domingo - 25/07/2021 - 10:50h

Contos de fadas?

Por Inácio Augusto de Almeida

Pensamos ensinar nossos filhos a serem humildes e a perdoar. Até porque isto está em todas as religiões que conhecemos.

Nem desconfiamos que nas canções de ninar já falamos de violência, quando atiramos o pau no gato, e de medo, quando pedimos ao boi da cara preta para pegar esta criança que tem medo de careta. Contos de fadasDepois passamos a contar estórias que apelidamos de infantis, mas causadoras de inveja a qualquer hemocentro. Tente se lembrar de uma estória, dita infantil, sem sangue. Pobre do carneirinho em Branca de Neve e do lobo em Chapeuzinho Vermelho.

Arrogância e prepotência, inveja e vingança, sempre presentes no que chamamos de Contos de Fadas.

Perdão, humildade não encontramos nas fantasias que passamos a nossos filhos.

Nunca acontece o arrependimento da bruxa malvada que só enche de alegria as nossas criancinhas quando despenca para a morte ao cair de uma grande montanha e desaparece para sempre no despenhadeiro sem fim. O lobo mau com a barriga aberta dá seu último suspiro e a vovozinha abraça a netinha feliz e sorridente.

Em algum Conto de Fada o casamento acontece entre um lavrador e a heroína? Não!

Sempre aparece um Príncipe para que vivam FELIZES para sempre, como se a felicidade só fosse possível se a união for com um membro da realeza.

Não existem nas histórias infantis o PERDÃO, a HUMILDADE, o ARREPENDIMENTO.

Vingança existe e muita.

E já crianças crescidas nós as estimulamos a VINGAR a morte de Jesus Cristo quando fazemos judas de pano, cheios de bombom e de chocolate, para serem espancados até se transformarem em frangalhos.

Depois os jovens se tornam adultos e passam a praticar e a aceitar a violência como um fator normal da vida.

Receberam durante sua formação alguma influência da importância do perdão, da humildade e de que é possível felicidade sem riqueza e poder?

Fico sem entender porque nos assustamos tanto com a agressividade e a ambição das novas gerações se nós é que as preparamos, desde a mais terna idade a buscarem riqueza, poder e vingança.

Por que não contarmos estórias de trancoso com as bruxas arrependidas e regeneradas? Por que não mostramos que felicidade existe também em casas humildes e não apenas em ricos palácios?

Por quê?

Porque projetamos nos nossos filhos os sonhos perdidos, as quimeras desfeitas.

Transferimos para eles nossas ambições e os nossos valores distorcidos.

Terminamos criando seres angustiados, infelizes. Pobres coitados sofrendo cobranças descabidas.

Depois nos espantamos com as drogas, movimentos de rebeldia etc. Os hippies dos anos 60/70 deram o grito de alerta, mas não foram ouvidos.

É hora de repensar a educação, a religião e partir para um novo mundo.

Ou fazemos isso ou vamos desaparecer como seres que se dizem filhos de Deus.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 25/07/2021 - 08:38h

Amante

Por Marcelo Alves

Recebi da amiga e confreira da Academia Norte-rio-grandense de Letras Lalinha Barros, emprestado (e devolverei, asseguro), o livro “Memórias esparsas de uma biblioteca” (Coedição Escritório do Livro e Imprensa Oficial, 2004), do bibliófilo José Mindlin (1914-2010). Genibaldo e Lalinha são meus vizinhos. Em tempos de pandemia, ela me disse: “Vou dar um pulo na porta do seu apartamento. Para emprestar um livro. Você vai gostar”. Eu adorei.

José Mindlin, falecido em 2010, na maior biblioteca privada do país (Foto: O Globo/arquivo)

José Mindlin, falecido em 2010, na maior biblioteca privada do país (Foto: O Globo/arquivo)

Mindlin, que exerceu muitos papéis na vida – de jornalista a advogado, de empresário a escritor e membro da Academia Brasileira de Letras – foi o nosso mais célebre bibliófilo. E nos dois sentidos da palavra, como colecionador de obras raras e como amante/amigo dos livros. Gente boníssima, portanto. Muito embora, cá entre nós, até para evitar mais gastos de que já tenho com livros e assemelhados, eu suplique, para a minha singela pessoa, ser apenas dotado da segunda qualidade, a de amante (de livros), sem os custos, digamos, do “casamento”.

As “Memórias” de Mindlin são cheias de histórias sobre livros que eu desconhecia. Sobre tipografias, editoras e edições raras. Sobre livrarias, sebos e antiquários. Interessantíssimas. Mas trata-se também de um livro sobre pessoas. Sobre tipógrafos/editores. Sobre bibliotecários. Sobre livreiros. Do Brasil e do exterior.

Na verdade, sobre amantes de livros. Afinal, o que seriam destes se não fossem as pessoas para lê-los, mas, também, para guardá-los e adorá-los. Algumas histórias merecem destaque. E aqui o faço indo do mais distante ao mais particular.

Tocou-me a narrativa sobre os livreiros/antiquários ingleses. A Maggs Bros, Quaritch e a Francis Edward, alguns deles situados na Old Bond Street, em Londres, cujos proprietários Mindlin enfaticamente elogia pela honestidade. É uma área que conheço razoavelmente. Morei não muito longe. Mas nunca me apercebi dessas casas. Ou não entendo de antiquários de livros ou eles já haviam fechado as portas no meu tempo. Talvez as duas coisas. De toda sorte, posso assegurar o bom preço e a honestidade dos simples sebistas da capital do Reino Unido.

Adorei as referências a vultos da história “livresca” do Brasil. Como Francisco de Paula Brito (1809-1861), empresário, editor, jornalista, escritor, tradutor, ativista e muitas coisas mais. Foi talvez o nosso maior “tipógrafo” (que, a seu tempo, fazia as vezes de editora). Foi o primeiro a publicar Machado de Assis (1839-1908), e isso já diz tudo. Como Rubens Borba de Moraes (1899-1986), grande bibliotecário, bibliógrafo e bibliófilo. Pioneiro no Brasil nessa coisa de ciência dos livros e assemelhados. Foi nada menos que diretor da biblioteca da ONU, em Nova Iorque. Escreveu uma “Bibliographia brasiliana” (1958), até hoje referência no tema, e o manual “O bibliófilo aprendiz” (1965), entre outros títulos. Como um “irmão mais velho”, Borba legou sua enorme coleção de raridades a Mindlin.

A passagem de Mindlin por Natal, que junta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Zila Mamede (1928-1985) e outras figuras da terra, merece eco. Zila preparava uma biobibliografia do poeta pernambucano. Ela “já tinha feito uma biobibliografia de Câmara Cascudo. Era bibliotecária de profissão, mas seu maior destaque no mundo intelectual brasileiro foi de excelente poeta.

Publicou vários livros que mereceram muitos elogios de Manuel Bandeira, João Cabral e Carlos Drummond de Andrade, de quem se tornou grande amiga pessoal. Infelizmente, faleceu ainda jovem, de um colapso cardíaco em pleno banho de mar. (…).

Zila, por sua vez, nos convidou para ir a Natal, levando uma exposição de desenhos de Di Cavalcanti que o MAC possuía. Fomos, e através de Zila fizemos outras amizades. Entre elas com Lalinha e Genibaldo Barros, Selma Bezerra e Fran Martins, que há anos vinha publicando uma revista literária – Clan, que eu conhecia mas não possuía”. Turma boa, incluindo meus vizinhos. E fato histórico.

Por fim, comoveu-me a lição: “Não se deve hesitar quando um livro desperta interesse, e é melhor se arrepender de ter comprado do que de não ter”. Há o risco de cair-se na bibliomania, desordem compulsiva de adquirir livros desvairadamente, é vero. Mas também já se disse – e que minha mulher não escute – que a melhor forma de livrar-se de uma compulsão é render-se a ela.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 18/07/2021 - 12:42h

Orações para os enfermos

oração, igreja, religião, bíblia, féPor Inácio Augusto de Almeida 

Acreditamos nos ensinamentos de Jesus Cristo? Somos bons cristãos?

Procuramos sempre deixar isto bem claro quando buscamos nas igrejas os primeiros bancos.

Confessamos nossos pecados e comungamos. E no outro domingo confessamos, quase sempre, os pecados já antes confessados. Não nos lembramos, ou fingimos não lembrar, que Jesus ao perdoar os pecados de uma mulher disse, não só para a pecadora, mas para todos, que os pecados estavam perdoados e não pecássemos mais.

Nos cultos gritamos Jesus, Jesus, cantamos hinos de louvor ao Senhor e prometemos não mais pecar.

Nas casas espíritas nos arrependemos dos pecados cometidos, mas na outra semana voltamos a nos arrepender dos mesmos pecados.

E assim seguimos, pecando e pedindo perdão, certos de que somos fiéis seguidores de Cristo.

Nem nos lembramos do VAI E NÃO PEQUES MAIS.

Juramos acreditar na vida eterna, mas pecamos como se o fim existisse e nada após a morte pudesse nos afetar.

Agindo assim, assumimos toda nossa hipocrisia.

O mais impressionante é que mesmo acreditando ser a morte o fim de tudo, permitimos o pavor nos dominar ao sentirmos que estamos, não perto do fim, mas do grande encontro.

Aí está a resposta do pânico que nos causa a morte.

Nosso inconsciente grita que a vida prossegue e que todos os erros terão que ser resgatados, não com um fingido arrependimento, mas com obras reparadoras.

Como exatamente isto se dá, não sei e desconheço quem saiba. Só sei que a reparação acontece.

E é da reparação que temos medo.

Os enfermos estão mais próximos da morte e por eles devemos orar com fervor.

Orar para que Deus, na sua suprema bondade, torne leve o fardo da reparação.

Devemos orar, também, para que os nossos corações aceitem a separação da pessoa querida. Separação de pouca duração.

Quem já conversou com pessoas em estado terminal, pessoas queridas, observou a tranquilidade existente nos olhos delas. O medo existe em nosso olhar. Medo da separação da pessoa amada.

Devemos rezar pelos enfermos e por nós. Pena ainda não estarmos preparados para esta separação.

E isto só conseguiremos alcançar quando formos, realmente, cristãos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 18/07/2021 - 07:46h

Coisa dos números

Por Marcelo Alves

“O Terceiro Homem” (“The Third Man”), de 1949, é um clássico do cinema. Para a sua realização concorreu gente da mais alta patente do cinema e da literatura. A produção é de David Selznick (1902-1965) e Alexander Korda (1893-1956). A direção é de Carol Reed (1906-1976), com base em roteiro de Graham Greene (1904-1991), uma parceria que nos deu outros filmes, tais como “O Ídolo Caído” (“The Fallen Idol”, 1948) e “Nosso homem em Havana” (“Our Man in Havana”, 1959).

Robert Krasker (1913-1981) responde pela fotografia; Anton Karas (1906-1985), pela trilha sonora. No filme atua gente como Joseph Cotten (no papel de Holly Martins), Orson Welles (Harry Lime), Alida Valli (Anna Schmidt), Trevor Howard (Major Calloway), entre outros.O terceiro homem - cinema

Curiosamente, Greene expandiu o roteiro do filme, publicando, em 1950, uma novela/romance com o mesmo título. Em regra, o contrário se dá: o livro é adaptado para o cinema. Bom, “O Terceiro Homem” é por muitos considerado o melhor filme britânico de todos os tempos. E olhem que a concorrência ali não é fácil.

A estória é ambientada na Viena pós-Segunda Guerra Mundial, uma cidade destruída e dividida entre as quatro potências vencedoras do conflito (Estados Unidos da América, Inglaterra, França e União Soviética). Holly Martins é um americano, escritor de faroestes de segunda categoria, bebedor e bêbado às escâncaras, sem um dólar no bolso.

Ele chega a Viena para encontrar o seu amigo de longa data, o inescrupuloso Harry Lime, que lhe havia prometido um emprego. Logo descobre que seu amigo Harry está (ou, melhor dizendo, estaria) morto. As circunstâncias são suspeitas, e Holly cuida de fazer sua própria investigação. No meio disso, entre alguns porres, Holly é seguido de perto pelo Sargento Paine (das forças britânicas) e pelo superior Major Calloway, passa-se por escritor famoso, interage com os amigos/sócios de Harry Lime (Crabbin, “Baron” Kurtz, Dr. Winkel e Popescu) e, não por acaso, apaixona-se pela ex-amante do amigo. E, claro, há problema: o misterioso “terceiro homem”.

Dito isto – e tentando não fazer mais spoiler do filme –, ressalto que a trama gira muito em torno da personagem interpretada por Orson Welles, o tal Harry Lime. Ele é um criminoso, contrabandista e falsificador de Penicilina, que, na Viena pós-guerra, causou a morte e a invalidez física e mental de centenas de adultos e crianças. É um cínico, um sem-escrúpulos, cuja filosofia é arrotada em ditos como: “Atualmente, meu caro, ninguém pensa em termos de seres humanos. Os governos não pensam assim, por que deveríamos? Eles falam no povo e no proletariado, e eu falo em otários. É a mesma coisa”.

