domingo - 23/01/2022 - 08:30h

O coração dos moços

Por Guilherme Tauil

Foi na festa de casamento de Di Cavalcanti que Rubem Braga conheceu aquela jovem. “Uma alta e bela moça”, com 20 anos de idade, que pintava autorretratos desde os 14. Por acaso, alguns desses pequenos quadros a óleo estavam no salão e Braga, ao observá-los, foi fisgado pela implacável consciência do tempo.

Movido pelo “jogo delicado entre o olhar que vê e o olhar contemplado”, o cronista se pergunta se, assim como a face reproduzida foi se alterando ao longo dos anos, também já não seria outro o modo de ver daquela menina, a “maneira de sentir a si mesma”. Com quase 40, Braga, que se tratava por velho desde moço, desata a projetar nas telas tudo o que ainda aguardava a jovem pintora: pensa nos reflexos “que as luzes e sombras da vida irão jogando sobre as suas cores primaveris”, no “estranho vigor” que guiará sua mão para pincelar “um radioso momento de sua vida de mulher” e na melancolia com que, “pela primeira vez, deixará um traço branco entre os cabelos”.

Ensaio de moda, Pirineus, s.d. Foto de Otto Stupakoff/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Ensaio de moda, Pirineus, s.d. Foto de Otto Stupakoff/ Acervo Instituto Moreira Salles

Mas nada daquilo tinha importância ainda, pois “no fundo do coração os moços não acreditam na velhice”, escreveu em O retrato. E nem era preciso: a verdade daquela moça estava nos momentos em que vivia, debruçada sobre os segredos do próprio rosto, “sentindo o fluir misterioso do tempo”.

Um pouco menos melancólico foi Antônio Maria, que num Domingo à toa por Ipanema também refletiu sobre a juventude. Caminhando sozinho, cruzou em silêncio com moças à espera de alguém, depois com um casal jovem e risonho de mãos dadas, “segurando-se um no outro, para não cair da gargalhada” e, por fim, com um senhor de máquina fotográfica a tiracolo – o que, diga-se, é mesmo um grave indicativo de idade.

Ares de um domingo antigo que o remeteram à meninice, quando ainda tinha aquela “intimidade que cada homem deve manter consigo mesmo”. Com o tempo, mais ou menos quando engrossa a voz e cria buço, o menino perde essa intimidade e começa a “fazer-se cerimônia”. É aí que a infância se despede e chega a mocidade.

Assim trabalha o bom cronista, sensível aos detalhes da vida. Está o tempo todo disposto a perder o chão – isto é, a ser tomado por uma enxurrada de reflexões acometida por uma bobagem qualquer. Foi assim com Paulo Mendes Campos ao topar com três jovenzinhas de 15 anos recém-conquistados, ou quase. “Três garotas fazendo primavera no verão”, cada qual com os olhos de uma cor – Verde, azul, castanho.

OS OLHOS “ARCAICOS” DO CRONISTA, que superava em idade a soma das três parcelas, enxergaram a beleza sublime da juventude das meninas que “falavam aos pouquinhos como quem toma milk-shake” e, “com os olhos, iam entendendo a novidade engraçadíssima do universo”. Por contraste, ele era “velho e profundo como um polvo”, um “caranguejo agarrado ao chão de mares silentes”, ou ainda um “fatigado abutre de grotões desolados”. Uma porção de bichos feios que não dão boa poesia.

Elas, joviais, eram três passarinhos “irradiando luzes”. Paradas, sem fazer nada, desvelaram no escritor uma epifania – “de repente, como a salvação”. Polvo, caranguejo ou abutre, o cronista abraçava a beleza de seu deserto de meia-idade.

Resistir à passagem do tempo é inútil, sabemos. O melhor é aceitá-la com serenidade. Afinal, “se não é desejável, a velhice é fatal”. E a única alternativa é sinistra, disse Otto Lara Resende em Vigor e sabedoria. Ao comentar a crescente expectativa de vida naquele Brasil de 1992, o cronista deixou uma recomendação que, ao que parece, sobreviveu três décadas intacta: “O jovem país de jovens ficou para trás. Então vamos juntar o vigor da mocidade com a sabedoria da velhice. E tocar o país para frente. Ao futuro!”.

Mas há quem se queixasse desse vigor jovial, como alguns dos espectadores do Cinema ao ar livre na Ilha do Governador, que rodava filmes em sequência até tarde da noite. A praça Djalma Dutra (hoje Iaiá Garcia) era tomada por todo tipo de gente, sobretudo os jovens – que, “por demais fiscalizados em casa”, procuravam aplacar as ansiedades do corpo e da mente.

Para Rachel de Queiroz, no entanto, observadora alerta, o verdadeiro espetáculo daquelas sessões estava mesmo na plateia, não na tela. Espalhados pela praça, os jovens formavam casais que liquidavam ciúmes, ajustavam contas, rompiam e reatavam à vista de todos. Mas tudo muito respeitosamente, diz a cronista. Diferente dos namorados escandalosos do Rio de Janeiro, na Ilha os jovens “amam devagar, com compostura; talvez achem que aqui o céu é perto e não adianta agonia”.

Tivesse tido um cinema desses por perto, quem sabe a juventude de José Carlos Oliveira não fosse um pouco mais leve. Dividindo um quarto de pensão no bairro da Glória, o escriba frustrado “interrogava incessantemente” seu coração em busca de uma verdade absoluta que se desdobrasse, quem sabe, no grande romance do século.

Seu colega era um “poeta desesperado” que, embora não seja nomeado, atendia por José Ribamar Ferreira, o Gullar, e também estava em busca das palavras perfeitas. Enfurecidos “pela lentidão da aventura interior” daquele quarto cheio de livros e insetos, viviam com “os olhos inflamados de tanto não ter nada para fazer”. À caça de inspiração, o jeito era ir ao cemitério.

Numa dessas situações que só a juventude pode achar razoável, os aspirantes compraram um buquê de flores e, em “silêncio vegetal”, caminharam entre as sepulturas. Incapazes de escolher o morto que receberia a oferenda, sentaram-se num degrau. Foi quando despontou um carro fúnebre, do qual desceram dois homens: o coveiro, descalço, carregando um pequeno caixão azul, e o “parente do defunto”.

O coveiro foi na frente e “o homem taciturno caminhava atrás dele com o chapéu na mão”. Sem pensar, os colegas de quarto aderiram ao cortejo mínimo e, no momento derradeiro, lançaram aquelas “flores compradas para ninguém” junto à terra que o coveiro despejava.

O pai do morto encarou os Farsantes no cemitério com rancor, em silêncio. Antes de partir, ele olhou novamente a sepultura e os dois rapazes, “cujos rostos eram duros e áridos” como sua “experiência existencial”. Sem se dar conta de que já tinham encontrado o que procuravam, os jovens voltaram a se sentar, à espera de outro morto. “Mas a noite desceu e não veio ninguém.”

Guilherme Tauil é cronista do Portal da Crônica Brasileira

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domingo - 23/01/2022 - 07:20h

O penalista clássico

Por Marcelo Alves

O direito penal, pelo menos o direito penal que hoje conhecemos, dito “humanitário”, é decorrência de um dos momentos estelares do entendimento humano, que nos acostumamos a chamar de Iluminismo. Tendo a França como centro de difusão, o mundo conheceu as ideias de Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1788), Rousseau (1712-1778) e dos enciclopedistas Diderot (1713-1784) e d’Alembert (1717-1783).tortura, idade média, execução, A coisa espalhou-se pela Europa e foi bater no Novo Mundo, fomentando vários iluminismos. E, claro, teve lugar na Itália, com Cesare Beccaria (1738-1794), sobretudo com a famosa obra “Dei delitti e delle pene” (1764), na qual o marquês, pioneiramente, entre outras coisas, se bate contra os processos criminais secretos, a tortura como meio de se obter prova, a pena de morte e outras barbaridades, tão comuns à mentalidade de então.

Cronologicamente falando, a filosofia de Beccaria insere-se em uma linha de pensamento que, passando por grandes reformistas como Jeremy Bentham (1748-1832) e Michel Foucault (1926-1984), vem dar no nosso século XXI.

Por coincidência ou não, é na Itália que surge a primeira escola do direito penal. Pelo menos assim a história convencionalmente registra. A Escola Penal Clássica, cujo principal nome, o seu grande consolidador, foi Francesco Carrara (1805-1888).

Francesco Carrara nasceu na antiquíssima Lucca, na Toscana. E cresceu muito na vida. Foi catedrático de direito penal na Universidade de Pisa, deputado, senador e militou contra a pena de morte. Para ele, o fundamental era punir adequadamente quem infringisse deliberadamente as normas objetivamente postas. Como anota Paulo Jorge Lima (no seu “Dicionário de filosofia do direito”, publicado pela editora Sugestões Literárias em 1968), “Carrara tratou de todos os assuntos do Direito Penal, considerando este como uma ciência estritamente jurídica. Entre os seus numerosos escritos sobre a matéria destacam-se os intitulados: Programa del Corso di Diritto Criminale (1963) e Opuscoli di Diritto Criminale (1874), que exerceram grande influência não apenas na Itália mas em outros países.

Nas duas referidas obras fundamentais sistematizou todas as normas doutrinárias da chamada Escola Clássica do Direito Penal, proclamando como princípio básico da sua doutrina que os delitos não podem ser considerados como fatos, mas sim como entidades jurídicas. Repelia, porém, a ideia jusnaturalista da justiça absoluta, entendendo que o direito de punir não encontrava a sua legitimidade apenas num princípio de justiça, mas também na tutela jurídica exercida pelo Estado, na necessidade de defesa da sociedade”. Carrara tornou-se um clássico (desculpem o trocadilho) não só na Itália, mas também mundo afora, com imensa validade até os dias de hoje.

JOSÉ GERALDO DA SILVA, em seu “Teoria do crime” (Bookseller, 1999), resume bem os postulados da Escola Clássica, que são: “1. O livre-arbítrio do homem em conduzir suas ações para a prática de um delito (decisão); 2. O crime é visto como entidade jurídica, isto é, decorrente de uma definição em lei; 3. A responsabilidade moral do homem o responsabiliza penalmente por todos os atos ilícitos praticados, uma vez que o homem possui livre-arbítrio em todas as suas decisões; 4. A pena era vista como retribuição jurídica em resposta ao crime”.

Acho que a principal sacada de Carrara (e dos clássicos, por tabela) é a visão do crime como entidade jurídica. Crime é o que está na lei como assim sendo. Sem achismos. Sem mais pruridos morais. Essa legalidade ou “reserva legal” (e seus consectários, por óbvio) é, para mim, tudo ou, pelo menos, muitíssimo.

De toda sorte, os postulados da escola clássica não estão imunes a críticas. A ênfase, quase exclusividade, na retribuição – ao crime cometido pelo indivíduo, ao dano que ele causou ao romper o “contrato social”, ao adotar comportamento vedado por lei e ofender outros membros da comunidade – como finalidade da pena é um desses pontos atacados. Estou certo de que a pena tem outras finalidades.

E, como aduz Antonio Padoa Schioppa (em “História do direito na Europa: da Idade Média à Idade Contemporânea”, WMF Martins Fontes, 2014), logo na Itália, no final do século XIX, “à Escola Clássica dos alunos de Francesco Carrara e de seus seguidores se contrapôs uma orientação diferente que assumiu o nome de Escola Positiva”. Mas isso é outra história.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 16/01/2022 - 08:46h

Tibau, um entardecer no novo ano

Por Carlos Brilhante

Como bom veranista, furtivamente resolvi fazer uma caminhada na beirinha da praia, fim de tarde.  Sol descendo, mar refletindo. Maré baixa.

Não sabia primeiramente qual roupa usar, não pela quantidade de opções que tivesse mas mais pelo olhar de reprovação dos mossoroenses de soslaio, que por vezes costumam se passar na orla. Em consideração a estes escolhi ir com a que eu estava mesmo, uma camisa vermelha surrada de campanhas passadas, e uma bermudinha de baixo custo que comprei parceladamente.pés na areia, passeio na praia, mar, pegadas na areia,

Dei o primeiro passo e pensei já seriamente em desistir, sentar na areia e talvez fingir que estava construindo um castelo ou escrevendo algum poema a la padre Anchieta, o catequizador. Lembrei das aulas, frases e lições de coach que sempre desprezei e mentalizei: vou bater na Pedra do Chapéu. Os passos firmes foram logo molhados pelas águas salinas da Costa Branca, reconfortaram me a caminhada.

