domingo - 07/01/2018 - 02:38h

O burro Melão no Ereré

Por Jânio Rêgo

Zé Rocha iá à pé ao Ereré que ele ainda chamava de Ypiranga e que antes era chamado de Saco de Orelha (ou ‘Urêia’).

Botava uma muda de roupa nova, trocava o chapéu de palha por um de massa e descia para o Amparo, onde começa a estrada que atravessa a serra das Varandas.

Amparo é o nome do riacho e de uma grande propriedade que pertenceu a Araponga marido de Sinhá que viúva e quase centenária casou-se com um jovem chamado Zé Lira, mas essa é outra história…

Refiz agora esse esse percurso de Zé Rocha, subindo e descendo ladeiras pedregosas montado no burro Melão e em companhia de meu primo Ivanildo Melquíades que conhece cada palmo desse lugar e sobre cada um deles tem uma história geralmente irônica e bem humorada.

(Foi ele quem me deu notícias dos ‘Teodósios’, uma família de caboclos e caboclas criados por aquelas serras e reconhecidos pela criatividade e pendores nas artes da sobrevivência rude, da pesca, caça mas também da música! Um desses ‘Teodósios’ faz sucesso na região – e já fora dela – com um grupo, de forró moderno, conhecido como ‘O Véi Chegou’.)

Ainda é uma estrada de difícil acesso. No tempo de Zé Rocha era quase uma vereda sombreada por mata densa e úmida nas baixadas por onde serpenteia o riacho do Amparo.

No cume da estrada avista-se as outras serras de pedras, algumas parecendo pêndulos à beira do precipício.

Essas serras que circundam o lugarejo lá embaixo que hoje é a cidade cearense, era reduto da indiada tapuia de cuja língua teria se originado o nome Ereré.Os Icós, os Janduís, essa gente esquecida pela historiografia nacional…

Recentemente o nome Ereré, desconfio que por influência do sotaque das televisões, mudou a grafia e a fonética passando a ser chamada de Ererê, com o três ‘Es’ fechados (êrêrê)como falam os cariocas… mas isso também é outra história…

…assim como a queda que o burro Melão me deu na cavalgada de volta à Catingueira.

Jânio Rêgo é jornalista

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domingo - 24/12/2017 - 03:32h

A primeira chuva

Por Jânio Rêgo

Durou apenas meio pacote de biscoitos sete-capas ‘Jucurutu’ e duas xícaras de leite pingado com café.

Eram duas da madrugada e um calor afobado me arrancou da rede interrompendo um sonho daqueles.

Minutos depois, o barulho nas telhas, a música das águas. É minha primeira chuva nessa temporada rural aqui na Catingueira de Chico Petronilo.

Em Mossoró, nas primeiras chuvas ninguém ia para o patamar da São Vicente. Era a lavagem das telhas e das bicas entupidas com folhas, merda de lagartixas e de morcegos.

Mas quando o inverno pegava firme, o banho-de-chuva enchia o patamar de adultos e crianças.

Tanta gente…Marcílio, Kiko, Marcos Porto, Pérsio, Carlinhos, Medeirinhos, tanta gente…até ‘os Gaiolas’ desciam do sobradinho para a festa das águas…

E as portas da igreja, junto com o humor de Padre Sátiro, se abalavam com as boladas dos peladeiros vezeiros e contumazes.

Aqui não penso mais em banho-de-chuva. Mas em Meia-Lua preso num canil improvisado sob uma latada vizinha aos porcos, para não ceder à tentação de chafurdar no cadáver de um garrote enterrado no cercado.

‘Quem cria está sujeito a isso’, me consolou um vizinho percebendo minha decepção com a perda da rês.

A morte no campo parece mais banal, penso, me achando um filósofo devorador de bolachas molhadas no leite quente.

Lá fora os sapos invadem o alpendre e amanhã ou depois, a deus-querer, o verde já se insinua entre o cinza da serra e as cajaraneiras começarão a abrolhar.

E eu preciso ir dormir de novo para amanhecer em paz.

Jânio Rêgo é jornalista

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 24/12/2017 - 02:22h

O palhaço do cruzamento

Por Zenóbio Oliveira

Concentrado no semáforo esperando o sinal ficar verde, nem dei fé daquele palhaço esmolambado ao lado do carro, com cara de choro, toda pintada e feia. Esperei a anedota, o gracejo, mas nenhuma sílaba, nenhum trejeito cômico, apenas a mão estendida, num gesto de súplica, a implorar minha piedade.

Longe da magia das luzes e das cores e sem a ilusão do picadeiro.

No espetáculo da sobrevivência, o palco da rua não oferece o abrigo da lona colorida, mas a causticidade de um sol a pino, ardendo no couro a quarenta graus.

O corpo já lhe nega forças para as cabriolas e piruetas e as desgraças da vida roubaram-lhe as graças do rosto, hoje marcado pelas carquilhas, que nem a maquiagem consegue mais esconder. Não tem a alegria dos palhaços das minhas lembranças, não provoca o riso, mas causa a compaixão.

Chamam-no “Queima-roda”, cognome esdrúxulo, alcunha humilhante, denotativo de baitolagem, chacota que a modernidade apelidou de bullying.

Há dias não vejo o palhaço esmolando entre os carros nas intermitências do sinal vermelho. Soube que estava hospitalizado, vítima de assalto, ferido por adolescentes, como os que alegrou em seus tempos áureos, mas ignorantes da fascinação e do encanto que envolvem esse artista circense.

Sempre dediquei minha percepção semiológica ao signo palhaço como uma representação, fiel, da alegria e do contentamento. Hoje, assusto-me quando esse mesmo signo me remete ao significado de condolência e sofrimento, manifestados no palhaço triste daquele cruzamento.

Uma generalização injusta, a contradizer a história de que a primeira impressão é a que fica.

A verdade é que esta situação comove para além do embate semiótico das minhas concepções, ensinando que alegria e tristeza nos são comuns e que até para os palhaços, a vida reserva o tempo de fazer rir e de fazer chorar.

