domingo - 19/04/2015 - 10:46h

Semântica do saco

Por François Silvestre

Seco não se sustenta em pé. Tão impermeável quanto saco de filó. Tá mais furado do que saco de estopa. E ainda é a primeira pessoa do indicativo do verbo sacar. Aliás, esse verbo foi tão usado e abusado que entrou em recesso.

E por falar em recesso, nosso Parlamento é um saco. Nosso? Será que esse troço é nosso mesmo? Numa coisa se assemelha ao nosso. Quanto mais velho, mais cresce pra baixo. E mais diminui o desempenho da atividade fim. E não adianta terceirizar, pois em matéria de saco o terceiro está no saco alheio.

O Senado, por exemplo, é um clube luxuosíssimo, que escapou do baile da Ilha Fiscal e grudou-se feito tatuagem no escoamento da grana que só é pública na costura do saco deles.

Dinheiro público, que volta para os contribuintes em forma de serviços, é a parte que sobra guardada no saco de estopa. A parte do rato, ou melhor, do leão roedor, é a que escorre pelos buracos do saco.

O saco de açúcar, mais denso e consistente, transforma-se em peças de uso variado. Toalhas de pobre, panos de prato, cobertas de mesa, lençóis de moleque. Tem mais utilidade do que senadores. E olhe que nenhuma dessas peças consegue durar oito anos.

Um saco de fumo, lá de Arapiraca das Alagoas, tem mais furo do que fumo. Mais somos nós que levamos o fumo do sacalheiros. Que saca tudo de malabarismo sacal. E preside o clube notório, com carimbo de notário, debaixo dos pelos do nosso saco de otários.

O outro Presidente, posto que o Brasil é um empório de presidentes, tem de todo tipo em todo canto, ou em todo saco de gatos e ratos, também acunha com gosto de gás.

O sobrenome do distinto é Cunha. Vai dar nome a um estádio de futebol, cujo aumentativo sairá das entranhas do saco.

Há tantos presidentes que a mandanta resolveu por um “a” no final de um substantivo comum de dois gêneros. E os aliados fanáticos grafarão estudanta, gerenta, chefa, contribuinta.

Até o elefante, que tem medo de rato, faz o feminino com Aliá, para livrar-se do neologismo elefanta.

Num texto antigo eu disse o que repito agora: O Brasil não é uma democracia institucional. Não. É um saco cheio de instituições, feito siris na lata. Caranguejos-uçá na corda. Instituição é o que não falta. Falta estabilidade institucional.

Na outra ponta, os adversários sectários equiparam-se no mesmo saco de intolerância. Cada um com seu time, cujas bandeiras dariam pra fazer muitos sacos. Ou talvez sejam essas bandeiras feitas com sacos desfeitos de esperança.

E foi a esperança a única virtude a ficar presa na Caixa de Pandora, quando Zeus quis vingar-se de Prometeu, que roubou, do Olimpo, o fogo da vida.

Isso me traz à memória a frase de Renato Corte Real sobre o governo Figueiredo, aplicável agora, tirada do Blog de Linneu: “É um governo Caracu, o governo entra com a cara e o povo com o resto”.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 12/04/2015 - 17:59h

Decadência continental

Por François Silvestre

A América do Sul continua bela, espremida entre o pacífico e o Atlântico, parindo águas doces, agasalhando a Amazônia, aboletando caatingas, serrados, desertos, cordilheiras e pantanais.

Bichos e plantas de variação incontável, dentre catalogadas e desconhecidas. Vastidão que parece até maior do que o pequenino planeta, que nós habitamos e destruímos.

No hoje, essa exuberância fica por aí. No resto, da condição política, cultural e social, o continente é uma vastidão de decadência.

A única diferença favorável do hoje sobre o ontem é a inexistência de ditaduras militares. Hoje é melhor. Porém, essa vantagem não é mérito sul-americano. É que o continente perdeu força geopolítica no interesse internacional. O eixo dos conflitos mudou de azimute.

Sem saudosismo ou nostalgia histórica pode-se afirmar que a América do Sul é uma caricatura do que foi há tempos, nem tão distantes.

Vejamos alguns exemplos ou comparações, que não apequenam o argumento, porquanto reforçam a assertiva.

No campo das lideranças políticas, a distância do ontem para hoje é abissal. Mesmo sem entrar no mérito dos méritos pessoais, há de se reconhecer uma carência atual de lideranças marcantes.

Getúlio Vargas, Domingo e Evita Perón, Carlos Prestes, Belaúnde Terry, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Eduardo Frei, Salvador Allende, Jorge Eliécer Gaitán, Luis Echeverria e outros.

O Paraguai já foi uma potência militar. Hoje, é o quintal da pirataria.

A Argentina era a fisionomia esnobe da Europa aqui pousada. A melancolia do tango olhava com desprezo para a frivolidade brasileira; “os macaquitos” da vizinhança vasta de terra e escassa de nobreza.

Virou a feição caricata do orgulho enrustido, numa lápide onde repousam insepultos o peronismo e a imitação europeia.

O Uruguai era a nossa Suíça tropical. Orgulhosamente neutra nos conflitos internacionais.  Vive agora de ostentar as marcas do passado, num turismo de esmolar.

E na arte? O campo sublimador da existência humana. Octávio Paz, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Júlio Cortázar, Manuel Puig, Gabriel Garcia Marques, Graciliano Ramos, Jorge Luis Borges, Cândido Portinari, Alfaro Siqueiros, Frida Kahlo, Miguel Astúrias, Pablo Neruda, Érico Veríssimo, Oscar Niemeyer, Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Di Cavalcanti, Câmara Cascudo, Ariano Suassuna, Cardoza y Aragón, Raquel de Queiroz, Eduardo Galeano, Vargas Llosa.

É apenas um rol de feira, a ser preenchido pelo leitor atento. Difícil é fazer a lista de hoje.

Vasta América das bandas do Sul. O que é o Mercosul? Nada! Até a OEA, que já foi alguma coisa, hoje também nadou-se.

A mediocridade virou epidemia continental. O Brasil oferece o quê, ao Continente de hoje? Lula, Aécio Neves e Paulo Coelho.

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domingo - 05/04/2015 - 07:48h

O país das consequências

Por François Silvestre

O Brasil nasceu sob o signo da pilantragem. E a tem cultivado com tanto esmero que deixa na rabeira a promíscua e hipócrita corte portuguesa.

O primeiro registro da promiscuidade está na carta inaugural da nossa literatura, quando Pero Vaz de Caminha dá a boa nova da descoberta, fala da nudez indígena, da paisagem exuberante, da fertilidade da terra, “onde se plantando, tudo dá”, e encerra pedindo um favor real para um parente.

Lembro de uma professora do primário, no “Almino Afonso” de Martins, que acentuava esse final da “Carta”, com a observação elogiosa: “Grande homem, mesmo distante e numa aventura perigosa, não esqueceu da família”. E todos nós concordávamos. Isto é, éramos pilantras desde a meninice.

Certo político nordestino, ao se eleger governador do seu Estado, reuniu a família e comunicou: “O hábito aqui é a família destruir o governo. Comigo será diferente, não haverá favorecimentos familiares”. Então, um parente pediu a palavra e comentou: “Quer dizer que você vai mudar o hábito e fazer o governo destruir a família”?

A mudança de hábito ficou só na promessa. E a família do “inovador” tomou conta de dois Estados.

