domingo - 09/11/2014 - 04:15h

Poema de Natal

Por François Silvestre

Em Dezembro, o embalamos na manjedoura/

ao som de suaves sinos,/

canções tristes de ninar./

Entre compras e presentes/

nos trocamos,/

recebendo e dando./

Num alegre mafuá./

Dobramos o ano ao cantar da festa/

e ao brilho da Luz./

Três meses depois,/

O condenamos!

Dando-Lhe maioridade,/

retirando-O da manjedoura/

e O pendurando na Cruz!

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 26/10/2014 - 06:43h

Involução

Por François Silvestre

Hoje termina a fúria do campeonato eleitoral. O Brasil é uma involução democrática. Do ponto de vista da grandeza de quadros, de métodos, de ação, o cenário que se montou desde as “diretas Já”, seguidas da eleição de Tancredo Neves, não produziu evolução.

Desde o lastimável governo Sarney, passando por Collor, com o intervalo razoável de Itamar Franco, o Brasil entrou num embate entre o neoliberalismo econômico e o neopopulismo social. É essa a disputa de hoje. Eterna e monótona, como a seca.

E ambos os lados, por mais que se digam antagônicos, são complementares. Ambos bebem na fonte mais atrasada do capitalismo. Entre a retórica do democratismo econômico e a demagogia do paternalismo caritativo. Duas faces cruéis do esperneio liberal. Não há socialismo nem evolução democrática nesse cenário.

Vinte anos do mesmo ramerrão. E até o entusiasmo parece a caricatura de uma festa repetitiva.

A única coisa que salva esse embate é a sua comparação com a Ditadura. Melhor do que os tempos de coturno e chumbo. Mas o Brasil não pode passar o resto dos tempos justificando retrocessos, por ganharem em comparação com uma ditadura morta e sepultada.

É bem verdade que a humanidade, nesses últimos vinte anos, evoluiu em tecnologia mais do que nos dois últimos séculos. Porém, involuiu em caráter humano a níveis inferiores ao tempo do iluminismo.

A continuar nessa marcha acabaremos quadrúpedes, dominando máquinas cada vez mais sofisticadas e nos tratando mutuamente como feras sedentas de sangue. Antropófagos da robótica.

FICO ME DELICIANDO com a estultice explícita de patrulheiros; ingênuos e agressivos, deselegantes e arrogantes, cada qual se achando portador de um facho libertário. Nos dois lados. Tochas a iluminar uma corte dividida entre a retórica e a demagogia.

Porém, sem eles e sem essa histeria, os protagonistas do embate não teriam sustentação nem justificativa. Há um complô entre enganadores e enganados.

O Brasil é uma republicona bananeira, com escassez de bananas. Os símbolos do embate são duas figuras carimbadas. Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva. Para dar nome aos carreteiros, vez que os bois somos nós.

São as duas margens do rio seco. O resto é figurante. Ou melhor, o resto é o leito do rio, imprensado numa dialética de faz de conta. Se um é o símbolo da retórica, do Estado capitalista do conicato; o outro é o arquétipo da demagogia, do Estado capitalista das prebendas.

Ambos tentam o riso sem graça, no picadeiro de um circo de lona encardida. Sociólogos da “bondade étnica”. Um país violentíssimo, com anemia cerebral, sob o mando de instituições corporativistas e sedentas de privilégios. Tudo num conluio midiático, onde a aparência esconde as intenções.

A bajulação cega mais do que o diabetes. E até a santidade, em excesso, faz mal.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no periódico natalense Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 19/10/2014 - 07:55h

Campanha ou canelada?

Por François Silvestre

Com certeza o mais desonesto é o que vende o voto. Irmão gêmeo do que compra. Isso é ponto pacífico. A nojeira da compra e venda de voto nada tem a ver com incultura ou despolitização. É ladroagem mesmo. “Cultura” política da ilegitimidade representativa.

Mas este texto quer tratar da briga de foice, que não é desonestidade; aí sim, fruto da despolitização ou má-fé política.  Essa praga que acompanha passo-a-passo nossos intervalos democráticos, como aquele personagem de Marguerite Hadcliffe, n’O Poço da Solidão, cujos passos tinham sempre a confusão a segui-los.

E nesse quadro, o elenco da ignorância política forma-se entre letrados. Ou bem informados. Ou até formadores de opinião. Que não se enquadram na conceituação do analfabetismo político de Bertolt Brecht; ao contrário, são politicamente instruídos.

O quadro referido se forma por uma deformação. Dialética que compõe, entre afirmação e negação, o cenário de uma prática de militância que desserve ao amadurecimento democrático.

Já foi dito, e é verdade, que campanha eleitoral não é uma disputa de grêmio escolar num internato clerical. Claro que não. Nem se pede que seja um concurso de boas maneiras. Ou de hipocrisia e mesuras falsas. Também não.

Porém, “entretanto mas porém”, não precisa ir à fronteira oposta. Transformar a campanha eleitoral numa sarjeta sem limites morais. Seguindo a lição cretina e amoral de que “em política o feio é perder”. A “máxima” foi usada para justificar fraudes; as famosas brejeiras. Mas tem servido para abastecer “estratégias” de marqueteiros, profissionais na arte de vender produtos, como se candidatos fossem sabonetes ou embutidos de carne moída.

E quem acaba sendo moído, em vez da carne, é o eleitor consciente, que não se vendeu; e depois mal lavado, pelo saponáceo bem vendido.

É triste ver formadores de opinião, na mídia, bem articulados, bem informados culturalmente, descerem ao nível de torcedor de futebol, daqueles mais ignorantes; como se a campanha eleitoral fosse uma decisão de torneio de várzea. Mesmo disputada num estádio da Copa, belamente abandonado, entre ex-grandes times.

No Brasil, dada à imprevisibilidade de suas formações, tudo parece ser possível. A ética é tratada como instrumento de propaganda; por partidos, por políticos e até por algumas instituições. Não é um bem natural, como deveria ser. É um medalhão a ser exibido, como se a honestidade fosse um favor. Ou um troféu banhado a hipocrisia.

Ainda bem que as “torcidas organizadas”, dos dois lados, não vão aos debates nem se encontram nos comícios. Se os comícios fossem realizados em conjunto, como as partidas de futebol, certamente os embates seriam sangrentos.

Posto que, no Brasil, país violentíssimo, não se faz revolução, mas se esbanja sangue derramado.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no periódico Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 12/10/2014 - 09:22h

Federação ou arquipélago?

Por François Silvestre

A apuração do primeiro turno confirma a teoria geopolítica de que o Brasil é um conjunto de ilhas culturais. Muito mais do que uma federação política.

A nossa federação é uma mentira constitucional, desde o fim do Império. Rui Barbosa batera-se pela federação monárquica, ou Monarquia Federativa, cuja implantação contava com a simpatia da Princesa Isabel. O velho Imperador era contrário, assim também o Conde d’Eu.

Caso a autonomia das províncias fosse adotada, numa Monarquia Federativa, segundo a defesa de Rui Barbosa, certamente o golpe republicano teria sido adiado.

O jurista baiano virou republicano pela inexorabilidade do fato consumado. Tornando-se, na República, um prócer tão proeminente quanto fora no Império. Inclusive assumindo a pasta da Fazenda, no primeiro governo republicano, quando adotou a posição financeira do “papelismo”, no famigerado encilhamento, que estrangulou as finanças públicas.

Esse desacerto econômico foi sempre usado por seus adversários, nas várias vezes em que tentou chegar à Presidência. Cinco vezes. Três disputas nas convenções e duas no pleito geral. Contra Hermes da Fonseca e Epitácio Pessoa. Na eleição de Afonso Pena, ele retirou a candidatura, mas ainda assim foi votado.

