domingo - 13/01/2019 - 08:52h

A noção de “estranhamento”

Por Honório de Medeiros

Camus, em seu “Diário de Viagem” (Record), lá para as tantas escreve o seguinte acerca de uma cena por ele presenciada no navio em que viajava para o Rio de Janeiro:

“Mais uma vez observo entre eles uma mulher já grisalha, mas de uma classe soberba, um belo rosto altivo e suave, (…) e uma postura sem par. Sempre seguida pelo marido, homem alto e louro, taciturno. Colho algumas informações, ela está fugindo da Polônia e dos russos para exilar-se na América do Sul. É pobre. Mas, ao vê-la, penso nas matronas bem vestidas que ocupam alguns camarotes de primeira classe.”

Fico fascinado com esse olhar que distingue, o olhar de Camus, mas não me deixo seduzir pelo fascínio da primeira sensação, a da percepção de um estranhamento que separa, de um lado, a soberba elegância de uma imigrante e, do outro, o trivial, o comum, o banal: as matronas da primeira classe.

Deixo-me seduzir, isso sim, ao constatar que o olhar é o instrumento que permite as ideias apreenderem essa distinção. A ideia é anterior ao olhar. Se assim não fosse o olhar nada constataria dessa distinção que Camus percebeu.

Em outro lugar, escrevi: “Na Retórica dos Objetos é fundamental a noção de “estranhamento”. É por intermédio do “estranhamento”, um primeiro passo, que passamos a compreender os objetos, as coisas, as ideias, o Ser, enfim.”

E o que seria o “estranhamento”?

Eis algo difícil de conceituar, tal como a liberdade.

Sabemos o que esta é, mas não sabemos dizer com propriedade o que ela é. Em certo sentido “estranhamento” é uma desarmonia em relação ao padrão comum. Tal qual em uma arte marcial refinada, na literatura ou pintura, por exemplo, tornar-se hábil em captar essa desarmonia que extrapola o lugar-comum demanda contínuo exercitar-se até o limite do impossível.

Recordemos o exemplo acima. Para alguém acostumado a perceber o que lhe cerca, a organização limpa, meticulosa  e peculiar da biblioteca de alguém chama a atenção por fugir do padrão comum.

Ao conectar essa constatação com a que resulta do “perceber” os restantes dos objetos espalhados pelo ambiente, torna-se possível fazer algumas inferências, ou elaborar algumas hipóteses, para sermos mais precisos, acerca da personalidade do seu proprietário.

Em episódio bastante interessante da série norte americana “The Mentalist”, agentes do FBI buscam, em uma sala, uma câmera de vídeo escondida. As outras já foram encontradas e estavam postadas em lugares óbvios.

O personagem principal, Patrick Jane, ao ser introduzido na sala, observa que um determinado espelho estava colocado em uma altura um pouco acima do normal. Levanta-se o espelho e lá está a câmera procurada. A sensação de “estranhamento” permitiu a localização imediata da câmera procurada.

Em outro episódio, esse bastante conhecido na literatura policial, Sherlock Holmes chama a atenção de Dr. Watson para o cão da propriedade onde acontece a investigação. Dr. Watson retruca informando que o cão não latiu. Sherlock pondera, então: “por isso mesmo”.

Ou seja, Sherlock vivenciou, também, essa sensação de “estranhamento”.

Essa capacidade de sentir a sensação de “estranhamento”, e, em seguida, abstraí-la, racionaliza-la, é, penso eu, a base do trabalho, dentre outros dos artistas, filósofos e cientistas.

Outro exemplo, pinçado da literatura, explica melhor a teoria acima:

“Enquanto se movimentavam pela pista, ele estudou o marido com olhos profissionais, de caçador tranquilo. Estava acostumado a fazê-lo: esposos, pais, irmãos, filhos, amantes das mulheres com quem dançava. Homens, enfim, acostumados a acompanhá-las com orgulho, arrogância, tédio, resignação e outros sentimentos igualmente masculinos. Havia muitas informações úteis nos alfinetes de gravata, nas correntes de relógio, nas cigarreiras e nos anéis, no volume das carteiras entreabertas diante dos garçons, na qualidade e no corte do paletó, nas listras de uma calça ou no brilhos dos sapatos. Até mesmo na forma de dar o nó na gravata. Tudo dera material que permitia a Max Costa estabelecer métodos e objetivos ao compasso da música; ou, dizendo de modo mais prosaico, passar de danças de salão a alternativas mais lucrativas.” (O Tango da Velha Guarda; Arturo Pérez-Reverte).

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 06/01/2019 - 07:14h

Nunca vamos ficar ricos

Por Marcos Piangers

Uma amiga minha, a Bia, decidiu trabalhar só meio período depois que o filho nasceu. Quer participar de cada momento. “Mas, Bia, assim você não vai ficar rica nunca!”, alertou um amigo. É verdade.

A Bia ganha menos dinheiro. Mas eu conversei com ela esses dias e ela estava mais feliz que o Bill Gates.

No almoço um colega do trabalho disse que não vai aceitar uma promoção. Quer continuar com as manhãs livres, curtindo a filha. “Não vale a pena”, ele disse. Está certíssimo: entre abraçar todos os dias de manhã uma menina linda de pijama ou mais quinhentos reais na conta, com qual você ficaria?

Tem vezes que a promoção não paga nem a creche que você vai ter que contratar. Tem vezes que não paga nem a gasolina.

Participar do crescimento dos filhos tem uma série de vantagens, para crianças e adultos.

Eles aprendem mais rápido, se desenvolvem com mais confiança. A gente libera um monte de hormônios de prazer, por estar por perto de coisas fofas que dão risadas deliciosas. Vivemos mais felizes, menos estressados, o coração batendo que é uma beleza.

“Mas você precisa investir na sua carreira”, dizem alguns, e eu concordo com isso. Todos os dias, depois de fazer minhas filhas dormirem, volto pro computador pra trabalhar. Estou escrevendo este texto às 04:29 da madrugada de um feriado.

O que eu fiz foi uma lista de prioridades, família no topo, e tudo aquilo que dava pra dizer não eu fui dizendo. Não me arrependo.

