domingo - 14/08/2016 - 03:30h

Vindo da ida

Por François Silvestre

Quem chega em casa aos setenta/

Vindo do ermo da ida,

Arrastando as armas que pendem da cintura,/

Na ferrugem de todas as perdas,/

Apenas vê as ruínas das paredes/ da velha casa

Que ainda lhe oferece abrigo./

Feita de tristeza? Não. De solidão? Menos ainda./

Há todo um encanto de chegada/ que faz dos setenta/

Uma triste alegria de quem nunca saiu dali/.

Esteve sempre preso nas cinzas amareladas da

Espera. /

E se não esperou chegar/ também não partiu./

Imita o rei dos celtas ante o conquistador romano:/

Joga as armas no chão/ procurando um vencedor inexistente!

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 07/08/2016 - 10:26h

O oco do vazio

Por François Silvestre

Dizia-se, no sertão de falas vastas, que alguém de fora chegado, de onde não se sabia, vinha do oco do mundo.

O sertão é um feitor de falas. Desde a fala restrita, seca, pouco sonora de Graciliano Ramos até o som construtor de frases que espantam, na linguagem enviesadamente bela de Guimarães Rosa.

Mas nem o sertão consegue disputar com o poder público o enviesado da linguagem. A diferença é que nos grotões do povo entorta-se a linguagem para alcançar novas formas de comunicação. E há uma refeitura semântica.

Na comunicação do poder a linguagem sofre duas agressões brutais. A primeira é de ignorância mesmo. Analfabetismo oficial. A outra é de malandragem. Uso da linguagem para mentir, distorcer e vender otimismo.

A mentira na literatura não é mentira, é ficção. A ficção na política não é ficção, é mentira. E o poder público mente com tal suavidade que parece um batedor da verdade. Essas verdades “absolutas” que abastecem as crenças religiosas.

Cada um com sua mentira pronta para levar a verdade ao forno. Tostá-la e vendê-la, crua como se cozida fosse. E o povo, apressado, come cru.

O Brasil tem jeito? Sim. O principal jeito do Brasil é reinventar o jeito. Foi sempre assim. No momento atual a saída é um freio de arrumação. A coragem de refazer o que está desfeito.

Uma Constituinte Originária para a refeitura de uma nova ordem institucional. Com candidaturas avulsas e limitações à picaretagem partidária.

Com a proibição da candidatura dos constituintes nas eleições seguintes. Só aí já se retira da Assembleia Constituinte uma soma considerável de picaretas. Picaretagem partidária, evangélica ou coorporativa.

A ordem institucional decorrente de 1988 exauriu-se. Só não vê isso quem é cego político. Ou beneficiário de castas privilegiadas.

O país mergulha cada vez mais profundamente no vazio institucional. A casca se desmonta, por ausência de miolo que justifique a própria casca.

A “federação” nunca foi tão desfederada quanto agora. Vejam as realidades de dois entes federados vizinhos. Paraíba e Rio Grande do Norte. A comparação deixa o papa jerimum papando casca de estaca, feito bode faminto.

Quando o governador eleito Robinson Faria me convocou para uma reunião, conversamos sobre muita coisa. A motivação era o discurso de posse.

Ao ouvir o relato das suas intenções, comentei: “Olha, Robinson, se você fizer dez por cento do que está anunciando, será um grande governo”. Um seu auxiliar, que foi para a direção do DETRAN, repreendeu-me: “Esse é o mal. As pessoas se satisfazem com dez por cento. Vamos fazer tudo”.

Cadê os dez por cento daquele discurso? O auxiliar “Beleza” durou pouco no cargo. O prometido respeito ao servidor virou pó. Sem garantia de salário em dia, não há serviço digno.

E na indignidade qualquer discurso será o oco do vazio.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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terça-feira - 02/08/2016 - 03:49h
Ah, tá!

Alcoolismo seletivo

Por François Silvestre

Chegando a Martins, encontro uma amiga de longo tempo, no Mirante Mãe-Guilé. Abração e cheiros. Ela pergunta: “François, você já foi alcoólatra”?.

Respondi de pronto: “Não. Eu sou alcoólatra”. Não consigo viver sob abstemia de álcool.

Porém, como em tudo tem porém, ou entretanto mas porém, como dizia Zé Limeira, meu alcoolismo é seletivo. Só tomo cerveja. E só tomo cerveja muito gelada. Ou chopp com pressão. E tem as marcas preferidas.

Na ausência da cerveja, não tomo pinga nem uísque nem vinho. Quando muito, no meu alpendre em Cajuais da Serra, um vinho do Porto com queijo de coalho maturado, envelhecido fora de geladeira.

Na praça Floriano, do Rio de Janeiro, tomo chopp com salmão grelhado.

No bar da esquina da Cândido Mendes, na Glória, chopp com frango acebolado.

No Catete, defronte do Palácio de mesmo nome, chopp com bolinho de bacalhau.

É ou não é um alcoolismo afrescalhado?

Na Colônia Penal eu tomava até refresco de maracujá com álcool.

Gazaneo Cabral trazia álcool da oficina e nós o misturávamos numa proporção de uma garrafa de álcool para três de suco do maracujá.

Mas hoje é democracia. Para esse regime de bosta, melhor do que a merda milicada, nada como uma frescura alcoólica.

Fui, forçado pelas molecas, a uma psiquiatra. Ela lá pras tantas me perguntou: “Por que o senhor insiste na cerveja”?

Respondi: “Pra não ter de gastar dinheiro com a senhora”!

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/07/2016 - 10:47h

O recesso da História

Por François Silvestre

De tudo ou quase tudo já se falou da História. Seu determinismo, sua imutabilidade, sua inexistência, sua característica de ciência cultural, sua morte, seu renascimento.

Prestou-se ela a todos os embates. Às perquirições da filosofia clássica, aos argumentos de deístas e ateus, às indagações culturais e às lutas ideológicas.

Houve até um pensador moderno que decretou “o fim da História”. O que ele quis dizer, pelo menos se supõe, é que ela não se prestava mais à explicação ou justificação de transformações sociais. O que levaria ao fim também das revoluções. Com o fim da História, desconfigura-se toda e qualquer possibilidade revolucionária.

Sem revolução não há ruptura e sem ruptura não haveria História. Boa parte dessa assertiva ampara-se no fracasso quase rotineiro das revoluções sociais e políticas. As revoluções de natureza científica ficam fora dessa limitação, pois sempre tiveram continuidade ou superação.

Nenhuma revolução social ou política teve continuidade nos preceitos originais da sua motivação. Age de início para aniquilar os derrotados e depois se volta autofagicamente contra as próprias crias.

É de bom alvitre estabelecer que não se deva confundir revolução com golpe de estado ou quartelada. Por mais sanguinária que seja nenhuma pantomima dessas pode ser alçada à condição de movimento revolucionário.

Falemos de Revoluções. A Revolução Francesa descambou em Napoleão e pariu uma monarquia pior do que a substituída. A Revolução Russa teve o condão de assassinar a única chance de alternativa ao capitalismo e matar o ideário ideológico que a justificara teoricamente.