E ainda: “Ora, eu ainda acredito, meu caro. Em Deus, na misericórdia e tudo mais. Não estou machucando a alma de ninguém com minhas atividades. Os mortos são mais felizes mortos. Não estão perdendo grande coisa daqui, pobres coitados”. Isso sem falar na famosa frase do “relógio cuco suíço”, que deixo para vocês pesquisarem. A despeito dessas iniquidades, Harry Lime é ainda capaz de provocar, na sua “maldade atrativa”, a admiração de alguns.

Contrabando, falsificação e roubalheira de Penicilina, o antibiótico de então, que salvava vidas assim como hoje o fazem as vacinas da Covid-19. “Maldade atrativa”. Direto para o oitavo círculo do “Inferno”, de Dante (1265-1321). Parece coisa de filme, não?

Depois do sumiço de respiradores e de gente lucrando aos tubos com drogas ineficazes. Depois da “guerra” contra as vacinas, com mandatário esnobando e sabotando produtos cientificamente seguros e eficazes. Depois da aplicação de “vacinas de vento” por profissionais que deveriam zelar pela saúde da população. E, sobretudo, depois de negociações tenebrosas de outras vacinas, com denúncias de superfaturamento, propina, prevaricação e coisas mais, envolvendo gente de alto, médio e até baixo coturno, eu já nem sei mais.

Em terra ou casa onde os números prevalecem pode sempre haver um “terceiro homem”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 11/07/2021 - 12:10h

Só cagão? Não…

Bater na madeira três vezes, mão, braço, punho cerradoPor François Silvestre

Azarão também. Cagou para a CPI e azarou a Seleção (veja AQUI).

Onde Bolsonaro põe a torcida o azar hospeda-se junto.

Torceu pro Trump, Trump lascou-se.

Torceu na eleição da Bolívia, a esquerda venceu. Torceu pela candidata do Peru, ela perdeu.

Torceu na eleição da Argentina, a direita perdeu.

Torceu contra a Constituinte do Chile, perdeu.

Torceu pelo aliado de Israel, o cara lascou-se, depois de décadas no poder. 

Torceu e cantou vitória do adversário de Maduro, na Venezuela, o dito cujo sumiu.

Torce contra a China, a China caga merda líquida na cabeça dele.

Agora, trouxe a Copa América para o Brasil, num momento em que nenhum país quis sediar o evento, para fazer pose e usar a Seleção como arma de propaganda. Ferrou-se, e junto com ele levou a Seleção ao vexame de perder a Copa, em pleno Maracanã, para a Argentina. 

Esse sujeito é um manancial de azar…Toda vez que fale nele, bata três vezes textura da mesa.

François Silvestre é escritor

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domingo - 11/07/2021 - 11:18h

Tempos do Pax

Filme Tambores da Morte de 1954Por Inácio Augusto de Almeida 

Nesta tarde longa, sem fim, que se vai preguiçosamente, fecho o livro que torna suportável este confinamento necessário, necessário, mas sacrificante, extremamente sacrificante.

Busco no meu Whatsapp notícias. Notícias que parecem ser de ontem ou de um mês atrás.  Sempre a fuxicaria da politicalha e da corrupção. Sempre a mesmice dos políticos que esquecem as promessas e quebram as juras feitas nos palanques.

Busco fugir procurando no Whatsapp alguma coisa interessante para ver.

 E achei.

TAMBORES DA MORTE.

Um faroeste que vi no PAX nos anos 50.

Revendo o filme e na minha cabeça lembranças e saudades se misturando com tanta força que aos poucos fui deixando de lado o filme sem nem mesmo perceber que o revólver do mocinho atirava e as balas nunca acabavam. Nem as balas nem os índios que ele matava para que a gloriosa conquista do Oeste se tornasse realidade.

Naquela noite em que vi este filme no PAX chovia. Lembro-me que o filme terminou e ficamos dentro do cinema. As ruas alagadas. Era a Mossoró antiga.

Quando consegui chegar em casa, todo molhado e com os sapatos nas mãos já passava da meia noite. Mas em momento algum senti medo. E não existia nenhuma razão para ter medo. Era uma época em que se podia colocar cadeiras na calçada e ficar conversando até a noite findar e a madrugada, com sua brisa agradável, chegar.

Tiros e mortes só nos filmes do PAX.

Só percebi que TAMBORES DA MORTE tinha terminado porque o clássico beijo do mocinho na mocinha e a palavra END apareceu na tela do Whatsapp.

Fiquei a matutar acerca dos desafios que o avançar do tempo nos traz.

No filme a ocupação do Oeste americano exigiu a matança, verdadeiro genocídio de uma raça. Tudo em nome da criação de uma grande nação.

Hoje, em nome deste mesmo desenvolvimento, milhões são mortos, não só por tiros, mas, principalmente, por total falta de condições de sobreviverem a uma injustiça social que mata de uma forma mais cruel.

Os cara pálidas de hoje, menos de 10% da população, abocanham, por vias lícitas e ilícitas, toda a riqueza de um país tão rico que tem 90% do seu povo mergulhado na miséria e no atraso.

Com a miséria vem o desespero, cresce a criminalidade, agiganta-se a insegurança. A qualidade de vida decai e os que provocam toda a desgraça não perceberam ainda que estão se condenando a viverem em eterno confinamento.

Interessante é todas estas reflexões surgirem após ver um velho filme de bang-bang.

Mas que nesta tarde senti muitas saudades e lembranças dos filmes do Pax, senti.

Percebi que perdemos muito da ternura que havia em nossos corações.

Mais do que o tempo, mudamos nós.

Estamos condenados por um pragmatismo que nos tira toda sensibilidade.

Só me resta ver mais uma vez TAMBORES DA MORTE e me sentir dentro do PAX.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 11/07/2021 - 07:34h

Ao mesmo tempo

Por Marcelo Alves

Estes dias, num papo sobre a mistura entre literatura e cinema, um amigo fez a seguinte observação: “eu mesmo li livros depois de ver o filme. É outra experiência”. “Experiência”, essa é a palavra. E ela me fez lembrar da ventura que tive, até mais imersiva, de ler um livro e ver a sua adaptação em filme (quase) ao mesmo tempo.

Bom, e antes que alguém me chame de mentiroso, rogo atenção para o “quase” acima, uma vez que ainda estou para conhecer alguém que consiga ler um livro, pelo menos daqueles que “ficam de pé”, em duas horas de filme, ainda mais ao mesmo tempo.o-nome-da-rosa-ogA coisa é mais sutil e gira em torno de “O nome da rosa”, de 1980, romance de Umberto Eco (1932-2016). Basicamente, li o dito cujo quase ao mesmo tempo em que assisti a cenas do filme homônimo, de 1986, dirigido por Jean-Jacques Annaud e estrelado por Sean Connery, Christian Slater e F. Murray Abraham.

Essa experiência visual, que muito indico, me fez enxergar, de uma maneira especial, ao percorrer o livro, o cenário onde se passam os sete dias de “crimes e castigos” imaginados por Eco, sobretudo a antiquíssima abadia da Itália Medieval e sua labiríntica biblioteca. Com a mistura livro e filme, sensorialmente vivi na abadia e na sua biblioteca. E mais: dei rostos às personagens.

O protagonista Guilherme de Baskerville virou Sean Connery; Adso de Melk, Christian Slate; o abade, Michael Lonsdale. E o inquisidor da Igreja, Bernardo Gui (1261-1331), figura histórica, virou F. Murray Abraham, assim como outros nomes do Medievo, como Michele de Cesena (1270-1342) e Ubertino de Casale (1259-1329), ganharam os rostos dos atores que os interpretaram. Foi aqui uma aventura sensorial nas vidas religiosa e ideológica do século XIV, com suas heresias e ortodoxias, que, a partir dali, passam a ter nomes, rostos e vozes.

Mas essa mistura livro e filme, apreciados ao mesmo tempo, é sempre possível? É factível se ler uma parte do livro, parar um instante e assistir a cenas da sua adaptação em filme, como fiz com “O nome da rosa”. As imagens enriquecerão as palavras a serem lidas. Mas acredito que em “O nome da rosa” isso foi ampliado, para mim, pelo caráter semiótico (cheia de signos) da obra de Eco, por sua vez famoso semiólogo.

De toda sorte, a partir da observação de outro amigo, acho que a mistura livros, imagens e sons, quase ao mesmo tempo, é perfeitamente factível em se tratando das franquias do cinema, compostas por vários filmes. Que tal intercalar as leituras de “Harry Potter” ou do “Senhor dos Anéis” com os seus filmes? O espaçamento entre os lançamentos permitiu isso a muita gente. Ou as aventuras do meu amigo James Bond com as suas dezenas de filmes. Que me perdoe Ian Fleming (1908-1964), mas quando o leio, Bond é para mim Sean Connery ou Roger Moore.

E isso se dá com mais razão com as séries de TV ou mesmo as nossas novelas. Elas se espalham num certo tempo. E a gente pode misturar tudo. Se não assisti à novela “O Bem-Amado”, de 1973, eu me deliciei com o seriado homônimo, da década de 1980. Dias Gomes (1922-1999), a quem devemos peça e roteiro, pode ter certeza: Odorico Paraguaçu será para mim sempre Paulo Gracindo; Zeca Diabo, Lima Duarte; Emiliano Queiroz, Dirceu Borboleta.

Já Gabriela, a novela de 1975, que assisti anos depois em reapresentação da TV Globo, me levou a ler concomitantemente “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), de Jorge Amado (1912-2001). Para mim, Ilhéus e a cultura do cacau de Amado são, visualmente, o que eu vi nas telas da TV. Gabriela, seus coronéis e seus amantes, serão sempre Sônia Braga, Paulo Gracindo, Armando Bógus, José Wilker, Fúlvio Stefanini e outras estrelas da nossa melhor arte cênica.

Dito isso, encerro fazendo um convite. Vou ver a série “O nome da rosa”, de 2019, que é uma nova produção italiana, alemã e francesa. John Turturro faz o protagonista Guilherme de Baskerville. Soube que a série passa no Starzplay. Quem sabe se assistindo a um capítulo por dia dê tempo de eu reler “O nome da rosa”?

Topam viajar comigo?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 11/07/2021 - 04:10h

Natureza enfurecida

Por Marcos Ferreira

Há uns trinta minutos, quando fui estender a toalha no varal, avistei um lindo beija-flor adejando sobre o mato florido que reveste parte do meu muro. Detive-me, estático, para não afugentar o bichinho alado. Daí a pouco, após oscular algumas florzinhas, ele se foi lépido e fagueiro.

Até quando, reflito, teremos o privilégio de contemplar seres graciosos como esse colibri? Tantos outros viventes (animais quanto vegetais) já foram extintos ou se encontram ameaçados de extinção devido à nossa postura irresponsável neste não menos ameaçado planeta.curiosidades-sobre-o-beija-florSomos, gostemos ou não, a espécie predadora mais letal sobre a face da Terra. Predadora até de si mesma, ressalte-se. Penso nisso enquanto ouço, aqui sentado à escrivaninha, bebendo café, o passaredo trilando na mangueira do vizinho, por trás da minha casa. São exatamente sete e cinco. Raras vezes estou desperto a essa hora da madrugada, entorpecido por meus psicotrópicos. Mas hoje caí da cama. Melhor dizendo, da rede, pois os cupins devoraram minha cama há cerca de dois anos. Madeira molinha, um tipo de musse para aqueles insetos vorazes.

Elegendo prioridades, sempre estamos sujeitos às benditas prioridades, findei não comprando outra. Até porque aprecio dormir de rede, hábito que trago desde a primeira infância, à luz bruxuleante de uma lamparina de querosene que meus saudosos pais deixavam acesa na cozinha de nossa residência de taipa na Avenida Alberto Maranhão, 3521, no Bom Jardim.

Com a rede espichada na sala, onde está a televisão, assisto a filmes e séries. O cinema, como referi noutras ocasiões, é uma grande e antiga paixão, assim como a literatura (lógico!) e a música.

Neste momento executo no computador uma playlist com oito horas de blues. Ao fundo, no entanto, o gorjeio múltiplo dos pássaros é um show à parte. Ao longo de vários anos, devido ao seu enorme tamanho e ao temor de vizinhos contíguos, que receiam o desabamento da mangueira pela ação do vento durante fortes chuvas, a senhora Francisca, dona da casa onde se encontra a portentosa árvore, já foi muito pressionada para que a fruteira seja extraída. Até aqui, todavia, a mangueira continua de pé, apesar de ter passado por algumas podas significativas.

Somos propensos a soluções drásticas, radicais, não raro com prejuízo para a preservação da fauna e da flora. Simpatizamos com o machado e negligenciamos a semeadura. O tempo todo, em Mossoró não é diferente, o ferro e o concreto assumem o lugar de árvores. Até os pardais e os pombos, entre as aves talvez as mais urbanas, sofrem com a chapa quente que se tornou este município desarborizado.

A selva de pedra cresce com velocidade preocupante. Com isto, prezado leitor e gentil leitora, retomo o assunto que move esta narrativa: nossa índole predadora e inconsequente. É que desmatamos e ceifamos bem mais que o necessário.

