domingo - 27/09/2015 - 05:46h

A política na vida

Ou a vida na política. Impossível nas relações da vida a ausência da política. Posto que sua interferência na convivência humana independe da nossa vontade.

Assim como ocorre na fisiologia orgânica, cujas necessidades estimuladas, manifestadas na vontade, fogem do nosso controle; tanto na intensidade quanto no momento escolhido pelo organismo.

É bem verdade que aqui não se fala de política estritamente eleitoral, partidária ou participativa. Essa sim, pode ser descartada pela vontade ou enfado. Porém, a política, no sentido amplo do conviver familiar ou social, está presente de forma tão indispensável que nem notamos. Da mesma forma que não percebemos o ar ao respirarmos. Só sentimos sua falta no afogamento ou na asma.

Politizar-se é uma forma de aprimoramento da dignidade. Seja pela participação ostensiva ou pelo simples observar conscientemente. E essa observação consciente se dá pela crítica.

A crítica é o mecanismo instrutivo que liberta. Da lição de Karl Marx: “A crítica não pretende enfeitar as grades, com flores, para atenuar o cárcere. Mas quebrá-las, para a colheita da flor viva”. Inclusive para quebrar amarras ideológicas. Marx não era marxista.

O que tem produzido certo enfado, ou até mesmo asco, com a prática política é a deformação do seu exercício, piorada a cada pleito. De tal forma que leva suas consequências ao embate primitivo das campanhas. Nesse teatro onde viramos ancestrais dos símios. De moderno, só o jogo das moedas.

Torcidas organizadas de times de pernas-de-pau. O que garante à demagogia a dominação do mando. E asseguram aos inquilinos dos palácios um atestado de quase usucapião.

Mesmo estando presente em tudo, na vida, a política não é ciência. Colega do Direito, no campo da arte/técnica. Para que um conjunto cognitivo se configure ciência é imprescindível a presença de Leis. O que há na matemática, física, química, biologia.

No Direito e na Política não há Leis. Há normas. A Política produz normas e o Direito as aplica. É uma impropriedade semântica a expressão “cientista político”. É comentarista de política. A sociologia não é ciência; não há Leis nas relações sociais e humanas. Só normas, jurídicas ou consuetudinárias.

Há uma linha tênue e invisível que une a política à literatura. Toda ela no campo da ficção. Poucos romancistas conseguem inventar roteiros tortuosos e falsos quanto os políticos. Se bem que estes estão mais para mentirosos do que ficcionistas.

É raro o país que consegue o milagre brasileiro de sobreviver à instabilidade institucional. Onde a vaidade dos membros das instituições as reduz ao tamanho do ridículo individual.

Quanto maior o ego dos componentes, menor a eficiência da instituição. Para essa gente, a exigência de impessoalidade, na Carta Magna, só serve para o povão. Não se aplica aos pavões.

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* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 13/09/2015 - 08:44h

A língua de Camões

Por François Silvestre

(Para Francisco Nunes e Sueleide Suassuna)

“As armas e os barões assinalados/ Que da ocidental praia Lusitana/ Por mares nunca dantes navegados/ Passaram ainda além da Taprobana/ Em perigos e guerras esforçados/ mais do que prometia a força humana/ E entre gente remota edificaram/ Novo reino que tanto sublimaram”.

Foi assim que Camões começou duas aventuras épicas. A intencional: de responder a Homero que fincara nos versos a aventura dos gregos e a Virgílio, que cumprira papel semelhante na origem da aventura latina.

A segunda foi uma decorrência não intencional: a estruturação esquelética de um idioma. A “última flor do Lácio, inculta e bela”; do dizer de Bilac. Que responderia ao ser interpelado: “ora direis ouvir estrelas”.

Era o português uma algaravia, desde 1139, que se confundia com o galego, a linguagem da Galícia. Ganhou contorno morfológico com a obra teatral de Gil Vicente e o Cancioneiro de Garcia de Resende. Porém, foi a épica camoniana que teve o mérito de criar o arcabouço sintático da nossa língua.

Os Lusíadas, muito mais do que a louvação heróica das aventuras marítimas, é uma fábrica de metáforas. O forno que modelou uma forma de compor versos, na língua nova.

A metáfora consegue remodelar o conteúdo opaco para fazê-lo brilhante, na forma recriada. Não fosse ela, a poesia seria apenas uma repetida composição de rimas. Sonoridade vocálica, pobreza poética.

A rima, em Camões, é pobre. Combinando mais das vezes desinências verbais. A metáfora, não. E é delas que ele tira a tintura dos versos para engrandecer pequenos atos. Ao dar-lhes feição maior do que o gesto.

A aventura grandiosa da circunavegação Lusitana vai se desenrolando ao apelo das metonímias mitológicas. Com a cumplicidade de Vênus e Marte, sofrendo a oposição de Baco e Netuno.

A metáfora, diferentemente da comparação ou metonímia, produz poesia. Ela é a rainha das figuras na composição de estilo. Dando nós onde há linha lisa e alinhando a linha onde há nós. A Metáfora é a fada da poesia. Mesmo que seja poesia de pedra, rústica ou polida.

Dante, Shakespeare, Neruda viveram das metáforas. E deram vida à poesia nossa de cada dia. O resto não é resto, é metáfora do que resta da sobra.

Nunes e Sueleide sugerem tópicos. Quando se escondem os verbos nos porões da zeugma ou se omitem os nomes, nos escaninhos da elipse. Aí não se pode esquecer a política nossa de cada noite.

Só que a metáfora na política é a tentativa de esconder a verdade, muitas vezes feia, para vender a mentira falsamente bela. E o povo, metáfora da abstração, deixa-se enganar concretamente na mesma cumplicidade da metafórica democracia de faz de conta.

Com a permissão do cancioneiro moderno, ouso repetir: “Quero roçar minha língua na língua de Luís Vaz de Camões”.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 06/09/2015 - 09:14h

Parágrafos e desmontes gramaticais

Por François Silvestre

I- Parágrafo significa “deixe de escrever bobagem e pare por aí”? Se não, deveria significar isso mesmo. Aqui não se trata dos parágrafos da Lei, até porque Lei aqui, na terra de Cabral, é tudo desprovida de parada sensata; onde há Lei pra tudo e cumprimento pra nada.

II- O parágrafo tem o condão de reduzir o tamanho do texto, resguardando do leitor o custo do cansaço, mesmo que enganadamente.

III- Assim como a pontuação, mesmo que eu não coma pontos, o parágrafo evita que o leitor morra sem fôlego ao ler texto longo, ou escasso de vírgulas, com assunto chato, cansativo, repetitivo, cheio de lugares comuns capitalistamente comunistas.

IV- O ponto encerra a frase, que se encerra no hino chato e nunca à terra desce, por falta de teto de aterrissagem; seja por excesso de sol ou falta de água. Ou vice-versa, sem ser vice.

V- O período agasalha as orações, ave Maria e pai nosso, para enganar o sujeito, esconder o predicado e desviar a atenção dos complementos e adjuntos.

VI- O sujeito é o povo, sujeitim ruim de roer, que se mete a querer cobrar a conta dos predicados, coitados, que tanto se esforçam pra esconder a grana colhida com sacrifício e artifício extenuantes.

VII- Os predicados, múltiplos, que vão de ladrões incompreendidos, até investigadores faroleiros, levam dos sujeitos toda a força retórica da análise sintetizante. E deixam os sujeitos mais pobres, bestamente satisfeitos.

VIII- E sujeitos que não assumem a propriedade da sua terra, se enterram na vala dos complementos. Complementos nominais sem domínio e sem nomes. Adjuntos adnominais.

IX- O país vira oração subordinada, no período composto por insubordinação. Reduzido de infinitivo, na infinita beleza geográfica e reduzida moral da sintaxe política.

X- A reforma ortográfica retira acentos das palavras, mas preserva assentos à corrupção, onde cada um tira sua vírgula do pronome reto e põe o reto do povo no meio do ponto e vírgula.

