domingo - 17/10/2021 - 06:40h

Perda e saudade

Por Odemirton Filho 

Quando espio o passado percebo quantas pessoas queridas já perdi no correr da vida. No último dia cinco, infelizmente, perdi o meu tio Francisco das Chagas da Silva Espínola, professor aposentado da antiga ESAM. Um homem do bem, como se diz daquelas pessoas corretas.

Professor Espínola: uma subtração afetiva (Foto: cedida)

Professor Espínola: uma subtração afetiva (Foto: cedida)

Tio Espínola fez parte de toda minha vida. Quando eu ia à sua casa para brincar com os meus primos, a hora do almoço era um tormento. Tio Espínola somente deixava eu me levantar quando comesse tudo que estava no prato. Para mim, à época magrinho, era um sacrifício. Ele era barriga cheia, como se diz. Gostava de tomar uma “lapada” de cana antes de almoçar. Como homem “das antigas”, usava uma “capanga” para guardar seu dinheiro e documentos.

Lembro-me da construção de sua casa, ali no bairro Costa e Silva. Uma casa grande. A festa de aniversário de quinze anos de minha irmã foi lá. Aos domingos, ele gostava de preparar um churrasco para receber seus filhos e netos. Era um pai e avô dedicado. No ano passado, quando a pandemia estava no seu pior momento, ele ficou, juntamente com tia Adna, na casa de Tibau. Tio Espínola curtiu, sem saber, o restante da sua vida.

Tenho imensa saudade das “churrascadas” no alpendre de Tibau. Uma ruma de gente, bebendo e cantando, o mar como tira-gosto. Muitas das vezes eu tive que sair para comprar mais cerveja, tamanha era a sede dos convivas. Tio Espínola sempre fazia parte desses encontros.

Anos depois, já adulto, eu ingressei na Loja Maçônica 24 de Junho. Tio Espínola estava lá, pronto para me iniciar nos “mistérios” da Maçonaria. Ele nunca quis ser o Venerável-Mestre, embora tivesse experiência e respeito dos irmãos para assumir o primeiro malhete da Loja.

Lamento não ter conversado mais com ele, tomando o seu uísque Black & White. Eu teria aprendido muito sobre a vida. Vez ou outra, nos encontrávamos num supermercado próximo das nossas casas e trocávamos um dedo de prosa. Ele e sua inseparável “capanga”.

Certamente, o leitor, assim como eu, deve ter as suas perdas e saudades.

Vem-me à lembrança o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Sim, tenho saudades, nem nos deixaste sequer o direito de indagar, porque o fizeste, porque te foste”. 

Tio Espínola deixará saudade. Das grandes.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/10/2021 - 04:00h

Gudãozinho

Por Marcos Ferreira

Como se alguém houvesse perguntado, informo que hoje levantei cedo. Coisa esta, aliás, que se transformou em rotina. Portanto, a exemplo de outras vezes, acordei antes das cinco. Para ser mais preciso, fui desperto. Sim. Minha mimosa gata Gudãozinho, que ainda não completou um ano de vida, foi quem me acordou. Ela, Gudãozinho, é a pessoa que acorda mais cedo aqui em casa, sendo também necessário dizer que só nós dois habitamos entre estas paredes velhas.gatinho, gato branco, felino, animal

Pois é, eu a chamo de pessoa. Tem mais personalidade do que certos indivíduos que conheço. Gudãozinho dorme dentro de casa há um bom tempo, desde a noite em que um gato grandalhão e vira-lata tentou dominá-la, cheio de segundas intenções. A gatinha nem chegou ao primeiro cio. Estou me programando, juntamente com Natália, para realizarmos o procedimento de castração.

Todos os dias, logo que os passarinhos iniciam o seu trinado na mangueira da residência aos fundos, a felina salta para dentro da minha rede e não sossega (espezinhando sobre mim) enquanto não lhe abro a porta da cozinha. Ela vai brincar no quintal, eu geralmente volto para a rede, a fim de retomar o sono interrompido, porém daí a pouco Gudãozinho vem me cutucar. Já amanhece elétrica e a essa hora, sem dó nem piedade, espera que eu tome parte nas brincadeiras dela.

Dei-lhe esse nome (lembro de já ter explicado isso) por ela ser felpuda e branquinha como algodão, extraindo desta palavra a corruptela Gudãozinho. Apareceu-me certa manhã, quando abri o portão, como também relatei em crônica de há dois ou três meses, em lastimável estado de desnutrição, só pele e ossos, às vascas da morte. Não conseguia sequer se manter de pé para comer.

Não tive coragem de deixá-la na rua. Compreendi que talvez não sobrevivesse nem mais um dia naquelas condições. Resgatei-a daquela situação miserável e a trouxe para dentro, imaginando que estava praticando uma boa ação, uma caridade. Eu não fazia ideia do quanto ela me retribuiria em tão pouco tempo. De repente, não mais do que de repente, como no soneto de Vinícius de Moraes, eu não mais me sentiria tão sozinho neste meu cotidiano de homem recluso.

Comprei-lhe ração, ofereci-lhe um teto, água geladinha e carinho às pampas; levei-a ao veterinário com o apoio de Natália. O médico aplicou-lhe vacinas, fez um hemograma, detectou uma infecção, prescreveu remédios. Hoje Gudãozinho está aqui lépida e fagueira, esbanjando saúde e vendendo beleza. É ótimo vê-la brincando pela casa e quintal, ronronando e me tirando a pagode.

Quando menos espero, lá vem ela com uma lagartixa na boca, espécie de troféu, segundo li em algum lugar, para oferecer ao seu tutor. Fico arrepiado, tenho nojo a esses répteis, entretanto pego a presa e a devolvo à natureza. Gudãozinho não mata esses bichinhos, somente os captura e os traz para me mostrar, orgulhosa da sua façanha. Outro dia, para meu assombro, entrou pela porta da cozinha arrastando uma iguana de bom tamanho, três vezes maior que uma lagartixa.

Depois de treze anos morando absolutamente só, tendo por companhia apenas a escrita e uma estante com livros, Gudãozinho surge e enche este modesto lar de encanto, graça e alegria. Quando não está tirando suas sonecas no início da tarde, passa boa parte do tempo conversando comigo, correndo de um lado para o outro, tocando o terror nas lagartixas e passarinhos que pisam no quintal.

Eu, todo bobo, vez por outra chamo por ela: “Cadê você, Gudãozinho?!” Segundos depois, conhecedora do próprio nome, ela vem me atender toda graciosa, a cauda muito felpuda para cima, apontando em minha direção como um para-raios. Roça nas minhas pernas, ameaça mordiscar meus tornozelos, brincalhona. Bebe pouco, mas vai de instante em instante à panelinha da ração. Creio que não estou exagerando ao dizer que ela dobrou de peso ao longo destes meses.

Desde que Gudãozinho dorme dentro de casa, portanto, acordo no horário dos passarinhos. Isso, mais que a quetiapina, me tem feito dormir bem cedo. Por volta das nove e meia os meus olhos já estão piongos de sono. Hoje foi um desses dias em que fui acordado cedinho, o dia mal havia surgido. Preparei a cafeteira, fiz minhas abluções, e antes das seis comecei a escrever esta crônica.

E por que não fecha a porta do quarto? O prezado leitor e a gentil leitora podem indagar. Respondo: simplesmente porque meu quarto não tem porta. Os cupins comeram, assim como devoraram a cama, o guarda-roupa, um armário, um bocado de livros e agora seguem roendo o móvel sobre o qual está a minha televisão. Então, senhoras e senhores, durmo mesmo de rede, que armo aqui na sala, diante do televisor. Vez por outra assisto a um filmezinho. Adoro cinema.

— Não é, Gudãozinho? — ela assente.

Quanto aos cupins, estou em desvantagem numérica. Combato um foco dos insetos aqui, surge outro acolá. Essa luta inglória se arrasta há anos. Estão em toda parte, embaixo do chão e no madeiramento. Gudãozinho, que botou ordem na superpopulação de lagartixas, nada pode fazer contra esses devoradores de madeira. Aqui, felizmente, não há ratos nem baratas. Cupins, entretanto…

Penso em outros bichinhos, sobretudo nos cães e gatos, que a esta hora estão por aí abandonados, rifados nas ruas, passando fome e sede, à espera de alguém que os adote. Poucas pessoas, infelizmente, dão importância a esses animais em situação de risco. Não me admira. Muitos sequer se importam com os mais de duzentos e vinte mil seres humanos que vivem atualmente nas ruas deste país. Famílias inteiras vivendo nas calçadas, sob marquises e toldos, pontes e viadutos.

Gudãozinho teve sorte de topar comigo, que tenho um coração de manteiga. Outro talvez a tivesse repelido. Também dei sorte em topar com Gudãozinho. Outro gato, em situação favorável, teria fugido de mim, e hoje eu estaria sem usufruir do bem que essa companhia de quatro patinhas me proporciona. Tanto Natália quanto o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) aprovam tal convivência.

Lá vem Gudãozinho com outra lagartixa!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/10/2021 - 10:42h

Relações perigosas

Por Marcelo Alves

Há livros que nos remetem a outros livros. E essa relação se dá, pelo menos para mim, com “O caso dos dez negrinhos” (“Ten Little Niggers”, 1939), da minha grande amiga Agatha Christie (1890-1976), e “A pane” (“Die Panne”, 1956), de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), sobre quem escrevi recentemente.

Ten Little Niggers” – que também é publicado sob os títulos “Ten Little Indians”, “The Nursery Rhyme Murders” e “And Then There Were None”, em razão da polêmica sobre o caráter racista do seu título original – é um dos livros mais conhecidos da minha amiga. Os seus admiradores conhecem bem o enredo: localização sinistra e personagens estereotipados. Dez pessoas são convidadas para uma mansão na ilhota chamada Nigger/Indian Island (inspirada em Burgh Island, localizada na costa de Devon).

Agatha Christie, especialista no suspense (Foto: web)

Agatha Christie, especialista no suspense (Foto: web)

Os convidados chegam, entusiasmados, em uma tarde de verão. Mas a coisa muda em meio a uma tempestade que os deixa isolados na pequena ilha. E todos têm algo a esconder. “Crimes” que a “Justiça dos homens” não foi capaz de punir. Um a um, eles são indiciados, condenados e mortos.