Já naquelas disputas o Brasil fez sua marca de arquipélago. Ou um trem de comboios distintos. Minas e São Paulo à frente a puxar vagões dispersos. Com uma ou outra interferência pontual do Rio grande do Sul, do Rio de Janeiro ou da Bahia. O resto, na rabeira.

E aí há de se acentuar um fato histórico continuado, como há o continuado delito, na aferição jurídica. O delinquente-mor dessa deformação federativa. Quem? O Senado Federal.

Cabe ao Senado, por determinação constitucional, desde a Constituição de 1891, a manutenção e defesa da Federação. Tanto que sua composição se faz com o mesmo número de representantes dos entes “federados”. Três senadores para cada Estado. E o nome do país, inicialmente, era República dos Estados Unidos do Brasil. Para copiar e imitar os Estados Unidos da América.

Só copiou. E imitou nos defeitos. Nunca fomos uma Federação. Somos um Estado deformadamente unitário, com a União senhora absoluta das decisões e os Estados a reboque, diferenciados apenas pela força econômica de cada um.

Enquanto o Senado, defensor inútil e ineficiente da Federação, serve para sangrar o tesouro público, promover sabatinas de faz de conta com os indicados ao STF, avalizar embaixadores e fazer politicagem.

Foi assim desde longe no tampo. Com Rui Barbosa fazendo discursos e campanha para ser Presidente. E Pinheiro Machado respondendo os discursos de Rui e evitando que o “colega” chegasse à Presidência.

A diferença é que hoje há mais politiqueiros, mais desonestos e menos oradores.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no periódico Novo Jornal de Natal.

 

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domingo - 28/09/2014 - 09:13h

A eterna e monótona novidade

Por François Silvestre

Foi assim que Euclides da Cunha fotografou a seca. Eterna porque independe da ação humana, fenômeno natural com registro no passado, atestado no presente e previsível no futuro. Monótona porque vem em ciclos, repetidamente; de fácil constatação. E novidade por conta da incompetência gerencial do poder político, que faz da seca uma surpresa a cada ano.

Em casos mais graves, nem é incompetência. É cumplicidade política, onde a seca serve para produzir mais riqueza pra quem já é rico e aprofundar mais miséria para os que continuam pobres. Essa prática é também uma novidade eterna e monótona.

Até um órgão com a denominação estúpida de “contra a seca” foi criado. E o pior: de “obras contra”… De lá pra cá, o mesmo ritual de remendos e assistencialismo. Onde o vício dessa “arrumação” encontrou agasalho no poder e nos “favorecidos”. O poder caridoso de um povo mendicante.

Não consigo ver uma ação governamental que pelo menos saia do ramerrão continuado. A transposição do São Francisco? É tão antiga e distante que mais parece piada.

Só não é uma piada, porque já derramou e pôs dinheiro público em canos e canais vazios. Essa sim, a transposição de grana do bolso do povo para a botija de empresas e empreiteiras. Tudo devidamente licitado, ao sabor da burocracia.

Vejamos alguns aspectos dessa monumental mentira. Em primeiro lugar é de se constatar o desgaste do próprio São Francisco. Nascentes agonizantes e matas mortas. Seja pela estupidez dos nativos dessas regiões, seja pela falta de fiscalização do Governo e das chamadas entidades de defesa do meio ambiente.

O Governo encastelado nos “negócios” políticos. As entidades ambientais vendendo ilusões nas salas refrigeradas e nas luzes da mídia. Muita picaretagem e pouca ação.

Outra constatação. A água que por ventura aqui chegue dessa transposição, será insuficiente para estancar esse processo perverso das relações com a seca. Fossem suficientes as águas de um rio, ao passar numa cidade ou comunidade, não haveria miséria nas cidades ribeirinhas onde passa o São Francisco. Só aí já se desmoraliza a propaganda enganosa.

Há soluções pequenas e pontuais, que mesmo não resolvendo o problema geral, podem atenuar bastante os efeitos da seca.

Vejamos uma. Os açudes e açudecos, das pequenas e médias propriedades, inclusive nas beiras das estradas, estão assoreados. Com menos da metade de sua capacidade de acúmulo. Todo ano, nesta época, eles estão secos e se oferecendo para uma solução. Qual? A dragagem.

Coisa que um pequeno trator, com uma escavadeira, aprofundará dois ou três, num dia, dependendo da distância. Refaz o porão e com o material retirado, reforça a parede. Onde se acumulava água por seis meses, passará ao dobro, com reserva para um ano. Fácil e simples. Todo ano, eu repito isso aqui.

Eterna sacanagem. Monótona patifaria. Enrugada novidade.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto publicado originalmente no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 21/09/2014 - 18:42h

Tempo de brumas

Por François Silvestre

O poema terrível de Bertolt Brecht fala de um tempo sem sol, de guerra, onde se comia no meio da batalha. O grande poeta se via personagem ativo desse tempo, que o obrigava a não silenciar.

Hoje, o Brasil conserva seu tempo de sol, no céu e no mar; mas o tempo institucional é brumoso. Desmerecedor de confiança. E quando não há confiança institucional, estremece o destino da liberdade.

Todos os tempos obrigam seus viventes. Cada um assume a sua obrigação, sem exceção. Até a omissão, pior das ideologias, obriga-se, mesmo fugindo. Não adianta esconder-se, que o tempo baterá em sua porta.

Cada tempo com sua face. E como o nosso tempo é de bruma, assim brumoso se faz o nosso caráter. Em alguns, líquido, como ensinou Jussier Santos, ao falar de um amigo comum. É aquele caráter que toma o formato da bacia.

Noutros, gelatinoso. Aquele oscilante; meio tudo, meio nada. São os tetranetos de Macunaíma. Aquele que ao fazer a sacanagem, debulha-se em lágrimas com pena do sacaneado.

Esse é o retrato mal disfarçado do nosso tempo. Uma Esquerda fugindo da autocrítica, disputando espaços entre a erudição e a esmola. Marcando passo de ganso, numa ordem unida de quartel abandonado. A ela se opõe uma Direita sempre esperta e desonesta, que é do seu feitio, a colher os frutos da incompetência da oponente.

E pra completar a comodidade da patifaria geral, o discurso de que não há mais Direita nem Esquerda. Enquanto as razões da História aí estão a mostrar que as mudanças estão muito longe de sepultarem essa dicotomia.

Esse embate que põe de um lado os senhores da exploração e do outro os deserdados do que se explora. Esses estão à míngua dos dois lados. Da Direita, que os quer dominados. Da esquerda, que os quer aliados. E tanto uma quanto a outra, sacanamente, rouba-lhes a esperança. Ou oferece a esperança que ficou presa na Caixa de Pandora.

Direita e Esquerda existem sim. E aí estão. Uma, mais esperta e mais cretina continua a explorar. Outra, mais “humana” e falsária, continua distinta entre discurso e arte. Gêmeos palíndromos, que mesmo sem a coincidência de grafia podem ser lidos de trás pra frente e vice-versa.

A “ordem” constitucional de 88 faliu. Morreu. Fede. Precisa ser sepultada para dar vida a uma ordem legal que tenha repouso na adequação dos tempos atuais. Ou isso ou o deserto institucional.

Instituições lambuzadas de poderes, sem preparo de recursos humanos para cumprir atribuições adquiridas. Usamos, no Brasil, o volume morto das leis, como se usam as águas da represa do Cantareira. Um dia, isso sairá da lama para o sangue. É a repetição histórica da tragédia e farsa. O triste é que a farsa é agora. Vamos repetir como?