Quando alguém, com conhecimento de causa ou insatisfeito por exclusão na partilha do butim, denuncia aos órgãos de investigação, uma suspeita de corrupção, o que se faz?

Arma-se uma tocaia de comprovação. Comprovada a denúncia, espera-se a consumação dos atos, para depois noticiar com alarde e holofotes a corrupção comprovada. Porém, a grana roubada já sumiu e não terá retorno.

Não seria mais eficaz a pronta intervenção preventiva, correção de rumos, evitando a evasão do dinheiro público? Até por que a correção não exclui a punibilidade de quem tentara o ato. A grana pública seria poupada, mas faltariam fanfarra e holofotes.

Agora mesmo, toma conta do país, duas propostas de apoio coletivo incontestável. A definição de família e a maioridade criminal. Uma pérola do moralismo e outra da hipocrisia.

A definição restritiva de família, que tramita no Parlamento, exige que o núcleo da moradia contenha um homem e uma mulher, necessariamente.

Todo ser humano nasceu de um homem e uma mulher. Portanto, todo agrupamento daí decorrente constitui-se família. É a definição da natureza. O resto é patifaria de moralistas. E o moralista se esconde na condição que combate.

A redução de idade para a maioridade penal é cabível, pois não há inocência aos dezesseis anos. Pergunto: aumentar o número dos imputáveis, no sistema atual, diminuirá a violência?

A mágica do coelho manco saído da cartola rota. No “se plantando tudo dá” cuidamos da colheita que é consequência, sem cuidar da plantação, que é a causa.

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domingo - 29/03/2015 - 07:35h

Partidos políticos

Por François Silvestre

Não se pode imaginar uma sociedade democrática sem os partidos políticos. E o seu nome, partido, é autoexplicativo; isto é, parte de alguma coisa. Ou parte do inteiro.

O inteiro é a sociedade politicamente considerada; não apenas os segmentos do exercício político, mas todos. E nesse todo se incluem os incapazes de todas as naturezas e aqueles com cidadania suspensa por julgamento legal.

Diferentemente da empresa, a sociedade não é um agrupamento produtivo ou comercial. É o conjunto humano que ocupa um território, forma uma nação, possui idioma ou idiomas próprios, produz cultura ou culturas típicas, contém uma ordem legal e uma moeda consolidada.

Na empresa, o servidor que não produz é excluído. Na sociedade, não. O improdutivo, na sociedade, é tão dono do espólio social quanto o produtivo.

O Estado não se confunde com a sociedade. Ele é a representatividade política da sociedade. Mas não é a sociedade, que está acima dele; pelo menos teoricamente.

Nas ditaduras, o Estado se sobrepõe à sociedade. E o indivíduo perde a fronteira da individualidade. Nas ditaduras, sem partidos, o Estado aposenta a cidadania.

Lênin definia o Estado como resultado da luta entre classes antagônicas. E dessa luta nasce o Estado como instrumento da classe dominante. Essa visão leninista, hoje, repousa no limbo do universo teórico.

Muito desse descaso dá-se pelo fracasso da União Soviética, que teoricamente negava o Estado, porém formava um Estado violentamente totalitário. O resultado foi o stalinismo, símbolo da negação do Comunismo.

Na conceituação de Maurice Duverger o Partido Político tem como fim precípuo o Poder. Sem esse objetivo, o partido perde o objeto.

E é nesse aspecto que o partido se distingue dos grupos de pressão. Os grupos de pressão pressionam o poder, mas não o buscam. As igrejas, os sindicatos, as Ongs, a Maçonaria, as associações de classe são exemplos de grupos de pressão.

Desse conceito de Duverger, podemos afirmar que o Brasil possui muitos “partidos” que não se configuram na definição partidária. São agremiações, impropriamente chamadas de partidos, organizadas cartorialmente para buscar amparo nas sombras do Poder.

Negociam apoios, horários de propaganda na mídia, cargos, votos no parlamento. São hóspedes do poder, parasitas da hospedaria.

Da mesma forma que não há democracia sem partidos, pode-se afirmar também que não pode haver consistência democrática com excesso de “partidos”. Nem partidos são. São clubes políticos a serviço de negociatas nas fronteiras quase invisíveis entre o público e o privado.

Partidos políticos e Ministérios do Executivo empanzinam o Brasil. Qualquer “reforma” que não mexa nesse vespeiro será apenas mais uma farsa. Até porque não temos tantas configurações ideológicas ou doutrinárias que os justifiquem.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado pelo Novo Jornal.

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domingo - 22/03/2015 - 08:30h

Dois discursos, uma farsa

Por François Silvestre

“Há indivíduos que quando nascem não aumentam a humanidade nem a diminuem quando morrem”.

Esse desabafo do Bruxo do Cosme Velho entra no caráter de certas figuras como se luvas fossem, a proteger do frio os dedos desagasalhados.

O Brasil vive momento típico desse caráter macunaímico, onde os culpados das faltas graves usam as acusações secundárias como apanágio da sua própria pilantragem.

Pedir a intervenção militar não é apenas uma estupidez. É uma impossibilidade; inviável. Sem chance. Não pode ser usada como desculpa para desmerecer o conjunto das reivindicações perfeitamente plausíveis.

Um ou outro idiota que apareceu pedindo a volta da Ditadura não tem o condão de descoroçoar a beleza do movimento que encheu o Brasil. Pacífico. E não se venha com essa besteira de acusá-los de “elite”. Elite, em política, é quem está no poder.

Há uma lição do jargão militar que ensina: “Não tema do inimigo o que ele quer contra você. Tema o que ele pode contra você”.

O inimigo-mor da Democracia, hoje, é a corrupção e não os cartazes dos idiotas. A corrupção pode tudo contra a Democracia, por isso merece temor. Os cartazes dos idiotas nada podem. A não ser servir de pretexto pra querer tapar o sol com urupemba.

O golpe de 64, paridor da pior ditadura da nossa história, teve condições objetivas completamente diferentes da realidade atual.

Senão vejamos. No pós-guerra quente, entra em cena a guerra fria. A America do Sul passa a ser área estratégica do interesse norte-americano, tendo o Brasil como núcleo dessa geopolítica.

Não havia limite de gasto em grana, armas e instrução para instaurar e manter ditaduras aliadas desse interesse. Hoje, a única caricatura ditatorial do continente é a Venezuela, de feição antiamericana.

Aqui, as forças militares do Brasil formavam um grande partido político armado. Os tenentes da Década de Vinte, coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta. De 46 para 64, tivemos três generais e um brigadeiro candidatos à Presidência.

Eurico Dutra, Eduardo Gomes (duas vezes), Juarez Távora e Henrique Lott. Até JK era coronel da Polícia. Militares por conveniência. Políticos por vocação. Milicada politizada. No bom e mau sentido.

Hoje, as forças Armadas cumprem seu papel constitucional. São militares por vocação e não políticos fardados. Ninguém sabe o nome dos Comandantes dos Exércitos. Nem se vê Generais falando de política. Só os de pijama, senis e saudosos dos seus poderes ditatoriais.

Portanto, essa babaquice de pedir intervenção militar me parece coisa de provocação. Eles merecem a mesma atenção de um anjo da Rua Conde Lages, ao ver e fingir não ver a vizinhança prostituída.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

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domingo - 15/03/2015 - 08:06h

O sossego de Pindorama

Por François Silvestre

O Brasil vive momentos de navegação sem bússola. Há uma sensação de barco à deriva. Com a tripulação amotinada. E o pior é que nem o comando sabe pra que lado fica o Norte nem os amotinados distinguem a direção do Sul. Ou o vice-versa do inverso.