A Revolução Chinesa promoveu um genocídio fratricida e desaguou no capitalismo de Estado, com trabalho servil e ditadura de castas.

Bastam esses modelos para configurar o destino das revoluções sociais e políticas. Triste destino. Porém, necessário. Posto que o havido antes precisasse mesmo ser desmontado. Em todos esses exemplos e noutros não referidos.

A Revolução Cubana exauriu-se numa ditadura personalista e empobrecedora do seu povo. Mas não se pode negar que ela destruiu um regime pior do que o seu resultado. Cuba era apenas um balneário da putaria e jogatina americana, sob o comando de um sargento sanguinário.

O Brasil não oferece exemplos porque nunca fez uma revolução. Nunca. Pequenos arremedos e tentativas. Sempre esmagados no nascedouro.

O tempo de hoje acabrunha a História. Em nome de Maomé se faz o terror e em nome de Cristo se edifica a mentira. E o sermão mudou: Mal aventurados os que matam e mentem, pois é deles o reino da terra.

No Teatro Brasil a Esquerda sepulta a esperança e a Direita exuma o desencanto. A História, acabrunhada, pede licença e entra em recesso.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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quinta-feira - 28/07/2016 - 21:32h
Opinião

Olho no fascismo

Por François Silvestre

Essa história de alterar legislação para demitir servidor concursado é artimanha de fascistas. Fascistas e ladrões.

Se o concurso é feito para atender conveniência da Administração, a demissão do concursado será declaração de fraude administrativa.

Tem de meter na cadeia quem promoveu concurso sem necessidade. Patifes.

Essa história de governador declarar que não demitirá concursado é pura balela.

Se a lei fascista passar, ninguém estará garantido.

Palavra de político vale tanto quanto titica de galinha.

Temos de garantir a lei vigente. Essa é a palavra que vale.

Eita país de governança escrota!

Esquerda de estrume.

Direita de merda.

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Categoria(s): Administração Pública
quarta-feira - 27/07/2016 - 04:16h
Opinião

Caixa sem número

Por François Silvestre

Essa história de limitação de gastos na campanha eleitoral é uma balela que não engana ninguém.

Mudaram os candidatos? Não. São os mesmos.

E eles viraram honestos? Mudaram os eleitores? Não. São os mesmos.

E eles viraram conscientes? Mudaram os fiscais, do fórum e das contas? Não. São os mesmos.

E eles viraram eficientes? Papo furado pra gente besta acreditar.

Vai ser tudo do mesmo jeito.

Com Caixa numerado ou sem número. Caixa zero, dois ou vinte e dois. Já tem gente comprando e gente se vendendo.

Começa com candidatos retirando candidaturas pra “fazer” alianças. Alianças, é?

O resto será como sempre foi.

Mercado de secos e molhados, mesmo com seca de água.

Nota do Blog – Tudo como dantes ou coisa pior.

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domingo - 24/07/2016 - 09:12h

Do rega bofe ao chifre

Por François Silvestre

O dia 11 de Novembro marca a última manifestação festiva do Império. Sob o pretexto de homenagear a Marinha chilena, o governo imperial realiza um extravagante baile na Ilha Fiscal; onde não faltou frivolidade e luxo.

O Jornal do Comércio dá notícia da presença de mais de cinco mil pessoas. Hélio Silva informa que, pela madrugada, os convidados, no cais Pharoux, ao voltarem do baile, cruzaram com o 22º Batalhão de Infantaria que embarcava para o Amazonas, punição imposta pelo Gabinete Imperial. Ostentação de festa e poder. Onde não havia mais poder nem motivos para festa.

A família imperial retirou-se no início da madrugada, antes da ceia monumental. Depoimentos da época dão conta do aspecto cansado e ar de enfado do Imperador. A Princesa Isabel o poupava das notícias ruins. Ela mesma cuidava das reuniões com Ouro Preto e demais Ministros. Urgia uma última tentativa para salvar a Monarquia.

Na manhã do dia 12 de Novembro, Terça-Feira, o Imperador sobe a serra de Petrópolis, fugindo do calor. A quentura pior não era a do tempo, mas da conspiração.

O assédio dos republicanos ao Marechal Deodoro torna-se irresistível. Todos sabiam do afeto dedicado pelo velho militar ao Imperador. Por isso mesmo os republicanos poupavam a figura de D. Pedro, nos ataques ao governo, na presença do Marechal. Reservavam toda a carga de intrigas e ataques ao Visconde de Ouro Preto, chefe do gabinete, e ao Conde d’Eu, futuro Príncipe Consorte. Sabiam que os dois não gozavam do apreço de Deodoro.

Até à noite do dia 15, Deodoro só cogitava de derrubar o gabinete de Ouro Preto. Não lhe atraía a derrubada do amigo Imperador.

Era preciso muita habilidade dos republicanos para usar o Marechal no golpe programado. Os fatos deveriam conspirar com a adesão dele, sem que o mesmo desconfiasse das intenções dos novos “aliados”. Os mesmos que, pouco tempo depois, conspiraram para derrubá-lo da Presidência da República.

Por outro lado, a inabilidade arrogante do Visconde de Ouro Preto e uma mentira deram aos republicanos o que eles não conseguiram antes. Isto é, a adesão de Deodoro à República.

Um fato, de natureza pessoal, levou Deodoro ao golpe. Ainda dos tempos em que servira no Rio Grande, o Marechal se indispôs com o Presidente da Província do Sul, Gaspar da Silveira Martins. Intriga figadal. Até uma namorada do “sargentão”, como lhe chamava o desafeto, foi-lhe tomada pelo político gaúcho.

Benjamim Constant informou a Deodoro que o sucessor de Ouro Preto já fora convidado pelo Imperador. Seria Silveira Martins. A informação não era verdadeira, mas Deodoro acreditou.

Irado, ele decidiu assinar o termo de Proclamação da República.  Só o fez no dia 16, com data do dia 15.

Cai o Império após o rega-bofe e nasce a República sob a ginecologia da mentira e do chifre.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 24/07/2016 - 07:09h

Olhos da alma – além do infinito

Por Marcos Pinto

“Para a  nossa  avareza  o  muito  é  pouco.  Para  a  nossa  necessidade, o  pouco  é  muito”.(Sêneca)

Na  amplitude  assustadora do  silêncio  sepulcral   oscilam  os  olhos  da  alma,  filtrando  na retentiva  do  desconhecido  mistérios  envoltos  no além do  infinito.  Surge  o   espectro  da  interrogação,  ampliando  os  horizontes  do  pensamento.

Busca-se,  de   forma  incontida, algo    transcendental,  exorcizando  fatos  e  pessoas   que  há  muito  já  dobraram as esquinas do  tempo, sumindo  na  ribanceira  do  esquecimento.  As  profecias  ancestrais    arreganham os  dentes   da  realidade  crucificante, evidenciando  nos vincos  da  face  atormentada   um  remorso  adormecido,  que  já não  pode  fugir  aos  escrúpulos  da  consciência.