Um dia eles vão crescer. Vão querer saber só de amigos, de amores.

Teremos tempo pra ler, fazer  um curso, abrir um negócio. Pode ser que a gente nunca fique rico, é verdade. Mas tanta gente trabalha como condenado e também não fica.

O nosso tesouro a gente sabe onde está.

Marcos Piangers é jornalista, radialista, palestrante e autor do livro “O Papai é pop”

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 06/01/2019 - 06:24h

Obrigado, pai!

Por Sérgio Chaves

Esse da foto é o meu pai! Não o meu pai biológico, esse eu perdi há 42 anos, mas o que terminou de me criar.

Ele é de Currais Novos, morava em São Paulo e veio para Natal ser padrinho de casamento do pai, viúvo, que ia se casar de novo.

Minha mãe foi madrinha da noiva, divorciada, amiga da antiga Escola Técnica Federal do RN (ETFRN).

E foi assim, em um casamento, que eles se encontraram. Ele solteiro. Ela viúva com quatro filhos.

Namoraram e se conheceram em 30 dias, tempo das férias dele.

Ele tendo que voltar para São Paulo, pediu à ela três meses, tempo suficiente para encerrar a vida dele por lá e voltar. Três meses depois ele voltou e não saiu mais de nossas vidas.

Depois que casaram, minha mãe perguntou se ele queria ter filhos e ele respondeu: “Denise, para que mais filhos? Eu acabo de ganhar quatro”.

Chagas era na dele, não se metia em nossos espaços, mas sempre estava ali, prestando atenção, opinando se necessário, servindo a todos que necessitavam de sua ajuda, rindo de nossas alegrias, sofrendo com nossas derrotas e vibrando e comemorando nossas vitórias.

Nos últimos 37 anos fomos seus filhos, sim! E ele foi o nosso pai!

Meus sobrinhos o chamavam de vovô!

Ele teve netos! E bisneta!

Chagas nos devolveu algo que pode não parecer importante para muitos, mas essencial para nós: a unidade familiar.

E nós demos a ele uma família inteira! Hoje, ele nos deixou após mais de um ano lutando contra um CA, mas nos deixa um legado imenso e, principalmente, a certeza de que não entramos na vida de ninguém por acaso.

Obrigado Chagas, por tudo!

Obrigado, pai!

Vá em paz e siga seu caminho com a certeza de que aqui, todos somos e seremos gratos sempre por sua existência!

Sérgio Chaves é jornalista

*Foto: Cláudio Roberto.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 31/12/2018 - 10:51h
Crônica

Monólogo da gratidão

Aviso-lhe de antemão: essa não é uma mensagem de Feliz Ano Novo!

É o monólogo de alguém grato.

Agradecido pelas ingratidões;

Agradecido pelos fracassos;

Agradecido pela minha incompetência;

Agradecido pelas injustiças;

Agradecido por não ser o ingrato;

Agradecido por não transferir a ninguém a culpa por minhas derrotas;

Agradecido por não alimentar recalque ou inveja por minha inapetência para o ter;

Agradecido por não ser algoz nem querer me vestir de herói, vítima ou mártir.

Feliz por começar um Ano Novo sendo aquele sujeito de sempre: fechado nas selfies, aberto para o mundo;

Feliz por ter um pedaço de mim em alguns poucos e guardar comigo o muito de todos eles;

Feliz por uma história que não me cansou ainda;

Feliz por sorrir (às vezes) e chorar (baixinho, sempre).

Venturoso.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 02/12/2018 - 07:08h

Prontuário de meu pai

Por Fabrício Carpinejar

Meu pai, 79 anos, estava com pressão alta e o levei para a emergência do hospital. Ele foi conduzido para enfermaria e fiquei com o seu celular e a sua carteira. Na doença, não existe posses. Era o seu responsável pela primeira vez na vida.

Precisava preencher o prontuário médico. A atendente me alcançou a folha alertando que se tratava de perguntas simples. Peguei a caneta e mordi a tampa, em vez de deslizar a tinta na página.

– Biotipo sanguíneo?

Eu não sabia.

– Alergia a medicação?

Eu não sabia.

– Já teve sarampo, caxumba, catapora?

Eu não sabia.

– Realizou alguma cirurgia?

Eu não sabia.

– Vem usando medicação?

Eu não sabia.

Vi que eu não conhecia o meu pai. Ele que me conhecia de cor e teria facilidade em preencher qualquer ficha a meu respeito.

Mesmo possuindo quatro décadas e meia de oportunidades, o pai surgia como um desconhecido íntimo. Um anônimo. Eu não me esforcei em descobrir quem me cuidava durante todo esse tempo. Nossa relação foi uma via de mão única.

Terminei reprovado no teste de filho. Deixei o teste em branco, para o meu constrangimento. A atendente tentou disfarçar o desconforto: “Depois perguntamos para ele”.

O prontuário médico tornou-se o meu obituário filial. Eu me dei conta de que nunca me preocupei em desvendar quem habitava a função “pai”, em determinar as suas escolhas, em revelar a pessoa atrás da roupagem familiar.

Meu pai veio com uma encomenda pronta quando nasci, e jamais desfiz o embrulho para buscar o que havia dentro. Não desfrutava de condições de responder nada por ele, pois o reconhecia como eterno provedor, uma fortaleza inexpugnável, onde me socorria em caso de necessidade. Só eu pedia ajuda, não ajudava. Só eu cobrava afeto, não devolvia. Só eu esperava recompensas, não observava também a sua carência e sua fragilidade.

Não questionei o que ele viveu antes de mim. Não sabia se ele teve cachorro, qual o nome, se ele sofreu com a perda do mascote, se sofria castigo na infância, qual o seu melhor amigo, se dançava nas festas da escola ou permanecia encostado na parede, se nadava, se andava de bicicleta, qual a carreira que sonhou, qual o seu pior trauma, qual a sua maior felicidade, se içou pandorga, se pescou, se participou de acampamento, com o que brincava, se jogava futebol, qual a sua posição, se terminava como goleiro por não fazer gol, se dividia o quarto com os irmãos, com qual idade começou a ler e a escrever.