XI- Na oração subordinada adverbial temporal, o país é a circunstância fora do tempo. Do governo que inventou um mentiroso tempo novo e da oposição que reinventa seu tempo velho. E o sujeito, reinventado adjunto, perde-se entre parágrafos que não param de mentir.

XII- E se são doze os apóstatas, que dos apóstolos se desmancharam em templos de enganação, a venderem lotes no céu, os da morfologia política tomam posse dos seus lotes, de cavalos e éguas, no meio do pátio de orações e processos. Tudo regiamente pago pelos adjuntos adnominais que se julgam sujeitos da pátria de lama.

E assim, gramaticalmente considerados, vamos repetindo o mesmo ramerrão da sístole e diástole que movimenta nosso coração de jegue. Expostos à intempérie da esperteza dos moralistas, à sagacidade dos manipuladores da ética e à sabedoria dos ladrões.

Ponto parágrafo.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

 

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domingo - 30/08/2015 - 08:56h

A nascente de Ti’Orácio

Por François Silvestre

(Para Orlando Martins)

As noites do Carnaubal, escuras como breu no novilúnio, nos assustavam. E se ouvia o esturro da onça, que vinha das bandas do Queitatu de Pedro Martins. Negação da luz do plenilúnio. Os chocalhos das vacas de leite nos enganavam o medo.

Na manhã, o cheiro do curral nos invadia. O leite mugido. Cada um de nós com sua caneca de ágata, devidamente abastecida de açúcar. De uma vaca com tratamento especial. A única com o úbere banhado de água e sabão. Ordenhada por Paulo de Catarina, que também enxaguava as mãos. Ordem do Pe. Alexandrino.

O restante do leite seria tratado na fervura. Parte para o uso diário e coalhada e a porção maior para o queijo. O queijo, de manteiga ou coalho, era a única renda da fazenda. Vendido para feirantes, que vinham aos Domingos.

O queijo de coalho tinha fácil feitura. No leite, era posto um coalho de mocó. Após coalhar, ia para um saco, que se pendurava num caibro para escorrimento do soro. No dia seguinte, a coalhada escorrida passava por um cozimento no próprio soro.

Depois de salgada era colocada num chincho, onde se ia banhando com soro fervente e imprensado com as mãos, até que a massa do queixo ficasse o mais seca possível. Quanto mais enxuto, melhor o queijo.

“O queijo de manteiga tem ciência”, dizia Sergina. Só ela merecia a confiança de Paulo para fazê-lo. O leite é coalhado pelo soro da coalhada anterior. Depois, a coalhada escorrida é cozida no leite e espremida nas mãos.

Após isso, estando ela bem seca, será cortada, salgada e levada a um tacho que repousa numa trempe de fogo brando. Nisso, tem-se que observar a temperatura do leite, a quentura do tacho e o espalhar da coalhada na manteiga. Com uma colher de pau, de cabo longo.

O queijeiro vai reduzindo ou aumentando o fogo. Depois pondo a manteiga, na medida em que o queijo vai pedindo. Até que ele começa a devolver a manteiga, informando que chegou ao ponto. Só aí é que vai para o chincho.

Voltemos ao leite mugido. Cada caneca era entregue a seu dono com a espuma sangrando nas bordas. Com a observação de Paulo: “beba tudo pra soltar o vento”.

Era a função laxante. Ti’Orácio sofria de uma crônica prisão de ventre, que o infernizava por toda a vida. Menos numa época. Quando da parição das vacas, em Cajuais. Nos primeiros quinze dias, o leite só serve para os bezerros. É o colostro. Um líquido amarelado e grosso que previne doenças nos mamíferos recém-nascidos, para cada espécie.

O colostro de vaca, para o ser humano, é um purgante violento. Era o que queria Ti’Orácio. Após uma caneca de colostro, corria para um serrote de pedras e despachava o guardado.

Era a nascença da caganeira a fazer um córrego de alívio. A política brasileira é o intestino de Ti’Orácio; só funciona  na mamação da bezerrama.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 23/08/2015 - 20:55h

Os aruás da Lagoa do Carnaubal

Por François Silvestre

O pequeno sítio, próximo da grota do Cumbe, no Martins, servia de refúgio para a reclusão do Pe. Alexandrino Suassuna.

Ordenara-se em São Paulo, cuja liturgia deu-se na Igreja de Santa Ifigênia. Fora vigário de Serra Talhada e Reitor do Seminário de Pesqueira, em Pernambuco. Voltando ao Rio grande do Norte assumiu várias paróquias. Campo Grande, Caraúbas, Lages, Goianinha e Macaíba.

Ainda jovem, largou a vida sacerdotal e enfurnou-se cá na serra. Criava três meninos. Oziel, de Macaíba; Pedro, de Santa Maria e eu. Dos três, eu era o único parente. Pois era ele irmão da minha mãe.

Neste sítio vivi meus primeiros oito anos. Até sua morte, de infarto, aos quarenta e nove; na sombra de uma touceira de Açaí, enquanto cortava maniva para as vacas de leite.

A principal sala da casa era sua biblioteca, onde seus livros se misturavam com meus brinquedos. Bolas, baladeiras e carrinhos nas lombadas de Thomaz de Aquino, Santo Agostinho, Camões, Bocage, Goethe, Theilhard de Chardin, Fustel de Coulanges, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Ovídio, Dante, Virgílio, Platão, Aristóteles… Gente que ainda hoje me parece não ser gente.

Além do sítio, ele possuía duas propriedades no sertão. Uma banda de Cajuais e a fazenda Carnaubal, onde criava gado, ovelhas e bodes.

Guardo do Carnaubal lembranças dispersas. Mais das viagens. Íamos juntos, Papaim e eu. Em Petróleo, um enorme cavalo pampo. De ancas largas, tinha uma baita garupa. Ele ainda a deixava maior, ao pôr a sela mais para frente. Punha uns coxins, deixando tudo muito confortável. Inventou umas cilhas de sola que me seguravam à parte traseira da sela.

Oziel e Pedro, já adolescentes, tinham montarias próprias. Descíamos pela ladeira do Cumbe; passávamos pelo Sanharão, Viçosa, Pedras Ferradas, até o Carnaubal.

O casal Paulo e Sergina tomava conta da fazenda. Lembro-me dela com a barriga enorme, de cujo parto veio a falecer. Papaim trouxe Catarina, mãe de Paulo, para ocupar seu lugar. De Catarina nunca se viu a cabeça. Sempre envolta numa espécie de lenço, que lhe cobria até as orelhas.

Havia muita conversa sobre isso. Uns diziam que ela ficara precocemente de cabelos brancos. Outros, que seus pais lhe mudaram o nome após o batizado; o que provocara a queda completa dos cabelos. Certa vez lhe perguntei: “Papaim, é verdade que Catarina perdeu os cabelos depois do batismo”?

Olhou-me de cara feia. Depois, riu e respondeu: “Você quanto mais cresce mais besta fica”.

A lagoa do Carnaubal espelhava o sol, empurrando pequenas ondas, que serenamente espumavam franjas brancas a banhar os coloridos aruás. Deles eu pinto a memória, na forma de casas ocas onde habitaram lesmas.

De lá pra cá, o que mudou? Parei de crescer, mas continuo cada vez mais besta.

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domingo - 16/08/2015 - 08:06h

A ética da conspiração

Por François Silvestre

As eleições presidências de 1945, após a queda do Estado Novo, foram realizadas sob o comando constitucional da Carta de 1937. Essa constituição foi um diploma de inspiração fascista, elaborada por Francisco Campos, que “evoluíra” do positivismo de Comte para o fascismo ítalo-brasileiro.

Ela serviu ao projeto político de Vargas, com o fim da federação e implantação de um Estado unitário. Cuja consecução deu-se simbolicamente com a queima das Bandeiras dos Estados.