Como bom observador comecei a olhar o costume das pessoas. Primeiramente vi uma senhora que apertava contra si seu Lulu da Pomerânia, parecia o proteger contra as agruras de uma existência canina de carrapatos, germes de areia, ou Marias-Farinhas das Emanuelas. Vi um Crossfiteiro com seu Husky Siberiano… Vi um outro cãozinho que provavelmente tinha ascendência europeia, sangue azul da raça.

Faltou me a brasilidade de um bom vira-latas tupiniquim. Aquela língua pra fora marota e seu ar de satisfação na liberdade de revirar um lixo. Até vi um caramelo, afastado rispidamente por uma criança que tivera invadido seu espaço pela graça de algo que não fora seu vídeo game de última geração.

Logo após avistei um grupo de jovens envoltos em algo que parecia uma caixa com luzes psicodélicas tocando um alto e ruim som de uma batida maçante. O cantor parecia estar desesperado em atiçar a puberdade desesperada daqueles adolescentes, em uma linguagem frenética e sem pudores.

Pensei logo no peso dos meus 30 anos e gosto musical de 70, tentei repelir aquele barulho com a leveza de João Gilberto, ou a alegria dos Novos Baianos, alguma coisa envolvendo poesia e música boa. Um barquinho nas marolas da Bossa Nova me fizeram crer que já estava passado, ou algo do tipo. E daí? Se o que é gasto me apetece! Tentei pensar na Nova MPB, em cantores mais modernos e fui tentando buscar mentalmente um equilíbrio que pouco importava a geração Z.

Segui mais adiante e vi senhoras conversando em suas cadeirinhas, senhores caminhando e não pude deixar de me projetar em algum deles, sozinho pensando nos primeiros dias.

Vi três pescadores puxando uma rede, e me alegrei ao cumprimentá-los, talvez fosse um alento à suas redes vazias e baldes cheios de vento. Pisei logo mais à frente em algum resquício plástico, avistei um isopor, um pedaço de galão de gasolina, e uma máscara meia enterrada na areia.

Ao me aproximar da parte mais antiga e elitizada das falésias, não pude deixar de apreciar lindas casas antigas, que pareciam imunes ao tempo e ao vento. Observei que já restavam quase escondidas por outras novas que seguiam a regra atual de serem parecidas com caixas de fósforo ou com retangulares sepulcros caiados, conforme o Santo Evangelho.

Pensei na pobreza dessa nova leva de arquitetos em projetar fabrilmente quadrados para se morar. Pensei faltar lhes o amor à profissão, a personalidade, o estilo, a criatividade de se fazer “lares” e não meros “projetos”. De um condomínio que esmerava finesse vi escorrendo um grande tubo de esgoto a jorrar pela praia. Perdoei o engenheiro por talvez ter faltado as aulas de desenvolvimento sustentável ou entreguei a Deus no poder ser a  situação ainda pior e ser ele um negacionista.

Nessa nuvem de pensamentos cheguei enfim ao lugar proposto, sentei numa escada e fiquei olhando a imensidão azul  tocando a amplidão do céu, já esmaecido pelo crepúsculo, fiz uma prece, uma meditação e voltei.

Voltei mais rápido do que fui, talvez pela já quase escuridão que me impedia ver as pessoas à volta, e pude olhar a mim mesmo e minhas contradições. Eu, o mar, a areia, as pegadas e já a primeira estrela despontando no ermo.

Carlos Brilhante é advogado

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/01/2022 - 07:42h

Cadê o castramóvel?!

Por Marcos Ferreira

Semana passada, ao ler minha crônica, ouvi de Natália, primeira leitora e mediadora dos meus escritos, que ultimamente tenho falado demais acerca de pássaros, sol, céu, chuvas, esta casa estiolada e quintal, além de certa mangueira frondosa cujo vento açoita na residência aos fundos desta. É verdade. Até porque sou um sujeito um bocado recluso, sem muitas vivências ou inspirações externas. Natália diz, portanto, que preciso enxergar outro mundo além do meu portão.

O problema é que possuo baixa quilometragem. Urbana quanto social. Raras vezes coloquei os meus pés além-fronteiras deste município. Não me agrada falar nem escrever sobre coisas, lugares e assuntos que desconheço. Então, com a indulgência dos leitores, ponho uma camisa hoje e dias depois, como variasse, requento o assunto. Isto é, visto a mesma camisa, agora pelo avesso.Dúvida, interrogação,

Sim. De fato venho me repetindo. Neste minuto, inclusive, eu me repito. Já tratei desse assunto. Mas me digam, acaso saibam, qual é o cronista que não se repete. Ao menos uma vez ou outra. Aposto que nenhum. Nem sempre é possível inovar, renovar. Isto puxando para mim, de maneira imodesta, o elástico título de cronista. Ou, visando apenas expandir o meu próprio ego, elevo tal patente a escritor e poeta. Que tal? Suponho que nesta esfera já está de bom tamanho.

Todavia, para não chover de novo no molhado, e muito menos cair na tentação de escrever sobre a falta do que escrever, recurso este que já salvou vários cronistas de alto coturno, olhemos além do meu quintal, como deseja minha Natália. Existem pautas e assuntos importantes a serem discutidos. Tipo a problemática, o estouro da população de animais de rua (cães e gatos) nesta cidade.

Ontem à noite, num muro perto da Faculdade de Enfermagem, uma pobre cadela vira-lata, grávida e doente, gania e esfregava a lateral do quadril contra a parede áspera. Eu me dirigia a uma lanchonete próxima dali e me detive para observar aquela cena de cortar coração. Sem coleira, visivelmente sofrida, a cachorra exibia uma espécie de tumor no alto da coxa traseira esquerda. O sangue da pústula manchava a parede. Entregue ao deus-dará, brevemente ela deve parir.

Olhou-me com um olhar tão súplice e penetrante, como se visse em mim alguém que a pudesse resgatar daquela situação miserável, que perdi a fome e desisti do meu “completo”. Fui à lanchonete, conversei com o dono, ele me deu umas pelancas de carne, comprei umas salsichas cruas, paguei um valor um pouco maior do que eu gastaria comigo, e ofereci aquela refeição à cachorra.

Em casa, dez reais mais pobre e com o coração menos triste, contentei-me com quatro ovos cozidos e umas pitadinhas de sal. Daí a pouco começou a garoar e fiquei pensando onde teria se abrigado aquela futura mãe com uma barriga enorme, sem amparo, desprotegida, enferma, suportando fome e sede pelas ruas de Mossoró. Quantos filhos, em situação igualmente adversa, ela já não colocou neste mundo cão? Algum dia terá tido um tutor? Não creio nessa hipótese.

A superpopulação de animais em situação de rua nesta cidade não é um fato meramente estatístico. Trata-se, também, de um caso de saúde pública. Isto pode ser resumido numa única palavra: zoonoses. O Executivo e o Legislativo municipais não podem continuar fazendo vista grossa e empurrando esse problema com a barriga. Agora, aliás, só falta o prefeito Alysson Bezerra se mexer.

Pelo que sei, corrijam-me se incorro em erro, já foi assegurado um total de R$ 645 mil para aquisição de um veículo denominado castramóvel e apoio às organizações que acolhem animais de rua. Os recursos foram garantidos pelo deputado federal Beto Rosado (PP/RN — quinhentos mil reais) e pela deputada Isolda Dantas (PT/RN – cento e quarenta e cinco mil reais). Esse dinheiro está na conta da prefeitura, à disposição do Menino Pobrezinho, só escutando a conversa, como se diz.

Mas, enquanto Alysson Bezerra não se mexe no sentido de aviar o emprego dos recursos que estão a seu dispor, os bichinhos sem tutores continuam procriando. É triste vermos nas ruas desta comuna tantos cães e gatos, sobretudo gatos, atropelados, mutilados ou passando fome. Se acaso tiver coragem e coração, senhor prefeito, e eu acredito que tenha, olhe bem nos olhos desses animais.

Eles não têm culpa por haverem nascido. São seres domésticos, ou seja, carecem da convivência com os humanos. Alguns de nós, é bom que se diga, nem merecem ser chamados assim: humanos. Existem indivíduos que aceleram seus carros quando avistam um animal desses na faixa de rolamento, pelo simples e repugnante prazer de fazer o mal. Há outros que se comprazem em oferecer comida envenenada aos animais, principalmente a gatos, tenham ou não tutores.

— Cadê o castramóvel, senhor prefeito?!

Todavia, por desimportância deste cronista ou deficiência auditiva do jovem alcaide, não obtenho resposta. Qualquer dia, porém, ele deve responder. Porque o Menino Pobrezinho é um político atuante e conhecedor dos problemas desta terra de Santa Luzia. Torço, contudo, que não demore muito a empregar os recursos oficializados.

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) já tem menos alunos, docentes, técnicos e trabalhadores terceirizados do que gatos em sua gigantesca área territorial. O número de bichanos circulando diante do cemitério São Sebastião também é superior aos cidadãos que jazem naquele campo-santo. Qualquer dia os donos de lanchonetes locais deixarão de vender cachorro-quente para oferecer sushis caninos. Visto que o espetinho de gato circula clandestinamente.

— Cadê o castramóvel, senhor prefeito?!

Tenhamos um pouquinho mais de paciência, prezados conterrâneos. Acredito que o nosso prefeito Alysson Bezerra, antenado e midiático como ninguém, inteirar-se-á desta crônica amistosa quanto bem-intencionada. Quem sabe a esta hora da manhã, neste belo domingo, enquanto toma tranquilamente o desjejum, o Menino Pobrezinho já esteja com seu smartphone lendo estas linhas.

— Cadê o castramóvel, senhor prefeito?!

Deixe estar, minha gente. Deixe estar.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 16/01/2022 - 04:10h

O professor e o flanelinha

Por Marcos Mairton

Quando ingressei no Curso de Direito da Universidade de Fortaleza, em 1986, estava com vinte anos de idade, mas já trabalhava no Banco do Nordeste. Um bom emprego, que me permitia pagar com tranquilidade as mensalidades do curso, além de assistir às aulas sem o estresse de quem ainda busca uma vaga no mercado de trabalho.

O curso era noturno. Lembro que, no primeiro dia de aula, cheguei quando o sol ainda nem havia acabado de se por e deixei o carro no estacionamento externo do campus. Naquela época, não havia muita preocupação com assaltos ou furtos.

(Foto: Iago Ribeiro)

(Foto: Iago Ribeiro)

Um rapazinho de uns quatorze anos, que estava por ali, com uma flanela no ombro, prontificou-se a cuidar do carro até que eu voltasse:

– Posso ficar “pastorando” aí, Louro? – perguntou.

Pastorar” é um verbo que no idioma cearês significa “cuidar de uma coisa alheia, sem tocar nela; manter sob vigilância”. A palavra consta dos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de “pastorear”, que vem a ser a atividade do pastor ao cuidar do rebanho. O sentido é praticamente o mesmo.

“Louro” é uma das muitas maneiras de se tratar alguém cujo nome se desconhece.

– Pode! – respondi, de pronto, imaginando que ele pretendia receber alguma paga pelo serviço de vigilância, mas tendo certa dúvida se um jovenzinho daquela idade estaria a postos quando eu retornasse, lá pelas dez da noite.

E fui para minha aula. Quando retornei ao estacionamento, ao final, lá estava ele. Não pediu nada. Seu cumprimento – “Diz aí, Louro!” – foi o sinal para que eu lhe desse algum dinheiro.

A partir daquele dia, deixava costumeiramente o carro naquela área do estacionamento, sob os cuidados do jovem que passei também a chamar de “Louro” – o que fazia até mais sentido, porque, diferentemente de mim, ele tinha os cabelos loiros.

Foi assim durante todo o meu curso de Direito. Estacionava, cumprimentava o Louro e ia assistir às aulas. Ao voltar, encontrava-o esperando o pagamento, ou, o “trocado”, como ele preferia chamar.

Mas nem sempre ficava nisso. Várias vezes dei-lhe camisas e sapatos, em bom estado de conservação, que não mais usava. Era quase uma amizade. Não chegava a tanto, porque a conversa nunca passou de “Diz aí, Louro!”“Beleza, Louro!” e coisas assim. Logo, nunca fiquei sabendo onde o Louro morava, nem quem seria sua família, se é que tinha família e casa. Tampouco ele mostrava interesse na minha vida pessoal.

