domingo - 27/03/2016 - 08:39h

A viuvez do Anarquismo

Por François Silvestre

Numa aula de Teoria Geral do Estado, na antiga Faculdade de Direito da Praça Augusto Severo, o professor Múcio Ribeiro Dantas, constitucionalista reconhecido, fez uma provocação.

Múcio falava com desenvoltura sobre qualquer matéria do Direito. Andava o tempo todo, ora gesticulando, ora com as mãos nos bolsos. Citava dezenas de autores, com naturalidade.

Nessa aula, lembro bem, ele provocou os marxistas da turma. Éramos tão poucos. Pelo menos, os declarados. Leonardo Cavalcanti, Dionary Sarmento e eu.

Dionary era filha de seu Moraes, comunista histórico, dono do Hotel Avenida, próximo à Faculdade. Ali baixava quase todas as tardes, para uma cerveja gelada, o doutor Vulpiano Cavalcanti. E eu, intrometido, fui lá me enfronhando. Liso, da Casa do Estudante, aproveitava a generosidade de Vulpiano.

Dois gostos: o comunismo e a cerveja. Nessa ordem, naquele tempo. Hoje, a ordem se inverteria.

Pois bem. Disse Múcio Ribeiro: “Os marxistas da América do Sul são frustrados, pois o marxismo nunca conseguiu estabelecer-se por aqui”.

Perguntei baixinho a Leonardo: “Você responde ou eu”? Ele disse: “Pode responder”.

Aí pedi a palavra: “Professor, posso fazer uma observação”? Não disse “colocação”, que era a palavra usual da esquerda, nas assembleias.

O Professor era um democrata. Gostava do debate e estimulou minha réplica. Não só permitiu a contradita, como deu sinais de que responderia com facilidade. Ele imaginou que eu iria negar a veracidade da sua observação.

“É verdade, professor. Os marxistas têm a mesma frustração dos constitucionalistas do Brasil, no tempo de hoje”.

Leonardo me olhou rindo, como fazia, com os olhos apertados. E o mestre Múcio, com as mãos nos bolsos, perguntou meio vencido: “Por quê”?

E a resposta com pergunta: “Como ensinar Direito Constitucional ou Teoria do Estado onde não há Constituição”? Foi um reboliço.  A turma formada por grandes figuras humanas, de cuja memória me agrada ter convivido, era bem reacionária. E pra eles a Constituição existia e era sagrada.

O monstrengo de Castelo Branco, que desaguou no AI-5. E serviu de amparo ao torturador Médici.

Foi um constrangimento para o professor Múcio, porque ele tinha consciência dessa verdade. O mesmo constrangimento que tinham Edgar Barbosa, Otto Guerra, Américo de Oliveira Costa, Cortez Pereira, Ivan Maciel. Para citar apenas os jusfilósofos.

Vivemos um quadro constitucional assemelhado. Não de violência política, mas de bagunça institucional. O Brasil, sem governo, é um Estado ganancioso para arrecadar, burocrático para administrar e inexistente na prestação de serviços. Sem segurança, saúde e educação.

Sem falar nos últimos acontecimentos da Quarta-Feira. Constituinte Originária já.

Viúvo, o Anarquismo espera um governo para combatê-lo.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 13/03/2016 - 07:24h

Semana gorda

Por François Silvestre

Foi uma semana de vaso cheio. Hermeneutas de todos os matizes. Até entre togados as questões saíram dos Autos e invadiram a mídia. Um festival de Notas e explicações. Coisa comum na política, mas estranha nas entranhas do fórum.

E quando isso ocorre dá-se aos que devem um refresco na mora. Um adiamento da cobrança. Mas o vaso recebeu colaboração dos dois lados, no embate político. O que se ouviu de estultice não foi brincadeira.

O senador Lindbergh Faria, do PT, disse que a condução coercitiva de Lula paralisou o país. Não, senador. Quem paralisou o país foi seu partido e seus aliados. Um partido que traz no nome o substantivo “trabalhadores” e substituiu o trabalho pela esmola. Adjetivou, na prática, a substantivação que prometeu para substituir o adjetivo “trabalhista”. Vargas saiu ganhando.

Um amigo de Lula, cá do Rio Grande do Norte, com cargo diretivo no Governo do Estado, convocou a militância à violência. Fanatismo. Como se fosse pouca a violência que banha o Brasil, desgovernado por seus ídolos.

Não me convence a condução coercitiva. Uma desnecessidade processual. Contra qualquer um. Produzindo insegurança jurídica e constrangimento pessoal. Pra que a condução forçada se o conduzido pode ficar calado?

O senador paulista e tucano, Aloysio Nunes, que conheço desde os tempos de clandestinidade, em São Paulo, pessoa sensata, deu sua colaboração ao pinico da semana.

Ele disse da tribuna do senado, respondendo ao petista, que tudo o que ocorreu teve a participação das instituições constituídas. E só isso basta para justificar qualquer ato.

Depois afirmou que Dilma Rousseff deve deixar o Poder imediatamente. Nesse caso, dispensando a interferência institucional. A velha prática do coronelismo: “Para o adversário, o rigor da lei. Para nós, a conveniência política”.

E disse mais. Que não há governo no Brasil. É verdade, senador. Nem no Brasil nem em São Paulo. Do Oiapoque ao Chuí. Não há governo. Há uma balbúrdia de sobreposições institucionais, em que não se sabe onde começam ou terminam as prerrogativas de cada Poder.

São Paulo não resolve sequer as questões das escolas secundárias. O Rio de Janeiro literalmente falido. O Rio Grande do Sul, idem. Só uma Constituinte Originária devolverá governo ao Brasil. Segundo Laurence Nóbrega a República já teve câncer em várias épocas, mas agora deu metástase.

Na Ditadura, ninguém estava acima da ordem. A ordem era  estabelecida por um lado. O outro lado era a desordem. Agora, o clichê da moda é “ninguém está acima da lei”. A citação preferida de Demóstenes Torres. O que tem de corrupto dizendo isso não há quem conte.

O que é “ninguém”? É a ausência de todos. Então, ninguém está fora da bela e hipócrita frase. Porém, muitos dos que a dizem, intimamente se excluem. É ou num é?

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domingo - 06/03/2016 - 20:22h

Transplante de realidades

Por François Silvestre

É possível ou há registro do sucesso do transplante de realidades objetivas distintas entre países ou regiões?

No caso do organismo humano, mesmo sendo diferentes as pessoas, há uma chance do transplante pela compatibilidade orgânica. Essa compatibilidade, que vai além da simples afinidade do tipo sanguíneo, permite sucesso ao transplante de órgãos entre pessoas completamente diferentes; na sua fisionomia humana ou social.

A pergunta é: Há compatibilidade “orgânica” no sentido amplo entre países ou regiões que permitam o transplante de soluções para realidades completamente diferentes?

Diferentes nas condições objetivas e mais diferentes ainda no conjunto de ações que permitam esse transplante. Diferenças que vão da cultura, vontade política e recursos financeiros.

Mesmo que haja vontade política, e não duvido, resta saber das afinidades culturais e dos recursos disponíveis.

Refiro-me à iniciativa do Governador Robinson Faria que tenta buscar na Colômbia orientações exitosas na área de segurança pública. Uma coisa é certa: nessa questão de segurança estamos na fronteira do caos.

Basta a constatação dessa realidade para justificar toda e qualquer tentativa. O problema é a possibilidade real desse intento.

A Colômbia vem de uma experiência única na vida institucional latino-americana. Um país dividido em dois Estados, distintos e inimigos, no mesmo território. Um Estado legal, fraco e institucionalmente formal. Outro Estado forte, porém ilegal, sem aparato institucional. De tal forma que até a comunidade internacional aceitava essa aberração com relativa comodidade.

O Estado ilegal tomava conta das regiões mais ricas, produtoras da cocaína e gerentes da criminalidade. Numa promiscuidade sem fronteiras entre a política e a delinquência comum.

