domingo - 03/01/2021 - 15:02h

Unido ao mar de Tibau

Por Odemirton Filho

Desde que me entendo por gente, antes de entrar no mar, faço o sinal da cruz. É uma forma de pedir proteção a Deus. Questão de fé, diga-se.

Na minha infância e adolescência, em Tibau, neste período de veraneio, costumava diariamente ir à praia. Com mais uma ruma de meninos passávamos horas e horas “torrando no sol”.Quando chegava em casa minha mãe passava em meu corpo uma pomada branca, com cheiro forte, que, no momento, não lembro o nome.

Mas o que eu quero dizer é que o mar sempre me fascinou. Além de sua beleza, o mar me traz paz, lava-me a alma, principalmente, o mar de Tibau que molhava a minha infância e juventude.

Como se sabe é comum que barcos de pesca fiquem ancorados a uma certa distância da praia. Com alguns tios e primos nadávamos até lá, subíamos no barco e ficávamos por um bom tempo, dando mergulhos e mais mergulhos.

Quando era maré alta, na lua cheia, tomávamos banho de tardezinha. O mar ficava mais revolto do que nos outros dias. Quanto mais a gente nadava, mais o mar nos “puxava” pra dentro.

Peguei “jacaré” e tomei muito “caldo” no mar de Tibau. Até tentei ser surfista, mas não tinha jeito para a coisa.

No velho Jeep Willys azul do meu pai íamos do “arrombado”, na praia de Tremembé, à Barra, lá em Maria Lúcia, em Grossos. Passávamos, ainda, no restaurante de Marcos Porto pra tomar um refrigerante, que ficava na praia de Areias Alvas.

Parávamos de praia em praia para dar um mergulho. Depois chupávamos um picolé, daqueles “d´água do rio”. Chega escorria pelas mãos. Era que bom que só.

Creio que neste ano que se inicia um banho de mar seja bom para recarregar as baterias. Dizem que afasta o mau-olhado. Quem sabe, até nos ajudará a ficar livre do coronavírus.

Se eu for, antes de entrar no mar, claro que farei o sinal da cruz. Talvez, até faça como Clarice Lispector:  “Com as mãos em concha, mergulharei nas águas e trarei um pouco do mar até minha boca. Beberei o mar (de Tibau) e me unirei a ele”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 20/12/2020 - 10:32h

O Natal na casa de meus avós

Por Odemirton Filho

Na noite em que se comemora o Natal, com os meus pais, minhas irmãs, tios e primos íamos à casa dos meus avós. Éramos recebidos com enorme carinho e alegria.

A residência ficava lotada. Meninos e meninas de todas as idades. Os que já eram adolescentes não queriam conversa com os menores. Só falavam em namoro.Já as crianças ficavam correndo pra lá e pra cá, brincando, numa verdadeira festa.

Os adultos, sentados à mesa, conversavam. Talvez sobre as dificuldades do ano que estava perto de terminar. De vez em quando reclamavam da zoada que fazíamos e para que não sujássemos a roupa nova.

Nem escutávamos. Queríamos era brincar e aproveitar o momento.

Antes da ceia, os nossos pais distribuíam os presentes. E, claro, o amigo secreto. Aquele momento de palavras bonitas, choros e risadas.

Sempre tinha um tio ou tia que gostava de fazer um discurso. Minha avó, evangélica, conduzia a oração. Meu avô devia ficar pensando em seus ideais comunistas. Ficávamos doidos para que aquela ladainha acabasse logo.

Depois, a hora da ceia. Comida à vontade, para todos os gostos. Os mais gulosos faziam uma verdadeira “serra” no prato. Ficávamos “tirando onda” uns com os outros.

Até as primas comiam muito, não tinha essa de emagrecer. Se você vacilasse ficava sem comer o peru. Às vezes, sobrava a farofa. Não dava nem pra fazer um “RO”.

Era, sem dúvida, uma das melhores noites de minha infância. Esperava o ano todo pelo Natal.

Hoje, sem a presença de meus avós, a casa da rua 06 de Janeiro está vazia e em silêncio. Tios e primos se reúnem com as suas famílias. A vida, como é natural, cuidou de nos afastar.

Se o leitor viveu momentos como esses, talvez boas lembranças tocaram o seu coração e a sua alma.

Para mim, daquelas noites de Natal, restaram saudades. Muitas. Das grandes.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
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quinta-feira - 03/12/2020 - 04:50h
Realismo

Crônica da pandemia

– Troco massa, arroz e açúcar por papagaio.  Preciso falar com alguém.

– Se virem que saí do Grupo, me coloquem de novo.  É o desespero pra sair pra algum lado.

– Nem em meus sonhos mais loucos, imaginei entrar mascarado no Banco.

– Nunca pensei que minhas mãos iam consumir mais álcool que meu fígado.  Nunca…

– A Quarentena parece uma série da NETFLIX, quando acha que vai acabar, sai a temporada seguinte.

– Eu estou gostando da máscara, no supermercado passei por dois pra quem devo dinheiro e não me reconheceram.

– Se queixaram que 2020 tinha  poucos feriados.  Como estão agora?

– Preciso manter distância social da geladeira. Testei positivo pra gordura abdominal.

– Alguém sabe se a segunda quarentena se repete com a mesma família ou podemos trocar?

– Faltam duas semanas para que nos digam que faltam duas semanas para nos dizerem que faltam duas semanas.

– Não vou acrescentar 2020 a minha idade. Nem usei!

– Queremos nos desculpar  publicamente com 2019 por tudo o que falamos dele.