A par disso, recordo que muitas vezes cheguei a me questionar sobre o rumo que toma a vida de uma pessoa, conforme ela tenha oportunidade de estudar. E conforme faça uso dessa oportunidade.

Imaginei que o Louro, apenas uns cinco anos mais jovem que eu, deveria ter nascido em uma casa não muito mais pobre que a minha, na periferia de Fortaleza. Talvez tenha frequentado os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola pública, como eu. Mas, em algum momento da vida, perdeu o interesse pelos estudos ou a condição de lhes dar sequência. É possível – talvez provável – que tenha sido incentivado pelos próprios pais a deixar o colégio, para contribuir com a renda da família. O contrário do que acontecera comigo, sempre estimulado a buscar nos estudos o caminho para melhorar de vida.

Independentemente dessas conjecturas, o fato é que, durante alguns anos, frequentamos a mesma universidade. Eu assistindo às aulas, ele “pastorando” meu carro. E, ao final daquele período, eu iria receber meu diploma de bacharel em Direito, enquanto ele continuaria sendo um “pastorador” carros, um “flanelinha”.

Passou o tempo. De bacharel em Direito, fiz o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e tornei-me advogado; comecei a advogar no escritório de um amigo, e depois, no próprio departamento jurídico do banco onde trabalhava; entrei para o Mestrado em Direito Público da Universidade Federal do Ceará; passei em concurso para Procurador do Banco Central do Brasil; e concluí o mestrado.

Em 1999, já com o título de mestre, voltei à Universidade de Fortaleza, agora como professor do Curso de Direito, do qual fora aluno.

As aulas começavam às sete da noite, mas, no meu primeiro dia, cheguei à UNIFOR um pouco antes de anoitecer. Talvez por nostalgia, abri mão do estacionamento dos professores e deixei o carro na mesma área onde estacionava quando aluno.

Mal acabava de desembarcar, quando ouvi uma voz:

– Diz aí, Louro!

– Fala, Louro! – respondi com entusiasmo. – Tu ainda tá por aqui?

– Todo dia!

– Vai “pastorar” o meu?

– Claro!

– Tô de novo na área – falei sorrindo. – Mas agora como professor.

– É isso aí! Fez bonito! O senhor sabe que o estacionamento de professor é lá dentro, né? Mas, se quiser deixar aí, ninguém “bole”, não.

Bole” é a terceira pessoa do singular do verbo “bulir”, que tem muitos significados na língua portuguesa. No idioma cearês é sempre utilizado no sentido de “tocar ou mexer em alguma coisa”.

Mas a palavra usada por ele que me chamou mais a atenção foi “senhor”. Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira. Certamente por respeito à minha, agora, condição de professor, demonstrando que, apesar de continuar frequentando a universidade apenas para vigiar os carros, reconhecia o valor dos que se dedicam ao ensino.

Iniciava-se, assim, mais um período de vários anos em que frequentei a Universidade de Fortaleza. Todas as noites, de segunda a sexta-feira. Raramente via o Louro, porque, como ele mesmo havia me alertado, o estacionamento dos professores ficava do lado de dentro do campus.

Nessa mesma época, fiz outros concursos. Fui advogado da União, depois tornei-me juiz federal. Deixei de ensinar em 2005, quando me afastei de Fortaleza, para assumir a primeira vara federal de Juazeiro do Norte. Dali, passei por Mossoró, Sobral e Quixadá. Até retornar a Fortaleza, em 2012.

Não voltei mais a ensinar, mas alguns anos depois do retorno a Fortaleza, fui convidado a dar uma palestra em um seminário na Unifor.

Um carro da universidade foi me buscar no fórum. Terminada a palestra, caminhei até a área externa, onde minha mulher me esperava em nosso carro. Passando pelo local onde costumava estacionar, lembrei dos tempos de aluno do curso de Direito.

O relógio marcava vinte e duas horas e mais um punhado de minutos. Alguns estudantes transitavam por ali, andando apressados em direção ao ponto de ônibus ou ao local onde haviam estacionado seus carros. Formava-se um engarrafamento na avenida que passa em frente à universidade. Alheio a todo aquele movimento, um homem de cabelos grisalhos estava sentado no meio-fio, demonstrando cansaço. Os braços apoiados nos joelhos, a testa apoiada nos antebraços.

No instante em que eu passava por ali, ele ergueu a cabeça e falou sorrindo:

– Diz aí, professor!

Era o Louro.

Marcos Mairton da Silva é poeta, escritor, compositor e juiz federal

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/01/2022 - 03:46h

Com vocês, 2022!

Por Marcos Ferreira

Aí está ele, 2022. Por enquanto é só um recém-nascido. Mas há de ser melhor que o anterior. Até porque o Nosferatu se encontra com os seus dias contados no desgoverno da “pátria amada”. Será uma vitória que logo festejaremos. Claro que os eleitores verde-amarelo (autoproclamados cidadãos de bem, cristãos de almas puras, de caráter magno) seguirão a Besta. Contudo essa turma é minoria, muito pequena mesmo, e não terá a menor chance diante do povão sofrido.bem-vindo

Enfim, como uma pústula calcinada, o Desprezível representará apenas uma mácula (mais uma) na biografia do Brasil. A necropolítica, o “não sou coveiro”, o “mi-mi-mi” e a “gripezinha”, a exemplo de vários outros deboches lançados contra as famílias que perderam entes queridos para a Covid, serão o preço a ser pago pelas ações canalhas, torpes e ignóbeis do Grande Percevejo.

A contagem regressiva foi iniciada. Após isso, quando as trevas se forem, as pessoas humildes voltarão a ser tratadas como gente. O povo sofreu demais (ainda sofre) nas garras dessa horda raivosa, fascista, insensível. Vejam só isso. Enquanto trinta e um mil brasileiros estão desabrigados na Bahia devido às chuvas e enchentes, razão pela qual muitos perderam o pouco que tinham, o Desprezível curte férias bem longe da tragédia, torrando o dinheiro dos contribuintes.

A Besta não se sensibiliza com o padecimento da população desassistida, doente e faminta. Apenas com as contas-correntes dele e da sua família com pós-doutorado em tramoias imobiliárias, fantásticas lojinhas de chocolate e “rachadinhas” às pampas. Que importa se o povo está comendo carcaças, avançando sobre caminhões de lixo para catar comida? O Percevejo não tem nada com isso.

Sei que é chato começar 2022 assim, recordando os podres e desventuras do ano passado. Na real, entretanto, ainda não nos livramos de 2021. Não enquanto o Nosferatu e seu exército de vampiros chupam o sangue e a vida desta nação. Resistiremos, porém, feito uma grande fênix, apesar de todo o caos e retrocesso, das trevas e do rastro de destruição que esses emissários do Inferno produziram. Vamos reconstruir este país. Pois a luta por uma sociedade mais justa prossegue.

Há enormes chances de que esse embate entre a luz e as trevas se encerre já no primeiro turno das eleições de outubro. Todas as pesquisas indicam que a luz (ou Luiz) detém a grande maioria das intenções de votos. Porque o fator que realmente decide eleições presidenciais no Brasil é o estômago do povo necessitado. A fome não perdoa quem só governa para a minoria — os ricos.

Muitos entraram na lábia do falso Messias, que contou com os serviços sujos de um juiz arbitrário e venal, porém a ficha caiu. Demorou, mas caiu. O povo pobre, que representa a grande massa votante, espera ansioso pelo dia 2 de outubro. Aí não haverá choro nem vela, “mi-mi-mi” por urnas pré-históricas nem ameaça de golpe com desfile de blindados caindo aos pedaços e empestando tudo de fumaça. Será inútil pedir intervenção militar e dar chiliques fascistoides.

Dias melhores virão. Perdoem o surrado lugar-comum. O neofascismo deixará de dar as cartas, de pintar o sete e bordar o oito, de cuspir e intimidar jornalistas. Generais prepotentes e inúteis, entre outros figurões de alto coturno, retornarão para o esgoto de onde saíram. Sei que vai chover canivetes sobre estas páginas, entretanto eu não retiro uma vírgula do que acabei de escrever.

Será bom vestir de novo a camisa da Seleção sem nos sentirmos zumbis dessa tropa teleguiada pelo Nosferatu. Penso na retomada de investimentos para a ciência e educação, no estímulo a professores, na defesa urgente e efetiva da nossa Amazônia, tão massacrada ao longo dos últimos três anos por causa da atual política de extermínio da fauna e flora brasileiras. Que aquele ministro contra o meio ambiente, contrabandista de madeira, também pague pelos seus crimes.

Após o 2 de outubro, enfim, entre outros desprazeres, não mais veremos a Besta por aí erguendo criancinhas nos braços, sem máscara, em plena pandemia, calamidade esta que já tirou a vida de tantos brasileiros. O número de mortos caminha para a triste marca dos setecentos mil óbitos. Brevemente, portanto, já tendo perdido a sua imunidade, o falso Messias verá o sol nascer quadrado.

Assim vai ser. Ache ruim quem quiser.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 26/12/2021 - 09:38h

O que estamos comemorando?

Por Inácio Augusto de Almeida

Chega dezembro trazendo sempre a mesma pergunta que até hoje não consigo responder.

Por que antes de ouvir falar em Jesus Cristo eu já admirava Papai Noel?

E dizemos que estamos comemorando o Natal, o nascimento do Salvador. Digo dizemos, porque, nas conversas ao redor da mesa farta, de quem menos falamos é de Jesus Cristo. presépio, festa natalina, Jesus Cristo, manjedoura

Poderíamos até trocar o nome noite de Natal para noite da ostentação.

Não convidamos a humildade para a festa do mais humilde entre os humildes que por aqui passaram.

Imagine um faminto batendo a uma porta e pedindo um pouco de comida na noite dedicada ao mais caridoso de todos os homens?

Quantos na noite de Natal, que conversam alegremente, falam da fé que devemos propagar a todos?

De esperança até falamos. Mas não, da esperança de um mundo mais fraterno. É da esperança de um acúmulo maior de bens materiais que falamos.

A caridade parece que se foi com Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce. Não nos lembramos da caridade amorosa, do bem querer ao semelhante.

A nossa caridade, quando acontece, se resume a doação que fazemos sem olhar nos olhos daquele a quem estamos ajudando. Esquecemos que eles também precisam de afeto.

Noite de Natal, noite que deveria ser totalmente dedicada ao amor.

Visitamos algum asilo de velhinhos ou um hospital para levar palavras de conforto a quem, mais do que de bens materiais, necessita de uma palavra amiga?

Quando jovem eu me perguntava por que Deus não fazia de todas as noites, noite de Natal.

Hoje eu entendo a sabedoria do Criador ao limitar a apenas uma noite por ano a comemoração do nascimento de Jesus Cristo.

Se com apenas uma noite por ano para reverenciar àquele que carregou a cruz sozinho para nos livrar dos nossos pecados esquecemos do aniversariante e dos seus belos ensinamentos, imagine se todas as noites fosse noite de Natal.

Para os nossos pequenos filhos e netos, hoje é a noite de Papai Noel.

A noite de Jesus está no coração daquele que tem fartura de amor no coração.

Um dia nos convenceremos de que FÉ, ESPERANÇA e CARIDADE são mais importantes do que ORGULHO, OSTENTAÇÃO e DESAMOR.

Que nossos filhos e netos aprendam que hoje é a noite de Jesus Cristo.

Inácio Augusto de Almeida é escritor e Jornalista

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domingo - 26/12/2021 - 08:40h

Uma batalha constante

Por Odemirton Filho 

2021 está chegando ao fim. Estamos vivendo tempos difíceis, como se sabe. Aqui e ali, vemos pessoas com as mãos estendidas. Não só cidadãos brasileiros, diga-se, mas de outras nacionalidades. Pessoas sem rumo, sem presente, sem futuro.   homem no alto da montanha, luz, sol, esperança, ano novo

O custo de vida aumenta diariamente. O pão nosso de cada dia está cada vez mais caro. Faltam empregos, e milhões de pessoas estão trabalhando na informalidade. Além do mais, boa parte da população está passando fome. É triste e, principalmente, revoltante, assistir ao noticiário com relatos de pessoas remexendo o lixo e em busca de ossos para se alimentar.

Sim, devemos cobrar ações dos nossos representantes, mas precisamos fazer a nossa parte, sair da zona de conforto. Não podemos ficar indiferentes ao problema.