A passagem do cruzeiro é paga pelo contribuinte, que não faz parte da cúpula nem da militância dos amotinados. E não é por omissão, mas por cansaço e nojo.

O Brasil não é neófito nesse tipo de crise. Pelo contrário, é um laboratório da História em matéria de instabilidade política e institucional.

Na colonização viveu os atropelos dos usurpadores. Cada um deles oferecendo prebendas e roubando riquezas. Sem exceção. Os donos “descobridores” e seus concorrentes no processo de rapina que durou cerca de três séculos.

Os nativos e os aqui nascidos que adotaram a terra como sua casa, viviam escondidos no quintal; enquanto a rapinagem fazia o rateio na sala de estar. A semelhança com o hoje é notória.

Veio a “independência” negociada, “antes que um aventureiro lance mão”. Como se não fossem eles os aventureiros originários. E nós os mal-aventurados.

O Império, montado na soleira da Casa real dos Bragança, só tinha de imperial a pompa simbólica. Não possuía colônias, só províncias. Pobres, endividadas e atrasadas.

A queda do primeiro Imperador, também negociada, ao levar a burra cheia para derrotar, na Guerra do Porto, o seu irmão Miguel, destronador da irmã, cujo resultado foi a coroação de Pedro IV de Portugal, o mesmo que fora Pedro I do Brasil.

O arrumado produziu as crises do intervalo. Regências de todos os números. Até que se completou o acordo, ao se colocar na cabeça do adolescente Pedro de Alcântara a coroa guardada longe do “lance da mão de um aventureiro”.

Veio um período até longo de estabilidade política, mesmo com os constantes embates das lutas nativas aqui ou acolá.

Porém, não foi uma estabilidade pela força da autoridade ou do seu crédito. Mas pela força do símbolo. E essa força simbólica tem perseguido o Brasil até hoje. Somos um país da casca, que é símbolo.  E não do miolo, que é o organismo. Quando a casca apodrece, o miolo se expõe.

Ao perder a força do símbolo, caiu o segundo Império. Tão decrépito quanto o próprio Imperador.

A República, simbolicamente republicana, nunca o foi na realidade uma república contínua. Mas retalhos de poderes ditos republicanos ao sabor de cada tempo com suas crises.

Intercalada de períodos aristocráticos, autoritários, populistas ou ditatoriais. A única coisa permanente nessas interseções, sem exceção, é a demagogia.

Limpeza política só nos tempos de Pindorama. Dos índios, que conheciam apenas “um”, “dois” e “muitos”.

Em mares de céu cinzento navega o Brasil, no balanço de enjoo. Onde está o cruzeiro do Sul? Cadê a estrela Polar?

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 08/03/2015 - 10:21h

Quem é o culpado?

Por François Silvestre

O buraco na rua é culpa da Prefeitura, diz o Estado. A lagoa poluída é culpa do Estado, diz a Prefeitura. A insegurança nas ruas é culpa do governo estadual, diz o governo federal. A violência generalizada é culpa do governo federal, diz o governo estadual.

Apagão energético é culpa do governo federal, dizem os Estados. A falta de planejamento energético é culpa dos Estados, diz o governo federal. A falta de água no Sudeste é culpa do PSDB, diz o PT. A falta de água no Nordeste é culpa do PT, diz o PSDB.

O número incontável de homicídios é culpa da Polícia Militar, diz a Polícia Civil. A impunidade é culpa da Polícia Civil, diz a Polícia Militar. A insegurança é culpa das duas polícias, diz o Ministério Público. A falta de inquéritos para punir homicidas é culpa do Ministério Público, dizem as duas polícias.

A soltura do bandido perigoso é culpa da Justiça, diz o Ministério Público. A soltura do bandido perigoso é culpa do inquérito mal feito, diz a Justiça. A soltura do bandido perigoso é culpa da lei mal feita pelo Legislativo, diz o Executivo. A soltura do bandido perigoso é culpa do Executivo, que não aparelha o sistema repressivo, diz o Legislativo.

Segurança é um problema dos Estados, diz o Governo Federal. Segurança é dever do Estado Federal, dizem os Estados. Insegurança é culpa da população, dizem as autoridades. Insegurança é falta de autoridades, diz a população. A insegurança se abastece na impunidade, diz a mídia. A mídia se abastece da insegurança para faturar audiência, dizem as autoridades.

A culpa das estradas abandonadas e mal cuidadas é da União, diz o governo estadual. A culpa das estradas abandonadas e mal cuidadas é do governo estadual, diz a União. A culpa dos acidentes nas estradas esburacadas é dos motoristas, diz a Polícia Rodoviária. A culpa dos acidentes nas estradas abandonadas é da Polícia Rodoviária, dizem os motoristas.

A culpa dos hospitais mal cuidados e sujos é dos médicos e servidores da saúde, diz o governo. A culpa dos hospitais abandonados e sucateados é do governo, dizem os médicos e servidores da saúde.

A culpa da falência da Educação Pública é do governo, dizem os educadores. A culpa da falta de educação pública é da ganância da educação privada, diz o governo. A culpa da deseducação pública é do despreparo dos professores, dizem os pais de alunos.

A culpa da corrupção na Petrobrás é do passado, diz o governo presente. A culpa do rombo na Petrobrás é do petismo, dizem os do passado. “Só contei porque fiquei enojado”, diz o corrupto “arrependido” e “a culpa foi dos que me corromperam”.

A culpa é de quem? Nossa. Do preço do nosso civismo. Das manifestações de Junho, por vinte centavos. Cessado a aumento, morreu a beleza do movimento. Triste tempo, onde os dedos se cruzam uns apontando os outros, num jogo de lama suja, sem água e sem sabão.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 01/03/2015 - 08:22h

Caronte

Por François Silvestre

“Quatro rios há nos espaços tenebrosos e subterrâneos dos Infernos: o Estige, o Aqueronte, o Cocito e o Flegetonte ou Piriflegetonte. Os três primeiros levam suas águas lentas, através de marnéis, pântanos e volutabros infectos, cobertos de tristes plantas aquáticas, a gargantas estreitas, onde o ruído das águas se torna espantoso. O quarto rola ondas de enxofre e fogo, arrastando no seu curso rochedos retumbantes”.

“Às bordas do Estige vêm dar as sombras dos que deixaram os corpos na região das luzes. Sobre a onda imóvel desliza, sem cessar, sem ruídos, uma barca com a madeira podre, suja, dirigida por horrenda criatura”. É Caronte, o barqueiro do inferno.

É assim que Tassilo Spalding inicia o verbete que define e expõe à visão gráfica a figura símbolo do que seria o capitalismo na mitologia.

E informa que o filho de Érebo e da Noite, desconhecido de Homero e de Hesíodo, era um deus ancião, mas imortal. Velho, repugnante, intratável e avaro.

Para realizar a travessia dos mortos à outra banda do Estige ou do Aqueronte, cobrava três óbolos, a menor das moedas, que valia uma sexta parte do dracma.

E só carregava os que tinham merecido a honra do sepultamento. Cujas almas, desligadas, tinham a posse das moedas que lhes garantiam a travessia.