E o principal mercado consumidor eram os Estados Unidos. Interessado, portanto, numa solução para o fim da aberração colombiana.

Foi aí que nasceu a saída. Sem mistério. Só grana e muita grana. Ninguém sabe, lá nem cá, quanto a América do Norte investiu ou investe no combate à produção e comercialização de drogas na Colômbia. Dinheiro que gente besta não conta.

Realidades diferentes e recursos mais ainda. Que recursos temos para o transplante?

Robinson Faria é inteligente, corajoso, de boa-fé, arrojado e ansioso. A ansiedade é gestante da criação. Prefiro os ansiosos aos cerebrais metódicos. Os ansiosos criam, inventam, tentam. Os metódicos se aproveitam, remodelam a criação da ansiedade.

Deveria ser proibido tratar a ansiedade. É como arrancar o último pedaço que ficou do umbigo da infância. Lobotomia do umbigo. Ansiedade é temperamento e não doença.

Volto à pergunta: Será possível transplantar soluções da Colômbia para o Rio Grande do Norte? Tomara que dê certo.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 21/02/2016 - 08:52h

O indivíduo manipulado

Por François Silvestre

Nos regimes ditos socialistas a individualidade é rebotalho do “coletivo”, para justificar a falsidade social do regime. E em nome da fantasiosa igualdade todas as brutalidades contra o indivíduo são consumadas. E o coletivo é apenas o ajuntamento de indivíduos atrofiados.

Nos regimes “democráticos” do capitalismo a diferença é de retórica. A prática muda apenas de feição e de feitura. O indivíduo cantado e decantado do liberalismo é tão somente um seguidor do manípulo.

Manípulo é um pequeno feixe da capim, amarrado na ponta de uma vara, que o condutor põe à frente da carroça para enganar o burro condutor. O pobre animal tenta alcançar a ração, que nunca chega ao seu alcance.

O Estado brasileiro é a fisionomia dessa aberração. Qual capitalismo é o nosso? Que nem consegue oferecer as poucas vantagens do capitalismo.

Vejamos: A iniciativa e propriedade privadas são princípios liberais do capitalismo. O brasileiro possui esses bens? A iniciativa privada só é bem sucedida no conluio promiscuo com o Estado. Grandes empreiteiras corruptoras aliciando o Estado passivamente corrupto. E vice-versa.

O médio ou pequeno empresário é prisioneiro da insegurança, da burocracia e da rapinagem tributária.

Proprietários efetivos só ladrões, assaltantes e trambiqueiros. O posseiro honesto apenas pastora a posse precária do “seu” patrimônio. Sob o risco permanente da bandidagem privada e da roubalheira pública.

O Estado atual é o estuário da legalidade corrompida. A Lei é mãe para os donatários do Estado. E madrasta para o restante, que só é parte do todo nas obrigações. O indivíduo é a barata de Kafka.

Povo só é substantivo concreto na presença repressiva do Estado. No momento dos direitos e garantias individuais o Poder transforma a regra constitucional num rolinho de papel higiênico. Que vai limpar o concreto monossilábico.

O resto do todo, que se reparte em pessoas concretas, vira abstração na privada. Cada um de nós é um substantivo abstrato, ante a concretude repressiva do Estado.

O Estado brasileiro é uma patifaria sócio-institucional. Legalista sem a segurança da legalidade.

A mesma Constituição que “garante” a dignidade da pessoa humana como seu esteio, atribui poderes de falsa ética a quem nega a prescrição fundamental.  Fica o dito na parte fundamental descartado pela esperteza do secundariamente estabelecido.

O Anarquismo, que não é anarquia, aponta o dedo acusador contra a bagunça instituída. Contra essa cavilação hipócrita de que há salvadores éticos a proteger um “povo pacífico e ordeiro”. Falácia sociológica.

É o Estado resultante da anarquia institucional, triturador do indivíduo. O dito “interesse público” é o disfarce para a opressão individual. Somos burros de carroça, sem saber pra onde nos leva o manípulo.

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domingo - 14/02/2016 - 11:32h

Microcefalia científica

Por François Silvestre

Ninguém vai extinguir este mosquito. Da mesma forma que ninguém conseguirá extinguir a mosca ou a muriçoca.

Quando Oswaldo Cruz, início do Século Vinte, precisou combater o mesmo mosquito, para erradicar a febre amarela, contou com a sensibilidade política de Rodrigues Alves e Pereira Passos.

Oswaldo Cruz enfrentou oposição virulenta, de vírus do mosquito e dos políticos. Entregou o cargo. Rodrigues Alves não aceitou e mandou que ele cumprisse sua obrigação.

Numa luta impopular usou a força policial para invadir casas. Dedetização forçada, contra a febre amarela. Mas havia outro inimigo. A varíola. Precisou vacinar obrigatoriamente, usando a força militar do governo federal e da prefeitura.

Venceu impopularmente. Não mudamos muito, mas a população evoluiu. Pouco, mas evoluiu. Quem não evoluiu foi o poder político e a pesquisa científica. Involuíram. Andaram para trás.

Eduard Jenner, no Século Dezoito, descobriu a vacina, observando as tiradoras de leite, no contato com as pústulas das tetas das vacas, portadoras da varíola, que não contraíam a moléstia.

Inoculou o pus colhido dessas feridas no corpo de pessoas sadias. E essas pessoas não contraíram a varíola. Mesmo tendo contato próximo com acometidos fatais. Há notícias de “vacinação” antes disso, na China. Com o pó resultante das cascas das feridas, soprado por bambu nas narinas das crianças.

O doutor Sabin descobriu uma vacina oral contra a poliomielite. Eficaz até hoje. A comunidade científica do nosso tempo queda-se pequena ante a inventividade genial do passado.

Ou se descobre vacinas, como fez Jenner e Sabin, sem recursos materiais, porém com inventividade cerebral, ou estaremos reféns de programas “educativos” e panaceias políticas.

Num país tropical, quente, que acumula águas em beiras de estrada e nas fronteiras das matas, ninguém conseguirá extinguir mosquitos. Toda tentativa será a confissão histórica do embuste e do raquitismo criativo.

A microcefalia das crianças nascidas hoje apenas mede o tamanho do cérebro das ações científicas de pesquisa. Que imita a insalubridade política deste Século.

Newton disse que via longe porque se punha sobre os ombros de gigantes. Nem esses ombros têm servido aos pigmeus científicos da era da cibernética.

E ficará da memória apenas a burrice compartilhada. Dos cientistas e políticos, que mesmo nos ombros de gênios, veem menos do que viam seus ancestrais.

E reina o lenga-lenga da mudança, na proximidade da ciência com a ignorância. Perdidos no escuro, a ouvir o tiroteio.

Que sejam pequenos os cérebros do eleitor e dos políticos. Suportaremos. Porém, não venceremos qualquer epidemia se for microcefálica a ciência aplicada do nosso tempo. O mosquito sem cérebro será vitorioso. Até que o organismo calejado se acostume.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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quarta-feira - 10/02/2016 - 18:37h
Cultura e faz-de-conta

Picaretagem continuada

Meu caro Carlos Santos, como não sei o jeito de mandar um texto que publiquei no meu blog, com pedido de repercussão na Coluna do Herzog, faço-o como comentário.

Se achar pertinente, gostaria de vê-lo neste espaço privilegiado do seu Blog.

Nota do Blog Carlos Santos – Meu caro François Silvestre, seu pedido tem sempre meu endosso. Em troca, peço para que reserves uma branquinha no pé do pote em seu endereço, na serra do Martins. Por esses dias esbarro aí em cima. Inté. Abaixo, eis o seu texto:

Picaretagem continuada

Na cultura. Quando edifiquei o Teatro de Cultura Popular (TCP), e digo na primeira pessoa sem contestação dos fatos, Chico Daniel passava fome. Além dele, também estavam abandonados Manoel Marinheiro, do Boi de Reis, e seu Cornélio Campina, do Araruna.