Aliás, dia desses, o colunista Mario Sabino, da revista Crusoé, escreveu:

Mas, à exceção de poucos, estamos insensíveis a ela (a fome), assim como nos tornamos — se é que não sempre fomos  insensíveis à corrupção, à criminalidade, à ignorância, à incompetênciaE, na nossa insensibilidade, nos deixamos conduzir por gente que, perversamenteaproveita-se da fome de tantos como nós, para fechá-los em currais eleitorais, em troca de comidae assim perenizar o círculo vicioso”.  

Pois bem. Não devemos nos tornar insensíveis, nem fechar os olhos para a corrupção e para os desmandos administrativos praticados por um ou outro gestor público. Seja quem for.

Enfim. Apesar de uma batalha constante e de uma pandemia que parece interminável, devemos agradecer por mais um ano. Agradecer pela vida. Pela saúde. Pelo pão.

Lembrei-me do poeta Ferreira Gullar: “e nesta batalha estamos todos, inapelavelmente. Todos os dias, tomo meu banho e meu café, visto-me, dou adeus aos meninos e saio para guerrear. À noite, se volto, volto ileso ou ferido, mas as feridas ninguém vê”.

Um 2022 repleto de coisas boas. Com as benções de Deus.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 26/12/2021 - 06:38h

Arengas no blog

Por Marcos Ferreira

Como em toda expressão de arte, o literato trabalha para alcançar um público que, na sua quase totalidade, ele desconhece. Isso, todavia, parece instigar ainda mais o homem de letras. Pois sua grande gloria é saber, ao menos desconfiar, que está sendo lido por alguém em qualquer parte do seu macro ou microcosmo. Nem sempre, contudo, esse vínculo remoto é só aplauso. Algo natural. É que no meio dos leitores comuns estão os críticos literários, alguns bem rançosos.

Outros não são propriamente críticos, mas gostam de dar um palpite na produção de terceiros. Nomes de baixo e alto relevos já se envolveram nesse exercício de análise ou achismo. Um dia o jovem Bruxo do Cosme Velho fez um juízo desabonador acerca duns versos do então poeta Sílvio Romero e isso nunca foi perdoado. Como crítico, Romero devotaria a Machado um ódio incurável.briga, luta, confronto, confusão, disputa física,

Quem convive com o micróbio da literatura está sujeito a experienciar algo assim. Há casos extremos em que autores e obras se tornam malditos. Lembram o sufoco de Gustave Flaubert? Ele findou no banco dos réus francês ao divulgar sua obra-prima, Madame Bovary (1857), visto como o “romance dos romances” e considerado o pioneiro dos romances realistas. Dostoiévski foi parar diante de um pelotão de fuzilamento, tendo sua pena comutada no último instante.

Existe uma porção de grandes autores, inclusive cronistas, que já tornaram conhecidos alguns textos (até livros) um tanto inferiores a outros que publicaram. Mestres como Graciliano Ramos e Machado de Assis, por exemplo, têm os seus pontos altos e baixos, muito embora os altos possuam predominância. Porque os escritores, assim como as ostras, não produzem somente pérolas.

Minha crônica de domingo passado (19/12/2021) desagradou bastante ao exigente leitor Carlos Magno, o que provocou um bate-boca deste com o cronista Inácio Augusto de Almeida, pessoa esta que, a exemplo de Magno, eu conheço apenas pela sadia convivência que mantemos no ilustrado blogue do jornalista Carlos Santos. Pois é. Não tive a intenção, no entanto a minha crônica gerou discórdia, uma rusga entre os senhores Carlos Magno e Inácio Augusto de Almeida.

“Esse texto não parece produção do maior escritor de Mossoró. Marcos, com todo respeito, esse texto está sofrível”, afirmou Magno sobre minha crônica. Isso bastou para que Inácio interferisse dando uma voadora em Magno: “Escreva um texto e depois critique o texto dos outros. Todo crítico carrega consigo a cruz da mediocridade. E estão condenados ao esquecimento”, rebateu Inácio.

Daí por diante, no curto período do domingo para a segunda, já haviam trocado diversas “amabilidades” no espaço reservado à opinião dos leitores. Em minha defesa, portanto, o senhor Inácio soltou os buldogues em cima do senhor Magno, que não reagiu com menos ferocidade. Lamento profundamente que os dois tenham se engalfinhado por minha causa. Estimo tanto um quanto o outro. E trato com respeito todos que acompanham os meus escritos dominicais.

Quero frisar que “o maior escritor de Mossoró” não é uma distinção que reivindico. Deixo na conta do senhor Carlos Magno, que já elogiou textos meus tanto na época em que eu os publicava no jornal O Mossoroense quanto na Revista Papangu. Aqueles, excluindo alguns excessos e inexperiências, foram tempos bons. Aprendi muita coisa. Porque ninguém nasce pronto e acabado.

Quando o editor deste Canal BCS (Blog Carlos Santos) me convidou a integrar o seu elenco de colaboradores, confesso que supus que minhas crônicas não fossem contar com muita audiência. É verdade que vez por outra, especialmente se toco no assunto da política, acabo abespinhando certos indivíduos. Estou no saldo. Não ambiciono unanimidade. Isso fica para quem não tem opinião própria e vive em cima do muro balançando a cabeça, feito lagartixa, para tudo e todos.

Claro que o senhor Magno tem todo o direito de não gostar do meu texto. Sobretudo daquele em que execrei o governo Bolsonaro e indaguei sobre os cento e trinta mil reais que os vereadores de Mossoró supostamente empregaram na compra de alho, coentro, cebola, tomate e pimentão. Por outro lado, convenhamos, o senhor Inácio também tem o direito de discordar do senhor Magno.

Divergir, ter opinião diferente, é salutar para o engrandecimento de um debate democrático, sem ataques nem ofensas. O último domingo, entretanto, foi de ânimos acirrados neste blogue. Até o escritor François Silvestre, sertanejo aguerrido, trocou uns bofetes verbais com alguns leitores. Fique tranquilo, homem. O Lula vem com todo o gás, e o meu voto é dele. Pois eu votaria até no falecido Enéas Carneiro se ele tivesse reais chances de expelir o Energúmeno do poder.

— Cadê o coentro?! — indaga Inácio.

Ninguém responde. Silêncio sepulcral na Câmara. Toda a vereança se mantém de bico fechado. O edil Lawrence Amorim, presidente da Casa, também faz ouvidos de mercador. Mas Inácio, incansável vigilante do erário mossoroense e das verbas dos contribuintes, quer saber onde foi parar tanta verdura. Ele também critica, com razão, o novo Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

Mudemos de assunto. Minha Natália puxa minhas orelhas sempre que toco em política. Quero pedir aos senhores Inácio e Magno que se deem um aperto de mão virtual para restabelecer a concórdia. Não vale a pena brigar. Ainda menos, como diria Carlos Santos (o ex-Homem dos Suspensórios), por um “escritor mundialmente desconhecido”. A vida é tão efêmera, tão curta para que a desperdicemos com nonadas, picuinhas. Quando achamos que estamos aqui, já partimos.

Aí tudo fica para trás: a família, os amigos, o gato, o cachorro, o emprego, a conta-corrente, o prestígio, o status, a vaidade. Não importa o quanto tenhamos. Ficamos sem coisa alguma. Exceto por um traje de madeira, algumas rosas e um pequeno pedaço de chão num condomínio sossegado onde vamos estudar a “frialdade inorgânica da terra”, como naquele soneto de Augusto dos Anjos.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 19/12/2021 - 12:40h

Como acabar a fome

Por Inácio Augusto de Almeida 

“Não existe ilha de prosperidade num mar de miséria.” 

O fim desta miséria tem solução.

Evitar que qualquer auxílio seja distribuído via prefeitura.fome, miséria, prato vazio,

Usar as Forças Armadas para, num trabalho conjunto com as Cáritas e grupos religiosos, realizar o cadastramento dos miseráveis que estão morrendo de fome.

Vocês não sabem, mas até o MÉDICO SEM FRONTEIRAS os políticos usam para se promover. As cirurgias para correção dos lábios são marcadas nas secretarias municipais de saúde. E como são apenas 50 cirurgias, a seleção dos que serão operados é feita pelo critério político.

Os botijões de gás não vão chegar aos que mais necessitam. Eles não têm botijão nem fogão. Este vale gás será distribuído aos eleitores amigos.

A ABIN de tudo sabe e bem poderia informar ao presidente Bolsonaro o que acontece.

Até bolsa família é entregue a quem não precisa.

Fico sem entender os COMANDANTES DAS FORÇAS ARMADAS ainda não terem, juntos com o presidente BOLSONARO, montado uma estratégia para desmontar este esquema IMUNDO, troca de auxílio por votos, montado por políticos corruptos.

É TÃO FÁCIL ACABAR COM ESTA PATIFARIA.

É TÃO FÁCIL, COM OS RECURSOS DISPONÍVEIS, ERRADICAR DE VEZ A FOME NO BRASIL.

Nós somos um país rico!

Estou ao dispor das autoridades para mostrar como acabar com a fome.

Por que não me escutam?

Será que há interesse em que os currais eleitorais sejam mantidos através das verbas sociais?

Que a ABIN mostre este meu comentário a quem julgar conveniente.

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

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domingo - 19/12/2021 - 09:46h

Juristas balzaquianos

Por Marcelo Alves

Fiquem calmos: não vou relatar confidências de advogadas e advogados de mais de 30 anos. Embora adore essas fofocas (quem não gosta?), a conversa hoje é mais séria. Sou literal, digamos. Refiro-me aos profissionais do direito na obra de Honoré de Balzac (1799-1850).

“A Comédia humana”, herdeira do “Code Napoléon”, é pródiga em juristas.a comédia humana, balzac

Juristas de verdade, grandes nomes da França, alguns deles professores de Balzac na Faculdade de Direito de Paris, como Hyacinthe Blondeau (1784-1854), Louis-Barnabé Cotelle (1752-1827), Charles Toullier (1752-1835) e Raymond-Theodore Troplong (1795-1869) ou os famosos quatro “redatores” do Código, Jean-Étienne-Marie Portalis (1746-1807), François Denis Tronchet (1726-1806), Jacques de Maleville (1741-1824) e Bigot de Préameneu (1747-1825), que são citados ou aludidos pelo autor em seus romances.

E juristas imaginados pelo autor. Peirre-François Mourier, em “Balzac, L’injustice de la loi” (Michalon Editeur, 1996), teria contado mais de 50 “homens da lei”, todos com lugares especiais dentro da Comédia. Já em “Imaginar la ley: El derecho en la literatura” (Editorial Jusbaires, 2015), os organizadores Antoine Garapon e Denis Salas lembram: “Ali encontramos figuras de sujeitos de direito como os herdeiros de Ursule Mirouët, o ausente em O coronel Chabert, a falência em César Birotteau. O espelho que essa obra apresenta nos remete aos esplendores dos novos status da sociedade burguesa, como às suas sombras. O romance balzaquiano desvela um mundo de interesses e de crimes. (…). É o mundo de Esplendores e Misérias das Cortesãs, que celebra a mitologia romântica dos fora da lei”.

Por outro lado, Balzac muitas vezes abre “um espaço positivo para a lei”, como no procurador-geral Granville, que encarna a nobreza da profissão do direito. Balzac crê nas instituições. Para ele, o juiz é um centro da sociedade, esta cheia de contradições, é vero. E se temos o juiz Popinot de “A interdição”, “pleno de modéstia e grandeza, homem justo e humilhado”, também encontramos o “flexível Camusot”, o juiz de instrução “destinado a uma carreira brilhante”.

São personagens tiradas ou postas – depende de olharmos pelo ângulo da inspiração ou da criação – de/em fiéis “cenas da vida jurídica” (inclusive citando decisões reais de cortes francesas). Desses personagens e cenas, tomemos o caso do juiz Popinot, de “A interdição” (1839), talvez o mais “investigado” dos juristas balzaquianos. “A interdição” é um texto seminal. Um romance curto e denso, em que o autor retrata as realidades do quotidiano e do foro. Várias de suas personagens são achadas em outros romances da Comédia, como de estilo no “mundo” de Balzac. A trama gira em torno da busca da Marquesa d’Espard para interditar o seu marido, de quem vive separada há anos. Seria o Marquês um louco pródigo, que impede uma mãe de ver os filhos e desperdiça a fortuna? Ou seria a Marquesa uma mulher inescrupulosa, disposta a qualquer coisa? É para decidir isso que são encarregados o “íntegro” juiz Popinot e o “flexível” juiz Camusot. E, sem crise de consciência, digo mais nada.