As despossuídas vagavam pelas margens dos rios citados, até que um dia conseguissem o pagamento da travessia.

A descrição de Caronte e suas atribuições compõem o mais perfeito retrato do capitalismo e suas navegações pela história humana, a cobrar de cada um os óbolos de sua ganância e devolver a cada um a travessia no barco podre de Caronte.

Quando vejo um rico perdulário ou muquirana, esbanjador ou mealheiro, enojar-se com a palavra comunismo, eu compreendo. O que não compreendo é ver um pobre esganar-se de admiração ao capitalismo.

O comunismo, minha gente, nada tem a ver com pilantras que se definiram comunistas. O comunismo é Marx, não é Stalin.

O comunismo é São Francisco de Assis, Thomaz de Aquino, Padre Vieira, Portinari, Vulpiano Cavalcanti, Carlos Prestes, não é Chaves, Fidel, Dirceu ou Brejnev.

Caronte não recebia seres vivos na sua barca. O capitalismo não recebe seres livres nos seus negócios. Todos são livres, no capitalismo, para servirem aos capitalistas. Fora daí, a liberdade é apenas uma figura retórica. Onde se avolumam nas margens dos rios podres as almas despossuídas de óbolos.

Caronte pagou com a perda de função, durante um ano, por ter transportado Hércules, ainda vivo, movido pelo medo.

Aí estão os dois instrumentos do aparato capitalista: a moeda e o medo. Sem a moeda e sem o medo, a exploração fracassaria.

Posta indevidamente nos ombros sujos do capitalismo a bandeira das liberdades fundamentais, pelo falso comunismo, o antagonismo do mal se transformou no estandarte justificador do próprio mal.

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François Silvestre é escritor

Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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quinta-feira - 26/02/2015 - 09:32h
Opinião

A dona do cabaré

Do Blog do François Silvestre

Se a prova testemunhal foi chamada por juristas antigos de “a prostituta das provas”, a delação premiada é a dona do cabaré.

O sujeito é suspeito de corrupção, não merece o crédito de ninguém. Muito menos do MP. De suspeito, vira acusado. De acusado, vira indiciado. De indiciado, vira réu. Até aí, é um mentiroso culpado de tudo, enquanto negar a culpa e não acusar ninguém.

De repente, o caráter muda.

Resolve assumir a culpa e culpar terceiros. Aí adquire crédito. De mentiroso, vira patriota. E tudo que antes era mentira, agora vira estuário da verdade.

O delator premiado é a cara do Brasil institucional. Da desonestidade institucionalizada. Da mentira edificada. Do arrependimento conveniente.

Onde a incompetência inquisitorial oferece à sociedade um porrete melado de bosta nas duas pontas.

Se o esclarecimento de crimes e descoberta de criminosos só se dá pela delação, pra que então gastar dinheiro público com todo esse aparato investigativo? É melhor fazer caixa para comprar delatores.

No Direito Processual, assim como na Arte, a forma da feitura supera o conteúdo do feito!

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domingo - 22/02/2015 - 07:24h

Curiosidades poéticas

Por François Silvestre

Sem me atrever a discutir definições ou conceitos poéticos, debate que já produziu tratados, polêmicas, esperneios e intrigas famosas, vou ao trivial.

E como tal, longe de qualquer cientificidade literária, trato tudo no pequenino e atrevido mundo do empirismo.

Até porque de Otávio Paz a Cardoza y Aragón, de Neruda a Tolstoi, de Garcia Lorca a Machado de Assis, de Baudelaire a Fernando Pessoa, para citar poucos, todo mundo já deu seu pitaco sobre conceituação dos modos, formas e alcances da poesia.

Exemplo marcante é a formação estrutural de um idioma a partir da obra poética de um autor. Do inglês, com Chaucer e do português, com Camões.

Se a organização morfológica, no português, deve-se ao teatro de Gil Vicente; foi Camões, na poética, quem edificou a sintaxe portuguesa. Criador de um idioma; a partir de uma algaravia como a última “Flor do Lácio”, da verve de Olavo Bilac. “Ora direis ouvir estrelas”.

De lá pra cá, de tudo e sobre tudo já se escreveu quase tudo. Ainda bem que apenas quase. Pois seria uma monotonia cultural a vida com tudo já resolvido. A incompletude conceitual alimenta criações e permite, na colheita do inquieto, manter acesa a chama do refazer-se. Eternamente.

E a rima? Para o gosto popular a poesia sem rima é prosa curta. Neruda ensinou que poesia é metáfora. E a prosa poética? O Pe. Vieira foi o craque desse estilo. Ao responder o suplício do silêncio imposto, alfinetou a cúria: “Deus, na sua infinita misericórdia, fez surdos os que eram mudos e mudos os que eram surdos. Posto que até a Natureza ao ser agredida com o grito, responde com o eco”.

Há palavras de rima difícil ou até inexistente; exemplo de cinza, painço, nenem. Um violeiro aceitou o desafio e rimou: “Na Bahia de Rui Barbosa/ numa tarde muito cinza/ vi uma velha fanhosa/ que chamava camisa caminza”. Só rima; poesia nada.

“Venho para uma estação de águas nos seus olhos”. Joaquim Cardoso; só poesia, sem rima.

De Neruda, o das metáforas: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever por exemplo: a noite está estrelada e tiritam azuis os astros ao longe./… Embora seja a última dor que ela me causa/ e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo”.

Luiz Cardóza y Aragón, o diplomata guatemalteco que acolheu, na embaixada de Bogotá, os fugidos da revolta colombiana, na noite em que foi assassinado Jorge Gaitán, disse: “A poesia é a única prova concreta da existência do homem”.

A rima não é vilã. No bom poema ela se agasalha em lençóis de seda.

D. Pedro II rima e faz poesia no soneto/recado ao ex-amigo Deodoro. Veja a última estrofe : “…Mas a dor que crucia e que maltrata/ que fere o coração e pronto o mata,/ é ver na mão cuspir, à extrema hora,/ a mesma boca aduladora e ingrata/ que tantos beijos nela pôs outrora”.

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François Silvestre é escritor

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domingo - 08/02/2015 - 11:33h

Num é da conta de ninguém

Por François Silvestre

Depois de muita conversa furada, que é o jeito de abastecer informações sobre assuntos “sérios”, vou tratar hoje de assuntos amenos,”suaves”, que se abastecem com conversa séria.

Até por que a seriedade no mundo de hoje é pra não ser levada a sério.

Aqui na chã da Serra sempre houve, em cada geração, uma quantidade enorme de figuras humanas que deixam marcas do seu rastro nas veredas do seu tempo.

Isso vai de agricultores, papudinhos, comerciantes, doidos, andarilhos, carolas e até autoridades. A geografia humana de cá de cima é um universo riquíssimo nesses figuraços que se distinguem e se diferenciam.

Martins possui algumas características especiais nessa coisa de psicologia coletiva. Tradicionalmente, uma cidade pacata. Porém, quando ocorre algum homicídio aqui é quase sempre de forma extravagante, para dizer o mínimo. Alguns são de arrepiar.

Há poucos minutos, enquanto estava escrevendo este texto, ouço um barulho que parecia a queda de várias folhas de zinco jogadas num lajedo. Era bala. Ocorria um velório, aqui na vizinhança da minha casa, quando um sujeito, ainda não identificado, invadiu a sala onde se velava a morta e disparou vários tiros, matando um parente da defunta.