OUSO AFIRMAR que a Natureza é perfeita. Nós, entretanto, seres supostamente humanos e racionais, somos desgraçadamente falhos, até desumanos em alguns instantes de nossa existência. A humanidade, pelas mãos de tiranos e genocidas como Adolf Hitler, Benito Mussolini, Gengis Khan e Messias Ignaro, possui uma ficha medonha. Cada vez mais acredito nisso. Vem-me a ideia de que somos (alerto que a palavra somos será empregada em vários pontos desta narrativa) a única obra defeituosa do Criador, uma invenção que, a meu ver, não deu muito certo.

O resto da criação do Todo-Poderoso, exceto por nossa interferência inconsequente, perniciosa, sempre viveu em equilíbrio e harmonia. Hoje, porém, de forma dramática, esse equilíbrio e harmonia estão seriamente ameaçados. Somos a única espécie de todo o globo que põe em risco o próprio habitat, devastando a fauna e a flora, concorrendo para a degradação da vida em larga escala, seja na terra, na água ou no ar, pois sequer o céu (leia-se camada de ozônio) escapa.

Isto significa, como na célebre frase do dramaturgo romano Titus Maccius Plautus, que viveu há cerca de duzentos anos antes de Cristo, que o homem é o lobo do homem. Ou seja, promovemos nossa autodestruição. A sentença metafórica de Plautus, contudo, tornou-se de fato conhecida após o filósofo inglês Thomas Hobbes incluí-la em seu livro Leviatã, publicado no ano de 1651. Eu era muito pequeno à época, portanto, e não quero agora me arriscar discorrendo sobre passagens históricas desse tipo, cheias de poeira e com forte cheiro de naftalina.

Fiquemos com este complicado e perigoso momento. Quem sabe limítrofe, iminente. Estamos cada dia mais próximos, conforme cientistas de todo o mundo nos têm alertado há décadas, de um apocalipse climático.

Dia após dia, senhoras e senhores, e isso não é coisa de hoje, a Terra vem nos dando inúmeros sinais de que estamos em maus lençóis, de que o nosso abominável e criminoso comportamento se encontra por um fio. Porque desrespeitamos a Natureza de forma gritante. Poluímos o ar, envenenamos rios e mares, agredimos povos indígenas, desvirtuamos suas tradições, devastamos florestas. É uma coisa monstruosa, insana, o que estamos fazendo contra nossa Amazônia.

Que o diga o senhor Ricardo Motosserra, ex-ministro do Desmantelo Ambiente e negociante de madeira contrabandeada para os Estados Unidos, escândalo este público e notório. Acredito que não ficaremos impunes por muito mais tempo. Não duvido, por exemplo, de que essa pandemia, tão rica de cepas e variantes, venha a ser um recadinho subliminar que a Natureza esteja nos enviando por meio de outros mamíferos, desta feita bichinhos alados do Oriente: morcegos.

Admitamos ou não, estamos colhendo aquilo que semeamos. Ou, em muitos casos, deixamos de semear, replantar, zelar, proteger. Pelo retrovisor da História, prezado leitor e gentil leitora, é fácil enxergarmos o gigantesco rasto de devastação que deixamos por onde passamos. Porque somos (proponho que leiam a palavra somos ao contrário) predadores de nós mesmos. Somos, sim! E qualquer dia, cedo ou tarde, teremos que pagar essa conta com juros e correções.

Num piscar de olhos, então, enfurecida, a Natureza poderá nos varrer da face da Terra. Como diz o ditado, quem viver verá.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 04/07/2021 - 08:38h

O portão

Por Marcos Ferreira

Sábado passado, o que significa dizer ontem, fui ao comércio de Mossoró em companhia de Jorge, esposo da minha cunhada Vanda, esta irmã de Natália Maia, que vem a ser a minha noiva. Pois bem. Centro cheio, barulhento. Era por volta das onze horas. Um sol e um calor infernais (permitam-me o lugar-comum e a hipérbole) maltratavam meu quengo e meus olhos fotossensíveis.

Quanto a isso, sendo ainda mais excessivo, posso lhes dizer que se trata do meu lado sombrio. Definitivamente, embora nascido e criado nesta nossa amada fornalha, não me dou bem com muita luz e calor. O meu histórico de enxaquecas é uma coisa danada. Sem óculos de sombra, minhas lentes de grau ampliavam meu desconforto. Então, feito um Drácula caboclo se escondendo por detrás da capa, evito o máximo possível me expor aos efeitos do poderoso astro-rei.conserto de portão— Comprar meias, senhor?! — ofereceu-me um camelô diante do Cine Pax, exibindo três pares do produto em cores diferentes.

Aos poucos, ano após ano, fui me tornando uma criatura de hábitos noturnos, ou crepusculares. Exatamente. Tenho predileção pelos finais de tarde e pelas noites. Amo, portanto, o céu todo nublado e os dias chuvosos. Se o escritor Dalton Trevisan é considerado o vampiro de Curitiba, rótulo que teve origem a partir de título homônimo que ele deu a um livro seu de contos, por que não posso me autoproclamar o vampiro de Mossoró? Creio que essa distinção me caia bem.

— Chips da Claro, da Oi, da Vivo e da Tim! — anunciava uma vendedora à porta de uma loja, a máscara presa abaixo do queixo.

Sujeito buliçoso, espécie de faz-tudo da família, Jorge tirou o sábado quase inteiro para efetuar o conserto do portão eletrônico da casa de Natália, convocando-me como seu auxiliar naquela complexa tarefa. Daí que Natália me acordou às oito da madrugada, justo quando o metalúrgico Nove-Dedos, mais uma vez, recebia a faixa presidencial, agora pelas mãos do senador Rodrigo Pacheco.

— Me dá um realzinho aí — estirou-me a mão o nosso carismático conterrâneo Paulo Doido, sobre a calçada do Parque Elétrico. Considero importante assinalar que Paulo, mostrando que possui algum juízo, usava uma máscara de tecido com estampa de uma conhecida loja de capinhas de celulares.

Lá estávamos eu e o Jorge Alves naquela difícil empreitada. Ao menos para mim. Antes de sairmos, Jorge havia retirado o portão dos trilhos, escorando-o na garagem. Precisava adquirir algumas peças no comércio e eu fui a reboque, sonolento, conduzindo a sacola com as coisas que deviam ser trocadas. Entramos no Parque Elétrico, todavia a barulheira da rua nos acompanhou. Logo abandonamos a loja. Após uma rápida consulta, ele não encontrou o que buscava.

— Olha a água mineral geladinha! — gritou bem do meu lado, e sem máscara, um rapaz magricelo sob a marquise de uma ótica.

Deu-me vontade de comprar uma garrafa d’água, no entanto me lembrei da advertência que Natália me fizera à porta do carro:

— Não invente de comprar nada, ouviu?!

— Tudo bem. Fique tranquila — prometi.

— Todo cuidado é pouco — acrescentou.

Pregão de vendedores ambulantes, carros de som, buzinas, ronco de motores, entrechoque com transeuntes apressados. Uma barafunda dos seiscentos! Jorge e eu continuamos o nosso périplo por outras casas do ramo. Com ele andando rápido e eu tão fora de forma, sofri um bocado para acompanhá-lo.

— Vamos a Queiroz & Filhos — disse ele.

Também não achamos ali o que queríamos: barra de cremalheira, roldanas de aço e de nylon, parafusos com porcas e arruelas. Não com as características e especificações de que ele necessitava. Continuamos a busca. Eu conduzia a sacola com as peças menores e Jorge carregava o pedaço de cremalheira. Tais objetos nos eram úteis como referências para os materiais a serem adquiridos.

— Olha a gelé de coco! — enchi a boca d’água, mas resisti à oferta daquela tentadora iguaria exposta num retângulo de zinco.

Os passos céleres de Jorge e o calor me colocavam em apuros. Estou com um sobrepeso de dez quilos. Um monte de pensamentos passava por minha cabeça. Transpirando e ofegante, pensei na simpática e sempre bem-humorada loucura de Paulo Doido, que do alto da sua insanidade oferta exemplo de cidadania a muitos que se dizem em posse de suas faculdades mentais. Um paradoxo!

A ordem de Natália não me saía da cabeça:

— Não invente de comprar nada, ouviu?!

Sol a pino. O mormaço do asfalto, o torpor, minhas pernas fraquejando, os encontrões com transeuntes, as calçadas irregulares e cheias de obstáculos de toda espécie, bancas de ambulantes que lutam pelo pão de cada dia, o pregão do sábado fervendo no Centro. Tudo isso quase que fundiu a minha cuca.

— Anda rápido, compadre! — cobrava-me Jorge; queria que eu o acompanhasse mais de perto. — Assim você vai ficar na poeira.

— Já estou com a língua de fora — admiti.

— Deixa de moleza! — disse cheio de gás.

Volto a pensar em Paulo Doido e concluo que ele está em melhor forma que eu, apesar da sua barriga protuberante. É difícil ir ao Centro e não topar com ele, sempre com passo ligeiro, estirando a mão a um e a outro aqui e acolá. Era figurinha fácil nas recepções dos veículos impressos desta urbe, quando tínhamos em circulação, sobretudo, a Gazeta do Oeste e o Jornal O Mossoroense.

Paulo possuía acesso aos impressores e estes o presenteavam com um exemplar dos periódicos. Isso ocorria na Gazeta do Oeste, no O Mossoroense e no Jornal de Fato. Ele recebia o impresso e saía todo contente com o objetivo de vendê-lo. Agora só lhe resta, supondo-se que ainda lhe ofertem um exemplar daquele diário, o De Fato, cuja tiragem hoje acontece em quantidade simbólica.

— Me dá um realzinho aí — pedira-me.

Após visitarmos três ou quatro estabelecimentos comerciais, Jorge enfim encontrou as peças de que necessitava para o conserto do portão. Retornamos à casa de Natália e ali, com os meus joelhos em petição de miséria, o serviço rendeu quase duas horas comigo auxiliando o meu padrinho e compadre.

— Me dá isso; me dá aquilo — ele dizia.

No meio da garagem, em total desordem, Jorge pusera o seu arsenal de mecânico polivalente: furadeira, brocas, chaves de vários tipos, pistola de arrebites, escada de alumínio, extensão elétrica, caixa de ferramentas.

O portão foi recolocado nos trilhos e roldanas inferiores e superiores. Jorge retirou a carenagem do motor e realizou alguns ajustes.

— Agora vai — comemorou antecipadamente.

Ele também regulou o sensor magnético. Fez uma dúzia de testes, abrindo e fechando o portão, até que deu a missão por cumprida:

— Pronto, compadre! Está novo de novo!

Só estranhei que sobraram algumas peças.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 04/07/2021 - 07:40h

As dores que o frio traz

Por Aluísio Barros

A madrugada de ontem, quarta (29 de junho), foi considerada a mais fria dos últimos cinco anos, com temperatura mínima de 6º C, em São Paulo. Sete moradores de rua morreram de frio.

Li a notícia assim, no calor daqui de casa, e lembrei e senti, por alguns instantes [toda memória de dor é uma vasta ferida que não se cura], os 6° graus que sacolejaram os nossos ossos [Fatima Oliveira e eu], naquela esquina da Av Brigadeiro Luís Antônio com a Alameda Jaú, enquanto, quase 6h da manhã, tentávamos um táxi para irmos assistir Camilo, em cirurgia no Hospital da Beneficência Portuguesa [Ivonete ficara em velas e récitas].morador de rua coberto em São Paulo - morte por frio na madrugada de 29 de junho foto Quando estive em São Paulo, em madrugadas assim, desejei tanto, pelas dores de dentro dos ossos que o frio traz, ser abraçado pelo calor de Mossoró. Ah, desejei. Passei a sonhar com isso. Seria o prêmio a ser recebido junto com a nossa vitória alcançada, a saúde de nosso filho. E assim foi. Macktub.

Camilo Barros diz que gosta do frio. Não curto. A cruviana das serras de Martins e Portalegre me bastam (papai, José de Abília, adorava essa tal Cruviana, que enfrentava com uma lapada de aguardente].

Vendo a foto do morador de rua, lembrei dos muitos que se avistam nas noites de Mossoró [Uma noite, nessa pandemia, inquieto, peguei o carro – virei personagem de Rubem Fonseca – e fui engolir o silêncio das noites, que outrora me foram festivas.

Só avistei os corpos estendidos nas portas e bancos. Uma cidade inteira vigiada pelos moradores de rua [Li até que uma médica dissera que era estranho vacinar essas pessoas com a vacina de dose única. Criatura de pouco estudo. Nem discuto, se é médica]. Pois digo. Gosto mesmo é desse amorno que passa com o ar elétrico.

E vamos que vamos.

Cadê a raquete do chinês, Tertinha?