– Essas mulheres que pediam a Deus que o marido ficasse mais  tempo em casa… Como estão?

– Minha lavadora de roupas só aceita pijamas, coloquei um Jeans… me mandou a  mensagem #ficaemcasa

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 26/11/2020 - 09:38h
Adeus

Menino Diego

A arte universalizada e imortalizada com a bola, no gênio de um craque de todas as torcidas (Foto: Web)

O mundo do futebol perdeu Diego Maradona.

A propósito, quantos meninos não nasceram Diego, argentino ou não, por ele?

Por ele, por sua arte, refino no trato da bola.

E até por sua impulsividade.

Sua morte quarta-feira (25) é a prova da universalidade e imortalidade de Dieguito.

Descanse em paz!

Leia também: Maradona morre na Argentina aos 60 anos.

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Categoria(s): Crônica
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sábado - 14/11/2020 - 17:22h
Reflexão

Perto do fim e feliz

Vamos chegando ao fim de outra campanha eletiva.

Sinto-me feliz, inteiro e privilegiado por sobreviver aos desatinos, cobranças naturais, fazendo o que gosto.

“Tudo passa”, reza parábola hindu.

Que bom!

A gente também passa e pode dormir em paz.

Gratidão!

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Categoria(s): Crônica / Eleições 2020 / Política
domingo - 25/10/2020 - 10:22h

Conversa, em casa, com os candidatos a prefeito de Mossoró

Por Dionízio do Apodi

Depois de ver o debate da TCM-Telecom (veja AQUI) com as candidatas e com os candidatos à Prefeitura de Mossoró, fiz o exercício de imaginar que se tivéssemos uma casa onde passassem as manifestações políticas por perto, quais seriam as candidatas e candidatos que poderiam entrar ou não, e até que cômodo poderiam ir.Claro que tudo dependeria ainda de uma conversa com minha companheira Renata Soraya, para ver se ela concordaria (e o que ela modificasse eu aceitaria tranquilamente).

Sei que estamos numa pandemia e não é tempo de ninguém visitar ninguém (parece que já é tempo mas não é não).

Mesmo assim, tomando todo o cuidado do mundo, poderíamos agir da seguinte maneira:

ROSALBA CIARLINI – Ficaria na calçada, que é pública, e eu pediria para que ela não dissesse os bordões e expressões de efeito que nada significam: “Estamos reconstruindo”, “Mossoró vai crescer mais e mais”, “a Rosa fez, a Rosa faz” e coisas desse tipo que sua militância adora repetir.

Ela precisaria de mais tempo para me ouvir. Ela falaria pouco, ou quase nada, ou nada mesmo, não precisaria.

CLÁUDIA REGINA – Eu abriria a porta, mas a gente conversaria ali mesmo, em pé, e poderia estar acompanhada do vereador Petras Vinícius, mas do seu vice bolsonarista não, para não servir de mau exemplo para a nossa Diadorim, que é pequenininha.

ISOLDA DANTAS – Poderia entrar e sentar para conversarmos na área de entrada de nossa casa, mas sem sua assessoria. Seu vice Gutemberg entraria, e para o ambiente ficar melhor o companheiro Neto Vale também, que aí a gente aprenderia muito com esse camarada de luta. A conversa seria iniciada por mim que já começaria com uma reclamação para Isolda: “cuidado para não ficar igual a rosa, que quando alguém faz uma crítica vai um monte de assessor em cima e inibe a pessoa até de falar.

Acompanhava suas redes sociais, Isolda, e via muito que quando uma pessoa reclamava, legítima e democraticamente, de alguma coisa que não concordava, bastava esperar e em pouco tempo surgiam seis, sete, oito companheiros do PT metendo o pau em quem criticou, inibindo qualquer pessoa de tentar colaborar de alguma forma”. Mas falaríamos da agricultura familiar, que a deputada aprovou projeto importantíssimo para as famílias de agricultores do estado.

ALLYSON BEZERRA – Poderia entrar e sentar conosco na sala, acompanhado por meu amigo Tiago Bento e minha amiga Soneth Ferreira, vereadora de Apodi. Mesmo eu não tomando, serviria um café para podermos prolongar um pouco o tempo, para eu poder fazer algumas perguntas ao deputado, que não conheço muito, mas  que tenho total interesse em conhecer, longe da influência da militância de Isolda e Cláudia Regina, que o colocaram numa embalagem, que mesmo eu sem conhecê-lo, por respeito a qualquer pessoa, não trataria alguém assim.

Sabendo que ele é evangélico (não tem problema nenhum ser evangélico), gostaria de saber seu pensamento sobre as religiões afro, sobre a música brasileira, sobre as artes, a cultura, sobre suas raízes na zona rural.

Seu pensamento sobre as coisas seria mais importante, para mim, que sua religião.

RONALDO GARCIA – Tenho carinho por professor. Mesmo não o conhecendo, nem tendo sido meu professor, o chamaria de professor , convidaria para entrar e colocaria a cadeira para ele sentar. Pediria para ele ficar à vontade e que não precisava ficar nervoso como na TCM não.

Nosso encontro seria na cozinha, pois assim ele em algum horário iria comer alguma coisa e baixaria a máscara para eu ver o rosto dele. E a gente conversaria, sobre muitos assuntos, e pronto.

CEIÇÃO – Primeiro a gente daria muitas gargalhadas. Iríamos para o quintal, onde chuparíamos uma manga, mas diria a ela que não chegasse perto da goiabeira não, pra não ver Jesus e querer catequisar, ou evangelizar, a gente.

“Mulher, me fale mais sobre seu tempo de ambulante, que deve ter sido bastante difícil, mas acredito que cheio de histórias pra contar”.