Zenóbio Oliveira é poeta, jornalista e ex-cinegrafista da InterTV Cabugi

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domingo - 10/12/2017 - 06:50h

O Açude Grande

Por Jânio Rêgo

Meia-Lua e eu estamos cada vez mais amigos. Naquele ponto de amizade que transforma o trivial em raridade e deslumbramento.

Ontem, bem cedinho, refizemos o percurso do Açude Grande com o entusiasmo da primeira vez, ele correndo na frente, ziguezagueando entre moitas como um perdigueiro matuto, e eu lento como um peregrino urbano a caminho do santuário.

O Açude Grande é um monumento, o mais importante da ancestralidade da Catingueira, marco da luta primordial pela água.

De lá contam-se histórias de trabalho na construção da parede rústica e de desforras familiares em defesa do patrimônio territorial:

“Antônio Petronilo botou o rifle na lua-da-sela e foi tomar satisfação com ele…” – ouço pela voz memorial de Albertina Melquíades, nora da matriarca Zefinha Fernandes, irmã desse Antônio destemido.

Já foi mais sombria e úmida a vereda que nos leva até lá, entrançada por juremas, angicos, aroeiras frondosas e arbustos urticantes.

Hoje os roçados abeiram-se do antigo ‘corredor’ e o sol entra facilmente entre a folhagem mais rala clareando o chão de areia e pedras vulcânicas.

Mas a chegada, pelo sangradouro, mantém a friagem que sobe do chão e o descortínio da paisagem, com um pedaço de serra ao longe, me induz reverência silenciosa à grandeza dos homens e da Natureza.

Sentado numa pedra remota admiro o porão seco como quem vê Chico Rocha dando cambalhotas n’água e um magote de meninos saltando da ingazeira que cresceu na revensa.

Mas o Inquieto amigo late e late, e é hora de continuar a caminhada,voltando pelo baixio de tio Epifânio, saindo lá no local do engenho onde se comia alfinim com caldo de cana moída pela junta de bois sonolenta…

Já vou, Meia-Lua, já vou!

Jânio Rêgo é jornalista

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  • San Valle Rodape GIF
domingo - 03/12/2017 - 04:14h

‘Casa da saudade’

Por Jânio Rêgo

Sobre a parede do açude seco de Zé Melquíades diminuo as passadas contemplando a casa lá no alto.

Ideias velhas e novas que me trazem de volta praqui misturam-se às antigas memórias de infância de minha mãe e meus avós maternos.

Estamos em pleno estio de novembro, as serras estão cinzas, o verde deu lugar ao amarelo nos roçados e há muito menos gente morando nas redondezas.

Não há mais o barulho do engenho de rapadura lá em tia Zefinha e o bicudo há muito tempo expulsou a alvura do algodão pelos arredores das casas e os capuchos nos galhos secos dos caminhos.

Não há barulho de cascos mas de forrageiras e motocicletas.

Vou andando e me lembrando que não é uma casa tão velha como devia ser aquela do forró de Flávio José e mesmo se fosse, penso, eu jamais a trocarei por causa de um ‘amor novo’.

Tudo nela me é profundamente familiar, uterino… Odores, poeira, o piso de cimento frio, o vento que sopra no meu rosto quando abro a folha superior da porta virada para o nascente.

É também uma ‘Casa da Saudade’ essa que vovô morou, mamãe herdou e passou pra mim.

Por isso que nunca entendi a letra desse forró… parece expressar mais um sentimento de paulista… penso, e vou logo cuidar de cozinhar o arroz vermelho que a fome acaba de me tirar do devaneio.

Jânio Rêgo é jornalista

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domingo - 19/11/2017 - 04:04h

As irmãs Mocó

Por Jânio Rêgo

Do alpendre víamos a luz tremulante da lamparina de pavio aceso com óleo de carrapateira, que elas mesmas fabricavam, dizia meu avô Chico Petronilo, deitado na rede.

Pela manhã, na casa, nas fruteiras do baixio, por onde estivéssemos, dava pra avistar o ponto vermelho amarronzado da casinha de taipa encravada em meio ao verde do pé da serra onde elas brocavam pequenos roçados para a precária subsistência.

A casa “das Mocós’ era tão longe aos meus olhos de menino da cidade grande do Mossoró…! e eu construía mistérios inenarráveis sobre as três mulheres que moravam sozinhas naquele mundéu inacessível.

Eram negras, solteiras e sem filhos. Rita a mais nova, Cosma a mais velha e Maria José ‘a dos peitos grandes’.

Não eram simpáticas, nem ‘politicamente corretas’, diríamos hoje, as histórias que ouvíamos e falávamos sobre elas…

Excluídas das excluídas, vivendo numa comunidade rural em meados do século passado, eram espécies de ‘bruxas’ naquela rude contemporaneidade com remanescências semifeudais e patriarcais.

Mas havia uma muda admiração da comunidade por trás de todo o estigma que carregavam e que despejavam sobre elas. Aquela autossuficiência miserável, produzindo o próprio sustento, mulheres livres, fora dos padrões, impunham o mínimo do respeito que precisavam para a convivência social sem sobressaltos.

Em outras vezes que voltei lá, elas já haviam saído do pé da serra e moravam em uma casinha igualmente pobre, mais próxima da cidade de Doutor Severiano.

Quando passávamos na estrada dava pra sentir o cheiro do fabrico do óleo que além de combustível caseiro (que a tecnologia atual transformou em ‘biodiesel’) era também usado como remédio natural para diversas enfermidades naquela época em que a poderosa (e perigosa) indústria farmacêutica ainda estava distante do sertanejo.

Naquela casa o cotidiano das três irmãs ficou mais exposto, elas se tornaram mais reais, mas nem assim desapareceu a sensação de mistério e magia que ainda hoje permanecem quando retomo a infância que nunca sai de mim.

Jânio Rêgo é jornalista

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
quinta-feira - 12/10/2017 - 08:20h

Como eu não sei rezar…

Como eu não sei rezar, apego-me à fé.

Dela eu sei.

Neste e em todos os dias.

Amém!

