domingo - 05/01/2014 - 10:21h

A tirania da opinião

Por François Silvestre

A brutalidade do stalinismo, a estupidez do império soviético e sua derrocada, mesmo garantindo aos adeptos, onde eu me incluía, que era um processo irreversível, não me dá o direito de reconhecer legitimidade ou dignidade humana ao império americano. Os desvios ditatoriais da Revolução Cubana, que escorraçou um balneário de prostituição e drogas, ilha prostituta do gigolô Fulgêncio Batista, não me dá o direito de defender o embargo punitivo ao povo cubano pelo império capitalista.

As ditaduras islâmicas, que torturam e matam em nome de Deus, não me dá o direito de reconhecer legitimidade ao império americano para interferir e decidir, em nome dos povos, o destino das nações.

O resultado do renascimento da Democracia brasileira, produzindo aberrações que vão de Sarney, Collor, Renan, tucanagem e licenciosidade petista, não me dá o direito de esquecer ou justificar a violência, covardia e brutalidade da Ditadura Militar, que transformou a Pátria num vasto esgoto de sêmen e sangue.

A admiração que tenho pela obra literária de Jorge Luis Borges não me dá o direito de aplaudir sua convicta defesa da Ditadura argentina. Assim como não posso nem devo desmerecer sua obra apenas por opor-me à sua opinião.

Saddam Hussein não inocenta George W. Bush. Stalin não salva Médici. Cuba não justifica Guantánamo. O mal de uns não abona a maldade dos outros.

A degeneração da Esquerda não obriga ao reconhecimento da Direita. Até porque o grande erro de uma foi querer imitar a outra. Imitação tentada, resultado impossível. A Direita é a mesma, ruim e inteligente. A Esquerda mudou pra pior; deslumbrou-se com o lustre da Direita. Oprimida, contratou pra fazer com algodão mocó o mesmo alfaiate que talhou de seda o paletó do opressor.

O julgamento de corruptos de esquerda não é o julgamento da Esquerda. Assim como o bom caráter de pessoas de direita não é o caráter da Direita.

A nossa Corte Suprema já agasalhou ilustres onde essa palavra carrega o seu brilho natural. Porém, nem sempre é a regra. Um Ministro, Luiz Fux, que diz ter feito “campanha” pra chegar lá, inclusive pedindo apoio de um processado, usando expressões do futebol, “bati na trave três vezes”, “esse processo eu mato no peito”, não dignifica a história do Supremo. Nem a traição aos “cabos eleitorais” salva sua biografia.

O ato de condenar desvios de conduta não pode alçar ninguém à condição de herói. Formação acadêmica não é biografia. É currículo. E condenar culpados não é heroísmo. É dever.

Mudo de opinião ao mudarem de azimute as circunstâncias. Mudar de ideia, pelo convencimento, evita que a minha opinião seja o meu tirano. Como ensinou Stendhal. Mas não permito à velhice o assassinato da revolta que justificou as ilusões da mocidade.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto do Novo Jornal

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Categoria(s): Artigo
domingo - 29/12/2013 - 10:39h

Impressões digitais

Por François Silvestre

Não é sobre processo penal ou inquérito criminal de que trata este texto. Nem sobre a falsa moral de moralistas que apontam o dedo sujo na direção dos outros.

É um texto sobre literatura. E também não trata de romance policial ou manchete de jornal sobre crimes no Estado. O assunto é o livro de Thiago Gonzaga, cujo título é este: “Impressões Digitais”.

O autor é um jovem pesquisador que começa de forma bastante honesta sua perquirição a tratar de escritos ou escritores cá da terra de Cascudo e Navarro.

Não caiu na cilada dos pseudoeruditos, que se envergonham de gostar das coisas simples, posando de “intelectuais” no aparente brilhantismo das modas ou das influências distantes. Mesmo que não entendam ou nem leiam as peças “eleitas” e canonizadas. Ou aquelas que parecem boas por serem incompreensíveis.

E ainda os que esnobam a produção literária parida na mesopotâmia entre o São Francisco e o Parnaíba. Regionalismo é o apelido depreciador. Ainda respeitam as outras artes, música ou artesanato. Postos no campo do exótico. Literatura, nem pensar. Só se for imitação das lonjuras, no intricado de textos escondidamente bestas. E facilmente desmascaráveis.

Mas eu quero falar do livro de Thiago Gonzaga. Ele fez uma seleção de várias entrevistas. Que começa com Pery Lamartine e segue de folhas adentro, colhendo informações e opiniões sobre a arte e a desarte de escrever e descrever a nossa fisionomia.

Pensei que passaria apressado sobre cada uma delas. Engano. Li todas. Fui aguçando a curiosidade a cada texto. Alguns muito longos, quase chatos. Mas necessários. Outros espertamente curtos, que agradam pelo não cansaço.

De tudo, uma constatação. Não há humildes nesse universo. Escritores, críticos, editores, resenhistas; ninguém é humilde. Há tímidos, contidos, reticentes, largados. Humildes, não. Quer desnudar um humilde? Fale mal do seu escrito. Nisso, eu mesmo sirvo de exemplo.

O que marca um bom escritor? A venda de livros? Então Paulo Coelho é o maior de todos. Tentei ler um livro dele, só fui até a “quínzima” página. E nem sou um leitor tão exigente.

Aqui ninguém vive do que escreve. Nem Cascudo viveu. Muito famoso e pouco lido.