Se não temos a unção da tragédia, que farsa ofereceremos ao futuro?  Só a vergonha do que somos.

mais.

François Silvestre é escritor

* Textos originalmente publicado no Novo Jornal

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 14/09/2014 - 11:33h

Autocrítica

Por François Silvestre

Marx dizia que “o papel da crítica não é enfeitar as grades com rosas para atenuar a feiura do cárcere, mas quebrá-las para a colheita da flor viva”.

Certa vez, num papo com Ariano Suassuna, ele disse não identificar beleza literária na obra de Marx. E fez algumas críticas a outros ensaístas alemães. Discordei e citei, naquele momento, duas passagens de Marx, no “Dezoito Brumário”, que considero um dos livros mais bem escritos da literatura universal. Essa conversa foi testemunhada por Racine Santos e Vicente Serejo.

Na primeira citação, referi-me à abertura do belo livro, quando o pensador refere-se a Hegel e o acrescenta. “A tradição de todas as gerações dos mortos oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

E continua: “Hegel afirmou que os fatos marcantes da História, assim como os grandes nomes são condenados à repetição. Mas esqueceu de informar que ao repetir-se, tanto o fato quanto o personagem, não o fazem sem alteração. O primeiro evento é a tragédia e sua repetição é a farsa”. É de bom alvitre informar que as citações aqui referidas não estão exatamente nessa ordem, nem a tradução é rigorosamente uma cópia.

Daí, ele enumera alguns exemplos. “Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, A Montanha de 1845-51 pela montanha de 1793-95, o sobrinho pelo tio”. O tio e o sobrinho aqui referidos são Napoleão e Luis Bonaparte.

E fecha a obra com uma sentença histórica em forma de verso. “E quando finalmente o manto imperial cair sobre os ombros de Luis Bonaparte, a estátua de Napoleão ruirá do alto do Vendôme”.

Ariano ouviu atentamente e comentou: “Não conhecia esse texto. É realmente belo e me dou por convencido”.

Mas esse rodeio de carrossel foi para chegar ao ponto objeto do presente texto, que é a crítica. Ou mais precisamente a autocrítica.

A única autocrítica condenável ou, pelo menos, dispensável, é aquela feita pelo criador artístico. Também chamada de autocensura. Essa é uma castração do momento criativo. Como decepar os testículos de criação.

No resto, não. Só não faz autocrítica quem faz “da sua opinião o seu tirano”, como ensinou Stendhal.

Na vida social, tanto pela alteração das circunstâncias, quanto pela mudança dos tempos, a autocrítica é o estuário da honestidade política. Ou então a tirania da opinião, como um dogma, alimento do fanatismo, com o argumento falacioso da coerência.

Defender a tirania sino-soviética, as ditaduras latino-americanas, o peleguismo sindical, a eternização do poder nas mãos dos mesmos, seja partido ou pessoas, tudo isso é resultado da desonestidade filosófica. Da ausência de autocrítica.

Onde houver honestidade política, filosófica ou científica, aí residirá sempre um lugar reservado para a hospedagem da autocrítica. Nem que seja uma tipoia de rede velha e limpa, armada num canto de latada.

mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 07/09/2014 - 11:37h

Casamento de arranjo

Por François Silvestre

Num Domingo de 1896, a Fazenda Cajuais se enfeita para celebrar o casamento de Quinquim e Guilé. Os noivos se conheceram naquela semana, pois o casamento fora acertado quase oito anos antes, quando da Proclamação da República, que fez o Juiz de Martins, pai de Guilé, retornar a Fortaleza, onde passou a morar na Rua Sena Madureira, centro da Capital cearense.

O dia foi marcado por festa e desgraça. Logo cedo, um garoto, encarregado de cumprir uma tarefa, põe o pé no estribo para montar num cavalo arreado. Antes de passar o pé direito por sobre a sela, o cavalo assustou-se com o grasnar de um ganso e partiu em disparada; arrastando, pelo pátio frontal da Casa Grande, o menino com o pé preso ao estribo. Ao ser seguro o cavalo, o garoto jazia sem vida.

À noite, após a celebração, um desafeto esfaqueia outro, respingando sangue no vestido da noiva. Duas mortes no mesmo dia. Foi assim que começou a vida de Guilé, no sertão potiguar, após abandonar o Conservatório de Música de Fortaleza, onde estudava piano.

Tinha doze anos, quando o casamento foi ajustado; agora, casava aos vinte anos. Quinquim completara quarenta anos.

Quinquim mantinha três outros relacionamentos, com amantes em Viçosa, Caieira, atual Almino Afonso, e Catolé do Rocha. Não largou nenhuma das mulheres. E Guilé fazia de conta que não sabia.

Cada uma delas recebia, mensalmente, uma feira de víveres, que incluía carne seca, queijo de coalho, goma pra tapioca, farinha, feijão, arroz e rapadura. Era um segredo do Polichinelo.

Fecha o pano.

Vinte anos depois, em 1916, morre Quinquim, aos sessenta anos. Guilé tem quarenta anos, com vinte filhos, dez naturais e dez de criação. Para cada filho nascido, outro era criado. Além de agregados, meeiros, vaqueiros, serviçais de casa, Cajuais era uma urbe. Viúva, o filho mais novo com apenas um ano. Minha mãe, a penúltima, tinha três anos.

Quinquim nunca se deixou fotografar. Não se conhece a sua face. Nesse ano de 1916, foi tirada a última foto de João Antunes e Auta Rodovalho, com os filhos, genros e alguns netos. Guilé está de preto, ao lado do pai. Cópia dessa foto está aqui na parede de Cajuais da Serra e na Casa de Cultura de Martins.

Dos mais antigos do que eu, de ouvirem dos mais antigos do que eles, soube de um episódio bem marcante a definir o caráter de Guilé. Ela mandou emissários às três amantes do marido finado, indagando sobre a quantidade da feira mensal.

Ela decidira manter a mesma remessa, sem alteração.

A de Viçosa, Maria Lopes, única cujo nome eu sei, mandou a relação. E recebeu a feira mensal enquanto viveu. A de Almino Afonso deu silêncio por resposta. A de Catolé do Rocha mandou um recado desaforado: “Diga a ela para enfiar sua feira no rabo”.

Ao saber da resposta, Guilé soltou uma sonora gargalhada e comentou:

“Era com essa aí que ele deveria ter casado”.

mais.

François Silvestre é escritor

* Extraído do Novo Jornal

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/08/2014 - 08:35h

Duas teses pétreas

Por François Silvestre

Das Constituições, dizem os leguleios que há cláusulas pétreas. Porém, no aparato político e institucional brasileiro nem as pedras são de pedra. Quando muito calcário de rocha porosa, riscável por qualquer pedregulho lançado por alguma baladeira oportunista. E a luminosidade que aspergem é da malacacheta, às vezes até mais brilhosa do que o diamante; sem possuir, do brilhante, o valor e a resistência.

No meio disso tudo, um país sem rumo. Organizado num cipoal institucionalmente falido. Falido para o povo, mas muito vantajoso para as corporações e suas hipocrisias éticas. Discurso tonitruante e despudorado. País de castas, sem noção de classes. Ou estratificação desclassificada. Ricos, remediados, pobres e miseráveis. São as classes do Brasil.

Mas eu falava de teses. Há duas, para mim, que são lajedos. Primeira: Uma Constituinte Originária, Exclusiva e Aberta na composição. Vou dissecar. Originária, para criar uma ordem constitucional sem vassalagem ao modelo atual. Recepcionando todas as conquistas das liberdades fundamentais e avanços sociais. Preservando a soberania republicana e a dignidade da pessoa humana.