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quarta-feira - 09/08/2017 - 20:24h
Evitem

Dicas de sobrevivência no Rio Grande do Norte

Por Rubens Lemos

Evitem frequentar farmácias à noite;

Evitem frequentar farmácias à tarde;

Evitem frequentar farmácias de manhã;

Evitem sair de carro à noite;

Evitem sair de carro à tarde;

Evitem sair de carro de manhã;

Evitem andar a pé à noite;

Evitem andar a pé à tarde;

Evitem andar a pé de manhã;

Evitem paradas de ônibus;

Evitem paradas cardíacas;

Evitem paradas em sinais de trânsito;

Evitem falar ao celular;

Evitem falar ao telefone fixo;

Evitem falar com desconhecidos;

Evitem falar com amigos;

Evitem falar ao microfone;

Evitem falar ao interfone;

Evitem falar sozinhos;

Evitem barzinhos;

Evitem restaurantes;

Evitem botequins;

Evitem velórios;

Evitem cemitérios;

Evitem crematórios;

Evitem praias;

Evitem praças;

Evitem rios;

Evitem córregos;

Evitem janelas;

Evitem panelas;

Evitem flanelas;

Evitem cinemas;

Evitem teatros;

Evitem circos;

Evitem palhaços;

Evitem retas;

Evitem curvas;

Evitem caminhadas;

Evitem nadadas;

Evitem corridas;

Evitem estradas;

Evitem flores;

Evitem espinhos;

Evitem dores;

Evitem sofrer;

Evitem viver;

Evitem morrer.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
sábado - 04/02/2017 - 10:02h

Fortaleza inexpugnável II

Por David Leite

Anos oitenta. A conversa rolava solta no “senadinho” da Praça Felipe Guerra. Política, economia, amenidades, entre outros temas. Lá pelas tantas, como estávamos em dezembro, um dos circunstantes fez apologia ao gesto de se mandar cartões de boas festas.

Argumentava que, com o simples envio, poderíamos reafirmar amizades e fazer alguém feliz. Foi além: em tom meio severo, passou a censurar quem não se dispunha a tão singela – porém, cativante – iniciativa.

Assis Amorim: uma fortaleza (Foto: redes sociais)

Assis Amorim – que ainda militava nas lides políticas –, com extremo cuidado, coçou a bem penteada cabeleira, ajustou os óculos, conferiu as unhas, sempre bem polidas, e disparou:

– De minha parte, estou tranquilo, pois já os enviei aos amigos mais próximos.

Incisivo, direcionou o olhar para Paulo Lúcio, perguntando-lhe de chofre:

– Você recebeu; não foi, Paulo?

Paulo Lúcio não demonstrou susto algum e devolveu com naturalidade:

– E já mandei o de retribuição.

Claro que não tinha havido aquela troca de cartões. Contudo, a sintonia para saírem da “saia justa” fluiu naturalmente. Quem teve a oportunidade de conviver com ambos, sabe que esses “duelos” se davam com espontaneidade. O raciocínio rápido e a prontidão da verve os caracterizavam. Poderíamos desfiar um rosário de exímias saídas para situações embaraçosas. Aqui ou acolá, amigos comuns relembram algumas delas.

Porém, o que desejo neste texto é realçar um pouco da trajetória de Assis Amorim. Coisa que, em poucas linhas, se torna deveras complicado. Multifacetado, inteligente e inquieto, Assis atuou em várias áreas e sempre galgou posições de destaque.

Foi aprovado em todos os concursos públicos que se inscreveu. Nos concursos vestibulares, idem: de medicina à arquitetura, de direito à economia. Concluiu estas duas graduações e, quanto aos outros cursos iniciados, deixava-os quando lhe dava na telha.

Na política, teve significativa carreira. Foi vereador e deputado estadual. Candidatou-se a prefeito de Mossoró e, dentre os relatos gostosos de se ouvir, o dessa campanha eleitoral merece destaque. Já o escutei algumas vezes e gostaria de ouvi-lo outras tantas. Detalhes, marchas e contramarchas. Conversas de bastidores e discursos inflamados. Tudo reproduzido ipsis litteris.

A referida eleição, que não lhe foi exitosa, rendeu episódios emblemáticos, como o do “fura pneu” (cujo significado e dimensões só os mossoroenses entendem) e outros tantos imbróglios, como um envolvendo o sumiço da caminhonete de som de Assis. Tudo transformado em relatos que são pérolas.

Quando encerrava essa fase da vida partidária, resolveu prestar concurso para a magistratura. Não deu outra: aprovado. Trilhou uma espécie de caminho inverso, ou seja, é comum magistrados se aposentarem da toga e enveredarem pela política. Mas, Assis Amorim nunca optou pelo caminho convencional.

Dessa jornada de magistrado pelas comarcas interioranas, há outras tantas histórias dignas de se relatar. Perfeccionista, o Juiz se deparava com operadores de direito assassinando a “última flor do Lácio inculta e bela” e não deixava por menos, corrigia-os com uma ênfase que beirava a “ira santa”.

Das inquirições, audiências e júris, pululam situações que, relatadas em sua voz tonitruante e com seus gestos quase teatrais, ganham contornos teatrais.

Fernando Pessoa predica: “Para ser grande, sê inteiro”. Não tenho dúvida que Assis Amorim sempre teve consigo esta assertiva como leitmotiv. Em quaisquer das circunstâncias ele se doava em plenitude: fosse prolatando uma sentença ou preparando uma deliciosa iguaria; fosse bailando nos salões da Snob Boite ou discursando nos arrabaldes dos Paredões/Barrocas.

Registre-se: uso o verbo no passado, considerando que, nos dias atuais, Assis faz questão de propalar o quieto ritmo de vida que leva em companhia de Marilene, após a aposentadoria.

E qual o significado do título destas mal traçadas? Ah, também nos anos oitenta, Rafael Bruno Fernandes de Negreiros, escrevendo sobre Assis Amorim, intitulou o seu texto de “Fortaleza Inexpugnável”. Verdadeira peça.

Lamento não tê-la em meus arquivos. Portanto, pretensiosamente (considerando a pena singular de Seu Rafael), achei que seria de bom alvitre utilizar o mesmo título. Isso, de certa forma, homenageia Seu Rafael, como, também, ratifica a ideia de que o título traduz muito bem o perfil de Francisco de Assis Freitas Amorim.