Quem quer ser escritor, no Brasil, tem primeiro que arranjar uma renda para fazer a feira.  Literatura é atividade rentável para livreiros e editores. Só. Veja o que se vende nas livrarias dos aeroportos. Livros de sono para quem tem medo de voar. Depois jogar na primeira lixeira, após o pouso.

Thiago Gonzaga é um benfeitor das letras. Faltam muitos, Thiago, além desses que você entrevistou. Siga em frente.

Escritor, aqui, não define uma profissão. É uma moção nobiliárquica. Sem renda. Como era o “Comendador” de Câmara Cascudo, o “Conde” do Castelo da Afonso Pena e a “Embaixatriz do Brasil” de dona Severina.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal (Natal).

 

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/11/2013 - 09:23h

Semana rica

Por François Silvestre

Tivemos uma semana bastante pródiga. Gastadora de novidades pra todo gosto. Infelizmente não se pode dizer que foram novidades merecedoras de aplauso. Não. Algumas até merecem vaias.

O ex-comunista, senador e candidato a governador pelo Rio de Janeiro, Lindenberg Faria, quem diria, em preces hipócritas com o não menos duvidoso Silas Malafaia, prometendo tradição, família e bons costumes. Típicos da antiga TFP. Leia-se fascismo. Campanha ilegal, caráter imoral.

Paulo Maluf, pela primeira vez arriscando a vida política na lei da Ficha Limpa, logo ele, que de limpa só tem a pele da face oleada de peroba. A mesma Lei que impediu centenas de candidaturas pelo país afora, apenas por condenações de multas em irregularidades formais nos Tribunais de Contas. Só agora essa lei bonitinha descobriu Maluf.

Quem foi que roubou o fole? Qual deles? O fole jovem? Não. O fole adulto! Entrou em perna de pato saiu em perna de pinto. E pinto cisca na merda e jegue é pra cagar e rinchar.

Aécio Neves não conseguiu fazer a roda de conversa. Ficou falando só. Sua pluma de raposa tá longe de imitar o avô. Tancredo não convidava ninguém pra conversar, ficava calado esperando o convite.

Parecia a todo mundo que Marina Silva era imisturável. Seu olhar caboclo e sua retórica de santa fora do cânone não encontrava parceria. Verdadeiro ou falso? Falso. Seus olhos se acasalaram com os olhos de Bossa Nova de Eduardo Campos. E na mistura, deu como resultado o todo de cada parte; Isto é, nada.

Descobriu-se que o Vasco perdia sempre porque Roberto Dinamite orientava o time: “Joguem como se fosse uma final”. E aí o Vasco jogava e perdia, como faz nas finais. Aí a cartomante de Nélter Queiroz orientou: “Não, Roberto. Mande jogar como se fosse uma semifinal”. Ele fez isso e o Vasco venceu.

O Brasil é a cara do Vasco. A esquerda lulasarneysta é uma vice-democracia, mas o campeão anterior foi pior. Ou não? Como diria Caetano de Santo Amaro. Será que não há melhor saída à frente? Tem que voltar ao pior? Da mesma forma Roberto Dinamite é uma desgraça. Mas Eurico Miranda é pior. Será que nesse mundão não tem uma carroça nova e melhor pra subir a colina?

Roberto Carlos e Caetano Veloso descobriram que há piolhos debaixo dos caracóis. E leitor de biografias é apenas um voyeur fora de tempo.

A governadora Rosalba Rosado foi tossir no programa de televisão do vereador Luiz Almir. A cada pergunta, uma resposta tossida. Tosse nervosa ou nervos torcidos? No final ela corrigiu o apresentador: “Eu não faço promessas”. Sorte de Santa Luzia, cujas graças ofertadas não teriam retorno.

A CBF saiu do escroque Teixeira para o escroto Marin. Ficou onde sempre esteve; no ciscadouro dos pintos.

O quê mais? Acabou o espaço. Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Artigo
domingo - 29/09/2013 - 07:47h

Redemoinhos de setembro

Por François Silvestre

Uma das experiências mais consistentes de inverno no Sertão são os redemoinhos de Setembro. Um deles, ontem, quase me tira da estrada. Que bom.

Não eu sair da estrada, mas o encontro com um deles, em pleno meado de Setembro.

O catolé já amarelou. Bom sinal.

Ainda não vi a casa do mané-de-barro, cuja porta para o nascente é sinal ruim. Se estiver virada para o poente, é invernão. Com cheias e enchentes. Virada para o Sul, é inverno fraco; com chuvas finas, que não juntam muita água. Se aberta para o Norte, chuvas irregulares. Pesadas nuns lugares e escassas noutros.

As aroeiras floram. Os cajueiros também.

Há notícias de inchuís, pendurados nos galhos de juremas ou mofumbos. Ainda não sei se estão gordos, lambuzando de mel as capas sobrepostas.

O sabiá ainda não está cantando dobrado. Uso o gerúndio porque aprendi a falar por aqui mesmo, em vez do “a cantar”, que se diz em Lisboa. Ou no Supremo Tribunal Federal (STF), pelo Ministro Gilmar Mendes, aquele dos idos de Mato Grosso, onde eu não sei como são as experiências de lá.

A flor do mofumbo, que só cheira ao nascer, ainda não deu o ar da graça. Igual à polícia nas estradas, que só aparece uma semana depois dos assaltos.

Mas o mofumbal, mesmo de aroma passageiro, perfuma tabuleiros e caminhos. E sua moita, de tão fechada, não permite sequer a passagem do sol.