Aluísio Barros é professor e poeta

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domingo - 04/07/2021 - 06:10h

De volta para a literatura

Por Marcelo Alves

Desde os seus albores, podemos dizer, o cinema faz uso da literatura. Romances, novelas, contos, histórias em quadrinhos e até poesia – obras de todos os gêneros literários já foram roteirizados para a grande e para a pequena tela. E hoje enormes bilheterias são alcançadas, um número cada vez maior de pessoas são fãs dos serviços de streaming, em virtude de adaptações, para imagem e som, de maravilhas (ou até de obras menores) da literatura.

Isso parece bom para o cinema e para a TV. Mas para a literatura? Essa mistura faz bem?

É claro que a arte/técnica da adaptação cinematográfica levanta um sem-número de questões. Não há receita pronta para se adaptar, por exemplo, um romance e, como registrado no livro “100 filmes: da literatura para o cinema” (BestSeller, 2014), organização de Henri Miterrand, “ao roteirizá-lo é necessário fazer escolhas difíceis”, como, por exemplo, “decidir se é melhor trair o espírito do livro ou o espírito do autor”. Traição é traição. E, havendo uma considerável deturpação da coisa, sendo a adaptação apenas mal feita ou mesmo sendo esta uma obra-prima, o livro é uma coisa e o filme ou a série serão outra.

Mas isso é grave ou mesmo necessariamente ruim? Acredito que não.

Penso que as adaptações de livros para o cinema ou para a TV não ofuscam ou prejudicam os seus originais. São duas artes diversas. Dois resultados artísticos que convivem lado a lado, sendo disso sabedor o leitor/espectador de hoje. Ajudam-se mutuamente. Acho até que essas adaptações beneficiam bastante a literatura como um todo.

Cinema e TV são meios de comunicação ou artes muito mais populares que a literatura. Os filmes divulgam os livros. E, invariavelmente, sendo sucesso o filme, o livro vai para as listas dos mais vendidos e lidos. Muitos dos nossos favoritos – livros, filmes e séries – são “frutos” dessa mistura.
cinema-e-literatura-lista-farofa-filosoficaPeguem o caso de “O Poderoso Chefão” (“The Godfather”), o livro, de 1969, escrito por Mario Puzo (1920-1999). Foi logo um sucesso, é verdade. Já no seu lançamento esteve nas listas de best-sellers de então. Mas a trilogia homônima de Francis Ford Coppola (1939-), filmes de 1972, 1974 e 1990, alcançou um sucesso sem precedentes. De crítica, público e dólares. Recebeu vinte e nove indicações ao Oscar. Arrebatou nove.

As partes I e II são consideradas obras-primas, estão entre os melhores filmes de todos os tempos. O sucesso dos filmes foi nada menos que estrondoso. E isso catapultou o livro e a carreira de Puzo, que, por sinal, trabalhou no roteiro dos filmes com Coppola. Vai-se hoje ao livro pelo enorme sucesso dos filmes.

Coisa parecida, embora ainda sem a mesma proporção, deu-se agora com a série “Lupin”, da Netflix, baseada na personagem Arsène Lupin, o “gentleman cambrioleur”, criada pelo escritor francês Maurice Leblanc (1864-1941). E aqui invoco logo o meu próprio caso. Assim que vi a propaganda da série no site oficial da Netflix, veio-me a recordação de que “Les Aventures d’Arsène Lupin”, numa publicação da Hachette – Français langue étrangère, foi um dos primeiros livros que li em francês, quando passei uma temporada em Paris, lá em 2006, como aluno da Alliance Française. Fui reler o meu livrinho.

Escrevi uma crônica sobre o “cavalheiro ladrão” (veja AQUI). E mais: já vi que este ano, aqui no Brasil, em decorrência do sucesso da série, foi lançada a “Coleção Arsene Lupin”, em doze livros, pela editora Principis. Já xeretei os ditos cujos na Amazon e folheei-os em uma livraria da cidade. Edição barata e boa. Se Maurice Leblanc e Arsène Lupin estavam esquecidos – e essa foi a impressão que tive com as respostas à minha crônica –, hoje não estão mais.

Na verdade, como apreendi de um texto publicado no site literário Goodreads por Adrienne Johnson, “Mystery Solved: Why Hollywood Is Obsessed with the Whodunit [leia-se ‘quem fez isso’]?”, as pessoas hoje estão muito mais atentas. Elas sabem os limites que o cinema e a TV têm. Tempo ali é material precioso. A tela em movimento não consegue mostrar tudo. Deve haver muito mais no livro. Ou deve haver algo diferente. Vamos comparar. Vamos ao livro.

Eu fui aos livros. E acho que tem muita gente indo. Viva a mistura!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/06/2021 - 08:30h

A vez da esquerda

Por Marcos Ferreira

Falou-me que completou quarenta e quatro em maio. Sete anos mais novo e uns quinze centímetros mais alto que eu, que possuo um metro e sessenta e sete. Também está em guerra com a balança, no entanto não se furtou a comentar o meu sobrepeso, ele mesmo exibindo uma barriguinha saliente.

Encontrei-o na última terça-feira numa clínica localizada no Centro, quando fui a mais uma consulta com o meu endocrinologista. Ele fazia exames de rotina, aproveitando, como de costume, as férias da empresa, oportunidade em que retornou a Mossoró para revisitar familiares e amigos em sua terra de nascimento. Eu, entretanto, não tinha notícias dele há bastante tempo. E, de imediato, como não poderia deixar de ser, apercebi-me da sua atual condição de amputado.Conversão à esquerda, pista de rolamento, estrada, sinalização horizontalEsforcei-me para não transparecer o meu choque e estarrecimento. Por cerca de duas décadas fora meu vizinho no Conjunto Santa Delmira, além de um dos mais assíduos e competitivos atletas de voleibol amador do bairro. Magro, com boa envergadura e impulsão, era difícil pegá-lo no bloqueio.

— Você não perguntou, mas eu vou lhe dizer — começou ele. — Foi um acidente de carro. No dia 3 de outubro de 2015.

Estando a clínica quase cheia, tivemos uma boa conversa de uns trinta minutos, o suficiente para que eu me inteirasse de alguns acontecimentos da vida de Inácio. Sim, Inácio Luís dos Santos, seu nome completo. Contou-me, por exemplo, que na noite do acidente foi assistido pela própria esposa, que é médica socorrista do Samu. Alcoolizado ao volante, após confraternização com colegas do sindicato, ele capotou o carro nas imediações do Aeroporto Tancredo Neves.

— Amigo, fiz besteira! — admitiu.

Fiquei perplexo, sem palavras. Porque escritor também fica sem palavras. Enquanto isso, sem máscara, pois ele argumentou ter contraído o vírus em março do ano passado, cumprindo quarentena totalmente assintomático, Inácio Luís falava pelos cotovelos. A seguir, alargando aquele sorrisão:

— O pior de tudo foi a tatuagem!

— Como assim? — espantei-me.

Ele, risonhamente, explicou-me:

— Havia dois meses eu mandara fazer uma tatuagem com os rostos dos meus filhos e da minha esposa nessa parte toda, do ombro até o antebraço. Custou-me mil e oitocentos reais, mas ficou uma coisa linda.

— Que pena, Inácio — murmurei.

A perda do membro, amputado na altura do ombro, não lhe impôs nenhuma depressão ou desgosto diante da vida. Queixou-se tão somente, com um resquício de abatimento, do ponto final que aquele desastre pusera em sua presença nas quadras de vôlei. Em instante algum observei uma nota de tristeza em sua voz. Pelo contrário. Agora com um único braço, o esquerdo, pôs a mão sobre meu ombro e pareceu a mim pretender confortar pela desventura que era dele.

— Tudo bem. Deus sabe o que faz.

E eu, sem nada melhor a lhe dizer:

— Isso é verdade, Inácio. Ele sabe.

Durante aquele nosso inesperado encontro e esclarecedora conversa (suponho que grande parte era acompanhada com o rabo do olho por uma senhora ruiva e rechonchuda ali próximo, cuja expressão me fez crer que estivesse incomodada pelo fato de que Inácio não usava máscara), falamos sobre vários assuntos: esporte, amigos, saúde, pandemia, família, política, trabalho, etc.

Ele deixou esta cidade, segundo contou, em 2003, indo de mala e cuia para São Mateus, no Espírito Santo, ao ser aprovado em concurso da Petrobras para a função de operador de campo. Ali deitou raízes, contraiu matrimônio, gerou dois filhos e seguiu praticando vôlei em solo espírito-santense.

Relatou umas limitações e desafios:

— Tudo mudou drasticamente. Tive que aprender e reaprender um monte de tarefas básicas. Dificuldade para realizar as coisas mais simples do nosso cotidiano, como escovar os dentes, fazer a barba, tirar ou vestir uma roupa, escrever meu nome. Desde então venho praticando minha assinatura com a esquerda, porém estou longe daquela caligrafia boa que eu tinha. Outra coisa difícil é limpar a bunda. Precisei eliminar o uso do papel. Agora só me asseio no jatinho d’água.

Como no vôlei, levantei a bola dele:

— Você sempre foi um vencedor.

— Ah, muito obrigado, meu amigo.

— Bom saber que ainda jogava vôlei.

— Sim! Eu nunca deixei o voleibol.

Estava diante de mim, de sorriso largo, com o seu corte de cabelo à Roberto Carlos, ora com uns fios prateados, o mesmo Inácio brincalhão dos tempos de esporte, dos jogos de dupla na quadra de areia na praça do Abolição IV e do bate-papo quando sentávamos no meio-fio diante da casa de Nilson Rebouças, justamente para comentarmos os momentos mais relevantes das partidas.

Daí a pouco me perguntou pela vacina.

— Você já tomou sua primeira dose?

— Já, sim — respondi num bate-pronto.

— Eu também, apesar de ter me curado.

— Se não lhe fizer bem, mal não fará.

— De graça, tomo até injeção na testa.

— Como ficou em relação à empresa?

— Estou em função administrativa. Não quero me aposentar logo. Sem as horas extras e feriados trabalhados, o salário despenca. Vou aguentar isso por mais um tempo. Especialmente agora que Olívia, minha esposa, está grávida. É o sétimo mês. Gravidez de gêmeos. Um casal. Barrigão desse tamanho.

— Poxa, meu amigo! Meus parabéns!

— Tenho me sacrificado até no sexo.

Soltou uma gargalhada e acrescentou:

— Agora, rapaz, é a vez da esquerda.

— Esquerda?! — reagi inocentemente.

— Pois é, a esquerda — e gesticulou. — Não tem outro jeito, não. Em certas horas, quando me encontro apertado e Olívia não se dispõe a me dar uma mãozinha, corro para o banheiro e resolvo a situação sozinho.

— Por favor, meu caro, me poupe dos detalhes sórdidos. Suponho, todavia, que não deve ser fácil. Não quero nem imaginar.

Olhei à volta com um sorriso amarelo. Supus que a senhora que nos espionava tivesse compreendido aquele gesto obsceno.

— É um negócio difícil — afirmou ele.

Nesse instante o número da ficha de Inácio surgiu no painel eletrônico e ele se despediu de mim apertando minha mão esquerda. Não trocamos contato telefônico e daí a pouco também fui chamado ao consultório.

— Agora, rapaz, é a vez da esquerda.

Essa pilhéria de Inácio Luís, de cunho onanístico, ainda martela na minha cabeça. Será, porventura, uma profecia para 2022?

Não faço a menor ideia. O que sei é que não tenho mais narinas nem estômago para a podridão que se instalou na Casa de Vidro. E não duvido de que outro amputado retome o governo deste Brasil desgovernado.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 27/06/2021 - 07:42h

Misteriosa obsessão

Por Marcelo Alves

“100 filmes: da literatura para o cinema” (BestSeller, 2014), organização de Henri Miterrand, é um livro que eu recomendo deveras. Literatura e cinema, sozinhas ou misturadas, são duas coisas boas da vida, vos asseguro.

Todavia, o livro, nos traz uma advertência que acredito crucial: “Desde a sua criação até os dias atuais, o cinema bebe da fonte da literatura. No entanto, o segredo que permite transpor o trabalho do papel para a película parece conhecido apenas por alguns dos grandes nomes da sétima arte: Kubrick, Visconti, Renoir, Bresson e poucos outros foram capazes de criar obras-primas baseadas em outras obras-primas enquanto nomes menores criaram cópias insossas”.literatura-no-cinema De fato, com honrosas exceções, é comum dizermos: “o livro é melhor que o filme”. E, dentre essas exceções, talvez a mais famosa seja a trilogia “O Poderoso Chefão” (“The Godfather”), iniciada em 1972 sob a direção de Francis Ford Coppola, baseada no livro de Mario Puzo.

E é aí que entra uma questão curiosa: o gênero da literatura a ser adaptada para o cinema. Este e a TV parecem ser muito mais exitosos quando adaptam/roteirizam a literatura de gênero, em especial as estórias de suspense/mistério, para as suas maravilhas de imagem e som.

Outro dia, aliás, li no site literário Goodreads um belo artigo sobre o tema, de autoria de Adrienne Johnson, intitulado “Mystery Solved: Why Hollywood Is Obsessed with the Whodunit [leia-se ‘quem fez isso’]?”. E tudo fez sentido.