Exclusiva, formada apenas com o fim de elaborar a Constituição. A ser dissolvida logo após a promulgação, com a previsão, nos Atos das Disposições Transitórias, de eleições gerais para a formação do Executivo, Legislativo e Ordenamento do Judiciário.

Abusos salariais no Congresso geraram, só de uma leva, 43 processos contra site

Composição aberta, podendo ser candidato a Constituinte qualquer brasileiro, emancipado, detentor de direitos políticos, sem necessidade de filiação partidária. Reservando aos Partidos e às Corporações o direito de também concorrerem com filiados ou representantes.

Todo mundo mostrando a cara, sem comprar esse ou aquele legislador, para legislar na penumbra de interesses escusos. O atual modelo constitucional brasileiro é uma farsa jurídica, um engodo político e uma desordem social. A própria Carta previu uma reforma para cinco anos, após sua promulgação. A não feitura da reforma prevista retirou da Constituição a legitimidade material, deixando-lhe apenas a legalidade formal. Constantemente desobedecida.

Vivemos o absurdo de uma Constituição com “normas” que sequer foram votadas durante a elaboração. Artigos empurrados, a fórceps inverso, sem submissão ao crivo da votação. Denúncia de um constituinte, que foi depois Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

A segunda tese, para mim, é pétrea, mas de pedra secundária. É a extinção do Senado Federal. Esse clube de luxo, desnecessário e perdulário que agride a pobreza política do país.

O sistema unicameral é mais eficiente, ágil e apropriado a um país dessa dimensão. Grandioso em território e problemas. Não precisamos de casa revisora. Precisamos de Casa Legislativa ágil, sem os ranços nobiliárquicos herdados do Império.

Chega de vitaliciedade à custa da vitalícia miséria do povo. Té mais.

François Silvestre é escritor e cronista

* Texto publicado originalmente no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 10/08/2014 - 06:04h

Os Suassuna de Alencar

Por François Silvestre

Destino do cruzamento de várias famílias ou parentescos, os Suassuna de Alencar nascem de Raimundo Sales e Mariana Felícia, que puseram o sobrenome Suassuna nos seus três filhos, donde uma delas casou um filho com uma filha de João Antunes de Alencar, pernambucano do Exu­, que veio ser Juiz Municipal de Martins, ainda no Império.

Quando do nascimento da República, cuja leitura da proclamação foi feita pelo filho do Juiz, capitão Pedro Antunes, na pracinha da Matriz, hoje Praça Almino Afonso, João Antunes de Alencar, monarquista, a tudo assistiu de forma sisuda. Largando a Magistratura ativa, voltou para Fortaleza, terra da sua esposa, Auta Rodovalho Cavalcanti de Alencar.

Antes de ser Juiz do Martins, ele fora Juiz de Maranguape.

Viajou deixando ajustado o casamento de sua filha Guilhermina Antunes, de apenas doze anos, com o filho de Bisinha Suassuna, Joaquim Gomes Pinto, que tinha trinta e dois anos e vários amancebamentos. Oito anos depois, o casamento realizou-se na Fazenda Cajuais; o noivo com quarenta anos e a noiva com vinte.

Eles se conheceram naquela semana.

Desse casamento, de Quinquim dos Cajuais com Mãe-Guilé, nasceram dez filhos e eles criaram mais dez. Prole de vinte filhos, dentre naturais e de criação.

Aos quarenta anos, Mãe-Guilé enviuvou, com a morte de Quinquim aos sessenta anos.

Para vir casar ela largou o Conservatório de Fortaleza, onde estudava piano, com a promessa, não cumprida, de um piano de cauda, para a fazenda.

Dedicou-se à gerência de Cajuais e à criação da vasta prole.

Pôs os filhos no Seminário, na Prainha de Fortaleza. Apenas um ordenou-se padre, o Pe. Alexandrino Suassuna de Alencar, meu tio e pai adotivo.

Seu nome foi uma homenagem ao tio-avô Alexandrino Suassuna, nascido no Martins; pai de uma enorme família, em Catolé do Rocha.

Dentre os filhos, João Suassuna, que foi governador da Paraíba. Pai de Ariano Suassuna.

Certa vez, eu perguntei a ela: “Mãe-Guilé, é verdade que a senhora conheceu vovô Quinquim no dia do casamento”?

Ela riu e repreendeu: “Deixe de ser abiúdo, seu cara ensebada; isso num é da sua conta”.

Dos filhos de Mãe-Guilé apenas um manteve o sobrenome Suassuna, nos filhos. Trocando o Alencar por Antunes.

Na minha casa, ninguém foi registrado com o Suassuna. Puseram o Caldas, da minha avó paterna, de Serra Talhada.

No meu, repetiram o próprio do meu pai.

Hoje, com uma família quase incontável, os sobrenomes se diluíram.

Casamentos entre pessoas da região e de outras plagas vão agregando nomes de inúmeras famílias.

Natércia Suassuna anda angariando informações para a 2ª edição do livro de Raimundo Suassuna, sobre a família, que tem o prefácio de Ariano.

Muitos nomes, uma origem. De Raimundo Sales e Mariana Felícia, de um lado; João Antunes e Auta Rodovalho, do outro. Incluindo aí ramos de Apodi, Martins, Catolé do Rocha, Crato, Maranguape, Exu e Serra Talhada.

Té mais.

François Silvestre é escritor e cronista

* Texto extraído do Novo Jornal

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 20/07/2014 - 08:33h

É problema de junta?

Por François Silvestre

Passada a decepção da Copa, que teve o condão de desmascarar farsantes e espertos, todo mundo tem uma sugestão.

Os especialistas, que vão de comentaristas, técnicos e pitaqueiros, todo mundo tem uma fórmula. E olhe que a grande maioria, desses que estão apontando caminho novo, dava como certa a vitória final do Brasil.

Apareceu uma fórmula mágica, saída da lâmpada de Aladim, nesse universo de gênios. “É preciso contratar um técnico de fora”. Ora, Felipão já foi herói. Mas o problema não é ele nem essa ou aquela pessoa. É um problema quase crônico da vida nacional, que esbarra fundamentalmente na deseducação.

Deseducação aqui dita nada tem a ver com etiqueta ou maneirismo no trato. Não. É falta mesmo de instrução, política educacional de base, ensino médio medíocre, ensino superior voltado para o mercado e não para a edificação cultural ou aprimoramento de pesquisas.

Fosse diferente seria fácil. Bastaria encarregar o portador que vai buscar o técnico de fora para trazer também uma CBF de fora. Aproveitar e trazer um Ministério dos Esportes de fora. Ou melhor, trazer logo um governo completo de fora. E pra não perder a viagem, pôr na bagagem uma oposição de fora. De contrapeso, trazer também uma mídia de fora.

Isso me faz lembrar de uma anedota de carro velho. O dono do carro, de tanto sofrer, procurou o melhor mecânico da cidade. Após examinar o veículo, o perito informou: “O problema é de junta”. O dono do veículo quis saber: “Qual delas e o que devo fazer”? Aí o mecânico respondeu: “Como lhe disse, o problema é de junta. Junta tudo e joga fora”.

Brincadeira e exageros à parte, o Brasil é um excelente país. E tudo que aí está não é só culpa de quem faz parte do mando e do desmando. Nós, os brasileiros comuns, somos os responsáveis por tudo isso.

O Governo é resultado da nossa escolha. A oposição é fruto do nosso consentimento. A mídia é filha da nossa audiência. Votamos majoritariamente nos que mandam. Votamos minoritariamente nos que se opõem e damos, com nossa audiência, poder de patrocínio ao universo midiático.