Os caçadores continuam sua batalha para extinguir o que ainda a resta de muito pouco da fauna silvestre. Meu nome entrou aí de gaiato. Eu sou mesmo é um bocó urbano, que usa o Sertão para suprir as deficiências da arte de escrever.

O Sertão sim, esse escreve na cara amuada da Natureza. Os broques das grotas também começam a exibir a estupidez nativa dos moradores daqui. Sem qualquer gesto impeditivo de órgãos públicos inúteis e caros.

As chãs das nossas serras, minimalistas, encolhem-se indefesas ante a burrice de moradores, descaso de turistas e inutilidade dos órgãos pagos para ter pena do meio ambiente.

É na privada que mora o poder público, abafando o cheiro do mofumbo. Falta aparecer a reação canora do fura-barreira. Calangos cegos procurando os ramos secos da jitirana. O vagear da manjerioba.

Por ora, de garantido mesmo, só os redemoinhos; ou como os chamam os matutos: redemunhos, pés de vento, cão de poeira.

Há muito tempo, uns frades franciscanos foram expulsos de Martins. Contam que no mês de Setembro.

Ao receberem a ordem de partida, vários redemoinhos se formaram em volta deles. E aí os peregrinos de marrom lançaram uma maldição. “Este lugar vai crescer como correia no fogo”! Pois não é que a profecia se realiza até hoje?

Você sabe como se comporta uma correia de couro cru no fogo?

Ela se retorce, estica-se no começo e depois se comprime, até virar uma casca ensebada.

mais.

François Silvestre é escritor e cronista no impresso O Novo Jornal

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sexta-feira - 27/09/2013 - 09:04h
O fim

A constatação do não-governo

Por François Silvestre

Patético.

Essa é a única palavra que me chega para definir a reunião de parte do Governo (será que há parte onde não existe o todo?), sobre o atraso de pagamento do funcionalismo.

Foi a mais escrachada declaração pública de incompetência administrativa. E ainda há aliados com a cara de peroba a dizer que esse é um governo sem escândalos.

Quer escândalo maior do que declarar-se inexistente?

“Nós somos um governo sem governo”. Foi o que declararam os senhores secretários do Executivo.

Qualquer adversário do “governo” habilita-se no pleito do próximo ano.

A oposição não perderá nem querendo.

O “governo” descandidatou-se definitivamente.

Se havia o anarquismo pela negação de governos, nasce um anarquismo novo, da constatação do não-governo.

Acompanhe mais informações por nosso Twitter AQUI.

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domingo - 08/09/2013 - 07:11h

Prosa do domingo

Por François Silvestre (O Novo Jornal)

Comparação infeliz.

Um programa de televisão, canal fechado, do jornalista Lucas Mendes, discutiu com um brasilianista a respeito de um recém-publicado ensaio que trata de comparações entre o Brasil e os Estados Unidos. Numa intervenção do apresentador, ele pergunta ao ensaísta onde foi que nós pisamos na bola e perdemos a capacidade de evoluir da mesma forma que evoluíram os americanos do Norte.

Saíram dessa questão várias interpretações.

Numa delas, disse um dos jornalistas do programa que a diferença principal se dera porque “enquanto os fazendeiros americanos estavam lendo Montesquieu, os brasileiros latifundiários estavam engravidando as escravas”.

Pincei essa assertiva, para evidenciar que tais comparações acabam em pilhérias ou conclusões pueris.

Os fazendeiros americanos que liam os clássicos da literatura eram pouquíssimos, até porque esses não eram fazendeiros profissionais; muito mais políticos ou empresários. Exemplo típico dessa espécie de “fazendeiro ilustrado” é o General George Washington, líder da guerra de independência e primeiro Presidente do novo país.

Possuía um latifúndio no Estado do Kentucky; nem por isso pode ser chamado de fazendeiro.

Os latifundiários brasileiros eram, na sua quase totalidade, arbitrários e desumanos. E não para engravidar escravas, mas estuprá-las. A gravidez era um resultado indesejado, que dava em aborto ou assassinato da mãe.

Lá, na América, não era diferente. Era pior. As diferenças da evolução civilizatória e econômica entre Estados Unidos e Brasil são tantas e tão variadas que ninguém será capaz de esmiuçá-las com certeza probatória. Uma coisa é certa: Nenhuma diferença fundamental nasce do acaso.

Há causas históricas ou antropológicas que esclarecem ou apontam uma explicação.

A independência americana se dá em 1776, numa guerra que trazia a marca de uma revolução. Derrotada a corte, a colônia assumiu seu destino. Não ficou ninguém da Inglaterra tutelando o país nascente.

No Brasil, a independência, em 1822, foi um acerto entre corte e colônia, quatro décadas após a independência americana. E o Brasil continuou sob o domínio da Casa de Bragança. Pelo filho e neto do Rei de Portugal.

Dominação que foi de 1822 a 1889. Mais de um Século depois da República americana.

Sem falar na diferença entre as cortes que dominaram americanos e brasileiros. A Inglaterra lutou contra Napoleão e o derrotou. Portugal fugiu de Napoleão e entregou-se, como concubina, ao poderio inglês. O que fez do Brasil ser colônia de outra colônia. Repetição; pois já fora colônia de Portugal durante a dominação espanhola, quando a Espanha anexou a pátria lusitana ao seu domínio de 1580 a 1640.

Sem revisitar as origens fica difícil compreender os resultados da contemporaneidade.