Hoje, a diferença é mais de forma e menos de conteúdo. Continuamos a ser uma Federação de mentira, sob o amparo de uma Direita obtusa, que promete ética e entrega hipocrisia; e uma Esquerda confusa, que promete progresso e entrega esmola.

As eleições foram disputadas pelos novos Partidos. O PSD, de inspiração getulista, com sustentação conservadora e base eleitoral no coronelismo e na vida rural. A UDN, de inspiração no liberalismo americano, com força nas camadas urbanas, também conservadora e refratária às transformações sociais. O PTB, getulista puro, aliava-se ao PSD, assumindo o comando do trabalhismo urbano. Indo do sindicalismo ao peleguismo. Tudo brasileiramente macunaímico.

Pois bem. A Carta de 37 não previa a figura do Vice-presidente. A coligação PSD/PTB derrotou a UDN. O candidato do PSD, General Eurico Dutra, que fora o sustentáculo da Ditadura Vargas, derrotou o Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato dos udenistas.

Ocorre que a Constituinte de 46 restaurou a investidura da Vice-presidência. E à própria Assembleia foi delegada, por legitimidade natural, a prerrogativa de eleger o Vice-presidente.

Nem precisa dizer que a briga de foice, na penumbra das conspirações, típicas da nossa formação política, foi deflagrada nas mumunhas do poder. O PSD lançou o nome do Senador catarinense Nereu Ramos, que não gozava do afeto pessoal do presidente Dutra.

Os dissidentes do PSD, sabendo dessa desafeição, conspiraram com os udenistas para derrotar Nereu. Dissidência política, no Brasil, não se dá por amor à pátria. Mas por interesses pessoais. Taí Eduardo Cunha que não me deixa mentir.

Esses insatisfeitos procuraram Dutra e informaram que se eles lançassem outro candidato, da ala dissidente do PSD, teriam os votos da UDN e derrotariam Nereu Ramos.

Eurico Dutra, que ouvia muito e falava pouco, ouviu de ficar rouco. Depois falou: “Os senhores não tem o meu aval. Minha orientação é que votem no Nereu”.

Ante a perplexidade dos “dissidentes”, Dutra lecionou: “É verdade que eu não gosto do Senador Nereu Ramos. Mas a UDN o detesta muito mais do que eu.

Se o Vice-presidente for alguém suave à UDN, ela vai conspirar todos os dias para me derrubar. Se for Nereu Ramos, eu ficarei tranquilo, pois A UDN não vai querê-lo no meu lugar”. Assim foi e Dutra governou sossegado.

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domingo - 09/08/2015 - 10:12h

República de Retalhos

Por François Silvestre

O Brasil não teve ainda uma República alicerçada na estabilidade ou duradoura em continuidade. Se o nosso Império foi superficial e pomposo, a nossa República tem sido um cipoal de fragmentos históricos que oscilam entre o populismo e o autoritarismo.

A vida republicana do Brasil está longe da maturidade política. Sem desmerecer por completo a historiografia, porém dando a ela rédeas curtas, o pesquisador de história política precisa manter acesa a chama crítica.

Deve-se valer das fontes historiográficas com parcimônia e cautela; pois a historiografia perde muito da compreensão dos fatos na mediada do seu controle pelo poder instituído.

Daí porque a colheita de informações nos depoimentos de contemporâneos de cada época; pensadores, políticos, jornalistas, memorialistas, textos literários, reportagens ou registros documentais merecem mais perquirição do que a historiografia curricular.

A cátedra de História, no Brasil, sobre a vida política brasileira ainda patina na adolescência da idade teórica. Mesmo que seja um país riquíssimo, como poucos, em contrastes e convulsões na sua vida. A historiografia confunde muitos desses episódios com revoluções. Um equívoco que merece reparo. Até Hélio Silva, o maior historiador da República, comete essa confusão. Houve levantes, golpes, convulsões. Revolução, nenhuma.

A inexistência de Revolução, aqui constatada, não significa diminuição de importância histórica. Pode-se afirmar que as revoluções, na história da humanidade, não trazem um currículo de dignificação humana.

A Revolução Francesa desaguou em Napoleão e no retorno a uma monarquia pior do que a anterior. A Revolução Russa deu no stalinismo e nas ditaduras corruptas do Leste europeu. A Revolução Chinesa produziu a Revolução Cultural que praticou um genocídio fratricida. A Revolução Cubana caiu na cilada do personalismo ditatorial.

Portanto, ao se falar que não tivemos Revolução, é apenas uma constatação histórica e não um juízo de valor ou desmerecimento da nossa formação política. Nunca fomos capazes sequer de enfrentar os riscos da História. Menos por fraqueza e mais por escassez de instrução.

A demagogia e a ganância rastejantes de poder tem dado o tom da nossa sinfonia política. Conseguimos a triste façanha de prostituir o alcance semântico da democracia, desmoralizar o significado da liberdade e enxovalhar a cidadania.

Trampolineiros contumazes a cobrar honestidade dos adversários. Demagogos notórios fazendo pregação patriótica e ladrões do erário exigindo respeito.

Esse quadro atual não é privilégio da atualidade. É continuação vocacional de uma prática política herdada da barbárie e exploração europeias. Só a educação, a ser política de Estado, pode nos tirar da movediça lama.

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domingo - 02/08/2015 - 06:48h

Ainda sobre golpes

Por François Silvestre

Após a publicação do texto de Domingo passado, recebi várias perguntas sobre os golpes não mencionados naquele texto. Essas questões só reforçam as teses ali defendidas, sobre a nossa vocação golpista.

Pouco tempo após a posse, Juscelino enfrentou a primeira tentativa. Aeronáuticos e insatisfeitos do Exército, de tradição antigetulista, organizaram uma revolta, com base em Jacareacanga, no Pará. Pretendiam bombardear palácios do governo e órgãos estratégicos da segurança oficial.

Controlada a revolta, os envolvidos fugiram do país. JK, num gesto de serenidade, enviou ao Congresso um projeto de anistia irrestrita, excluindo qualquer punição aos revoltosos.

Mas não recebeu de volta o mesmo gesto. Esse mesmo grupo, cerca de dois anos depois, organizou outra tentativa de golpe. Agora, com base em Aragarsas, no Goiás. Com o mesmo objetivo e mesma estratégia. Novo fracasso.

Nesse segundo levante, Carlos Lacerda, ao perceber a fragilidade estratégica, traiu os companheiros, informando as manobras e localizações. Quem conta isso? O próprio Lacerda, nas suas memórias.

Juscelino fora militar, médico da Polícia, tinha noção do ideário da caserna. “Não tema o que o inimigo quer contra você. Tema o que ele pode contra você”, costumava repetir o General Odílio Denys.

Certa vez, o Ministro da Guerra, Teixeira Lott, informou que iria prender um Major subordinado do Gen. Juarez Távora, que perdera as eleições para JK. Juscelino então desautorizou. “Não, Ministro. Se o senhor prender o Major, Juarez me derruba. Prenda Juarez, que o Major se recolherá e o general nada poderá fazer”. E assim foi feito e nada aconteceu.

JK só errou e feio no episódio de 64. Acreditou em Castelo Branco, que lhe prometera eleições, e apoiou o golpe consumado. Votou em Castelo, no Congresso. Tancredo Neves vaticinou: “Você vai pagar caro por esse voto”. E pagou.

Ao assumir a Presidência, Prudente de Morais adoeceu e foi substituído pelo Vice Manoel Vitorino. Ao sentir-se melhor, Prudente informou a Vitorino a decisão de reassumir o cargo. Vitorino ignorou e manteve-se no posto.

Após quatro meses, sem que Manoel Vitorino desse sinais de atender a determinação do titular, Prudente de Morais informou-se sobre a hora de início do expediente de Vitorino. Ao saber, deslocou-se ao Palácio e ocupou a sua Cadeira.