Portanto, a junta mais desgastada desse calhambeque somos nós.

Ainda não há um povo brasileiro. Não se faz um povo com menos de mil anos. Somos um pré-povo, assim como universalmente somos uma pré-humanidade. O Brasil comporta no seu território um povo em formação, cuja fornalha de feitura tem pouco mais de trezentos anos.

Da lição de Darcy Ribeiro aprendemos que essa formação tem tudo para dar certo. É só uma questão de tempo e querer. Só que o tempo ainda é pouco e o querer quase nenhum.

Mas o resultado dessa miscigenação fantástica está condenado ao acerto, mesmo sem o argumento do determinismo histórico. É que essa mistura resulta da naturalidade do índio, da tecnologia do europeu e da espiritualidade do africano.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Portalnoar.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 13/07/2014 - 09:52h

A genialidade do atraso

Por François Silvestre

Há dois tipos de gênios. O da ficção, cuja fricção numa lâmpada mágica o liberta da prisão e o prende à obrigação de servir incondicionalmente ao amo que o libertou. Vem da ficção literária das aventuras de Aladim.

Há o gênio da vida real. Aquela figura humana que se distingue dentre os inteligentes e ainda se põe acima dos mais inteligentes. Posto que, sua inteligência vem abastecida de um talento especialíssimo, seja na ciência ou na arte. E só aí. Fora da arte ou da ciência não há genialidade. Há inteligência, habilidade ou esperteza.

O assunto que motivou este texto vem de citação de Lao Tze, publicada pelo Poeta Jairo Lima, no Portal Infâmia, que diz assim: “Quem adora, venera, exalta e tem na conta de heróis os que se exprimem pelos pés deve estar preparado para levar um chute na bunda”.

Quando o sábio oriental disse isso, o futebol nem havia nascido. Lao Tze era um gênio.

Passou-se impunemente, sem que ninguém contestasse, a adjetivação de gênios a pessoas diferenciadas nos esportes. Pelé é um gênio, Sena é um gênio, Maradona é um gênio. Oscar é um gênio. E foram distribuindo genialidades a torto e a direito.

A genialidade existe sim, mas reside no campo das exceções e no mapa da mente. E não do físico. Tanto é assim que o gênio de verdade aprimora com o tempo a finura da genialidade. Enquanto no físico, o “gênio” tem prazo de validade. Na medida em que envelhece, a genialidade vai desaparecendo. São os “gênios” temporais.

Pelé tentou fazer música. Mas as notas musicais ficaram nos pés. Disse tanta besteira durante a vida, que Romário grafou uma frase perfeita: “Pelé calado é um poeta”.

O Brasil continua esperando pelo vaticínio de Stefan Zweig. “País do futuro”. Perdido na imaturidade cultural, é um país econômica e politicamente amador enquanto aposta todas as fichas no profissionalismo do secundário. E olhe que o esporte é fundamental. Só que até nessa área as preocupações vão apenas ao secundário.

Nunca vencemos uma Olimpíada no futebol. Por quê? Porque nas Olimpíadas o esporte tem base na atividade amadora do esporte. E é o amadorismo, no esporte, que comprova o profissionalismo social de um país. O Brasil é amador no que deveria ser profissional e profissional no que deveria ser amador.

Pra compensar supre o complexo de inferioridade profissional distribuindo títulos e adjetivos pomposos à tripa forra. Muita grana para poucos. E “gênios” de miçanga, vendidos como vendiam seda os mascates árabes nas grotas do sertão.

Certa vez, um admirador chamou Di Cavalcanti de gênio. E ele modestamente corrigiu: “Meu filho, gênio é quem toca piano aos quatro anos”.

Desde que a Ditadura acabou, nós não fazemos outra coisa senão brincar de liberdade. E nessa brincadeira vamos adiando a feitura do país. Enquanto espertos e pilantras vão edificando a genialidade do embuste.

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François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 29/06/2014 - 06:46h

“Durmo novo e acordo velho”

Por Honório de Medeiros

* Para François Silvestre

Seu Antônio de Luzia, oitenta e seis anos, sentado em sua cadeira de balanço, na calçada de sua casa, no Sítio Canto, em Martins, é o próprio símbolo da passagem inalterável das manhãs, tardes, noites, madrugadas, do ritmo lento dos dias que se sucedem bucólicos, tais e quais as contas debulhadas do rosário de Sinhá, oitenta e poucos não admitidos, que deslizam por entre seus dedos, à hora do ângelus, enquanto seu pensamento vagueia nos limites de sua circunstância, e nada escapa do seu olhar dardejante e de seus ouvidos “de tuberculoso”, como me confidenciou.

Pergunto a Seu Antônio acerca das coisas que estão mudando mundo afora, em uma rapidez vertiginosa, impossível de serem acompanhadas. Lembro a ele a chegada do homem na Lua, o computador, o celular…

Ele fica calado um bocado de tempo.

Quando penso que esqueceu o assunto, ergue um pouco o braço e aponta com o dedo um passante, quebra o silêncio do final-de-tarde e me diz: “desde que o mundo é mundo, podem as coisas ter mudado, mas o homem, meu filho, é o mesmo de sempre”.

“Quando eu era de menino para rapaz”, continua, “pensava que as pessoas lá fora eram diferentes. Viajei, corri légua, vi e ouvi muitas coisas que eu prefiro esquecer, e voltei. Fico comparando o homem que vive lá fora com o homem que vive aqui, e não vejo diferença. Lá se mata, como aqui; lá se bebe, como aqui; lá se trai, como aqui; lá se rouba, como aqui. Tudo que existe lá fora, maior, existe aqui, menor”.

Fez-se silêncio, novamente, durante algum tempo.

“Eu às vezes penso” prosseguiu, “que tanto faz como tanto fez, o homem se engana demais com as coisas, é como a roupa que a mulher veste: pode ser de qualquer tipo, mas ela é sempre a mesma”.

E, depois de beber um gole de café, arrematou: “lá fora o tempo passa e eu não vejo: durmo novo e acordo velho; aqui, eu vejo que o tempo não passa: faz uma eternidade que estou vivo!”.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/06/2014 - 06:02h

A estupidez do legalismo

Por François Silvestre

Ou o legalismo da estupidez. Lênin afirmou que “o esquerdismo é a doença infantil do comunismo”. Ouso dizer que o legalismo é o sarampo da legalidade.

O mal das virtudes é a sua deformação. O moralismo deforma a moral, o puritanismo deforma a ética e o legalismo desmoraliza a lei.

A Constituição de 88, ciosa dos seus defeitos, previu uma reforma geral para cinco anos após a promulgação. Por covardia ou conveniência escusa não a fizeram.

Hoje, o país clama por uma Carta Constitucional que não se confronte com a realidade. A mesma covardia ou preguiça institucional impede a coragem cívica de convocar uma Constituinte originária e exclusiva para a elaboração de uma nova Constituição.

Se é verdade que ninguém está acima da Lei, também é verdade que a Lei não está acima da realidade.

Veja que a Constituição, no seu artigo 196, impõe: “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. Pergunto: Isso é verdade? Não. Desde 88 que a realidade desmente a Constituição. E vai continuar desmentindo. Porque a Constituição é a Carta das corporações e quem banca a vida social do Brasil são as corporações. De todas as naturezas. As castas e seus interesses.

Não fica só nisso. Nem a Suíça, represa dos ladrões do mundo, tem o padrão de vida que a nossa Constituição mentirosamente oferta ao Brasil. É o patronato do legalismo.

E como toda deformação só vê suspeitas nos outros, os legalistas não fogem à regra. Vigilantes, de holofotes, a sentir o cheiro de irregularidade em tudo e em todos, são espertamente condescendentes com os próprios desvios.