Retroceder no tempo significa ir buscar as fibras mais simples que compõem o organismo mais complexo.

Té mais.

François Silvestre é escritor e cronista

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Categoria(s): Artigo
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terça-feira - 18/06/2013 - 09:30h
Opinião

Ministério Público e a exposição excessiva de investigados

Carlos Santos,

Já declarei publicamente, mais de uma vez, que sou contra a restrição de prerrogativas do Ministério Público. Acho até que devem ser ampliadas.

O que reclamo, e vejo que a sociedade também, é do comportamento pueril de expor à mídia, mediante release press, a dignidade e a honra do processado antes de qualquer discussão sobre o mérito das imputações.

Isso não ocorre em nenhum Ministério Público do Mundo. Até porque o inquérito perde eficácia com o alarde.

A conveniência da investigação pede cautela e não fanfarra.

Essa exposição prejudica a imagem do acusado, mas prejudica também o êxito do resultado, nos casos dos culpados.

Para o culpado, é um bom negócio. Para o inocente, não.

A execração pública do inocente já é por si só uma cruel punição.

François Silvestre é webleitor e escritor

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Categoria(s): Justiça/Direito/Ministério Público / Opinião / Política
terça-feira - 11/06/2013 - 15:26h
Opinião

Segurança virou obrigação pessoal no Estado Fascista

Carlos Santos,

Esse é o Estado Fascista em que vivemos.

Enquanto isso o Ministério Público e as Policias brigam pra ver quem deve investigar e fazer inquéritos. Só para exposição midiática de vaidades e prerrogativas.

Nesse quadro ficamos todos entregues ao abandono e incompetência dessa casta privilegiada de marajás do serviço público, profissionais de concursos numa migração do país afora. Onde os editais informam qual melhor salário em cada ente da Federação.

Segurança é hoje obrigação pessoal.

O Estado Federal Fascista não cuida disso.

François Silvestre é webleitor e escritor.

Nota do Blog – O comentário de François é em cima da postagem “Lojistas fecham porta temendo assaltos” AQUI.

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domingo - 24/02/2013 - 08:33h

A gravidez do poder

Por François Silvestre

A força do poder nasce e morre no estuário da vulnerabilidade. No que se refere à condição humana. No que tange ao “sistema” essa força é permanente e fora do controle pessoal.

O poder engravida de vaidade, presunção, luminosidade e sensação de potência. Tudo isso convive na gestação. Ao fim, dá à luz a solidão. O Ex é um cultivador do capim que prospera no batente do seu retiro.

Algumas cenas brutais desse contraste ficaram tatuadas na memória como símbolos da repetição quase monótona do ritual desse teatro.

Uma delas com a esposa de Mao Tsé-Tung, após ser despojada da mais fantástica soma de poderes que já teve uma mulher. Senhora da vida e da morte numa nação. No tribunal, onde se punha para ser julgada, ela tentou impor sua autoridade. Foi subjugada por um simples soldado; esbofeteada e algemada, em público.

Na Libéria, todo o Ministério do governo deposto foi amarrado em estacas, para a humilhação pública, antes da execução. Alguns, como o Ministro da Defesa, defecaram nas calças. O único que manteve a dignidade foi o Ministro da Agricultura, o menos poderoso do grupo.

Na sua dacha, Nikita Kruschev, ex-senhor da União Soviética, cultivava tomates e ostracismo. Certa vez, ao passar por uma plantação reclamou do proprietário sobre o método empregado naquele cultivo de tomates. O agricultor, ao reconhecê-lo, respondeu: “Passe calado, pois você não manda mais em nada”.

Vi, numa ocasião, Cortez Pereira ser destratado por um ex-bajulador. O fim do poder produz o ex-chefe e o ex-babão.

Luiz Maria Alves, tempos do Diário de Natal, tinha assento de honra aonde chegasse. Testemunhei um episódio que configura o presente texto. Na promulgação da Lei Orgânica de Natal, de cuja sistematização participei, o ilustre jornalista já havia deixado a direção do Diário e tentava fundar um outro jornal.

No início da solenidade, ele entra e ninguém toma conhecimento. Ficou em pé, com o braço escorado na soleira de uma janela. Incomodado com o descaso, fui até ele, peguei-o pelo braço e o fiz sentar-se na minha cadeira. O Presidente Sid Fonseca determinou que se providenciasse outra cadeira para mim.

Não foi só pela dívida de gratidão que tinha com ele, quando de uma discussão com o então Secretário de Segurança, Coronel Delgado. Precisei responder ao Secretário sobre uma declaração ameaçadora que ele me fizera.

Preparei um texto duro e fui bater à porta da imprensa. Ao passar pela Rio Branco, avistei Luiz Maria Alves. Aproximei-me e perguntei se podia entregar-lhe aquele texto. Ele pegou o cachimbo com a mão esquerda e com a direita recebeu o envelope.

No dia seguinte, a carta estava publicada no Diário de Natal, com chamada em destaque na primeira página.

Meu pequeno gesto foi imitação do seu gesto maior. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/02/2013 - 06:01h

Mumunha papagerimum

Por François Silvestre

Ainda hoje não se explicou convincentemente a mumunha da “paz pública” que os acólitos da Ditadura montaram no Rio Grande do Norte, em 1978, cooptando ex-perseguidos.

Antes dessa, houve outra também sem explicação. Numa visita que me fez, em Cajuais da Serra, o escritor Francisco Rodrigues, das “Folhas de Outono”, me questionou sobre tal evento.

