante, a escolher entre o ruim ou o pior?

Têm os trabalhadores liberdade de expressar suas preferências sem sofrer retaliações do grupo vencedor, grupo que passa a ter a chibata na mão?

Que liberdade é esta que os trabalhadores hoje têm?

O que mudou da época do feitor para agora?

Lei do Ventre Livre?

Com o ensino público que temos de cada mil crianças apenas uma escapa da senzala.

Aparências, apenas aparências.

Olho para o carro elétrico na garagem e imagino quantos mecânicos começam a ficar desempregados. Quantos que faziam troca de óleo, correias, velas, filtros de ar e de óleo e agora não mais têm o que fazer…

Lembro dos operários das fábricas de velas, juntas, correias; cujos empregos foram extintos.

Sei que a adaptação acontece de forma lenta.

Lenta e dolorosa.

Foi assim com a modernização da produção agrícola, quando o desemprego gerado no campo por máquinas que passaram a fazer, com o uso de um só homem o trabalho de centenas de   lavradores, tangendo para a periferia das cidades levas e mais levas de despreparados para a vida longe da enxada.

O preço cobrado pelo progresso

Busco consolo no brutal aumento da produção agrícola.

Não desconheço que isto levou ao inchamento das cidades, surgimento de favelas e geração de mais miséria e atraso, com consequente aumento da violência.

Mas como imaginar com produção de alimentos no cabo da enxada ser possível alimentar os já oito bilhões de bocas?

Assusto-me ao perceber que o aumento da produção só fez agigantar a desigualdade social e gerar mais famintos nos campos e nas cidades.

O problema não é a maior ou a menor produção.

O problema e sempre TER mais e mais.

O problema é a falta de amor.

Resolvo não mais pensar.

O tempo já nos mostrou que trocamos senzala por gueto.

Em mim a dúvida se ontem era pior do que hoje…

Volto a me lembrar do filme Nimitz.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 15/08/2021 - 06:30h

Saudades do Menino do Poré

Por Marcos Ferreira

Quando meu pai e minha mãe morreram, exatamente nesta ordem, ele com apenas cinquenta e quatro anos de idade e ela com sessenta e dois, demorei alguns anos até conseguir escrever umas linhas (versos, aliás) sobre a partida e a ausência de ambos. Uma ausência irremediável e nunca confortada.

Senti algo semelhante, no sentido de me ver bloqueado, sem palavras, por ocasião do passamento dos mestres Dorian Jorge Freire, Raimundo Soares de Brito e Vingt-un Rosado. Pois é. Foram estes os três primeiros indivíduos de grande representatividade nos meios intelectuais de Mossoró que enxergaram o meu então microscópico talento naqueles começos da minha aparição nas letras.O Menino do Poré - livro

Raimundo Soares de Brito (carinhosamente sintetizado Raibrito) recortava todas as poesias e croniquetas que eu publicava aos domingos no caderno de cultura do Jornal O Mossoroense. “Você precisa publicar um livro com essas produções”, disse-me ele uma vez. Algum tempo depois, com apoio financeiro de Vingt-un, lancei o meu primeiro livro, Um Poema de Presente. Isto em 1996.

Dorian Jorge Freire, por mais de uma vez, brindou-me com notas de estímulo à minha escrita em sua coluna dominical na Gazeta do Oeste. Até que um dia, quando a Petrobras se ofereceu para relançar um livro de crônicas do emérito estilista, Os Dias de Domingo, o próprio Dorian fez este pedido a Clauder Arcanjo, então gerente da Base-34: “Quero que Marcos Ferreira seja o revisor”.

Ou seja, uma demonstração e tanto de prestígio, uma enorme honra e carinho para com um ex-sapateiro e Dom Pixote da literatura. Que me perdoe o prezado leitor Amorim, que há poucos dias me deu um carão aqui no Canal BCS (Blog Carlos Santos) por eu haver me autoproclamado Dom Pixote.

Todo este nariz de cera, chamemos dessa forma, é para evocar a memória de outro grande homem, filantropo e mecenas da cultura mossoroense, embora sempre discretíssimo nas suas ações: Milton Marques de Medeiros, o Menino do Poré, falecido aos 22 de abril de 2017, “a pouco menos de três meses de completar 77 anos”, conforme noticiou o Blog Carlos Santos no último 3 de julho.

A exemplo de Vingt-un, Raibrito e Dorian Jorge Freire, o Dr. Milton Marques não tardou a conquistar minha admiração e benquerença. Sobretudo após nos tornarmos mais próximos devido à nossa participação enquanto articulistas da Papangu, no início de 2004. Milton assinava a coluna Entrelinhas.

Assim como Dorian Jorge Freire, o Menino do Poré confiava a mim a revisão dos escritos que enviava, por e-mail, à revista do Túlio Ratto: “Ferreira, dê uma olhada aí, por favor. Escrevi meio à pressa. Deve ter algum escorrego”, dizia-me, vez por outra, algo desse tipo em telefonema para a redação da Papangu. Dificilmente eu encontrava qualquer escorrego. Texto limpo, de boa sintaxe.

Um pouco antes, véspera da minha estreia na Revista Papangu, Milton me convidou a entrevistar, junto com ele e o jornalista Marcos Antônio, da Rádio Rural, o professor João Batista Cascudo Rodrigues, de saudosa memória, para o canal TCM – TV Cabo Mossoró. Foi uma das seis primeiras entrevistas do marcante programa “Mossoró de Todos os Tempos”, apresentado por Milton.