Para os amantes do direito, tudo encanta em “Ten Little Niggers”, a começar pela atmosfera de investigação/audiência/julgamento, com todo um vocabulário próprio dos tribunais. Entre as personagens, há até um juiz aposentado (famoso pelo pendor de “seus” réus à forca), que “preside” várias passagens/audiências. A obra nos faz pensar até que ponto é salutar a justiça absoluta, que pode significar apenas um sádico prazer em assistir à dor alheia, e em quem estaria apto para provê-la.

Já “A pane”, de 1956, conta a estória de um caixeiro-viajante que, após uma avaria no seu carro, é convidado para jantar e pernoitar na casa de um juiz aposentado. Alfredo Traps (“armadilhas”, em inglês) é o nome desse outrora tão comum representante de vendas. O desenrolar do pernoite ganha ares sinistros. O anfitrião convida o caixeiro a participar de um jogo, em que o juiz e seus três amigos – um ex-promotor, um advogado de defesa e um “carrasco” – se divertem durante o jantar. O jogo é um julgamento simulado no qual Traps será o réu. Sugere-se que o caixeiro teria causado a morte do seu próprio chefe. Ele também teria tido um caso com a esposa deste.

O promotor então acusa o “réu” de homicídio premeditado. Após os argumentos finais, o juiz sentencia Traps à morte. Os “operadores do direito” agradecem ao caixeiro a sua esportividade e pedem que ele acompanhe o carrasco até um quarto reservado. Mais tarde, quando se vai entregar o veredicto escrito ao “condenado”, descobre-se que este se enforcou. A coisa torna-se ainda mais sinistra e tensa.

A trama foi inicialmente formulada como uma peça de rádio (e, aqui, o final é diferente). Ganhou prêmios e foi logo transformada em romance. Foi novamente readaptada, pelo próprio autor, desta vez para os palcos, com mais um final diferente. E, claro, foi bater na TV e no cinema, sendo “The Deadly Game”, filme de 1982, direção George Schaefer (1920-1997), a versão mais conhecida. Recomendo!

O romance de Christie é anterior ao de Dürrenmatt (respectivamente, de 1939 e 1956). Será que este teria se inspirado naquela? Curiosamente, descobri na Internet que Dürrenmatt paga tributo a outro grande escritor, Guy de Maupassant (1850-1893), provavelmente tendo por base um conto/novela deste intitulado “Le Voleur” (1882). E outros já relacionam “A pane” com o romance “The Four Just Men” (1905), de Edgar Wallace (1875-1932).

Noves fora a curiosidade, tudo isso pouco importa. Antoine Lavoisier (1743-1794) já dizia: “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Outro grande francês, François-René de Chateaubriand (1768-1848), disse: “O escritor original não é aquele que não imita os outros, mas aquele que não pode ser imitado por ninguém”. E o enorme T. S. Eliot (1888-1965) arrematou algo como: “Os grandes escritores não plagiam, eles se inspiram”.

Bom, nestas páginas, eu ponho para relacionar quem eu quiser. Até a minha Agatha Christie. Sejam essas relações, que envolvem assassinatos e inspiração, perigosas ou não.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Cultura
domingo - 10/10/2021 - 09:48h

Mossoró

Foto coletada na Web de autoria de João Clemente

Foto coletada na Web de autoria de João Clemente

Por Inácio Augusto de Almeida 

Existe coisa mais linda do que o nascer do sol?

Primeiro surgem raios avermelhados que aos poucos vão vencendo a escuridão da madrugada que se vai para dar lugar ao brilho da manhã que chega tornando o céu azul e nos presenteando com nuvens que lembram belos flocos de algodão.

Luminosas manhãs mossoroenses, manhãs tão cheias de luz a nos dar um céu tão azul que os pássaros festejam com um canto afinado que nos faz lembrar uma orquestra só existente na nossa imaginação.

É a perfeição da natureza se fazendo presente.

Mossoró tem dias de luz tão bonitos que nos dá a impressão do sol viver em eterna festa.

E as manhãs mossoroenses são um convite à vida.

Impossível descrever a festa de luz, calor e sons que chegam juntos com cada novo dia.

Mas não pensem a beleza de cores findar-se com a manhã que dá lugar a uma tarde que se vai lentamente e, até mesmo, com um muito de preguiça.

Há muita beleza nas tardes de Mossoró. E quando bate a brisa vespertina a lembrar que é hora das cadeiras na calçada…

Calma, gente, o mais belo ainda está por vir.

É quando o sol ensaia o seu desmaio e, entre nuvens vermelhas, anuncia a chegada da noite.

Raios cor de ouro rasgam o céu enquanto mansamente a primeira estrela vai, timidamente, surgindo.

Depois uma colcha de retalhos se forma.

São estrelas lindas brilhando com intensidade tão forte que nos leva a ver um quadro jamais criado por nenhum pintor.

Mossoró é uma cidade bela em tempo integral.

Só nos resta agradecer a Deus por tanta beleza e por ter nos dado o dom de tudo isto desfrutar.

Não existe no mundo coisa mais linda que Mossoró.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/10/2021 - 07:52h

Garrafas de areias coloridas

Por Odemirton Filho

Outro dia li uma crônica do escritor Ferreira Gullar. O texto falava sobre as garrafas de areias coloridas da nossa praia de Tibau.

Há muito tempo, conforme Gullar, em São Luís do Maranhão, tinha visto uma dessas garrafas de areias coloridas e ficara admirado. Achara de extrema habilidade o trabalho do artista.

Garrafinhas com areias coloridas que encantam muita gente (Foto ilustrativa de Ana Paula Hirama)

Garrafinhas com areias coloridas que encantam muita gente (Foto ilustrativa de Ana Paula Hirama)

Segundo lhe contaram, um grupo de mulheres lideradas por Maria Francisca, moradora da cidade de Tibau, fazia essas garrafas. “Belíssimas! Um encanto”, dissera o poeta.

De acordo com o narrado por Maria Francisca, quando ela era menina houve uma grande ressaca na praia de Tibau, pondo à mostra a variedade de areias coloridas ali existentes. Ela e a irmã começaram a brincar e levar para casa. Uma delas resolveu guardar as areias coloridas dentro de uma garrafa e, daí em diante, começaram a fazer desenho simples. Com o passar do tempo foram aperfeiçoando os desenhos. A história é verdadeira? Não sei, estimado leitor.

Mas, de toda forma, fiquei impressionado com a narrativa de Gullar. Eu, particularmente, desconhecia. Com certeza, muitos não sabem sobre esse pedaço da história de Tibau.

Cá de minha parte, pensei o quanto damos tão pouco valor as coisas de nossa terra. Nunca imaginei que um poeta da estatura de Gullar tivesse escrito sobre a arte da nossa linda e gostosa praia de Tibau. Aliás, nesses tempos difíceis, um banho de água salgada faz bem.

Em vários momentos, já relatei neste espaço as lembranças da minha Tibau da infância e juventude. A crônica de Gullar me fez voltar ao morro do labirinto e suas areias coloridas, no qual brincava com os meus primos naquelas tardes de veraneio, depois tomava banho no “pinga”. Sempre vem uma doce saudade daquele tempo.

Infelizmente, não encontro à venda as garrafas de areias coloridas como antigamente. Hoje, de vez em quando, deparo-me com algumas. Talvez, os mais jovens já não exerçam a arte como faziam os seus pais e avós.

Aos leitores, deixo as palavras do grande poeta Ferreira Gullar como uma homenagem à nossa arte: “as garrafas valem pela sua beleza inesperada, pela força poética que arrebata objeto tão cotidiano para os campos dos sonhos. Eis uma das coisas mais puras e mais fascinantes da arte popular brasileira: As garrafas do Tibau”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/10/2021 - 06:38h

Meu amor de salvação

Por Marcos Ferreira

Após não sei quantas publicações, eis que agora me dou conta de que não escrevi sobre a mais importante personagem que, vez por outra, menciono neste meu exercício de cronista. Pois é, não escrevi. Embora a tenha inserido nalguns textos prolixos acerca de assuntos vários, não a expus, todavia, como protagonista, com uma página apenas dela: minha adorável noiva Natália Maia.

Então, prezado leitor e gentil leitora, peço licença para discorrer, neste domingo de pássaros cantantes e céu azul, sobre alguém que, ao longo dos últimos seis anos (nosso namoro teve início aos 7 de setembro de 2015), só me tem dado alegria e orgulho de tê-la em minha vida. Exatamente! Se em outros momentos a enalteci em merecidos versos, que tornei públicos sem qualquer receio, hoje repito a indiscrição em prosa, nesta crônica de natureza tão pessoal quanto amorável.

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Sei do risco que corro, em se tratando do interesse dos leitores, ao abordar um assunto tão íntimo. Tem nada, não. Creio que possuo algum saldo com vocês. Se não, botem aí na conta, que qualquer dia eu pago esse débito literário. Hoje não me furtarei em falar sobre Natália, ela que, antes do meu editor, é quem primeiro lê todas as produções que publico. Exceto esta. Porque é surpresa.

Imagino que agorinha ela acabou de acessar o Canal BCS (Blog Carlos Santos), já tomada banho e decerto bebericando a sua xícara de café matinal, para saber enfim o que danado escrevi para este domingo, posto que desta feita (estranhando desde ontem as minhas esquivas) ela não viu meu texto em primeira mão. Sim, inventei algumas desculpas, escondi-lhe a verdade com esse propósito bem-intencionado, e mantive estas páginas longe dos olhos de Natália até bem pouco.

— Cadê a crônica, hein? — ela perguntava.

Neste minuto, porém, não há mais segredo. O pano caiu; estou a descoberto perante ela. Muito em seu louvor eu gostaria de dizer, contudo sei que nada do que escreva será o bastante para dimensionar as qualidades de Natália Maia, uma pessoa cujo caráter e senso humanitário poucas vezes se encontram em meio ao rebanho da vida em sociedade, como diria o querido amigo Antônio Alvino.