Eu simplesmente me conformei em ser o seu filho, jamais fui seu amigo.

Fabrício Carpinejar é jornalista, poeta e cronista

* Texto originalmente publicado na revista Donna.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 02/12/2018 - 05:46h

A Festa de Santa Luzia em outros tempos

Por Odemirton Filho

As festividades religiosas em louvor aos santos padroeiros há muito é uma tradição nas cidades brasileiras, sobretudo, interioranas.

Aqueles que professam a religião católica veneram os santos de sua devoção, em uma mistura de fé e tradição histórico-cultural.

Em Mossoró não é diferente. Todo dia 03 de dezembro a cidade começa a celebrar as festividades de sua padroeira, Santa Luzia, estendendo-se até o dia 13, com a procissão que reúne milhares de fiéis.

Porém, o que me vem à memória, é a Festa de Santa Luzia de outros tempos.

O período da festa, por coincidir com o período do Natal, sempre envolveu uma certa magia.

Era o momento de vestir a melhor roupa, assistir às novenas e caminhar na rua defronte à Catedral.

Era, e ainda é, naquela rua e nas cercanias, que se desenvolve a maioria das atividades da festa, como barraca de comidas típicas, barracas de jogos recreativos e vendedores de outras cidades.

Quando criança o que me interessava era atirar com espingarda para acertar e ganhar algum brinde, jogar argolas entre objetos, ou ficar entre as barracas que dispunham das mais variadas brincadeiras.  Era o lúdico que me fazia atraído pela festa.

No aspecto religioso, admirava-me as senhoras que, com o rosto coberto e com o terço entre as mãos, devotam sua fé na Santa protetora dos olhos. Uma religiosidade simples, sem adorno.

Sobre o altar, as novenas celebradas ou concelebradas, pelo Bispo Dom José Freire de Oliveira Neto, com seu semblante sisudo, que impunha respeito.

Gostava de saborear as comidas típicas que minha tia, Socorro de “Puca”, levava para vender.

Os leilões, de igual modo, faziam-me ficar vidrado naquela disputa de lances para arrematar os brindes.

O concurso, “A mais bela voz”, era o momento de escutar talentos da terra e da região. À época não se encenava o Oratório de Santa Luzia.

Na adolescência, o bom era passear pela rua da Catedral, “de ponta a ponta”, com familiares e amigos e à procura de alguma paquera da juventude. Cansávamos de percorrer várias vezes o percurso.

Eram dias intensos. Praticamente todas às noites íamos participar de algum movimento ou, simplesmente, andar sem compromisso. O importante era estar na festa.

No dia da procissão, ficar nas esquinas ou, às vezes, acompanhar todo o trajeto, observando os milhares de fiéis. Alguns andavam com os pés descalços. Senhoras e crianças vestidas com os trajes de Santa Luzia. Outros caminhavam com pedras sobre as cabeças. Ainda hoje é assim. Tudo em nome da fé.

Certa feita, o grupo de escoteiros do qual fazia parte, ficou incumbido de fazer a proteção do andor de Santa Luzia. Ao final da procissão, chegando à Catedral, a multidão queria tocar à imagem e, ainda adolescentes, quase fomos “esmagados” pelos fiéis.

Já adulto, acompanhando meus filhos, refiz, ano a ano, toda essa tradição religiosa-cultural que pertence à nossa terra.

Hoje, devido ao crescimento da cidade e à violência desenfreada, a festa já não é mais a mesma. Para mim, falta algo. O quê? Talvez a ingenuidade da infância ou os arroubos da adolescência.

Por fim, de todas as lembranças, a que mais ecoa em minha memória é a voz inconfundível do saudoso Monsenhor Américo Vespúcio Simonetti:

“Mossoró com alegria!”

“Saúda Santa Luzia”!

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
sexta-feira - 09/11/2018 - 11:18h
Perda

Grande Chico!

Perdi uma pessoa querida. Morreu “Chico”; simplesmente Chico para mim. “Grande Chico”, era minha saudação sempre que o via com aquele ar amistoso e braços abertos a me acolher.

Era o “Chico vigia”. Mas não era apenas isso, sejamos sincero. Era amigo para me receber à porta do Cândidu’s Restaurante em Mossoró, com uma alegria contagiante: sorriso largo e um bem-querer sem tamanho.

Ostentava aquela pose litúrgica de chefe do “Departamento de Segurança” do estabelecimento, cargo vitalício outorgado por mim.

– Grande Carlos Santos – exclamava à minha chegada.

– Perigoooso! – emendava com uma gargalhada que nos remetia a um embaraço em que ele me metera há incontáveis anos. Virou motivo de graça e código quase secreto entre nós.

“Queremos muito bem a Chico. É da nossa família”, diziam-me Oscar, Samuel e Elano – filhos de Francisco Cândido e Rosália, comandantes supremos e plenipotenciários desse restaurante tradicionalíssimo de Mossoró e do RN.

– Os ‘minino’ de Chico ‘Câindo’ são danado (sic) – trovejava aqui e acolá para meu deleite, como se as travessuras fossem rituais meritórios. Tinha razão. Oscar, Samuel e Elano aprontaram demais com ele. Não faltam histórias hilariantes. Minto, meninos?

Com 72 anos completados no último dia 23 de agosto, Chico (Francisco Soares de Amorim) pedalava sua bicicleta na direção de casa pela Avenida José Damião no bairro Santo Antônio, no último dia 26, quando foi atropelado por um veículo. Era algo em torno de 14h.

O responsável (?) saiu em fuga, sem lhe prestar socorro. Teve fratura de fêmur e passou por cirurgia.

Nessa quinta-feira (8), Chico faleceu no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM). Sofreu parada cardíaca irreversível.

Seu velório é no Centro de Velório Sempre, à rua Melo Franco 197, Doze Anos, próximo ao Tiro de Guerra. Sepultamento acontecerá às 16h no Cemitério Velho.

Valeu, Chico!