TCP em funcionamento (Foto: arquivo)

Trouxe-os à atividade remunerada.

O Boi de Manoel Marinheiro retornou às atividades culturais sem esmola, com participação digna.

Chico Daniel me chegou acabrunhado. Inclui seu Mamulengo nas atividades do interior. Ele me agradeceu e pediu: “Mande me servir comida mole, pois meus dentes são de mentira”.

Seu Cornélio Campina pediu pra visitar Portalegre, que deixara há oitenta anos. Levei-o juntamente com seu grupo de dança, O Araruna, a Portalegre e outras cidades do interior. Determinei por minha conta e do meu bolso uma feira semanal pra ele.

Volto ao TCP. E vejo um gesto demagógico do Governador Robinson Faria (PSD) mandando ao seu mandado da FJA adotar o nome Chico Daniel como substituto ostensivo do TCP. A mesma demagogia foi praticada por um picareta wilmista.

Chico Daniel merece todas as homenagens. Até de quem nada fez por ele nem pela cultura popular. Mas a Cultura Popular, que dá nome ao Teatro, serve mais a Chico Daniel do que a demagogia e à picaretagem.

Na “reinauguração”, após o abandono, vão cobrir ou arrancar a placa que registra sua criação? Pergunto porque já soube que, nos eventos do governo Rosalba, a placa era coberta com um banner. Placa não faz história, que se faz por ações.

François Silvestre.

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segunda-feira - 08/02/2016 - 08:50h

Lampedusa e tecnocracia

Por François Silvestre

Na Secretaria de Estado do Planejamento fui bem recebido e municiado com uma vasta explicação sobre o programa de implantação de uma prática estratégica de governabilidade. O Secretário e sua equipe têm uma visão de metas que aponta para resultados futuros.

Não cabe aqui avaliar a procedência do esperado. É coisa do futuro.

E a motivação deste texto não cuida dessa avaliação. Nasce ele de uma frase que ouvi do Secretário. “Foi o discurso prometendo um governo técnico que ganhou a eleição”.

Ouvi calado para cumprir uma regra da hospitalidade sertaneja. Quando o dono da casa pede a opinião do visitante, acata a resposta mesmo que dela discorde. Porém, quando a opinião é expressa pelo dono da casa o visitante há de retribuir com a mesma gentileza.

Silenciei, cumprindo a regra não escrita da terra e da gente de onde venho. Deste sertão profundo, cujos galhos da jitirana, ora enfronhados, refazem meus olhos de infância.

Incomodou-me o gentil silêncio. Por quê? Porque o interesse histórico, que é também interesse público, obriga-me a questionar o que me parece retórica do entusiasmo. Ainda mais tratando-se da história política daqui. Dessa terra que carrego no matulão para qualquer lugar aonde me leve o destino de retirante.

Não, meu caro, não foi esse discurso que elegeu Robinson. Foi um conjunto de fatores tão marcadamente convergentes, que o discurso fica na rabeira da fila.

Nenhuma gestão técnica conseguiu salvar qualquer nação na hora da crise ou da guerra. Estamos numa crise, quase guerra, que clama por soluções políticas.

Em matéria de administração ou gestão pública, a técnica há de ser linha auxiliar da política. A intromissão técnica emparedou o sonho de Cortez Pereira.

A vitória de Robinson nada deve à retórica. Foi a rejeição popular ao fantástico acerto de cúpula que ignorou completamente a memória coletiva. Desmentindo outra falácia técnica, de que o povo não tem memória.

O povo cuida das suas necessidades. Pouco importando a retórica, mesmo gostando de discurso bonito.

Um candidato sem máculas, simples, de comunicação fácil, contra um agrupamento de “aliados” que durante três décadas trocaram acusações e insultos. O povo reprovou o ajuntamento “heterogêneo”. Juntos e arrogantes.

A insatisfação popular votou contra aquela “amizade” de última hora. De “inimigos” longevos. A arrogância da vitória antecipada. Robinson soube aproveitar, rejeitando vantagens. Dizer que o tempo é outro é o mesmo que informar o frio do gelo.

Mudança é a mais prostituída palavra de cada governo. Na hora da disputa do voto, os técnicos são dispensáveis. E a mudança decantada é a de “que tudo mude pra que fique tudo do mesmo jeito”.

Da lição de Lampedusa. Il Gattopardo.

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domingo - 31/01/2016 - 10:20h

Bagunça institucional

Por François Silvestre

É pra repetir? Fá-lo-ei: Só há uma saída. Constituinte Originária e Exclusiva. Originária por não dever vassalagem à desordem atual. Exclusiva porque deverá ser dissolvida após a promulgação da Carta. O membro constituinte não legislará pensando na continuidade do seu mandato nem nos seus interesses imediatos.

Este texto não pretende aprofundar a tese aqui exposta. A pretensão é mostrar alguns exemplos da zorra institucional a que chegamos. Não há prova maior de imaturidade política do que justificar essa nossa “democracia” apenas pelo fato de ter substituído uma ditadura brutal.

A substituição foi uma conquista, que não merece retrocesso. É bastante, mas não é suficiente. Ou se aprofunda a democracia ou não amadureceremos politicamente. E estaremos sempre sob a tocaia de pretensos ditadores.

Vejamos alguns exemplos simbólicos que justificam o título. Um Ministro do Supremo faz declarações políticas sobre assunto constante de processo com trâmite na Corte, onde pronunciará voto, antes de conhecer os Autos. Apenas pelo conhecimento das partes.

Isto é, um guardião da Constituição que não respeita a Lei nem o Código de Ética da Magistratura. Quem tem a função de guardar a Carta Magna obriga-se a respeitar todas as leis. Até a que for promulgada por uma Câmara de Vereadores da Gurgueia.

Um filho de Ministro do Tribunal de Contas da União exercendo advocacia de partido, cujo constituinte responde a processos com trâmite naquela corte de contas.

Procuradores de Justiça denunciam o Procurador-Geral do MP/RN, ao conselho nacional, por relação viciosa (sic) com o Legislativo estadual.

Um promotor público, em plena atividade, mete-se em política, elege-se senador, vira paladino da ética, com direito a capas de revistas. Depois, descobre-se que o distinto era um ladrão chapeado. Cassado, volta ao cargo de promotor público.

Os promotores do Ministério Público promoveram uma campanha bela e eficiente para garantir predominância na condução dos inquéritos. Contra essa propositura insurgiram-se os delegados da Polícia Civil.

A campanha do MP foi tão hegemonicamente montada, que os delegados acabaram na solidão dos argumentos. Qual era o norte da campanha? A informação de que a não derrubada da PEC 37 seria a consolidação da criminalidade e da violência sem controle. Cartazes em todos os fóruns. Campanha caríssima. Até os blogs culturais se integraram na luta.

A defesa dos delegados atrofiou-se acanhada, feito cachorro de pobre em casa caiada. Vitória acachapante do MP.

E o resultado? Silêncio. A violência diminuiu? A criminalidade respeita os inquéritos dos promotores? Há inquéritos eficazes para o julgamento e condenação de homicidas? Quantos pra cada lote de cem homicídios?

Só uma Constituinte Originária responderá!

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado  no Novo Jornal.

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domingo - 24/01/2016 - 09:04h

A tolice idólatra

Por François Silvestre

Os ídolos não têm culpa da tolice alheia. Os mitômanos apenas revelam a angústia da sua insuportável pequenez.

Quando esse fenômeno tão comum, que parece natural, atinge o campo das artes, o mal passa despercebido. Mesmo assim, não raramente, até nessa seara ocorrem tragédias por conta da idolatria.

Seja pela inveja que o ídolo atrai ou por outra morbidez de comportamento, sem razoável explicação. Caso dos assassinatos de cantores dessa babaquice de ostentação ou de casos universalmente rumorosos, exemplo da morte de John Lennon.

Essa doença não possui diagnóstico oficial. Nem consta da farmacopeia. É um típico processo psicossocial, de natureza coletiva, que vai da admiração ao fanatismo. E no meio dessas duas pontas abrigam-se inúmeras configurações.