O que mais posso referir sobre Natália? Há tanto o que ser dito de bom a respeito dela, eu que sou o seu maior admirador, mas agora reparo que as palavras começam a me faltar. Acontece. Entre outras coisas, às vezes ela tem o poder, a sutil capacidade de me deixar sem argumentos. Por outro lado, e com firmeza, é a grande incentivadora das minhas letras, da minha escrita. É quem me diz (na saúde e na doença, na tristeza e na alegria) que tenho futuro enquanto escritor.

Não sou um sujeito religioso, nunca fui, entretanto ouso dizer que Natália é um anjo bom que Deus colocou em meu caminho. Hei de ir embora primeiro, sinto que não vim a este mundo caótico para me demorar, mas desejo viver ao lado dela todo o tempo que ainda me resta. Portanto, agradeço ao Altíssimo por todos os dias, horas e minutos que tenho usufruído da companhia de Natália.

Foi ela, com o facho de luz do seu lindo coração, com a aura de um espírito superior, quem me resgatou das trevas em que estive durante tanto tempo, desacreditado de todos e até de mim próprio. Natália, prezado leitor e gentil leitora, devolveu-me a alegria de viver, convenceu-me de que a vida vale a pena, e me trouxe de volta o prazer da escrita, da leitura, meu gosto pela música e pelo cinema. Exatamente, senhoras e senhores, não foi apenas o arsenal de psicotrópicos.

Cheguei ao fundo do poço, a ponto de passar noites amarrado a uma cama de hospício desta cidade, dopado, o corpo cheio de dores, num deplorável estado de semiconsciência e torpor. E quando eu estava lá, caído nas sombras, na sarjeta mental, foi dela a mão que me resgatou. Cuidou dos meus ferimentos e todo dia me ensina a conviver com as cicatrizes que ficaram na minha alma.

É difícil falar sobre esta Natália sem exibir um pouco do meu histórico, por mais que o objetivo destas palavras seja prestar uma simples homenagem à musa do meu coração. Penso que outras mulheres (não culpo ninguém por isso) teriam me voltado as costas, desistido de mim nos primeiros sinais da minha doença. Ela, contudo, não o fez, não me largou naquele manicômio. Apostou no meu restabelecimento, não fraquejou, a todo instante apoiada na sua infinda, inabalável fé.

— Você vai ficar bom! — sempre afirmava.

Por que expor aqui coisas tão íntimas? Alguém deve questionar. Não me constranjo, não há problema algum em sermos justos e verdadeiros. Não perco mais tempo com certos pudores e hesitações. Hoje tenho mais passado que futuro e quero dizer às pessoas — inclusive a Natália — o que penso sobre elas, ainda que publicamente. Deixar isso para amanhã pode ser para nunca mais.

Os pássaros cantam, redemoinham na mangueira da residência aos fundos, numa incessante babel que me serve de trilha sonora para este depoimento em homenagem a Natália. O vento também produz barulho nos ramos e folhas da grande árvore, impulsionando o voejar do passaredo ao redor. Então eu gostaria que este relato fosse leve como o vento, agradável e alegre como o canto desses seres alados que orbitam a velha mangueira da senhora Francisca, minha vizinha.

Não só da mangueira advêm as aves que ouço nas imediações. Aqui próximo, por trás das casas do outro lado da rua, passa um córrego (talvez seco nesta época do ano) de onde vez por outra, além do estrídulo das nhambus, escuto o que me parece o pio de uma sericoia e também das rasga-mortalhas. Sobretudo durante as eventuais horas mortas em que me encontro nesta escrivaninha.

Antes, durante um longo período, eu não mais me dava conta de nada disso, da vida que pulsava no meu entorno, das coisas simples e belas da natureza. Tive que reaprender a enxergar e a ouvir muito do que havia esquecido. Natália, que posso chamar de meu amor de salvação, sem pieguice ou exagero, tal qual no romance do Camilo Castelo Branco, é responsável por tudo de bom que me tem acontecido ao longo destes seis anos que abarcam o nosso namoro e noivado.

É possível que o prezado leitor e a gentil leitora considerem esta declaração algo açucarado, quiçá démodé. Podem achar o que quiserem. Estão no seu direito. Acontece, porém, que de amargo hoje em dia eu só estou aceitando café. No mais, ao menos em literatura, um pouco de açúcar, só uma vez perdida, não faz mal a ninguém. Até porque o amor também é doce e nunca sairá de moda.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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quarta-feira - 06/10/2021 - 19:40h
Opinião

Brasil acima de tudo…

Por François Silvestre

e Deus acima de todos.

O Slogan mais cretino de toda a cretinice republicana, até hoje. Vamos por parte. O Brasil dos Bolsonaros é uma colônia cultural americana. De bajulação nos ovos de tal vassalagens que a espuma da mamada derrama-se nas virilhas do Tio Sam. Safadeza de pompa, que faz da nossa pequenez internacional uma humilhação semelhante ao acanhamento de um cachorro de pobre mudando-se da casa de taipa para a sombra de uma oiticica. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos - slogan de Jair Bolsonaro

Esse o primeiro fato. Brasil acima, pra quem? Pra nós, os daqui, talvez. Para o Ministro da Economia, inteligente e esperto, não. Foi guardar seus “trocados” num paraíso fiscal. Investir aqui? Nunca. Essa bosta, pra ele, tá abaixo de tudo. Cada dólar que sobe, sobe seu guardado lá. Nos últimos meses ganhou quatorze milhões de reais. Sem fazer nada, sem mexer uma palha, só influindo no câmbio. Investir aqui? Só se ele fosse burro. O presidente do Banco Central fez o mesmo. É ilegal? Não.

Na República da Escrotice todo escroto age legalmente. Tá na lei. Mesmo o que a lei proíbe, há sempre uma brecha que ampara a bandidagem.

E Deus acima de todos? Pronto. O Criador foi promovido. Ninguém até hoje havia dado essa promoção. Bolsonaro o promoveu, no Brasil. E Cabecinha o promoveu, em Martins. Até que em fim Deus foi promovido a marechal.

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Categoria(s): Crônica / Política
domingo - 03/10/2021 - 12:48h

Bandido/herói

Por Inácio Augusto de Almeida

Julho de 1944. A guerra perdida para a Alemanha.  Oficiais de alta patente sabiam que a derrota era inevitável e que, continuar lutando era apenas sacrificar ainda mais o sofrido povo alemão. Só que não tinham coragem de dizer isto ao louco que continuava acreditando na vitória.

E por conta da covardia do alto comando das forças armadas, milhares de militares e civis morriam todos os dias.

Um coronel não suportou ver tanta covardia causando tanto mal ao povo alemão e resolveu agir.

Explosivos foram acionados, mas Hitler conseguiu se salvar do atentado (Foto: reprodução)

Explosivos foram acionados, mas Hitler conseguiu se salvar do atentado (Foto: reprodução)

Chamou para si a tarefa de matar Hitler e negociar uma rendição condicional com os aliados. Rendição que, por não ser incondicional, manteria à Alemanha numa posição não humilhante e preservaria milhões de vidas.

STAUFFENBERG sondou vários generais e todos se mostraram simpáticos à ideia. Até mesmo o grande Rommel concordava que a guerra estava perdida.

Stauffenberg armou a OPERAÇÃO VALQUÍRIA e partiu para uma reunião na Toca do Lobo, onde Hitler se reuniria com generais, levando dentro da pasta uma bomba de alto poder explosivo. Stauffenberg chegou a colocar a pasta com a bomba armada para explodir minutos depois e conseguiu sair da sala.

A bomba explodiu e Stauffenberg retornou a Berlim certo que Hitler tinha morrido.

A Operação Walquíria começou a funcionar e todos aderindo ao projeto que buscava pôr fim a uma guerra que já não tinha sentido.

Logo que a voz do Hitler é ouvida nos rádios dos alemães, ele tinha sobrevivido, todos começaram a se afastar de Stauffenberg a quem passaram a chamar de traidor.

O Coronel Stauffenberg foi fuzilado imediatamente. Outros também foram fuzilados, mas sempre apontando Stauffenberg como o responsável pela traição.

E como TRAIDOR DA ALEMANHA Stauffenberg entrou para a história.

O tempo passou e a verdade surgiu.

Hoje uma enorme estátua do HERÓI Claus Von Stauffenberg pode ser vista na mais movimentada avenida de Berlim.

De bandido a herói.

A verdade pode demorar a aparecer, mas sempre aparece.

Que o exemplo de Stauffenberg sirva para covardes que mentem, encobrindo atos espúrios, reflitam.

A história está repleta de exemplos de que os imediatistas, os covardes, os mentirosos, terminam mergulhados na vala do esquecimento.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 03/10/2021 - 11:42h

Os alienistas jurídicos

Por Marcelo Alves

Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) foi um escritor suíço de língua alemã. Nasceu numa pequena cidade do cantão de Berna. Sua família era conservadora e protestante. Foi cedo morar na belíssima capital de facto do seu país. Estudou filosofia, filologia, literatura e até “ciências” nas universidades de Zurique e Berna. Logo abandonou a vida acadêmica.

Foi escrever romances e, em especial, teatro neoexpressionista. Dürrenmatt não era engajado partidariamente, mas tinha uma posição político-filosófica de vida. À moda do grande Bertolt Brecht (1898-1956), embora mais desmascarador do que didático, suas peças (e seus romances também) visam menos o entretenimento da plateia/leitor e mais fomentar o debate público sobre temas fundamentais. É denúncia. E é bastante original. Dürrenmatt foi também pintor. Mas, cá entre nós, foram os seus leitores e espectadores que tiveram mais sorte.

Friedrich Dürrenmatt, escritor e dramaturgo suíço, um nome sempre controverso (Foto: reprodução)

Friedrich Dürrenmatt, escritor e dramaturgo suíço, um nome sempre controverso (Foto: reprodução)

Sua primeira peça foi “Está escrito” (“Es steht geschrieben”, 1947), que estreou com grande polêmica. A trama gira em torno de uma “batalha” entre um cínico carreirista e um fanático religioso, que leva as escrituras ao pé da letra, tudo isso acontecendo enquanto a cidade em que vivem está sob um cerco. A noite de estreia foi um furdunço. E aí já dá para se ter uma ideia do tipo de “denúncia” de que estamos falando.