Isso não significa de forma alguma a manifestação de voto em alguém, só um exercício de perceber quem está mais perto da gente.

Dionízio do Apodi é ator e diretor teatral

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 04/10/2020 - 12:10h

De volta às boas lembranças

Por Paulo Menezes

Quando não estou no mundo fascinante das abelhas Jandaíra, atividade que adoro e tenho como uma terapia ocupacional, sem querer, vivo muitas vezes mais do passado que do presente. Acho que é devido à violência dos dias atuais comparado com a tranquilidade de um passado cheio de paz, felicidade e, que por isso mesmo, é sempre motivo de muita saudade.

Ao romantismo de uma época de ouro confrontado com a selvageria do mundo presente. Violência e droga, naquela época, nem pensar. Na minha juventude, por sinal muito bem vivida, quando em Mossoró reinava harmonia, afeto, benquerença, bate papo nas calçadas, tínhamos uma turma de amigos que se autodenominava os 7 cabeludos.

Eu, Bira Menezes, Emery Costa, João Vieira, Guga Escóssia, Raul Caldas e Joãozinho de Neco Carteiro, formávamos o que se poderia chamar de um grupo de “bons vivants.” Emery Costa, Raul Caldas e Joãozinho de Neco Carteiro, infelizmente, já partiram e estão numa outra dimensão.

O nosso encontro diário era à noite no coreto da praça da Catedral de Santa Luzia. Lá funcionava a rede social da época. Estávamos sempre atualizados.

O rádio era o meio de comunicação mais eficiente.

Alí, vivíamos  os tempos dourados dos anos sessenta. Todos muito jovens, tínhamos muitos sonhos e fantasias. Tempo em  que nascia  na distante Liverpool, os  Beatles que iriam revolucionar toda uma geração. Revolução essa, que até hoje, me impressiona pelo fato de ver meus netos ao ouvir “I Want to Hold Your Hand” dizerem: – “vozinho, que música bonita, como o senhor tem bom gosto musical.”

Imagine nós que vivemos àquela época.

Recordo também, que com exceção de Joãozinho, os demais componentes de grupo prestaram no mesmo ano, o serviço militar no glorioso “Tiro de Guerra 188”. Sargentos Leite e Maurílio eram os instrutores.

Já naquela época se usava o cargo para benefício próprio, misturando o público com o privado.(esse país não tem jeito). Explico: um dos sargentos, além da farda, explorava um bar vizinho à sede do Tiro de Guerra. Num festivo dia de sábado, nosso grupo tomou 96 cervejas (não havia a Long Neck) ouvindo o sonoro violão de Wellington Couto, que também fazia parte da tropa militar e da boemia.

Dinheiro que era bom, ninguém tinha.

Ao perceber que não ia receber o valor do produto vendido, não deu outra. Na primeira instrução o sargento foi curto e grosso:

– Em 48 horas se vocês não pagarem a conta serão todos excluídos do serviço militar. Não tinha razão o enganado nem os enganadores.

O fato é que na pressão, o dinheiro apareceu e entre mortos e feridos escaparam todos.

Assim é que com pontas de saudades acabei de assistir e narrar mais um filme de um passado glorioso e extremamente feliz. Sobre o tema assim se expressou Bob Marley: “Uma das coisas mais belas da vida é olhar para o céu, contemplar uma estrela e imaginar que muito distante existe alguém olhando para o mesmo céu, contemplando a mesma estrela e murmurando baixinho: “

Paulo Menezes é meliponicultor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 13/09/2020 - 08:58h

O que vale a pena

Por Odemirton Filho

Tudo vale a pena, se alma não é pequena”.

(Fernando Pessoa)

 

Caminhavam na areia com a brisa tocando os seus rostos, como se fosse um beijo suave. Diariamente, à tardinha, gostavam de andar na beira da praia, com o mar molhando os pés.

Há anos tinham largado a cidade grande. Mudaram-se para a comunidade-praia e desfrutavam a paz do local. Buscavam sossego, pois já estavam aposentados.

A rotina raramente mudava. O marido acordava cedo, o sol nunca o encontrou dormindo, como diria Rui Barbosa. Preparava um café coado e tapiocas. A mulher se levantava um pouco mais tarde. Conversavam sentados à mesa, sem pressa. Depois cumpriam as tarefas da casa e faziam o almoço.

Algumas vezes, pela manhã, esperavam uma jangada vindo do alto mar e compravam peixes, já eram conhecidos dos pescadores e moradores da pequena localidade. As compras da casa eram realizadas na mercearia de Zé de Niel, que ficava próximo, ainda no sistema da “caderneta”.

Antes do almoço o marido gostava de tomar uma “pra lavar”.  Depois, deitavam-se nas redes e iam curtir a “sesta”. No meio da tarde tomavam um “pingado”, acompanhado com pães e bolo.

À noite, após o jantar, deitavam-se juntos no alpendre com o vento balançando a rede, embalando os momentos mais íntimos.

Tinham um filho e dois netos que os visitavam uma vez por ano, nas férias, pois moravam longe, lá pelas bandas do sul do país. Para não ficarem incomunicáveis possuíam um telefone celular.  Assistiam a televisão, de vez em quando, para verem o noticiário.

Liam muito. Sobretudo, os romances, contos e as crônicas do bruxo do Cosme Velho. A sós, conversavam sobre a vida. Lamentavam-se. Eram para ter dançado mais. Viajado mais.

Entretanto, a correria do dia a dia e o trabalho fizeram com que consumissem boa parte da vida. O tempo passou depressa. Os anos avançaram e olhavam para trás, com saudade, principalmente, daquilo que não viveram. Agora, já não tinham o viço da mocidade.