Convenhamos que não seja comum matar alguém num velório. A cena que se formou e perdurou por toda a tarde diz tudo: A falecida no caixão, quase abandonada, e um morto, no chão, varado de balas, à espera dos peritos de Mossoró.

Martins é assim. Estranhamente pacata. Mas voltemos ao tema do texto, após o susto do tiroteio.

Luiz de Lulu, assim chamado, tendo como sobrenome o apelido do seu pai. Eu conheci, ainda criança, seu Lulu. Proprietário de um grande sítio e de uma das mais famosas casas de farinha da região.

Pois bem. Luiz de Lulu herdou a semelhança física e o gênio do pai. Quando bebia, coisa que deixou de fazer há anos, agia diferentemente do comum das pessoas. Bêbado, era profundamente educado. Chamava a todos de “doutô” ou “icelença”.

Chegava a ser cerimonioso. Estando sóbrio, como vive hoje, o tratamento é ríspido. “Diga aí, fí duma égua”. É assim que cumprimenta, seja quem for.

Casado há cerca ou mais de meio século, faz mais de vinte anos que não fala com sua mulher. Moram na mesma casa. “Nem um bom dia”, diz ele.

Interrogado por Jaílton, do Mirante Mãe-Guilé, respondeu rispidamente algumas perguntas. “Quem cozinha”?

Resposta: “Eu faço minha comida e ela faz a dela”.

Pergunta: “Vocês comem juntos”?

Resposta: “Cada um come no seu canto”.

Pergunta: “Quem lava a roupa”?

Resposta: “Eu deixo lá num canto; ela lava, engoma e deixa no mesmo lugar”.

Pergunta: “Quem compra a comida”?

Resposta: “Cada qual compra a sua, do que gosta”.

Pergunta: “E de noite, como é”?

Resposta: “Pode parar de pergunta; já sei o que você quer saber e isso num é da conta de ninguém”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 25/01/2015 - 14:24h

Universo infinito, planeta pequenino

Por François Silvestre

Quando é que vamos admitir uma verdade escancarada sobre o tamanho da Terra?

O Universo onde está implicado, posto e encolhido o nosso planeta é infinito. Muito mais distante do que grandioso. Tão exuberantemente sem medida e sem adjetivação, que todas as palavras disponíveis em todos os idiomas são insuficientes para qualificá-lo.

Nem os gênios da física ou astronomia conseguiram desvendar todas as suas dimensões. Leis físicas que vez ou outra são superadas ou complementadas por teorias novas e novas descobertas.

A Terra, não. Pequenina e desvendada, seus mistérios há muito tempo habitam os anais do passado. Mesmo que muitos desses gênios referidos tenham sido perseguidos ou mortos por desmistificarem dogmas e enunciados.

Enunciados e dogmas que se prestavam ao poder temporal, profano ou religioso, cujo serviço da ignorância sempre foi de vassalagem fiel. Nada assusta mais o poder tirano do que o esclarecimento. A luz afugenta fantasmas e tiranias.

A Terra já foi plana e fixa. Dizer diferente era uma heresia, punível com a morte. Só era plana e fixa na limitação mental da ignorância. Sempre girou sobre si mesma, solta no espaço, pela mágica natural da gravitação. E Newton descobriu que essa magia se dava na razão direta do produto das massas e na relação inversa do quadrado das distâncias.

A Terra é pequenina, belíssima, hospitaleira e limitada. E nós, os pré-humanos, não temos outro lugar para morar. Não temos para onde ir.

Ainda não há migração cósmica. Nem sei se um dia haverá. Certamente que neste milênio não será. Portanto, ou compreendemos a obrigação de zelar por nossa moradia, ou seremos despejados pela ordem judicial da nossa própria estupidez. Não há uma terceira via.

A natureza tem dado sinais claríssimos de que somos os inquilinos mais estúpidos de quantos já alugaram essa pequena mansão. Nem as baratas se equivalem.

Degelo, secas onde nunca houve nem estiagem, furacões em áreas novas, terremotos, maremotos, queda de raios, enchentes, desertificações, tudo isso sempre existiu; porém, entretanto mas porém, nunca com a intensidade de agora e em tantos lugares diferentes. E tão monotonamente repetido.

Será que não dá pra perceber que estamos antecipando em alguns milhões de anos a vida da Terra? Ou melhor, a vida na Terra?

As agressões ao meio ambiente, no mundo todo, sob a desculpa de um desenvolvimento discutível, tem sido de uma intensidade alarmante.

Sem falar nas agressões menores, da burrice nativa de nossa pobre gente ignorante, que se junta ao conjunto da estultice mor. Com a extinção de espécies animais e vegetais.

A terra devastada da ficção começa a ser uma imagem pífia da devastação que promovemos na realidade.

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François Silvestre é escritor

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domingo - 11/01/2015 - 06:45h

O patriotismo edificante

Por François Silvestre

Dizia Samuel Johnson, se não me trai a Memória, que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. A leitura que faço desse desabafo tem a ver com a desculpa do “patriotismo” para sustentar tiranias ou perseguir desafetos.

A História é pródiga nesse comportamento. Os “patriotismos” de Stalin, Hitler, Salazar, Franco, Pinochet, Videla, Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu, Geisel. É vastíssima a patota dos “patriotas”.

E todos os seus adversários não são inimigos seus. São “inimigos do povo e traidores da pátria”.

Lembro-me de um capitão, nos tempos do serviço militar, que dizia nas “aulas de instrução”: “Esses que nasceram aqui, mas são maus brasileiros”. E eu ficava muito contente porque era confessadamente um “mau brasileiro”.

E vez ou outra eu discutia com esse capitão e outros superiores, nessas aulas de instrução. E aqui faço justiça, eles me tratavam bem. Não eram politiqueiros fardados. Eram apenas militares profissionais, convencidos de que a pátria precisava selecionar os seus filhos.

Rilke Santos, que serviu na mesma Bateria, já contou isso em várias outras oportunidades. Ao dizer: “Aquele recruta magrelo e amarelo discutia com os oficiais e nós nos divertíamos”.

Naquele momento da vida nacional o patriotismo era reivindicado como propriedade de cada lado.

E o pior é que no núcleo dos insatisfeitos com a Ditadura, fogava-se no monturo uma fumaça de ranços pessoais, invejas inconfessáveis e pequenos ódios que ainda hoje habitam mentes e mídia, nesse lamaçal do patriotismo mal resolvido.

Nenhuma pátria sai incólume das ditaduras. E o Brasil é um país que se desloca entre intervalos de exceção e democracia de faz de conta. Hoje é o faz de conta. Tomara que fique assim, a fazer de conta. Do que viver dos restos da desgraça escancarada.

Mas é possível amadurecer? Claro. Basta não fazer do patriotismo um refúgio de canalhas. Deixar a canalhice ter liberdade de ação, sem lhe dar crédito.

O Rio Grande do Norte pariu um Presidente da República, Café Filho. Envolvido pelo “patriotismo” udenista, conspirou contra a democracia, entrando no poder pela fresta estreita da tragédia e dele saindo pelo escancarado portão da melancolia.

João Café Filho só foi um patriota ao defender, no púlpito sindical e advocatício, os interesses populares. Depois, esqueceu sua terra, aposentou seus princípios e entrou na definição de Johnson.

Jânio Quadros e Carlos Lacerda foram dois “patriotas” usurários da pátria.