Balzac teve o seu modelo de magistrado no juiz Popinot, que José Antônio Aguirre, em “Escritores y procesos: casos reales y ficcionales del proceso penal” (Ediciones Didot, 2012), poeticamente define como “a ficção de um juiz real”. O autor retratou “este magistrado como um homem de altíssimos valores, severo, equânime, fiel à sua função judicial e de uma decência inquebrantável”. Mas, embora possuidor de numerosas virtudes, o juiz Popinot tem também defeitos (quem não tem?). O principal, embora não venal, é a sua ingenuidade. E a intromissão desse defeito nas suas qualidades faz desse juiz “uma personagem real, verossímil e crível”.

É verdade que Balzac se apropriou de muitas coisas do direito: instituições (casamento, herança, falência, crime etc.), linguagem, cenas/dramaticidade, personagens e por aí vai. Mas também nos deu muito de volta. Basta lembrar a sua contribuição para a preservação de uma história contada do direito, que procuramos inutilmente nos códigos, como lembrou Henri Lévy-Bruhl em “Sociologie du Droit” (PUF, 1981). Ou para a fixação de um vocabulário da nossa ciência. E há, claro, o exemplo do juiz Popinot.

Assim, acredito ser “A comédia humana” um monumento da “ficção jurídica”, sem que dois séculos de mudanças prejudiquem a relevância das suas questões de direito. E parafraseio uma advertência constante de “Balzac, romancier du droit” (direção de Nicolas Dissaux, LexisNexis, 2012): “Todo jurista deveria ler Balzac”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 19/12/2021 - 04:20h

Últimas notícias

Por Marcos Ferreira

Estamos a uma semana do Natal e o espírito natalino parece não ter penetrado nos corações de muita gente. As notícias dos últimos dias são pouco animadoras. Algumas, aliás, são repugnantes, como esse projeto que a deputada bolsonarista Carla Zambelli colocou em pauta com o propósito de liberar a caça esportiva no Brasil. Essa parlamentar não é somente irresponsável, é, sobretudo, perversa. Pois deseja contribuir para dizimar a já tão perseguida fauna brasileira.

Imaginem. Permitir, através de uma lei sanguinária, a desenfreada matança de animais silvestres por mero divertimento. O pretexto é a superpopulação de javalis em algumas regiões do País. Mas isso não ocorre no Brasil todo, muito menos no Nordeste. Ademais, a caça de javalis está liberada pelo Ibama desde 2019, por medida do então ministro contra o meio ambiente Ricardo Salles.pessoas lendo jornal, jornais, leitura, jornal impresso

As más notícias e péssimos exemplos vêm de diversas partes. Há poucos dias, infelizmente, o bolsonarista André Mendonça tomou posse no Superior Tribunal Federal (STF). Agora fará uma dupla dinâmica com o ministro Kassio Nunes Marques, também apaniguado de Bolsonaro. Quinta-feira, na cúpula da Polícia Federal, durante cerimônia de formatura, o senhor Paulo Maiurino, diretor-geral da PF, sugeriu que os novos agentes retirassem as máscaras. E o pior: foi aplaudido.

Presente à solenidade de formatura dos novos agentes federais, o falso messias Jair Bolsonaro não conteve um sorriso vitorioso, ficou de peito e alma lavados com a proposta de Maiurino. Negacionista mórbido, inimigo da ciência e aliado do coronavírus, Bolsonaro afirmou na segunda-feira (13), por meio de suas redes sociais, que o uso de máscara estava proibido no Palácio do Planalto.

O chefão da PF também comentou sobre uma medida provisória assinada por Bolsonaro com o propósito de criar um plano de saúde dos servidores da Polícia Federal por meio do Funapol (Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da PF). O diretor-geral destacou ainda que a criação do referido plano era uma reivindicação de décadas, e foi mais uma vez aplaudido ao agradecer a Bolsonaro por este haver se empenhado na conquista daquele preito.

“É um anseio de décadas do nosso corpo funcional que beneficiará nossos servidores, policiais e administrativo, além de seus dependentes. Já tivemos aqui presidentes da República que prometeram e que nunca cumpriram”, salientou Paulo Maiurino. Estufando o peito de vaidade, mas com razão, Bolsonaro alfinetou: “Isso é normal”, enquanto grande parte dos novos agentes gritava “mito”.

Feito metástase, Bolsonaro apodreceu as principais instituições e autarquias do Brasil. Seu dedo podre (mãos, na verdade) está em tudo: na Câmara, no Senado, nas Forças Armadas, nas polícias civil, militar e federal, no charco das igrejas evangélicas e até em alguns setores da Católica, no judiciário, na Petrobras e em tantos outros segmentos sociais e coorporativos. Dessa forma, como se sabe, barrou investigações contra si próprio e sua família de ladrões e quadrilheiros.

Bolsonaro trocou mais de ministros do que escovou os dentes. Traiu e queimou até comparsas relevantes, como o ex-juiz Sérgio Moro, falso paladino da honra e da moral. Após tantas sandices, impondo às famílias mais carentes deste país desemprego e fome, fez com que o Partido dos Trabalhadores ressurgisse das cinzas tendo Luiz Inácio liderando todas as pesquisas com larga vantagem.

De olho na façanha de chegar à Presidência da República pela terceira vez, Lula agora está de conchavo com Geraldo Alckmin, velho rival cujas diferenças políticas não valem muita coisa quando o que está em jogo é atingir o pináculo do poder. Alckmin, assim como Lula, não é nenhum santo. Os dois, entretanto, estão bem longe de ser um espírito de porco como Bolsonaro. A aliança entre o ex-tucano e o petista é do agrado de partidos de esquerda quanto de centro-direita.

A chamada terceira via, com candidatos nanicos como Sérgio Moro, João Dória e Ciro Gomes, morrerá de inanição. E Bolsonaro, em queda vertiginosa nas intenções de voto e sem o apoio dos militares para um golpe de Estado, pagará um preço alto por ter brincado e judiado da população pobre deste país. Já a possibilidade do torneiro mecânico vencer no primeiro turno é cada vez maior.

Voltando os olhos para Mossoró, onde de tudo acontece um pouco, há certos fatos dignos de nota. Lamentavelmente, devo dizer, pelo lado negativo. Como o recente destempero do vereador Raério Araújo, firme aliado do prefeito Alysson Bezerra. Raério Araújo, que acredito ser um parlamentar comprometido com os seus eleitores e com a sociedade em geral, perdeu o rebolado durante uma sessão na Câmara e saiu-se com um linguajar de caráter misógino e homofóbico.

— Mulher ruim e baitola! — exclamou.

Tais palavras repercutiram mal durante toda a semana. A bancada de oposição não deixou barato. Cobrou ao presidente da Câmara a instalação de uma Comissão de Ética. Notas de repúdio pipocaram em blogues, sites e redes sociais. Sentindo-se ofendida, a comunidade LGBT também se manifestou contra o rompante do edil mossoroense. Não foi a primeira vez que Raério aloprou.

Alguns meses antes, novamente de cabeça quente, pavio curto, ele teve um lamentável atrito com a vereadora petista Marleide Cunha. Disse, entre outras coisas, que a colega parlamentar podia latir que ele não tinha medo. Claro que a senhora Marleide não latiu. Contudo, como era de se esperar, a repercussão foi péssima para o vereador enfezado. Curiosamente, Raério é presidente da Comissão de Redação, Constituição e Justiça da Câmara de Vereadores de Mossoró.

Pelo que percebo, o senhor Raério é um tipo atuante, está no segundo mandato, se não me engano, e é um bom marqueteiro de suas ações nas redes sociais. Deu uma bola fora, sim, quando tentou, junto com vereadores palacianos, cortar verba para a cultura. Tem apoio do Menino Pobrezinho (alcunha que a ex-prefeita Rosalba Ciarlini gravou na biografia do midiático Allyson Bezerra).

Talvez Raério Araújo não seja esse vilão todo, esse homem das cavernas que tem demonstrado ser. Quem sabe esteja apenas passando por uma fase difícil, de grande tensão, estresse. Pode estar sofrendo, por exemplo, devido às incessantes cobranças do cronista Inácio Augusto de Almeida, que exige explicação dos edis mossoroenses acerca de verba de cento e trinta mil reais que a Câmara supostamente empregou na compra de alho, coentro, cebola, tomate e pimentão.

O que os caros (caríssimos) vereadores pretendem fazer com toda essa verdura? Alguém, por gentileza, poderia me responder? Acaso eles estão planejando realizar um mega-sopão e distribuí-lo aos mendigos da terra de Santa Luzia? Tomara. Do contrário, senhoras e senhores, mesmo levando-se em conta o voraz apetite de alguns edis, o mais provável é que essas hortaliças se estraguem.

Bom, nem só de coisas desagradáveis foi esta semana. Há pouco caiu uma chuvinha e eu me já me senti com o espírito mais arejado. Outra coisa boa é que ontem, por intermédio do escritor Clauder Arcanjo, recebi um exemplar de Rasgos nas Lembranças, versos da poetisa cearense-potiguar Rizeuda da Silva, que hoje reside no município de Monte Negro, Rondônia. Vamos à leitura.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 12/12/2021 - 10:00h

O Napoleão das letras

Por Marcelo Alves

Honoré de Balzac (1799-1850) foi um gigante. Como anota François Taillandier na biografia “Balzac” (L&PM, 2009), “em trinta anos de trabalho duro, assombrado pelas preocupações com dinheiro”, Balzac “publicou A comédia humana, monumento romanesco sem igual”; foram “quase uma centena de romances, novelas e contos”, que deram “vida a dezenas de personagens que se transformaram em mitos”.

Suas obras-primas – “A pele de Onagro” (1931), “Eugènie Grandet” (1833), “O Pai Goriot” (1834), “O Lírio do Vale” (1835), “César Birotteau” (1837), “As Ilusões Perdidas” (1837-1843), “A Mulher de Trinta Anos” (1842), “Modesta Mignon” (1844), “O Coronel Chabert” (1844), “A Prima Bette” (1846), “O Primo Pons” (1847), “Esplendores e Misérias das Cortesãs” (1838-1847) e por aí vai –, compondo a “Comédia”, provam o que dizemos, o biógrafo Tallandier e este que ora vos escreve. Foi o “Napoleão das letras”, nas palavras de Paul Bourget (1852-1935), e isso já diz tudo.honore-de-balzac-800x445

Há muitíssimo para se falar de Balzac. Mas não sou um Paulo Rónai (1907-1992). E vou me ater a comentários sobre o direito na vida e na obra do autor de “A comédia humana”.

De fato, desde 1816, Balzac viveu às voltas com o direito. Estudou essa ciência dentro e fora da Sorbonne. Embora aluno “desinteressado”, obteve o então baccalauréat (1819). Também militou em escritório de advocacia e em tabelionato à época, antes de se dedicar à literatura, conforme anotado por Claire Bouglé-Le Roux em “La littérature française et le droit: anthologie illustrée” (LexisNexis, 2013).

Os pais gostariam que ele seguisse carreira no tabelionato. Ilusões perdidas. Ele não queria viver a labuta enfadonha dos juristas, mesmo ganhando algum dinheiro. Causou desgosto aos genitores e, para nossa felicidade, fez-se escritor.

A experiência prévia no direito não foi perdida para a literatura. Esses anos de formação tiveram grande influência sobre Balzac. Foi durante essa primeira jornada direito adentro que ele começou a entender alguns mistérios da natureza humana. Aliás, em “O notário” (1840), obra de madureza, ele sugere que um jovem profissional do direito, dentre outras coisas, logo vê as rodas e as voltas de cada fortuna, a disputa de herdeiros sobre os despojos de corpos ainda não frios e almas sempre às voltas com o Código Penal. Alguém tem dúvida disso?

Balzac foi um homem da era do Código. Falo do “Code Napoléon” ou “Code civil des Français”, de 1804, um monumento em si mesmo. E o ensinamento do direito, à sua época, focava na exegese da famosa lei civil (vide a Escola da Exegese). Na verdade, embora ele tenha certa vez se referido ao “infame Código Civil de Buonaparte”, Balzac até desenvolveu uma fixação pelos códigos e suas estruturas, daí os seus “Code gourmand”, “Code de la toilette”, “Code conjugal”, “Code de gens honnêtes” etc., ressalta Claire Bouglé-Le Roux.

Para nós, curioso é o “Código dos homens honestos ou A arte de não se deixar enganar pelos larápios”, que possuo em edição da Nova Fronteira, de 2005. Não é um código à maneira como conhecemos, mas, sim, “um livro de autoajuda avant la lettre.