De logo, não são só Hollywood e as plataformas de streaming (Netflix, Amazon Prime, Apple TV etc.) que estão obcecadas por mistérios. Nós também estamos. Não conseguimos parar de assisti-los, mesmo com mil coisas a fazer ou necessitando dormir. Tiro pelo meu caso com “Lupin”, série da Netflix baseada na obra do francês Maurice Leblanc. Acabei vendo episódio atrás do outro, madrugada adentro. Hollywood ou Netflix nos vende o que queremos comprar.

E esse nosso amor pelos livros, filmes e séries de mistério/suspense decorre de vários fatores, muitos dos quais inconscientes. Há a questão da qualidade intrínseca à boa literatura. Como anota Adrienne Johnson, se uma editora de renome colocou seu selo num livro, ela está dizendo: “isso tem certa qualidade”. Ela também sugere olharmos a história do cinema: a maioria dos filmes ganhadores do Oscar são, na verdade, baseados em livros. Ademais, se a coisa nos encantou, é comum pensarmos: “já li o livro; agora vou ver o filme”.

Os livros também costumam oferecer uma abordagem mais profunda e completa da estória se comparados aos filmes. São 300 páginas em vez de 90 minutos de imagem e som. Com a explosão dos serviços de streaming, pululando nas TVs, isso é uma mão na roda. Temos aqui flexibilidade em formatos e tempo de execução. Uma série poderá ter inúmeros episódios ou ser divididas em várias temporadas. O livro é um ótimo plano para a série seguir e se desenvolver.

Há ainda a questão do enredo forte, típico dos whodunit, dos thrillers e por aí vai. Quem fez isso? Por que fez? Como fez? Isso sem falar nas reviravoltas a cada instante ou episódio. Nos livros de mistério, os capítulos geralmente terminam em um momento de angústia. Perfeito para os cortes da grande tela e, sobretudo, para os capítulos na TV. Deixará você grudado ali se perguntando: O que houve? O que vai acontecer?

Ademais, os filmes/séries de mistério nos tornam mais do que espectadores da estória. Em meio ao suspense, quase participamos da trama. Sentimos medo, raiva e alegria. E há os dilemas éticos e morais. O que faríamos no lugar da personagem X? Vendo “Lupin”, minha mulher me perguntou se eu roubaria um violino para ela. Disse que não. Quase fui abandonado na hora. Isso tudo pode até ser escapismo. Não importa. Temos esse direito.

Por fim, hoje, há uma tendência nos filmes/séries de mistério de contar sua estória com um toque de humanismo, mesmo quanto ao seu anti-herói. Um grande sofrimento ou injustiça prévia explica/justifica o seu comportamento. Além disso, também abordam, mesmo que lateralmente, questões atualíssimas, tais como igualdade e justiça social, gênero, classe, raça e por aí vai.

Vejam o caso da já citada série “Lupin”.

Bom, de minha parte, mil vivas para essa misteriosa obsessão.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/06/2021 - 06:10h

Uma verdadeira história de amor

Por Marcos Araújo

Era o ano de 1953. Governava o Brasil o populista Getúlio Vargas. O país tinha 53 milhões de habitantes. Pela exigência do crescimento econômico e da tendência nacionalista do chamado Estado Novo, estradas eram abertas. Pessoas às centenas eram contratadas para trabalharem naquilo que popularmente chamavam de rodagens.

Aqui no Estado, o DER empreendia ligar Mossoró à Luis Gomes, numa estrada construída a braços humanos, sem qualquer aparato tecnológico ou mecânico. Foi por essa época que um magricelo acariense baixado há pouco tempo do Exército, com parentes fixados no Sítio Salva Vidas, listou-se entre os trabalhadores recrutados pelo Batalhão de Engenharia, a quem cabia a execução dessa obra. Acompanhado de três jegues, se aventurou nessa empreitada.Cropped shot of elderly couple holding hands outdoor at sunset. Focus on handsChapéu de palha, rosto curtido de sol, punha-se ele, com os seus companheiros de lida (os jumentos “brinquedo”, “bolinha” e “moreno”) a jogar barro e colocar água na pavimentação de uma pista que ligaria a cidade de Pau dos Ferros à José da Penha. Mal sabia ele que Deus, por desígnios da arquitetura celestial, empreendia ligar dois corações.

Não muito distante do local de trabalho daquele jovem, morava uma senhorita de sorriso largo, faceira, recém-chegada de uma temporada de estudos na cidade de Mossoró. Seu trabalho também era intenso, auxiliando o seu pai e sua mãe nas lidas do campo e do gado.

À noite e nos finais de semana, jovens de toda a região se dirigiam ao Terreiro de seu Augusto Holanda, Padrinho daquela moça, onde aconteciam animadas “valsas”. Em companhia de João de Peba e de Arimatéia, o jovem acariense  dava uma de seresteiro, querendo engalanar-se para as incautas moças ouvintes.

Foi por ali que se conheceram e às escondidas começaram um namoro. Ciosos de suas diferenças, apadrinharam-se de um rapaz paraplégico (Antídio Gurjão) para servir de mensageiro das juras e dos escritos de amor. Na cadeira de rodas do paraplégico, ou entre os seus dedos, eram deixados bilhetes um a outro destinados. Este arroubo juvenil durou por mais de um ano.

Numa certa noite, entenderam que não era possível mais sufocar o sentimento e, mesmo com a reprovação do pai dela, deveriam se unir. Foi preparada a fuga. Como a canção que ele tantas vezes entoara, numa noite de luar encantador, madrugada afora, rumaram ao desconhecido, mão na mão, e um destino incerto a depender apenas do amor e da paixão. No bolso do trabalhador fujão, apenas uns trocados. Nas coisas da moça, duas mudas de roupas.

Foi no Catolezinho, proximidades da cidade de José da Penha, que o casal foi encontrar guarida e abrigo amigo. Se impensado foi o gesto, retorno não mais haveria. Numa cerimônia simples, na tarde do dia 27 de abril de 1955, na Igreja de São João Batista, na cidade de Riacho de Santana, fizeram juras sacramentais de um amor recíproco.

Incompreendidos pela fuga e o casamento às escondidas, sofreram os augúrios de lutarem contra o rigor do pai da noiva, que rejeitava a união da filha a um homem desconhecido. Não arrefeceram… O amor era maior do que a intransigência de “Seu” Raimundo Rodrigues.

Ele, um boêmio e cantor nato, sábio e à frente do seu tempo, anuiu à vanguarda da esposa em independência no pensamento e liberdade de mando doméstico. Tiveram nove filhos, que por sua vez geraram perto de 40 netos. Os filhos foram educados entre sermões e cordadas no “lombo”, para quando a palavra não mais surtia efeito. Com os netos, foram lenientes. Sempre foram muito falantes e interativos dentro – e fora – de casa.

Já idosos e confinados, implicavam um com o outro até por distração. No jogo de cartas para passar o tempo, se acusavam reciprocamente de “roubar” no jogo.

Essa “aventura” de amor já se mantém há 67 anos. Não foi possível comemorar (e para eles, relembrar) a data pela primeira vez em todo esse tempo. Ela vinha padecendo de Alzheimer, em progresso lento, conservando reservada lucidez. Ele tinha muita saúde, até que sofreu um AVC vésperas da data-aniversário de casamento, comprometendo sua cognição, fala e atividade motora.

Agora, convivem e coexistem quase sem palavras. O mutismo de um, adoece ainda mais o outro. Ela queixa-se o tempo todo da doença que o torna indiferente. Ele, acompanha as reclamações com o seu olhar compreensivo de um eterno apaixonado.

A enfermidade não suprimiu a consciência da dependência sentimental. Ainda há brilho e luz na troca de olhares que só o amor proporciona.

Como filho, vivenciei algumas brigas entre eles, o que é perfeitamente natural. Como vivente nessa experiência humana, nunca testemunhei amor tão intenso quanto ao deles dois, meus pais, Ary e Clotilde, que protagonizaram (e ainda, relativamente, protagonizam!) uma verdadeira história de amor!

Marcos Araújo é professor e advogado

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 20/06/2021 - 13:00h

Chegar é doce, partir é bom

Bagunça, quarto desarrumado, estudante desorganizado, cartum, charge,Por Odemirton Filho 

Era o ano de 1989. Fui morar em Fortaleza, juntamente com minha irmã. Ela já cursava o curso de Nutrição na Universidade Estadual do Ceará. Eu, ao contrário, não gostava de me debruçar sobre os livros. De estudar, pra dizer a verdade.

Tínhamos um Chevette, no qual minha irmã ia à Faculdade. Eu pegava dois ônibus para chegar ao Colégio Integral, onde estudava. O Integral não tinha essa fama toda. A turma da escola gostava era de “botar boneco”, macho!

De vez em quando o supervisor da escola precisava ir a nossa sala para dar uns “batidos”, tamanha era a algazarra e o desinteresse. Uns ficavam sentados no fundão, sem prestar atenção na aula. Outros, conversando.

Aqueles mais danados enchiam o saco do professor. Um outro ou colega “tirava onda” com o meu sotaque. Mas, não se falava em bullying.

Ainda inventei de fazer parte de uma chapa para disputar o Grêmio Estudantil. Não deu certo. Os votos obtidos “não bateram no peito de uma peba”. Infelizmente, a minha carreira política acabou-se naquela eleição escolar.

Em 1989 houve a disputa à Presidência da República entre Collor e Lula. Lembro-me de ir a um colégio na periferia de Fortaleza para ver o meu candidato. Tinha sonhos e esperanças próprios da juventude. Sim, eu era Lula de morrer.

Aqui ou acolá íamos para o sítio de um querido primo, lá na praia do Icaraí. Uma ruma de gente. Bebedeira e churrasco até altas horas. Quando se bebe muito, fica-se rico, valente ou chorão.

O meu velho primo, depois de uns goles, gostava de cantar Porto Solidão e se emocionava. Ele cochichava no meu ouvido, em lágrimas, sobre os amores vividos. Era um “bon-vivant”. Confesso, sem nenhum pingo de vergonha, eu também ficava com os olhos marejados.

Nas quintas-feiras à noite, com minha irmã, meu cunhado e amigos, íamos ao Chico do Caranguejo, na praia do Futuro. Embora a grana fosse contada, como qualquer estudante, dava pra tomar uns porres legais. Chegávamos a subir no palco para cantar, pense numa resenha!

Vez ou outra, comecinho da noite, íamos tomar água de coco ou um sorvete na praia da virgem dos lábios de mel. Ficávamos por lá, passeando pelo calçadão e contemplando a beleza do mar e do pôr do sol. Minha irmã namorando, eu “segurando vela”.

Entretanto, apesar de estar em uma cidade grande repleta de beleza e atrações, quase todos os finais de semana eu vinha a Mossoró. Os amigos da farra estavam aqui. As raízes da infância e da adolescência insistiam em segurar os meus pés.

Graças a Deus, e as orações de minha mãe, consegui ser aprovado no final do ano. Somente tempos depois, após levar algumas pancadas da vida, tomei gosto pelos estudos.

Morei em Fortaleza apenas por um ano. Ao concluir o ano letivo voltei nas carreiras pra Mossoró e fui estudar no Colégio Abel Coelho. Nunca quis “morar fora”, como alguns amigos. Gosto é do chão quente da minha terra. Do abafado. Do centro da cidade “pegando fogo”. Do “moído” da política local. Do “Pingo da Mei Dia”. Já a minha querida irmã ainda reside por lá.

Como diria o velho cronista Rubem Braga: “chegar é doce, partir é bom; é uma excitação tranquila, a certeza de rever amigos, de abraçar criaturas queridas”.

Todavia, de vez em quando, bate saudade da bela capital alencarina, da turma do Colégio Integral, dos porres em Chico do Caranguejo, das farras no sítio da praia do Icaraí “e dos amigos que lá deixei”.

São saudades de um tempo bom.

Saudade de tomar umas, ouvindo o meu velho, querido e inesquecível primo cantar, emocionado, Porto Solidão. Certamente ele choraria, confidenciando-me as suas aventuras e desilusões amorosas.

E eu, caro leitor, eu ficaria com os olhos cheios d’água.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 20/06/2021 - 08:20h

Contraditório imaginado

Bleak_House_10 - Charles Dickens - A casa soturnaPor Marcelo Alves

Charles Dickens (1812-1870) é autor de vastíssima obra, sobretudo em forma de romances: “The Pickwick Papers”, “Oliver Twist”, “Nicholas Nickleby”, “The Old Curiosity Shop”, “Christmas Carol”, “David Copperfield”, “Bleak House”, “Hard Times”, “Little Dorrit”, “A tale of Two Cities” e “Great Expectations” são alguns dos seus títulos em inglês. Acredito que quase todos esses romances já foram traduzidos para o nosso português. Isso sem falar nas adaptações para o cinema e a TV. Dickens merece a fama que tem.

Dos romances de Dickens, o mais “jurídico” deles é sem dúvida “Bleak House”, de 1853 (embora serializado na imprensa, como de estilo à época, entre 1952 e 1953). Hoje é facilmente achado em edições baratas paperback. Eu mesmo possuo duas, uma da Penguin Books (de 2003) e outra da Wordsworth Editions (2001).