* O print constante desta postagem é reprodução do meu Instagram pessoal, datado de 22 de julho deste ano.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 09/09/2018 - 03:40h

Campanha eleitoral

Por Odemirton Filho

Quem gosta de política lembra-se, com saudade, das campanhas eleitorais de outros tempos.

Em minha memória guardo a campanha ao Governo do Estado do Rio Grande do Norte, em 1982, entre Aluízio Alves (Cigano Feiticeiro) e José Agripino (Jajá).

Ainda criança, lembro-me da magia que cercava aqueles momentos, levado pelos meus pais para acompanhar essas movimentações políticas.

Decerto não entendia nada, gostava era de ver as figuras que faziam a alegria das movimentações políticas. Ramos de árvores nas mãos dos eleitores, o homem do carneiro verde, discursos inflamados, passeatas com uma multidão a perder de vista.

Candidato ao Senado Carlos Alberto de Sousa, governador Lavoisier Maia, ex-governador Tarcísio de Vasconcelos Maia e José Agripino Maia com o filho Felipe Maia nos braços na campanha eleitoral de 1982 no RN (Foto: autoria não identificada)

A tradicional descida do Alto de São Manoel sempre foi o ponto alto das campanhas em Mossoró. O candidato que conseguisse reunir maior número de pessoas estava a um passo de ser eleito, segundo a lenda eleitoral.

Era, sem dúvida, uma festa popular.

A campanha de 1986 entre João Faustino (João do Coração) e Geraldo Melo (o Tamborete) foi memorável. Ali, já adolescente, me envolvi com maior atenção, pois tínhamos tido, recentemente, a redemocratização do país.

Até hoje não ouvi uma música de campanha que embalasse tanto os eleitores como as do “tamborete”, que “soprava o vento forte”.

Existia, em Mossoró, o chamado Largo do Jumbo, onde hoje se localiza o Ginásio de Esportes Engenheiro Pedro Ciarlini Neto.

Naquela época era possível a realização dos showmícios. O candidato que contratasse um cantor de nome nacional conseguiria impressionar, pois reuniria um número maior de pessoas, não necessariamente seus eleitores.

Simultaneamente tínhamos dois comícios. Um realizado no Largo do Jumbo e o outro no Largo da Cobal. As pessoas, então, ficavam circulando entre um e outro, para ver qual tinha mais gente e curtir as atrações musicais.

Em 1988 a disputa foi entre Laíre Rosado, o favorito, e Rosalba Ciarlini, a novidade. Em uma campanha acirrada que teve a adesão do prefeito Dix-Huit Rosado, a “Rosa” sagrou-se vencedora.

Mais uma vez acompanhei tudo de perto. Naquela campanha o Partido dos Trabalhadores (PT) lançou Chagas Silva/Zé Estrela a prefeito e vice-prefeito de Mossoró.

Em um arroubo de minha juventude, depois de uns goles a mais, fui repreendido pelo meu saudoso avô Vivaldo Dantas, comunista histórico, quando menosprezei uma movimentação do PT que se fazia em frente à sua residência.

Na campanha de 1989 votei pela primeira vez. Era o “Caçador de Marajás”, Fernando Collor, contra Lula, em sua primeira disputa à Presidência da República.

Em 1992 tudo caminhava para a vitória de Luiz Pinto, candidato de Rosalba, contra o ex-prefeito Dix-Huit Rosado. Porém, apresentando toda sua força, o “velho” alcaide mostrou que era a grande liderança de Mossoró e foi eleito para um terceiro mandato.

Para mim essas campanhas eleitorais são inesquecíveis.

Com o passar dos tempos a alegria dos comícios foi substituída pela responsabilidade que deveria ter ao escolher os meus representantes. Era mais do que uma festa.

Sem dúvida, nas cidades interioranas todos têm suas campanhas favoritas. Quanto menor a cidade, maior o acirramento. Move-se pela paixão, não pela razão.

No dia de eleição, ao sair às ruas, se as cores do seu partido estivessem em maioria, provavelmente o candidato ganharia. A pesquisa, nas cidades pequenas, era feita de acordo com a quantidade de camisas no dia da eleição.

Quem não se lembra das vigílias na véspera do dia da eleição? Os correligionários dos candidatos passavam à noite percorrendo os bairros da cidade, “vigiando” os adversários para que não praticassem a compra de voto.

As pessoas ficavam nas calçadas durante toda a madrugada a espera de um agrado dos candidatos.

Hoje a realidade é outra. As campanhas eleitorais saíram das ruas e estão nas redes sociais. O medo de ir às ruas para acompanhar uma movimentação política impede uma maior concentração de eleitores.

Ademais a sociedade encontra-se em desalento, pois há tempos que vem sendo manipulada pelas falsas promessas que ano após ano se repetem.

A intolerância é marca registrada da campanha eleitoral deste ano. A violência campeia. Chegamos ao absurdo de um candidato ser esfaqueado e uma mobilização de outro ser alvejada por tiros disparados a esmo.

Outros tempos. A festividade de outrora perdeu o brilho.

O rigor da legislação eleitoral, para se evitar os muitos abusos que eram praticados, arrefeceu as mobilizações políticas.

A sociedade parece que cansou do circo.

Agora, mais do que nunca, precisa é do pão.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica / Política
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
quinta-feira - 16/08/2018 - 08:30h
Crônica da Compaixão

O sentimento dos que sentem também

Por Carlos Santos

Essa é uma tragédia que alcança qualquer um de nós, seja lá quem for, com qualquer papel na sociedade: rico, pobre, remediado.

Não é a tragédia da morte, mas da vida interrompida.

É o fim antes da hora, o corte abrupto da vida – em sua aurora.

É aquele adeus que não ficou combinado, um até logo que ninguém definiu.

Estamos diante da fatalidade, da imperícia, da imprudência ou da falta de sorte? Talvez apenas estejamos em contagem regressiva à próxima morte.

É a perda que não vai só, porque mutila e faz fenecer muitos que ficam.

A gente então se pergunta: até quando? Quantos ainda irão mais cedo?

Por favor, não digas: “Sinto muito!” Nenhum pesar é o bastante para ser muito.