Deu-se por conta da morte do Senador João Câmara, em 1948, candidato natural ao Governo, pelo PSD, nas eleições de 1950. A morte do político de Baixa Verde produziu dois fatos relevantes para alterar o quadro político de então.

O primeiro foi o lugar da própria vaga no Senado, que deveria caber ao suplente eleito, na sua chapa, Antônio Fernandes Dantas. O segundo foi a ocupação de sua candidatura ao governo, substituída pela indicação dissidente de Dix-Sept Rosado.

Na época, tanto os vices quanto os suplentes eram eleitos desvinculados dos titulares. Poderia ser eleito o candidato de um partido com o vice ou suplente de outra legenda.

Nas eleições de 1947, para o Senado, cá na vazante, foram candidatos João Câmara, pelo PSD; e Juvenal Lamartine, pela UDN e PSP. João Câmara saiu vitorioso. Para a suplência disputaram, dentre outros, Antônio Fernandes Dantas, na chapa de Câmara, e Kerginaldo Cavalcanti, na chapa de Lamartine. Venceu o candidato de João Câmara.

Aí a mumunha se armou. Com o apoio do pessedista Georgino Avelino, contra o correligionário vitorioso, foi argüido o impedimento de Dantas, sob a alegação de erros formais no registro da sua candidatura. Qualquer curioso do Direito sabe que esse argumento é falso, dada a natureza preclusiva do Processo Eleitoral.

Impedimento, sem anulação dos votos, e posse do suplente da chapa derrotada, que era Kerginaldo Cavalcanti. Sem julgamento do mérito até as eleições de 1950, quando Kerginaldo Cavalcanti derrotou Dinarte Mariz, legitimando o mandato.

Outra mumunha foi o acordo de cúpula que envolveu Aluízio Alves e Tarcisio Maia, sob a batuta de Golbery, com o General Albuquerque Lima, a UEB, Dow Chemical, o MDB, Jessé Freire e muita grana em dólar, numa jogada político-empresarial, que fazia parte de um esquema de transição negociada. Negociada com negociatas.

Aqui, a Arena humilhou a resistência democrática, pondo o MDB no pelourinho.

Cobrei de Aluízio Alves, ele desconversou e não convenceu. Geraldo Melo riu e mandou me servir uísque. Roberto varela foi ferino: “Olha, guerrilheiro, foram duas maracutaias”.

O MDB oficial ladinou-se e virou PMDB. O seu quinhão autêntico, com Odilon Ribeiro Coutinho e Roberto Furtado, desmanchou-se nas brumas da luta. A liberdade hoje é apenas uma meretriz desempregada, a vender o que se tem de graça, nas igrejas e nas praças.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal (Natal)

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Categoria(s): Artigo / Política
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domingo - 06/01/2013 - 06:22h

O casamento entre o direito e a arte

Por Marcos Araújo

Na história da humanidade, o Direito e a Arte sempre foram comensais da mesma mesa. Aliás, o processualista italiano Francesco Carnelutti já descrevera essa relação no livro intitulado “Arte do Direito”.

Em sua obra, ele mistura, com uma análise toda particular, a arte no sentido clássico da expressão (pintura, escultura, música, poesia, literatura, etc.) com a arte de quem emite uma lei. Todos, diz o autor, artistas e cultores da lei, somente produzem boas obras quando trabalham com amor.

Esta associação do Direito como Arte já vinha dos antigos romanos. Eles, inspirados filosoficamente nos gregos, criaram o Direito como arte autônoma, relativamente livre da álea fugaz da sorte política.

Realmente, quem trabalha com o Direito, assim como um artista, sente com a alma, vibra com o espírito, acalenta sonhos, incensa esperanças… Direito e arte andam juntas, são irmãs siamesas do espírito libertário do homem.

É por isso que o operador do Direito também é um artista. Não raro é ele um poeta, um esgrimidor de frases, um construtor de idéias e um célebre rebotador dos vagalhões de outras contra-idéias, tudo em defesa dos interesses e das causas que abraça.

Não é nenhuma novidade o profissional do Direito ser escritor, poeta, pintor, cantor, compositor, ou até bordador de panos.

Dizem que Rui Barbosa, o mais famoso dos advogados brasileiro, foi prendadamente ensinado na arte dos bilros por sua avó Ana. É sabido também que a música brasileira tem em seus quadros um bom número de artistas que, de uma forma abrangente, podem ser chamados de profissionais do Direito.

Podemos citar que se formaram em Direito: Ary Barroso, Mário Reis, Mário Lago, Vinícius de Moraes, Nei Lopes, Alceu Valença, Taiguara, Edu Lobo.

Mário Lago advogou por algum tempo, ficando mais conhecido como roteirista de peças para o teatro de revista.  Vinícius de Morais se formaria em Direito nos anos 30, e seria diplomata até ser defenestrado pelo Itamaraty, em meio a acusações de ociosidade. Vitória da música brasileira…

Artistas como Alceu Valença, Taiguara e Edu Lobo também foram acadêmicos do Curso de Direito.

Tendo em vista o viés repressivo que, em diferentes momentos, permeou o Estado Brasileiro, muitos passaram da arte do Direito para o direito de fazer Arte.