As garras  de  um  pecado profundo  sintomatiza  um  merencório  e  dolente  peso  de  consciência.  O  destino   imprevisível   rasga-lhe  as entranhas  do   passado,  num lance  de  cobrança  improrrogável, sem  deixar espaços  para  evasivas  e  titubeios.

Não  há  como  empreender  fuga.  A  realidade  quer se  acobertar  na  senilidade  assediante.  O  passar  dos  anos  fez  surgir um  muro indevassável, sem  saída, construído com  a   asquerosa  argamassa  dos  mais  profundos  pecados..  A  inflexível  cobrança  dos  desiígnios  do destino  já  não  permite  diminuir  o atroz  e  mortificante  peso  da  consciência.

Pulsa-lhe  um  coração  tardiamente  arrependido . obrigando-o   a  ver  passar a  procissão  espectral  de  todas as  injustiças,  cometidas  de forma vil  e  covarde  contra  indefesos  semelhantes.   A  ânsia  de  acumular  riqueza  material   impedira-lhe  de   ver  e  sentir  as   virtuosas   manifestações   cristãs., focando  o  bem  comum.  A  sequidão  da   avareza    impregnou-lhe  na  alma  a  aridez   dos  tormentos  infindáveis.   Deus  mostrara-lhe  o  caminho  farto e  fértil,  que a  ganância   e  o  egoísmo  impediram-no  de  ver.

Dói-nos  a  constatação   de  que  o  TER  tem se  sobreposto  ostensivamente  sobre  o  SER, forjando espíritos   ensandecidos, capazes  da prática  de todos  os  males, para  atingir  interesses  os  mais  escusos  e  espúrios.   Antigamente,  predominavam   pessoas   profundamente virtuosas, que  faleciam  em  odor  de  santidade.

Hoje, escasseiam  os  sentimentos  nobres,  pisoteados  e  garroteados pela  ganância  e   egocentrismo.  Vive-se  o   teatro  da  agonia, com protagonistas  obrigados   a  dar  os  passos  numa    coreografia  de   tristeza e  dor.  O amor  jaz  no  pano  caído  e  surrado  do  teatro  real.   Sobejam  as  omissões  cúmplices  diante  tantas  injustiças, suscitando  uma  sucessão  de  tragédias  aniquiladoras   do  bem  estar coletivo.

De  sorte, que  resta-nos  a   certeza  da  existência de  muitas  almas  nobres,  detentoras  de  hábitos  tão  antigos   quanto  bons.  Diante  tantas interrogações,  depara-se  com  a  certeza de   que  a  ingratidão  traz  consigo  o  gosto  mais  amargo  da  vida.  De  nada  adianta  dar  o  mel, para  depois  submeter  ao  gosto   do  fel.

Resta-nos  protestar  contra   esse  clima  de  apreensão  e  escassez  de  bom  senso.  O  amigo e  primo François  Silvestre  e  o   Alceu   Amoroso Lima  são   dois  grandes  Pensadores que  nos  massageiam  a  alma    com  a  plenitude  dos  seus ensinamentos.

O  primeiro, enfatiza  que  “O   tempo  deixa  perguntas,  mostra  respostas  e  traz  verdades”.  O  segundo, sentencia  que  “O  passado  não  é aquilo  que  passa, mas  aquilo que  fica  do  que  passou”.  Nesse  mundo  tão  perverso  e  materialista, vivo   minha  solitude, adotando   as palavras  do   grande  Pensador  Vicente  Serejo:   “Vivo de  bem  com  a  vida, sem  culpá-la  dos  fracassos  pessoais  e  do  destino  sem   fortuna”.

Até  mais  ver.

Marcos Pinto é escritor e advogado

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terça-feira - 19/07/2016 - 17:12h
Reflexão

Autoridade crítica

Por François Silvestre

Quem destruiu a Petrobrás com a corrupção não tem autoridade para criticar quem está vendendo a Petrobrás.

O petróleo é nosso? (Foto: arquivo)

Quem tem autoridade para criticar os dois lados somos nós, população e contribuinte.

Quem rouba, quem vende ou abandona patrimônio público se equiparam.

Pune-se o roubo após a consumação, por ser falha e incompetente a fiscalização, que não age preventivamente.

Quem vende só é criticado após a venda liquidada. E quem abandona não é fiscalizado, incomodado ou punido.

O abandono do patrimônio público é premiado com o sossego de quem abandona. Mesmo sendo regiamente pago para zelar e fazer funcionar. Fiscalização de hipócritas numa sociedade inculta, em que o interesse pessoal sobrepõe-se ao interesse social.

Na chamada “área cultural” esse fenômeno é escancaradamente vergonhoso.

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domingo - 17/07/2016 - 10:18h

A dialética da mediocridade

Por François Silvestre

Vivemos tempos da miséria dialética. A considerar-se dialético tudo que se confronta, se enfrenta, se afirma e se nega.

Hegel resgata da era clássica a dialética empírica e lhe dá feição idealista. A lógica, então dominante, passou a ser um método investigativo superado.

Um discípulo de Hegel, Karl Marx, repensou a dialética e revisou Hegel. Dizia ele que Hegel acertara na superação da lógica, mas pusera a dialética de cabeça para baixo. E o marxismo não só distanciou-se como passou a ser a negação crítica do hegelianismo.

Mesmo que o marxismo deteste o revisionismo, não foi outra coisa o que Marx fez com Hegel. Retirando a dialética do idealismo para sua concepção materialista. Aliás, nesse aspecto Engels foi mais a fundo do que Marx.

A negação dos marxistas ao revisionismo vem dos diversos momentos em que foi preciso justificar o poder, mesmo negando princípios originários do próprio marxismo. Até Fustel de Coulanges, equivocadamente chamado de positivista, foi tachado de “precursor” do revisionismo.

Daí negou-se a importância da sua obra clássica, “A Cidade Antiga”, que se debruçou sobre a religião, organização política e vida familiar nas Cidades-Estados da Grécia e Roma.

É verdade que a dialética tem vida muito mais antiga, desde os pensadores da era clássica. Aristóteles, Demóstenes, Heráclito de Éfeso são alguns ensaístas da dialética primitiva. Também operada por Tomás de Aquino, na Escolástica.

A tese, antítese e síntese superam e substituem as deficiências simplistas da lógica. Hegel tem o mérito histórico da sua transposição para o pensamento moderno.

MARX e Engels cumpriram papel semelhante, na aplicação do método dialético ao pensamento político de transformação. Isto é, no materialismo histórico. Cuja práxis prometida, negadora do idealismo, produziu o mais fantástico fracasso histórico de quantas revoluções houve.

Pois bem. O Brasil conseguiu, sem revolução, o feito de aprimorar a dialética do fracasso. A política brasileira é “A boneca de uma menina que não tem braços”, como a felicidade que Humberto de Campos definiu.