Em Jânio, a canalhice é tão notória que dispensa argumentação. Em Lacerda, basta ler suas Memórias, onde ele afirma não ter qualquer escrúpulo em macular a honra de ninguém desde que servisse ao que ele considerava útil aos seus propósitos de poder.

Patriotismo edificante é o da professora primária, nos grotões das escolas isoladas.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado nomNovo Jornal.

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domingo - 04/01/2015 - 09:18h

O sabor da ilusão

Por François Silvestre

Um irmão da minha mãe, Joaquim Suassuna de Alencar, gostava de repetir um clichê que ouvira de tios seus. “A vida é uma ilusão”.

Dessas frases sem autores definidos, que tomam conta dos dizeres e viram “verdades” na repetição, como ensinara o arauto da propaganda germânica nos tempos dos mil anos que Hitler imaginara para sua louca ilusão.

Iludir-se é da nossa condição. Quase uma praga de cigano, ao se ver desiludidamente sem o convencimento de apanhar o ingênuo na proposta da troca.

A política é uma ilusão ou o político é um cigano a manter animada a feira das trocas, das vendas ou das compras? No caso do Rio Grande do Norte, a confusão se fez na prática. Quando Aluízio Alves aceitou o apelido irônico e o fez veículo de marketing, numa época em que essa esperteza ainda não montara a tenda de enganar a ingenuidade.

Aluízio contou-me que chegara para fazer um comício em Pau dos Ferros. Na hora da sua fala, uma pessoa da multidão gritou: “Seu adversário chamou você de cigano. Diga que cigano é ele”.

E Aluízio teria respondido: “Ele disse a verdade. Eu sou um cigano e venho propor uma troca. Vamos trocar um governo velho e fraco por um governo forte e novo”.

E daí saíram canções e lendas. A proposta da troca cigana é também uma ilusão das feiras. “Ganjão! O que me dá de troca por essa burra de sela, seleira e veloz”?

Zé Garcia, chefe cigano sem ser cigano, andava numa burra arreada de couro e brilhos, cheirosa como damas de cabaré. Derramava nas crinas e no rabo da montaria frascos do “extrato de pobre”, um perfume barato de cheiro ativo e doce, cujo recipiente tinha o fundo roliço.

Os missionários, nas missões fanáticas ou nos beatos meio loucos, vendiam a ilusão do céu. Frades estrangeiros, de sotaques alemães ou italianos, do Frei Timóteo ao frei Damião, espalhavam medos e prometiam salvação.

Bem mais ingênuos do que os espertos “evangélicos” de hoje, que enriquecem à tripa forra vendendo milagres e milacrias. Negadores de Lutero, cuja ira santa desnudou a Igreja romana por esses mesmos hábitos.

Iludir pra ser iludido. Impossível viver só da realidade. A arte não é outra coisa senão a suavidade falsa da vida suportável para contrapor-se à pesada ilusão da vida real.

Viver é também enganar a vida, como artimanha de adiar a morte. Ou não pensar nela. Pelo menos não fazer da morte um pensamento constante, espantador da vida, como faziam os monges do Mosteiro da Trapa, ao repetir o único cumprimento do dia: “Lembrai-vos da morte, irmão”!

O ano novo é uma reinvenção da angústia de não controlar o passar do tempo. Não o vence, alia-se a ele. E então se comemora como se fosse resultado da vontade.

O tempo não dá satisfações ao relógio nem toma conhecimento do calendário. Essas são prisões nossas.

Você acabou de perder tempo ao ler este texto.

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domingo - 28/12/2014 - 07:56h

A velhice dos anos

Por François Silvestre

Dizia o professor de Medicina Legal, Milton Ribeiro Dantas, que nós começamos a compreender a vida contando as décadas. E com o passar delas, descíamos a contagem para os anos, meses, semanas e dias.

Lembro ainda dos tempos de criança, quando se queria dizer que alguém estava à beira da morte, usava-se a expressão “está só contando as horas”.

Cada ano começa a contar as horas após a ceia de Natal. E agoniza entre festas, salamaleques, votos, abraços. Há um clima suave de música triste embalada por sinos femininamente sílfides.

É o único período em que a hipocrisia não parece maldosa. Pelo contrário, fica até fantasiada de candura.

O Nazareno certamente não teria tempo suficiente, nestes tempos de agora, nem chibatas disponíveis, para expulsar os vendilhões dos templos. Ou talvez nem o fizesse, pelo simples fato de que esses prédios pomposos, onde se encastelam as igrejas não seriam por ele reconhecidos como a sua edificação sobre a pedra de Pedro.

O Cristo que nós embalamos na manjedoura, aos sinos de Dezembro, para três meses depois o pendurarmos na cruz. Tudo regado a muita festa, comes e bebes; orações decoradas para afugentar medos e labaredas.

Jacques Anatole François Thibault, o popular Anatole France, dizia que as crucificações eram tão comuns naquele tempo, que nem despertavam interesse. Sugerindo que a pompa e circunstância da crucificação de Cristo foi uma invenção posterior. Porém, nem ele, com seu ferino ceticismo, pôde negar que aquela crucificação, específica, produziu a mais profunda influência nas relações da fé humana ao longo do tempo.

O Cristianismo é núcleo e periferia. Vai do belo ao horrendo, da luz às trevas. Depende do tempo e das relações com o poder temporal. Da humanidade plena de um Ângelo Roncalli, o João XXlll,  à barbárie do Bispo Torquemada, na inquisição. Os extremos, com infinidades de configurações entre suas pontas.

Certamente o Cristo merece melhores emissários do que os vendedores de milagres, saltimbancos da fé, que infestam a angústia dos nossos tempos.

Mas eu falava da idade dos anos. Cuja adolescência impúbere despede-se ali por Maio e se veste de noivado; depois, a juventude atravessa as fogueiras a comemorar a colheita, nos folguedos de São João. Chega a maturidade e perdura até por meados de Outubro. E aí começa a velhice.

As rugas dos anos são tristes. É por isso que ele morre fazendo festa. Mas a festa não consegue enganar. Por isso a música da despedida é melancólica.

Mesmo assim, e até por isso, brindemos. Cristo está acima de nós. Da nossa fé ou da nossa descrença.

Morrer não é coisa da morte. Não. É coisa da vida! E pra viver é preciso entusiasmo. Os anos morrem entusiasmadamente.

Recorro a Anatole France, para fechar o texto. “Eu prefiro o erro do entusiasmo à indiferença do bom senso”.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 28/12/2014 - 06:08h
Desculpas

Adjetivação e destempero

Por François Silvestre (Portal Noar)

Venho de público, motivado por autocrítica, pedir desculpas pelo destempero de adjetivos com que me dirigi aos membros do governo que sai (veja AQUI). Não retiro o sentido da crítica feita, substantivamente.

Mas retiro a adjetivação raivosa, até porque nunca foi esse o meu jeito de tratar pessoas ou fatos.

Tudo se deveu à ira que o descaso governamental com o servidor público tem provocado. Mas não justifica a agressão ao leitor com texto irado.

A situação de estresse a que está submetido parte do funcionalismo chegou a níveis patológicos. Ao ponto de estragar a expectativa do ano novo, só de imaginar a promessa de pagamento no dia 30.

Sairá? E se sair, a que horas sairá?

Essa não é uma forma honrosa de tratar os administrados.

Mesmo assim, e apesar disso, reitero meu pedido de desculpas. Um natal agradável para todos e um novo ano menos sofrido!