Somente o tempo nos faz amadurecer. Os valores da vida são repensados. Valeu a pena correr tanto em busca de bens materiais? Perguntavam-se. Vivemos tempos da economia do desejo, não da necessidade.

Infelizmente, ou felizmente, ninguém transfere sua experiência ao outro. Erros e acertos precisam fazer parte da vida de cada um. Se pudessem voltariam no tempo e viveriam de outra forma. Mais leves. Mais soltos.

Final da tarde. Era hora de ir à praia, caminhar na areia e sentir a brisa. Juntos, viram o pôr do sol refletir sobre as águas do mar.

Descobriram que nunca é tarde para viver o que vale a pena.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
quarta-feira - 02/09/2020 - 08:10h
Reflexão

‘Humano’

Queria entender que prazer mórbido, sádico, frio e desprovido de compaixão, move alguém ‘esclarecido’ a fotografar e distribuir imagem de um ser humano morto, despedaçado, numa poça de sangue.Enquanto não entendo, sinto-me aliviado em não fazer parte desse mundo.

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Categoria(s): Crônica / Opinião da Coluna do Herzog
domingo - 09/08/2020 - 07:30h

Figuras humanas de Mossoró

Por Odemirton Filho

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.(Antoine de Saint Exupéry)

Quando era adolescente costumava ir à praça Bento Praxedes, por trás do antigo Cine Pax, pois era próximo a minha casa. Por lá, muitos jovens, como eu. Íamos brincar e jogar conversa fora.

A praça Bento Praxedes, para quem não sabe, é a Praça do Codó ou do Relógio. Para mim, sempre será a Praça do Codó.

Com o recente falecimento de Tarcísio Alves, lembrei-me de algumas pessoas. Tarcísio sempre “pintava” pela praça. Era bastante conhecido.

Além dele, vieram-me à mente outras figuras humanas que marcaram minha geração e, com certeza, a de outras pessoas.Era comum, após o término da sessão dos filmes de caratê, os meninos saírem dando “socos” no ar, imitando Bruce Lee. Comigo não foi diferente.

Lembro-me de “Shaolin” (acho que era esse o apelido) que trabalhava ou sempre ficava pelos arredores do Cine Pax. Um dia, “Shaolin” me deu um golpe nas costas, pois não era de aguentar brincadeira de menino metido a lutador.

Havia um senhor que sempre se fazia presente nas festas de aniversário ou casamento, muitas vezes sem ser convidado, e, ao chegar, dizia solenemente: “vim prestigiar”. Era William Gurgel, conhecido por todos e curtia a festa como os outros convidados

Me lembro, ainda, de Murilo Ludgero, sempre vestido com roupas brancas, homem fervoroso na fé, que sempre me perguntava se eu já tinha ido à missa e feito o sinal da cruz ao passar em frente à Catedral.

Zé Maria da banca de jornal, que adorava falar sobre política e futebol. Ele às vezes se exaltava, ficava “brabo”, mas logo a conversa continuava.

Tinha um rapaz que era apaixonado por fusca – César. Eu tive um fusca. Um dia, para meu azar, ele o “pegou”. Coitado do fusquinha.

Existia, de igual modo, um senhor que acompanhava todos os enterros da cidade. Morreu alguém? Podia apostar, o senhor estaria presente.

No dia de finados ou na procissão de Santa Luzia quem não ouviu a pregação de um senhor vestido com um hábito de Franciscano? Ou a voz de Monsenhor Américo: “Mossoró com alegria, saúda Santa Luzia”!

A hora da coalhada, programa de Seu Mané, na Rádio Rural, quem escutou? E Erasmo fotógrafo, quem bateu uma “chapa” com ele?

Após as festas, ir à Cobal lanchar em Zé Leão ou na lanchonete de Zecão, que ficava no alto de São Manoel. Comer uma panelada, lá em Neto, no Mercado Central.

Quem já não viu “Paulo doido” andando pra lá e pra cá pelas ruas de Mossoró?

Pois é. Toda cidade tem as suas figuras humanas. Pessoas simples que ilustram a cena urbana e que merecem respeito. As que mencionei são, apenas, algumas. O amigo leitor, sem dúvida, conhece outras que marcaram sua geração.

Enfim, não quis dizer que essas pessoas fazem parte da geografia humana e da história de Mossoró.

Seria um clichê.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 02/08/2020 - 07:20h

À sombra de uma mangueira

Por Paulo Menezes

Plantei essa mangueira há 42 anos. Não sabia se ela vingaria nem se eu alcançaria sua trajetória de vida. O fato é que todos sobrevivemos.

Ela ainda viçosa, florindo e dando frutos doces e saudáveis todos os anos. Eu, já mais pra lá do que pra cá. Com certeza, vou partir para outra dimensão e ela vai continuar sua vida.

O fato é que recebo sua sombra e seus frutos no dia a dia, e isso para mim já compensa o investimento, já que sou um naturalista convicto.

Hoje, no meio dessa pandemia louca que nos afasta dos filhos, noras, netos e amigos, todos do bem querer, é ela, que como sempre e ao longo do tempo tem me dado abrigo e reconforto.

Agora mesmo, estou  usufruindo de sua sombra benfazeja, tomando uma aguardente mineira, ouvindo Roberto Carlos da Jovem Guarda dos anos 60 (precisamente 1965) anos dourados da minha juventude, vivida com a intensidade de quem está com a morte para acontecer no dia seguinte. E o bom disso tudo, é que de repente me sinto bem, apesar do noticiário terrorista da imprensa televisiva.