Socialismo, no Brasil, não é distribuição de renda ou divisão de propriedade. É repasto de esmola. Demagogia.

A dialética, no Brasil, não tem tese. Só antítese, sem síntese. Desordem institucional, bagunça política, desonestidade administrativa e farsa de controle.

O único governo que propôs reformas de base, inclusive agrária, foi João Goulart. E caiu por isso. Imprensado no meio da guerra fria, travada pelo império capitalista americano contra o império militarista da burocracia soviética.

A pátria dos quartéis vendeu-se. A pátria dos políticos prostituiu-se. O povo recebeu a sucata da pátria, cujo conserto, hoje, atropela-se na dialética da mediocridade.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 10/07/2016 - 07:32h

A crise educa

Por François Silvestre

Não é fácil conviver com a crise. Nem com a seca. Nem com a escassez. E menos ainda com a “ética” dos métodos, banquete de hipocrisia. Pra cada sujeira apontada no quintal vizinho, um charco de lama na própria soleira.

Já houve quem sustentasse não ser pessimista para não parecer chato; nem otimista, para não parecer bobo. E chegou a inventar o realismo consciente. A moderação na crença e a tolerância no descrédito.

O candidato contamina-se de otimismo para convencer o eleitor a segui-lo. E ao eleitor é oferecido um pacto de entusiasmo. E a surrada promessa de mudança. E ambos fingem. Cada um no seu botão.

O eleitor se faz de besta e oferece o bolso bobo para receber a prebenda do esperto. O eleitor sabe que seu voto é uma mercadoria e o candidato intui que o comprado e pago não comporta cobrança.

Mesmo assim e talvez por isso mesmo a crise seja um rompimento de trevas. Uma lanterna a clarear no quarto escuro. Um puxão de orelhas da realidade. A crise institucional escancara-se. Mais grave do que a econômica. A economia se arruma. Instituições sem crédito não se recuperam. Só com nova ordem.

Nem a Democracia é plena nem o voto é livre. Fosse livre, o voto não seria obrigatório. Tanto a Esquerda quanto a Direita defendem o voto obrigatório. Por quê? A Direita sabe que o voto livre seria muito mais caro. E a esquerda sabe que o voto voluntário seria muito mais exigente.

A Direita precisaria de mais grana para arrancar alguém de casa e a Esquerda precisaria revisar a baboseira sofista para convencer o eleitor desobrigado de votar. O voto obrigatório é democracia de curral.

A crise rasga a mentira. O discurso, a liberdade do voto, a promessa, a propaganda, os debates ocos, a mídia venal, a fiscalização de fachada. Esse é o útero onde se fecunda o óvulo do embuste e nasce feto da crise.

Os candidatos são espermatozoides. O eleitorado é o óvulo maduro a esperá-los, no cérvix da urna. No ovário, eles se encontram. Após a caminhada difícil que veio do gozo, enfrentando cada um a hostilidade da militância inimiga.

E a conquista? O candidato excitado penetra o cio da militância. Os lados oponentes abrem as pernas do povo, no berço esplêndido. E há o coito. O resultado do coito é o coitado.

Reina o Estado Cérbero, falido, e suas castas famintas de privilégios e empanzinadas de hipocrisia.

E a seca? Apenas “uma eterna e monótona novidade”, como disse Cunha, o Euclides. Cada tempo com seu Cunha. Eterna porque sempre existiu. Monótona porque vem em ciclos. E novidade porque nunca nos preparamos para seu retorno inevitável.

Mas é uma bênção. Não houvesse estiagem já teríamos sido expulsos daqui. Qual região do mundo está livre de vulcões, furacões, alterações climáticas extremadas?

Temos sol e vento na medida. O atropelo da seca nos protege.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

 

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domingo - 03/07/2016 - 09:22h

Um país disléxico

Por François Silvestre

A dislexia é um transtorno de percepção, multidisciplinar, que afeta tanto a orientação quanto o aprendizado. Contudo, o termo ganhou contornos quase que limitados à incapacidade ou dificuldades de leitura.

E por tratar-se de assunto no campo da patologia, em fase de estudos e aprofundamentos, não me é permitido cuidar das suas conceituações na área da ciência. Até por obrigação de honestidade intelectual.

Faço-o, portanto, na seara da literatura. Metaforicamente. Para a triste constatação de que dentre as nossas limitações culturais, o Brasil é também um paciente disléxico.

Acometido da dislexia coletiva. No caso, sem diagnóstico funcional ou orgânico. Não detectado por averiguação neurológica.

A clínica onde se faz esse diagnóstico é de natureza cultural e social. Sem necessidade de ultrassonografia ou outros exames laboratoriais.

O Brasil não lê. Não sabe ler. Não gosta de ler. Não quer aprender a ler. E por não ter leitores, começa a se tornar também um país ágrafo. Sem leitores e sem escritores. Ou com ambos sofrivelmente considerados.

A internet, pra se fazer justiça, abriu um leque à leitura, mas esse gosto não corrigiu a dislexia. Pelo contrário, fez da escritura uma agressão gráfica. Leitor apressado, escritor inculto e língua sofredora.

Tudo no contorno de um ciclo de infinita pobreza cultural, a misturar ou confundir entretenimento com arte e folguedos com cultura.

O assunto me traz à memória um episódio ocorrido em São Paulo, fim dos anos Setenta. O palco foi a Biblioteca Mário de Andrade, na Praça D. José Gaspar, vizinhança da ex-elegante Av. São Luís.

Um encontro de palestras, com nomes de reconhecimento consolidado no mundo literário. No ciclo daquela noite, estavam Menotti Del Picchia, (velhinho, acomodou-se com dificuldade), que fora um dos astros da Semana de Arte Moderna, com seu Juca Mulato. Jorge Andrade, cujas peças “Os Ossos do Barão”, virara novela da Globo e “O Grito”, alvo de polêmica e patrulhamento. Murilo Rubião, precursor do nosso realismo fantástico, e o crítico de literatura Léo Gilson Ribeiro, consagrado no Eixo do Sudeste e na América Latina.

Chamou-me a atenção o relato de Murilo Rubião. Menos por suas narrativas do sobrenatural, incluindo uma experiência própria, e mais pelo desabafo sobre “a dura escritura” de que falara Clarice Lispector.

Murilo Rubião queixou-se de si mesmo pela escolha da atividade que escolhera para “ganhar a vida”.

E explicou, usando como modelos um irmão seu e um amigo de ambos. Um deles construtor e o outro comerciante. “O construtor tem trabalho suave e ganha bem. O comerciante ganha muito e tem vida de folga”.

“Escolhi escrever livros, produto de sobra para consumo escasso. Vivo com dificuldades”. Encerrou Murilo Rubião.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 26/06/2016 - 08:20h

A ética da conspiração

Por François Silvestre

As eleições presidências de 1945, após a queda do Estado Novo, foram realizadas sob o comando constitucional da Carta de 1937. Essa constituição foi um diploma de inspiração fascista, elaborada por Francisco Campos, que “evoluíra” do positivismo de Comte para o fascismo ítalo-brasileiro.