David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do RN (UERN) e doutor em Direito pela Universidade de Salamanca – Espanha.

* Texto originalmente publicado no dia 29 de março de 2015, nesta página, às 6h22. É uma singela homenagem a Assis Amorim, falecido hoje (veja AQUI).

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quarta-feira - 25/01/2017 - 10:53h
Aniversário

Ê, São Paulo!

Ê, São Paulo.

São Paulo aniversaria hoje (veja AQUI).

“Pauliceia desvairada”;

“Sampa;”

“São Paulo é o mundo!”;

“Terra da garoa;”

“Orra, meu!”

São Paulo de Adoniran Barbosa e Rita Lee; de Caetano “quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”.

Saudades de São Paulo.

São Paulo do Bixiga, do pastel, do Ceasa, do chove-faz sol, teatros, sebos, MAM, Tietê, futebol, Ibirapuera…

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 25/12/2016 - 12:26h

O uso do tempo

Por François Silvestre

De minha parte, sobre o uso do tempo, sempre o fiz para viver. Sempre, e não me arrependo.

Leitura, escritura e trabalho são coisas para as sobras do tempo. E vez ou outra ainda dá para furtar algum tempinho dessas sobras para coisas fundamentais.

Fundamental é viver. O resto é sobremesa.

Num dos livros de Júnior de Maneco ele conta um fato que serve a esse texto. Diz ele que um amigo seu, não lembro do nome, informou que um jovem literato da terrinha, de cujo nome também não lembro, queria conhecê-lo.

E lá se foram os dois à casa do intelectual. Era hora da ceia. Foram recebidos pela empregada da casa, que os levou à sala de jantar.

O jovem intelectual estava tomando sopa e lendo um livro. Nem olhava para o prato.

Cumprimentou os visitantes e voltou à leitura.

Júnior de Maneco, vulgo Manoel Onofre, pensou: “Taí um homem que adora os livros”.

Foi a sua leitura do episódio. A leitura que fiz, ao ler o relato, foi diferente.

Pensei assim: “Taí um cabôco que detesta sopa”!

François Silvestre é escritor

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domingo - 06/11/2016 - 12:06h

Definição de saudade

Por Rogério Brandão

Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional (…) posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além.

Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional… Comecei a frequentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria.

Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças.

Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimios e radioterapias.

Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos, porém, isso é humano!

Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinha no quarto. Perguntei pela mãe. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção:

— Tio – disse-me ela – às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores… Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Indaguei:

— E o que a morte representa para você, minha querida?

— Olha tio, quando somos pequenos, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é?
( Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, e com elas, eu procedia exatamente assim).

— É isso mesmo.

— Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei “engasgado”, não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou a visão e a espiritualidade daquela criança.

— E minha mãe vai ficar com saudades – emendou ela.

Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei:

— E o que saudade significa para você, minha querida?—

“Saudade é o amor que fica.”

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade:

– É o amor que fica!

Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu.

Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa.

Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.

Rogério Brandão é médico oncologista em Pernambuco

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 05/06/2016 - 10:26h

No vazio de uma tarde chuvosa

Por Inácio A. Almeida

Pela janela vejo os grossos pingos da chuva que cai na tarde cinzenta e triste. Não faz frio, apenas o vento que corre traz consigo um refrigério próprio da umidade em níveis altos.

Vem uma sensação de tristeza, de ausência, de solidão, de falta de tudo e de nada.

A tarde teima em ir-se lentamente, bem devagar, com preguiça, num nunca acabar. É como se os ponteiros do tempo estivessem presos e se agarrassem desesperadamente ao agora, pedindo para não irem.

Olho pela janela e vejo nuvens mais negras ainda a prenunciarem que a chuva vai continuar. E fico a pensar que a minha tristeza não é causada pela chuva, mas sim pela diminuição da luz. Alguma herança atávica causa em mim esta sensação.

Lembranças de infância começam a chegar. Um fim de tarde, um quarto escuro, a chuva muito forte, de dentro da rede vejo um coqueiro a balançar suas folhas violentamente.

Estou só, tenho medo, chamo e ninguém me responde. Fecho os olhos e tudo se torna mais escuro ainda. Trovões me assustam, os relâmpagos jogam uma luz muito forte dentro da grande casa. Tenho muito medo, mas aos poucos vou me habituando e já consigo não chorar.

Estou só.

Volto a olhar pela janela, as nuvens estão passando de negras a cinzentas. O vento continua forte, mas a chuva está afinando.

E fico a me perguntar o quanto a natureza tem influência sobre os nossos sentimentos.

A alegria que nos domina numa manhã de sol, o prazer que nos causa o zoar de uma cachoeira, a satisfação ao ouvir o canto dos pássaros. Ah, como é bom pisar na relva ainda molhada pelos pingos do orvalho da madrugada que se foi.

Por que será preciso um tarde triste, escura, que nos traz recordações amargas, para reavivar em nós a beleza que é a natureza com todos os seus contrastes?

Por que será que sempre precisamos do escuro para dar valor ao claro? Por que insistimos em procurar fora o que só pode ser encontrado dentro de nós mesmos? Por que sempre tendemos a desprezar o que dispomos e a valorizar o que não temos? De onde vem este fascínio que o desconhecido nos causa?

Ah, natureza humana, que nos torna sempre dependentes dos outros. Não conseguimos perceber que só precisamos de um corpo sadio e de uma alma tranqüila para sermos felizes. Um dia descobriremos que o valor das coisas não está na coisa em si, mas em quem as possui. De nada adianta ter o que não se sabe utilizar, pois as coisas só são boas para quem as sabe empregar bem.

Existe fardo maior do que o dinheiro para um avarento?

Vou ter que fechar a janela. As nuvens estão ficando negras novamente e a chuva começa a ficar muito forte. Certamente será uma noite sem estrelas.

Existe coisa mais bonita do que um céu estrelado numa noite de verão?

Engraçado. À minha mente veio o pensamento de que tudo o que é bom não custa nada. Ou alguém paga para admirar um céu estrelado, um zoar de uma cachoeira, o pisar na relva molhada ou a beleza que é ver o lindo nascer de um dia?