Quando Vitorino chegou, encontrou Prudente devidamente sentado, que disse secamente: “Reassumi meu posto, sem formalidade de transmissão. Reassuma a Vice-presidência”.  Talvez tenha sido, na história dos golpes, a única tentativa que foi frustrada por um traseiro na cadeira.

Trata da desmistificação da nossa historiografia o livro que estou escrevendo. Do golpe de 1889 até a eleição negociada de Tancredo Neves com a Ditadura moribunda.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 26/07/2015 - 08:46h

A cultura do golpe

Por François Silvestre

O Brasil formou-se, ao longo da sua experiência institucional, sob a penumbra dos golpes.

Sem falar que a mesma formação institucional sustenta-se muito mais com vistas nas vantagens pessoais, seja da ascensão ao poder ou da remuneração, do que na motivação vocacional.

O Brasil não conhece transformação de regime ou forma de governo por via revolucionária. Jamais fizemos revolução. Nossa vocação é de natureza golpista. E essa prática é de natureza conspiratória.

Isso não que dizer que sejamos pacíficos ou medrosos. A maioria desses golpes deságua em muita violência e sangue derramado. E como é da natureza da covardia, a mutilação dos derrotados dá-se sem a chance do esperneio.

A “proclamação da independência” não foi um gesto de revolta nascido da insatisfação nativa. Foi um golpe combinado entre a cúpula da regência, na Colônia, com as Cortes de Lisboa, sob a coordenação do Rei de lá, pai do Príncipe daqui. Tudo acertado, “antes que um aventureiro lance mão”, mediante pagamento indenizatório; o roubado indenizou o ladrão.

A abdicação foi outro golpe, negociado com a condição de preservar a dinastia Bragança. As Regências que se seguiram foram constantemente atropeladas por conspirações, tramas e golpes.

A República nasce de um golpe. E segue cumprindo o ritual da nossa cultura golpista. Floriano golpeia Deodoro, Prudente evita o golpe seguinte e escanteia Floriano. E por ai veio. Os golpes das convenções, nas eleições presidenciais. O golpe sangrento de 1930. O golpe no golpe do Estado Novo. O golpe da queda de Vargas.

Até o mais sangrento e covarde de todos, o golpe civil-militar de 1964. Que produziu um golpe logo no início, ao emparedar os aliados civis e manter as rédeas com os militares. Quatro anos depois, novo golpe; com AI-5.

Tivemos até um golpe para evitar outro golpe. Foi na sucessão de Café Filho.

Houvera eleições, com a vitória da coligação PSD/PTB, com Juscelino Kubistchek e João Goulart, em 1955. A UDN derrotada e os militares de direita queriam anular a eleição.

No enterro do Gen. Canronbert Pereira da Costa, líder da ala direita do Exército, o Coronel Bizarria Mamede faz um discurso propondo não se dar posse aos eleitos. Na presença do Ministro da Guerra, Gen. Teixeira Lott.

O Ministro exigiu do Presidente Café a punição do coronel. A UDN conspirou junto ao Presidente. Café Filho “adoeceu”, pelo vírus do golpe, e o Pres. Da Câmara, Carlos Luz, assumiu interinamente a Presidência. Ao assumir, Luz negou-se a punir Mamede.

Orientado pelo General Odílio Denys, Lott pôs os tanques na rua e depôs Carlos Luz. Café Filho quis voltar, mas foi impedido. Agora, “adoecera” pelo retrovírus do contragolpe.

Assumiu a Presidência o Pres. Do Senado, Nereu Ramos, que deu posse aos eleitos. Esse episódio foi um ensaio de 64. Té mais.

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domingo - 19/07/2015 - 14:26h

No fundo do poço, a voz do vento

Por François Silvestre

O Brasil entrou numa crise econômico-financeira, com resultados preocupantes na vida social, que nos põe no seguinte dilema: Vale a pena esticar a corda e deixar que o governo sangre até a anemia irreversível ou a necessidade de sobrevivência implora uma trégua sem oportunismo de interesses políticos?

Essa trégua não significa conivência. Significa estratégia de sobrevivência da atividade produtiva e comercial. Se o país falir, por desgoverno e intransigência, não será apenas o governo falido que ruirá. Ruiremos todos.

Só os fanáticos não se convenceram ainda de que a luta contra a Ditadura não dá salvo-conduto para apunhalar a Democracia, mesmo tendo lutado por ela. Sem negar a luta do passado desses partidos, que envergonham o presente.

A mesma Pátria que eles defenderam contra a violência do arbítrio, agora atacada pela violência da corrupção. O episódio Petrobrás é a mais escrachada promiscuidade público-privada da nossa história.

Houvesse tido o PT a coragem histórica da autocrítica, na hora angustiante, certamente teria colhido a compreensão dos seus seguidores não fanatizados.

Agora, a autocrítica parecerá esperteza. E a malícia dos espertos tem prazo encolhido de validade.

O heroísmo de ontem transformado num conluio de trampolinagens, onde se juntaram todos os lados raspando o mesmo tacho.

O PT que vi nascer, e num comício da Praça Craveiro Lopes, no Paço Municipal da Capital paulistana, saído da casca do ovo do ABC paulista, era tão exigentemente puro que espantava até os pecadores veniais.

E como toda pureza é impura, deu no que deu. É o fenômeno de o herói virar vilão. O melhor e mais triste exemplo é o do Marechal Pétain.

Pétain foi endeusado pela França como herói da primeira guerra mundial. Depois, ao colaborar com os nazistas, foi condenado por traição, ao fim da segunda guerra; pela mesma Pátria que o elegera herói.

Muitos dos resistentes contra a Ditadura foram cooptados pelos encantos do poder. E dão munição aos cretinos que eles combateram no passado e com eles se juntaram sem qualquer fronteira ética.

Tudo isso é verdade. Mas é verdade também que não vale a pena deixar a sangria matar o país. Urge evitar o fundo do poço, mesmo sem petróleo, para que não nos afundemos todos.

O Brasil sempre viveu sob o signo da exploração. Roubado na colonização e depois pela ganância do capitalismo financeiro. Espoliado pelas multinacionais. Traído pela demagogia interna. Sangrado por ditaduras. Não serão esses corruptos que o destruirão.

É menos grave manter a precariedade legitimamente eleita do que anular a Lei sob o argumento de uma nova ordem inventada no golpe. Esse filme é repeteco.

Se me permite Eulício, no Rio da Noite Verde, repito a pergunta: “Talassa! Quem estrangulou a voz do vento”?

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domingo - 12/07/2015 - 23:22h

A pureza é impura

Por François Silvestre

Você polui o mangue se puser água potável no seu estuário; tanto quanto polui o pote, ao lhe jogar água do mangue.

O moralismo, deformação da moral, faz da intolerância o disfarce da própria imundície. Há na hipocrisia um manancial de sujeira envolto num manto que exibe pureza.

Se nocente é culpado em contradição a inocente, imundo é o contrário de mundo, no significado de limpo.  Afirmação e negação.

Cera de jandaíra nesse nariz de palhaço para voltar a discutir momentos da intolerância. Principalmente sobre o pavor que a liberdade e a diversidade provocam nos hipócritas. Uns, por afinidade escondida com o alvo da sua vigilância. Outros, pelo medo do “contágio” que lhes arrancará as máscaras acumuladas.

A impureza é tão necessária ao coletar o puro, quanto a limpeza se abastece do sujo. Sem uma a outra não teria dimensão. Porém, esse antagonismo não resolve a completude do mundo nem satisfaz sua existência pelo extremado do imundo.

Há contidas, no meio dos extremos, incontáveis configurações. Inumeráveis. Assim como nos matizes das cores, também incontáveis nas suas misturas.

O azul não é cor, é distância. Quanto mais longe, mais azul. A limpeza, a beleza, a pureza são iguais ao azul. Quanto mais perto, mais turvo.

O Brasil é pacífico, comparado ao Iraque. Por ser o Brasil pacífico? Não. Por ser o Iraque distante. Mas se a distância é azul, por que o Brasil, de tão porto de nós, parece mais azul do que o Iraque, que de longe, sabemos mais vermelho?