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terça-feira - 23/12/2014 - 09:21h
Fazendo acontecer

A roda viva humilhante e sofrida do servidor estadual

Carlos Santos,

Samuel é servidor público estadual. Ganha um pouco mais de cinco mil reais.

Sua mulher é portadora de cardiopatia grave, seu filho mais velho é paraplégico, sua filha mais nova é deficiente mental.

O salário de Samuel é a única renda da família. Faz sete meses que a casa de Samuel virou um antro de pânico.

Todas as suas contas vencem no fim do mês. Aluguel, telefone, água, luz. A farmácia, propriedade um um amigo, vende remédios parceladamente.

Com o atraso dos salários, em dez dias cada mês, e a cada mês com hora incerta de pagamento, no maldito décimo dia, Samuel precisou valer-se de um agiota amador, para pagar as contas emergentes.

São dez dias de alimentação precária, nervos à flor da pele.

Um vizinho, que também é servidor público, ganhando pouco mais de três mil, o socorria vez ou outra. Foi então que o “humaníssimo” governo reduziu para dois mil reais o valor do salário a ser atrasado.

E aí o vizinho de Samuel entrou na roda.

François Silvestre – Webleitor e escritor

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Categoria(s): Administração Pública / E-mail do Webleitor
segunda-feira - 22/12/2014 - 17:18h
Por François Silvestre

Um governo de desonestos! Patifes!

Por François Silvestre (Portal Noar)

Ladrões do governo de facínoras, velhacos, adjetivos do sanitário, cadê o décimo? Patifes.

Vão continuar mentindo, enganando, desviando, delinquindo até as últimas horas do despejo.

Quando começar o novo governo será preciso dedetizar todas as dependência do esgoto a que foi transformado o palácio do governo.

Ratos e ratazanas, Fora!

Podem levar a minha parte do décimo para comprar papel higiênico suficiente para limpar suas virilhas infectadas de excrementos…

Sacripantas, pusilânimes, energúmenos.

Cadê os adjetivos?

Fora, escória!

Cadê o décimo dos servidores públicos? Velhacos, sem vergonha, Augustalba, cínicos. Sanitário de adjetivos. Qual a mentira da tarde? Desonestos. Patifes. A saudade de vocês será festa…

Em que fundos anda o dinheiro do fundo? Cadê o décimo do servidor, governo escroto?

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domingo - 21/12/2014 - 06:34h

Constituinte ou “constituinte”?

Por François Silvestre

Não se reforma uma casa pintando as paredes ou substituindo o teto se o alicerce estiver comprometido. A querer salvar o imóvel, só tem uma saída. É refazer a fundação.

Ou se faz assim, ou adiam-se, ad perpetuam, os mesmos e velhos problemas. A mexer aqui, alterar ali, esconder a sujeira, fazer pose e consolidar a desordem. E nos cantos escondidos do barco “reformado” continuarão a habitar os ratos, senhores do porão, comandando o convés.

É o caso do Brasil. Uma casa que se sustenta numa fundação institucionalmente falida. Superada e esgotada na gambiarra de uma ordem constitucional completamente desadequada no tempo, espaço e realidade social.

A Constituição de 1988 é o Diploma da “boa intenção” a florir o caminho do inferno. Como diria Marx.

Porém, num aspecto é preciso fazer justiça.  O constituinte de 88, sabiamente, percebeu que o momento da feitura da Carta Magna estava comprometido com a frivolidade cívica e a ligeireza jurídica. Onde se engalfinhavam num mesmo saco todas as tendências. Tendenciosas, como é da sua natureza.

O que fez o constituinte? Previu, nos Atos das Disposições Transitórias, uma reforma geral da Constituição. Para cinco anos após a promulgação.

Chegou 1993, ano da reforma prescrita. Não se cumpriu a determinação constitucional. Omissão combinada. Governo, oposição, sociedade “civil organizada”. Todos agasalhados na latada da constituição “cidadã”.

A partir daquele ano, a ordem constitucional brasileira, nascida da Constituinte de 1988, entrou no processo de caducidade constitucional. Esclerose institucional.

O quadro aí está para comprovar o dito, sem muito esforço de perquirição. Corrupção fora de controle, economia em frangalhos, educação pública analfabetizante, saúde pública abandonada, segurança pública de fratura exposta, instituições sem prerrogativas claras, legislação caótica. Ninguém sabe quem manda. Nem onde nem no quê.

Essa história de “constituinte” específica para fazer reforma política é uma escrachada demagogia.

Tem saída? Sim. Uma Constituinte Originária Exclusiva de composição aberta para prover uma nova ordem constitucional. Ou isso ou a consumação do caos.

Originária. Isto é, criar nova ordem. Preservando as conquistas democráticas e recepcionando que se salva. Legitimadora da ordem, sem qualquer dependência. Seja política ou judiciária.

Exclusiva. Assembleia Constituinte com a única finalidade de elaborar a Constituição. Dissolvida após a promulgação.

Composição aberta. Com candidaturas avulsas, sem prejuízo dos candidatos partidários.

É a única forma de recuperar a dignidade institucional pela via democrática e pacífica. Sob pena de cairmos na vala comum das sociedades dispersas e sem esperança. Ou na carnificina de revoltas populares ou intervenção de quarteladas.

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domingo - 14/12/2014 - 09:15h

Saco

Por François Silvestre

Não do verbo sacar. De saco mesmo; de estopa, de farinha, de filó, de gatos, de cobras, de bosta, de pancada.

É o que é o Brasil. Um saco de país. A geografia, de tão bela e exuberante, enche a metade da beleza do mundo. Se o mundo for apenas esse miserável e belo Planeta. Mais miserável pelos habitantes do que pela pobreza de brilho ante a claridade do Universo. Aí, o Universo é Deus e o Planeta é Martins.

Não creio em Deus. Ou melhor, não acredito na sua existência, exatamente pelo fato de que se Ele existisse não permitiria minha tola descrença. Ou me convenceria de que eu valeria a pena como objeto da criação. Não me convenceu. Portanto, Ele não existe. E eu só existo porque não existe Deus. O criador consciente, no caso Deus, não pode existir se criou uma cria tão inútil quanto eu.

Capaz de duvidar da sua criação. E dizer: Vai criar mal assim no barro de Adão. Tinha barro melhor não?

E olhe que tá assim de crias ruins piores do que eu. Também pudera, Deus. Você disse à sua imagem e semelhança. Deus me livre. À minha imagem e semelhança nem o espelho eu suporto. Portanto, entretanto mas porém, me desculpe; mas sua imagem tá, pelos seus semelhantes, espelhadamente avacalhada.

A sermos nós a “sua imagem”, só cabe uma conclusão: ou Você errou na repetição da semelhança ou Se borrou na fabricação do espelho.

Deve ter notado que sempre ponho em letra maiúscula tudo que a Você se refere. Seja no nome próprio ou nos pronomes. Isso é resultado do medo que Mãe-Guilé me tatuou no lombo. Não acredito em Você, mas num quero em arriscar. Mãe-Guilé sabia das coisas. E negociava seus pecados com um terço pendurado no pescoço.

“Creia em Deus, que é santo velho, cara ensebada”. Dizia ela. E completava: “o resto é tudo novo, até o cão”.

Mesmo que, tempos depois, eu tenha aprendido pelo filósofo que o perigo do Diabo não é a maldade, mas a velhice. “O Diabo é perigoso porque é velho”.