Chega-se à infantilidade ao ponto de alguém instruído lamentar não ter conhecido bem o ídolo venerado após sua morte. Como se pedisse desculpas por não ter sido tão bobo quanto a bobagem geral. E aí enumera outros ídolos, numa indisfarçada compensação.

A idolatria é uma doença que não escolhe culturas nem distingue instrução. É uma espécie de catarse coletiva, onde o anonimato se compensa na visibilidade do idolatrado.

É a sublimação da bobagem. A marca da pré-humanidade, intervalo entre o ancestral microcefálico e o futuro ser humano de cérebro desenvolvido. Esse ser humano, pós pré-humanidade, ainda aparece de forma excepcional.

Sócrates, Cristo, Marx, Gandhi, Newton, Einstein são exemplos de humanos do pós Pré-humanidade. Há outros, principalmente nas artes; uns quanto outros nem tanto.

Porém, nenhum dos citados precisa da idolatria para registrar sua grandeza. Eles próprios não se admiram. Não são seguidores de si mesmos.

Cada geração tem seu código, ensinou Paulo Francis. E todas elas cultivam seus ídolos. Uns sensatos, outros malucos. Uns que nenhum mal produzem e outros que causam destruição. Os tipos são tão notórios que dispensam exemplificação.

As gerações de ontem tiveram ídolos na arte e na luta. Foi o “tempo de guerra, sem sol, da comida na batalha”…como disse Brecht. Que iam de Guevara a Cohn-Bendit. Dos Beatles aos Rolling Stones.

Os ídolos individuais; de James Dean a Elvis Presley. Os ídolos políticos; de Perón a Vargas. Pra não falar na idolatria sangrenta de Hitler e Mussolini. A idolatria é a senilidade da idade teórica.

O movimento Beatnik, de Jack Kerouac a Allen Ginsberg. “Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura”, disse Ginsberg. E daí em diante a palavra loucura saiu do nosocômio para o mundo da criatividade artística.

“O Apanhador no Campo de Centeio”, que nada tem de colheita nem de agricultura, cuida do apanhar disperso da linguagem aparentemente sem nexo, com que Salinger cospe na face infantil dos idólatras.

Té mais.

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domingo - 10/01/2016 - 10:38h

Novamente a primeira chance

Por François Silvestre

Ouvi numa canção de Rock uma frase poética que dizia assim: Não quero uma segunda chance. Mesmo que me seja dada uma segunda vida, quero novamente a mesma primeira chance.

Pois é. Não tive o talento de compor esses versos, mas foi sempre assim que repensei minha vida. Gostaria de uma segunda vida, não de uma segunda chance. Até porque gostaria de ter os mesmos amigos para amar e os mesmos inimigos para desprezar. O mesmo lugar de nascimento, a mesma origem e a mesma família bocó da primeira vez.

Os mesmos mofumbos para me esconder e o mesmo jardim da casa da minha avó. Os mesmos medos para vencer e os mesmos sonhos inalcançáveis. As mesmas molecas que pari e os mesmos paridos delas.

Nem o cinzento da seca eu quero diferente, pois só assim a chuva se faz desejo.

As mesmas dores, para exercitar a tática de vencê-las. Os mesmos atropelos, para afiar o gume de superá-los. E mesmo sem vencer umas ou superar outros, não peço suavidade neles, mas a chance de ter de novo a mesma primeira chance.

Arrependimentos, não. Que é coisa de cristão. E só fui cristão na infância, por indução irresistível. Autocrítica, nem tanto, que é coisa de marxista; e eu o fui, na mocidade, por influência da ingenuidade.

Mesmo assim quero Cristo de novo e novamente Marx, na nova primeira chance. Grandes figuras que nasceram na humanidade errada, ou na pré-humanidade. Ambos deformados pelas seitas paridas dos seus nomes. Nem Cristo era cristão nem Marx foi marxista.

Alguns livros nem abriria, dormiriam antes da primeira leitura. Outros a serem abertos, poucos; pois a vida merece mais vida do que leitura. Não escrever antes dos quarenta, para só renegar a escrita aos sessenta. E rasgar meia página de cada página escrita. E da meia página salva, deixar exposto apenas o último parágrafo.

Apoiar todas as campanhas contra a bebida alcoólica, acompanhado de uma cerveja gelada; para dar testemunho da irresistível hipocrisia. Diminuir o estoque e agradar aos abstêmios.

Aprender todas as rezas de afugentar visagens; durante a noite, e esquecê-las ao amanhecer. Ganhar do jumento a paciência e o tamanho do pau. Invejar por admiração e nunca por despeito.

Olhar de chã e igualdade para os humildes, ombro a ombro. Olhar de serra pra grota, de cima pra baixo, os poderosos. Os falsos ou fáceis arrogantes. Não perder a oportunidade de um peido na presença deles.

Manter distância higiênica do poder. Cuja força esmorece na própria vulnerabilidade. O poder atrai bajulante como mosquito em manga podre. Movediços e siameses.

Manter reclusão na democracia e acender revolta na ditadura. A democracia é uma ditadura alegre. Tão mentirosa quanto. Lutar por eleições e depois votar nulo.

Peço ao infinito surdo uma segunda vida quase do jeito da primeira vez. Numa nova e mesma primeira chance.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 03/01/2016 - 12:06h

Medição do tempo

Por François Silvestre

Não há civilização ou aglomerado humano que não tenha tentado dominar o tempo. E a primeira tentativa de domínio dá-se pela sua medição.

Na conquista de terras, o homem toma posse e mede depois. No caso do tempo, por não conseguir tomar posse, resolve medi-lo antes do sonho impossível de domá-lo.

Os calendários do Sol aparecem em todas as investidas arqueológicas. Na busca pela compreensão de civilizações perdidas ao longo da História.

Essa medição, tentada ou consolidada, combinava o Sol com as edificações na Terra. Os calendários de pedras. Nos aglomerados de povos mais rústicos as fases da Lua faziam a medição.

Ainda hoje há muitos calendários. Mesmo que o nosso contador de tempo, da última reforma do papa Gregório, seja o mais universal de todos. O Calendário chinês fixa-se na relação com os animais, símbolos de uma contagem só deles.

A Índia precisou criar um calendário nacional, dada a existência de quase trinta calendários regionais. E o tempo sem dar satisfação aos medidores.

O calendário ocidental, que nos orienta, vem da civilização latina. Do calendário romano ou calendário de Rômulo, aprimorado por Numa Pompílio, que acrescentou dois meses, no Sec. Oito antes de Cristo. No ano 46, antes de Cristo, Júlio César reformou o calendário. Reduziu defasagens da contagem anterior. No ano 08 da era cristã, Augusto César fez nova revisão. Esse calendário, revisado por Augusto, ainda é usado pelos cristãos ortodoxos.

Em 1582, o papa Gregório XIII fez nova correção. Corrigiu defasagem de dias e horas e alterou os anos bissextos. (de quatro em quatro anos, fora os múltiplos de 100 que não forem múltiplos de 400). O calendário gregoriano guarda uma diferença de treze dias para o calendário anterior.

No calendário romano, antes de Numa Pompílio, o ano começava em Março. Dois meses foram incorporados. Janeiro vem do deus Jano, que era a divindade latina das mudanças. E toda mudança tem outro começo. Fevereiro vem de Fébruo, deus da morte e purificação. Herança etrusca na mitologia latina.

Março vem de Marte, deus da guerra. Era o mês inicial do calendário antigo. Abril é abertura, que significa fertilidade. Vem de Aprus, o nome etrusco de Vênus. A deusa fértil.

Maio vem de Maya, mãe de Hermes, da mitologia grega. Procriação e amor; tempo das noivas. Junho vem de Juno, mulher de Júpiter, e faz as fronteiras do inverno e verão em cada hemisfério.