Exemplos? Um prédio comprado com função inútil, sem prévia avaliação de custo e uso, largado ao abandono no centro da cidade. Fosse outro órgão o comprador, na mesma semana dois inquéritos teriam sido instaurados. Um cível e outro criminal. Além da pergunta que eles sempre fazem: “Quem ganhou o quê com esse negócio suspeito”?

Outro legalista é flagrado numa ação de tortura contra um investigado, “eu espremo até conseguir alguma informação”. Tudo para levar à sebosa delação premiada. Tortura não é só o pau-de-arara. A ameaça é crime previsto em Lei, e no inquérito é tortura. Até o Papa Francisco declarou que tortura não é pecado, é crime.

Voltemos à Constituição. A carta foi elaborada num momento de “euforia cívica”, onde todos negociaram com todos. Sob o comando de Ulysses Guimarães, Sarney, Lula, Maluf.

Ruralistas e reformistas rurais, esquerda e direita urbanas. Todo mundo se compôs. Sob o amparo das corporações. O PT ameaçou não assinar. Tudo pantim.

E num país de instrução precária, a ordem jurídica a depender de legislação irreal. Sob a fiscalização de legalistas e não da legalidade.

É o pais que temos. Geograficamente exuberante, economicamente desigual, socialmente injusto e juridicamente hipócrita.

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François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 22/06/2014 - 20:42h

Merecemos ser estrangeiros

Por François Silvestre

O povo brasileiro também merece ser estrangeiro. Ou melhor, ser tratado como aqui se tratam os turistas ou visitantes ilustres de outras plagas. Não confundir com pragas. Ter segurança de estrangeiro, tratamento de estrangeiro, paparicação de estrangeiro.

Nada contra os estrangeiros, muito pelo contrário, apenas desejo de um tratamento similar.

Se os estádios onde os estrangeiros vão jogar são drenados e refratários aos alagamentos. Nós também queremos ruas drenadas, como se também fossemos estrangeiros. Para nelas jogar as peladas da vida, do trabalho, da educação, saúde, cultura; com segurança de estrangeiros.

Se as delegações estrangeiras deslocam-se com segurança dos hotéis para os campos, dos campos para as praias, nas ruas, festas e passeios, nós também queremos segurança para andar no trânsito, ir aos supermercados, à praia, às padarias, farmácias, aos bancos.

Quero minha dupla nacionalidade. Sem abrir mão de ser brasileiro, reivindico o direito de ser holandês, francês ou alemão. Desde que mereça o tratamento que eles merecem.

Prefiro a África. Mas os africanos são brasileiros que também não deram certo, como diria Parreira, que afirmou ser a CBF o Brasil que deu certo. Certo pra quem, cara impálida?

No embate entre qualquer país da África contra qualquer time da Europa, eu sou África. No confronto entre as Américas eu sou, de lavagem, as terras cá da América Latina.  Nada contra os americanos do Norte, mesmo que mereça ser contra tudo do que de lá se faz contra os daqui.

Diferentemente de alguns ilustres descendentes da África de Castro Alves, prefiro Mandela a Churchill. Mas há ilustres ilustríssimos que preferem falar alemão, inglês, francês, mesmo que não saibam pronunciar uma única frase em banto, nagô ou haussá. Línguas nas quais seus ancestrais espantavam os demônios e urravam baixinho as dores da escravidão.

O que se pode fazer contra os preconceitos e preconceituosos? Nada. Ou melhor, tudo. Basta ignorá-los. Dando ou comendo bananas. O pior de todos os preconceitos é aquele que esconde a insatisfação do próprio possuidor daquela condição.

Mas voltemos ao apelo inicial. Também quero ser estrangeiro. Tomando cerveja ou cachaça. Comendo paçoca com banana prata. Dormindo em rede, no alpendre, como se fazia antigamente, quando havia segurança de estrangeiro.

Vem a memória os veraneios de Muriú. Tota Zerôncio, Roberto Furtado, Décio Holanda, Jair Navarro, Lenilson Carvalho, Omar Guerreiro, Aécio Emerenciano, Rui Pereira, Wellington Aires do Couto, Petit das Virgens. Quem deixasse seus pertences de um veraneio para outro, numa casa ou noutra, encontrava-os  intactos no ano seguinte.

Segurança que hoje é privilégio dos estrangeiros. Dividimo-nos entre nativos assustados e nativos bandidos.

Estiro a baciínha de esmolar: Uma nacionalidade, pelo amor de Deus!

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente extraído do Novo Jornal.

 

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Categoria(s): Artigo / Crônica
domingo - 08/06/2014 - 12:45h

Ruim é não envelhecer

Por François Silvestre

Ouvi muitas vezes, de amigos mais velhos, a frase pronunciada com a fisionomia na moldura de uma foto antiga: “A velhice é uma merda”. “Envelhecer é uma bosta”.

Só não envelhece quem morre novo. E quando isso ocorre o morto jovem parte deixando uma sensação de saudade mal resolvida. É uma inaturalidade, uma agressão ao natural.

O velho, não. O corpo envelhece e prepara a naturalidade do desfecho. Começa pelo arquivando de desejos. Coisas indispensáveis, na mocidade, vão se tornando arquivos, deixando lembranças e arrumando conformação. É a cerimônia do adeus, de que falava Simone de Beauvoir, ao ver no sofá a mancha de urina de Jean-Paul Sartre.

“A vida é apenas um demorado adeus”. E Esse adeus demorado ou breve é pra ser vivido intensamente. Sem culpas, preconceitos ou hipocrisia.  Sem ligar para o fascismo dos costumes, que é o moralismo. E se faltar coerência, que sobreviva a honestidade.

O desejo não é mais do que a vontade de uma necessidade estimulada. A fome, a sede, a libido, são necessidades estimuladas pelo desejo. O conjunto do ciclo forma a vontade. A volição que cobra a satisfação do estímulo. Quando o corpo vai transformando a vontade numa gradação mais serena, menos impulsiva, começa a preparar o fim do ciclo, com naturalidade.

A única coisa que a velhice tem de ruim mesmo, e sem jeito, é a perda de pessoas queridas. A perda de amigos sem ser pela inimizade. Ou a imponderação dos acidentes.

Nascer é um bambo maior do que qualquer percentual restritivo de loteria. Para o seu nascimento foi preciso que a sequência de todos os ancestrais tenham sido exatamente o que foi. E se o sexo dos pais houvesse ocorrido minutos antes ou depois, certamente o espermatozoide seria outro a chegar à ovulação. É ou não é uma loteria do destino? Nascer é um acaso, morrer é uma naturalidade inevitável; e necessária à vida.

A velhice não é um castigo, é um prêmio; só chega lá quem ganhou do tempo. Só o tempo não envelhece; mas tudo que ocupa espaço envelhece e finda. Há coisas, na velhice, que não mudam do que foram na juventude. O caráter, o temperamento, os princípios. Pelo contrário, acentuam-se.

O velho impaciente foi jovem impulsivo. O velho velhaco foi jovem ladrão. Dostoievsky disse que se Deus não existisse tudo seria permitido. Não é verdade. A boa ou má ação não é matéria de fé ou de razão, mas de caráter. O mundo está entregue aos deístas, que tentam destruir o que eles dizem que Deus fez. Quem desmanda no mundo são os fervorosos; cristãos, muçulmanos e outras denominações.