Mas eu tava falando de saco. Do Planeta pequeno e mal habitado. Do Brasil do tamanho de uma úlcera. O Brasil é uma úlcera aberta ao abrigo de todas as infecções. Com bactérias no comando e medicamentos a alimentá-las.

Quem quer o fim da corrupção no Brasil? Os corruptos não querem. O poder não quer. A oposição ao poder não quer.

O que Deus tem com isso? Tudo. Vocês já viram um corrupto ateu? Vocês já viram uma igreja, mesquita, templo, monastério, sinagoga, que não use o nome de Deus para justificar suas patifarias?

O Brasil não é uma democracia institucional. Não. É um saco cheio de instituições, feito siris na lata. Caranguejos-uçá na corda. Instituição é o que não falta. Falta dignidade institucional.

De que viveria o discurso dos “éticos” sem a corrupção?

O custo da “ética” no Brasil é mais alto do que o custo da corrupção. Mesmo que seja ela a justificadora do discurso “ético”. Sem uma o outro não sobreviveria.

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* Texto originalmente publicado pelo Novo Jornal.

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domingo - 07/12/2014 - 07:08h

O palanque e suas figuras

Por François Silvestre

As campanhas políticas, nas movimentações de rua ou na falação dos palanques, é um teatro riquíssimo na improvisação e na graça dos repentes populares.

Num comício, em Umarizal, meio dia de Segunda-Feira, na feira do lugar, com gente da região Oeste, da Paraíba e Ceará, falava Odilon Ribeiro Coutinho, na Praça Aluízio Alves, na carroceria de um caminhão, defronte da farmácia de Paulo Abílio.

Com seu gestual singular, onde os braços desengonçados sobre a cabeça regiam as palavras como um maestro da retórica. E dizia: “Abriram pelo espinhaço o corpo sofrido do meu povo; e de lá, ainda sangrando, lhe arrancaram o coração que se debate sedento de liberdade”.

Fez a pausa, como se faz nas falas do teatro, e perguntou à plateia que o ouvia no meio do sol, atentamente:

“E o povo, ganhou o quê com isso”?

Um bêbado, que dançava no pé do palanque improvisado, respondeu gritando:

– Ganhou a do burro!

Nem Odilon conseguiu conter a risada, que também se espalhou por toda a praça.

Candidato a Deputado Federal, fui fazer alguns comícios relâmpagos no bairro de Nova Descoberta. Ali pelas imediações do supermercado Pão de Açúcar, onde hoje há um monstrumento dito cristão. Ao formar-se um pequeno aglomerado, comecei a falar, numa Kombi com seis funis de som.

Notei um rapaz de braços cruzados, de olhos vidrados em mim, numa concentração que me chamou a atenção. Passei a dirigir-me a ele. Dizia alguma coisa para os outros presentes e me voltava pra ele: “Taí esse companheiro, muito atento, que demonstra concordar comigo. Não é isso, companheiro”?

Falava e apontava pra ele. E ele não se mexia. E eu, animado, repetia vez ou outra a mesma fala, dirigindo-me a ele.

Numa das vezes, uma mulher que estava ao seu lado, gritou de lá: “Ele é surdo-mudo”.

Foi o fim do comício.

Jota Belmont, candidato a deputado, levava para o palanque sua experiência de comunicador de rádio. Conseguia prender a plateia, com discursos bem articulados e de fácil compreensão. Ele costumava terminar sua fala com a célebre oração de São Francisco. Era o apogeu do discurso.

Numa certa feita, Joaquim Úrsula e Júnior Targino urdiram uma presepada. Mandaram que eu decorasse a referida oração, para fazê-la antes da fala de Belmont. Queríamos deixar o ilustre radialista sem o desfecho brilhante do seu discurso.

Ocorre que Belmont, muito espertamente, tinha outra oração decorada, para qualquer eventualidade.

Depois ele nos contou que sempre esperara por alguma sacanagem dessa ordem. Quebrou nossa cara.

Havia uma técnica de puxar na camisa do orador, quando ele se estendia demais. Certa vez, fizeram isso com Osnildo Targino, prefeito do Junco.

Ao sentir o puxão na camisa, Osnildo reagiu com firmeza e indignação:

“Não puxe minha camisa, venha pra linha de frente e enfrente a multidão”.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

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domingo - 16/11/2014 - 10:45h

De quem é a culpa?!

Por François Silvestre

O buraco na rua é culpa da Prefeitura, diz o Estado. A lagoa poluída é culpa do Estado, diz a Prefeitura. A insegurança nas ruas é culpa do governo estadual, diz o governo federal. A violência generalizada é culpa do governo federal, diz o governo estadual.

Apagão energético é culpa do governo federal, dizem os Estados. A falta de planejamento energético é culpa dos Estados, diz o governo federal. A falta de água no Sudeste é culpa do PSDB, diz o PT. A falta de água no Nordeste é culpa do PT, diz o PSDB.

O número incontável de homicídios é culpa da Polícia Militar, diz a Polícia Civil. A impunidade é culpa da Polícia Civil, diz a Polícia Militar. A insegurança é culpa das duas polícias, diz o Ministério Público. A falta de inquéritos para punir homicidas é culpa do Ministério Público, dizem as duas polícias.

A soltura do bandido perigoso é culpa da Justiça, diz o Ministério Público. A soltura do bandido perigoso é culpa do inquérito mal feito, diz a Justiça. A soltura do bandido perigoso é culpa da lei mal feita pelo Legislativo, diz o Executivo.

A soltura do bandido perigoso é culpa do Executivo, que não aparelha o sistema repressivo, diz o Legislativo.

Segurança é um problema dos Estados, diz o Governo Federal. Segurança é dever do Estado Federal, dizem os Estados. Insegurança é culpa da população, dizem as autoridades. Insegurança é falta de autoridades, diz a população. A insegurança se abastece na impunidade, diz a mídia. A mídia se abastece da insegurança para faturar audiência, dizem as autoridades.

A culpa das estradas abandonadas e mal cuidadas é da União, diz o governo estadual. A culpa das estradas abandonadas e mal cuidadas é do governo estadual, diz a União. A culpa dos acidentes nas estradas esburacadas é dos motoristas, diz a Polícia Rodoviária. A culpa dos acidentes nas estradas abandonadas é da Polícia Rodoviária, dizem os motoristas.

A culpa dos hospitais mal cuidados e sujos é dos médicos e servidores da saúde, diz o governo. A culpa dos hospitais abandonados e sucateados é do governo, dizem os médicos e servidores da saúde.

A culpa da falência da Educação Pública é do governo, dizem os educadores. A culpa da falta de educação pública é da ganância da educação privada, diz o governo. A culpa da deseducação pública é do despreparo dos professores, dizem os pais de alunos. A culpa da depredação das escolas é dos alunos mal educados pelos pais, dizem os professores.

A culpa é de quem? Nossa. Do preço do nosso civismo. Das manifestações de Junho, por vinte centavos. Cessado o aumento, morreu a beleza do movimento.

Valentia no varejo, covardia no atacado! País hipertenso, empanzinado de pré-sal. Pré-povo. Pré-dignidade. Pré-pago. Uma pátria longe do pós.

Pré-democracia, pós-demagogia. O Brasil não faz reforma, faz curativo. Revolução do Peter-pan, no tempo do nada.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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