O primeiro grande sucesso foi a peça “Rômulo, o Grande”. Segundo Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), aqui, “ideias expressionistas, modernizadas up to date”, inspiram essa tragicomédia pseudo-histórica, “em que o último imperador romano, alvo do escárnio de milênios, é homenageado como grande estadista que não quis ‘salvar a civilização’, porque é impossível salvar civilizações. E que civilização!”.

Sua obra-prima possivelmente é “A Visita da Velha Senhora” (“Der Besuch der alten Dame”, 1956), uma mistura grotesca de comédia e tragédia sobre uma mulher rica que oferece ao povo de sua cidade natal uma fortuna se eles executarem o homem que a abandonou no passado. Em “A Visita da Velha Senhora”, como anota Carpeaux, “o desfecho é a morte trágica de um ‘herói’ nada trágico, causada pela vingança patológica de uma velha senhora e pela cobiça patológica de todos”.

Já no drama satírico “Os físicos” (“Die Physiker”, 1962), a ameaça trágica da bomba atômica é uma intriga de manicômio e levará ao poder um governo universal, encabeçado por uma louca”. Quão atual!

Entretanto, para nós, cultores da literatura e do direito, talvez (e enfatizo a dúvida, uma vez que o autor escreveu outras peças e romances “jurídicos”) a mais interessante obra de Dürrenmatt seja “O Casamento do Senhor Mississippi” (“Die Ehe des Herrn Mississippi”). Como registra Carpeaux, o louco promotor público dessa peça, “que manda centenas de sujeitos à forca para moralizar a vida pública, é personagem tipicamente expressionista”. É, assim, peça de pleno desmascaramento. Pondo de lado as relações pessoais entre as personagens, a peça tem como centro o radicalismo do promotor Mississippi, que se acredita um lutador pela “justiça do céu”. Ele internalizou de uma maneira muito peculiar os ditames da Bíblia, especialmente as chamadas “Leis de Moisés”.

Convidado a simpatizar com a “esquerda”, ele refuga. É infenso a qualquer moderação. Após uma revolta popular abortada, ele vai para um manicômio. De lá foge. Num ritual macabro de envenenamento recíproco, Mississippi morre ainda na crença de que o homem pode ser mudado por punições inumanas. Tem doido para tudo. Ao final, na peça, as personagens retornam à ribalta e fazem um balanço dos acontecimentos.

Bom, e que balanço nós podemos fazer disso aqui?

Há um meramente literário. “O Casamento do Senhor Mississippi” me lembra bastante “O Alienista” (1882), do nosso Machado de Assis (1839-1908), cujo protagonista da confusão é o médico psiquiatra Simão Bacamarte, o dono da Casa Verde, o seu próprio manicômio, até porque acabou internado lá.

Mas eu prefiro aqui meditar sobre uma observação do multicitado Carpeaux. O teatro expressionista/fantástico de Duerrenmatt “denuncia o absurdo na atualidade, que lhe garante sucesso universal”. Desmascara tragédias. Mas “o que parece tragédia, no mundo de hoje, é na verdade uma farsa, apenas de desfecho trágico”. Vimos isso entre nós, não vimos?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/10/2021 - 07:20h

Réquiem para Chico Rodrigues

Por Marcos Ferreira

Quarta-feira, 29 de setembro de 2021; dez horas e vinte minutos desta manhã de céu azul. Enquanto escrevo esta página de adeus, que há de ser mais de uma, o meu velho e bom amigo Francisco Rodrigues da Costa (o Chico de Neco Carteiro) é sepultado no mesmo túmulo em que há vários anos jaz a sua amada esposa Zezinha. Esta era a vontade do insigne areia-branquense, ele que adotou Mossoró como o seu segundo berço desde a juventude, isto há quase sete décadas.

À noite, coração apertado, eu fui ao velório. Lá permaneci por cerca de hora e meia. Ofereci meus pêsames aos familiares, sobretudo aos netos e bisnetos, visto que as duas únicas filhas do escritor são falecidas. No velório, entre muitos rostos desconhecidos, encontrei apenas dois representantes do universo literário mossoroense: os escritores Raimundo Antônio e Marcelo Almeida.

Charge de autoria do chargista, caricaturista e cartunista Túlio Ratto

Charge de autoria do chargista, caricaturista e cartunista Túlio Ratto

Creio que os literatos ausentes no velório foram ao enterro. Coisa que não fiz. Não reúno condições emocionais para encarar um momento como esse. Despedi-me de Chico Rodrigues, portanto, à noite. Foi o nosso último encontro; ao menos neste plano. Espero reencontrá-lo qualquer dia, quando deste mundo eu também me despedir. Aí retomaremos as nossas longas, quase infindáveis conversas, especialmente sobre literatura, música e inúmeros fatos de Areia Branca.

Ali no caixão, sob o transparente véu que lhe cobria o rosto, Chico Rodrigues estava lívido, com o ar sereno de quem cumpriu a sua jornada com leveza e bonomia, além de muita coragem e resiliência para enfrentar os duros golpes que sofreu ao longo da vida. Agora, após oitenta e oito anos de pé, firme e forte, o apaixonante cronista de Saudades e outros livros do gênero enfim descansa.

Não mais lhe ouviremos os maravilhosos chistes; não mais usufruiremos do seu bom humor por vezes ácido e zombeteiro. Não mais, ao menos por enquanto, testemunharei as suas tiradas, a sua verve espirituosa, estremecendo a barriga protuberante com uma gargalhada muda.

Chico não teve vida fácil, todavia, como poucos, ele sempre soube sorrir com uma facilidade que nos contagiava. Possuía o dom da boa prosa; e não só na oralidade, mas também na sua escrita saborosa.

Além de seu leitor cativo, daí a pouco me tornei seu revisor. Muita coisa que produziu, antes de enviar para publicação, ele confiava ao meu crivo. Daí por diante nossa amizade se tornou mais estreita. Frequentava a minha casa amiúde, bebíamos um cafezinho, ele aboletado em uma rede que eu lhe armava aqui na área da frente. Falávamos de tudo e de todos, no bom sentido, claro.

QUANDO MUITOS ESTAVAM ENTREGANDO OS PONTOS, baixando as cortinas no show da vida, eis que Chico Rodrigues resolveu iniciar a sua admirável carreira de escritor com mais de setenta anos de idade. Eu o conheci por volta do ano de 2004. À época ele escrevia crônicas para o jornal Gazeta do Oeste. Publicou quatro livros de crônicas e dois romances, já viúvo e após ter perdido duas filhas. Tais dissabores nunca foram capazes de contaminá-lo com amargura nem pessimismo.

Chico Rodrigues era (difícil usar o verbo nesse tempo!) um dos melhores escritores memorialistas do Rio Grande do Norte, opinião esta que compartilho com o escritor e crítico literário Manoel Onofre Júnior. Conquistou leitores de diversas partes do estado com suas crônicas eivadas de saudosismo e precisão histórica, sobretudo ao discorrer sobre as memórias de sua poética Salinésia.

Embora fosse um mau leitor declarado, “sem qualquer influência dos clássicos”, como ele próprio costumava dizer, escreveu uma das mais belas obras autobiográficas da literatura norte-rio-grandense, o romance Perdão (o primeiro), lançado em 2014 pela editora Sarau das Letras com prefácio do professor e escritor Aécio Cândido. Julgo importante ressaltar que nesse momento Chico Rodrigues já contava oitenta e um anos de idade, mas demonstrando fôlego de jovem literato.

Ultimamente, entretanto, o mossoroense de Areia Branca vinha acusando o peso da sua longeva existência. A voz suave estava quase sumida, cortada pela asma e pelo cansaço. Emagrecera sobremodo e perdera muito da sua habitual alegria e bom humor. Os olhos globulosos pareciam cada vez mais distantes. Há poucos dias recebi uma ligação dele às três da madrugada. Tomei um susto.

— O que foi, amigo? — indaguei por telefone.

— Nada, poeta. Só achei que estava acordado.

— Não com os remédios que tomo toda noite.

— Escritor de verdade escreve até altas horas.

Não era apenas isso. Insone, acometido por ansiedade, tomando medicação para esse transtorno, Chico carecia apenas conversar com alguém. Não fui o único a quem ele telefonou a horas mortas. A doutora Luzia Praxedes, por exemplo, sua amiga e esposa do escritor Clauder Arcanjo, recebeu algumas dessas ligações.

Sim, o cronista precisava tão somente trocar umas palavras com os amigos. Pareceu-me até que estivesse se despedindo de alguns de nós, inconscientemente.

Assim como o meu pai, muito da cultura de Chico Rodrigues advinha da música, que ele recitava com precisão devido à sua poderosa memória. Ao contrário do meu pai, não era bom cantor. Nem foi de modo algum um literato que viveu debruçado sobre leituras. Escrevia bem e bonito graças ao seu talento inato para contar histórias, especialmente aquelas já bastante recuadas no tempo.

Tinha o hábito de vincular os assuntos que debatíamos a uma determinada música. No meio de uma conversa, de repente, evocava uma letra e compositor para ilustrar seu raciocínio e comentários. Sabia de cor Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas, Noel Rosa, Cartola, Lupicínio Rodrigues, Orestes Barbosa.

Bem-humorado, costumava cantarolar para mim a canção “Quando eu me chamar saudade”, grande sucesso do Nelson Cavaquinho:

“Por isso é que eu penso assim

Se alguém quiser fazer por mim

Que faça agora

Me dê as flores em vida

O carinho, a mão amiga

Para aliviar meus ais

Depois que eu me chamar saudade

Não preciso de vaidade

Quero preces e nada mais”.

Peço desculpas, caro amigo Chico, por não lhe ter oferecido tais flores em vida. Não ao menos assim, publicamente. Os dias e anos vão passando e a gente imagina ter mais tempo. Agora aguardemos o nosso reencontro.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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segunda-feira - 27/09/2021 - 06:52h
Marcos Ferreira

Um novo livro quase no prelo

Marcos: crônicas vão marcar a publicação (Foto: arquivo)

Marcos: crônicas vão marcar a publicação (Foto: arquivo)

Escritor e poeta premiado, Marcos Ferreira prepara um novo livro.

Podemos dizer que está quase no prelo.

Dessa feita, ele vai nos premiar com uma publicação no gênero da crônica, uma seara que também domina bastante e passeia sem temor.