É aí onde reside a falsidade da pureza. Das cores? Não. Da nossa visão conveniente sobre as cores. Nenhuma consideração dos filósofos, desde a antiguidade, consegue a pureza de aceitação. Negar a verdade não é mentir, é reconstruir outra versão sobre o túmulo do conceito morto.

A única verdade absoluta é que não há verdade absoluta. O único “inquérito veraz” é o que não aponta inocentes. Não há réu inocente, nem promotor inocente, nem advogado inocente, nem juiz inocente.

A Justiça inocente, felizmente, ainda não foi inventada. E a mídia, que faz a cobertura da impureza, agasalha-se com lençóis furados, no meio do charco.

Isso é ruim? Porra nenhuma. Assim não fosse, não haveria humanidade. Haveria répteis, pássaros, mamíferos, peixes, cetáceos. Haveria tudo, menos nós.

Nós somos criaturas da imundície do mundo. Bendita sujeira. Sem ela, não teríamos sobrevivido.

A angústia das perguntas não se acautela na ciência, que produz outras perguntas. Deságua nas seitas, que oferecem respostas fáceis. O conforto aconchegante que inventa a imortalidade. Posto que a morte é a mais caudalosa nascente das angústias.

Fuja dos “puros”. São aprendizes de ditadores. Lambuze-se honestamente da impureza humana e faça-se humanidade.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 28/06/2015 - 08:22h

“A última flor do Lácio”

Por François Silvestre

Vivemos provavelmente os tempos do colonialismo cultural mais acentuado da história dos povos.

É bem verdade que não é um fenômeno novo. Em todas as conquistas militares ou de colonizações, o colonialismo cultural sempre fez parte do pacote de dominação. Ou quase sempre. No caso da dominação árabe na península ibérica, houve uma exceção. Os nativos continuaram a professar suas crenças e preservar sua cultura.

O Brasil deixa-se colonizar culturalmente há muito tempo. É preciso ver que há diferença entre aculturação e desculturação. Na aculturação ocorre uma troca entre as culturas que se misturam. Caso exemplar é o sincretismo umbanda-catolicismo que se deu nas relações dos vindos da África com os nascidos daqui. Nesse caso, não há colonialismo cultural.

Outra coisa é a desculturação, quando uma cultura imperial impõe seus modos sobre a fraqueza da cultura invadida. O uso e abuso da língua inglesa, no mundo de hoje, é o exemplo mais nítido da desculturação.

E me traz à memória o diálogo de Próspero e Calibã, n”A Tempestade”, de Shakespeare: Diz Próspero: “Eras uma figura ignóbil e eu te dei compleição humana”. Calibã responde: “Mas a ilha era minha e tu me tomaste”. Próspero argumenta: “Mas eu te ensinei a minha língua”. E Calibã rebate: “No que a mim só serve para nela poder amaldiçoar-te”.

Nos tempos de hoje nem para a maldição dos dominadores a língua serve. Serve muito mais para a louvação. Para o embuste. Para consolidar a dominação, sob o manto roto do “progresso” e da globalização. O Globo são os outros. Estou falando do planeta.

“A última flor do Lácio” de que falou Olavo Bilac, onde Gil Vicente deu o tom da morfologia e Camões desenhou o esqueleto sonoro da sintaxe, vem sendo maltratada pelos nativos; deslumbrados com a luminosidade econômica das culturas alheias.

O jeito de falar ou escrever na literatura comporta “agressões” à língua, na medida do talento. Não se configura erro.

Contudo nos textos técnicos, opinativos, sobre qualquer assunto, a escrita que agride a língua não é justificável. Na televisão, dando notícias, ou comentando o noticiado, é preciso respeitar a língua. Não se faz literatura em noticiários. Cometem-se erros. Alguns de transformar os ouvidos em pinicos.

Os pobres verbos sofrem a diabo na boca dos repórteres. “Houveram atritos”, no lugar de houve. “Fazem dez anos”, no lugar de faz. “Ele reaveu o carro roubado”, no lugar de reouve. “O governo interviu”, no lugar de interveio. “A cartomante preveu”, no lugar de previu. “Se o governo propor”, no lugar de propuser. E por aí vai. Um horror…

Não se cobra pureza linguística nem chatice de regras. Não. O que se cobra é o mínimo de respeito com a nossa língua, maltratada por veículos que contribuem com o desaprender. Com a ignorância.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 21/06/2015 - 16:26h

De semelhanças e memória

Por François Silvestre

Antes que os petistas me acusem de tucano ou os tucanos me acusem de petista, deixo claro que os dois apelidos não me acabrunham. Até por que também não sou diferente!

Mas vamos lá. Na última campanha eleitoral, o discurso vitorioso de Dilma Rousseff alertava os dependentes econômicos da política oficial sobre os riscos da vitória tucana.

Dizia ela que o adversário Aécio Neves iria promover arrocho econômico, com reflexo nocivo na vida social. Aécio negava. Dilma ganhou e está arrochando o parafuso. Com mais aperto do que acusara o adversário. Com o nome bonitinho de “ajuste fiscal”.

Dizia ela que a vitória tucana iria cortar recursos dos programas sociais. Aécio negava, mas o povo preferiu acreditar em Dilma. Ela ganhou e já fez o maior corte de recursos para programas sociais de que sem notícia nas últimas décadas.

Ela dizia que Aécio iria esvaziar o PAC. Aécio negava, mas Dilma ganhou. E com o arrocho do ajuste fiscal deixou o PAC mais raquítico do que os meninos pobres da Gurguéia do Piauí.

Dilma alertava para o risco de Aécio enfraquecer o programa da “pátria educadora”.  Aécio perdeu e Dilma cortou grana na educação; sem poupar sequer as escolas técnicas, menina dos olhos do aludido programa.

Dilma acusava o governo tucano de privatizações excessivas, favorecimento a banqueiros e retenção de empregos. Acusação verdadeira. Foi assim mesmo no tempo dos tucanos.

Só que o governo petista prometeu fazer diferente. Mudou o nome de privatização para concessão e a diferença ficou só na semântica. Nunca “na história deste país” banqueiro ganhou tanto dinheiro. Basta ver os balanços bancários, que nem os cavilosos esconderijos conseguem esconder a montanha de lucros. Duvidosos lucros. E desemprego.

O emprego dado, com a mão esquerda, no passado recente, foi agora tomado, com a mão direita, no presente. Tucanos e petistas são oradores de Esquerda e operadores de Direita. Ou vice-versa, invertido na mesma coisa.

“Nada se assemelha tanto a um Saquarema quanto um Luiza no poder”. Foi assim desde o Império.

Quem ouviu o discurso vitorioso da campanha, viajou depois, e chegou agora ao Brasil, certamente imaginará que esse não é o governo daquele discurso.

O governo Dilma executa o programa de governo que ela informava ser o programa de Aécio. Do ponto de vista programático, com base no discurso de campanha e na prática do governo vencedor, uma fusão entre o PT e o PSDB seria factível e coerente. Sem que nenhum deles abrisse mão dos principais aliados.

O PMDB continuaria aliado de ambos, entre um grupo de apoio e outro de contestação. Contestação no poder, oposição nunca.

Quando o povo amadurecido doará memória ao Brasil?

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 07/06/2015 - 06:18h

Mais uma chance, outro desperdício

Por François Silvestre

Já fiz calo na língua de tanto repetir. Já enchi de monotonia os ouvidos que me emprestaram atenção. Mas volto ao ramerrão. “A eterna e monótona novidade”, de Euclides da Cunha.

Mais uma vez, de tantas vezes repetidas, a Natureza oferece a chance de uma solução simples, se não completa, pelo menos atenuadora, da escassez de água no semiárido.

Há uma infinidade de açudes médios e pequenos, públicos e particulares, antigos, cujo armazenamento d’água vem sendo, ao longo do tempo, reduzido pelo assoreamento.