Funciona como uma espécie de introdução temática ou nota de pé de página antecipada (se pudéssemos inverter a cronologia do autor) ao que viria depois, ou seja, aos grandes romances como Eugénie Grandet (seu primeiro sucesso, de 1833), O pai Goriot (talvez a melhor introdução à Comédia humana), Ilusões Perdidas e Esplendores e misérias das cortesãs, além dos demais títulos que viriam a compor este imenso painel de romances do século XIX que é A comédia humana”.

Já em “Imaginar la ley: El derecho en la literatura” (Organização de Antoine Garapon e Denis Salas, Editorial Jusbaires, 2015), Gérard Gengembre, no artigo “Balzac, o cómo poner el derecho en ficción”, diz: “A comédia se apoia constantemente nos artigos do Código”. E Napoleão é um tema capital na obra de Balzac: “Napoleão se impõe como o instigador principal dessa sociedade imaginária de dois mil e quinhentos personagens, que imita e interpreta a sociedade real forjada pela Revolução e pelo Império”.

Mas não pensem que o “Napoleão das letras” era um exegeta radical, no sentido de achar que todo o direito estaria no Código. Como diz Claire Bouglé-Le Roux, “o princípio da existência de um direito superior está no coração da introdução [L’avant-propos] da Comédia Humana”. De vero, nas palavras do amigo Théophile Gautier (1811-1872), “Balzac descobriu poemas e dramas no Código”. Quer mais?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 12/12/2021 - 08:20h

Dezembros da infância

Por Odemirton Filho 

Corria o mês de dezembro. Tempo de celebrar o nascimento do Filho de Deus. De participar da Festa de Santa Luzia. O menino já estava em férias da escola. Tinha sido aprovado, “arrastando-se”, como gostava de dizer a sua mãe.

Momento de ganhar uma roupa e calçados novos, arrumando-se para a Festa de Santa Luzia, padroeira de Mossoró, no período de 03 a 13 de dezembro. Uma festa tão bonita, na qual se encontram a cultura, a devoção e a fé de um povo, santo e pecador. Mais pecador, quem sabe. Não importa, Deus é misericordioso. árvore de natal, bolas, luz, luzes, ornamentação, festas, luzes, natal

A cidade ficava com um ar leve. Quando entrava dezembro, as ruas do centro e as pontes que dão acesso ao grande Alto de São Manoel já estavam devidamente iluminadas. No velho rio Mossoró, uma árvore de Natal alumiava a escuridão das águas turvas. O comércio enfeitava as fachadas dos prédios com adornos natalinos.

O menino gostava de ir à noite, com os seus pais, andar pra lá e pra cá, na rua da Catedral de Santa Luzia. Um monte de barracas, a perder de vista. Vendia-se de tudo. Ele gostava de jogar argolas para pegar alguma “prenda” ou atirar de espingarda de festim. Às vezes, ia lanchar na barraca de sua tia, na qual vendiam-se bolos e doces. Só não gostava de pé de moleque. Melava a sua roupa nova comendo maça do amor. Assistia aos leilões, na expectativa do seu pai arrematar um frango assado.

Aqui ou acolá participava das novenas, juntamente com seus pais. Mas não tinha muita paciência. Ficava doido que acabasse a ladainha para ir andar pelas ruas do entorno da Catedral, aproveitando o lado profano da Festa. Ouvia “A Mais Bela Voz”, e encontrava os colegas da escola; primos; tios; os conhecidos.

No encerramento da Festa, no dia 13 de dezembro, a procissão. Um mar de gente. Algumas pessoas caminhavam descalças, carregando pedras sobre a cabeça, crianças vestidas com roupas que imitavam as da Santa. Eram os devotos pagando as suas promessas. Havia alguns políticos com um sorriso amarelo, acenando para uma ou outra pessoa. Dizia-se até que o rei Roberto Carlos acompanhava a procissão, disfarçado, é claro. Eu sei, caro leitor, hoje em dia ainda é assim.

O mês de dezembro era, também, o momento da confraternização do Natal da família do menino, na casa de seus avós. Uma ruma de tios e primos, juntos e misturados, numa feliz algazarra. Recebiam presentes e participavam do amigo secreto. A ceia era farta.

Pois é. O tempo passou. O menino tornou-se adulto. Talvez, a Festa de Santa Luzia continue como sempre foi. Ou, talvez, o menino grande tenha mudado. Contudo, ele traz no coração, com imenso carinho, os dezembros da sua infância. Até hoje guarda a fé na Virgem de Siracusa.

E sente uma saudade danada da noite de Natal na casa de seus avós.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 05/12/2021 - 10:50h

Santa Luzia Chora

mulher-chorandoPor Inácio Augusto de Almeida 

Por incontáveis vezes o Papa Francisco disse, e vai continuar dizendo, que chora ao ver tanta desigualdade, injustiça, miséria e fome.

Sabe o Papa Francisco que a corrupção é a causadora de toda a desgraça.

Como forma de combater a corrupção o Papa não perde uma chance de clamar que a corrupção fede.

O Papa fala com lágrimas rolando na face.

Se o Papa chora, fico a pensar quantas lágrimas Santa Luzia já derramou e derrama ouvindo os gritos de fome dos pedintes nas ruas de Mossoró.

Difícil imaginar o quanto sofre a Padroeira de Mossoró ao ver os olhinhos de crianças famintas, crianças que sequer têm forças para chorar. E ao ouvir o choro abafado das mães famintas, mães sem leite no peito para amamentarem os filhinhos que de fome morrem em seus braços, Santa Luzia se ajoelha e reza pedindo a Deus que não permita a continuação deste flagelo que atinge os indefesos, os que Jesus Cristo mais amava, os com mais pureza no coração.

Santa Luzia chora ao ver um pai desempregado pedindo esmolas. Chora por saber, a nossa amada padroeira, ter sido a maldita corrupção a causadora da desgraça. Chora Santa Luzia por ver tanta impunidade estimulando a prática da corrupção que faz crescer mais e mais a miséria.

Santa Luzia reza pedindo ao Pai o despertar da sua igreja para a luta no combate à corrupção.

Corrupção causadora de toda a desgraça que se abate sobre seus filhos queridos.

E a nós, seus amados filhos, ela nos pede a construção da igreja dos pobres. Nos pede dizendo que a igreja dos ricos já está construída.

Deseja a nossa muito amada padroeira, não pompa nos festejos, porém solidariedade e mais amor ao próximo.

Quer Santa Luzia uma festa cheia de fraternidade, onde o brilhantismo se fará gigante pelas mãos que todos os seus filhos estenderão uns aos outros, sem distinção alguma.

Como Santa Luzia ficará feliz e trocará as lágrimas de dor por um lindo sorriso de felicidade vendo isto acontecer.

Não podemos perder a oportunidade de realizar a mais bela festa de toda a história religiosa de Mossoró.

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

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domingo - 05/12/2021 - 09:40h

Literatos no direito

Por Marcelo Alves

Há muito que se fala – com certa razão – do grande número de bacharéis em direito na Academia Norte-rio-grandense de Letras(ANRL). Se prestarmos atenção, dentre os membros da ANRL, temos muitos juristas e, em quantidade aproximada, jornalistas. Escritores em tempo integral, embora nossa aldeia os tenha em diminuta quantidade – afinal, é quase impossível viver apenas de literatura por aqui –, disso reclamam. Já me reclamaram. Eu dei atenção e, repito, certa razão.

Todavia, há de se contrapor um fato a essa reclamação: ao contrário de outras profissões, como a medicina ou a engenharia, o direito e o jornalismo trabalham essencialmente com a linguagem. As letras são o nosso material de cada dia – e aqui já me reconheço como envolvido nessas coisas de leis e jornais. Escrevemos bastante. E todos nós somos ou já fomos professores. Talvez isso explique, quiçá justifique, nossa presença nas academias de letras.livro, literatura, escritor, direito, cultura

De toda sorte, essa mistura de profissionais do direito com a literatura sempre me interessou. É abundante o número de renomados escritores que tiveram formação jurídica ou foram, na vida, profissionais da área. Outro dia, a partir da leitura de um dos Cadernos da Revista EntreLivros, “4 – Panorama da Literatura Francesa”, quedei-me ainda mais certo disso.

Aqui falo de grandes pensadores como Montaigne (1553-1592), Montesquieu (1689-1755) e Rousseau (1712-1778), todos eles literatos, mas também profissionais ou estudiosos do direito. De grandes escritores que se meteram, de forma penosa, em processos judiciais ruidosos, como é o caso de Flaubert (1821-1880) e Zola (1840-1902). De escritores cujas vidas foram quase vividas no inferno da criminalidade, a exemplo de Jean Genet (1910-1986), sendo isso transposto para as suas obras. Mas também de ficcionistas que, formados ou experimentados no direito, tais como Gaston Leroux (1868-1927) e Georges Simenon (1903-1989), escreveram o que posso denominar de “romances jurídicos”, no sentido lato ou mesmo estrito dessa expressão.

Por exemplo, Leroux, o autor de “Le Fantôme de l’Opéra” (1910) e “Le Mystère de la chambre jaune” (1908), escreveu um conjunto de “romances jurídicos”, a série “Chéri-bibi”, iniciada em 1913, que tem como pano de fundo um erro judiciário, e peças jusfilosóficas, como “La Maison des juges” (1907), em que ele milita contra a pena de morte. Não coincidentemente, Leroux foi advogado (frustrado, dizem) e repórter judiciário.

Já Simenon, o criador do Comissário Maigret, trabalhou na juventude como repórter forense. E esteve ele mesmo metido com processos, sendo até acusado de simpatizar com o nazismo. Maigret foi um detetive com um senso de justiça peculiar, já que Simenon conhecia bem tanto o submundo como o Judiciário de Paris. Aliás, no Palais de Justices da cidade, no Quai des Orfèvres, está o quartel-general da Polícia Judiciária parisiense, a real e a de Maigret, com a arte homenageando a vida e vice-versa.

No mais, se formos para a literatura em língua inglesa, com a qual acredito estar até mais familiarizado, poderíamos falar de vultos como Charles Dickens (1812-1870), que, para o nosso deleite, tinha boa formação jurídica, como assistente na advocacia, escrivão e repórter judiciário.

Contudo, há algo ainda mais interessante na literatura em língua inglesa. Calejados profissionais do direito, com experiência nas histórias do foro, estão migrando para as estórias da literatura (e, daqui, vão bater no cinema). Os casos mais badalados são os de Scott Turow (1949-) e John Grisham (1955-).

A formação jurídica e as experiências como advogados e homens públicos são usadas – e bem – para a construção do que chamamos de “ficção jurídica”. De ótima qualidade, friso. Sem falar que essa íntima relação direito/literatura/cinema tem feito deles campeões de venda. Eles faturam horrores.

Bom, eu até tenho vontade de jogar meus códigos para o ar e me dedicar somente a inventar estórias. Mas talvez eu não tenha o talento necessário. E, certamente, não tenho a coragem – ou a loucura – para tanto.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 05/12/2021 - 06:42h

Deus está vendo

Por Marcos Ferreira

Talvez eu não passe do primeiro parágrafo, não estou em condições muito favoráveis, no entanto retorno a este computador para escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Foram vinte dias sem produzir uma linha e ainda me encontro sem bússola e sem ânimo. Nesse espaço de tempo, entre ajustes nos meus psicotrópicos e efeitos colaterais, senti que esta cidade está cada vez mais desumana, insensível. Reparem nesse monte de gente desvalida que hoje mendiga em toda parte.

Olho à minha volta e reflito sobre minha condição. Esta é uma casa velha, cheia de buracos e cupins, certamente a mais modesta e feia desta Euclides Deocleciano, entretanto aqui estou guardado, protegido, com alguns pequenos luxos como uma geladeira, um ventilador e uma cafeteira. Tenho sempre algo para comer e vou conseguindo pagar ao menos as minhas contas de água e luz.

Grande parte do meu auxílio-doença, mediante laudo do meu psiquiatra Dirceu Lopes, é empregada na aquisição de medicamentos. Porém, ao andar pelas ruas de Mossoró, eu me sinto um privilegiado, afortunado. Penso que poderia ser eu (sob este nosso sol implacável) a exibir cartazes nos semáforos, pedidos de socorro. Sim, as pessoas estão pedindo socorro. Suplicam por qualquer alimento ou moedinha. Vez por outra, medindo minhas possibilidades, tento ajudá-las.