“A casa soturna”, esse é o título em português, também possui várias edições entre nós. Mesmo que não tão badalado quanto outros títulos de Dickens, “Bleak House” é considerado uma obra-prima.

Na verdade, embora a questão de gênero na literatura seja algo polêmico, segundo minha classificação da coisa, “Bleak House” é um “romance jurídico” na “precisão integral do termo”, como diria (e disse certa vez nos seus “Sertões”) o nosso Euclides da Cunha (1866-1909).

Tudo gira em torno de um bizarro caso de herança, denominado “Jarndyce and Jarndyce”, que é julgado nas extintas Chancery Courts, sob o sistema da Equity. O pano de fundo da trama é o moroso desenrolar do caso e a vida nas cortes de justiça de Chancery Lane. Inúmeros eventos afetam as personagens – Esther Summerson, a heroína, Dr. Woodcourt, Richard Carstone e Ada Clare, entre outras –, cujas vidas restam, em maior ou menor grau, determinadas pelo vai e vem de um arbitrário sistema judicial. E, absurdamente, ao cabo do processo, a herança acaba consumida pelas despesas com os advogados e as custas legais.

Imaginem os aspectos jurídicos que podem, interdisciplinarmente, ser analisados e estudados a partir desse romance de Dickens. Inúmeros, eu garanto. Mas eu hoje vou destacar apenas um deles, que me foi outro dia sugerido pela leitura de “An Introduction Guide to English Literature” (Longman York Press, 1985), de Martin Stephen: a existência de dois narradores no romance. E, portanto, a existência de mais de uma “história/estória/versão” dos acontecimentos.

Segundo consta do referido Guia, “há a narração em primeira pessoa por Esther Summerson, uma garota envolvida pelas consequências dos grandes eventos da trama, e um onisciente narrador, que dá detalhes de uma estória aparentemente diferente, mas que vai progressivamente se parecendo com a narrativa de Esther à medida que o romance avança”.

Para mim, o fato de o romance ter mais de um narrador vai além da mera opção literária. Afinal, em um processo não temos exatamente isso? Mais de uma versão do acontecido. As versões do autor, do réu, das testemunhas, condensadas/recriadas pelo supostamente onisciente juiz, depois avalizadas pelo tribunal e por aí vai. E, para os fins da filosofia e da teoria geral do direito e do processo, esse contraditório não é um dos pilares do devido processo legal?

Isso diz muito de Dickens. Ele tinha formação jurídica. Foi assistente na advocacia, foi um clerck (um tipo de escrivão na Inglaterra) e repórter judiciário. Dickens era preciso no direito. Seja por experiência na área, por labor de pesquisa ou por genialidade inata. Ou pela mistura disso tudo.

O fato é que acho que ele quis mesmo criar uma espécie de contraditório no seu “romance jurídico”. Com limites, claro, para não ter inconsistências intransponíveis no seu enredo/processo. O non liquet é indesejado tanto no direito como na literatura.

            Bom, alguém poderá dizer que eu estou viajando e que o escritor não pensou em nada disso. Pode até ser. Mas então ponham esta crônica inteiramente na conta/imaginação deste fã de Charles Dickens.           

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 20/06/2021 - 07:10h

Coisa de cinema

cinema, tela, telona, tela cinematográficaPor Marcos Ferreira

Minha cidade é o meu universo. Por mais que isto soe pretensioso ou soberbo, escrevo sobre a minha aldeia para ser universal. Contudo, como as senhoras e os senhores devem saber, esta receita não saiu da minha cuca. Muito menos se trata de coisa nova. Não. Isso é lá da cozinha, se assim posso dizer, de Leon Tolstói, monstro sagrado e monumento da literatura russa e planetária.

Embora por trás de nomes fictícios, inventando um topônimo, como se deu em diversos momentos, este município sempre foi e ainda é o meu lastro, a minha referência, meu parque cenográfico e social. Mossoró, guardadas as devidas proporções, é o meu Projac, minha Hollywood cabocla.

Nosso bangue-bangue, a propósito, é o mais duro e sangrento do velho oeste potiguar. Porque a terra de Santa Luzia, fato público e notório, é uma das mais violentas do mundo. Os ramos de casas funerárias e centros de velório seguem esbanjando saúde financeira.

Aqui temos bandidos para todos os gostos e papéis, tanto encapuzados quanto engravatados. Hoje em dia, se me faço entender, os piores e mais perigosos, sem um pingo de compaixão, são aqueles que não usam máscara. Os mocinhos estão em falta. Melhor dizendo, em desvantagem numérica.

Cidade valente é esta nossa. De povo libertário, heroico e blá-blá-blá. Tal lenda teve origem no distante 13 de junho de 1927, quando arrepiaram carreira daqui o temido Virgulino Ferreira (Lampião) e a sua tropa de facínoras, que sofreu uma baixa. Segundo historiadores (eu era pequenino à época; brincadeirinha!), capturaram o cangaceiro Jararaca, que sofrera um balaço. Também ouvi dizer que o bandido, inerme e às vascas da morte, foi justiçado na cadeia e enterrado, ainda vivo, no São Sebastião. Tempos depois, ironicamente, ele tornou-se santo milagreiro.

Daí para cá nunca mais se falou noutra coisa nesta aldeia com fumaças (pretensão) de capital brasileira da cultura. De lascar!

A fatuidade da resistência e a apoteose lampiônica, sob as quais ainda vivemos, e cujos holofotes pairam menos sobre os defensores que sobre os invasores, abafou outras expressões de arte. Tornaram-se invisíveis aos olhos dos nossos governantes, salvo exceções, algo como literatura, música, artesanato, pintura. Exceto se tais manifestações artísticas requentam o tema cangaço. Como ocorre, sem demérito algum, com o espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”.

Com uma população pouco acima das trezentas mil almas (possuía cerca de vinte mil quando do ataque de Virgulino), tenho com este meu berço esplêndido um vínculo de amor e desgosto. Isso, todavia, não me diminui nem empobrece. Acho até que me fortaleço com as experiências por que passei, desagradáveis quanto boas. Aqui nasceu e frutificou o meu sacerdócio com a literatura.

Devo a esta cidade toda a minha produção, seja no verso, seja na prosa. Devo-lhe os poucos livros publicados, os que mantenho na gaveta e outros que ainda hei de produzir, caso sobreviva a este vírus. Devo-lhe todas as personagens e enredos, todas as ambições, inspirações e as pequenas glórias.

Em se tratando de Mossoró, como naquela música da série “Carga Pesada”, da Rede Globo, digo que “eu conheço cada palmo desse chão”. Fora daqui, entretanto, a minha ignorância geográfica possui dimensões continentais. É por esse motivo que considero gravidez de risco gestar uma obra ambientada, por exemplo, em Paris. Ora! O mais próximo que cheguei disso foi no tempo em que tentei, sem êxito, uma vaga de auxiliar de padeiro na extinta Panificadora França, no Santo Antônio. Lá se vão trinta e seis anos, como diria o saudoso Emery Costa.

É prudente, enfim, que se escreva sobre aquilo que se conhece. Exceto no caso de vasta pesquisa. Enquanto ficcionista, o que me julgo ser, não posso produzir apenas fantasias, textos puramente imaginários. Triste do ficcionista que só consegue escrever ficção, capacidade esta que me parece cada vez menos acreditável. O talento imaginoso não pode prescindir da sua cota de verdade.

Até aqui, com um pé na fábula e outro na “vida como ela é”, afora três livros de poemas e um punhado de crônicas, engendrei dois romances parrudos, um volume de contos e mais um livro de poemas. Estes últimos são trabalhos inéditos e, ao menos por enquanto, não convém divulgar os títulos.

Já sei. O prezado leitor e a gentil leitora julgam a citação de tais obras desnecessária. Senão afetada, presumida. Não lhes tiro a razão. Isto me veio à cabeça, mas agora não vou passar uma borracha. Desculpem.

Sem mandato, sem cargo eletivo, pois nunca fui vereador ou prefeito desta aldeia, ainda menos governador deste estado, eu adoro Mossoró. Sim! E adoro de graça, sem palanque nem aplausos, sem benesses e outras vantagens histórica e culturalmente auferidas pelos homens e mulheres públicos desde os primórdios de nossa biografia lampiônica, cheia de fanfarrice e ufanismo.

Exato! Não pensem que ofertei somente odes e loas a meu torrão de nascimento. Houve ocasiões em que, decepcionado ou ferido por minha própria terra, escrevi umas coisas um tanto severas acerca de Mossoró.

Tenho o direito (autoridade) de dizer, escrever, o que vejo e sinto. Sou mossoroense da gema, aqui nascido aos 10 de abril de 1970 no demolido Hospital de Caridade, conforme registrei num soneto por ocasião do meu aniversário de quarenta e cinco anos. Com isto, senhoras e senhores, quero dizer que nem sempre esse gentílico me encheu de orgulho. Evidentemente que não. Quem conseguir colocar um pouco à parte o sentimento telúrico, ou bairrismo, há de me entender.

Eis o primeiro terceto do referido soneto:

“Vim ao mundo, portanto, aos 10 de abril

— Numa antiga e obscura sexta-feira

Que nem mesmo parece que existiu.”

Carecemos ser vistos além da pólvora e tiros de festim, dos foguetórios e da pirotecnia. Mossoró é coisa de cinema! Ficará muitíssimo bem na fita ao ser retratada pela sétima arte. O que não nos falta é riqueza humana, diversidade de enredos e personagens. O mundo precisa conhecer esta cidade.

Afinal de contas Mossoró é um país.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 13/06/2021 - 09:42h

A comédia jurídica

A divina comédia - ilustração, Dante AliguieriPor Marcelo Alves

O que falar de diferente sobre Dante Alighieri (1265-1321) e a sua “Divina Comédia”?

Sabemos que essa obra monumental – intitulada originalmente apenas de “Comédia”, mas rebatizada como “Divina” por Giovanni Boccaccio – é composta de uma introdução e de três partes principais, Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada uma dessas três partes é constituída por trinta e três cantos, de pouco mais de uma centena de versos decassílabos cada um, apresentados (metrados) em terceto (estrofes de três versos).

Na minha edição da “Divina Comédia” (Martin Claret, 2015) consta: “A Divina Comédia é uma das obras poéticas fundamentais da literatura mundial. Seu impacto sobre os contemporâneos de Dante foi enorme e quase imediato.

Já no século XIV criavam-se em toda a Itália cátedras especiais para interpretar seu conteúdo alegórico. A posteridade só confirmou sua grandeza. Dante começou a escrevê-la em 1308 e trabalhou nela até pouco antes de sua morte.

Nela, o trágico não constitui elemento essencial, e a língua e o estilo empregados são simples e naturais. Acompanhado por Virgílio, o poeta percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso”. E Dante, claro, vai ao encontro da amada Beatriz.

Dante é considerado, em razão da “Comédia” e de seus outros textos, como o fundador da língua italiana. E acho que, noves fora a Bíblia e Shakespeare, nenhum outro autor ou obra é tão badalado e dissecado quanto Dante e a sua “Comédia”. Não só nas letras. Também na arte pictórica, desde os tempos de Sandro Botticelli, passando por Gustave Doré, William Blake e Salvador Dalí, e chegando ao americano Sandow Birk. E virou assim a nossa visão – falo aqui de imagem mesmo – do mundo, dos céus ao inferno e vice-versa.

A Comédia, divina, é tudo!

De toda sorte, misturando Dante e a sua “Comédia” com a ciência política e o direito (a minha praia, acho), acredito que posso fazer duas pequenas observações sobre os ditos-cujos.

De logo, posso registrar que Dante foi autor de obras políticas, além de político ele próprio, no poder ou exilado de sua Florença. No dossier “EntreClássicos 1 – Dante Alighieri”, da Revista EntreLivros, que estou agora lendo, consta:

“Dante é raramente associado ao desenvolvimento da filosofia política e, no entanto, a política fez parte de sua vida desde a juventude, o que se refletiu no tratamento original que deu a temas importantes para a sua época. Se muitos observam a presença de figuras da cena pública italiana em suas obras poéticas, a maioria dos leitores acaba por deixar de lado o significado filosófico do fato para investigar o aspecto biográfico da relação entre o poeta, seus amigos e seus desafetos citados na Divina Comédia e em outros escritos. O fato de que o poeta teve de se exilar de sua terra natal em 1302 parece ser o acontecimento decisivo e fornecer a explicação para seu interesse pelos acontecimentos históricos, que foram marcantes para sua existência. Um estudo de alguns de seus textos mostra que a relação de Dante com a política foi muito mais intensa e criativa”.

“Convívio”, texto redigido entre 1303 e 1305, mas inacabado, seria um enorme tratado sobre filosofia, especialmente ética e retórica, direcionado aos governantes e aos homens públicos. Já em “Monarquia” (1311-1313), Dante, a partir de Aristóteles, Tito Lívio, Tomás de Aquino e Siger de Brabante, defende essa (a Monarquia) como forma universal e até divina de governo.