Nesses últimos cinco anos, eles se oferecem ao apelo de soluções que não se consolidam por absoluta irresponsabilidade do poder público. Descaso, demagogia e desinteresse.

Se não há um programa de açudagem nem de barragens submersas, que se renove nos antigos a capacidade originária de armazenamento.

Como? Com dragagem. Solução simples. Tratores pequenos e médios resolvem.

Não só nos açudecos. Não. Em açudes grandes e médios, que estão secos ou quase secos, essa é a hora de refazer porões, dragar o assoreado, fortalecer as paredes com o material dali retirado. Dois preás num só fojo.

O açude de Riacho da Cruz armazena hoje a metade de sua capacidade de origem. O de Lucrecia menos da metade. A Barragem de Pau dos Ferros está a mostrar-se escancaradamente assoreada. O que foi porão é um prato rente à parede.

E assim acontece com o Rodeador, de Umarizal, com O Poção, de Martins, com o de Serrinha dos Pintos; com os açudes de fazendas, com barreiros e açudecos de beira de estrada, ao longo das BRs e RNs. No Seridó também.

No momento que você devolve ao açude particular a capacidade de armazenamento duplicada ou triplicada, retira mais um consumidor da Caern. E cria um fornecedor de água para vizinhos. A solidariedade é da natureza do sertanejo.

Essa história de políticos anunciarem que estão fazendo discursos cobrando soluções para a seca é a mais deslavada demagogia. Cinismo do sofisma da retórica.

Essas reuniões de órgãos oficiais a anunciarem providências, tudo regado a comida farta e bebida paga pelo contribuinte, são assembleias bizantinas a desenharem espertezas na cabeça de alfinetes.

Não são diferentes as lideranças regionais. Fossem diferentes não se venderiam para eleger os mesmos que se repetem na exata proporção da monotonia do engodo. Repetição que se consolida no exercício da hereditariedade.

O Governador Robinson Faria afirmou, no seu discurso de posse, que mobilizaria força e inteligência para prover condições de vida digna no campo. Respeitando as vocações de cada região para buscar soluções simples e urgentes.

A sugestão da dragagem de açudes, públicos e particulares, é uma das soluções simples e viáveis. Uma delas. Sem discurso matreiro ou pantomima de reformas.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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quarta-feira - 03/06/2015 - 16:44h
Gastança

O mau exemplo, em plena crise, do Ministério Público

Pois é, Carlos Santos.

A reeleição continua no MP/RN. Veja lá no PortalNoAR.

O custo da festa da reposse, com um edital recheado de arranjos e floretês, ao custo de 42.000 reais, num flagrante desrespeito à crise financeira que nos atinge.

Imagine se essa festa, com todas as exigências florais do edital, fosse realizada por alguma prefeitura ou outro qualquer órgão do Executivo.

Era Ação de Improbidade na hora…

François Silvestre – Webleitor e escritor

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Categoria(s): Administração Pública / E-mail do Webleitor / Justiça/Direito/Ministério Público
domingo - 31/05/2015 - 20:54h

A “reforma” do leopardo

Por François Silvestre

Volta e meia, ou meia-volta, os políticos do Brasil voltam a falar de reforma política. Não é apenas uma mentira a mais. Não. É a mãe das mentiras. A mentira-mor da nossa farsa.

Ou o papai Noel que se fantasia na frente da garotada, que animada pela festa bela prefere fazer de conta que aquele é de fato o velhinho com um saco de presentes saídos da imaginação e não da compra dos parentes.

Os enganadores precisam da fé dos enganados. E fazem desse mercado de trocas uma acomodação de interesses.

Sobre as reformas de faz de conta há uma lição literária que resume como arquétipo as outras imitações. “Il Gattopardo” de Giuseppe Tomasi de Lampedusa.

No “Leopardo”, o autor trata da decadência da aristocracia siciliana, durante o Risorgimento italiano, quando as lutas de unificação sinalizavam para uma nova ordem política, social e econômica.

O resumo da obra se dá no diálogo entre os personagens Don Fabrizio, príncipe decadente de Salina, com o sobrinho Tancredi, picareta príncipe de Falconeri.

“É preciso que tudo mude, para que fique tudo do mesmo jeito”. Visconti adaptou a obra para o cinema, com Burt Lancaster, Alain Delon e Cláudia Cardinale.

O Brasil conseguiu superar a lição de Lampedusa. Aqui nem se muda nada para que tudo continue como sempre foi. E não raramente para pior do que era.

O golpe republicano apenas transformou a aristocracia monárquica em aristocracia republicana. Não foram os republicanos históricos que assumiram o poder. Quem tomou conta das decisões foram os próceres da Monarquia, agora republicanos.

O movimento de 1930 derrubou a República Velha sob o comando de um ex-ministro do governo decaído. E os antigos aliados do regime velho viraram sustentadores do regime novo.

A redemocratização de 1945 foi sustentada pelos mesmos sustentadores da ditadura Vargas. E o primeiro Presidente da nova ordem fôra o avalista militar da ordem antiga.

O golpe de 1964 foi endossado pelos mesmos que se serviam do governo deposto. Partidos e imprensa. Os partidos foram extintos e a imprensa levou pé na bunda.

Ao cair a Ditadura, não foram os seus inimigos que assumiram o poder. Foram os seus aliados. Tancredo Neves negociou com militares e políticos que sustentavam o regime de violência. Quem assumiu o poder foi José Sarney, acólito político da Ditadura.

Lula representava o antimalufismo, em São Paulo e no Brasil. Onde estão? Do mesmo lado. Collor foi a encarnação do antilulismo, o instrumento que evitou naquele momento a vitória do barbudo que assustava a burguesia e a classe média alta. Onde estão? Do mesmo lado.

Cada país tem sua pátria e cada pátria tem o seu caráter.

No Brasil, a geografia fotografa Deus e a pátria revela Macunaíma.

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domingo - 24/05/2015 - 08:18h

Manoel Varela

Por François Silvestre

Ainda criança, eu ouvira falar de Manoel Varela. Esse sobrenome punha sonoridade na memória auditiva.

Meados dos anos Cinquenta, ao aproximar-se a campanha para o Governo do Estado, cuja disputa se deu entre Dinarte Mariz e Jocelyn Vilar, ainda se falava da campanha anterior, de 1950, disputada por Dix-Sept Rosado contra Manoel Varela.

A minha família era militante do PSD. Portanto, Dix-Sept fora o candidato dos meus parentes. E sua morte, segundo me contavam, gerou uma espécie de acabrunhamento na região.

Um tipo de frustração coletiva. Pois todos esperavam um grande governo do líder mossoroense e nada conheciam do seu sucessor, o doutor Sylvio Pedroza.

Em 1950 eu tinha três anos; não tenho desses fatos memória contemporânea, mas de informação posterior. Ouvia marchinhas da campanha “longínqua”.

Uma delas, sátira dos adversários do PSD, dizia mais ou menos assim, dando “informação” a Manoel Varela: “Rita de Manoel Jacinto/ anda pra lá e pra cá./ Com os beiços bem pintados/ vive de brinco e colar./ E já tá de canela fina,/ Manoel Varela,/ de lamber os pratos de Zé de Alencar./

Enquanto na casa dos meus Dix-Sept Rosado era o herói, eu começava a exercitar minha vocação do contra. Achava o nome Varela um achado sonoro. Certa vez disse isso ao amigo Roberto Varela, em Nascença, num porre com Odilon Ribeiro Coutinho.

Com a chegada de Eider Varela a Martins, numa campanha diferente, onde vi pela primeira vez o cinema, projetado na parede de um cartório, acometi-me de alumbramento. E o nome Varela, com aquelas fotografias se mexendo, fixou-se mais ainda.

Passa o tempo e venho conhecer Manoel Varela na faculdade de Direito. Meu professor de Economia Política. Exigente, seco, distante; sua nota máxima era seis. Advogado exímio, honesto e respeitado.