Lá longe, em algum rádio ligado, a voz do Cauby a dizer que a tarde é fria, que o vento sopra frio, gelando…

Penso em como a sorte é inconstante. Inconstante e necessária. Sem ela não se chega a lugar nenhum. Ou não foi por um rasgo de sorte que nascemos? Ou as grandes e bruscas mudanças que nossas vidas sofrem no seu longo decorrer não dependem do acaso, da sorte?

Um dia aprenderemos que não nascemos para a nossa própria satisfação. Um dia descobriremos que fazemos parte de um grande conjunto e que vivemos para a realização plena de todos. E quando tivermos consciência do que realmente somos, quando então não nos prenderemos a nada a ponto de prejudicar a nossa felicidade, conseguiremos viver.

Viver sem medo, em toda a plenitude, com amor, com felicidade. E neste dia acharemos até mesmo uma tarde chuvosa uma linda manifestação da natureza, pois em tudo há beleza, já que a beleza está em nós.

Olho pela janela. Já não chove e o sol, de uma maneira tímida, começa a ensaiar a sua volta rasgando algumas nuvens ainda carrancudas que trocam a negritude pelo lindo vermelho, formando um quadro mais do que belo.

No rádio que toca lá longe, um cantor com uma voz belíssima canta uma canção do Nonato Buzar. Interessante, não sei o nome deste cantor. Talvez a ele tenha faltado o acaso acontecer e a vida continue a brincar de fazer da vida deste talentoso artista um brinquedo. Um brinquedo a espera que o acaso aconteça.

Inácio A. Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 03/04/2016 - 02:40h

De um encontro casual e um evento comum

Por Honório de Medeiros

“Um radialista”. Assim, secamente, Antônio Gomes me identificou o morto cujo enterro passava pela esquina onde estávamos postados em Cajazeiras, Paraíba. Até que o enterro passasse por mim não lhe dera atenção. Observava, fascinado, aquela fila coleante a se arrastar molemente, ocupando todos os espaços da rua.

Era sempre assim, pensava eu, fosse enterro, manifestação, passeata política, desfile: um fluxo constituído por pessoas diferentes, mas iguais quando em grupo. O ser humano. Esse compósito de vilania e santidade se arrastando em grupo, ou a sós, do nada para o nada. “De longe, todo mundo é normal”: terá sido Wilde, quem o disse? Não, foi Caetano.

Antônio Gomes, como eu, estava de braços cruzados olhando o enterro, mas seu olhar era sardônico. Um olhar que combinava bem com o rosto magro, de feições indefinidas, comuns. Deveria ter sessenta e poucos anos. Cabelos grisalhos, abundantes, cortados curtos, displicentemente penteados para trás.

Ao observá-lo tive a sensação de que ele parecia um elemento estranho à paisagem. Não combinava com Cajazeiras, uma cidade que, como muitas outras, sendo grande para os padrões do Sertão, disso nada extrai de bom, assim como não guardou o que de bom havia de quando era pequena. Era como uma questão de foco.

Ele parecia deslocado não porque estivesse no centro da cidade, e não acompanhasse o enterro, mas, sim, porque estava ali como se fosse um estrangeiro em pleno Sertão, muito embora sua roupa, dele não dissesse nada, nem os sapatos, nem qualquer adereço, até por que não os havia, excetuando um relógio que também era muito discreto.

“O senhor não é daqui.”

“Sou e não sou. Nasci aqui há uns sessenta anos atrás, e voltei há uns poucos dias para vender uma terra que me coube por herança.”

E me perguntou o que eu fazia em Cajazeiras. Falei-lhe de minha pesquisa acerca de Massilon, o cangaceiro, e que acabara de voltar de Missão Velha, no Ceará, terra onde o Cel. Isaias Arruda “reinara” na década de 20 e da qual, com seu apoio logístico, Lampião partira para invadir Mossoró.

Agora já estávamos sentados numa lanchonete que colocara na calçada aquelas mesas e cadeiras de metal com imensas logomarcas de cerveja na calçada. Mesas e cadeiras sujas. Como não era possível tomar um café respeitável, pedíramos água mineral.

“Ah, o cangaço”, disse, e perguntou: “descobriu algo em Missão Velha?”.

Sim, eu havia descoberto, mas não queria falar acerca de cangaço. Queria falar da viagem em si mesma. Será que eu conseguiria transmitir oralmente, para aquele estranho, um homem educado, percebia-se facilmente isso, minhas impressões de viagem? Será que eu conseguiria prender sua atenção durante um tempo suficiente para lhe dizer uma crônica elaborada com fragmentos de imagens e palavras?

O que significaria tudo isso quando cada um fosse para seu lado e um tempo razoável tivesse passado desde então?

“O cariri é verde, muito verde para ser Sertão”, comecei.

“E Missão Velha parece uma cidadezinha perdida no tempo, uma Macondo. Lá, quando chegamos, fomos direto para o coração da cidade. Estacionamos. Seria dia de feira? Não, é que o pagamento da “esmola oficial do governo federal” era naquele momento.”

As feiras, como eram antigamente, não existem mais. Não há mais cantadores de viola, coquistas, literatura de cordel, contadores de “causos”, vendedores de drogas milagrosas, rezadeiras, adivinhos, mágicos, circos mambembes… Há tipos estranhos, é impossível não haver: uma mulher de mais de sessenta anos, horrorosamente maquiada, vestida como uma adolescente, a carne sobrando por sobre a barra da minissaia curtíssima, a abraçar freneticamente uma comadre a quem aparentemente não via desde há muito tempo, e lhe responder em cima da bucha quando ela dissera “criatura, você já está com muitos janeiros, né?”:

“Estou, mas você não fica atrás não, olhe as pelancas, não é, mulher?” E depois dessa resposta, se virou para o lado e tangeu o marido que empurrava um carrinho de sorvete caseiro, enquanto olhava aquele encontro bizarro: “vai, vai, que aqui é conversa de comadres”.

O sorveteiro obedeceu, mas como vingança, ao passar por mim que observava deliciado a cena, levou a mão ao lado da cabeça, e fez, com o indicador apontado para si e desenhando um círculo, o comentário final: “é tudo doida”.