O bom caráter tem no remorso o limite das ações. Seja ele deísta ou ateu. O mau caráter tem um “deus” particular que é seu cúmplice. O Diabo envelhece vitorioso porque seus combatentes teóricos são seus aliados da prática.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 11/05/2014 - 08:29h

Café, o presidente vice

Por François Silvestre

João café Filho foi um grande parlamentar. Fez-se conhecido nacionalmente ao tempo em que forjou uma liderança pessoal no Rio Grande do Norte, sem vínculo com os poderosos da política local nem com as oligarquias típicas da nossa vida provinciana.

Após o mandato de Eurico Dutra, a UDN viu a chance de abocanhar a Presidência. E tudo levava a crer nessa possibilidade. Contavam os udenistas com a repetição do nome do Brigadeiro Eduardo Gomes e com a candidatura divisionista de Adhemar de Barros, em São Paulo. O que certamente dividiria o trabalhismo e o populismo, encarnados por Vargas e Barros.

Com essa divisão e com a candidatura de Cristiano Machado, pelo PSD, partido criado por Vargas, os votos udenistas do Brigadeiro seriam suficientes para vencer.

Mas Getúlio mobilizou-se com vistas a conquistar o apoio adhemarista em São Paulo. Adhemar fora interventor do Estado, nomeado por Getúlio, de 1938 a 1941.

Adhemar cedeu e resolveu apoiar Getúlio. Mas fez uma exigência. Que o PSP indicasse o candidato a Vice. Na época, o presidente e o Vice eram votados separadamente. Adhemar de Barros indicou o potiguar Café Filho, pessoa que não gozava do afeto de Getúlio há muito tempo, mas foi engolido para não perder o apoio de São Paulo.

Eleitos, Getúlio Vargas e Café Filho continuaram distantes. O Vice-presidente, pela Constituição de 46, era automaticamente o Presidente do Senado. E nessa função, Café não perdia chance de futucar Getúlio.

Na crise que desaguou no suicídio de Vargas, Café propôs a renúncia de ambos. Getúlio recebeu a proposta como prova de traição.

Ao assumir a Presidência, Café não impôs autoridade aos getulistas, pelos motivos citados; nem aos udenistas, pois Lacerda queria que Café Filho adotasse medidas “excepcionais”, fora da Constituição, com o fim de evitar a candidatura e depois a posse de JK, com a derrota de Juarez Távora. Continuou Vice.

Ainda tentou convencer JK a não ser candidato. Após a eleição do pessedista, a UDN cobrou de Café uma ação contra a posse. Aí, ocorre um fato que determinou o fim do mandato de Café Filho.

No sepultamento do Gen. Canronbert Pereira da Costa, líder da Direita no Exército, Outubro de 1955, o coronel Bizarria Mamede faz um discurso exigindo que o governo não acatasse o resultado das eleições. O Gen. Henrique Lott, Ministro da Guerra, ouviu constrangido. Não deu voz de prisão ao coronel por respeito ao momento. Mas exigiu que ele fosse punido.

Impasse. Café Filho ficou na berlinda. Para agradar os udenistas teria de desmoralizar o Ministro. “Adoeceu” e afastou-se. Assumiu Carlos Luz, que não puniu Mamede e demitiu Lott.

O Ministro da Guerra pôs os tanques na rua. Depôs Carlos Luz, pôs Nereu Ramos na Presidência, impediu a volta de Café e garantiu a posse de JK. Isso é um resumo do retalho.

Té mais.

François Silvestre é cronista

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

 

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/03/2014 - 12:58h

A clássica hipocrisia

Por François Silvestre

O sentido de clássico aí é na acepção histórica de mesmo e não nessa avacalhação que deram à palavra “clássico”, que vai desde adjetivar um livro famoso até o ridículo de nominar uma infame pelada do Vasco contra o Flamengo.

Estou falando da era clássica, no palco da filosofia exibida em praça pública, nas ágoras da Grécia, onde se discutia ética, moral, arte e política.

E me detenho numa frase de Sócrates, para dar mote ao texto. “Eu só sei que nada sei”. Até hoje não se sabe se ele disse mesmo essa bobagem. Vamos partir da premissa de que ele a pronunciou.

Então podemos afirmar que Sócrates seria um desonesto. Ora, se alguém sabe que nada sabe como se explica ele ter dedicado a vida e a sacrificado em nome do ensinamento?  Transformando praças em salas de aula a céu aberto, onde ensinava ética, moral, comportamento, filosofia e costumes.

Outra forma de compreender essa citação repousa no campo do desabafo. Sócrates detinha o afeto de alunos e discípulos, mas era alvo de ódios e invejas.

O poder sentia-se ameaçado e os invejosos sentiam-se diminuídos. Basta ver os textos que se seguiram à sua atuação, que vai do achincalhe de Aristófanes até as defesas de Xenofonte, Platão e Aristóteles.

O desabafo seria uma demonstração de cansaço ante à estupidez da inveja e o medo que os poderosos têm dos críticos, dedicando-lhes como homenagem a própria perseguição.

Ninguém pode dizer que nada sabe. E muito menos que sabe muito sobre tudo. Os especialistas sabem muito sobre muito pouco. Os generalistas sabem pouco sobre muitas coisas. Mas ninguém detém sabedoria em vastidão, que dispense o estudo; nem ignorância plena, que o isente dos atropelos de aprender ou ensinar. Essa ignorância total reside apenas na licença poética de Manoel de Barros, cuja poesia, como poucas, é um estuário de instrução.

Outra questão é a confissão de ignorância. Tive um professor de Direito, pouco culto, que ensinava: “Nunca confesse sua ignorância”. Essa é uma lição cretina. Não há por que negar ignorância sobre o que não se sabe.

Porém, há momentos apropriados para essa confissão. Imagine um professor, ao iniciar a aula, dizer que vai ensinar algo que não sabe. Ficará alguém na sala?

Um cardiologista, na véspera de operar alguém, dizer ao paciente que nada entende dos mecanismos do coração. Ou um dentista, de motorzinho ligado, dizer ao cliente que ainda não compreendeu causas e efeitos da cárie.

O problema reside nas duas pontas dos extremos. Nem a petulância de exibir um conhecimento discutível nem a hipocrisia da modéstia de miçanga do “nada sei”. Todos nós sabemos, não tanto que se ache isento de aprender nem tão pouco que se julgue um jegue entre togados.

Fico com a lição de Lin Yu Tang: Só envelhece quem perde a capacidade de amar, de aprender e revoltar-se.

Té mais.

François Silvestre é escritor e cronista

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 02/03/2014 - 08:32h

A seiva doce do massapê

Por François Silvestre

Mesmo a grafia indicando som aberto, a sonoridade do mato consagrou o som fechado, massapê. Mais bonito e mais próximo da sua compleição. Até porque cada palavra acaba incorporando na sonoridade da pronúncia o formato da coisa nominada.

Quando no sertão, vítima das secas e dos teóricos distantes, que se arvoram em conhecedores das dores daqui, as primeiras chuvas do ano adocicam a seiva dos tabuleiros e recepcionam a maciez colorida do capim de seda, o plantador de feijão remexe com as mãos a umidade do massapê. Depois, põe a mão em forma de aba sobre os olhos e paquera as torres do Nascente.

Os primeiros brotos da cebola braba animam-se nos quintais anunciando mais uma espera. Junta-se a eles o cantar dobrado do sabiá, que só canta assim nas vésperas de chuva. Em ano de seca fechada, o sabiá trina uma toada linear, sem dobra, sem risco do desafino. Ele não quer iludir as sementes guardadas num frasco de plástico, longe do gorgulho, que semearão a terra molhada para a colheita no tempo das fogueiras.