Julho é homenagem a Júlio César, primeiro reformador do calendário. O nome do mês era Quintiles, quinto mês do calendário antigo. Agosto é homenagem a Augusto César, segundo reformador. O nome do mês era Sextiles, sexto mês do antigo calendário. Os meses seguintes guardam a numeração do calendário antigo. Sete, Oito, Nove e Dez. Setembro…

Que o Ano seja menos violento e o Brasil menos hipócrita. Ao perder o “mais” de vista, torço pelo “menos”.

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François Silvestre é escritor

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domingo - 27/12/2015 - 09:04h

Noite de Festa

Por François Silvestre

Era assim que se chamava a Noite de Natal, aqui nessa chã de serra. A Praça Almino Afonso virava extensão da igreja matriz, em cujos canteiros dona Agá Lemos plantava rosas e seu irmão Pelópidas fazia o pastoramento.

Os altares da igreja eram enfeitados com flores do jardim da casa da minha avó, da casa de Santa de Quincó e do jardim da casa paroquial.

A sala da casa de dona Agá, que também era diretora do Grupo Escolar, virava um presépio imenso. Para as dimensões que veem os olhos de uma criança. Tudo muito iluminado, entre luzes e cores. Ao som triste e suave das músicas natalinas.

A tristeza dessa música é uma catarse da relação com a criança nascida. Pobremente nascida e festejada por reis distantes, de cujos reinos não se têm notícias.  Se agora o embalamos, três meses depois o penduramos na cruz.

Noite feliz, no dizer das canções. Uma felicidade tristonha, embalada pela sílfide toada dos sinos. Media-se a festa pela luminosidade.

Hoje, mede-se pela dimensão das compras. E se o tempo é de restrição aquisitiva, o brilho da festa esmorece. Cá pra essas bandas, onde os Reis Magos perderam o incenso, o clima é de apreensão e escassez de senso.

O comércio investe pouco na atração luminosa. A escassez de água produz um ambiente de quase esquizofrenia. Cada nuvem mais escura que surge ao Sul ou ao Nascente atrai olhares de esperança.

A seca repetida e assustadora deixa o Menino de Nazaré no esquecimento e antecipa as orações para o seu pai adotivo, o bondoso e donzelo carpinteiro. E o santo pede ajuda ao equinócio.

Mesmo assim é momento de festa. Que antecipa a espera do Ano Novo. Mesmo que seja velho o tempo. No caso de Martins, a Noite de Festa precede o início da Festa da Padroeira.

A bandeira da Virgem da Conceição sobe ao mastro no dia Vinte e Sete de Dezembro e desce no dia Seis de Janeiro, exatamente a data dedicada aos Reis Magos, cujos reinos nunca foram localizados. Até o número de “três” é alvo de controvérsias.

Das experiências de chuva ou seca, nessas bandas de cá, há uma que se firma exatamente na Noite de Festa. Se houver relâmpagos na noite do dia Vinte e Quatro, o ano seguinte será de inverno. Caso contrário, é de seca ou atrapalhado.

Luiz de Lulu disse que nos últimos três anos aconteceu exatamente assim: “Não relampeou na Noite de Festa e choveu no Dia de Reis”. Duas “experiências” terríveis.

Vivamos. Pois a graça da vida é laçar e domar dificuldades. E só não envelhece quem morre novo. Que os novos não desmereçam a velhice nem os velhos invejem a mocidade. Cada um, do seu jeito, cúmplice do tempo.

E possamos repetir o epitáfio do Rei, cuja lápide se perde na estepe de um sítio persa e proclama:

“Mortal! Eu sou Ciro. Aquele que edificou o império dos persas. Não invejeis o meu túmulo”.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 20/12/2015 - 10:34h

Reflexões do notário

Por François Silvestre

“Nem sei o porquê desse “n” que se agregou ao nome da minha atividade”. É assim que seu Genaro, tabelião aposentado, refere-se à denominação da sua atividade.

Cáustico consigo mesmo, ao ponto de julgar-se estúpido, seu Genaro prefere pôr em si a culpa dos defeitos que aprecia nos outros. “Essa minha mania de ver nas pessoas as ruindades que são minhas”.

E assim, aparentemente despido de autoestima, vai tecendo com fina ironia o lençol furado que cobre a dignidade dos nossos tempos.

“Você tá vendo o cuidado das nossas autoridades locais com a economia de água”. Comenta ele. “Não se pode furar poços nem se abastecer além do máximo permitido”. Seu Genaro reconhece que é uma boa providência.

Mas pergunta: “Não pode furar poços, mas pode tocar fogo nas grotas”. E ele não tá falando dos incêndios criminosos ou acidentais. Não. Tá falando dos broques “legais”. Daqueles que são preparados durantes dias ou até meses, para depois queimar o pouco que ainda resta da vegetação nativa.

E junto com a vegetação morrem bichos e secam olhos d’água. “Água num pode buscar, mas pode tocar fogo”. Quais são os órgãos oficiais que cuidam da natureza?. “Talvez sejam os órgãos genitais de Zé Pelintra”.

Fora da vida notarial ele guarda mais alívio do que saudade. “Quando vejo um cartório, sinto arrepios”. E conta que ainda hoje tem pesadelos com carimbos. Reouve o senso de humor.

“O fórum e seus cartórios são engenhos de moer malucos”. Diz e completa: “E todos são escravos dos papéis”.

Seu Genaro, nos trinta e cinco anos de vida forense, colecionou cacoetes, tiques e assombrações. Foi do tempo da datilografia, fitas rubro-negras, capas de papel madeira. Estantes de cumaru e cadeiras de palhinhas. O cheiro de mofo mora no seu nariz.

Sua secretária chamava-se Clara. Cabelo preso por uma marrafa e óculos de grau grosso. Conta-se que Tibúrcio a flagrou acariciando o carimbo do protocolo.

Dona Clara arrumava os carimbos em filas, pelo tamanho. Pareciam soldados de chumbo, na batalha estulta da burocracia. O burocrata é um cupim de roer paciência.

Numa audiência de partilha, o inventariante passou mal e pediu: “Posso ir ao banheiro, dona Clara”? Ela não ouviu direito nem levantou a vista; só respondeu: “Faça um requerimento”.

Seu Genaro goza contando dessas. Certa vez ele deu ao inventariante uma relação de documentos necessários para o processo. Em casa, o interessado não conseguiu ler a letra do notário.

Voltou ao cartório. Seu Genaro viajara para Mossoró. E agora? Lembrou que seu Rivadávia, da farmácia, sabia ler letra ruim.

Ao mostrar o papel ao farmacêutico, seu Rivadávia disse: “Esse antibiótico, não tem; só o substituto. O xarope e os comprimidos eu tenho”. Disse e comentou: “Essa letra num é dos médicos daqui”.

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domingo - 13/12/2015 - 13:14h

Caminhão de mangai

Por François Silvestre

Seu Tonheiro ajeitava a boleia, limpando o assento, onde só ficavam ele e o ajudante. Caso aparecesse uma mulher grávida, o ajudante mudava-se para a carroceria.

Lá em cima misturavam-se todos. Passageiros, mangaeiros, bodes, galinhas, porcos, panelas, bacias, arreios. O caminhão saía de Olho D’água do Borges com destino a Caicó.

Os internos do Diocesano Seridoense, moradores da região, eram fregueses de vinda, nas férias; e de ida, ao retorno das aulas. Companheiros de viagem, que não tinham outro meio de transporte.

Feirantes de Umarizal, Olho D’água, Caraúbas, Patu, Brejo do Cruz, Belém da Paraíba, Jardim de Piranhas e Caicó. A saída, no começo da noite. A chegada, dependendo dos pregos, podia ser no começo do dia. Normalmente, sem atropelos, entrávamos na ponte do “Barra Nova” por volta da meia noite.