Mestre Antônio riu do episódio das mulheres e depois comentou que, às vezes, dizia a seus amigos do Sul, quando se demorava a voltar, que ali, no Sertão, para quem soubesse ver, ouvir, e extrair as conclusões possíveis, não havia escola nem teatro iguais, e, finalizando, aludiu a um personagem de Agatha Christie, Miss Marple, insulada em uma pequena cidade inglesa, a resolver crimes Inglaterra afora a partir de sua peculiar psicologia aldeã, e à frase de Tolstoi “ninguém se torna universal sem escrever acerca de sua aldeia”, para encerrar nossa rápida e estranha conversa que lhe dava razão na justa medida em que, no coração de Cajazeiras, o teatro da vida nos permitira divagar, filosoficamente, acerca da condição humana, sem que fosse necessário nada mais além de um final-de-tarde, um encontro casual, e um evento comum.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 27/03/2016 - 23:10h

A sordidez da racionalidade extrema

Por Sílvia Marques

Racionalidade é uma coisa boa e como acadêmica nem poderia dizer o contrário. Só me incomoda tentar resolver problemas de ordem sentimental e subjetiva com a objetividade com que se contrata uma secretária. Tudo bem, entendo. Gente emotiva demais se ferra sempre. É ingênua. Sem couraças.

Entra de peito aberto, sem medir e pesar as consequências. Se deixa arrastar pelas emoções até ser nocauteada e aniquilada por elas. Mas como entrar em um romance como quem elabora uma planilha no Excel?

Como renunciar a liberdade sem um pouco de ingenuidade, sem um pouco de pureza de alma? Como colocar o outro em primeiro lugar sem uma dose cavalar de generosidade que os extremamente racionais não têm? Como escolher as renúncias que o amor verdadeiro exige sem ser um pouco tolo, um pouco louco?

Porque se a gente for botar na ponta do lápis ou na planilha do Excel, ficar sozinho é mais simples, prático, indolor e vantajoso. Sair com os amigos , fazer sexo com quem se deseja sem dar satisfação a ninguém.

Chegar em casa às duas da madrugada e poder vomitar toda a vodca que caiu mal sem constrangimento, acendendo luzes e batendo portas. Poder se alimentar de miojo todas as noites e ocupar a cama inteira na hora de dormir.

Ensopar o banheiro e não ter ninguém para reclamar. Não sentir ciúmes. Não se sentir constantemente à beira de um abismo. Não se sentir responsável por ninguém. Ir e vir quando bem entender pois não há ninguém nem no ponto de chegada nem no de saída.

Sair pelo mundo como um mochileiro, pegando carona, sem pressa, sem culpas ou dívidas. Sem direitos nem deveres.

Sim, o amor é uma grande porcaria se for tratado como um gasto a mais na folha de pagamento da empresa da vida. Funcionário complicado, que criará problemas. Que mais cedo ou mais tarde, pedirá demissão.

Acredito na natureza das coisas. Um vidro quando cai e se quebra, se reverte em um monte de cacos. O cristal se quebra em poucas partes. Embora ame Sartre e o existencialismo, acredito na essência das coisas. Algumas coisas foram feitas para quebrar . Outras para partir. Outras se estilhaçam e outras nos estilhaçam.

Não, não entendo o amor como um negócio. Entendo o amor como uma escolha afetiva. Não entendo o amor como uma lista de vantagens e desvantagens que deve ser calculada. Entendo o amor como a vontade sincera e profunda de construir uma vida em comum, apesar das dificuldades e dos problemas.

Nenhum problema é maior do que a falta de vontade de fazer dar certo. Problemas externos existem sim, obviamente. Mas, na maioria dos casos servem como desculpas, como pretextos para o medo de uma real entrega, de uma verdadeira adesão ao nós.

Amar é um ato de coragem, de desprendimento. E viver com coragem é viver com o coração. Não, nem a coragem nem o amor cabem numa planilha ou em nenhum outro cálculo.

Sílvia Marques é professora universitária, doutora em Comunicação e Semiótica

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terça-feira - 09/02/2016 - 12:22h
Crônica

Imagens e sentidos do meu sertão

Meu Carnaval tem sido de descanso e trabalho em marcha lenta.

Estava precisando para recarregar baterias. Tenho um ano em movimento, que promete ser de grandes desafios.

Eu preciso deles, os desafios. São meu combustível.

Mas tirei um dia para mirar o sertão; sentir seu cheiro, ziguezaguear por suas estradas e veredas e falar com sua gente.

Comer arroz-de-leite, lavar o rosto com água geladinha da cisterna, procurar (sem sucesso) o camaleão mimetizado na folhagem e seguir em frente, sem a pressa de chegar.

Ouvir. Observar. Falar pouco (ô! Tentei).

São coisas que me fazem bem. Sou capiau da cidade, realimentado pela vida campesina.

Até neblinou ao longo de pouco mais de 400 quilômetros percorridos.

Eu pedia chuvas caudalosas, antes de viajar. Há-as permanentemente em meus sonhos. Vislumbro-as da casinha – imaginária – fertilizando o chão que dá cria à vida semeada.

O sertão verdinho, animais pastando, o sertanejo sorrindo, é como retempero para continuar a rotina que me empolga nesta página e outras tarefas.

Voltei olhando pela janela do carro e no retrovisor o que ia deixando para trás e ao largo: aquele sol engolido por nuvens densas, teimando em ficar.

Eu não me demorei. Mas trouxe todas as imagens e impressões em meus sentidos. Não ficaram para trás; carrego-as em mim.

Reencontrei-me para continuar minha marcha. Já no beicinho da noite avistei minha cidade.

Hora de começar tudo de novo. Em paz!

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quinta-feira - 24/12/2015 - 00:30h

O que tenho pro Natal

Por Carlos Santos

Eu poderia ser repetitivo, utilizar um cabedal de lugares-comuns, palavras rebuscadas ou recorrer ao ramerrame de sempre, agarrado aos comandos do teclado – no Control C/Control V.

Estão aos montes aí na Net, as saídas para a gente ser simpático, afetuoso, familiarmente resolvido e afetivamente preenchido. Copia, cola.