Fora comunista, na mocidade. Agora, era anticomunista radical.

Nas Quartas-Feiras, ele fazia arguição. Com a caderneta de chamada quase encostando no rosto, dizia o sobrenome do escolhido; depois chamava pelo nome completo.

Naquele dia, foi assim. “Senhor Trindade, Leonardo Trindade Cavalcanti”. Leonardo abriu os braços e respondeu: “Estou aqui”. E ele: “Basta dizer presente”.

Manoel Varela: “Senhor Trindade, o que é mercado”? Leonardo: “Mercado seria”… E ele, interrompendo: “Não meu filho, mercado é”… Leonardo: “Tudo bem. Mercado é o âmbito de atuação do comércio”. E ele: “Não, meu filho; não me venha com asneira marxista. Mercado é o lugar onde se fazem as trocas”.

Eu fui me meter. “Professor, eu acho”… Não consegui terminar, ele interrompeu: “Você não acha nada, meu filho. A hora de dizer besteira é do seu colega. Quando chegar sua vez, você diz sua besteira”.

Depois, ele aposentado, convivemos na advocacia. Descobri um homem cacto. Ríspido na casca, suave e macio no miolo.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 18/05/2015 - 09:52h
Surfando

O esporte no Brasil

Do Blog do François Silvestre

O Brasil tem um esporte permanente e vários esportes de ocasião.

Lembra do Tênis? Maria Esther Bueno ganhou o torneio internacional de Wimbledon e vários outros dos mais de sessenta torneios internacionais que disputou.

O Tênis foi assunto de muita festa nos fins dos anos Cinquenta. Depois, entrou no limbo.

Quatro décadas depois de Maria Esther, surge Guga. O Tênis virou febre. Uma quadra em cada canto. Guga não deixou sucessor e o esporte foi recolhido ao esquecimento.

O mesmo com o Boxe. Éder Jofre campeão mundial de peso galo.

Pronto, todo mundo treinando Boxe. Até no Ginásio de Caicó transformaram uma pequena quadra cimentada, na saída da enfermaria, em ringue do esporte dos murros.

O treinador era um rapaz chamado Zé Maria que ensinava aos internos a técnica de por luvas e bater corretamente. Só que as luvas eram escassas e amarravam as mãos com gazes.

Cadê o Boxe?

O Voleibol, após o sucesso do Brasil nos torneios mundiais, virou coqueluche. Quadra e rede em todo canto. Sumiu.

E assim foi com o basquete.

Agora, num passe de mágica, viramos surfistas. O sucesso merecido e belo do Brasil e Rio Grande do Norte nesse torneio de surf produziu algumas pérolas. Uma delas ouvi da Globo. Sempre Ela.

“O Brasil agora é a pátria do Surf”. Me pelo de medo.

Como fazer para juntar água pro surfe no Seridó e Oeste?

Quantos carros-pipas serão suficientes pra fazer uma onda?

O esporte do Brasil foi, é e sempre será o futebol.

Quatro moleques, dois pares de chinelos e uma bola-de-meia fazem uma pelada.

Pode não ser tão belo, mas o resto é bonito e passageiro.

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domingo - 17/05/2015 - 08:10h

O otimismo agoniza

Por François Silvestre

No Cândido, François-Marie Arouet, o Voltaire, cria um personagem que resume em si o otimismo ao extremo da capacidade de enfrentar atropelos.

É Pangloss. Para esse personagem singular da literatura universal a desgraça é apenas um degrau que antecede uma ventura a vir. Mesmo que o degrau seguinte seja apenas a escalada de uma escada de desgraças supervenientes.

Nada esmorece em Pangloss o otimismo, que o move e modela. E segue durante toda a vida a colecionar desventuras. Na espera constante de uma ventura inalcançável.

Não se elenque Voltaire no rol dos otimistas. Contrariamente, ele faz a sátira do otimismo.

Da mesma forma como os apressados elencam Maquiavel na relação dos defensores das artimanhas do poder. Assim como Voltaire, sem a malícia refinada do francês, Maquiavel descascou a ferida do poder absoluto, apontando-lhe a ruindade miolar.

Voltaire nutria grande admiração por Leibniz, o precoce erudito de Leipzig, daí que muita gente remodela Pangloss situando-o no mundo teórico de Leibniz.

O Leibniz aqui referido trata do jovem bacharelado em Direito ainda adolescente. Depois, já maduro, Leibniz enveredou pelos labirintos da matemática, popularmente conhecido na formulação do Cálculo Diferencial, numa parceria a distância, de tempo e espaço, com Isaac Newton.

Em Leibniz, o otimismo é uma reflexão de crença. Em Pangloss, é a essência da ingenuidade.

O poder público, no Brasil, aposta na proliferação de Pangloss.  Nada mais fácil e cômodo do que governar Panglosses.

Pangloss está para a superação dos atropelos assim como o Conselheiro Acácio, da pena de Eça de Queiroz, está para o simplismo das “reflexões” filosóficas. A pompa da bobagem.

Aliás, cá pra nós, na ponte aérea Rio/São Paulo/ Natal/Mossoró multiplicam-se os Conselheiros Acácios. Basta dá uma passada nos blogs, twitters, impressos e expressos, para colher os manás que descem dos céus, excretados pelos personagens de Voltaire e Eça.

Resta torcer pra que seja um agonia passageira, posto que o desencanto emperra ou impede a edificação.

Voltando ao texto, tá difícil ser otimista. E é chatíssimo ser pessimista. Ariano Suassuna inventou uma saída: “Para evitar a chatice do pessimismo e a ingenuidade do otimismo, eu sou realista esperançoso”.

O que danado ele quis dizer eu não sei.

Fui procurar a expressão no Cândido, não achei. Nem nas “máximas” do Conselheiro Acácio. Ariano conseguiu ser original, mesmo tirando uma casquinha nos dois modelos.

Cá na Serra, longe da civilização que reside em Natal e Mossoró, no sopé do Morro do Cumbe, onde ainda resistem os croatás, procuro minha definição.

Disse Stendhal que mudava de opinião para que ela não se tornasse o seu tirano. Faço o mesmo. Agora, eu sou ateu ecumênico.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 10/05/2015 - 07:54h

Viola contra o embuste

Por François Silvestre

Estamos na feira,/ o poeta afina a viola./ Passa por perto/ a carola/ beata invicta de amor./ Torce a cara: “sou moralista”,/ diz coçando a virilha,/ usada só do coçado./ E quase correndo se manda,/ ouvindo o riso escrachado,/ do bêbado esperto e seboso/ que foi seu amor do passado./

A viola geme dolente/ lembrando o verso sofrido/ que pinta de chumbo o nascente./ Será que chove pra gente?/

Depois que a carola se foi,/ deixando cheiro de sebo,/ e o gaiato mancebo/ cantando farol do que fez,/ a praça se pôs a ouvir/ a viola e o poeta da vez./

Na praça, um pregador/ disputa plateia aos gritos./ Promete lotes no céu/ acende a fogueira do inferno/ com olho ameaçador./ Porém, não tira os olhos/ da bacia do cantador./

Aí chega um vereador/ amigo do povo da praça./ Aperta a mão e abraça/ até de quem nunca viu./ Amigo de todos, beija crianças/ acena ao pastor, de quem foge apressado/ e para postado,/ de olho vidrado na bacia do cantador./

O cantador colhe versos/ como colhia algodão,/ nos tempos da mocidade./ Nas quebradas do sertão,/ numa capoeira vasta de seu Luiz de Antão./

Depois, o inverno se foi./ E só ficou o inferno,/ que assusta e vende medo/ pra burra do pregador./ “Isso é coisa do satã”,/ diz apontando com a Bíblia/ pros lados do cantador.