Ela serviu ao projeto político de Vargas, com o fim da “federação” e implantação de um Estado unitário. Cuja consecução deu-se simbolicamente com a queima das Bandeiras dos Estados.

Hoje, a diferença é mais de forma e menos de conteúdo. Continuamos a ser uma Federação de mentira, sob o amparo de uma Direita obtusa, que promete ética e entrega hipocrisia; e uma Esquerda confusa, que promete progresso e entrega esmola.

As eleições foram disputadas pelos novos Partidos. O PSD, de inspiração getulista, com sustentação conservadora e base eleitoral no coronelismo e na vida rural.

A UDN, de inspiração no liberalismo americano, com força nas camadas urbanas, também conservadora e refratária às transformações sociais. O PTB, getulista puro, aliava-se ao PSD, assumindo o comando do trabalhismo urbano. Indo do sindicalismo ao peleguismo. Tudo brasileiramente macunaímico.

Pois bem. A Carta de 37 não previa a figura do Vice-presidente. A coligação PSD/PTB derrotou a UDN. O candidato do PSD, General Eurico Dutra, que fora o sustentáculo da Ditadura Vargas, derrotou o Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato dos udenistas.

Ocorre que a Constituinte de 46 restaurou a investidura da Vice-presidência. E à própria Assembleia foi delegada, por legitimidade natural, a prerrogativa de eleger o Vice-presidente.

Nem precisa dizer que a briga de foice, na penumbra das conspirações, típicas da nossa formação política, foi deflagrada nas mumunhas do poder. O PSD lançou o nome do Senador catarinense Nereu Ramos, que não gozava do afeto pessoal do presidente Dutra.

Os dissidentes do PSD, sabendo dessa desafeição, conspiraram com os udenistas para derrotar Nereu. Dissidência política, no Brasil, não se dá por amor à pátria. Mas por interesses pessoais. Taí Eduardo Cunha que não me deixa mentir.

Esses insatisfeitos procuraram Dutra e informaram que se eles lançassem outro candidato, da ala dissidente do PSD, teriam os votos da UDN e derrotariam Nereu Ramos.

Eurico Dutra, que ouvia muito e falava pouco, ouviu de ficar rouco. Depois falou: “Os senhores não tem o meu aval. Minha orientação é que votem no Nereu”.

Ante a perplexidade dos “dissidentes”, Dutra lecionou: “É verdade que eu não gosto do Senador Nereu Ramos. Mas a UDN o detesta muito mais do que eu.

Se o Vice-presidente for alguém suave à UDN, ela vai conspirar todos os dias para me derrubar. Se for Nereu Ramos, eu ficarei tranquilo, pois A UDN não vai querê-lo no meu lugar”. Assim foi feito e Dutra governou sossegado.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 19/06/2016 - 09:38h

Um país sem pátria

Por François Silvestre

O Brasil não é a Pátria que as circunstâncias nos oferecem. O país existe, porém é órfão de pátria. A geografia exuberante e incomparável é única, embora pagando o preço da estupidez agressiva que a maltrata e a corrompe.

Mesmo que morram florestas, sequem rios, esmoreçam lagos, extingam-se viventes da fauna e da flora, até assim, a geografia do Brasil continua ímpar.

Porém, a pátria não é a mesma. Nunca, nem nos tempos sombrios e terríveis da Ditadura fascista, a pátria foi tão carente da letra maiúscula na sua denominação. Somos um país gigante gerido por uma pátria nanica. O que diria Rui Barbosa da sua definição, se pudesse ver a pátria de agora:

“A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade”.

Se na Ditadura a liberdade foi sangrada, os lares violados, a vida em risco, o céu escuro, a consciência maculada, a ausência da lei, o povo ajoelhado, mesmo assim, a Pátria sobrevivia na esperança da resistência.

E a resistência se dava em cada local, da mais erma estepe até ao escancarado das praças maculadas. Do silêncio contestante ao berro da revolta.

Do sentido escondido do texto poético ao apelo codificado da canção de combate.

Da bruxuleante luz da lamparina ao raiar do Sol, num nascente de espera. Até nos porões, onde a Pátria emprestou vida ao útero fedido dos seus Cáceres. A espargir o miasma de sangue e sêmen.

E depois, no inventário das cicatrizes, o Poeta Polari de Alverga acusou: “Eles costuraram tua boca com o silêncio”. E mais: “As manchas de sangue, ressecadas nas vestes que sobraram, exalam um estranho cheiro de súplica”.

Nem assim, com toda essa desgraça pesada e sentida, A Pátria virou minúscula. Nem assim.

Foi preciso a mediocridade do presente para apequenar a Pátria da oração de Rui. O tempo de hoje achatou o “P” maiúsculo, numa pátria de fantoche. Fancaria de uma ópera bufa, burlesca encenação da patifaria.

Não há quase nada de uma pátria a exaltar. Apenas o belo país e a cultura de sua gente. A mesma cultura que o poder público trata como se tratavam as prostitutas velhas nos becos fedidos dos cabarés antigos.

E a política? Qualquer definição dessa atividade, hoje, nos leva à proibição etária da imoralidade. A Pátria que sobreviveu na escuridão, dilacerada, deixou-se assassinar na claridade. Saudade da penumbra? Não. Tristeza da clareza suja.

O Brasil é hoje um país à beira do suicídio institucional. Do alto do precipício, a mendigar socorro: “Minha geografia por uma Pátria”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 12/06/2016 - 11:28h

O gosto do povo

Por François Silvestre

O comportamento da massa, que é a representação do povo em movimento, não se prende a reflexões ou questionamentos intelectivos.

A expressão “povo em movimento” usada do parágrafo anterior não significa apenas a massa mobilizada geograficamente. O chamado “povo na rua”. Não. Serve também para a medição de humor da opinião pública, na rua ou em casa, movida por paixões momentâneas.

A palavra “povo” aqui expressa não leva em conta o rigor significativo, consistente na constatação de que somos ainda um pré-povo, derivado da pré-humanidade que habita o planeta.

Nem a observação de que povo é tão somente uma abstração, usada e manipulada ante a presença hegemônica e maléfica do Estado.

O Estado corrupto arroga-se o direito do combate à corrupção. Violento, diz combater a violência. Ineficiente, vende-se como necessário. Inútil, mostra-se insubstituível. Perdulário, cobra parcimônia.

Mas esse não é o tom do presente texto. Quero aqui tratar de coisa mais amena, da fisionomia volátil e tragicamente ridícula da massa; ou do povo em movimento. Trágica porque oscila entre desgraças ou convulsões. Ridícula pela mutação descaradamente movida por paixões.

A paixão é uma deformação afetiva. Um impulso da condição humana, que no indivíduo imbeciliza e no coletivo convulsiona.

Nos dois casos não há controle do processo deflagrado. E geralmente vira monstro, após nascer inofensivo.