Mas a compaixão é, mesmo assim, o sentimento dos que sentem também. Dos que resolvem dividir a dor alheia, na esperança de fazê-la menor.

De verdade, eu não sei o que pai e mãe estão passando. Sequer os conheço superficialmente. Sou pai. Esse filho também passou a ser meu – é o que sei e sinto.

* Para cada pai e mãe que sente a dor não definida e jamais sanada.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 13/05/2018 - 05:38h

Nossa saudade

Por Odemirton Filho

No decorrer de nossas vidas muitos são os caminhos percorridos. Cada um traz no coração sentimentos diversos.

Se volvermos o olhar ao passado veremos quantas perdas sofremos e quantas saudades carregamos em nossa alma.

A construção da vida é feita passo a passo. A cada momento de nossa existência conseguimos um pouco daquilo que almejamos.

Nesse trilhar muitos fatos e muitas pessoas ficaram para trás.

Da infância resgatamos os momentos mais doces. Nossos pais, irmãos, familiares e amigos faziam parte de nosso cotidiano. A preocupação era, tão somente, as notas do colégio.

O junho de nossas vidas era marcado pelas brincadeiras nas ruas, sem a violência de hoje.

Os pais guiavam nossos passos e os avós eram a referência.

O tempo passou. Da adolescência guardamos as primeiras paqueras, o primeiro beijo ou o primeiro amor. Sonhadores, queríamos conquistar e revolucionar o mundo.

Sair à noite com os amigos era sinônimo de liberdade. O dinheiro só era suficiente quando fazíamos a “cotinha” entre os amigos para comprar aquela bebida preferida.

Os mais afoitos fugiam de casa às escondidas para aproveitar o que a juventude, de sonhos e desejos, proporcionava.

Se olharmos para o passado muitos irão ver que já não temos nossos pais e avós.

A maioria dos amigos já se distanciou, poucos nos restam. Os amores adolescentes lá ficaram.

A vida continua, é certo.

Porém, as preocupações da vida cotidiana nos fazem perder um tempo precioso, distante das pessoas que amamos e daquilo que gostamos de fazer.

Atualmente, perdemo-nos nas pequenas coisas, o essencial sempre deixamos para depois.

Quando percebemos aquela viagem não deu certo. Os momentos simples passaram. Aquela pessoa que amamos já não podemos abraçar.

Vale a pena tanta correria?

Para a nossa reflexão deixo as palavras de Cecilia Meireles:

“De que são feitos os dias? De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
quinta-feira - 22/03/2018 - 08:30h
Crônica pela vida

Ainda nos sobrou um pouco de humanidade

Diego: solidariedade (Foto: Web)

Ainda nos sobrou um pouco de humanidade. E isso é muito.

Aquela centelha de esperança,

O grãozinho de areia que ainda cabe no deserto,

A gota de água que abundará um pouco mais os sete mares.

Que a fé, sob qualquer credo, nos una sempre.

Sejamos assim para quem precisa de luz, para não deixarmos ninguém na aridez e salvarmos qualquer náufrago à deriva.

Expresso-me assim após ler Almeri Nogueira, pai de Diego Axel Freire Nogueira, 27, agradecer nessa quarta-feira (21) pela corrente solidária que gerou fila à doação de sangue no Hemocentro de Mossoró. O movimento foi muito além do imaginável e servirá a muitas outras vidas:

“Só temos a agradecer aos 130 doadores que compareceram ao Hemocentro de Mossoró para doar sangue direcionado a Diego. Encerraram a coleta às 16h por falta de bolsa de sangue. A campanha continua amanhã (hoje, quinta-feira, 22). O quadro de Diego continua estável. A cada hora que passa agradecemos a Deus. A solidariedade e orações estão surtindo efeito”. Almeri, pai.

Amém!

* Diego está internado desde domingo no Hospital Wilson Rosado (HWR), em Mossoró, após sofrer acidente com moto, quando fazia trilha em área rural do município.

P.S – 10h36 – A direção do Hemocentro Mossoró esclarece que não houve falta de bolsa, como assinalado pelo senhor Ameri Nogueira, mas suspensão temporária de coleta devido blecaute que atingiu sistema elétrico do país em vários estados.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
terça-feira - 13/02/2018 - 10:26h
Crônica capiau

Ah, o sertão é dentro da gente!

Ah, que vontade de perambular por esse sertão!

Desejo de espiar o verde.

Necessidade de aspirar o “petricor” (aroma que a chuva provoca ao cair no solo seco).

Careço dele, capiau da cidade que um dia planejou morar no mato e por medo, muito medo, resolveu se trancar em casa. Um prisioneiro sem sentença de qualquer doutor-juiz.

Fico a sonhar com o inverno; aquele mesmo que faz o sertanejo sorrir desbragadamente, leva a meninada a se banhar na bica e instiga os bichos a perpetuarem a espécie.

Aquele tempo dos sapos insaciáveis, dos insetos impertinentes, do milho, do feijão, do rio esborrotando.

Da panela de barro, do cheiro de cuscuz!

De uma prosa que parece sem fim no alpendre, até que a comadre grita lá da cozinha: “O comer tá na mesa!”

Tudo bem. A gente vai já.

Antes, vamos aprumar copo para aquela bicada a mais de cana. Só para abrir o apetite. Só.

Ah, que vontade de perambular por esse sertão!

Guimarães Rosa estava certo.

– “Sertão: é dentro da gente”.

* Foto: Gustavo Bettini.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
segunda-feira - 15/01/2018 - 06:28h
Eu, Carlos Santos

Humano de novo

Faz-me bem desacelerar redes sociais, que me são importantíssimas, no final de semana.

Respirar o mundo real, ver pessoas, conversar tete-a-tete, ficar só e ler repõem energia e me tornam menos cibernético.

Humano de novo.

Amém!

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 07/01/2018 - 02:38h

O burro Melão no Ereré

Por Jânio Rêgo

Zé Rocha iá à pé ao Ereré que ele ainda chamava de Ypiranga e que antes era chamado de Saco de Orelha (ou ‘Urêia’).