Não sei se é o álcool o que me deixa assim, pois, via de regra, uma pinga bem dosada nos deixa relaxado, leve e até mesmo um pouco esquecido.

O fato é que na vida, sempre temos que encontrar  uma saída para enfrentar os problemas que ela nos apresenta. Para mim, graças a Deus, eu encontrei essa válvula de escape que foi a sombra dessa árvore frondosa e uma boa caninha para amenizar as vicissitudes da vida.

Afinal, não foi sem motivo que o ator e cineasta norte-americano Jordan Peele afirmou: “Sinto que estamos numa época onde o público precisa escapar do horror da realidade”.

Paulo Menezes é meliponicultor

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 11/06/2020 - 10:11h
Crônica

Cabo Januário

Por François Silvestre

A cidade tem pouco mais de cinco mil habitantes. Todo mundo se conhece, e a metade se detesta. O sonho de qualquer adolescente é se mandar. Ou então arrumar-se numa filial de facção, das que mandam na região, pra ter o luxo de moto, grana fácil, e vida curta.

O policiamento é chefiado pelo cabo Januário. Ele comanda dois soldados. Jalmir, que tem um bar, e Ademar, que nada tem. De mês em mês, quando dá certo aparece um delegado da polícia civil, que vem de Caraúbas ou Patu, seja para abrir um inquérito ou levar o cadáver de algum assassinado para o Itep de Mossoró.

Pois pois. Cada plantão, na delegacia, é dividido entre eles. Um dia de plantão e dois de folga. Portanto, o policiamento diário é de um só policial. Jalmir melhora o salário com seu bar. E Ademar gasta seu salário no bar de Jalmir. Januário é evangélico, não bebe. Nos dias folga vai à igreja “dos santos dos últimos dias” ou se embrenha nas grotas da serra vizinha caçando o que ainda resta de caça.

Na manhã de ontem, dia de seu plantão, Januário deixou a mulher cismada. Em vez de procurar a farda militar, vestiu-se à paisana para sair. Juliana perguntou: “Pronde vai desse jeito? Tá de plantão não”? E januário respondeu: “Tô de plantão, mas antes vou passar na prefeitura pra resolver esse caso da secretaria”.

A mulher não entendeu: “Qui caso da secretaria”? E ele explicou: “A secretaria da saúde, qui eu vou assumir. Sabia não? Eu sou a maior autoridade militar do município”.

Juliana: “Você num sabe nem tirar um bicho de pé, nem pra qui serve sal de fruta, vai fazer o que lá?”.

E ele: “Num interessa, é assunto militar. E deixe de cunversa qui tô atrasado”.

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
terça-feira - 26/05/2020 - 14:50h
Aos Vivos!

Cultura, família, vida e a fome de liberdade de Katharina Gurgel

O segundo programa Carlos Santos – AOS VIVOS dessa segunda-feira (25 de Maio de 2020) recebeu a cantora e produtora cultural Khatarina Gurgel, em nosso endereço no Instagram AQUI.

A gente falou sobre teatro, crônicas, música, família e um monte de abobrinhas.

Confira no vídeo fixado nessa postagem, o papo leve que rolou com a participação dos internautas.

Experiência

Carlos Santos – AOS VIVOS é um projeto experimental, embrionário e laboratorial. Antecede investimento mais esmerado desta página, a ser desenvolvido adiante, em que pretendemos instigar o colaboracionismo de internautas e convergência de mídias num ambiente multiplataforma.

É um canal para a gente jogar conversa fora, não fazer um monte de coisas e sei lá o quê, semanalmente – sempre às segundas-feiras, às 21 horas.

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Categoria(s): Comunicação / Comunicado do Blog
domingo - 10/05/2020 - 04:08h
Benção

Feliz mãe

Feliz quem vai ter oportunidade de estar com sua mãe num dia que as convenções, comerciais, definiram ser data à sua homenagem.

Que bom que ninguém precisará apenas dar um presente e voltar à rotina.

Que chance o novo vírus lhe dá de curtir mais essa benção.

Agradeça.

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
sexta-feira - 01/05/2020 - 12:08h
Microcrônica

Ê saudade!

Saudades do meu sertão!

De pegar estradas que me levem à graça do sertanejo e àquele verde cintilante; à fartura no fogão à lenha e panela de barro.

Da pinga e da prosa embaixo do juazeiro.

Boi barrigudo, passaredo livre, chuva na bica.

O sertão é o mundo, meu amigo.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/04/2020 - 11:26h

Homem, quem és tu?

Por Honório de Medeiros

Esse homem que o acaso colocou em minha frente é uma incógnita. Nada sei a seu respeito.

Se observo os detalhes que a sua aparência externa coloca ante meus olhos, e concluo algo, posso incidir em um oceano de erros.

Afinal, sob seu verniz de civilização pode se ocultar qualquer ignomínia.Não faz pouco tempo, foi ele gentil com uma criança.

Vi, mesmo, de soslaio, a mãe da criança lhe sorrir complacente, como quem acha muito natural receber, sua cria, as atenções do mundo. O gesto me fez lembrar as contradições do ser humano.

Ele mesmo, o observado, que desarrumou, com um afago, os cachos do cabelo da criança, em outra ocasião, outra circunstância, uma guerra, talvez ordenasse um bombardeio que vitimaria tantos outros sorrisos infantis.

Pode ser que eu não fale a mesma linguagem que ele. Quantas formas há de entender uma só palavra?

Difícil atividade, a dos lógicos, a dos filósofos da linguagem, que pretendem descobrir o meio de diminuir a distância entre aquilo que percebo e o que digo.