Imaginem uma coisa dessas, prezado leitor e gentil leitora. Eu, um tímido incurável, que nunca ousara pedir uma música no rádio, súbito me vi diante de uma câmera de televisão. Era manhã, 22 de novembro de 2003. Ouvimos o entrevistado na Fundação Ozelita Cascudo Rodrigues, situada no Centro.

O depoimento de João Batista, impelido pela boa atuação dos outros dois entrevistadores, eu entrei mudo e quase saí calado, foi de uma riqueza ímpar. Sobretudo pela vasta cultura de João e por sua enorme capacidade de juntar o passado com o presente, num belo desfile de experiências e recordações.

Transcorridos vários anos, no finzinho do primeiro semestre de 2016, os papéis se inverteram e passei à condição de entrevistado do “Mossoró de Todos os Tempos”. Uma noite, ao nos reencontrarmos num evento cultural nesta urbe, Milton me convidou. E lá fui eu, de novo, para diante das câmeras.

Houve outras oportunidades em que Milton demonstrou atenção e carinho para com a minha pessoa e meu exercício literário. Foi desse modo enquanto atuei como editor de cultura, durante três anos, à frente do caderno Universo, em O Mossoroense, como também durante os mesmos três anos que passei ajudando a editar a brava Revista Papangu, ora de volta em plataforma eletrônica.

Ainda em 2016, ao me envolver na arriscada aventura de realizar a edição comemorativa de dez anos do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que em 2005 conquistou o primeiro lugar nos “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, sendo lançado no ano seguinte pela editora da Universidade Federal do Amazonas, Milton tocou no meu ombro e disse: “Conte comigo, Ferreira”.

Não só me disponibilizou os jardins da TCM para a noite de autógrafos, isto no dia 11 de novembro, como adquiriu significativa quantidade de exemplares. Nessa noite, entre outras personalidades da cultura mossoroense, como Elder Heronildes, Wellington Barreto e o saudoso João Sabino, falecido recentemente, Milton pediu a palavra e fez uma tocante apresentação deste autor.

Esse notável Menino do Poré, cuja simplicidade e bom trato humano lhe eram apenas duas entre tantas características admiráveis, está fazendo enorme falta a esta província tão carente de figuras sensíveis às letras e às artes como um todo. Era um homem imprescindível o Dr. Milton Marques.

Esta pequena e extemporânea homenagem deságua do meu peito agora em que me chega às mãos, com afetuosa dedicatória da amiga Zilene Medeiros, viúva do homenageado, a edição póstuma de Memórias de Milton Marques de Medeiros — O Menino do Poré, obra organizada pela jornalista, youtuber e escritora Lúcia Rocha. Belíssima história de vida de um cidadão fora de série.

Hoje, portanto, decorridos mais de quatro anos do falecimento do médico, do pai amoroso e marido de toda uma vida, homem de letras e autêntico visionário Milton Marques de Medeiros, peço licença ao prezado leitor e à gentil leitora para ofertar este singelo e emotivo tributo a tão estimado amigo.

Assim, caro Menino do Poré, onde quer que você esteja, saiba que não esqueci de você. Um grande abraço e até qualquer dia.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 08/08/2021 - 12:38h

O menino e o parque de diversões

Por Odemirton Filho 

O menino corria de um lado para o outro no parque de diversão, indo a cada brinquedo, pula-pula, carrossel, carrinho bate-bate, entre outros. O parque estava lotado de crianças e adultos.

Eu acompanhava a minha filha nos brinquedos de sua preferência. Entretanto, não tirava os olhos daquele menino. Ele não sabia para onde olhava. Ora parecia feliz, ora triste.parque de diversões

Depois de um certo tempo percebi que o menino não brincava, nem lanchava. Num parque de diversão, como é natural, a criançada gosta de se lambuzar com algodão-doce, comer cachorro-quente e tomar refrigerante, além, é claro, de “rodar” nos brinquedos.

Todavia, aquele menino, não. Estava sozinho no parque. Ninguém o acompanhava. Eu continuava a observá-lo. Ele ficava alguns minutos em cada lugar e sorria com o sorriso dos outros meninos nos brinquedos.

Por um momento minha filha parou para lanchar. Como o menino passou próximo de onde eu estava, chamei-o. Perguntei se queria brincar e comer alguma coisa. Cabisbaixo, fez um gesto afirmativo.

Tentei “puxar” conversa, mas ele era tímido como a maioria dos meninos de sua idade. Morava na favela do “Pirrichiu”. “Tava” doido pra brincar, mas os seus pais não podiam comprar as fichas, pois tinham mais três filhos pequenos. Se comprassem para ele, era preciso comprar para os outros irmãos. Comprei duas ou três fichas e paguei um lanche para o menino.

Ele agradeceu, encabulado. Depois, saiu em disparada para “rodar” no brinquedo de sua preferência. Feliz da vida. Era apenas uma criança sendo criança. Nada mais. Ainda cheguei a vê-lo por um instante, com um sorriso no rosto, “rodando” nos brinquedos. Numa alegria só. Ele acenou para mim. Eu sorri.

Certamente muitas pessoas tiveram atitude semelhante. Ou fizeram algo mais. Mas o fato é que eu senti uma profunda paz na alma. Sim, sempre há algo a se fazer pelo outro, principalmente, nesses tempos difíceis. Nem que seja uma palavra de carinho e um pouco de atenção.

Por isso, dizem por aí que “a gente só é o que faz aos outros. Somos consequência dessa ação. Talvez a coisa mais importante da vida seja não vencer na vida. Não se realizar.

O homem deve viver se realizando. O realizado botou ponto final”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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