Botava uma muda de roupa nova, trocava o chapéu de palha por um de massa e descia para o Amparo, onde começa a estrada que atravessa a serra das Varandas.

Amparo é o nome do riacho e de uma grande propriedade que pertenceu a Araponga marido de Sinhá que viúva e quase centenária casou-se com um jovem chamado Zé Lira, mas essa é outra história…

Refiz agora esse esse percurso de Zé Rocha, subindo e descendo ladeiras pedregosas montado no burro Melão e em companhia de meu primo Ivanildo Melquíades que conhece cada palmo desse lugar e sobre cada um deles tem uma história geralmente irônica e bem humorada.

(Foi ele quem me deu notícias dos ‘Teodósios’, uma família de caboclos e caboclas criados por aquelas serras e reconhecidos pela criatividade e pendores nas artes da sobrevivência rude, da pesca, caça mas também da música! Um desses ‘Teodósios’ faz sucesso na região – e já fora dela – com um grupo, de forró moderno, conhecido como ‘O Véi Chegou’.)

Ainda é uma estrada de difícil acesso. No tempo de Zé Rocha era quase uma vereda sombreada por mata densa e úmida nas baixadas por onde serpenteia o riacho do Amparo.

No cume da estrada avista-se as outras serras de pedras, algumas parecendo pêndulos à beira do precipício.

Essas serras que circundam o lugarejo lá embaixo que hoje é a cidade cearense, era reduto da indiada tapuia de cuja língua teria se originado o nome Ereré.Os Icós, os Janduís, essa gente esquecida pela historiografia nacional…

Recentemente o nome Ereré, desconfio que por influência do sotaque das televisões, mudou a grafia e a fonética passando a ser chamada de Ererê, com o três ‘Es’ fechados (êrêrê)como falam os cariocas… mas isso também é outra história…

…assim como a queda que o burro Melão me deu na cavalgada de volta à Catingueira.

Jânio Rêgo é jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 24/12/2017 - 03:32h

A primeira chuva

Por Jânio Rêgo

Durou apenas meio pacote de biscoitos sete-capas ‘Jucurutu’ e duas xícaras de leite pingado com café.

Eram duas da madrugada e um calor afobado me arrancou da rede interrompendo um sonho daqueles.

Minutos depois, o barulho nas telhas, a música das águas. É minha primeira chuva nessa temporada rural aqui na Catingueira de Chico Petronilo.

Em Mossoró, nas primeiras chuvas ninguém ia para o patamar da São Vicente. Era a lavagem das telhas e das bicas entupidas com folhas, merda de lagartixas e de morcegos.

Mas quando o inverno pegava firme, o banho-de-chuva enchia o patamar de adultos e crianças.

Tanta gente…Marcílio, Kiko, Marcos Porto, Pérsio, Carlinhos, Medeirinhos, tanta gente…até ‘os Gaiolas’ desciam do sobradinho para a festa das águas…

E as portas da igreja, junto com o humor de Padre Sátiro, se abalavam com as boladas dos peladeiros vezeiros e contumazes.

Aqui não penso mais em banho-de-chuva. Mas em Meia-Lua preso num canil improvisado sob uma latada vizinha aos porcos, para não ceder à tentação de chafurdar no cadáver de um garrote enterrado no cercado.

‘Quem cria está sujeito a isso’, me consolou um vizinho percebendo minha decepção com a perda da rês.

A morte no campo parece mais banal, penso, me achando um filósofo devorador de bolachas molhadas no leite quente.

Lá fora os sapos invadem o alpendre e amanhã ou depois, a deus-querer, o verde já se insinua entre o cinza da serra e as cajaraneiras começarão a abrolhar.

E eu preciso ir dormir de novo para amanhecer em paz.

Jânio Rêgo é jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 24/12/2017 - 02:22h

O palhaço do cruzamento

Por Zenóbio Oliveira

Concentrado no semáforo esperando o sinal ficar verde, nem dei fé daquele palhaço esmolambado ao lado do carro, com cara de choro, toda pintada e feia. Esperei a anedota, o gracejo, mas nenhuma sílaba, nenhum trejeito cômico, apenas a mão estendida, num gesto de súplica, a implorar minha piedade.

Longe da magia das luzes e das cores e sem a ilusão do picadeiro.

No espetáculo da sobrevivência, o palco da rua não oferece o abrigo da lona colorida, mas a causticidade de um sol a pino, ardendo no couro a quarenta graus.

O corpo já lhe nega forças para as cabriolas e piruetas e as desgraças da vida roubaram-lhe as graças do rosto, hoje marcado pelas carquilhas, que nem a maquiagem consegue mais esconder. Não tem a alegria dos palhaços das minhas lembranças, não provoca o riso, mas causa a compaixão.

Chamam-no “Queima-roda”, cognome esdrúxulo, alcunha humilhante, denotativo de baitolagem, chacota que a modernidade apelidou de bullying.

Há dias não vejo o palhaço esmolando entre os carros nas intermitências do sinal vermelho. Soube que estava hospitalizado, vítima de assalto, ferido por adolescentes, como os que alegrou em seus tempos áureos, mas ignorantes da fascinação e do encanto que envolvem esse artista circense.

Sempre dediquei minha percepção semiológica ao signo palhaço como uma representação, fiel, da alegria e do contentamento. Hoje, assusto-me quando esse mesmo signo me remete ao significado de condolência e sofrimento, manifestados no palhaço triste daquele cruzamento.

Uma generalização injusta, a contradizer a história de que a primeira impressão é a que fica.

A verdade é que esta situação comove para além do embate semiótico das minhas concepções, ensinando que alegria e tristeza nos são comuns e que até para os palhaços, a vida reserva o tempo de fazer rir e de fazer chorar.

Zenóbio Oliveira é poeta, jornalista e ex-cinegrafista da InterTV Cabugi

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 10/12/2017 - 06:50h

O Açude Grande

Por Jânio Rêgo

Meia-Lua e eu estamos cada vez mais amigos. Naquele ponto de amizade que transforma o trivial em raridade e deslumbramento.