Enquanto isso, dentro dos seus carrões refrigerados, a maioria dos motoristas não baixa o vidro, sequer olha de lado. Tal súplica se arrasta desde o começo do dia e segue noite adentro. Indivíduos de todas as idades, homens, mulheres e crianças tentam vender coisas ao público motorizado, especialmente garrafinhas de água mineral, dindins, picolés, bombons e até desinfetante caseiro.

Essas pessoas, nesta Mossoró desarborizada, ficam expostas a sol e chuva. Mas chuva é algo raro por aqui. Sobre seus produtos, quando conseguem vender, têm lucro de centavos. Como se consegue subsistir numa carestia como esta em que se acha este país ganhando centavos? Aos demais, os que não têm nada para tentar vender, só resta a mendicância. A esta hora, meio-dia e quinze, enquanto escrevo esta página, eles estão nos semáforos, sob o sol, ignorados e famintos.

Onde estão os vereadores, o ilustre senhor prefeito, a Igreja Católica, as igrejas evangélicas, os donos de redes de supermercados e vários outros empresários e poderosos que não se mobilizam em favor dos pobres? Ou só vão doar alguma comida quando chegar o Natal? Acham que os miseráveis não têm fome nos outros dias? Não vejo distribuição de cestas básicas em parte alguma.

Cadê os poetas de Mossoró, escritores, jornalistas, intelectuais? É preciso união da classe pensante, a fim de se pressionar o poder público e a sociedade como um todo. A prefeitura queima muita grana com fogos de artifício, enfeites natalinos e diversos adornos, enquanto os pedintes definham de estômagos vazios. Por sua vez, a Câmara Municipal aprova verba para todo tipo de coisa. Inclusive, fato notório, aumentaram os já polpudos salários dos próprios parlamentares.

O que os caros (e dispendiosos) vereadores pretendem fazer pelos desvalidos? Algum desses legisladores ou legisladoras, por gentileza, poderia me responder? Não foram todos eleitos, principalmente, com a promessa de assistir o povo carente da terra de Santa Luzia? Tomara. Estamos esperando. Ainda há tempo. Façam valer os votos que receberam. Mostrem serviço, caríssimos!fome_pobreza_ss_1

Os mandachuvas do Executivo e do Legislativo precisam deixar as suas confortáveis poltronas e os seus gabinetes geladinhos e olhar de perto, fora dos seus carros de luxo, a fome estampada nos rostos de quem esmola nos semáforos, praças e canteiros. Há mulheres com crianças pequeninas, sofridas, desnutridas, implorando a caridade dos que podem ajudar e não ajudam. Porque muitos dos potentados desta província, infelizmente, viram o rosto diante dos infelizes.

“Ah, senhor cronista, essa fome toda não é só neste município”, dirá alguém no espaço reservado à opinião do leitor. Eu sei disso. Todos nós sabemos, embora certas pessoas prefiram fingir que não estão vendo nada. O Brasil das camadas inferiores vem padecendo em demasia nestes últimos anos. São quase vinte milhões de brasileiros passando fome e quinze milhões de desempregados.

Mesmo nesta residência estragada do subúrbio, com todos os indícios de um morador sem recursos ou haveres, aqui e acolá um cristão aproxima a cara dos combogós do muro, bate palmas e grita: “Ô de casa!” Vou atender, sem abrir o portão, e deparo com alguém pedindo qualquer tipo de auxílio. Às vezes é uma idosa, um idoso, ou mãe com um ou mais filhos pequenos em sua companhia. Isso me dói no coração e na alma. Abro o armário, a geladeira, e lhes ofereço algo.

— Que Deus lhe abençoe — agradecem.

Aqui, portanto, entre estas paredes velhas, torno a refletir: sou um privilegiado, um homem de sorte, apesar de certas privações e da minha gangorra psicológica. Disponho de um velho computador, que vem caducando há vários anos, uma TV, telefone, internet, um fogão que quase não uso, uma motocicleta e os meus poucos e empoeirados livros numa estante. São o meu futuro espólio.

E aquelas pessoas desassistidas, possivelmente sem um teto, o dia todo à mercê da benevolência de terceiros, expostas a um sol forte, sem um banheiro que porventura precisem utilizar? Uma tarde, ao parar no semáforo defronte ao cemitério São Sebastião, eu vi quando um homem desses que exibem cartazes apanhou do chão o que me pareceu ser uma manga apodrecida, tirou a terra com as mãos e começou a comê-la. Outros mais reviram lixeiras de supermercados e restaurantes.

Não há boa vontade dos que efetivamente poderiam agir. A Petrobras, que tem um papel social no seu quadro de ações, não se mexe, não põe a cara fora. Temos duas grandes indústrias de cimento aqui bem próximo, além de ricos proprietários de postos de combustíveis, segmentos estes que faturam alto em nosso município, contudo se preocupam apenas em se tornarem ainda mais ricos.

Deus, aparentemente, também não tem feito nada em favor dos que estão aí pelas ruas em busca de uns centavos, sobretudo de alimento. Mas Deus não falha e está vendo, não se enganem, a sovinice, avareza e falta de compaixão dos ricaços, dos potentados, abastados e políticos desta cidade. Sei que no Brasil inteiro a situação não é diferente, repito, porém me atenho ao torrão onde nasci há meio século. É necessário, e com urgência, que outros escribas e vozes se levantem.

Como sermos felizes, estarmos com as nossas consciências leves, quando vemos tantas pessoas suplicando por uma refeição? Não podemos simplesmente dizer para nós mesmos que não temos nada a ver com isso, lavar as mãos, virar o rosto, ignorar. Então, senhoras e senhores, que o espírito natalino toque os nossos corações e nós possamos abrir a carteira e estender a mão aos necessitados.

Mas não só porque Deus está vendo tudo.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 05/12/2021 - 04:10h

Até um dia, meu filho Ney Jr.!

Por Ney Lopes

Não se pode descrever a dor de um pai e uma mãe despedindo-se do filho para sempre.

Ainda na mente, a notícia dada pelos netos, na noite do último dia 30, de que havia falecido Ney Lopes de Souza Júnior (veja AQUI), o nosso único filho, presente, amigo e solidário em todos os momentos da vida.

O desalento que assaltou a mim e Abigail foi aquele do rei Davi, diante do corpo do filho Absalão, ao exclamar:

Ó meu filho Absalão! Eu preferiria ter morrido no seu lugar”.

Ney Lopes, dona Abigail e Ney Lopes Júnior Foto de família)

Ney Lopes, dona Abigail e Ney Lopes Júnior (Foto: de família)

O sofrimento dilacerante sobreveio, quando tocamos o seu corpo frio, inerte, aparência tranquila como ele era.

Olhamos sua face, contando os segundos que corriam para o fechamento do ataúde e a cremação, por ele desejada.

Acariciamos o seu rosto, deitamos a cabeça sobre o seu corpo, apertamos as mãos geladas com um terço entrelaçado, num gesto de comiseração e piedade.

O nosso filho querido estava morto.

Recordei aquele 25 de março de 1974, quando com Abigail na Maternidade Januário Cicco, em Natal, aguardávamos o tão esperado único “filho homem”.

A expectativa era dar as boas-vindas ao recém-nascido, o que afinal aconteceu.

Passaram-se os anos.

Tenho presente a sua extrema dedicação à minha vida política.

Criança, ele fazia questão de me acompanhar e falar nos comícios.

Junto com amigos dedicados, que lhe homenagearam pós morte, participou da organização da ala jovem do PFL, em Natal e depois em Brasília, onde chegou a presidir nacionalmente o movimento.

Na última sexta, visitando Natal, o ministro João Roma, da Cidadania, que foi um dos jovens que com Ney Jr desejaram contribuir com a política brasileira, recordou momentos de idealismos e sonhos.

Destacou o desprendimento de Ney Jr, sempre buscando a conciliação e até renunciando posições em favor de amigos, como fez em relação a ele próprio

A visita que recebemos de João Roma nos gratificou pelas recordações e, sobretudo, pelo merecido êxito dele como auxiliar prestigiado do presidente Bolsonaro.

Outros jovens daquela época, companheiros de Ney Jr, estão hoje na política nacional: ACM Netto, Eduardo Paes, Efraim Morais Filho.

O deputado Felipe Maia, também participante do movimento, disse-me no velório, que a história desses jovens idealistas ainda precisa ser contada.

Ney Jr foi um lutador e venceu o bom combate.

Semeou o bem, por onde passou, comprovado pela unanimidade de mensagens carinhosas, calorosas e verdadeiras, que temos recebido, lido e ouvido, de tantos que tiveram a felicidade de com ele conviver.

Embora bem assistido por médicos, Ney Jr sofreu muito nos últimos anos.

Em plena campanha passada, internou-se em UTI com pneumonia (teve três em períodos diversos), duas vezes Covid-19 e processos depressivos.

Essas foram as causas do seu insucesso eleitoral em 2020, impossibilitado de fazer a campanha.

Quando se imaginava curado, veio o laudo médico do óbito, acusando como “causa mortis” edema e congestão pulmonar, enfarte agudo do miocárdio; cardiopatia isquêmica e doença arterial coronariana.

Há quem admita tenham sido fatais efeitos colaterais do terrível coronavírus.

Com apenas 47 anos de idade foi-se para a Eternidade.

Deixou legado de um ser humano, de profunda sensibilidade social.

Demonstrou isso ao concluir em Washington DC um mestrado em direito econômico e ser convidado para trabalhar no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Optou por ingressar na política em Natal e ajudar os desprotegidos.

Aprovou como vereador 52 projetos de lei na Câmara Municipal de Natal, todos eles voltados para os mais necessitados.

Propôs, em convenio da Câmara Municipal com o Tribunal de Justiça, a implantação da mediação comunitária em Natal, como forma de solução rápida dos conflitos judiciais de pessoas carentes.

A propósito, o arcebispo Dom Jaime, ao dar uma benção no corpo, fez o registro da sua vocação de servir, depois ratificado pelo amigo padre Charles, que oficiou a missa de corpo presente e acompanhou a cremação.

Guerreiro, não desistiu nem por um só segundo, mesmo quando lhe pesava nos ombros a dor física, psicológica e o sentimento avassalador das intempéries sofridas, que por vezes não podiam ser expressas, nem tampouco remediadas.

Para atingir os seus objetivos precisou muitas vezes rumar mar adentro, mesmo sob o risco de naufragar, mas sempre com o maior objetivo de persistir na luta pelos que acreditava.

Como dizia São Tomás de Aquino: “Se a meta principal de um capitão fosse preservar seu barco, ele o conservaria no porto para sempre. …”!

E você, sempre o manteve em “alto mar”, remando, muitas vezes, contra a maré, sob maus tempos e ventanias, desbravando caminhos, por causas pelas quais se comprometera publicamente.

Ney Jr a todos tratava com educação e urbanidade.

Por isso, as correntes políticas locais manifestaram pesar, sem exceções.

Exerceu os cargos de Prefeito de Natal e Presidente da Câmara Municipal, em caráter transitório.

Na condição de prefeito constatou o clamor dos servidores com atraso de vencimentos, em período natalino.

Conseguiu levantar no TRT um depósito da PMN e pagou aqueles de menor salário.

Em 48 hs autorizou um “mutirão” de limpeza pública em Natal.

Quando deu posse a Carlos Eduardo saiu do prédio da Prefeitura sob aplausos.

No seu sepultamento no Morada da Paz em Natal foram 79 coroas em homenagem póstuma.

Não teve mais pelo estoque de flores ter acabado no cemitério.

Eu, Abigail e familiares lutaremos para conseguir suportar a ausência do filho e amigo querido.

Não vai ser fácil.

Mas, descanse em paz, Ney Jr.

Você ainda poderia nos dar muitas alegrias, mas escolheu ser “saudade”. Por força da saudade, ainda convive entre nós.

Como escreveu a sua irmã Ana Lilian, no livro da missa de sétimo dia, temos a certeza que cumpriu o seu ciclo na vida da melhor forma, até o fim… nunca desistindo de lutar!

Hoje, rogamos a Deus que tenha alcançado a paz tão merecida, e descanse, enfim, nos braços do Pai!

Te amaremos para sempre, e para sempre, não tem fim!

Sabemos que está apenas no outro lado do caminho e que Santo Agostinho tem razão ao dizer, que “a angústia de ter perdido, não supera alegria de ter um dia possuído”.

O vazio da sua ausência de Ney Jr será preenchido em nosso reencontro da Eternidade.