Completo, feliz, bom além da conta. Ser o que definem por aí como alguém “realizado”.

Parecer que somos aquilo mesmo. Dar a entender que temos tantos dotes.

Tudo está pronto, definido. Até as músicas são as mesmas, incluindo Simone e… “Então, é Natal!” Sim, ela mesma.

O que tenho pro Natal?

Nada que não ofertei o ano todo. Não serei diferente, apesar de admitir que não possa estar alheio a essa atmosfera carregada. Sou Sísifo e sua obrigação de empurrar uma rocha montanha acima.

Indiferente, não. Não mesmo. Mas do meu jeito.

Tem um monte de crianças que quer ser feliz, pelo menos naquela noite.

Que sejam felizes!

Adultos que acreditam que um sujeito da Lapônia, com um sorriso engraçado – “Hô, hô, hô!” – possa aplacar ódios, mágoas e nos devolver o sorriso para sempre.

É, não custa acreditar.

Quando tudo passar, quero voltar a ser como antes. Quero ser devolvido à realidade e continuar minha marcha.

Tenho um Natal por dia. Até o fim.

Feliz Natal!

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domingo - 20/12/2015 - 10:34h

Reflexões do notário

Por François Silvestre

“Nem sei o porquê desse “n” que se agregou ao nome da minha atividade”. É assim que seu Genaro, tabelião aposentado, refere-se à denominação da sua atividade.

Cáustico consigo mesmo, ao ponto de julgar-se estúpido, seu Genaro prefere pôr em si a culpa dos defeitos que aprecia nos outros. “Essa minha mania de ver nas pessoas as ruindades que são minhas”.

E assim, aparentemente despido de autoestima, vai tecendo com fina ironia o lençol furado que cobre a dignidade dos nossos tempos.

“Você tá vendo o cuidado das nossas autoridades locais com a economia de água”. Comenta ele. “Não se pode furar poços nem se abastecer além do máximo permitido”. Seu Genaro reconhece que é uma boa providência.

Mas pergunta: “Não pode furar poços, mas pode tocar fogo nas grotas”. E ele não tá falando dos incêndios criminosos ou acidentais. Não. Tá falando dos broques “legais”. Daqueles que são preparados durantes dias ou até meses, para depois queimar o pouco que ainda resta da vegetação nativa.

E junto com a vegetação morrem bichos e secam olhos d’água. “Água num pode buscar, mas pode tocar fogo”. Quais são os órgãos oficiais que cuidam da natureza?. “Talvez sejam os órgãos genitais de Zé Pelintra”.

Fora da vida notarial ele guarda mais alívio do que saudade. “Quando vejo um cartório, sinto arrepios”. E conta que ainda hoje tem pesadelos com carimbos. Reouve o senso de humor.

“O fórum e seus cartórios são engenhos de moer malucos”. Diz e completa: “E todos são escravos dos papéis”.

Seu Genaro, nos trinta e cinco anos de vida forense, colecionou cacoetes, tiques e assombrações. Foi do tempo da datilografia, fitas rubro-negras, capas de papel madeira. Estantes de cumaru e cadeiras de palhinhas. O cheiro de mofo mora no seu nariz.

Sua secretária chamava-se Clara. Cabelo preso por uma marrafa e óculos de grau grosso. Conta-se que Tibúrcio a flagrou acariciando o carimbo do protocolo.

Dona Clara arrumava os carimbos em filas, pelo tamanho. Pareciam soldados de chumbo, na batalha estulta da burocracia. O burocrata é um cupim de roer paciência.

Numa audiência de partilha, o inventariante passou mal e pediu: “Posso ir ao banheiro, dona Clara”? Ela não ouviu direito nem levantou a vista; só respondeu: “Faça um requerimento”.

Seu Genaro goza contando dessas. Certa vez ele deu ao inventariante uma relação de documentos necessários para o processo. Em casa, o interessado não conseguiu ler a letra do notário.

Voltou ao cartório. Seu Genaro viajara para Mossoró. E agora? Lembrou que seu Rivadávia, da farmácia, sabia ler letra ruim.

Ao mostrar o papel ao farmacêutico, seu Rivadávia disse: “Esse antibiótico, não tem; só o substituto. O xarope e os comprimidos eu tenho”. Disse e comentou: “Essa letra num é dos médicos daqui”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 06/12/2015 - 10:38h

Leitura da mão

Por François Silvestre

(Para Naide Rosado e Carlos Santos)

Tudo começou na feira do Patu. E estendeu-se para as outras feiras, numa romaria desassossegada. E tensa. Intensa. Assim foi a paixão de Samuel.

Os ciganos chegavam às cidades e procuravam as fazendas mais conhecidas para pedir arrancho. O Cangaíra, de Messias Targino. O Manuê, de Antônio Suassuna. O Açude Novo, de Chagas. Os Cajuais, de Quinquim Gomes. A Bola, de Silvestre Veras. A Jurema, de Pedro Regalado. Lages, de Oliveira Rocha. Os Campos, de Zenon de Souza. Timbaúba, de Osório Fernandes. A Lagoa, de Manoel Onofre.

E muitas outras. Os bandos liderados por um chefe conversador e convincente, geralmente deixavam marcas de suas paragens não muito recomendáveis. Zé Garcia era o mais famoso deles.

Mesmo assim, sempre conseguiam autorização para novas pousadas. Ninguém sabia a razão dessa leniência dos fazendeiros. Ou se alguém sabia, fazia-se ao desentendido.

A verdade de mesmo, motivadora dessa relação, onde as fazendas quase sempre sofriam prejuízos, não era outra senão a quantidade de ciganas jovens e bonitas. Belas e acessíveis.

“Num sei o que é que fulano tem com esses ciganos. No inverno do ano passado, eles roubaram três burros de carga e venderam armas com defeitos. E ele ainda hospeda essa gente”. Dizia a mulher de um desses fazendeiros.

Ocorre que não era para os ciganos e sim para as ciganas que o marido dela dava arrancho. Os prejuízos faziam parte da artimanha.

Os cabarés, das cidades pequenas, assustavam os fazendeiros. Não por doenças ou custos, mas por medo da falação. O bando arranchado de ciganos era uma mão na roda.