Se lhe chamasse a atenção e perguntasse, comentasse algo, poderíamos divergir tanto, e acerca de coisas tão banais…

“Todavia, entre mim e esse homem glacial, sinto todos os espaços vazios que separam os homens”. É como disse Saint-Exupèry, em um artigo para o Paris-Soir, em 1935, contando sua experiência de viajar, à noite, em um trem repleto de mineiros poloneses que voltavam à sua terra natal, expulsos da França pelas contingências da economia.

Vazios semelhantes àqueles expressados por T. S. Elliot, em A Terra Desolada: a angústia da constatação da impossibilidade da comunicação humana; a percepção de sua solidão essencial, primitiva, única. Poderia o amor, esse sentimento tão tipicamente cristão, aproximar os homens?

Desnudar suas almas, lhes fazer não rir, nem chorar, mas compreender, como queria Spinoza?

Dar, a eles, a capacidade de transcender a mesquinha luta pela sobrevivência, que coloca em lados opostos os que deveriam semear juntos?

Ou essa é uma missão utópica, e não há tempo para sentir quando não conseguimos refletir acerca da misteriosa rede de aliciamento e cooptação que nos induz a darmos o pior de nós mesmos em praticamente todos os momentos da vida?

Podemos ter alguma esperança, mesmo depois de tantos milhares de anos de aperfeiçoamento na capacidade de destruir, matar, esmagar, e nenhum progresso quanto a fraternidade humana?

Saint-Exupèry, esse tão injustamente banalizado filósofo da melancolia, da nostalgia, já dissera: “É absolutamente necessário falar aos homens”.

Em sua “Carta ao General X”, escrita em La Marsa, perto de Túnis, julho de 43, para o Le Figaro Littéraire, denunciou: “Ah!, General, só existe um problema, um único, em todo o mundo. Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Não é possível viver-se só de geladeiras, política, orçamentos e palavras cruzadas, não é mesmo?”

Um sentido para a vida.

Teria a vida sentido?

Se nos indagassem: “homem, que és tu?”, teríamos que responder “aquele em cuja biblioteca os livros de poesia perderam seu lugar para os de computação?”.

Meu companheiro anônimo se fora.

Tinha perdido, eu, a chance de lhe falar acerca de tudo isso que poderia nos aproximar ou afastar: a solidão, o sentido da vida…Não seria dessa vez que construiríamos uma ponte entre a clausura de nossas almas.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Mossoró e Governo do RN.

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domingo - 19/04/2020 - 08:48h

Seu Chico Piu e a Teoria da Evolução

Por Honório de Medeiros

Não fossem as fotografias guardadas com muito carinho, nas quais apareço magro e sorridente, sem rugas e cabelos grisalhos, as lembranças daquele inesquecível passeio a cavalo, eu e um amigo que me hospedava, até a fazenda de café de “Seo” Chico Piu, serra acima na área rural de São Carlos, interior montanhoso de São Paulo, tudo seria apenas borrão na minha memória, algo como um filme antigo, com paisagens e pessoas esmaecidas pelo tempo.

Pego-as e sorrio, sempre. Depois, um toque de tristeza toma conta do espírito e lamenta a juventude passada, os amigos que se foram, os sonhos desfeitos, as promessas não cumpridas, os amores perdidos. “C’est la vie”, diriam os franceses.

Naquela tarde conheci “Seo” Chico Piu, homem sob todos os aspectos singular.

Em primeiro lugar vivia quase recluso, lá no seu pé de serra. Raras vezes descia à cidade. Bastava-lhe, para viver bem, estar pisando descalço sua terra rica e roxa, cercado por sua gente, que lhe margeava como uma tribo ao seu cacique.

“Seo” Chico era baixo, moreno gretado pelo sol, de braços e pernas fortes, espadaúdo, e com uma face como que esculpida em bronze, com traços muito demarcados. Mas o que impressionava eram seus pés. Estes, de fato, se viram sapatos, ou mesmo chinelos, foi em tempos muito idos, segundo suas próprias palavras.

Eram verdadeiros cascos, endurecidos por todos os invernos e verões aos quais “Seo” Chico os havia submetido. Segundo nos contou, e sua família confirmava, descia descalço até mesmo para a cidade, onde raramente ia. E, nos pés, não sentia frio ou calor, não era sensível à água ou à rocha mais dura.

“Seo” Chico era homem de pouca conversa quando no trabalho ao qual se entregava como qualquer um dos seus trabalhadores. Junto a eles, colhia o café, batia, ensilava, ensacava, derrubava as reses, ferrava-as… Um maestro em pleno exercício de sua arte, cegamente obedecido por seus músicos. Um general a conduzir seu exército com doçura, mas com firmeza.

Era, basicamente, dono de cafezais e de rebanho leiteiro, que se espargiam serra abaixo, tendo a Casa Grande como epicentro. Vivesse no Sertão nordestino e nele tivesse aquela terra e todo aquele gado seria um homem de posses, por assim dizer.

No final de uma tarde como aquela, no entanto, tempo esfriando ligeiro indicando noite gelada a chegar, visita no pátio da casa grande e rústica, a sisudez era deixada de lado e o café forte e a aguardente feita sob sua própria orientação lhe iluminavam o semblante e abriam seu coração e mente originando conversas recheadas de casos passados e argutas observações acerca da vida, dos homens e das coisas.

Mas tudo que é bom dura pouco.

Com a chegada da noite veio a hora de voltar sob a fria luz da lua, a passo leve, nas trilhas estreitas, para manter a compostura ameaçada pela bebida e a possibilidade de se envolver com a beleza da serra sob o luar.