Doutra banda, como o fazem André Karam Trindade e Roberta Magalhães Gubert, no texto “Direito e literatura: aproximações e perspectivas para se repensar o direito”, constante do livro “Direito & literatura: reflexões teóricas” (Livraria do Advogado Editora, 2008), podemos relacionar Dante ao direito penal, em especial quando ele trabalha, no Inferno, com os critérios de “classificação dos crimes e punições que lhes são correspondentes”.

Dante foi ali severo, é verdade. Afinal, na porta do Inferno, “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Mas as penas horrendas de Dante são a visão do mundo de então (e da região italiana, em especial), devendo ser assim interpretadas. E isso só começa a mudar seriamente com o iluminismo de Cesare Beccaria e seu “Dos delitos e das penas”, de 1764. Mas esta, claro, é outra obra.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 13/06/2021 - 08:48h

O amigo Marco Maciel

Ney Lopes, Marco Maciel e o menino Ney Júnior (Foto: arquivo pessoal)

Ney Lopes, Marco Maciel e o menino Ney Júnior (Foto: arquivo pessoal)

Por Ney Lopes

O velho companheiro de jornalismo Anchieta Hélcias me enviou mensagem ao amanhecer deste sábado, 12, “acaba de falecer na madrugada o seu amigo Marco Maciel”. Tomei-me de profundo sentimento de dor.

Conheci Marco, desde quando ele foi da União dos Estudantes de Pernambuco.

Na mesma época (1964), fui candidato a presidência do Diretório Amaro Cavalcanti, na Faculdade de Direito de Natal.

Com chances de vitória, renunciei a disputa, em protesto pela deflagração da Revolução de 64, que aplicou medidas repressivas contra o meu então concorrente, Nei Leandro de Castro.

Marco foi um dos que me aconselharam a renunciar.

Em 1966, após ganhar um prêmio Esso de reportagem, com texto publicado em jornal potiguar (“A cidade de Natal por dentro“), resolvi atender o convite do jornalista Calazans Fernandes para trabalhar na elaboração de cadernos especiais sobre o Nordeste, elaborados pela “Folha”, na sucursal de Pernambuco.

Simultaneamente, frequentei a tradicional Faculdade de Direito do Recife.

Além da Folha integrei o quadro de repórteres do Jornal do Comércio, Diário de Pernambuco, sucursais do JB, revistas “O Cruzeiro” e Manchete, todos em Recife.

Convivi com os jornalistas Joezil Barros, Gaudêncio Torquato, Anchieta Helcias, Camelo, Clodomir Leite (fotografo laureado pela VEJA), Egídio Serpa, Teixeirinha, Esmaragdo Marroquim e Alexandrino Rocha.

No jornal Jornal do Commércio, o meu chefe de redação era Zezito Maciel, irmão de Marco, nessa época Secretário do Trabalho e Ação Social do governador Paulo Guerra.

Certa vez, Zezito pautou para que identificasse a residência de uma filha de Tobias Barreto, pernambucano, jurista, filosofo, membro da Academia Brasileira de Letras.

Ela vivia em extrema miséria, na periferia do Recife.

Como repórter, cumpri a missão.

Por conta dessa reportagem, dona Calíope, a filha de Tobias Barreto, ganhou uma casa, doada pelo governo de Pernambuco, por interferência de Marco Maciel.

Posteriormente, o texto da reportagem foi publicado pela Academia Pernambucana de Letras, por sugestão do acadêmico Marcos Vinicios Vilaça.

Honrou-me essa distinção.

Em 1975, elegi-me deputado federal pelo RN.

Em Brasília, por acaso, o meu vizinho de apartamento foi o deputado Marco Maciel.

A feliz coincidência fez com que aumentasse a minha admiração pelo longilíneo pernambucano, conhecido como “mapa do Chile”, por parecer fisicamente com os traços geográficos do país de Pablo Neruda.

Na longa convivência, nunca vi ninguém tão bem-intencionado, cristão, seguidor fiel da doutrina social da Igreja, vida limpa e honradez, desde a relação familiar, até as condutas públicas.

Representava na política, o Mestre da ponderação e da prudência.

A sua frase emblemática aconselha: “quem tem tempo não tem pressa. Nós temos tempo para discutir, é muito cedo para tratar do assunto”.

Quando da fundação do PFL, ingressei no partido levado por Marco Maciel.

Ele me indicou membro do primeiro diretório nacional.

Depois, desempenhei várias missões partidárias, em relatorias de temas como salário mínimo no país, medicamentos, quebra do monopólio do petróleo, contratos de risco, remédios genéricos, legalização de patentes, sigilo bancário, empresa nacional, reajuste da tabela do IR, previdência social e outros, além de vice-liderança (com períodos de exercício), presidente de várias Comissões, inclusive Constituição e Justiça e as Mistas, que aprovaram o Plano Real no Brasil e mudanças no MERCOSUL.

Presidi, o então Instituto Tancredo Neves, indicado por Marco Maciel e o senador Jorge Bornhausen, órgão superior de estudos políticos do PFL.

Representei o partido na presidência do Parlamento Latino Americano (PARLATINO), entidade internacional parlamentar, institucionalizada por tratados, em todos os países da América Latina e Caribe, hoje com sede no Panamá.

Em todas essas missões, nunca deixei de ouvir, aconselhar-me com Marco Maciel e sempre recebi o seu apoio leal.

No seu livro de memórias, FHC confessou que teve em Marco o vice dos sonhos, não criava problema e resolvia tudo o que era para ser resolvido.

Isso aconteceu num país, em que as brigas entre titulares e substitutos começaram na primeira eleição, após a Proclamação da República, na medição de forças entre Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Marco Maciel foi vice por dois mandatos seguidos.

Se somados os dias, em que governou o país no período de FHC, ficou mais de um ano na Presidência

Preferia trabalhar em seu gabinete, no subsolo do Palácio do Planalto.

Era uma forma de demonstrar que não queria fazer sombra ao chefe do Executivo.

Foi feliz o advogado e jornalista José Ângelo Castelo Branco, ao escrever a sua biografia e intitular o livro de “Marco Maciel — Um Artífice do Entendimento”.

Adversários acusam-no de ter servido a ditadura.

Porém não há evidencias de que tenha assumido comportamentos arbitrários, ou que tenha se locupletado.

Mesmo na ditadura, nunca deixou de ser democrata.

No governo de Pernambuco foi magnânimo e conviveu respeitosamente com todas correntes.

Jamais se envolveu em escândalo, ou menção duvidosa​

Com extrema habilidade política e paciência montou com Aureliano Chaves (MG) a ruptura com a ditadura “sem nenhuma crise institucional”. Ao analisar a crise brasileira, antes de ser atingido pelo Alzheimer, repetia sempre que: “não há crise econômica. Há crise política e as soluções somente virão, após a aprovação da “reforma política, eleitoral e partidária”.

Discreto, repetia a necessidade do político prevenir-se contra os invejosos e os autoficientes. Maciel tinha amizade com todos os grupos.

Nunca conspirou contra as esquerdas. Tornou-se amigo pessoal de Oscar Niemeyer, comunista confesso e usava a veia do conciliador.

Quanto ao seu conterrâneo ex-presidente Lula, o comportamento de Marco Maciel com ele foi de respeito e não agressão.

A recíproca não foi verdadeira.

Em um comício no Recife, ao lado da candidata petista à Presidência da República, Dilma Rousseff, Lula foi grosseiro com Marco Maciel, sem nenhuma razão.

Classificou o parlamentar pernambucano de “senador desde o tempo do imperador”. Complementou dizendo: “Desde pequeno ouço um cidadão aí que já foi deputado, presidente, da Câmara, vice-presidente e nada fez por Pernambuco, nem pelo país”.

A agressividade de Lula ainda hoje incomoda e é relembrada pelos amigos e correligionários de Marco Maciel, que nada respondeu

Sem dúvida, irreparável a perda do Brasil com a morte de Marco Maciel.

Será exemplo de dignidade e ética política.

Formou-se nas lutas políticas universitárias, que infelizmente o decreto da ditadura nº 62.024/67 reprimiu durante anos, através da “Comissão do General Meira Matos”.

Se tal não tivesse ocorrido, certamente o país não enfrentaria o deserto de lideranças de hoje e muitos estariam preenchendo a lacuna da falta de um conciliador, no estilo Marco Maciel, na atual política nacional.

Por ironia do destino, quem dedicou a vida pública ao diálogo, aberto e conciliador, morreu enclausurado na sua própria mente, prolongando o seu silêncio

Deus o receba na Eternidade, com as honras merecidas!

Ney Lopes é jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN e advogado

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Categoria(s): Artigo
domingo - 13/06/2021 - 08:00h

Meu ópio negro

Café na xícaraPor Marcos Ferreira

Ela poderia, em se tratando de outro indivíduo, ter ofertado um litro de uísque escocês, por exemplo. Quem sabe uma garrafa de vinho espanhol. Ou, no caso de um tabagista esnobe, ostentoso, uma caixa de charutos cubanos. Chique, não é?! Pois há pessoas, inclusive entre aquelas que compõem a fauna dos literatos, que apreciam artigos ou mimos dessa natureza e origem.

Eu, porém, sem finesse, fidalguia nem pedigree, não tolero nenhuma das opções referidas. Daí que me senti deveras feliz na manhã de ontem ao ser presenteado com um simples pacote de café. Sim. Um pacote desses de duzentos e cinquenta gramas, de cuja linha e fabricante não farei propaganda.

Estamos passando aí. Tenho um presentinho para você — disse-me, por telefone, a leitora e amiga Natália Amorim, esposa do também leitor e amigo José Arimatéia. Pouco após, em companhia dos pequenos Daniel e Joaquim, o casal parou o carro diante da minha casa, todos usando máscara. Natália desceu e me entregou a sacola por cima do meu muro, que tem frente baixa.

— Obrigado — falei sem examinar a sacola. — É muita gentileza de vocês, contudo eu não imagino qual seja o motivo desse presente. Hoje não é meu aniversário, dia da poesia, do escritor nem nada parecido.

— Não carece data especial para presentearmos alguém — contestou ela. — Depois me diga se gostou. Tomara que sim.

— Claro! Eu farei isso em breve.

Então, de bom grado e acertando na mosca, foi um pacote de café que minha leitora Natália Amorim (sentiram o orgulho quando digo “minha leitora”?) me trouxe na manhã de ontem. Tratei de levar a preciosa rubiácea à cafeteira. O inconfundível aroma ocupou a casa toda, decerto alcançando as narinas dos vizinhos mais próximos, como acontece comigo quando eles fazem café.

Permitam-me agora uma rápida digressão. Pois bem. Quem me conhece sabe do meu horror, da minha absoluta repulsa a álcool e a fumo. Tenho as minhas razões, acreditem. Um tanto análogo ao álcool, brinco ao dizer que a bebida mais forte que eu já ingeri foi Biotônico Fontoura. Aquilo descia queimando. Ao menos para o meu paladar de “menino mole”, dizia a minha mãe.

Tomei outras panaceias dessa classe e época, como o Leite de Magnésia Phillips e a intragável Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau), todos nas suas apresentações e sabores tradicionais. No caso específico do Biotônico, para fazer uma piadinha com o álcool, eu chegava a ficar puxando fogo.

Naqueles tempos bicudos de minha infância, enquanto o general João Batista Figueiredo só sabia mandar o povo apertar o cinto, volta e meia os meus pais recorriam a esses polivitamínicos, no mais das vezes sem receita médica. Esta, entre outras manobras, era uma estratégia intuitiva para mitigar a desnutrição, que campeava feroz em meio ao crepúsculo dos anos de chumbo.

Gostávamos mesmo era do Poliplex, com sabor e consistência semelhantes ao mel. Mas este não era nada indicado para mim e meus dez irmãos, posto que se tratava, também, de um estimulante do apetite. E apetite, senhoras e senhores, tínhamos de sobra. Ou, como se diz, para dar e vender.

Encerremos esta digressão medicamentosa. Voltemos ao assunto do café: meu ópio negro. Quero registrar que esta não foi a primeira vez que uma leitora me brindou com esse tipo de presentinho saboroso. Não faz muito a fisioterapeuta Luzia Praxedes, pelas mãos do esposo e escritor Clauder Arcanjo, também me enviou essa bebida apreciada por onze entre cada dez brasileiros.

Desculpem mais esta gracinha. Estou bem-humorado, como devem ter percebido. Nos últimos dias, entretanto, tenho me visto às voltas com uma saudade recorrente dos amigos, das boas conversas em torno de uma mesa, regadas a café e a taças de água mineral com gás. Exato, prefiro com gás.

Vem-me à lembrança, a propósito, a saudosa Livraria Café & Cultura, que funcionou ao lado do Teatro Municipal. Era o nosso ponto de encontro. Ali brotaram e cresceram amizades que nutro até hoje.

Penso nesses amigos enquanto escrevo e saboreio uma caneca de café escoteiro, forte e amargo. Por onde andarão meus colegas de ópio negro, como Leandro Tomé, Cid Augusto, Elias Epaminondas, Jessé de Andrade Alexandria, Gustavo Luz, Francisco Nolasco, Túlio Ratto, Antônio Alvino, André Luís? A pandemia, entre outros desfalques, prejudicou esse grêmio da cafeína.