Ontem, bem cedinho, refizemos o percurso do Açude Grande com o entusiasmo da primeira vez, ele correndo na frente, ziguezagueando entre moitas como um perdigueiro matuto, e eu lento como um peregrino urbano a caminho do santuário.

O Açude Grande é um monumento, o mais importante da ancestralidade da Catingueira, marco da luta primordial pela água.

De lá contam-se histórias de trabalho na construção da parede rústica e de desforras familiares em defesa do patrimônio territorial:

“Antônio Petronilo botou o rifle na lua-da-sela e foi tomar satisfação com ele…” – ouço pela voz memorial de Albertina Melquíades, nora da matriarca Zefinha Fernandes, irmã desse Antônio destemido.

Já foi mais sombria e úmida a vereda que nos leva até lá, entrançada por juremas, angicos, aroeiras frondosas e arbustos urticantes.

Hoje os roçados abeiram-se do antigo ‘corredor’ e o sol entra facilmente entre a folhagem mais rala clareando o chão de areia e pedras vulcânicas.

Mas a chegada, pelo sangradouro, mantém a friagem que sobe do chão e o descortínio da paisagem, com um pedaço de serra ao longe, me induz reverência silenciosa à grandeza dos homens e da Natureza.

Sentado numa pedra remota admiro o porão seco como quem vê Chico Rocha dando cambalhotas n’água e um magote de meninos saltando da ingazeira que cresceu na revensa.

Mas o Inquieto amigo late e late, e é hora de continuar a caminhada,voltando pelo baixio de tio Epifânio, saindo lá no local do engenho onde se comia alfinim com caldo de cana moída pela junta de bois sonolenta…

Já vou, Meia-Lua, já vou!

Jânio Rêgo é jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 03/12/2017 - 04:14h

‘Casa da saudade’

Por Jânio Rêgo

Sobre a parede do açude seco de Zé Melquíades diminuo as passadas contemplando a casa lá no alto.

Ideias velhas e novas que me trazem de volta praqui misturam-se às antigas memórias de infância de minha mãe e meus avós maternos.

Estamos em pleno estio de novembro, as serras estão cinzas, o verde deu lugar ao amarelo nos roçados e há muito menos gente morando nas redondezas.

Não há mais o barulho do engenho de rapadura lá em tia Zefinha e o bicudo há muito tempo expulsou a alvura do algodão pelos arredores das casas e os capuchos nos galhos secos dos caminhos.

Não há barulho de cascos mas de forrageiras e motocicletas.

Vou andando e me lembrando que não é uma casa tão velha como devia ser aquela do forró de Flávio José e mesmo se fosse, penso, eu jamais a trocarei por causa de um ‘amor novo’.

Tudo nela me é profundamente familiar, uterino… Odores, poeira, o piso de cimento frio, o vento que sopra no meu rosto quando abro a folha superior da porta virada para o nascente.

É também uma ‘Casa da Saudade’ essa que vovô morou, mamãe herdou e passou pra mim.

Por isso que nunca entendi a letra desse forró… parece expressar mais um sentimento de paulista… penso, e vou logo cuidar de cozinhar o arroz vermelho que a fome acaba de me tirar do devaneio.

Jânio Rêgo é jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 19/11/2017 - 04:04h

As irmãs Mocó

Por Jânio Rêgo

Do alpendre víamos a luz tremulante da lamparina de pavio aceso com óleo de carrapateira, que elas mesmas fabricavam, dizia meu avô Chico Petronilo, deitado na rede.

Pela manhã, na casa, nas fruteiras do baixio, por onde estivéssemos, dava pra avistar o ponto vermelho amarronzado da casinha de taipa encravada em meio ao verde do pé da serra onde elas brocavam pequenos roçados para a precária subsistência.

A casa “das Mocós’ era tão longe aos meus olhos de menino da cidade grande do Mossoró…! e eu construía mistérios inenarráveis sobre as três mulheres que moravam sozinhas naquele mundéu inacessível.

Eram negras, solteiras e sem filhos. Rita a mais nova, Cosma a mais velha e Maria José ‘a dos peitos grandes’.

Não eram simpáticas, nem ‘politicamente corretas’, diríamos hoje, as histórias que ouvíamos e falávamos sobre elas…

Excluídas das excluídas, vivendo numa comunidade rural em meados do século passado, eram espécies de ‘bruxas’ naquela rude contemporaneidade com remanescências semifeudais e patriarcais.

Mas havia uma muda admiração da comunidade por trás de todo o estigma que carregavam e que despejavam sobre elas. Aquela autossuficiência miserável, produzindo o próprio sustento, mulheres livres, fora dos padrões, impunham o mínimo do respeito que precisavam para a convivência social sem sobressaltos.

Em outras vezes que voltei lá, elas já haviam saído do pé da serra e moravam em uma casinha igualmente pobre, mais próxima da cidade de Doutor Severiano.

Quando passávamos na estrada dava pra sentir o cheiro do fabrico do óleo que além de combustível caseiro (que a tecnologia atual transformou em ‘biodiesel’) era também usado como remédio natural para diversas enfermidades naquela época em que a poderosa (e perigosa) indústria farmacêutica ainda estava distante do sertanejo.

Naquela casa o cotidiano das três irmãs ficou mais exposto, elas se tornaram mais reais, mas nem assim desapareceu a sensação de mistério e magia que ainda hoje permanecem quando retomo a infância que nunca sai de mim.

Jânio Rêgo é jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 12/10/2017 - 08:20h

Como eu não sei rezar…

Como eu não sei rezar, apego-me à fé.

Dela eu sei.

Neste e em todos os dias.

Amém!