Seu Tonheiro não conversava com ninguém. Era o ajudante, Juvenal, quem transmitia as ordens. Quando estávamos todos aboletados, que deveria dizer carroceirados, Juvenal subia com uma lona azul dobrada e a jogava na proximidade do gigante. Transmitia as ordens do chefe: “Taí a lona, pro caso de chuva. A banda dela que não tem furo é para cobrir os bichos. A banda furada é pra cobertura do povo”.

Dada a ordem, ele pulava e corria para a boleia. Todos cumpriam. Seu Tonheiro era apenas a síntese da elite brasileira. E ordem é pra ser cumprida. Isto é, pelos fracos. A austeridade não chega à soleira dos que mandam, desmandam ou fiscalizam. Mas isso é outra história.

Juvenal era o fiel escudeiro. Só ficava triste quando via chegar uma mulher buchuda.

Contam que numa dessas viagens, o caminhão quase não chega ao destino. Quebrou logo na saída, obrigando Juvenal a voltar a pé para buscar um mecânico em Olho D’água.

Novamente teve um esquentamento no motor, entre Patu e Brejo do Cruz. Foram horas de espera. Tudo debaixo de uma neblina permanente. Tempo chuvoso, de inverno bom, numa noite de plenilúnio. Escuro de breu. Estrelas de vaga-lumes, na proximidade. E pirilampos no céu distante.

Tempos de florada do mofumbo que espera sugar a seiva doce do massapê do brejo. E a jaramataia fincar raízes no leito corrente dos riachos, que viajam alisando pedras.

Na banda da lona furada, protegiam-se Tião e Dina. Iam para uma receita com o Dr. Isauro, lá do Caicó.

No balançar dos catabis, Dina sentiu duas mãos subindo por suas pernas. Aproximando-se da sua intimidade. Continuou ressonando, para parecer dormindo, pois imaginava ser de Tião aquelas mãos. Sem reação da dona, as mãos ocuparam o corpo. E agora já era um corpo que se arranchava sobre Dina.

Dina chamou: “Bastião”! Tião respondeu: “Oi”… E Dina: “Ocê tá n’eu”? Nova resposta de Tião: “Eu não…tava inté durmino”. Dina falou quase gemendo: “Intão…tão”.

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domingo - 06/12/2015 - 10:38h

Leitura da mão

Por François Silvestre

(Para Naide Rosado e Carlos Santos)

Tudo começou na feira do Patu. E estendeu-se para as outras feiras, numa romaria desassossegada. E tensa. Intensa. Assim foi a paixão de Samuel.

Os ciganos chegavam às cidades e procuravam as fazendas mais conhecidas para pedir arrancho. O Cangaíra, de Messias Targino. O Manuê, de Antônio Suassuna. O Açude Novo, de Chagas. Os Cajuais, de Quinquim Gomes. A Bola, de Silvestre Veras. A Jurema, de Pedro Regalado. Lages, de Oliveira Rocha. Os Campos, de Zenon de Souza. Timbaúba, de Osório Fernandes. A Lagoa, de Manoel Onofre.

E muitas outras. Os bandos liderados por um chefe conversador e convincente, geralmente deixavam marcas de suas paragens não muito recomendáveis. Zé Garcia era o mais famoso deles.

Mesmo assim, sempre conseguiam autorização para novas pousadas. Ninguém sabia a razão dessa leniência dos fazendeiros. Ou se alguém sabia, fazia-se ao desentendido.

A verdade de mesmo, motivadora dessa relação, onde as fazendas quase sempre sofriam prejuízos, não era outra senão a quantidade de ciganas jovens e bonitas. Belas e acessíveis.

“Num sei o que é que fulano tem com esses ciganos. No inverno do ano passado, eles roubaram três burros de carga e venderam armas com defeitos. E ele ainda hospeda essa gente”. Dizia a mulher de um desses fazendeiros.

Ocorre que não era para os ciganos e sim para as ciganas que o marido dela dava arrancho. Os prejuízos faziam parte da artimanha.

Os cabarés, das cidades pequenas, assustavam os fazendeiros. Não por doenças ou custos, mas por medo da falação. O bando arranchado de ciganos era uma mão na roda.

Foi num dia de feira, em Patu, que Samuel conheceu Honoralina, filha de Coralina com o cigano Honorato. Paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura sem rumo.

Aproximou-se e pediu leitura da mão. Ao toque com os dedos suaves da jovem cigana, Samuel nem ouviu as previsões. A vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando a cigana fechou a mão, o ganjão Samuel pediu quase chorando: “Leia mais”.

Na emoção, deixou de ouvir as previsões sombrias. E não deixou mais de seguir o grupo de Honorato, dissidente do grupo maior de Zé Garcia. Os dois brigaram e o grupo dividiu-se.

Estivesse Honorato em Umarizal, lá estaria Samuel. Sempre de mão mendiga a pedir leitura de Honoralina. Em Caraúbas, Pau dos Ferros, Apodi, Brejo do Cruz.

Por não ouvir as previsões de Honoralina, dada a emoção que dominava o corpo, fechando os ouvidos, Samuel não tomou as precauções que a cigana sugeria. “Uma desgraça lhe segue as veredas, ganjão. Desgraça de sangue de faca. Não fique na feira da chapada”.

Naquele Sábado, a discussão no bar de Apodi e três facadas no bucho. Tripas expostas, Samuel agoniza. A dona do boteco aproxima-se. Ele diz a última palavra, com a mão aberta: “Leia”. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 29/11/2015 - 18:34h

A janela de Jacinta

Por François Silvestre

(Para Rubinho Lemos)

Januário nunca se conformou. Depois de dez anos de namoro, dois de noivado e quarenta e cinco de casamento, no que lá se vão quase sessenta anos, ele não conseguiu acostumar-se.

No começo do namoro, anos Cinquenta, era até um bom arranjo. Não fosse aquela mania, mais difícil teria sido conhecer ou aproximar-se de Jacinta.

O pai da moça, coletor de rendas, não dava trela. Sua mãe, dona Fátima, tinha a língua mais temida do lugar. Chegar perto de Jacinta era sonho de muitos daqueles rapazes.

Januário, vulgo Jojoba, era beque da Seleção da Cidade. Domingo com futebol virava festa, se o time recebesse o visitante. Quando a Cidade ia jogar fora, os Domingos ficavam sem graça.

Não havia campeonatos. Só amistosos, que quase sempre terminavam com muito bofete e olhos roxos. O árbitro voltava do campo, quase sempre, mancando ou desfeitado.

Juiz da comarca ganhava pouco e promotor menos ainda. Vereador não tinha salário e prefeitura não era viúva alegre. Polícia impunha respeito e bandido era minoria.

À tarde, o jogo. Porém, desde cedo os jogadores já se vestiam a caráter. Terminada a missa do Domingo, a praça enchia-se. Os titulares desfilavam de bicicleta, ao redor da praça, de camiseta, calção, meiões e chuteiras.

Se aparecia na Cidade um visitante, a serviço ou de férias, e soubesse jogar, seria escalado. Mas era segredo absoluto. Pois um time enxertado não legitimava a vitória. “Só ganhou porque tinha enxerto”, diziam os adversários.

Um desses enxertos, Vicente de Macaíba, trazido por Zé de Ossian, fez sucesso da Cidade. Até Jacinta andou de quebrantos por ele. Um galego alto, lazarino, andava sem tocar os calcanhares no chão. Goleador.

“O time deles tava enxertado”. Disse o treinador de Alexandria, após sofrer uma goleada de três a zero.

Para sorte de Jojoba, um dia Vicente se mandou. Jacinta voltou os olhares para o craque de casa, que não faz milagre nem gol, mas está à mão.

Da janela, Jacinta fez sinal. O primeiro encontro deu-se na quermesse da barraca do Azul, apesar de Januário ser torcedor do Encarnado. Sua emoção foi tal, que o azul avermelhou-se. Ao toque das mãos o tremelico em cima e o tição de fogo embaixo.

Em Jojoba, até hoje, foi sempre paixão. Esmorecida é verdade, mas suficiente para disputar com a janela a preferência de Jacinta. Nesses anos todos, desde o namoro, Jacinta passa suas tardes ali, com os braços na soleira, de olhos na praça.