Quando daquelas visitas, antes do coronavírus, eu disponibilizava um potinho de demerara. Só não tenho aqui, para quem possua glicemia elevada, adoçantes dietéticos, cujo travo final me lembra a dipirona e acaba interferindo no sabor do café. Melhor (na minha opinião) tomar totalmente amargo.

— Assim não dá! — dizem alguns.

Isto é uma questão menos de gosto que de hábito. Mas tudo bem. Com açúcar, adoçante dietético ou de todo amargo, o café nos une de alguma forma. Talvez quem se depare com esta crônica cafeinada, embora se tratando de leitores que não conheço pessoalmente, sinta o desejo de qualquer dia sentarmos para uma conversa descontraída, à volta de uma mesa com xícaras e taças.

O que acha, Carlos Santos? Refiro-me àqueles leitores que conheço apenas por nome: Rocha Neto, Fransueldo Vieira de Araújo, Naide Rosado, João Bezerra de Castro, Raniele Alves Costa. Outros ignoro o segundo ou o primeiro nome, a exemplo desses três: Magno, Fernando e Amorim.

Toda vez que me ponho a escrever, conforme participei a Odemirton Filho domingo passado, penso nos meus leitores. Penso no dever e desafio de fazer valer a pena o tempo que me dedicam. Eis um privilégio: contar com leitores, por menor que seja o número. Os meus, se não são tantos, ao menos são preciosos. Porque a qualidade me interessa ainda mais que a quantidade.

Observo o quanto estamos em sintonia nos depoimentos que me endereçam. Ao escrever, portanto, assumo um compromisso especial com leitores e leitoras não menos especiais. Tenho a agradável sensação de que os recompenso. Assim como me sinto recompensado e honrando por suas leituras.

Pecando pelo excesso, cito mais estes nomes: Aluísio Barros, Cristiane dos Reis, Leontino Filho, Rozilene Costa, Rogério Dias, Vanda Jacinto, Francisco Amaral Campina, Simone Martins, Valdemar Siqueira, Rizeuda da Silva, Marcos Aurélio de Aquino, Natália Maia, Airton Cilon, Luíza Maria, Gualter Alencar, Zilene Marques, David Leite, Fábio Augusto e Misherlany Gouthier.

Chega de citações! Não descambemos para o colunismo literário, ou algo pior. São oito e cinco da manhã e o aroma do meu ópio negro trescala pela casa. Então ergo a caneca e lhes saúdo com o gesto característico.

Um brinde a todos com café. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 06/06/2021 - 13:08h

Éramos felizes!

praia, litoral, areia da praia, beira-marPor Odemirton Filho 

Acordávamos pertinho das cinco horas da manhã, os raios de sol começavam a lumiar o dia. Eu levantava-me com uma preguiça danada, mas não podia perder a “aventura”. Os meus primos mais velhos iam pegar passarinhos em Tibau. Menino inventa qualquer motivo para sair de casa e ficar brincando pelas ruas, nas casas dos familiares e vizinhos.

Chegando ao local escolhido, meus primos armavam o alçapão. Ficávamos à espreita. Aqui ou acolá conseguíamos pegar um cabeça-vermelha, um Golinha, um Azulão ou, o pássaro mais cobiçado, uma Graúna. Às vezes não conseguíamos. Uma tristeza. Não tínhamos medo da Polícia. No outro dia estávamos lá, de novo, cometendo mais um crime ambiental. Éramos crianças. Não existia o Estatuto da Criança e do adolescente, nem pensávamos nisso.

Outras vezes, ainda no arrebol, íamos à praia. Cavávamos um buraco na areia e colocávamos os caranguejos para brigar. Depois, tomávamos banho de mar. A água gelada doía nos couros. Também gostávamos de ir pescar lá na pedra do chapéu ou apanhar búzios. Ficávamos “tostando no sol” boa parte da manhã, grudentos de sal e areia. Jogávamos bola, muita bola. De vez em quando um menino pisava no ferrão de um bagre. Era uma dor dos diabos.

Houve uma época na qual a moda dos meninos era andar de jumento na cidade pra lá e pra cá. Como não tinha habilidade para “laçar” algum jumento na rua, meu pai comprou um para mim. Eu andava puxando o bichinho, como se fosse um cachorro. Minha alegria durou pouco, pois o arisco do jumento fugiu. Contentei-me, então, em brincar com os cachorros da casa.

À tardinha íamos ao morro do labirinto, brincar de esconde-esconde e jogar pedras de areia uns nos outros. Pense numa brincadeira sadia? Um bocado de primos, sujos e suados. Ficávamos por lá até a boquinha da noite e depois íamos à “casa do morro”, como chamávamos a casa dos nossos avós. Comíamos pão, molhando na sopa. Quanta saudade de vó Placinda e Vô Vivaldo.

Quando em vez íamos ver as jangadas, com suas velas brancas, retornando do alto-mar. Achava bacana a jangada deslizando lentamente sobre as águas, até bater na areia da praia. Na maioria das vezes trazia uma ruma de peixes, fresquinhos. Algumas pessoas compravam, ali mesmo, os peixes de seu agrado. Também ali, na beira do mar, conheci o velho pescador Tidó.

Às vezes, depois de lavarmos o alpendre lá de casa, ficávamos deitados no chão frio, conversando “conversas de criança”, e comendo a polpa dos cocos tirados do nosso quintal. Esperávamos o bolo de leite ou fofo sair do forno, quentinho, quentinho. Era a paga pelo nosso trabalho. E, claro, aguardávamos o menino passar na rua vendendo grude. Sempre havia um café fumegante, preparado por nossa querida Socorro. Eu tomava era leite Alimba com achocolatado.

Gostava de ir comprar umas revistas em quadrinhos num prédio localizado na rua principal, próximo ao restaurante Brisa. Às vezes ia fazer uma ligação no Posto da Telern para o meu pai em Mossoró, a fim de que trouxesse alguma coisa que minha mãe pedia. Há alguns anos as ruas de Tibau não eram calçadas. Andávamos com os pés descalços. Uma camisa e um calção “surrados” estavam de bom tamanho. Conhecíamos cada rua, cada viela, cada beco da cidade.

À noite, no alpendre, deitávamos nas redes. Os mais velhos gostavam de contar histórias mal-assombradas. Quase sempre faltava energia, eu me agarrava com um lençol velho, cheirando a guardado. As mãos ficavam geladas e os olhos arregalados. Assistir à televisão era peleja medonha. Colocávamos um pedaço de Bombril na antena para melhorar a imagem, pois o sinal de transmissão não era lá essas coisas. Não, não existia antena parabólica, gentil leitora.

Eu ficava ansioso pelo final de semana para que o meu pai nos levasse à praia, para passear no seu Jipe azul. Sentíamos o cheiro da maresia e a brisa batendo no rosto. Quando tinha alguma bebedeira no alpendre da minha casa ouvia o meu pai cantar “O Calhambeque”, de Roberto Carlos, acompanhado pelo violão do meu saudoso tio Albeci, da Banda Bárbaros. Ainda hoje, graças a Deus, tenho o privilégio de, aqui ou ali, ouvir o meu velho pai soltar a voz, cantando a sua música preferida.

Eu vejo-me, caro leitor, pela praia, açodado, com dinheiro na mão para comprar um picolé, mergulhando no mar, fazendo um castelo de areia ou deitado em uma pocinha d’água. Ainda tenho, como lembrança daquele tempo, uma cicatriz no pé, fruto de um corte, quando brincava na areia “pegando fogo”. Nem ligava. O importante era brincar, brincar, brincar…

Enfim.

Foram doces momentos. Momentos de uma família como qualquer outra, com virtudes e defeitos. Eram as “curtições” das nossas férias. Crianças que brincavam, aprontavam, levavam umas chineladas, choravam e sorriam. São retalhos de um tempo recheado de saudades.

Ah, como éramos felizes. E não sabíamos.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

P.S. – Perdemos Paulo Menezes (veja AQUI e AQUI) e as suas belas crônicas, simples e verdadeiras. Infelizmente, não deu tempo tomarmos um café e prosear. As abelhas, certamente, levaram a sua alma para o céu. Enquanto Deus nos permitir, Paulo, continuaremos por aqui escrevendo crônicas, que são frutos d’alma.

O nosso time ficou desfalcado. Perdemos um excelente esgrimista das palavras. “O Nosso Blog” sentirá a sua falta. Muita.

Como sei de sua paixão por Tibau, Paulo, a crônica de hoje é em sua homenagem. Deus o acolha. Eternamente.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 06/06/2021 - 10:26h

Sempre mascarado

Por Marcelo Alves

O poetinha Vinícius de Moraes (1913-1980) certa vez disse: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Acho que nunca houve tanto desencontro na vida como tem havido durante esta pandemia.

Desencontro com a verdade em forma de fake news. Desencontro negacionista com a ciência. Desencontro com as vacinas. Desencontro/discórdia entre as pessoas. Desencontro/distância entre amigos e familiares, sobretudo os mais idosos. Desencontro com a vida, com tantas pessoas queridas nos deixando.

Tristes tempos.Foto de mulher mascarada, máscara de gato, namoro na InternetDe toda sorte, aqui e acolá, surgem uns causos curiosos, quiçá engraçados. Aconteceu com um amigo nosso. Não vou contar o nome do santo, porque é pessoa conhecida na paróquia, e a revelação dos envolvidos (há uma envolvida, já ia me esquecendo) pode me causar mais problemas do que simpatia. Boca não diz nomes ou apelidos.

O fato – e tenho por verdadeiro, já que atestado parte de ciência própria e o restante por ouvir dizer – é que este amigo passou por várias fases na pandemia. Começou assustado, fazendo serões de home office, saindo pouquíssimo de casa e tomando banhos de álcool gel. Mas a sua obsessão mesmo era/é a máscara: usava até para dormir, acompanhado ou sozinho, acreditem.

E ele aguentou tudo isso bravamente uns bons meses. Quem não aguentou foi a sua ex-companheira, que foi viver com um primo querido (como é bom a gente ver as famílias “unidas” novamente). Até essa circunstância nosso amigo aguentou resilientemente. Segundo ele, estar sozinho diminuiria o risco de exposição ao vírus (o que tem lógica, ao menos na terra redonda). Foi um Cândido, a orgulhar o professor Pangloss e confirmar Voltaire (1694-1778).

Com o abandono (que ele via positivamente, pelo lado sanitário, frise-se), naturalmente começou a paquerar pela Internet. Visitava tudo o que é rede social. E nem para isso tirava a máscara (e aqui eu não entendo a razão, uma vez que ele estava sozinho no seu apartamento que beirava a esterilização).

A princípio, disse que cumpria protocolos, sozinho ou não. Não era hipócrita (Oi?). Mas, depois, me confessou a verdadeira razão: “desabonitado”, segundo suas próprias palavras, ele viu que tinha mais sucesso nas paqueras virtuais quando se apresentava com a sua N95. Virava “japonês”, concorria em igualdade de condições.

Ainda admiro essa tendência dele de ver o lado bom de tudo. E, reconheçamos, aqui ele tem certa razão. Na noite, ao vivo ou no Facebook, a gente concorre com as armas que tem.

Conheceu algumas moças (e outras não tão moças assim), mascaradas ou não. Meninas do Brasil e até de além-mar. Mas uma mascarada da terrinha (é sempre melhor casar com a filha do vizinho) tocou o seu coração em especial. Gente conhecida também, que ainda me escuso a revelar o nome. E essa paixão, que antigamente se dizia “platônica”, mas hoje é melhor dizer “virtual”, durou semanas. Embora não se vendo pessoalmente (segurança sanitária acima de tudo), diziam ter compromisso. Coisa “firme”. Seja lá o que esse termo hoje signifique.

Mas, dia desses, vacinado com a primeira dose da Pfizer (e essa marca ele resolveu usar como arma de conquista), atendeu à ideia de um amigo de caírem na noite. Uma festinha, meio clandestina, mas que cumpriria protocolos (eu não sei como isso é possível). De amigos, quer bons, quer maus, é necessário se defender, já alertava Rudyard Kipling (1865-1936).

E a vida prega peças. Sua “namorada firme” tinha tido a mesma ideia. Mesma “festa estranha, com gente esquisita”. E mesma N95, com a qual tentavam impressionar. Eles bateram os santos, ou as máscaras.

Quem da Legião “um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?”. E, como à noite todos os gatos são pardos, imaginem se mascarados, só se identificaram um ao outro quando, aconchegados, o sinal já avançado, trocaram WhatsApp e Facebook. Aí foi um furdunço, dizem, entre tapas e sem beijos.

Até hoje não sei se eles tiveram um encontro ou um desencontro. Se um traiu o outro ou se se traíram mutuamente. Os mais chegados tentaram fazer piadas. Mas o nosso amigo não deixou cair a fantasia.

Disse: “Estávamos de máscaras. Podia ser pior”. Voltaire é tudo. E segurança sanitária ainda mais.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
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