Nada mais posso adiantar, apesar da vontade.

Marcos Ferreira é um dos integrantes do nosso time de articulistas e colaboradores dominicais cá no Canal BCS – Blog Carlos Santos.

Que seja bem-vindo seu novo rebento.

Ave!

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI e Youtube AQUI.

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Categoria(s): Cultura / Gerais
domingo - 26/09/2021 - 12:34h

Uma bela lição de cidadania

Por Odemirton Filho 

Há algum tempo uma senhora foi ao Fórum e pediu para falar com o juiz. Era uma pessoa avançada em anos, estava vestida de forma simples e, pela forma como se expressava, percebia-se de pouca instrução. A servidora avisou que o magistrado estava em audiência, iria demorar, era melhor voltar outro dia.sala de espera, chá de cadeira, paciência

– Não tem problema, eu espero. Não arredo o pé daqui enquanto não falar com ele sobre um processo meu que tá “parado”. Eu tenho esse direito – disse a senhora – e sentou-se.

Eu estava próximo e ouvi toda a conversa. Impressionou-me a altivez daquela senhora. Não era arrogante, mas era firme no propósito de falar com o juiz. Estava ali, sem medo, desacompanhada de um advogado, reivindicando um direito que lhe parecia legítimo.

Fiquei a imaginar como seria bom se todos exercessem a sua cidadania. Ora, se não reivindicarmos o direito de falar com o juiz de um processo, imagine lutar por outros direitos!

Sabe- se que a nossa Constituição Federal é repleta de garantias e direitos. Entretanto, a maioria da população fica caladinha diante de injustiças. Poucos são aqueles que ousam levantar a voz. E, quando o fazem, sofrem perseguição ou deboche.

Alguns, com o dedo em riste, apontam a corrupção do governo federal, estadual ou municipal, se quem estiver no poder não for de seu agrado. Todavia, se for o político de sua preferência, fazem vista grossa. É realmente atitude de quem se diz cidadão?

Enfim. As audiências demoraram bastante, pois tratavam-se de processos criminais, nos quais se ouviam as testemunhas da acusação e da defesa.

Contudo, a senhora continuava lá, sentada, com um semblante firme, esperando pacientemente. Ao final de uma longa espera, com o término das audiências, o juiz a chamou a fim de conversarem.

Ao sair do gabinete do magistrado, disse-nos:

– Eu não falei a vocês que só sairia daqui quando conversasse com o juiz?

E foi embora.

Deu-nos uma lição. Uma lição de cidadania.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 26/09/2021 - 10:26h

Um inimigo dos loucos

Por Marcelo Alves

Henrik Ibsen (1828-1906), o genial dramaturgo, nasceu numa pequena vila portuária da Noruega. Mas o seu teatro (ele foi também diretor) e a sua poesia não mimetizaram a gelidez da sua terra natal. Ao contrário, ele foi um dos precursores do realismo e do modernismo nas artes cênicas. Fez escândalo, na verdade. Era um “denunciante” de falsos moralismos e coisas que tais.munch-henrik-ibsen-at-grand-cafe - Henrik Ibsen Algumas de suas peças são conhecidíssimas: “Peer Gynt” (1867), “Casa de Bonecas” (1879), “Um Inimigo do Povo” (1882), “O Pato Selvagem” (1884) e por aí vai. Alguns dizem ser ele, no seu métier, o segundo, apenas atrás de Shakespeare (1564-1616). E gigantes do teatro, gente como Gerhart Hauptmann (1862-1946), George Bernard Shaw (1856-1950), Oscar Wilde (1854-1900) e Eugene O’Neill (1888-1953), lhe pagaram tributo.

Ibsen perambulou muitos anos pela Europa. Sobretudo pela Itália e Alemanha. Quem viaja, se sabido, enxerga longe. Faleceu, em glória mas já inválido, na capital Oslo.

Para se ter uma ideia do tamanho de Ibsen, colho um trecho do “Ensaio sobre Henrik Ibsen”, de Otto Maria Carpeaux, que consta de um pequeno livro de bolso, intitulado “Seis Dramas” (parte 1), coleção “Mestres Pensadores”, da Editora Escala:

“Henrik Ibsen é o maior dramaturgo do século XIX. O superlativo – superlativos têm sempre qualquer coisa de exagero – justifica-se desta vez, com toda facilidade. Goethe, Schiller e Alfieri pertencem inteiramente, ou pela maior parte da obra, ao século XVIII; Tchekov significa um crepúsculo melancólico; Strindberg já é o século XX. E na época entre o começo e o fim do século? Os epígonos não contam; a glória do teatro romântico francês já passou. Kleist, Georg Buechner e Gogol, três gênios dramáticos, que não se realizaram inteiramente. Quem há mais? O teatro realista francês, Augier, Dumas Filho, só tem hoje interesse como precursor de Ibsen, que lhe tomou emprestados os processos cênicos e os ambientes burgueses; Hauptmann e Shaw já confessam que o próprio Ibsen foi o ponto de partida das suas obras. Ficam ainda dois grandes nomes: Hebbel e Bjørnson. Em Hebbel a crítica literária reconhece hoje a substância ibseniana, prejudicada pelos artificialismos do epigonismo classicista; Hebbel desapareceu do palco onde apareceu Ibsen. Bjørnson, o patrício de Ibsen, e seu companheiro e inimigo inseparável durante a vida inteira, empalideceu cada vez mais ao lado do rival maior; dia virá – já veio talvez – em que a vida e a obra de Bjørnson servirão apenas para esclarecer melhor a vida e a obra de Henrik Ibsen”.

O genial dramaturgo participa de todas as virtudes (e dos defeitos também, claro) do seu século. Um século, o XIX, que se orgulhava de ser o “século da ciência e da técnica”. Ibsen se preocupava com as descobertas da ciência, com as maravilhas e as angústias que os processos científicos provocam, e tinha a esperança, em razão das intervenções da ciência, num futuro melhor para a humanidade. E aqui jogo luz sobre a peça “Um Inimigo do Povo”, de 1882, cujo protagonista é um médico local que casualmente descobre e investiga a contaminação das águas de um balneário de uma pequena cidade norueguesa.

O médico imagina ser aclamado por haver descoberto, através da ciência, a verdade. Por salvar a todos, locais e turistas, da infecção/doença generalizada. Mas “algo” fala mais alto. Do negacionismo a outros interesses menos confessáveis. Os habitantes se viram contra ele, o “inimigo do povo”. E a desgraça, individual e coletiva, está feita. Pelo menos para os de bom-senso, lembrando que a ciência, dizia o nosso Rubem Alves (1933-2014), nada mais é que o bom-senso organizado.

Se evitar contaminação e doenças parece bom-senso – pelo menos para os de bom-senso –, isso não se mostra tão óbvio para aqueles outrora chamados de fanáticos loucos, e hoje, eufemisticamente, apenas apelidados de negacionistas.

Se na fábula de Ibsen foi assim, hoje, quem alerta para a gravidade da nossa situação sanitária, para o número absurdo de mortes, para o charlatanismo de remédios ineficazes, para o impacto atual e futuro da política/visão negacionista, inclusive sob o ponto de vista econômico, é taxado por alguns de torcer pelo “quanto pior, melhor”, pelo “vírus” ou de outras baboseiras/loucuras mais. É luta.

Afirmar a dura verdade e a ciência, ou simplesmente o bom-senso organizado, nos torna “um inimigo dos loucos”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/09/2021 - 08:42h

Rebeca não tomará vacina

Menina sendo vacinada, vacina, ilustração, criança e vacinaPor Inácio Augusto de Almeida

Quem é Rebeca?

Rebeca é uma menina pobre que sempre aparecia pedindo comida, chinelo e roupa usada. Tinha um olhar angelical num rosto marcado pela fome. Os seus cabelos finos fios de arame.

Na boca o riso dos inocentes.

Faz tempo que Rebeca não aparece e o meu egoísmo impediu de saber onde Rebeca mora. Eu até perguntei, mas ela dizia que era muito longe. E assim a minha curiosidade morria. Morria facilmente, porque na realidade eu queria mesmo era amortecer a minha consciência.

Um dia dei a Rebeca um caderno, um lápis e um livro infantil cheio de figurinhas. Seus olhos de anjo encheram-se de brilho.

Observei que Rebeca olhava apenas as figurinhas.

Rebeca deixou de aparecer e fiquei imaginando que isto aconteceu porque a Assistência Social estava ajudando a família dela.

O que a gente não é capaz de fazer para tentar enganar nossos sentimentos?

Vejo que estão anunciando vacina para jovens. Em breve chegará a vez da Rebeca se vacinar.

Penso em ir pegar a Rebeca, menina com olhar de Santa, para levá-la ao centro de vacina.  Nesse momento lembrei-me o quanto fui egoísta nunca tendo ido até a casa da Rebeca.

Quantas crianças pobres como ela, em Mossoró, ficarão sem vacina por total falta de recursos para pagar o transporte para si e para o responsável que autorizará a aplicação da vacina?

Como Rebeca vai conseguir dinheiro para quatro passagens se dinheiro não para comida, calçado e roupa?

Rebeca não será vacinada.

E todos rezarão por Rebeca.

Somos cristãos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 26/09/2021 - 07:10h

Um icônico referencial cultural na serra do Martins

Por Marcos Pinto

“…Falar  de  coisas   que  só  batem  nos  que

Conjugam   a  metáfora  do  peso  dos  anos”.

(José   Sarney).

Nada  mais  impressionante  na   região  do  alto  Oeste  potiguar  do  que  a  fantástica  serra  do  Martins,  cuja  denominação  toponímica  atrela-se  ao  seu   fundador  Francisco  Martins  Roriz.  Suas  matas  nativas  revelam  mistérios  circundantes,  aromatizados  por  clima  ameno, instigante   e  salutar,  emoldurando   misterioso  e   sepulcral  silêncio.

As  suas  contagiantes  belezas  naturais  tem  proporcionado  o  surgimento  de  expressivas  intelectualidades  em  todos  os  contextos  dos   valores  humanos   do  país.  Desde  os  primórdios,  evidencia   a  rubrica  de  ser  feudo  e  celeiro  de  intelectuais.