Tomamos o último café, bebemos a última caneca de cachaça e ele, se despedindo, bateu na anca da mula mansa que me conduzia, apontou para mim e para si próprio, e como que refletindo, me disse para guardar comigo que o tempo havia lhe ensinado ser a vida, acerca da qual tanto havíamos falado, como uma serra de onde cada um descia na justa medida em que outro subia lhe tomando o lugar.

Dito isso, me lembrou que “seu pensamento” se tratava de um presente, assim como a garrafa da mais pura cachaça de sua moenda que me passou às mãos, deu um passo para trás, ajeitou o casaco de lã por sobre os ombros tocados pelo sereno da noite e lá ficou, a nos observar partindo, com seus pés indiferentes à temperatura que caíra bruscamente e, com certeza, desconhecendo meu conhecimento sorvido dos livros acerca da teoria da evolução que diziam, de forma muito pomposa e circunspecta, aquilo que ele concluíra somente observando, no seu pé de serra, a vida passando ao largo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Mossoró e Governo do RN

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sábado - 18/04/2020 - 19:48h
Saudades

Lá e cá, com turno e returno

Saudades do meu Caicó.

Caicó, na região Serido do Rio Grande do Norte, com turno e returno (Foto: Jorge Luiz)

Saudades do Seridó.

Saudades atenuadas à tarde deste sabadão, com prosa longa – mas não o bastante – ao telefone, com meu amigo Pituleira.

Inteligentemente, ele não tem zap-zap.

Depois dessa praga, vamos nos falar em carne viva – lá e cá.

Turno e returno.

Destá!

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
sábado - 18/04/2020 - 15:26h
Confinado

Feliz

Saudades da manguaça eu não tenho.

É-me diária a vontade da prosa no café, com casos e causos que desfiamos, donos da verdade e sempre sem solução para nada.

No racha da conta ou na moganga para sacar a carteira, há um pouco da graça da confraria.

De ser feliz bobamente.

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domingo - 12/04/2020 - 08:54h

Dona Efigênia em sua teia

Por Honório de Medeiros

Dona Efigênia pontificava naquela rua onde morei. Muito gorda, um pouco surda – talvez por puro cálculo –, passava o dia sentada em uma cadeira de balanço com espaldar de palhinha na sua ampla sala de estar, que dava para um jardim lateral, onde ficava o portão de ferro batido, pintado de branco, a lhe separar do resto do mundo.

Casa antiga, senhorial, de esquina.

Sempre perfumada alfazema, penteada e bem vestida, ficava o dia inteiro, tirando as fartas refeições, colada a uma mesinha redonda cheia de quinquilharias, na qual reinavam o telefone e o rádio. Tempos antigos.

“Prefiro o rádio”, disse-me ela uma vez quando lhe perguntei qual a razão do eterno silêncio da televisão. “As pessoas participam”.

Eu cumpria fielmente o ritual de visitá-la quando ia à sua cidade. Que era a nossa. Tenho certeza de que ela gostava de minhas visitas. Prova-o o doce de coco verde sempre disponível e do qual eu gostava imensamente.

Acredito até saber a razão de sua simpatia para comigo: ao contrário da grande maioria dos que a procuravam, eu não estava interessado em fofocas, ou, melhor dizendo, meu interesse era secundário, existia apenas na justa medida em que ilustrava alguma opinião sua a respeito de fatos e pessoas, essa sim extremamente interessante, a revelar um agudo poder de observação e análise.

Pois Dona Efigênia, viúva, com pensão mais que razoável deixada pelo falecido, filhos dispersos pelo mundo, era uma renomada e rematada fofoqueira, na opinião de alguns.

Talvez fofoqueira não fizesse jus ao que de fato ela era. Como uma aranha postada no centro de uma imensa teia, ela recebia, analisava e devolvia informações ao longo do dia de uma imensa variedade de informantes: serviçais, comadres, afilhados, sobrinhos, primos, amigos, o carteiro – por quem tinha especial predileção, dado que vivia batendo perna pelos cantos – o leiteiro, as crianças da rua, os vizinhos, pessoas de outros lugares, o padre, o rádio e o telefone.

Devo ter esquecido alguma coisa, óbvio, mas não esqueço sua sala de visitas quase sempre cheia e ela em silêncio escutando, até que, em determinado momento, chamava alguém para sentar em um banco baixo estrategicamente colocado perto da cadeira de balanço, e cochichava algo durante alguns minutos após os quais a conversava era dada por encerrada.

Quando a conheci supus que aquela sua atividade começasse e acabasse conforme comentavam os maledicentes. Diziam que ela era o tipo acabado da velha fofoqueira.

Depois de algum tempo compreendi que criara essa camuflagem. Era assim mesmo que queria ser enxergada. A camuflagem ocultava o verdadeiro propósito de sua atividade diária.

Através da colheita de informações, ficava sabendo o que de errado havia acontecido no seu entorno. Talvez alguma gravidez indesejada, uma demissão inesperada, uma prestação do colégio atrasada, uma virgindade perdida, um exame médico além do alcance de quem dele estava precisando, uma traição que se consumava, uma despensa desabastecida, uma violência doméstica cometida, um recém-nascido abandonado. Pequenas grandes mazelas.

Então entrava em ação: chamava um, chamava outro, cobrava antigos favores, pedia novos, recebia dinheiro de quem lhe devia e repassava para quem estivesse precisando, e a perder de vista, dava carões, espalhava conselhos, apontava caminhos, indicava obstáculos, aproximava pessoas, afastava outras, mandava fazer, mandava desmanchar…

E, assim, disfarçadamente, realizava um metódico, complexo e minucioso bordado social. Bordado do bem.