François Silvestre e Honório Medeiros são exemplos da convivência entre o Direito e a Arte. Cumulam as dádivas de amarem o Direito e serem amantes da Arte, especialmente a da escrita. Advogados brilhantes, altivos, irretorquíveis homens de bem, intolerantes com a injustiça, cultivam o Direito e esculpem como ninguém a palavra, acalentando os nossos espíritos e inflamando as nossas almas de leitores.

Carlos Santos segue na mesma trilha.

Pouca coisa nos alegra neste início de novo século. A esperança anda acovardada pela inação e indiferença humana. Somente animados pela fé em Deus, por amor pela Arte, ou pelo Direito, podemos superar esses angustiados tempos de tantas bobagens nas redes sociais; do modismo imbecil que chamamos de “veraneio” quando vivemos em plena seca, sem direito a conhecer as demais estações; da falta de compromisso social dos nossos governantes; da insensibilidade coletiva aos que padecem por falta d´água; da irracionalidade e intolerância que implica no aumento da violência; da despreocupação com a droga que tem destruído as nossas famílias…

Captemos a mensagem que nos vem de dentro do espírito: ame ao próximo, dedique-se ao Direito e aclame o artista! É a lei da sobrevivência.

Marcos Araújo é professor e advogado

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Categoria(s): Artigo
domingo - 30/12/2012 - 09:20h

Novamente a primeira chance

Por François Silvestre

Ouvi numa canção de Rock, em inglês, uma frase poética que dizia mais ou menos assim: Não quero uma segunda chance. Mesmo que me seja dada uma segunda vida, quero novamente a mesma primeira chance.

Pois é. Não tive o talento para compor esses versos, mas foi sempre assim que repensei minha vida. Gostaria de uma segunda vida, não de uma segunda chance. Até porque gostaria de ter os mesmos amigos para amar e os mesmos inimigos para desprezar. O mesmo lugar de nascimento, a mesma origem e a mesma família bocó da primeira vez.

Os mesmos mofumbos para me esconder e o mesmo jardim da casa da avó. Os mesmos medos para vencer e os mesmos sonhos inalcançáveis. As mesmas molecas que pari e os mesmos paridos delas.

Nem o cinzento da seca eu quero diferente, pois só assim a chuva se faz desejo.

As mesmas dores, para exercitar a tática de vencê-las. Os mesmos atropelos, para afiar o gume de superá-los. E mesmo sem vencer umas ou superar outros, não peço suavidade neles, mas a chance de ter de novo a mesma primeira chance.

Arrependimentos, não. Que é coisa de cristão. E só fui cristão na infância, por indução irresistível. Autocrítica, nem tanto, que é coisa de marxista; e eu o fui, na mocidade, por influência da ingenuidade.

Mesmo assim quero Cristo de novo e novamente Marx, na nova primeira chance. Duas grandes figuras que nasceram na humanidade errada, ou na pré-humanidade.

Alguns livros deixaria fechados, desletrados que foram da primeira leitura. Outros a serem abertos, muito poucos; pois a vida merece mais vida e menos leitura. Não escrever antes dos quarenta, para renegar a escrita só aos sessenta. E rasgar meia página de cada página escrita. E da meia página salva, deixar exposto apenas o último parágrafo.

Apoiar todas as campanhas contra a bebida alcoólica, acompanhado de uma cerveja gelada; para dar testemunho da irresistível hipocrisia. E tomar todas as cervejas possíveis para diminuir o estoque e agradar aos abstêmios.

Aprender todas as rezas de afugentar visagens, durante a noite, e esquecê-las ao amanhecer. Pileque à tarde para conquistar a noite e ressacar a madrugada.

Olhar de chã e igualdade para os humildes, ombro a ombro. Olhar de serra pra grota, de cima pra baixo, os poderosos falsos e fáceis arrogantes. Não perder a oportunidade de uma flatulência na presença deles.

Manter distância higiênica do poder. Cuja força falece ante a vulnerabilidade. Até dos que estão na festa sem o convite da Constituição. Penetras do foguetório.

Manter a reclusão na democracia e a revolta na ditadura. Mesmo que a democracia seja apenas uma ditadura alegre. Lutar por eleições e depois votar nulo.

Peço ao infinito surdo uma segunda vida quase do jeito da primeira vez. Numa nova primeira chance. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no periódico Novo Jornal (Natal).

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 16/12/2012 - 03:45h

Inveja ínclita

Por François Silvestre

A inveja já foi definida como sentimento mórbido de admiração enrustida. O invejoso admira com ódio o objeto da sua inveja. Mas não é dessa inveja que vou falar. Sou invejoso de forma agradável, que me faz bem sem ambicionar o lugar do invejado.

Invejo com todas as minhas emoções o poeta Manoel de Barros. O filho da mãe consegue desconstruir a sabedoria duvidosa e arrancar do miolo da ignorância a forma bruta de espantar o leitor. Ele não é do litoral nem do sertão. É do charco. O litoral é gracioso e azul; o sertão é profundo e cinza. Só é azul de longe, porque o azul é menos cor e mais distância.

O pantanal é sertão e mar, sem precisar de Antônio Conselheiro. Manoel de Barros é pássaro ímpar daquele mundo vasto que se agasalha no seu ninho.

Invejo Mário Quintana, por conseguir ficar cada vez mais criança quanto mais envelhece o verso. Invejo Gonçalves Dias, que me pôs no quengo versos que não consigo esquecer. Invejo Castro Alves, que feito relâmpago passou pela vida e nunca conheceu a morte. Ninguém foi mais generoso com os oprimidos. E a poesia não é outra coisa senão a língua em forma de liberdade. Mesmo aprisionada em versos. A dialética não desgruda nem da poesia.