Foi num dia de feira, em Patu, que Samuel conheceu Honoralina, filha de Coralina com o cigano Honorato. Paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura sem rumo.

Aproximou-se e pediu leitura da mão. Ao toque com os dedos suaves da jovem cigana, Samuel nem ouviu as previsões. A vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando a cigana fechou a mão, o ganjão Samuel pediu quase chorando: “Leia mais”.

Na emoção, deixou de ouvir as previsões sombrias. E não deixou mais de seguir o grupo de Honorato, dissidente do grupo maior de Zé Garcia. Os dois brigaram e o grupo dividiu-se.

Estivesse Honorato em Umarizal, lá estaria Samuel. Sempre de mão mendiga a pedir leitura de Honoralina. Em Caraúbas, Pau dos Ferros, Apodi, Brejo do Cruz.

Por não ouvir as previsões de Honoralina, dada a emoção que dominava o corpo, fechando os ouvidos, Samuel não tomou as precauções que a cigana sugeria. “Uma desgraça lhe segue as veredas, ganjão. Desgraça de sangue de faca. Não fique na feira da chapada”.

Naquele Sábado, a discussão no bar de Apodi e três facadas no bucho. Tripas expostas, Samuel agoniza. A dona do boteco aproxima-se. Ele diz a última palavra, com a mão aberta: “Leia”. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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sexta-feira - 11/09/2015 - 10:49h
Reflexão

Meu 11 de Setembro, um dia que não acabou

Onde eu estava há 14 anos, no momento dos ataques terroristas de 11 de Setembro?

Lembro bem.

Como comum, em Mossoró. Como comum, manhã de sol.

A TV no quarto parecia uma geladeira. À época eu ainda conservava o hábito de manter um equipamento desse no quarto – permanentemente ligado.

Deparei-me com aquela cena de difícil compreensão: um edifício enorme, sob chamas.

As informações eram desencontradas e era difícil para mim, que acordava de uma noitada regida à Wyborowa, entender aquela imagem.

A princípio, pensei aturdido: é um filme.

Mas depois outro avião se choca contra novo edifício. Mais chamas. Não era um filme.

Segundo avião mergulha na direção da segunda torre: não era um filme (Foto: reprodução da Web)

A partir daí, a cobertura jornalística planetária passa a dissipar a ideia de acidente. Trabalhava-se com a certeza de um atentado terrorista.

A América imperial estava abalada. Mais do que nunca passou a ser um Estado policialesco, sempre sob o temor de mais atentados.

As chamadas “Torres Gêmeas”, o “World Trade Center”, desabaram e redefiniram – para pior – as relações entre Estados Unidos e o restante do mundo moderno.

Mesmo assim, parece que quase ninguém parou para refletir sobre o papel das grandes potências e da convivência do homem com o homem na Terra.

O surgimento do Estado Islâmico, guerras infindáveis, o populismo de ditadores sob o manto de supostas democracias e a migração de levas de refugiados africanos/árabes para a Europa, nos devolvem à barbárie. Se é que um dia nos livramos dela.

A guerra não é entre União Soviética e Estados Unidos, comunismo e capitalismo. Ocidente e Oriente, também não.

A grande batalha de hoje é a de sempre: o homem conseguir se enxergar como um só.

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domingo - 08/03/2015 - 09:44h

Para que servem as palavras

Por Honório de Medeiros

As palavras valem também para isso, dar alguma existência aos nossos delírios.” (Raduam Nassar, em  “Cantigas d’amigos”, Cadernos de Literatura Brasileira, Ariano Suassuna)

Ariano, entrevistado pelo Cadernos de Literatura Brasileira diz, em certo momento: “não sou um escritor de muitos leitores; costumo dizer que sou um autor de poucos livros e poucos leitores -, (…) Mesmo que eu não publique, tem um círculo de leitores que sempre lê o que escrevo.”

Retruca o Cadernos: “Este é um circuito antimoderno, o circuito da comunidade interessada.”

Assim é, assim será, dado o caráter dos tempos atuais, no qual a imagem evanescente e superficial é tudo e as palavras, quando delírios, manjar para poucos. Aqui a palavra é arte.

Relendo “O Crime do Padre Amaro” do imenso Eça, lá encontro essa idéia pela voz do seco Padre Notário:

– Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou um pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que será passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali… E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é – a absolvição é uma arma.

Recordo que dizia para meus alunos de Filosofia do Direito ser a confissão um inteligente serviço secreto, a serviço da aristocracia, para a manutenção dos interesses de classe.

A palavra: arte ou instrumento. Às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Não somente a palavra escrita, mas também a falada, dá existência aos nossos delírios.

Natal, em 7 de março de 2015.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/02/2015 - 07:22h

Agora vou tomar meu rumo…

Por Honório de Medeiros

Estamos de partida. Na bagagem, alguns livros e duas garrafas de Serra Limpa.

Essas duas danadas vão para combinar com os finais-de-tarde lá nas terras de Gil, Annica, Gabriel e Ana Maria, a Fulô da Pedra, quando estivermos escutando o canto dos passarinhos, a toada do vento, o farfalhar das folhas nas árvores e o barulho dos grilos enquanto a noite chega.

Vez por outra o relinchar dos cavalos e o mugido de um ou outro boi. E vendo as luzes das estrelas se acendendo no céu e sentindo o cheiro de mato invadir o alpendre da Casa-Grande.

Nada de celular, televisão, computador, ar condicionado, paredão de som ou som-ambiente. Nada.

Vez por outra um pouco de silêncio logo interrompido pelas risadas ocasionado por algum dito gaiato ou o converseiro de todos irmanados pelos antigos laços de fraternidade que somente a mãe-terra proporciona de mão-beijada a quem lhe ama.

Mais tarde, depois da refeição simples, mas substancial, uma fogueira para chamar estórias de trancoso e estreitar cumplicidades de almas enquanto o sono não vem.

Quando vier, virá acalentado pelo ruído do vento nas frestas das telhas e se haverá de dormir o sono dos inocentes até o chamado do galo, na hora do sol nascer.

Até mais ver…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
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