A lição de Samuel Taylor Coleridge nos remete à reflexão: A paixão escurece nossos olhos e a luz que a experiência nos dá é de uma lanterna na popa; só ilumina as ondas que já passaram.

Foi dessa máxima que Roberto Campos retirou o título das suas memórias, “Lanterna na Popa”.

O gosto do povo é de paladar oscilante. Gustativamente confuso e pueril. Levado por paixões que dispensam avaliações e questionamentos. Sai da canonização para a excomunhão sem qualquer escrúpulo analítico.

Há uma assertiva do pensamento puro de que a exemplificação empobrece o raciocínio filosófico. Posto que a argumentação deva bastar-se pela força do enunciado. E o exemplo reduz o alcance genérico.

Mas não resisto e exemplifico. No auge da crise política de 1954, Getúlio Vargas percebeu que perdera o apoio popular. Fora vaiado na última viagem oficial, que fez a Minas Gerais. Na ida e na volta. Sentiu a falta do apoio popular para tentar a resistência.

E para não ser um morto-vivo, como chamara, nos anos Quarenta, seus adversários dos anos Vinte, resolveu não repetir o gesto da primeira deposição. “Daqui só saio morto”. Era o cemitério em vez de São Borja.

Apostou na comoção que o passional fabrica. Um cadáver e uma carta disparam o projétil cujo alvo foi o coração do povo.

A madrugada alterou tudo. E a crise mudou de lado. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 05/06/2016 - 11:18h

Estupidez da intolerância

Por François Silvestre

A barbárie que modelou o processo de expansão do domínio europeu sobre povos internos e distantes, conquistas e colonizações, marcou a ferro o lombo da História.

No Oriente, não foi diferente. Mesmo assim pode-se dizer que a intolerância daí decorrente demarcava-se em espaços limitados e em tempos distintos.

E tudo se configurando num quatro de conquistadores oprimindo conquistados. Portanto, intolerância endêmica. Aquela que se limita por fronteiras claras.

“Evoluímos” para a epidemia, rompendo fronteiras e expandindo a intolerância. Evolução de domínio, involução de caráter.

Hoje, a epidemia já produz saudade. A intolerância virou pandemia. Não respeita mais qualquer limitação, nem fronteiras.

A guerra, de qualquer natureza, serve-se de todos os pretextos. Até as denominações religiosas, que sempre foram disfarces de interesses econômicos, agora elevaram o nível da intolerância à beira do céu. Onde vendem lotes às almas ingênuas, prometendo entrega após depositarem na terra os seus corpos apodrecidos.

É um mercado macabro, cuja enganação agrega ao pacote a intolerância sem limite.

Ortega y Gasset dizia que o “homem não possui natureza, tem história”. Isto é, a natureza no homem é tão somente orgânica, não social; diferentemente dos irracionais, que possuem sociabilidade por natureza e não pela história.

A pandemia da intolerância, que vai da praça ao quintal, do continente ao município, do mar ao poço, do front da guerra ao campo de futebol, da igreja ao oratório, do parlamento ao bar, do tribunal ao cartório, do jornal ao fuxico, do bate-papo à internet, da arte à depressão.

Nem precisa de uma diferença ideológica, política ou religiosa. Uma discordância trivial rasga o fato e derrama as tripas.

A mídia é um palanque. Não importa informar ou questionar. “Meu lado é o bom e o resto não presta”. Nenhum espaço à tolerância. A internet é uma praça de guerra. E no meio da luta fratricida, não há lugar para ponderações.

A única intolerância legítima, a ser exercida, é contra a corrupção, racismo e a violência do estupro ou da pedofilia. Aí há de ser intolerância absoluta. Tolerância abaixo de zero.

Informar com isenção deixou de ser o princípio que legitima a liberdade de imprensa. Isenção não é neutralidade. É abertura à informação sem alinhamento automático.

Uma coisa é discordar. Outra é transformar a discordância num confronto. E essa inimizade nasce fundamentada apenas na intolerância, sem que os contendores precisem de qualquer convivência pessoal ou relações sociais.

Conviver apenas com quem tem opinião convergente é facílimo. E muitas vezes chatíssimo. É o cansaço da concordância, muitas vezes fruto da preguiça de pensar.

O difícil e belo é conviver com a divergência. No respeito ao contrário. Na beleza do contraditório.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 29/05/2016 - 07:56h

O indivíduo manipulado

Por François Silvestre

regimes ditos socialistas a individualidade é rebotalho do “coletivo”, para justificar a falsidade social do regime. E em nome da fantasiosa igualdade todas as brutalidades contra o indivíduo são consumadas. E o coletivo é apenas o ajuntamento de indivíduos atrofiados.

Nos regimes “democráticos” do capitalismo a diferença é de retórica. A prática muda apenas de feição e de feitura. O indivíduo cantado e decantado do liberalismo é tão somente um seguidor do manípulo.

Manípulo é um pequeno feixe da capim, amarrado na ponta de uma vara, que o condutor põe à frente da carroça para enganar o burro condutor. O pobre animal tenta alcançar a ração, que nunca chega ao seu alcance.

O Estado brasileiro é a fisionomia dessa aberração. Qual capitalismo é o nosso? Que nem consegue oferecer as poucas vantagens do capitalismo.

Vejamos: A iniciativa e propriedade privadas são princípios liberais do capitalismo. O indivíduo possui esses dois bens? A iniciativa privada só é bem sucedida no conluio promiscuo com o Estado. Grandes empreiteiras corruptoras aliciando o Estado passivamente corrupto. E vice-versa.

O médio e pequeno empresário é prisioneiro da insegurança, da burocracia e da rapinagem tributária.

Proprietários efetivos só ladrões, assaltantes e trambiqueiros. O posseiro honesto apenas pastora a posse precária do “seu” patrimônio. Sob o risco permanente da bandidagem privada e da roubalheira pública.

O Estado atual é o estuário da legalidade corrompida. A Lei é mãe para os donatários do Estado. E madrasta para o restante, que só é parte do todo nas obrigações. O indivíduo é a barata de Kafka.

Povo só é substantivo concreto na presença repressiva do Estado. No momento dos direitos e garantias individuais o Poder transforma a regra constitucional num rolinho de papel higiênico. Que vai limpar o concreto monossilábico.

O resto do todo, que se reparte em pessoas concretas, vira abstração na privada. Cada um de nós é um substantivo abstrato, ante a concretude repressiva do Estado.

O Estado brasileiro é uma patifaria sócio-institucional. Legalista sem a segurança da legalidade.

A mesma Constituição que “garante” a dignidade da pessoa humana como seu esteio, atribui poderes de falsa ética a quem nega a prescrição fundamental. Fica o dito na parte fundamental descartado pela esperteza do secundariamente estabelecido.

O Anarquismo aponta o dedo acusador contra a bagunça instituída. Contra essa cavilação hipócrita de que os tribunais são condutores das soluções estruturais.