Até um dia, meu filho Ney Jr, até um dia!

  1. Nesta segunda, 6, às 18h30 missa de sétimo dia de Ney Lopes Jr, na Igreja de Santa Terezinha (@igrejasantateresinha, em Natal.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

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domingo - 28/11/2021 - 11:22h

Confesso que chorei

Por Inácio Augusto de Almeida 

Acordei um pouco mais tarde do que de costume.  E senti falta de alguma coisa.

A palha do coqueiro já descorada pelo tempo balançava mais que de costume, como se quisesse me dizer algo.

Foi só então que me dei conta de não estar ouvindo o canto do canário que todas as manhãs me acordava. canario-da-terra-1-1024x576Levantei-me e vi amarelinho caído. Com os olhos cheios de lágrimas peguei carinhosamente o meu amigo de todas as manhãs. Com o coração sangrando cavei um buraco e, ao pé do coqueiro, fiz o enterro do amarelinho.

Desconsolado ligo o rádio e ouço que, por dia, inclusive, sábados, domingos e feriados; morrem no Brasil mais de 10 crianças vítimas   da fome.

Amarelinho não morreu de fome nem de sede. Cumpriu o ciclo vital sempre tendo água e alimentação.

Eu limpo as lágrimas dos olhos, mas não consigo conter as lágrimas que rolam dentro do meu coração pela morte de brasileirinhos vitimados pela fome.

Amarelinho se foi deixando saudades.

Os brasileirinhos estão indo me deixando cheio de vergonha por nada ter feito para evitar, pelo menos, a morte de um deles.

Ao longe ouço o gargalhar de algum corrupto com a boca cheia de mel de abelha.

Lembro-me de Madre Teresa de Calcutá perguntando por que Deus permite tanta injustiça e tento imaginar até quando aguentaremos continuar fingindo que de nada sabemos.

E assim seguimos nos preocupando apenas com nossos filhos e netos.

Para nos mostrarmos sensíveis choramos a morte de amarelinho. E mais que de repente nos esquecemos de que amanhã mais 10 brasileirinhos morrerão de fome.

Como é estranha a nossa sensibilidade…

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

P.S – PASSA DA HORA DO ROTARY, LIONS, MAÇONARIA, IGREJAS CATÓLICAS E EVANGÉLICAS ORGANIZAREM UM GRANDE MOVIMENTO DE COMBATE À FOME EM MOSSORÓ.

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domingo - 28/11/2021 - 10:26h

Entre mais cafés e livros

Por Marcelo Alves

No que toca à quantidade de “cafés literários”, nenhuma cidade bate Paris. Se Viena nos deu o modelo das cafeterias europeias, foi Paris que emprestou o glamour e a fama mundial. São muitíssimos os estabelecimentos. De ontem, já idos, e de hoje, ainda fervilhando.

Interessantemente, como observa Antonio Bonet Correa em “Los cafés históricos” (Ediciones Cátedra, 2014), “a geografia histórica dos cafés parisienses tem uma estreita relação com o desenvolvimento urbano da capital francesa. Primeiro, no século XVIII, os cafés mais concorridos se encontravam no Bairro Latino, circa da Sorbonne, entre o Odéon e a Praça de Saint-Germain-des-Prés. Depois, antes da Revolução Francesa e durante o Romantismo, o ponto de gravidade dos cafés se mudou para o Palais-Royal, na margem direita do Sena”.cafe_paris_by_rikitza-d4bpqbj

Já com Napoleão III e a reestruturação urbana do Barão Haussmann, “foram os grandes bulevares que contaram com os cafés mais frequentados por um público desejoso de desfrutar os benefícios da prosperidade econômica”. E, depois, já para o fim de século XIX, vem a época da livre e boêmia Montmartre, para além da Praça Pigalle, em cabarets e cafés, abaixo e acima do famoso monte.

Embora às vezes deseje voltar no tempo, à Paris dos anos 1920 ou da Belle Époque, vivo a minha era. É dela, dos cafés de hoje, que falarei. E, para nos poupar tempo, faço uso da lista de cafés elaborada por Noël Riley Fitch em “The Grand Literary Cafés of Europe” (New Holland Publishers, 2007): Café de la Paix, Le Fouquet’s, La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Coupole, Le Sélect, Le Procope, Les Deux-Magots, Café de Flore e Brasserie Lipp.

Das casas relacionadas apenas o Café de la Paix e Le Fouquet’s ficam na Rive Droit (metade norte de Paris). Le Fouquet’s fica na Avenue des Champs-Elysées. Mais badalado impossível. Quem já turistou por lá, se não o conheceu por dentro, pelo menos passou na porta. Já o Café de la Paix fica nas orelhas da Opéra Garnier. É um sobrevivente naquele que foi o coração da “cultura dos cafés” parisienses no século XIX.

Por uma época, ali estiveram, todos juntos e misturados, o Café de Paris, o Tortoni’s, a Maison Dorée, o Café Riche e o Café Anglais, estabelecimentos retratados na ficção dos seus habitués Balzac, Flaubert, Maupassant e Henry James. A lista de clientes célebres é infinita. Fui ao Café de la Paix umas poucas vezes. Quem vai à Opéra deve tomar um trago por lá. Pena que é caro.

Já na Rive Gauche (margem esquerda), temos dois núcleos muito definidos de “cafés literários”. O do Boulevard Montparnasse, onde estão, disputando espaço e clientes, La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Coupole e Le Sélect. São vistosos. Conhecidíssimos. Pontos de referência da cidade. Mas Scott Fitzgerald e Hemingway se perderam por lá. As personagens deste também. Eu mais encontrei do que me perdi, se é que me faço entender.

Contudo, em Paris, a minha “praia” é Saint-Germain-des-Prés, onde fica o segundo point das cafeterias da Rive Gauche. Morei no Bairro e hospedo-me lá se posso. Amalgamado ao Quartier Latin, bairro da Sorbonne e de mil livrarias, é onde amo flanar. Em Saint-Germain está “Le Procope”, dito o primeiro café-glacier de Paris, que, pela vizinhança com a Comédie-Française, ganhou fama na sociedade e intelectualidade locais. Virou moda entre ocupados e desocupados (dá para imaginar a quantidade de “artistas” por lá). Mas é no Boulevard Saint-Germain que ficam talvez os mais famosos cafés parisienses: Café de Flore e Les Deux Magots, colados, com a Brasserie Lipp em frente. Era casa de surrealistas e existencialistas, dentre estes Sartre e Simone de Beauvoir os mais badalados. Eu morava pertinho, na Rue Madame. Baixei muito lá, pagando de intelectual e boêmio. Não sou de ferro.

Eu tenho os cafés parisienses como uma das principais atrações da Cidade Luz. Posso até dizer, correndo o risco de parecer hedonista, que eles, para mim, andam de par com as livrarias em termos de prazer sensual. Aqui estou com Balzac, que, no seu “Traité des excitants modernes”, via na cafeína, tomada em abundância quando ele escrevia, um poder “eletrificante”. Imaginem, então, essa danada sorvida em meio a livros e damas parisienses.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 28/11/2021 - 09:16h

O sonho do carro zero

Por Marcos Ferreira

Naquela manhã, ao deixar o marido e a esposa grávida à porta da maternidade, o senhor Domingos estacionou o velho Fiat Uno e atravessou a rua para servir-se de um café e fumar um cigarro no quiosque da praça.

Era por volta das sete e meia. Três sujeitos estavam por ali conferindo na tevê do quiosque a partida entre a seleção masculina de futebol do Brasil e o time do Egito, que disputavam uma vaga na semifinal nas Olimpíadas de Tóquio. Durante aqueles minutos, cigarro no bico, o senhor Domingos assistiu à partida. Reclamou da ausência de alguns jogadores e retorquiu a convocação de outros.marcos-ferreira-julho - Papangu na Rede - O sonho do carro zero

— Eles tinham que ter liberado o Pedro.

Um tipo baixote e vermelho alfinetou:

— O senhor só pode ser flamenguista.

— E daí?! — reagiu tragando o cigarro.

— Se pudessem, vocês empurravam o Flamengo inteiro com o uniforme da Seleção — disse outro vestindo camisa do Vasco.

— É muito melhor do que esse seu time de segunda divisão — devolveu o taxista de imediato, com um sorrisinho tripudiante.

Um rapaz cheio de tatuagens interveio:

— Hoje o Palmeiras é muito mais time.

O senhor Domingos ia se emaranhando naquela picuinha futebolística, quando súbito o telefone tocou no bolso da sua camisa. Consertou os óculos no alto do nariz e identificou a chamada. Um vizinho e cliente, com quem ele se acertara na noite passada, o aguardava para uma corrida até a rodoviária.

Sessenta anos de idade, há vinte e cinco na profissão de taxista, o senhor Domingos adquirira a confiança de muitos, notadamente pelo seu perfil simpático e educado, respeitoso, sobretudo, com suas passageiras.

A razoável clientela chegava para acudir o orçamento da casa, obrigações com esposa e filhos recém-chegados à maioridade, e conseguia reservar uma grana para cobrir a parcela do consórcio do sonhado carro zero.

— Quanto foi meu cafezinho? — perguntou.

— Um real — respondeu o dono do quiosque.

Com apenas duas portas, adquirido com alta quilometragem e sem alguns luxos como direção hidráulica, vidros elétricos nem ar-condicionado, o táxi do senhor Domingos, ano 1985, dava sinais de extenuação.

Não raro encostava numa oficina mecânica. Isto apesar de todo o zelo e carinho do proprietário, que cuidava tão bem da sua ferramenta de trabalho quanto da família. Algumas vezes, em tom espirituoso, a senhora Berenice, a esposa, dizia que o marido gostava mais do carro do que propriamente dela.

Quando alguém da família ou um amigo mais íntimo, também em tom espirituoso, fazia um comentário desabonador sobre as condições do padecido Fiat Uno, Domingos não se abalava e respondia bem-humorado:

— Ora essa! Meu carro não é velho, não. Trata-se de um automóvel ainda jovem, com apenas trinta e seis aninhos de idade.

Naquela manhã de julho, enquanto se encaminhava à residência do cliente que tencionava levar à rodoviária, o senhor Domingos topou com uma forte e repentina chuva, fato este que o obrigou a fechar as janelas.

Logo o vidro começou a embaçar e ele dirigia acenando uma flanela contra o vidro, posto que o limpador de para-brisa estava sem funcionar. Diante da pressa e da visão embaçada, ele calculou mal a proximidade de um caminhão ao cruzar a BR-304. A Moça da Foice pegara carona no velho Fiat.

Ao ser retirado das ferragens, o telefone voltou a tocar sobre o peito do senhor Domingos, agora mudo. Um policial do Corpo de Bombeiros ouviu a chamada e achou por bem atender. Podia ser alguém da família:

— Alô — disse o militar num tom grave.

Na outra ponta da linha uma voz feminina:

— Senhor Francisco Domingos, bom dia! Olha, estou ligando para lhe informar que o senhor foi sorteado em nosso consórcio. É isso mesmo. O senhor acaba de ganhar o seu tão esperado carro zero. Parabéns!

— O senhor Domingos não pode atender.

— Preciso dar essa notícia. Ele ficará feliz.

— Não… O senhor Domingos morreu.

Na tarde seguinte, cercado por muitos familiares e amigos, o senhor Domingos foi sepultado junto com o sonho do carro zero.

Marcos Ferreira é escritor

  • Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede.
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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/11/2021 - 12:44h

O que nos reserva cada caminho que não percorremos?

caminhos, dúvidas, veredas, encruzilhada, opções, dúvidasPor Honório de Medeiros

Cada um de nós, no presente, é refém das escolhas que fez no passado.

Bifurcações, encruzilhadas, caminhos com possibilidade única de retornar ou seguir em frente, veredas, qualquer opção tomada nos encaminhou a um futuro escolhido e desfez, naquele preciso instante, para sempre, a possibilidade de vivermos o que foi abandonado.

Muito embora às vezes pudéssemos ter uma pálida ideia do que viria quando a opção foi feita, são tantos os desdobramentos seguintes que qualquer certeza logo se desfaz, tal sua evanescência.

Angustia-nos saber que a opção foi um ponto-sem-volta, que nunca saberemos, concretamente, o que aconteceria se, no passado, tivéssemos seguido de forma diferente.

Aquela rua que não foi transposta, a esquina que não foi dobrada, o adeus que foi ou não dado, o não ou o sim que dissemos, há tanto tempo, o que nos reservava cada caminho que não percorremos?

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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