Dona Efigênia, há muito, descansa em paz e, se existe Céu, nos braços do Senhor.

Ao longo da vida me pego, de vez em quando, lembrando de alguma observação sua.

Paro, componho em minha mente o quadro de sua presença naquela sala de estar hoje silenciosa, sentada na sua cadeira de balanço, abro seu breviário, e me ponho a ler, e essa é a minha oração em louvor de sua memória.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
quarta-feira - 08/04/2020 - 14:52h
Crônica

Minhas mãos alcoólatras

Por François Silvestre

Elas são tudo, mas sempre relegadas ao secundário imerecido. Pois é da condição do polegar opositor aos outros dedos que o ancestral nosso diferenciou-se dos seus primos macacos para evoluírem até onde chegamos. Sem esse polegar tocando a ponta dos outros dedos nós não existiríamos. Nem a tecnologia.

Mas, como tudo que parece fácil e simples, as mãos raramente ocupam lugar de destaque na preocupação médica. Elas pegam as coisas, sustentam a arrumação, tocam punheta. Tudo muito natural. Tão natural que são esquecidas. As unhas, que são os cascos dos dedos, as mulheres enfeitam, os homens cortam e os exóticos exibem.

Mas isso é outra história. Vou tratar das minhas mãos. Sou um dependente de bebida alcoólica. Não vivo sem o álcool. Melhor dizendo, sem cerveja. Bebo quando quero, mas quero todo dia. Não abro mão da cerveja da tarde.

Quando preciso não beber por qualquer motivo, tiro de letra a abstinência. Para tratamento médico ou cirurgia, que já fiz duas de catarata. E cumpro sem problema. Ou como dizia Aluzio Alves, nas campanhas que fizemos, do mesmo lado ou de lados opostos, “você é um bebo manso”. E sou.

Até agora reclamavam da bebida o fígado, o pâncreas, o pulmão, o intestino, o esôfago, o reto, os rins e até o fiofó. Hemorroidas que o digam.

As mãos? Só pra levantar os copos. Excluindo suas atividades eróticas. Mas em matéria de farra alcoólica, foram sempre secundárias. Chegou a vez delas. banhadas de álcool constantemente. Rindo dos órgãos de dentro.

E as vejo alegremente limpas pedindo mais…

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domingo - 05/04/2020 - 04:42h

A “metrópole” do livro “no metro” e seus valores fúteis

Por Carlos Santos

Como são estúpidos os parâmetros que o grosso da sociedade mossoroense tem adotado, para dimensionar sua ascensão social. Tudo baseado na superficialidade e babaquice do “parece ter”.

Estamos medindo esse novo status nos prédios que sobem, nos milhares de carros que invadem ruas, avenidas e ocupam até calçadas. Naqueles que muitas vezes para subir, precisam descer aos subterrâneos.

Ontem, eu tive mais um testemunho do atraso e da distância em que nos encontramos, da inversão de valores e confusão em que nos metemos, em nome do hipotético progresso.

Fuçando livros em um sebo, seu proprietário me fez um relato que fica entre o bizarro e o jocoso. Vamos a ele.Há algum tempo, esse sebista foi procurado por uma “nova rica”, interessada em comprar “um metro de livro”. Isso mesmo. Não era um título específico, coleção ou tomo de encadernamento especial. Tinha que ser no metro, sim.

Explico, reproduzindo o que ouvi: a deslumbrada precisava preencher um espaço em estante desenhada por sua arquiteta, sendo recomendada a colocar livros com a mesma dimensão estética. O espaço disponível pro “enfeite”? Um metro. Um metro de livros simetricamente alinhados.

Mossoró, até o início do século passado, vivia a influência europeia do movimento conhecido como “art nouveau” – daí nascendo até a corruptela de sua área de prostituição, transformada em “Alto do Louvor”, décadas depois.

Era uma cidade com requintes em roupas, moveis, arquitetura, mas também na cultura, desde o teatro ao hábito da leitura e música. Tínhamos cerca de 100 pianos. E as moças bem educadas tocavam. Eles não serviam apenas de ornamento na decoração.

Falar francês era normal para os jovens de ótima extração. Muitos eram poliglotas. Os janotas transitavam sempre impecáveis e ser rico, em verdade, era transformar dinheiro em bem-estar e referência de conteúdo.

Hoje testemunhamos a “Metrópole do Futuro” exultante com seu “crescimento” baseado em carrões pra exibição, TV de LCD e home theater na sala do apartamento, gente mal-educada saracoteando ao som de “lapada na rachada” e enchendo  sacolas com bugigangas de grife.

Os que se salvam dessa manada são tratados como estranhos e afetados, ou seja, anormais.

Portanto não é por acaso que da atividade produtiva à política, estejamos “dominados” pela ignorância que mesmo rica, não reluz.  É opaca ou furta-cor, mas certamente abobalhada e fútil.

Empobrecemos, em verdade, porque na ânsia de ser diferente, a grande maioria é apenas mais um nessa multidão pasteurizada, uniforme, feita em escala industrial: modelo standart. Faz da aparência a sua essência, da borra cosmética a sua alma.

Acredita que Paris é “a cidade luz” por ser muito iluminada; toma Old Parr com Coca-cola, mas preferia um legítimo “Odete”, por ser mais barato.

A propósito, bota uma bicada de Serra Limpa aí, amigo. O sertão é aqui.

* Texto originalmente publicado no dia 10 de Novembro de 2010.

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