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
quarta-feira - 09/08/2017 - 20:24h
Evitem

Dicas de sobrevivência no Rio Grande do Norte

Por Rubens Lemos

Evitem frequentar farmácias à noite;

Evitem frequentar farmácias à tarde;

Evitem frequentar farmácias de manhã;

Evitem sair de carro à noite;

Evitem sair de carro à tarde;

Evitem sair de carro de manhã;

Evitem andar a pé à noite;

Evitem andar a pé à tarde;

Evitem andar a pé de manhã;

Evitem paradas de ônibus;

Evitem paradas cardíacas;

Evitem paradas em sinais de trânsito;

Evitem falar ao celular;

Evitem falar ao telefone fixo;

Evitem falar com desconhecidos;

Evitem falar com amigos;

Evitem falar ao microfone;

Evitem falar ao interfone;

Evitem falar sozinhos;

Evitem barzinhos;

Evitem restaurantes;

Evitem botequins;

Evitem velórios;

Evitem cemitérios;

Evitem crematórios;

Evitem praias;

Evitem praças;

Evitem rios;

Evitem córregos;

Evitem janelas;

Evitem panelas;

Evitem flanelas;

Evitem cinemas;

Evitem teatros;

Evitem circos;

Evitem palhaços;

Evitem retas;

Evitem curvas;

Evitem caminhadas;

Evitem nadadas;

Evitem corridas;

Evitem estradas;

Evitem flores;

Evitem espinhos;

Evitem dores;

Evitem sofrer;

Evitem viver;

Evitem morrer.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
sábado - 04/02/2017 - 10:02h

Fortaleza inexpugnável II

Por David Leite

Anos oitenta. A conversa rolava solta no “senadinho” da Praça Felipe Guerra. Política, economia, amenidades, entre outros temas. Lá pelas tantas, como estávamos em dezembro, um dos circunstantes fez apologia ao gesto de se mandar cartões de boas festas.

Argumentava que, com o simples envio, poderíamos reafirmar amizades e fazer alguém feliz. Foi além: em tom meio severo, passou a censurar quem não se dispunha a tão singela – porém, cativante – iniciativa.

Assis Amorim: uma fortaleza (Foto: redes sociais)

Assis Amorim – que ainda militava nas lides políticas –, com extremo cuidado, coçou a bem penteada cabeleira, ajustou os óculos, conferiu as unhas, sempre bem polidas, e disparou:

– De minha parte, estou tranquilo, pois já os enviei aos amigos mais próximos.

Incisivo, direcionou o olhar para Paulo Lúcio, perguntando-lhe de chofre:

– Você recebeu; não foi, Paulo?

Paulo Lúcio não demonstrou susto algum e devolveu com naturalidade:

– E já mandei o de retribuição.

Claro que não tinha havido aquela troca de cartões. Contudo, a sintonia para saírem da “saia justa” fluiu naturalmente. Quem teve a oportunidade de conviver com ambos, sabe que esses “duelos” se davam com espontaneidade. O raciocínio rápido e a prontidão da verve os caracterizavam. Poderíamos desfiar um rosário de exímias saídas para situações embaraçosas. Aqui ou acolá, amigos comuns relembram algumas delas.

Porém, o que desejo neste texto é realçar um pouco da trajetória de Assis Amorim. Coisa que, em poucas linhas, se torna deveras complicado. Multifacetado, inteligente e inquieto, Assis atuou em várias áreas e sempre galgou posições de destaque.

Foi aprovado em todos os concursos públicos que se inscreveu. Nos concursos vestibulares, idem: de medicina à arquitetura, de direito à economia. Concluiu estas duas graduações e, quanto aos outros cursos iniciados, deixava-os quando lhe dava na telha.

Na política, teve significativa carreira. Foi vereador e deputado estadual. Candidatou-se a prefeito de Mossoró e, dentre os relatos gostosos de se ouvir, o dessa campanha eleitoral merece destaque. Já o escutei algumas vezes e gostaria de ouvi-lo outras tantas. Detalhes, marchas e contramarchas. Conversas de bastidores e discursos inflamados. Tudo reproduzido ipsis litteris.

A referida eleição, que não lhe foi exitosa, rendeu episódios emblemáticos, como o do “fura pneu” (cujo significado e dimensões só os mossoroenses entendem) e outros tantos imbróglios, como um envolvendo o sumiço da caminhonete de som de Assis. Tudo transformado em relatos que são pérolas.

Quando encerrava essa fase da vida partidária, resolveu prestar concurso para a magistratura. Não deu outra: aprovado. Trilhou uma espécie de caminho inverso, ou seja, é comum magistrados se aposentarem da toga e enveredarem pela política. Mas, Assis Amorim nunca optou pelo caminho convencional.

Dessa jornada de magistrado pelas comarcas interioranas, há outras tantas histórias dignas de se relatar. Perfeccionista, o Juiz se deparava com operadores de direito assassinando a “última flor do Lácio inculta e bela” e não deixava por menos, corrigia-os com uma ênfase que beirava a “ira santa”.

Das inquirições, audiências e júris, pululam situações que, relatadas em sua voz tonitruante e com seus gestos quase teatrais, ganham contornos teatrais.

Fernando Pessoa predica: “Para ser grande, sê inteiro”. Não tenho dúvida que Assis Amorim sempre teve consigo esta assertiva como leitmotiv. Em quaisquer das circunstâncias ele se doava em plenitude: fosse prolatando uma sentença ou preparando uma deliciosa iguaria; fosse bailando nos salões da Snob Boite ou discursando nos arrabaldes dos Paredões/Barrocas.

Registre-se: uso o verbo no passado, considerando que, nos dias atuais, Assis faz questão de propalar o quieto ritmo de vida que leva em companhia de Marilene, após a aposentadoria.

E qual o significado do título destas mal traçadas? Ah, também nos anos oitenta, Rafael Bruno Fernandes de Negreiros, escrevendo sobre Assis Amorim, intitulou o seu texto de “Fortaleza Inexpugnável”. Verdadeira peça.

Lamento não tê-la em meus arquivos. Portanto, pretensiosamente (considerando a pena singular de Seu Rafael), achei que seria de bom alvitre utilizar o mesmo título. Isso, de certa forma, homenageia Seu Rafael, como, também, ratifica a ideia de que o título traduz muito bem o perfil de Francisco de Assis Freitas Amorim.

David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do RN (UERN) e doutor em Direito pela Universidade de Salamanca – Espanha.

* Texto originalmente publicado no dia 29 de março de 2015, nesta página, às 6h22. É uma singela homenagem a Assis Amorim, falecido hoje (veja AQUI).

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.