Júnior Marcelino, densidade intelectual sem afetação e zelo pela cultura e conhecimento (Foto: reprodução BCS)

Júnior Marcelino, densidade intelectual sem afetação e zelo pela cultura e conhecimento (Foto: reprodução BCS)

Sobressai-se   como  manancial  de  valorosos  homens e  indômitas  mulheres,  enchendo  de  vivas  ações  de  acentuado  cunho  espiritual  as   páginas  que  marcam  os  anais  da  sua  arraigada   história.  A  sua  vasta   panorâmica  sociocultural   embeleza-se  pela  correção  da  linguagem  a  colorir  os  pensamentos  do  seu  pacato  e  hospitaleiro  povo.  Revela-se  numa  tessitura  simples   e  natural, ao   todo  desprovida  de  apelos  eruditos.  Sob  estes  matizes  envolventes, surge  a  cativante  e  referencial  figura  humanista  e  icônica  em   intelectualidade,  de  nome  Júnior Marcelino.

Homem  de  profunda  fé  e  sólidas  convicções  religiosas, características  peculiares  que   induziram  os  seus  amáveis  genitores  a  encaminhá-lo   ao  famoso  Seminário  Santa   Terezinha,  em  Mossoró-RN, lá ele  amealhou vastíssimos  conhecimentos  em  Humanismo, Classicismo, Geografia  Histórica  e  História  local,  Genealogia, Corografia, Ordenamentos  Políticos  e  Jurisprudência.  O  renomado  Seminário  foi  a  fonte   primordial  e  precípua  da  sua  sua  imensurável  e  respeitável  erudição.

Nesta  conspícua  instituição  eclesiástica  foi  aprovado  com  destaque e  Grau  Superior  em  todas  as  matérias:  Latim, Leitura, Canto, Gramática, Missa  e  demais  cerimônias.  O  Consuetudinário  e  metódico  rigor  aplicado  no  desenvolvimento  espiritual  dos  notáveis  Seminaristas  incluía  matérias  de  casos  de  consciência  e  dos  sacramentos   contidos  na  famosa  Obra  litúrgica  denominado  de  “Breviário”  e, também,  o   “Manual dos Confessores”,  do   Aspilcueta   Navarro.

Pela  sua  acentuada  desenvoltura  intelectual,  deve  ter  participado  das  percucientes  e  famosas  “Visitações Pastorais”,   do  eminente  e   reverendíssimo  Bispo  Diocesano  da  sua  contemporaneidade  de  admirável  seminarista, época  em  que  era  comum  o  vestir-se  com  batina  preta, o  que  imprimia uma  circunspecta  impressão  visual   litúrgica.

Apesar  das  culminâncias  intelectuais  e  espirituais  condensadas  no  seminário,  o  jovem  seminarista  não  resistiu  aos  encantos  de  uma  recatada  e  competente  professora, visão  alicerçada  em  seu  espírito  durante  suas  férias  de  final  de ano,  em  sua  amada  e  nunca  esquecida  Martins.  O  coração  falou  e  calou  mais  alto.

Após  longa  explanação  ao  seu  genitor   quanto  às  razões  de  cunho  sentimental,  de  certa  forma  inesperado, da  sua   firme  decisão  de  desistir  da  sua  iminente  ordenação  sacerdotal, teve  incontinenti  acolhida  do  seu  compreensivo  genitor.  Desfecho  com  emblemático  consórcio  matrimonial  com  a  ditosa  e  elegante  mestra  Perpétua.

Com simplicidade  e  modéstia, criou  e  instalou  em  sua  residência  um  vultoso  museu   com  relevante  acervo  de  fósseis  animais  milenares, destacando-se  como  sendo  o  único  do  estado  do  Rio  Grande  do  Norte  que  tem  em  seu  acervo  um  osso  fóssil  constitutivo  da  mandíbula  do  Mamute,  o  ancestral  do  Elefante.  Como  intelectual  polivalente,  desfruta  de  largo  prestígio  em  todos  os  segmentos  sociais  e  administrativos  do  Estado  do  RN,  e   também  em   âmbito  nacional.

Tudo  em  decorrência  do  seu   arquétipo. Homem  atuante,  embora  comedido. Liberal  sem  demagogia, tradicionalista sem  fanatismo;  construtivo  sem  imprudência.

Impelido  por  um ardoroso  ânimo  de  trabalho,  sabe  aproveitar  as  oportunidades  na  consecução  dos  virtuosos  propósitos.  Sou  testemunha  da  austeridade  e  probidade,  perenes  e  inexpugnáveis  em  seu  “modus  vivendi”, repudiando   tenazmente  o  chamado  e  detestável  ‘culto à personalidade’, configurador  de  asqueroso  vedetismo.

Nunca  se  deixou  vencer   pelas  circunstâncias  adversas, sempre  vencendo  as  barreiras  do   desânimo.  Como  “cultor  da  história”,  lança  mão  do que  tem  na  memória  para  vestir  suas  ideias  acerca  do  processo  evolutivo  da  sua  amada   terra   natal.  A  sua  excepcional  simplicidade  de  estilo  desperta   intensa   empatia, dado  o  seu  boníssimo  coração.

O  nobre  amigo  Júnior Marcelino   contextualiza-se  na  assertiva   de  que  é  uma  pessoa  brilhante, discreto,  justo,  sempre  intervindo  com  maestria  nos  momentos  mais  difíceis  da  pesquisa  em  vetustos  documentos   cartoriais  ou  eclesiásticos.

Visitar  a  inesquecível   cidade  de  Martins  e  não  procurar  conhecer  o icônico intelectual  Júnior Amorim equivale  a    ir  a  Roma   e  não  ver  o  Papa.

Habemus Junius Marcelinus!

Inté!

Marcos Pinto é advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/09/2021 - 06:18h

Guia turístico

Por Marcos Ferreira

Seja bem-vindo. Esta é Mossoró, a minha cidade. O ‘minha’, claro, é mera força de expressão; mais pertenço que possuo. Bom, eis a famosa Mossoró, terra da liberdade, conforme apregoam há quase um século. Município este que, segundo a lenda, expulsou o destemido Lampião e justiçou o também cangaceiro Jararaca quando os fora da lei invadiram esta província lá pelos idos de 1927.

Particularmente, embora os doutores do cangaço torçam o nariz, não me orgulho nem um pingo dessa história de brabeza de Mossoró. No fim das contas, depois de tanta chuva de bala, os bandoleiros dominaram esta comuna na trincheira da cultura. Sim.

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Hoje ninguém mais fala nos resistentes, mas tão só no bando de salteadores. Olhe ali, por exemplo, o espaço denominado Arte da Terra: dois bonecos gigantes de Lampião e Maria Bonita bem na frente, dando boas-vindas.

Isto sem falarmos num Memorial da Resistência que não resistiu à tentação de oferecer mais destaque aos invasores do que aos defensores. Hoje em dia, sendo otimista, talvez apenas uma dúzia de nomes que defenderam este fim de mundo à época do ataque ainda seja lembrada pelos mossoroenses de um modo geral, como o então prefeito Rodolfo Fernandes. Pudera, trata-se do prefeito.

Outra coisa. Jararaca, ferido com um balaço e enterrado ainda vivo no São Sebastião, de acordo com alguns historiadores, foi alçado à condição de santo milagreiro pelo povo desta cidade e adjacências. É o que estou dizendo. O sujeito passou de facínora a santo da noite para o dia. A sua cova no São Sebastião é simplesmente a mais visitada no Dia de Finados. Já o túmulo do herói Rodolfo Fernandes, sepultado no mesmo cemitério, salvo exceções, ninguém sabe onde fica.

Aquele prédio imponente ali era o glorioso Cine Pax, ora transformado em loja de roupas. Foi inaugurado em janeiro de 1943 e funcionou por mais de seis décadas. Fechou de vez as portas no ano de 2008, se não me engano. Assisti a ótimos filmes nesse importante símbolo da vida cultural mossoroense. O ponto alto do fim de semana das pessoas do meu tempo era ver um filme no Pax.

Cuidado com a moto! Melhor subirmos na calçada. Nosso trânsito é um bicho traiçoeiro. Aqui não se pratica direção defensiva, mas predatória. Alguns donos desses carrões, sobretudo, só faltam passar por cima da gente. Parece até que eles têm aversão a pedestres, a ciclistas e motociclistas. Tipos arrogantes, tanto os condutores dos carrões quanto os motoqueiros. A maioria vira para um lado e para o outro sem ligar a seta. Em especial os referidos donos dos carros luxuosos.

Está quente, não? Pois bem, meu amigo. Mossoró, entre outras características, é a terra do calor, do siroco em tardes mormacentas como esta e de eventuais madrugadas com uma cruviana gostosa. Durante o inverno, quando há, é uma maravilha, apesar do Centro alagar com facilidade. As noites costumam ser bastante aprazíveis, e os bairros periféricos ficam cheios de cadeiras nas calçadas.

Esta é a Praça Vigário Antônio Joaquim. Mas o busto do vigário se encontra escondido naquela pracinha ao lado da Catedral de Santa Luzia. Por incrível que pareça, a enorme estátua que você está vendo no centro da Praça do Vigário não é do vigário. Esse é um monumento em homenagem ao ex-prefeito desta urbe e ex-governador do Rio Grande do Norte Jerônimo Dix-sept Rosado Maia, que morreu no auge da carreira política em acidente aviatório no ano de 1951.

Como eu disse, ali é a Catedral de Santa Luzia, onde os fiéis curvam os joelhos com peditórios ao Todo-Poderoso. Em geral, apesar da nossa estatística de homicídios ser uma das maiores do planeta, o mossoroense é um povo religioso, com supremacia católica. Aqui predomina a política do olho por olho, dente por dente, contudo as pessoas morrem de medo de ir parar no Inferno. Então, como se buscassem uma espécie de habeas corpus celeste, correm para os pés de Jesus.

Vamos para o outro lado. Que calor, hein? Mossoró não é para amadores, nem para turistas desavisados. Beba sua aguinha gelada, se ainda estiver gelada. Ali é o Mercado Central, primeiro shopping de Mossoró. Eu e meus irmãos ficávamos animadíssimos quando chegava o domingo e meu pai nos trazia, antes do sol raiar, para fazermos algumas compras no Mercado. Era uma festa!