Quem sabe disso tudo é Tico de Quinola, habitante da ponta do banco de cumaru, na parte oeste do balcão da bodega de Priquitim, onde ele se aboleta desde cedo, a receber agrados de cachaça, acompanhada de pequenos pedaços de laranja ou mais raramente um naco de queijo de coalho.

Fala pouco, como toda gente sabida. Ouve primeiro, para não desagradar a opinião do freguês passante. Pode lhe custar uma dose perdida. Já foi aluno do “Almino Afonso”.

“Tão falando numa seca verde”, diz Leon de Amância, puxando conversa. Não foi suficiente pra Tico manifestar-se. Aguardou mais alguma extensão da fala. “Nem sei o que danado é isso, seca verde”? Essa observação meio pergunta de Leon foi a deixa pra ele expor sua opinião sem medo.

“Seca verde é o governo. Nós aqui só conhecemos secas cinza”. Falou animado, já recebendo uma boa bicada do visitante, acompanhada duma lasca de queijo. E aí deitou lição: “Mostrar juazeiro verde, mesmo na seca, não é vantagem. Nem floração do mofumbo. Nem pingos nas rochas da Casa de Pedra. Pra isso não se precisa das promessas calejadas do governo. E quem enricou com promessa foi São Severino dos Ramos”.

Nas telas das TVs do Sudeste, o Nordeste aparece muito rapidamente, nas previsões do tempo. E o Rio Grande do Norte inexiste. A moça passa a mão depressa pelo mapa daqui, enquanto se detém demoradamente nas nuvens de cada pedaço dos Estados de lá.

Mesmo assim, o furabarreira continua animando o matuto. O inchu e o inchuí tão nem aí. Enchem de mel claro suas capas, como a dar o dedo aos “sertanistas” de longe. Não conhecem nem as cidades onde moram e exibem cultura, querem conhecer o Sertão, que não permitiu ainda suas entranhas a ninguém. Quando muito, uma brecha à linguagem.

Enquanto isso, Tico de Quinola toma mais uma no cumaru de Priquitim. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 23/02/2014 - 06:59h

Cortez Pereira, o professor inesquecível

Por François Silvestre

Há dez anos, o Rio Grande do Norte perdeu Cortez Pereira. Porém, bem antes disso ele perdera o sossego e se viu mergulhado num cipoal de traições e desilusões.

Era um grande homem.

Professor inesquecível.

Tive com ele uma relação de amizade, que nem o episódio da minha prisão, durante seu governo, foi capaz de macular.

Muita gente tentou vincular minha prisão ao seu governo, pois eu fora preso no dia seguinte de uma vista que fez D. Aída Cortez à Casa do Estudante. Durante a solenidade, eu pedi a palavra e fiz um discurso violento contra o governo Médici e denunciei o governo Cortez de ser biônico, sem votos e aliado servil da Ditadura. E que Médici era resultado atávico do nazi-fascismo.

D. Aída estava grávida. Desligaram o som, mas eu continuei falando.

No dia seguinte, fui preso. Primeiro no 16/RI, depois na Colônia Penal.

Por esse motivo fui condenado a dois anos de reclusão, pela Auditoria Militar do Exército, em Recife. Mas eu nunca responsabilizei Cortez pela minha prisão.

Declarei publicamente que Cortez não tinha força para prender nem prestígio para soltar ninguém. Quem mandava era uma força de cima, fora do controle dele.

Ele mesmo usou essa minha citação para defender-se quando foi questionado sobre esse episódio numa entrevista na televisão.

Cortez foi traído por seus correligionários, daqui mesmo, a serviço da Ditadura, quando ele não era mais útil ao poder ditatorial.

No próximo post vou contar, citando nomes, uma dessas traições.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Portalnoar (21-02-14).

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domingo - 16/02/2014 - 10:04h

O palanque de antiquário

Por François Silvestre

O Rio Grande do Norte é um antiquário político. E como a antiguidade merece respeito, respeitemo-la.

Não falemos de idades, que é deselegante. E a elegância é uma hipocrisia agradável. Certa vez, Zé Limeira perguntou a dona Antonieta, mulher do Governador Agamenon: “Quantos anos tem a senhora”?  Dona Antonieta repreendeu: “Poeta, não é elegante perguntar a idade de uma dama”. Zé Limeira respondeu: “Pois eu jurava que a senhora era mais nova”.

Não é disso que trato. Mas da incapacidade nossa, papagerimum, de renovação política. De 1960 até hoje, nenhuma renovação. E se alguma houve, não foi mérito dos “novos”, mas imposição da Ditadura, ao matar a democracia adolescente.

O ano que nasce enrugado é tempo de eleições. São as mesmas e velhas lideranças que tecem as rugas de cada época. E o povo, essa abstração invisível, a oferecer muletas e guias espertos aos olhos embaçados do mesmo comando geriátrico. No meio do fingimento do orgasmo coletivo.

Donde se conclui que o velho mais idiota é o próprio povo, na forma de eleitores. O gaiato Arlequim da Democracia. Que se desculpa ao espernear contra a desgraça pública e depois sai pinotando nas passeatas, feito frevolentes, ao som de ruídos loucos e discursos ocos. Quem são os candidatos?

Robinson Faria diz que é. Quer ser. Topa ser. Mas daí a viabilizar-se há uma baita distância. Por não ter sido candidato, nas eleições passadas, rompeu com o governo e elegeu-se Vice na oposição. Desprestigiado, rompeu novamente e lançou-se candidato. Mendiga aliados.

Fernando Bezerra não se lançou. Nem pediu. Foi convidado e aguarda o tocar das ondas.

Garibaldi Filho jura de pés juntos que não é. Tem motivos. Não lhe acrescenta nada à biografia, a não ser o desassossego de um Estado falido.

Henrique Alves sempre quis. Mas sabe que não pode querer. Mesmo querendo. Tem uma excelente posição nacional, como poucos daqui tiveram. E um histórico de eleições majoritárias nada animador.

Rosalba Ciarlini é afônica, gritando aos ouvidos dos navegantes de Odisseu, defronte do Promontório da Lucárnia.

José Agripino Maia tenta salvar o mandato do filho, numa composição com tradicionais adversários. Nem põe o nome nas alternativas. Originário da exceção, virou regra do museu.

O PT quer vaga no Senado, com qualquer companhia. A pureza também envelheceu, na cavilosa e aconchegante rede do poder.

Wilma de Faria é o Lázaro de todos esses “cristos” aí citados. Ressuscitaram-na. Uns, por descuido. Outros, por incompetência. Nenhum deles gosta dela. Detestam-na. Ela sabe, eles disfarçam. Ela não quer o governo. Maestrina do pantim, quer o Senado. Paraíso-recompensa do pós purgatório. Verão os que viverem.

É o que vejo. E olhe que meus olhos são cuidados pelo Dr. Alexandre Bezerra. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

 

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Categoria(s): Artigo
domingo - 16/02/2014 - 07:48h

Tempo do quase nada

Por David Leite

(A François Silvestre)

Somos rebentos (que desgastam

as mãos da parteira),

expelidos por um tempo de frivolidade.

 

De um tempo

onde o ideal

– redundantemente utópico –

sucumbe a forças indolentes

causando náuseas

pelo apequenado

e  confuso  conhecimento.

 

De um tempo

ornado de pragmatismo

protótipos estereótipos

– pobres em efígies –

desalterando

corações serenos em selvagens.

 

De um tempo

que nos faz confundir

visões ampliadas

com  pororocas  humanas.

 

De um tempo

onde a  mansidão

transfigura-se em  birutas de ares revoltos

nos levando como papelote usado

por parecermos pouco ou quase nada.

David Leite é professor, escritor e advogado

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Categoria(s): Poesia
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