O nome foi homenagem da mãe, Fátima, a uma das crianças que viram a virgem na Cova da Iria, no Concelho de Ourém. Contrário dela, Jacinta nunca se teceu da vida alheia. Mesmo sendo vítima das línguas enciumadas. Desde os tempos de Vicente de Macaíba.

A janela inferniza o ciúme de Januário. Toda noite, espera pacientemente o sono hospedar Jacinta.

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François Silvestre é escritor

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domingo - 15/11/2015 - 09:36h

As lamas de um país de taipa

Por François Silvestre

Igual à Coluna do Novo, no Brasil tudo é plural. Até a lama, que tem alcances vários. E corre conforme o curso das margens do rio que tudo arrasta, sobre as quais ninguém diz violentas, como ensinou Bertolt Brecht, e só acusa de violento o próprio rio. Nesse vasto leito há lamas para todos os sentidos.

Em Natal há uma família que tem o sobrenome plural de lama. Os Lamas. Tradicional clã; no mundo empresarial, cultural e esportivo da Cidade. Figuras marcantes da vida de Natal. Nada a ver com as outras lamas.

Nem com a lama da natureza. Talvez com os Lamas do Concelho de Braga, em Portugal. (concelho com “c”, correspondente a município, pá) Que nos leva ao Café Lamas, do Rio de Janeiro.

O texto é sobre dois tipos “especiais” de lama. O primeiro, a lama da natureza, que se faz da mistura de água com barro. A lama necessária e indispensável. Muito mais do que o mito hebraico da criação e nomeação adâmicas.

A mistura de barro e água na feitura da casa de taipa. Não a taipa portuguesa, da feitura ibérica. Refiro-me à moradia do Nordeste, arquitetura ímpar. Sala da frente, corredor estreito, cozinha, quarto de dormir, quarto dos filhos, pequena despensa, e latada na frente.

Armação das paredes com mourões de pereiro, estacas de mororós e varas de marmeleiros. Montado o esqueleto da casa, com as varas entrelaçadas entre as estacas, o jogar da lama de barro, umedecido, ainda meio mole, entre as frestas das varas. De forma que essa mistura feito lama vai ocupando os espaços e tapando os buracos.

São os tijolos que saem das mãos do obreiro, sem ter a forma de tijolos. São mãozadas de lama, em rebolos, que vão virando paredes.

Até que a casa se feche. Vedada e segura. Só aí se faz a latada. De barro batido, no piso, para ser lugar de reunião e festa. Coberta de palha, que pode ser da carnaúba, do catolé, do coqueiro ou até da rama de oiticica. Depende da franquia do lugar. O resto da casa cobre-se com telhas.

Ali se reúnem parentes e vizinhos. Toque de fole ou cantoria de violeiros. Cego Aderaldo inventando Zé pretinho. Pinto do Monteiro desafiando Inácio da Catingueira. Zé Limeira dando à mulher do governador um quilo de merda de raposa numa casca de cana piojota.

É dessa lama que se fazem os açudes. Água e barro também, carregada no lombo de jumentos. Antes dos jumentos serem habitantes abandonados das estradas.

A lama que desce das barragens arrombadas de Mariana, mais antiga cidade de Minas, não é culpa da lama. E sim do lamaçal em que se transforma o Brasil, país de taipa. Sem latada.

A outra lama, pior de todas, é a que escorre fedida nos esgotos do poder. E aí somos nós que viramos jumentos, habitantes e deserdados na vastidão do lamaçal. Té mais.

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domingo - 08/11/2015 - 11:22h

A Reprivada do Brasil

Por François Silvestre

(Para Paulo Macedo)

“Como se define o Brasil, de sistema e regime político”? Respondi: “Denomina-se República Federativa do Brasil”. Foi Paulo Macedo quem me fez essa pergunta e questionou minha resposta. “Essa conceituação guarda sintonia com a realidade”?

“Não guarda”! Foi minha resposta. Aí ele me provocou: “Então escreva sobre isso”. Fá-lo-ei, como diria Jânio.

O que significa “república”? Coisa de todos. Nesse sentido não há repúblicas no mundo. Nenhum país do mundo é propriedade do seu povo. E “povo” é apenas uma abstração retórica. O que há são populações desapropriadas das suas pátrias. Umas mais, outras menos. O Brasil é escancaradamente uma propriedade de pouquíssimos.

Basta observar os principais “bens públicos”. Educação, saúde e segurança. No caso da segurança nem os pouquíssimos proprietários a possuem. Pois vez ou outra precisam sair das casas protegidas ou dos carros blindados.

O Brasil só é república na desgraça. Na vida social, econômica, salarial, de laser e cultura, de serviços públicos, o país é uma reprivada. Coisa de poucos. República? Nem teórica.

Federativa? Nunca foi. O que é uma federação? É uma União politicamente organizada, com entes federados constitucionalmente autônomos, os Estados, divididos em Municípios administrativamente independentes, com dignidade financeira.

Em qual desses tópicos se enquadra o Brasil? Nenhum. As constituições estaduais não são sequer citadas nas Ações em que os Estados figuram, ativa ou passivamente. Acima da legislação estadual há inúmeras instâncias federais, todas com competência reformadora.

Sem Estados autônomos não há federação. O Senado, inútil, representa o inexistente.

E os Municípios? Possuem independência administrativa e dignidade financeira? Pobres mendigos de porta de mercados. Com sua baciazinha de queijo do reino, que foi comido por algum desconhecido, de cujo gosto o mendicante nem sente o cheiro. Dependentes e lisos.

A única federação que o Brasil conheceu foi num intervalo da primeira república. Federação de dois Estados, que por força da aristocracia agropecuária fez de São Paulo e Minas os donos da União.

Reprivada desfederada é o que somos; com todos os sentidos que a expressão comporta. Do nome, sobra a homenagem à tintura do pau: Brasil.

Saída? Uma Constituinte originária e exclusiva, sem qualquer amarra com a desordem vigente. Recepcionando apenas as conquistas libertárias e sociais, que não saíram do papel.

Ou então se repristine a Constituição de 1946, acrescida do artigo 5º da carta de 88. Sem medo de enfrentar as castas estabelecidas e calcificadas. Essa bagunça institucional serve ao corporativismo e ignora a sociedade, que as corporações dizem defender. Só dizem.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 01/11/2015 - 04:25h

Rareiam as sombras

Por François Silvestre

Se no sertão, em pleno inverno,

a sombra é rala,

imagine o sol espantando a sombra

na seca farta.

Do juazeiro nem se cobra,

pois juazeiro já não há.

A oiticica, sempre de sombra escassa,

descasca agora o sol das folhas.

E nem as folhas da jaqueira,

cá na serra,

escondem os retalhos da sombra

que se rendem à luz do sol.

Pior que a seca das nuvens de ontem

só a secura dos homens de hoje.

Cuja sombra é sujeira da luz

E cuja luz é mentira das sombras.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 25/10/2015 - 07:43h

A dura escritura

Por François Silvestre

(para Águeda Zerôncio e Eva Barros)

Não se trata da prática notarial nem dos traslados cartoriais. Muito menos da prática burocrática, seja das justificativas ou dos requerimentos. Não. Isso aí não é escritura, na dureza do escrever, ou na arte de tentar substituir o ruído sonoro dos fonemas.

Trato aqui da escritura doída a que se referiu Clarice Lispector. “Antes de mais nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura”.

Em Clarice a dureza da escrita não era dificuldade na criação. Era a impossibilidade de espantar a dor íntima que fluía intensa no texto tenso.

De sua terra, na distante Ucrânia, dizia ela nunca ter posto os pés, nem para sair, posto que o fizera ainda no colo. E se fez recifense de pátria adotiva. Ao passar por Natal registrou: “Essa cidadezinha sem caráter”. De Brasília: “Uma prisão a céu aberto”.