Tempos idos e vividos. Tenho saudades de muita coisa daquela época, embora o pão fosse tão caro e a liberdade pequena, como no poema do Ferreira Gullar. Hoje, entretanto, o pão voltou a custar muito caro, e a liberdade vive sob constante ameaça, se me faço entender. Mas voltemos ao pujante Mercado de outrora. Fico com a boca cheia d’água só de me lembrar do pastel quentinho, feito naquela horinha, que a gente devorava com um copázio de vitamina de abacate.

Quando não era uma abacatada com pastel, traçávamos uma panelada com molho de pimenta-malagueta. O bucho ficava em tempo de espocar, e o suor porejava na testa. “Caiu na fraqueza”, dizia meu pai caçoando de mim e dos meus irmãos. De outra feita, menino já taludo, trabalhei algumas vezes no entorno do Mercado, pastorando as bicicletas da clientela para descolar uns tostões.

Agora quero lhe mostrar o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, suntuosa construção que homenageia outro político da tradicional família Rosado e também ex-prefeito desta província, morto no ano de 1996. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, isso é algo fácil deduzir, é irmão do ex-governador Dix-sept Rosado, cuja impressionante estátua, como o senhor constatou, se encontra no meio da Praça do Vigário. Aí está, portanto, o Teatro Municipal, palco da cultura mossoroense.

Veja aquela casa de drinques do outro lado da rua, na Avenida Rio Branco. Ali, durante uns bons anos, funcionou a Livraria Café & Cultura. Lugar excelente, ponto de encontro da intelectualidade local. Escritores, jornalistas, poetas, historiadores, médicos, advogados, professores, juízes, arquitetos, artistas, enfim, toda uma constelação pensante ocupava as cadeiras e mesas da Café & Cultura.

Era uma livraria como hoje não mais existe neste município, administrada e mantida pela senhora Ticiana Rosado. Nesse endereço, permita-me a autopropaganda, fiz o lançamento da primeira edição do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que contou com público expressivo. Foi no ano de 2006.

Atualmente, ouso dizer, no tocante a uma livraria de verdade, com amplo acervo de autores e obras, disponibilizando um bom café para a clientela, estamos órfãos.

Bem, acredito que o senhor está cheio desse papo de letras. Vamos agora a um reduto não menos cultural e emblemático desta aldeia: o Alto do Louvor. Já ouviu falar no Alto do Louvor? Não?! Então, meu caro, apresentá-lo-ei, como diria, cheio de mesóclises, o missivista federal Michel Temer. Trata-se do berço recreativo e sifilítico deste fim de mundo. Mal comparando, vir até aqui e não conhecer o Alto do Louvor é mais ou menos como você ir a Roma e não ver o Papa.

Alto do Louvor é a nossa extinta zona de meretrício. Muitos dos nossos ilustres e respeitáveis homens (não foi o meu caso!) foram iniciados sexualmente nesse antro do amor remunerado. O antes glamouroso Alto do Louvor fechou as portas há muito, porém a lenda das suas casas de tolerância e mulheres de vida nada fácil sobrevive até hoje no imaginário popular como uma ferida benigna.

Beba mais água. O senhor está ofegante.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/09/2021 - 15:16h

À presença do ‘Seu’ Chico Honório

Imagem de um homem tentando escrever no notebook, olhando à janela, copo com água, óculos,Por Carlos Santos

Para Honório de Medeiros, meu irmão!

Sua crônica (veja AQUI) desse domingo (19) transportou-me no tempo e espaço.

Devolveu-me à presença do seu pai, ‘Seu’ Chico Honório. Até o “Carlinhos” à boca, que não me deixava envelhecer, voltou.

Há pouco mais de dois anos e quatro meses eu consegui a duras penas escrever sobre o meu velho (Um beijo para dizer que “te amo”). Mas, sobre dona Maura, não.

Olhe que já tentei. Parei, mas não desisti.

Em algum momento, passados quase 12 anos, ela vai me inspirar – como sempre o fez.

Não chegou o momento.

Preciso pacientar mais um pouco.

Carlos Santos é editor do Canal BCS – Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/09/2021 - 12:44h

Duas cabeças da justiça

Por Marcelo Alves

Embora seja sua face mais brilhante, no que toca à presença do direito, não é só de Franz Kafka (1883-1924) e do seu “O processo” (1925) que é feita a literatura em língua alemã. Outros rostos devem ser iluminados, como o de Jakob Wassermann (1873-1934), em especial pelo seu romance “O Processo Maurizius” (1928).

Jakob Wassermann nasceu em Fürth, cidade industrial próxima de Nuremberg, na Alemanha. Era filho de modestos comerciantes judeus. Abandonou o comércio e foi viver sua juventude aventureiramente. Começou a escrever artigos, contos e pequenas novelas. Era um democrata. Como judeu, sofreu bastante com o antissemitismo da época. Com o nazismo, foi para o exílio, sendo também destituído de sua cadeira na então Academia Prussiana de Letras. Faleceu em Alt-Aussee, na Áustria.Anton Reiser_ Ilustração de Pedro Franz

Wassermann é considerado um representante maior da ficção psicológica. Seu primeiro romance foi “Os Judeus de Zindorf”, de 1897, no qual ele trata da história judaica na Alemanha, o que vem, claro, a ser uma temática comum nos seus primeiros textos. Mas é sobretudo uma “segunda fase” na carreira literária de Wassermann que nos interessa, esta focada na relatividade e nos problemas da Justiça.

Começa com “Caspar Hauser ou A Preguiça do Coração”, de 1900. E “Christian Wahnschaffe”, de 1918, obra já à moda de Dostoiévski (1821-1881), coloca seu nome definitivamente nos círculos intelectuais de então.

É dessa segunda fase, já em 1928, a sua obra-prima “O Processo Maurizius”, que, em síntese, cuida da estória de um erro judicial e do empenho de um jovem idealista (Etzel Andergast) para libertar o homem (um tal Otto Leonardo Maurizius, que dá título à obra) condenado injustamente, há quase duas décadas, à pena de prisão perpétua, pelo seu próprio pai (o íntegro promotor/magistrado Wolf Andergast).

O jovem Etzel não admite o contraditório. Ele quer a justiça perfeita (e ela existe?) em lugar da justiça possível. E, sobretudo, sua luta padece de uma ilegitimidade original: sua motivação principal não é fazer justiça, mas se vingar do pai, a quem atribui os males do mundo, inclusive os padecimentos da mãe adúltera.

Para o direito, “O Processo Maurizius” é interessante por incontáveis aspectos.

De logo, segundo registra a minha edição do dito cujo (Abril Cultural, 1982), “o romance constitui um soberbo retrato da época da República de Weimar”, e sabemos nós a importância dessa república na história do direito, sobretudo pela sua célebre Constituição, tida pioneira na previsão dos direitos fundamentais sociais e cujo legado acabou se espalhando mundo afora.

Ademais, é obra inspirada por um grande senso ético e de Justiça (perfeita ou imperfeita). Como anota Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), trata-se de “um romance deliberadamente tendencioso, ético, como o são de tendência ética todos os grandes romances da literatura universal”. E mais: “Der Fall Mauritius [seu título no original] precede por pouco a ruína da sociedade alemã pelo nazismo”.

Não obstante as nuanças da trama, sobretudo as motivações e intransigências das personagens, “O Processo Maurizius” deve ainda ser interpretado como uma advertência – e mais do que isso, como um libelo – contra o erro judiciário, que é tão desprezado por um certo grupo de pessoas, sejam juristas ou só idiotas da aldeia, que passam a vida ruminando ódio. Erro judicial, proposital ou não, isso não importa, devemos repeli-lo, já que ninguém – ninguém mesmo – deve ser condenado, assim privado de sua liberdade, ainda mais levado à morte (da qual, que eu saiba, não há volta), injustamente.

Por fim, de interesse mais geral, temos os aspectos geracionais e os motivos psicológicos que condicionam a trama/processo, condições que o autor conhecia e fabulava tão bem.

Duas mentalidades. Duas motivações. Duas faces da Justiça? Dois direitos? E tudo forjado por um drama familiar na forma de diversos conflitos. Mas isso aí já lembra outro grande russo, Tolstói (1828-1910), e a sua Ana Karênina (1877): “Todas as famílias felizes são iguais, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/09/2021 - 09:38h

Sonhos de criança

Por Odemirton Filho 

De vez em quando vem à memória os sonhos acalentados na infância. Uns, foram concretizados, outros, continuam guardados no coração.

Quando eu era criança, enquanto comia as seriguelas verdes no quintal da minha casa, lá na rua Tiradentes, sonhava em trabalhar na Petrobras e ter um Jeep Willys preto, equipado com som, um santo Antônio e “rodão”.sonhar-com-criança

Estudava no Colégio das irmãs. Toda quinta-feira a turma cantava o Hino Nacional no pátio da escola, antes de assistir às aulas. Diariamente íamos rezar na capela, sob o olhar atento de irmã Aparecida. Eu gostava mesmo era do recreio. À tarde, praticava educação física com o professor Pereirinha e tentava jogar basquete.

Não era, nem sou, como o nosso escritor e poeta Marcos Ferreira, um craque no jogo de voleibol e na construção de belos textos.

Na infância, cheguei a andar no trem da estação de Mossoró. Lembro-me, também, dos velhos armazéns, prédios caindo aos pedaços, ali, na avenida Alberto Maranhão.

Gostava de ver o desfile na noite do dia trinta de setembro. Tinha de preguiça de acordar cedo para ver o desfile na manhã do dia 07. Algumas vezes cheguei a desfilar. Era bacana a disputa entre as fanfarras das escolas. Admirava o desfile da Polícia Militar, do Tiro de Guerra 07-010 e dos maçons vestidos com os seus paramentos.

Quando eu era criança, como todos os garotos, queria ficar adulto, nem sabia que a maturidade traz inúmeros problemas e decepções. Eu sonhava alto, embalado pelos desejos de minha meninice.

É. Não trabalhei na Petrobras. Aliás, nunca tentei ingressar em seus quadros de empregados. Mas, quem sabe, eu ainda realize parte do meu sonho de criança e compro um Jeep Willys preto, equipado com vários acessórios. Ah, como seria massa.