É o Estado resultante da anarquia institucional, triturador do indivíduo. O dito “interesse público” é o disfarce para a opressão individual. Somos burros de carroça, sem saber pra onde nos leva o manípulo. Constituinte Originária já.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 22/05/2016 - 19:19h

Involução

Por François Silvestre

O pensamento filosófico, que nasceu agregado ao conhecimento científico, foi a primeira rebeldia da descoberta. Do intelecto impondo a luz para romper as trevas.

A cada descoberta de uma verdade nova, uma dúvida era vencida; e um deus abatido em pleno voo caía aos pés do caçador. Assim mesmo, dessa luta temporal entre a sombra e a claridade.

Foi na filosofia que o homem pensante, primitivamente consciente da ignorância, começou a identificar os sinais da ciência. Num embate em que a dúvida nascia da angústia e desaguava na descoberta.

A ciência é da essência natural, independe da perquirição humana. Porém, foi pela filosofia que o homem enfronhou-se no tecido cognitivo do misterioso mundo científico. Desfraldando a bandeira do conhecimento pelo aceiro da sua franja.

Da lição inesquecível de Teilhard de Chardin: “Deslocar um objeto no tempo, para trás, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Seguidas tão longe quanto possível na direção da sua origem, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo”.

Chardin, padre e filósofo, perseguido pela intransigência canônica do catolicismo de sacristia, veio da origem filosófica de Aristóteles, e fez conexão de voo com Thomaz de Aquino. Todos construtores em cadeia, numa corrente de elos presos pela sabedoria do invisível. A invisibilidade infinita de cognição quase inalcançável, na presença universal do cosmo.

Para Thomaz de Aquino o Universo é criação de Deus. Para Teilhard de Chardin o Universo se cria, sob a regência de Deus. E continua sob permanente autocriação. No contorno de um invólucro infinito; “sistema” pela multiplicidade, “totum” pela unidade e “quantum” pela energia.

Para os filósofos gregos, de onde vem Aristóteles, o conhecimento é a própria criação. Dado que no escopo do conhecer pode-se aferir que até os macacos “sabem” que o “conjunto das bananas maduras é menor do que o conjunto das bananas”.

O primeiro conceito da palavra Deus, do protossemítico ao sânscrito, não significa aquele que cria, mas aquele que fala. “O princípio era o Verbo”…

Nós evoluímos em tecnologia, no último meio século, mais do que nos últimos quinhentos anos. Contudo involuímos intelectualmente mais de um milênio.

Vivemos o tempo da involução pensante. Enquanto as máquinas que criamos aprimoram-se, o nosso cérebro criador regride. Tempo de embrutecimento humano, pobreza cultural, imbecilização política, feiura esportiva.

A ausência do pensar filosófico, dos tempos de hoje, implantou o reino da mediocridade. O convencimento foi substituído pela compra. A vocação deixou de ser um impulso do talento para acomodar-se às imposições do mercado.

Os filósofos medicaram a humanidade contra a estupidez, porém há escassez do medicamento. Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 15/05/2016 - 10:38h

Estado democrático de exceção

Por François Silvestre

Não se compara, nem de longe, com a exceção das ditaduras; vez que não há repressão política nem restrições à cidadania.

O tipo de violência que vivemos é de outra natureza, mesmo que a incompetência política seja causa também dessa outra deformação.

Trato aqui da exceção institucional. Quando a Ditadura de 64 exauriu-se, apodrecida na lama de sangue que promoveu, quis fugir do banco dos réus. E o fez negociando com ex-aliados que abandonavam o barco e com antigos inimigos que tinham pressa em abocanhar o poder.

Uma aliança dessa natureza não poderia produzir uma ordem institucional séria nem duradoura. E foi o que ocorreu. Uma constituinte, desfigurada pelo congresso constituído, para redigir a Carta Magna das Corporações. É isso que é a Constituição de 88. Tão confusa e malabarista que todos a descumprem e encontram nela mesma fundamentação para o descumprimento.

E provam “constitucionalmente” que agem na forma da “ordem constitucional”. Tudo embuste!

Aliados antigos e beneficiários do regime decaído assumiram o comando da transição. Hoje, são os seus descendentes e os descendentes dos seus liderados que mandam e desmandam.

Para assegurar sossego ao domínio dessa desordem foi escancarada uma porteira para o estouro das corporações. Castas elevadas à condição de inalcançáveis pelos poderes tradicionais. Se há uma coisa que necessita de tradição é a prática democrática. No Brasil, inovou-se para pior. Negou-se a tradição inaugurada em 1946 e recriou-se a cavilação. Da esperteza nobiliárquica do legalismo, do bacharelismo e do corporativismo “meritocrático”.

Sem falar na manutenção do Jaboticabal da vitaliciedade por força de indicação política. A vitaliciedade só se justifica e se legitima na Magistratura. Só. Fora disso, é contorcionismo cretino das corporações.

Repito o que já disse aqui: O constituinte de 88 salvou sua biografia ao prever, no Ato das Disposições Transitórias, uma reforma geral da Carta após cinco anos da sua promulgação. Seria a forma de corrigir equívocos e chamar à ordem o feito que produziu um monstrengo ao calor do afogadilho. Essa reforma recolocaria a redemocratização nos eixos.

Porém, os mesmos que aí estão, ou por seus descendentes, não quiseram fazer a reforma prevista. São os atores da mesma peça bufa, da mesma burlesca encenação. Em não sendo feita a reforma, chegou-se à senilidade institucional.

Tudo desaguado nessa democracia de cangalha. Estado Democrático de Exceção. Basta ver a excrescência jurídica de tudo ser resolvido pelo Supremo.

Confissão pública dos outros Poderes da incapacidade atributiva. O País entregue ao quem sabe e ao talvez. Só uma Constituinte Originária revogará a exceção e implantará o Estado Natural Democrático de Direito. O resto é salamaleque.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 10/04/2016 - 07:34h

Nem pacífico nem ordeiro

Por François Silvestre

A maior fraude antropológica sobre a natureza humana do brasileiro foi a consagração dessa bobagem de que somos um povo ordeiro e pacífico.

Pra começo de conversa nem somos um povo. Somos um pré-povo, em permanente debandada, socialmente desnutrido e culturalmente embotado.

Quem pensou sobre a nossa identidade, não se arriscou ao apontamento do nosso destino. Sérgio Buarque, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Rui Facó, Câmara Cascudo, Caio Prado, Josué de Castro, Manoel Correia de Andrade, Werneck Sodré e tantos outros só mostraram a nossa face. Às vezes deformada.

Somos violentos e desordeiros. Porém, a “valentia” da nossa índole é de natureza individual. Intrassocial. Em matéria política e de organização coletiva somos cordeiros. Arrebanhados. Valentes no varejo e covardes no atacado.

Todas as ditaduras aqui estabelecidas tiveram o amparo da nossa covardia. Pelo medo ou pela colaboração. E todas elas só caíram após a exaustão da sua própria superação. Nenhuma foi derrubada.