Invejo os passarinhos do meu sítio. Principalmente o pardal. Isso mesmo; o mais inútil, feio e desprezível dos passarinhos. Nenhum visitante quer fotografar o pardal. Fotografam rolinhas, paparroz, corró, sabiá, sanhaçu, cucurutas, galos-de-campina, canários da terra. Se na hora da fotografia houver um pardal no meio, o fotógrafo espera o bicho voar.

E o pardal tá cagando pra nós. Enquanto alguns passarinhos só comem frutas e outros só comem sementes, o pardal come de tudo. Se o puser num chiqueiro de bode, come casca de estaca. Mas sobrevive contra tudo e contra todos. Tá nem aí pra agradar.

Por isso eu o invejo. Gostaria de ser assim, mas não sou. Gosto de elogio, mesmo os imerecidos; ou principalmente estes. Invejo quem diz preferir uma crítica séria a um elogio fácil. Invejo; mas tirando por mim, acho que é mentira.

Gente, igual a menino e cachorro, gosta de afago. Essa história de receber crítica com serenidade; aqui, ó. Eu recebo é com coice. Quando agradeço crítica exercito minha cota de hipocrisia.

Não sou intelectual nem literato. Escrevo de atrevido, nesses tempos ágrafos, de poliglotas fluentes nas línguas de longe e gagos na prima pobre das flores do Lácio. Na qual eu espantei, com reza, os medos de menino nas noites de novilúnio.

Por isso invejo o pardal. E também o sanhaçu, golfinho de asas, da metáfora de Aurélia. O paparroz, mais brilhoso do que a graúna, mesmo com menos pluma.

Invejo até o jumento. Duas coisas suas: a paciência e o tamanho. Té mais.

François Silvestre é escritor arranchado em Martins-RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 06/05/2012 - 08:36h

Terra de ninguém

Por François Silvestre

Não há mais crimes cá no interior do Rio Grande do Norte. Liberou geral. Se não há inquérito nem julgamento não há crime. Matar não é crime. Roubar não é crime. Assaltar não é crime. A casa de mãe-joana escancarou-se. Isso vem de longe e só piora.

Os assaltos do Sábado e Domingo, repetidos todos os fins de semana, ficam sem registro de queixa.  Na delegacia da cidade um soldado solitário informa que BO só na Quarta-Feira.

Nem BO, inquérito, ou julgamento; punição? Só para o povo. Terra devastada, que lembra povoado do Oeste americano nos tempos do bang-bang. Só que nos bang-bangs daqui não tem xerife.

Em Umarizal, onde os inimigos históricos decretaram a prescrição do ódio, a paz só existe nas mumunhas políticas. O maior número de assassinatos, no Estado. Martins concorre, no item assalto.

Sabe o que é crime? Não responder ofício estúpido exigindo rampa no Forte do Reis Magos. Sabe o que é crime? Não fazer licitação para comprar passagens de cantores do finado Seis e Meia, com dia e hora certa. Sabe o que é crime? Restaurar a Cidade da Criança, sem licitação, mesmo com prova da obra realizada e do trabalho pago, com custo muito abaixo da obra licitada com empreiteira. Para cada um desses “crimes”, cinco promotores na denúncia. E não há prescrição. Para matar gente a prescrição é automática.

Uma das vítimas de assaltos do fim de semana, pois assalto aqui, no Sábado e Domingo, é como chuva em Belém, só uma questão de hora, procurou o Tenente comandante da “guarda policial” da cidade. Sabe qual foi a providência? O Tenente orientou a vítima: “Tome cuidado”.

Como tomar cuidado? Dormir no mato, como nos tempos de Lampião? Nem na delegacia alguém dormirá sossegado. Já invadiram o Fórum e levaram mais de quarenta armas, que se vinculavam a processos pendentes. Invadiram a sede da Promotoria Pública. Arrobaram os Correios. Explodiram a agência do Banco do Brasil. Não há notícia sobre inquéritos ou roteiro desses crimes.

Se as autoridades são roubadas, assaltadas e invadidas; imagine os pobres inquilinos de mãe-joana.

Dar parte aos “juristas”? Tem jurista aí a bater de vara. Desarmaram a população, armam os bandidos. Assaltos todo fim de semana; e não há polícia, nem pra se dar queixa. Aqui, um dia é dos bandidos e o outro também. Vai ter policiamento ostensivo para receber os novos amigos da “paz pública” de Umarizal, com fanfarra e discurso chato. Sobre os cadáveres de crimes impunes.

Só não é terra de ninguém porque foi escriturada para os bandidos. Abandono público, com o poder e juristas banhados de óleo de peroba, onde o povo é clandestino no quintal de mãe-joana. E ainda dizem cretinamente que aqui é lugar de turismo. Só se for pra turista doido. Té mais.

Francois Silvestre é escritor e vive arranchado no topo do município de Martins-RN. * Artigo originalmente publicado no Novo Jornal (Natal).

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Categoria(s): Artigo
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 28/08/2011 - 09:46h

Não enterrem meu coração

Por François Silvestre

Donde vem essa retirante dor, camuflada de esperança, trazendo nas costas um matulão de perguntas?

Onde nasce essa nascente? Na sala da frente, no vão da cozinha ou num corredor do escuro?

Donde vem o uivo desse vento? Não é de nenhum morro do grande romance. É daqui mesmo; após driblar os galhos da oiticica, passar pelas frestas do mofumbal, entrar no escavado dos meus ouvidos e me fazer desassossegado.