Afinal, diria Dostoiévsk, “o sonhador remexe nos seus antigos sonhos, como se ainda procurasse no rescaldo uma centelha, uma só, por pequena que fosse, sobre a qual pudesse soprar, e com a nova chama assim ateada, aquecer depois o coração gelado e voltar a despertar nele o que dantes lhe era tão querido”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/09/2021 - 08:34h

De uma quieta tendência a negar o barulhento mundo

Por Honório de Medeiros

Enrique Vila-Matas, em seu inigualável Bartleby e Companhia, chama-nos a atenção para os “seres que imitam a aparência do homem discreto e comum” no qual “habita, no entanto, uma inquieta tendência à negação do mundo.” Estranha, mas compreensível pulsão!Silêncio, cadeira, mansisão, vazio, calma, paz, enigma,

Isso me conduz à lembrança de meu pai e seus silêncios, sua deliberada omissão em falar acerca do seu passado, seu instintivo jogo retórico no qual se escudava para evitar qualquer manifestação que implicasse em juízos de valor, sua disponibilidade convidativa para escutar quem lhe procurava, ao mesmo tempo em que levava o interlocutor a expor a própria alma, enquanto a dele permanecia resguardada.

Profundamente quieta era sua negação do barulhento mundo, sob o manto da discrição e das palavras comuns, triviais, incolores de tão banais, tudo sabiamente usado. Uma sábia estratégia.

Hoje percebo, enquanto cuido de ir fechando o balanço de minha vida: em certos e raros instantes, uma sóbria colocação de sua parte estabelecia um silêncio que era um golpe profundo na ordem circunstancial das coisas. Feito isso, se recolhia, e voltava à aparente reserva plácida de sempre.

E eu, e nós, que sempre o achamos tão comum! Quanto engano. Como poderia ser assim, ele que sempre foi um sobrevivente, que viveu tantas guerras inglórias e só aparentemente insignificantes?

Quanta arrogância, a nossa, em pensar que podemos conhecer algo ou alguém em profundidade!

Meu pai, aparentemente, sabia muito e percebia que não valia a pena que o ninguém soubesse disso. Ou, então, pensava que saber era um caminho único, áspero, mas intensamente solitário.

E assim viveu seus anos, principalmente os últimos, envolto nesse manto de humildade intelectual que era uma consequência de seus questionamentos mais íntimos, nunca uma predisposição, um intuito hipócrita de galgar atenção.

Quando faleceu, como que despertando de um sonho iniciei a longa caminhada em busca de compreendê-lo, analisando suas palavras e posturas mas, principalmente, seus silêncios tão plenos de uma anônima rica vida interior.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/09/2021 - 07:52h

Crepúsculo do domingo

Por Marcos Ferreira

Meu muro frontal é baixo, conforme declarei num texto publicado não faz muito tempo. Deito os olhos no comprido da rua. O domingo boceja sob um manto de arrebol. O domingo vai saindo de cena feito um velho exausto. Sim, examino esta estreita e esburacada Euclides Deocleciano à hora do crepúsculo. Para ser mais dramático, talvez à maneira de um poeta parnasiano, digo que o domingo está morrendo, agonizando em lânguidos raios sanguíneos na linha do horizonte.

Já não mais é tarde nem ainda é noite. Há um impasse entre o claro e o escuro. O tempo se encontra momentaneamente enguiçado no lusco-fusco, todavia pende devagarinho para os braços da noite. Assim mesmo nos restam uns retalhos de claridade solar. Os tensos postes desta via, como militares em fileira, continuam apagados. Logo, entretanto, acenderão as suas fortes luminárias de led.gato debaixo de pano

Não há cadeiras nas calçadas. Suponho que meus vizinhos esticaram a sesta, estão ocultos em suas casas, possivelmente deitados, curtindo o ócio após uma semana puxada. Sobretudo as donas de casa, que parecem nunca ter descanso, reféns da herança maldita das infindáveis tarefas domésticas. É injusta, machista, essa cultura que impele as mulheres aos afazeres do lar, enquanto a marmanjada assiste a futebol na televisão, no bem-bom do sofá, de uma cama ou de uma rede.

O vento açoita as acácias, derrubando folhas secas; ergue poeira dos paralelepípedos sujos e tortos. Dois vira-latas brincam de gato e rato, gozando da ausência de veículos. Só agora, a propósito, surge uma picape de vidros fumês. Os cães suspendem a brincadeira por um instante e a retomam logo após. A seguir um levanta a perna e urina ao pé do poste sobre a calçada da senhora Raimunda.

Os pássaros começam a se recolher na mangueira aos fundos. Uns quatro morcegos dão voos rasantes de uma ponta à outra do meu quintal, passam raspando sobre o muro, ganham o espaço aéreo da rua e, audazes, repetem essa e outras manobras arrojadas. Onde estão as andorinhas? Alguém sabe dizer? Nem sei a última vez que as avistei. Este céu sem andorinhas é como um mar sem o sobrevoo de gaivotas. Sequer há pombos. Noto que os pombos também andam sumidos.

A senhora Raimunda surge na calçada com uma vassoura. Põe-se a varrer a cerâmica rústica. A poeira sobe. Alguns minutos depois, quiçá ofegante, interrompe a varrição. Olha para um lado e outro, porém não se dá conta da minha espreita. Percebe que um motoqueiro se aproxima e volta para dentro. Ela sabe que há ocorrências de assaltos no bairro. Agora surgem dois gatos no terreiro de Cristina, a vizinha aqui defronte. É um bichano amarelo e o outro é um cinza felpudo.

Após farejarem e demarcarem o perímetro, os cachorros dobraram a esquina da lanchonete de Zecão. Nenhum possui coleira. Possivelmente alguém lhes reivindique a tutela, contudo vivem soltos. São animais dóceis e ordeiros. Exceto por alguns sacos de lixo que, vez por outra, aparecem rasgados nas calçadas. Semana passada, por exemplo, ouvi a senhora Raimunda contrariada por causa disso.

— Que cachorros safados! — ralhava sozinha.

O vento assobia. Às vezes semelha um uivo nas rótulas das portas e janelas; ergue a areia das pedras, desacata os ramos das árvores e os fios do posteamento. O bairro inteiro parece imerso numa atmosfera modorrenta. Os rádios estão mudos. Por incrível que pareça, não ouço os aparelhos de som executando o nauseante gosto musical de alguns cidadãos. Tenho estômago fraco para certos sucessos gritados por uma récua de cuspidores de microfone que se consideram artistas.

Neste momento são os gatos que aproveitam a ausência daquela dupla de vira-latas brincalhões. Os felinos, como é típico da espécie, também brincam, encenam um combate inofensivo. Um salta sobre o outro, rolam pelo chão. O amarelinho, um tanto menor, dá um zapetrape no cinza, que reage da mesma forma. A senhora Raimunda retorna à calçada, posto que o motoqueiro vai longe.

Vem outro carro. Passa devagar. Os gatos sobem a calçada. A senhora Raimunda não receia o condutor do automóvel. Decerto acredita que indivíduos atrás de um volante não cometem crimes à mão armada, só os que pilotam motocicletas. É verdade, seja dito, que pouco se tem notícia de assaltantes guiando carros. A predominância (e daí advém o preconceito) é dos criminosos sobre motocicletas. Eu mesmo presenciei um vizinho sendo pilhado aqui diante do meu portão.

Dois sujeitos armados tomaram a carteira e o celular do homem. Fiquei me tremendo do lado de cá do muro. Recordei que trinta anos atrás sofri esse tipo de violência. Novamente dois bandidos. Um deles (ambos estavam encapuzados) botou o revólver atrás da minha cabeça. Nessa ocasião sequer me assustei. Horas depois, porém, bateu aquele mal-estar, uma sensação de quase morte.

Enfim os postes acenderam. Os morcegos intensificam as acrobacias aéreas. É incrível como não esbarram em nada. Ainda não são dezoito horas. Está próximo da noite se configurar. Pouco a pouco, em pontos esparsos, vão surgindo alguns moradores. A rua vai ganhando vida. A senhora Raimunda já se encontra sentada numa cadeira na calçada, em companhia da nora Navegante, também numa cadeira de balanço, tendo sobre o colo sua pequena e mimada cadela Pretinha.

Dentro de minha casa já está escuro. Penso em acender as luzes, no entanto me detenho por mais uns minutos observando a paisagem da Euclides Deocleciano. Zecão aparece na calçada, nu da cintura para cima, trajando bermuda estampada e sandálias de borracha. Hoje, pelo que percebo, não abrirá a lanchonete. Será que tem jogo do Flamengo? Sim, ele é flamenguista, e do tipo apaixonado.

Chega a ser divertido ouvi-lo torcendo em dia de jogo. É um show à parte. Se o time está perdendo ou no sufoco, xinga os jogadores, critica o técnico, esculhamba o juiz, larga um palavrão aqui, outro acolá. Ninguém se aborrece com Zecão. Os vizinhos gostam dele. Inclusive eu, que nutro, digamos assim, uma simpatia pelo rubro-negro. Isto, devo dizer, sem nunca ter vestido uma camisa do Flamengo. Só me interesso mesmo se o time já estiver na iminência de ser campeão.

O domingo está praticamente liquidado. Volto para dentro e acendo as luzes. Minha gata Gudãozinho ronrona aos meus pés. Olho a panelinha dela e coloco mais um pouco de ração. Sento à mesa e tento finalizar esta crônica crepuscular de modo a compensar o tempo empregado pelas senhoras e senhores. Eis um final nada brilhante, mas é o que eu tenho para hoje. Zecão acabou de gritar gol.

Com licença. Vou dar uma olhadinha no jogo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
sábado - 18/09/2021 - 09:18h
Filhos

Crônica para dizer que quero bem

pai e filho, mãos, adulto e criançaCrianças, a gente vibra com o engatinhar.

Qualquer macaquice e achamos o máximo.

As primeiras palavras ininteligíveis ecoam como sonata.

Na escola, na vida, nos passos que dão longe de nós, um misto de temor e alegria.

Crescem e continuamos bobos.

Filhos – agora – somos nós.

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Categoria(s): Crônica
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