“Guarde o seu livro preto/ no seu paletó mal lavado,/ porque o meu verso sujo/ espanta o medo inventado”./ Rebate de lá o poeta;/ sem ira, com rima, pausado./

Passa na praça o vigário,/ senhor da paróquia./ Olha de lado/ feito sem ver/ escondido de ouvir./ E ouve sem querer/ o dizer do poeta:/ “No altar das imagens/ se esconde o andor,/ nas chagas expostas/ há sangue e louvor”./

Ninguém entendeu o tocar da viola,/ do padre que passa,/ do pregador de pecados,/ do fuxico da feira./ Estão todos na venda,/ de olhos vendados./

Só não se vende o poeta./ Aquele. Que outros se vendem,/ diferente daquele,/ cujos versos sem rumo/ o mercado dispensa./

Voltemos à Praça;/ ao som da viola/ que toca estridente,/ com versos dolentes,/ das cordas nos dedos,/ ele faz o repente:/ “Quando o sol se agasalha/ avermelhando o Poente/ e as nuvens cor de chumbo/ se espalham no Nascente,/ eu penso na minha vida,/ mesmo sem estar doente./ É que o fim do dia parece/ o fim da vida da gente”.

Passam todos os venais./ Os de todos os matizes./ Das cores, dores, poder./ Da fossa./ Colheita dos votos pagos,/ com custo da grana nossa./

Homenagem ao poeta: Seu nome era João Menezes,/poeta cá do sertão./ Na enxada, por quatro meses;/ se caía água no chão./ Depois, pegava a viola/ que dormia na sacola,/ afinava da prima ao bordão./ Saía pra cantar na rua/ levando a viola nua/ pra se banhar de canção./ Feito pinto que sai do ovo/ emprestava versos ao povo/ na feira do gavião./

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

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Categoria(s): Crônica / Poesia
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 03/05/2015 - 04:55h

Aos da minha geração (À memória de Juan Ponce de León)

Por François Silveste

Você não é velho do olhar de dentro,/ do que mantém interno o sentir-se jovem./ Sua velhice é do olhar dos outros,/ dos espelhos que você não quebra./

As murrinhas do corpo são de todos os tempos./ Sarampo, caxumba, bexiga, rubéola, vacina./ Depois; polução, convulsão, broxura, paixão./

Da vez de amadurecer,/ vem junto do duro a dureza./ Rinite, colite, hepatite, trombose, oração./

Do que fora osso duro/ vem torcicolo, reumatismo, comunismo, ganância, militância,/ ressaca e depressão./

Alheios olhos dos detetives da desgraça,/ a oferecer de graça os serviços de informar:/ “você tá ótimo”./

Não creia, você não tá ótimo./ Tá jovem nos seus olhos de dentro./ Esqueça os olhos de fora,/ ignore os espelhos,/ deixe que a espuma acaricie os pelos camaleões ./ Furta-cores./

Encontrei dona Etelvina Gato/ na Praça de Umarizal./ “cabelos negros, dona Etelvina”?/ Ela responde:/ “Pois é; na cabeça, onde só teve atropelo,/ tá tudo preto./ Lá embaixo tá tudo branco, e só foi diversão”./

A vida é assim./ Nem sempre o preto tá no branco ou o branco no preto./ Somos, na vida, os cabelos ou os pentelhos de dona Etelvina./

Que tempos vivemos?/ jovens ou velhos tempos,/ a imitar a repetida velhice./ Ou tempos de repetir a mocidade,/ deixando para o relógio o tiquetaquear das horas./

Minha geração foi tudo, menos velha./ Teve caxumba, catapora, gonorreia e esperança./

Onde anda o código de cada geração,/ de que falou Paulo Francis? A de hoje deve uma promissória ao seu tempo./ E não se entende./ Falta-lhe um código./ Ou a decodificação.

E você é que é velho?/ Exiba suas rugas ante a lisura da pele dos que se negam a enrugar sua mocidade triste./ Será que é preciso a repressão para despertar o entusiasmo?/

Não. Não precisa./ Pague o preço do seu tempo,/ enfrente os demônios,/ pois toda época possui hospedeiros do inferno./

Na Bíblia, há as bestas do apocalipse./ Coisa para luta de heróis./ Não é tarefa pra nós./ Agora, são os jegues do eucalipto./

Na minuta daqui do tempo confuso,/ entre mofumbos e parafusos,/ são três os jegues do monturo./ Velhos, fantasiados de jovens./ Imundos e pousados de limpos./

Assim enumerados,/ sem números, não se conta./ O primeiro é o jegue moralista,/ que rincha./ Do barulho, não deixa a vizinhança da liberdade dormir./

O segundo é o fundamentalista, que escoiceia./ Aos gestos estúpidos da violência,/ confunde coragem com histeria./

O terceiro é o intolerante, que bufa./ Emprestado dos outros,/ nada ouve além do rincho,/     murcha as orelhas, mas falta-lhe o coice./

Vivam todas as idades/Todos os afetos/Todas as saudades!

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Poesia
domingo - 26/04/2015 - 10:47h

O tempo, os tempos e suas medições

Por François Silvestre

Quem caça o tempo, para medi-lo ou compreendê-lo, sujeita-se à angústia de trazer o bornal vazio.

O tempo é arisco. Indomável corcel, que não aceita sela nem se dá à montaria.

O pensante, ancestral dos nossos dias, rudimentar da vida de querer entender-se, usou a observação dos astros, no céu infindo, para situar-se. A primeira situação, no espaço, foi relativamente bem sucedida.

“Navegar é preciso, viver não é preciso” diziam os navegantes fenícios. E no destino da navegação, sem tempo para contemplações, filosóficas ou poéticas, ocupados os dias ao comércio, à praticidade de sobreviver, eles inventaram as consoantes.

E foram as consoantes, pouco mais de vinte, que acasaladas à sonoridade vocálica do “a” ao “u” permitiram ganhar tempo na comunicação. Era tudo uma questão de tempo.

Os sons vocálicos, herdeiros da sonoridade dos grunhidos, de nascimento nas cavernas, cuja perquirição fonética limita-se aos movimentos palatais, anteriores ou posteriores, tônicos ou átonos, não bastavam à comunicação sofisticada. Isso, no espaço do Ocidente. Juntar a eles um símbolo inventado, a consoante, foi a chegada da luz na escuridão, afugentando trevas.

E a escuridão foi fundamental à comunicação. Ela e as distâncias. Na caverna, ao dia, a comunicação dava-se pela mímica. Bastava grunhir e gesticular. Ao escurecer, foi necessário o som organizado. Grunhir não bastava mais. Nasceu o fonema vocálico.

Depois, foi preciso buscar alimentos mais longe da caverna. Surgiu o tambor, ancestral longínquo do telégrafo.

O tempo do homem não é o conhecimento. É a sobrevivência. Conhecer das coisas foi atividade dos desocupados, artistas ou filósofos, a serviço do poder ou contra os poderosos.

Os que estiveram a serviço do poder viveram mais e tiveram vida  fácil. Os que se rebelaram viveram miseravelmente, ou pouco, na angústia melancólica de uma biografia do porvir. De inútil espera.

Mas eu falava de medir o tempo. E o tempo do texto tá quase sem espaço. Passou Janeiro, homenagem a Jano, Deus etrusco, onde era porteiro, ao virar introdução nos mitos latinos. Foi-se Fevereiro, também etrusco, da purificação; februus.

E Março? Partiu. Do Deus Marte ou dos Marços, povos perdidos nas fronteiras da Galícia. Abril foi abertura, ou Afrodite, nascida da carícia da espuma. Maio, que chega apressadamente e promete fertilidade, pondo véus nas cabeças do cio, nos noivados que enfeitam o alvoroço.

Se em Maio há o cio, a Deusa Juno garante a procriação saudável. É Junho, tempo da colheita. Na terra e no ventre.

Aí chega o poder. Julho é Júlio César, trinta e um dias. Agosto é Augusto César, com dias iguais. Bastou tirar um dia da purificação februária. É escasso o tempo de purificar.

Os quatro derradeiros são números. Da praticidade romana, antes da reforma gregoriana.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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