Onde mora meu sossego fugitivo? Pronde foi a raspa de gamela tão adocicada que desenvelheceu aquele moleque e seus pinotes do açude? Onde canta a mãe-da-lua?

Donde vem a coragem de enfrentar os vigias das histórias? Talvez da escassez do talento de mimá-los com belos versos. Contar em trecho longo é valentia ou talento?

Onde foi parar meu senso de moderação, meu medo do ridículo, meu refúgio de inspiração? Talvez numa grota que as rugas da face escondem por trás da ribanceira da ousadia.

Donde chega e aparece a penada voz do espírito da noite? Que pena paga pelas beiradas do caminho que faz a minha ex-madrugada? Por que eu virei tarde ainda de manhã? O sofrimento não envelhece, apenas encurta a alegria da infância.

Onde se aposenta o vexame de amealhar? Quantas contas não pagas virão bater à minha soleira? Quem se veste dessa cor tão fria? Cansados olhos que mal distinguem nas brumas a variação dos cinzas.

Donde veio a confiança das amizades? Talvez da fuga de esconder-se da solidão. Quanto custa meia pataca de silêncio? Muito mais caro do que duas arroubas de barulho.

Onde mora a invenção da história, que pretende alugar minha paciência? Sem acerto antecipado do aluguel. Sem fiador de biografia testada.

Donde escorreu essa água suja de tantas lágrimas que vem enxovalhar o meu linho quase branco, amarfanhado com dobras do passado?

Onde se abanca o senhor das verdades, diluídas de descrédito? Na certeza de que ninguém o procurará. E aí ele arma sua rede para descansar as costelas que Adão esqueceu num baú inexistente.

Donde me chega esse cansaço? Não é da moradia de trabalho insano. Não. Talvez seja de uma latada esquecida pelos retirados das águas. Sim. Não é só a seca que retira. Há os que fogem do barro úmido, quase lembrança da lama.

Onde posso armar minha rede que de tanto alpendre desmoronado virou tipóia? Como posso me esconder por trás da penumbra dos meus olhos?

Donde vem essa roçadeira de podar certezas? Semeando dúvidas, de olho no nascente. Enquanto cava a terra e semeia pedaços de solidão. Sementes de ossos quebrados. Onde mora o vizinho da paciência? Há respostas prontas ou são todas perguntas escondidas? Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/07/2011 - 09:16h

Ateu com a graça de Deus

Por François Silvestre

Todos os deuses existem. Mas Deus não existe e nem por isso tudo é permitido. A existência de Deus não é condição imprescindível para limitar as ações humanas. O deísta mau caráter pode viver a “glorificar” Deus e assim mesmo não tê-lo como barreira para a prática do mal.

O ateu bom caráter tem no remorso o mais terrível dos deuses. E aí morre a argumentação de Dostoievsky.

Não existe monoteísmo. Todos os crentes, de todas as seitas, fatiam sua fé. E disfarçam. O cristianismo desmembra Deus na trindade misteriosa. Tanto que os evangélicos nem sabem mais da existência do Deus hebreu. Basta-lhes um dos testamentos e todos os arrecadamentos. O uso do velho testamento só serve quando o texto interpretado justifica dízimos e outras prebendas.

Zé Maria vai me telefonar para corrigir. E mandar que eu leia Isaías. No Islã, Alá só é único no verso de abertura do Alcorão. “Láh iláhá illa Alláh, Muhammad rasúl Illáh”. Na prática, Maomé é deus e são deusas todas as guerras “santas” desde os embates de Saladino com templários, cruzados e sucessores de Balduíno.

Deus existe até no ateísmo. Por quê? Porque se não existe na forma de criador, existe no formado de mito. O mais exuberante, imortal e universal de todos os mitos. Só que nesse caso ele é criatura e não criador.

Os deuses gregos só diferiam dos humanos na força específica de cada destinação e na imortalidade. Dispensavam as Academias. No resto, carregavam as mesmas paixões, fraquezas e grandezas humanas.

A beleza de Afrodite e a embriaguez de Dionísio, Vênus e Baco latinos, sempre fascinaram o imaginário da literatura de ficção. Ou até da literatura de ensaios.

Não gosto do deus hebreu porque ele me assustou na infância. Eu não rezava por admiração. Rezava por medo. Medo de almas e das suas barbas saindo das nuvens, nos “santinhos” que o padre alemão distribuía na igreja dos Domingos.

Só depois descobri que alma só assusta se for nova e conhecida. Nas aulas de história, todos estavam mortos. Mas eu não temia as almas de Deodoro, de D. Pedro nem de Anchieta. Almas velhas, distantes, desconhecidas. Morria de medo das almas de colegas ou vizinhos mortos. Almas novas é que assustam.

Hoje eu tenho medo do medo. Não o quero de volta. Troquei o medo pelo desprezo. Apenas olho com olhos frios e descaso essa parafernália de igrejas vendendo lotes no céu aos desesperados.

Não me vanglorio do ateísmo. Gostaria de acreditar. Mas a fé não se encaixa no recipiente da razão. Se eu pudesse manobrar a fé, me incluiria nela. Tenho inveja dos que acreditam honestamente. Digo honestamente, porque não creio na fé dos vendilhões de salvação.

É angustiante não crer na própria alma. Se a minha existe, que duvido muito, ela não acredita nem nela mesma. Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
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