Nunca fizemos uma revolução. Só golpes. Nem reformas nós fazemos. Nossa organização partidária é uma quadrilha cartorial. Cada um em torno de uma legenda que nega o próprio nome e de um programa prostituído de adjetivos.

“A índole pacífica do nosso povo” é uma fraude antropológica. Verso de um poema de vaselina. A entrar no traseiro da incultura.

Fomos descobertos porque estávamos no caminho da ganância dos impérios e da aventura dos corsários. Num entreposto à disposição da ladroagem.

E nunca mais nos libertamos dessa sina. Roubados por portugueses, franceses, holandeses, ingleses e corsários de todos os mares. Depois, dependentes do império americano.

Mas não fica por aí. Os nossos representantes não se prestam à defesa da nossa terra. Pelo contrário, roubam-nos o que sobrou da roubalheira imperial.

Um pré-povo disponível ao saque. Assaltado pelos donos do poder econômico. Pacífico ante os mandões, mas violentos entre si. Ninguém está seguro na pátria da bandidagem. E no falso combate, os fascistas e seus holofotes assinalados.

A criminalidade crescente, sem controle, confirma a negação intrínseca da nossa falsa índole mansa. E quem deveria combater, colabora; na inutilidade festiva da mídia. As ruas são dos bandidos. Encurralados estamos entre a bandidagem e o controle de faz de conta.

Em política, no Brasil, não há correligionários. Há cúmplices. Conchavos eleitorais. Compra e venda. “Eleitos e eleitores” no mesmo forno de assar patifaria. Exuberância de geografia num país de pífia história.

Dizia Darcy Ribeiro que a naturalidade do índio, a tecnologia do europeu e a espiritualidade do africano formariam um grande povo. Resta esperar o futuro.

Constituinte Originária agora ou oportunidade perdida.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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sexta-feira - 08/04/2016 - 11:04h
Primeira Câmara

TCE recomenda ressarcimento à Fundação José Augusto

O Tribunal de Contas do Estado (TCE/RN) determinou, em sessão da Primeira Câmara realizada nesta quinta-feira (07), o ressarcimento ao erário de R$  4.317.413,82 por irregularidades detectadas na execução de projetos culturais na Fundação José Augusto. Foram condenados os ordenadores de despesa da FJA nos anos de 2003 a 2006, entre eles o então presidente François Silvestre, diretores e coordenadores financeiros e administrativos, coordenador de obras e outros servidores, além de empresas prestadoras de serviços.

Jales foi o relator (Foto: Jorge Filho)

Segundo os termos do voto relatado pelo conselheiro Gilberto Jales, acatado por unanimidade pela Primeira Câmara, a equipe técnica da Diretoria de Administração Indireta do Tribunal de Contas encontrou irregularidades na realização de serviços de engenharia, principalmente na construção de Casas de Cultura; contratação de apresentações musicais cuja realização não foi comprovada; e não comprovação da destinação de passagens aéreas.

Engenharia

Em relação aos serviços e obras de engenharia, a equipe técnica do TCE identificou a utilização irregular de R$ 2.172.580,40, a partir de “práticas que se materializaram predominantemente no pagamento por serviços não executados ou valores pagos em quantitativos maior que o devido, ou, ainda, de compra de materiais sem identificação de sua destinação, além de constatado casos pontuais de superfaturamento de preços”. Fazem parte da lista de obras com problemas a construção de 13 casas de cultura e obras no Teatro de Cultura Popular, Teatro Alberto Maranhão, Forte dos Reis Magos, Mercado Público de Martins e no próprio prédio da Fundação José Augusto.

Devem ressarcir os danos ao erário, de maneira solidária, os gestores da FJA à época François Silvestre de Alencar, José Antônio da Câmara Filho, Laércio Bezerra de Melo, Ione Bezerra da Cunha, Cícero Duarte da Costa e Sérgio Wiclife Borges de Paiva, além das empresas ACDLIS, Construtora Aurora Ltda., BASE Construções, Serviços e Projetos Ltda., I&M Construções Ltda., Construções e Empreendimentos Mercantis, Melo Construções Ltda., M.A. Produções e Eventos, e Super Star Promoções e Eventos.

Saiba mais detalhes AQUI.

Com informações do TCE.

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domingo - 03/04/2016 - 06:54h

Ainda sobre a Constituinte

Por François Silvestre

No texto de Domingo, eu deixei de falar nas candidaturas avulsas. No que fui acertadamente cobrado por Haroldo Bezerra, em pertinente comentário.

Em outros textos sobre o referido assunto, sempre coloquei essa necessidade. A Constituinte deve ser Originária e Exclusiva. Isto é, criadora de nova ordem institucional e eleita apenas para esse fim. A ser dissolvida após a promulgação da Carta Magna.

Acrescentei também, noutros textos, que a eleição para a formação da Constituinte deve contemplar candidaturas avulsas, sem prejuízo das candidaturas partidárias.

Essas candidaturas devem representar os setores da sociedade que ficam à margem da vida política partidária. Os não profissionais da política. Porém, não fora dela. Ninguém está fora da política, nem os apolíticos. Todos, sem exceção, vivem politicamente. Que sejam militantes ou distantes do cenário político.

No comentário de Haroldo há uma novidade que eu não havia registrado nos outros textos. É a necessidade de uma quarentena para os constituintes, após a promulgação. Ele sugere “de cinco anos”.

O que isso quer dizer? Que após a promulgação da Carta, os constituintes devem passar um período, estabelecido no Ato das disposições transitórias, sem que se candidatem a cargos eletivos para o Congresso Nacional ou Assembleias Legislativas.

Essa medida justifica-se para evitar o que ocorreu na “constituinte” de 88, com o Congresso constituído transformado em constituinte e depois continuado, sem qualquer solução de continuidade. Deu no que deu. As corporações dominaram a constituinte, manipularam as normas e consolidaram as castas corporativas.

É essa a realidade institucional de hoje. Com sobreposição de prerrogativas, numa confusão de atos e ações que ninguém consegue saber onde começa ou termina a atribuição específica de cada instituição.

O poder executivo legisla vorazmente, por medidas provisórias, e não cumpre eficientemente a tarefa de executar. O Judiciário legisla, na vacância de leis, produzindo normas por via dos julgados. Criando uma jurisprudência legislativa.  E o legislativo, por preguiça ou esperteza, não legisla. Só faz política.

Por justiça ao constituinte de 88, é de bom alvitre lembrar que a Constituição, no Ato das disposições transitórias, determinou uma reforma geral de si mesma, após cinco anos da promulgação.

Não interessou aos senhores FHC, Lula, Sarney, Maluf, Temer e demais donos do poder “mexer” na Carta. Tava de bom tamanho, para o tamanho dos seus interesses. O que resultou na esclerose institucional.

Há normas na Constituição atual que sequer foram votadas. Quem denunciou foi o ex-ministro Nelson Jobim, também constituinte. Ninguém quis apurar a denúncia.

O que falta para a convocação de uma Constituinte Originária? Coragem. Só.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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