Num veraneio de Muriú, Guida Zerôncio preparava a pós-graduação com base na obra de Clarice. Lacan e a ucraniana roubaram a cena naqueles dias. Até Omar Guerreiro, desligado da literatura, mas muito inteligente, fazia citações de “A Hora da Estrela” e “Perto do Coração Selvagem”.

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Se há um arquétipo que ateste a conceituação de Lacan sobre a fotografia do inconsciente que o texto produz, esse modelo é Clarice. E na poesia, Zila Mamede.

Em Graciliano Ramos a dureza tinha duas dimensões restritivas. A restrição humana do Sertão e a necessidade de enxugar a linguagem. Na sua obra mais popular, ele depenou até o título. Retirou a grandeza substantiva de “O Mundo Coberto de Penas” para a escassez adjetiva de “Vidas Secas”.

Guimarães Rosa plagiou de garimpo o som vocálico das andanças, na voz dos modelos eleitos por seus ouvidos de nhambu. “Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que fui o primeiro que cri”.

Ao seguir essas veredas, o moçambicano Mia Couto confirmou Lacan: “O tiro certeiro sempre carrega algo de quem dispara”.

O autor fotografa o texto, mas é o texto quem o revela. Quando a escrita for apenas palavras postas, sem o condão da “dura escritura”, o texto será um daguerreótipo com a lente tapada. A revelação revelar-se-á uma mancha escura.  Uma coisa é escrever. Outra é redigir.

“Na várzea grande do Capibaribe, durante o mês de Agosto, reúnem-se em Congresso todos os ventos do mundo”. Joaquim Cardozo, mestre do cálculo matemático e da poesia aritmética. Dizia ter vindo para uma estação de águas nos olhos da paixão.

Mário Quintana, que a Academia de Letras rejeitou, foi bem maior do que a imortalidade das pompas infantis, cujas rimas das crianças foram as primeiras inspirações do poeta. “Procurando os seus guardados no fundo de uns baús inexistentes”.

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François Silvestre é escritor

* Originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 18/10/2015 - 14:10h

Auto-retrato

Por François Silvestre

Essa coisa de auto-retrato é uma prática dos pintores. Tenho inveja deles, pois nunca consegui pintar um nariz de frente. Mesmo que D. Raimunda Barreto, minha professora primária no Grupo Almino Afonso, tenha tentado muito. Não teve jeito.

Depois, já no ingresso do segundo grau, um professor de desenho me disse que eu iria sofrer muito na vida por não conseguir compreender, fora do plano, um decaedro.

Já sofri muito na vida, não mais do que gozei, mas nenhum dos meus sofrimentos se deu por causa do decaedro incompreendido. Ou não rebater um poliedro.

Outra inveja, a música. Sou o que se chama no sertão um peido n’água, em matéria de afinamento. Afinação nula, ouvido rombudo.

E aí sobrou a escrita. Mesmo assim, precária. Vez ou outra descubro o decaedro pentelhando o desenho das frases e o ouvido desafinando a sonoridade metafórica.

Se fizesse um júri, nesse julgamento pessoal. Seria um promotor relapso e um defensor esperto. Como se estivesse jogando e roubando no jogo da paciência, do baralho.

A acusação: Sou vaidoso e me acho bonito. Fujo do espelho, pra evitar decepção. Sou pretensioso e me acho inteligente. Fujo dos intelectuais para evitar o desmentido.

Sou impaciente. Quando fui candidato fingi paciência pra ganhar votos. Não adiantou. Foi uma mentira ineficaz.

Não visito doentes, não vou a enterros nem visita de cova, não visito presos. E olhe que já recebi visitas na cadeia e nos hospitais. Só falta recebê-las no cemitério. Mas não tenho pressa; quem quiser pode ocupar meu lugar na fila.

Sou egocêntrico. Acho-me morando no centro do Universo, mesmo cercado pela minha própria estupidez e pela burrice nativa que me irrita e amofina. Giram em torno deste meu centro uma galáxia de passarinhos, fruteiras mortas, broqueiros idiotas e notícias ruins nos jornais televisivos.

A defesa: A ganância nunca me motivou. E olhe que a ganância honesta, de quem trabalha para justificá-la, não merece crítica. Merece aplauso. Mas não consegui fazer da ambição uma motivação de vida.

Não hospedei a avareza. Sempre fui esbanjador, mesmo esbanjando pouco, pois nunca tive muito. Se muito houvesse, eu seria generoso. Em sendo pouco, sou apenas estroina. Moderadamente, com cautela.

Dizia Sêneca que “ao avarento falta-lhe o que tem e o que não tem”. A única avareza respeitável é a do dinheiro público, exatamente onde o Poder que o guarda não o guarda. Rouba-o.

Tenho o maior número de melhores amigos do mundo. E desafio quem os tenha tanto quanto eu. E da minha família, não me exibo para evitar quebranto.

E assim dito, senhor Juíz, neste júri simulado, resta pedir a condenação. Para que, serenamente, a sentença reflita, na sua motivação, o direito negado às provas do acusador. Nos termos em que requer deferimento.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

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domingo - 11/10/2015 - 09:03h

A ciência da história

Por François Silvestre

Todas as ciências são de origem natural. Menos uma. Sim, porque há uma ciência de origem cultural. Isto é, criada pela ação humana. E mesmo assim essa criação humana não ocorre de forma controlada ou consciente. É a História.

Não se confunda História com historiografia. A História é o resultado da ocorrência das relações humanas; que vão desde os desdobramentos das conquistas naturais, sociais, políticas, de conhecimento, de arte e do pensamento. A historiografia é uma disciplina histórica, narradora, limitada pelo ponto de observação do historiador. A História produz o fato. A historiografia narra ou interpreta o fato histórico.

Possuir leis e disciplinas é a marca configuradora das ciências. A numismática, a heráldica e a historiografia são algumas das disciplinas da História. A imutabilidade do fato ocorrido é uma lei da ciência histórica.

Na História, o fato ocorrido é único e imutável. Na historiografia, um mesmo fato pode acolher várias versões. Dizia Thomaz de Aquino que “contra o fato ocorrido nem a interferência de Deus tem eficácia”.

O mais que se pode fazer contra o fato ocorrido é conjecturar. Imaginar ou supor consequências diferentes caso o fato houvesse sido outro e não o que realmente aconteceu.

Exemplos de conjecturas? Se Lott houvesse vencido Jânio Quadros, em 1960, não teríamos tido uma Ditadura militar. Se JK houvesse sido eleito, em 1965, o Brasil seria outro país.

Hegel afirmou que fatos e personagens da História repetem-se em épocas diferentes. Marx, na abertura d’O 18 Brumário, confirma essa assertiva de Hegel, mas observa que na repetição, de fatos ou pessoas da História, esta se dá com o segundo fato ou personagem sendo a farsa do primeiro, que foi a tragédia.

A redemocratização advinda pelo fim da ditadura Vargas deu-se com sucessivos fatos trágicos. Dentre eles, o suicídio de Getúlio, a renúncia de Jânio, a deposição de Jango. Foi a tragédia.

A redemocratização nascida da negociação de milicos, pelegos, raposas e similares, é a farsa. Vivemos a farsa de hoje, que repete uma caricatura da tragédia de ontem.

Na tragédia, estabeleceu-se um governo provisório para preparar a democracia. Foi o Presidente do Supremo, José Linhares, que governou por três meses.

Na farsa, o governo provisório durou cinco anos. Sarney foi a farsa de Linhares. Collor, a farsa de Jânio. E Lula é a farsa de JK. Ninguém ainda quis ser a farsa de Getúlio.

O Congresso Nacional de 1964 foi vencido pela força dos tanques e pelo conluio do fascismo civil com os quartéis politizados. O de hoje é a quitanda das leis.

A farsa nem sempre é mais suave. A Ditadura militar, implantada em 64, farsa do Estado Novo, foi muito mais sangrenta e brutal. A farsa, neste caso, pariu a tragédia da farsa que somos.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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