domingo - 30/03/2025 - 10:44h

Um inesquecível jogo de futebol

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Assisti ao jogo da nossa seleção na última terça-feira contra a seleção da Argentina. É claro que não farei análises táticas sobre o comportamento em campo da seleção canarinho, pois não tenho conhecimento para tanto. Contudo, na qualidade de torcedor, senti-me envergonhado.

A seleção nem parecia a de outros tempos. E nem falo da seleção de Pelé, que não vi jogar. Falo da seleção de Romário, Bebeto, Ronaldo e companhia, os quais jogavam bola pra valer, com garra e vontade de ganhar. Já o jogo da terça-feira parecia que estavam em campo um time amador e um time profissional. A Argentina deu um baile, ou melhor, um tango.

Enfim. Mas eu quero lembrar do melhor jogo de futebol que já assisti.

Foi no dia 27 de junho de 2011, pelo campeonato brasileiro. Flamengo e Santos. Ali, sim, um jogão de bola. Jogando pelo Flamengo estava Ronaldinho gaúcho, o Bruxo; pelo Santos, Neymar, no seu melhor momento.

Na Vila Belmiro, Neymar marcou dois gols, deu assistência e comandou o Peixe, que chegou a abrir 3 a 0 no placar. O Rubro-Negro reagiu graças ao Bruxo, que balançou as redes três vezes, incluindo uma cobrança de falta por baixo da barreira. Ao final, 5 a 4 para o Flamengo.

Lembro que um narrador de futebol disse que, dificilmente, a nossa geração assistiria a um jogo de futebol como aquele. Realmente nunca vi nada igual, e já faz quase quatorze anos da partida.

Outro jogo que marcou a minha vida foi o primeiro da final entre Potiguar e América, em 2004, ano no qual o time macho sagrou-se campeão do campeonato estadual do Rio Grande do Norte. Naquela noite memorável, o velho Nogueirão estava lotado, e a torcida do Potiguar fez uma bonita festa.

Hoje, infelizmente, o futebol de Mossoró está decadente, e o Nogueirão caindo aos pedaços. Uma vergonha.

Entretanto, para mim, nada se compara ao jogo entre Flamengo e Santos, independentemente de quem ganhou, pois foi um inesquecível jogo de futebol. Épico.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica / Esporte
domingo - 30/03/2025 - 06:32h

Pão nosso de cada dia

Por Marcos Ferreira

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Presumo que poucas pessoas se interessem por esse conteúdo, por essa informação. Pois se trata, a bem da verdade, de uma sensaboria, algo de quem parece não ter coisa melhor para dizer. Teimoso, porém, vou contar esta história insípida. É que hoje acordei cedo. Cedinho mesmo: pouco depois das quatro da madrugada. A bexiga estava de fato nas últimas, então fui ao banheiro e não consegui reaver o sono. Volta e meia isso acontece; uma emergência fisiológica. Ainda assim, com o quarto na penumbra e naturalmente frio, retornei para a minha rede e os cobertores.

Vocês sabem que em ocasiões dessa ordem, quando a gente se encontra insone por inteiro ou parcialmente, mil e uma maluquices nos vêm à cabeça. Então nos alcança um monte de besteirol, pessoas e meio mundo de lucubrações. No meio disso, fato corriqueiro, vêm ao meu juízo determinados temas que julgo aproveitáveis, com certo potencial para converter em uma crônica garranchosa.

Recordei-me, por exemplo, de uma dúzia ou mais de amigos que têm (coloco-me no meio deles) esse alumbramento visceral, comunhão, enlace com o exercício da escrita. Sim. É o que estou dizendo. Somos, de forma saudável, reféns espontâneos e um tanto orgulhosos dos vencilhos, das amarras da escrita. Como no verso de Camões, é estar preso por vontade, é servir a quem vence o vencedor. O bardo caolho é fora de série, extraordinário, um fenômeno da poesia. É incomparável.

Então penso, após todo esse nariz de cera, nos meus pares, nos meus amigos literatos, homens e mulheres dominados pelo micróbio da literatura. Alguns desses indivíduos inéditos em livro (por razões que a própria razão desconhece) seguem fugindo da raia, fazem ouvidos moucos ao chamado da Literatura. Lembro, mas que isso fique apenas entre nós, de figuras preciosas e cheias de hesitações como nosso querido arquivo ambulante Rocha Neto. E não apenas o Rocha. Há outros desertores da tinta e do tinteiro nesta Macondo nordestina. Faço aqui a vez de dedo-duro.

O que tanto esperam (insisto que esse assunto fique só entre nós) os senhores Marcos Araújo, Bruno Ernesto, Odemirton Filho, Ailson Teodoro, Raquel Vilanova e, entre outros, Bernadete Lino? Pois é, meus caros. A senhora Bernadete Lino, pernambucana que mora em Caruaru, tem o que verter para o papel. Ela, que me oferece a honra de sua amizade e tem um forte elo com nossa terra, possui uma biografia muito bonita. Estou certo de que um livro seu de memórias, considerando a clareza de seu pensamento e intimidade com nosso idioma, seria uma ótima contribuição às letras. João Bezerra de Castro, gramático vocacionado, pode afiançar o que digo.

A labuta da escrita, perdoem esta metáfora talvez de mau gosto, representa o nosso pão de cada dia, mesmo em se tratando (repito) de personagens que ainda não estrearam em livro. De repente alguém pode saltar e dizer que estou cobrando dos outros uma produção que eu próprio não reúno. Quem isto afirma não está de todo errado, considerando que sou autor de um só livro publicado.

Todavia, para quem não sabe, possuo quase dez títulos inéditos nos gêneros romance, contos, poesia e crônicas, tudo isso à espera de melhores horizontes financeiros ou da possibilidade de ser pego no pente-fino de concursos literário que oferecem premiação em dinheiro e, no mais das vezes, publicam a obra vencedora. Este é o caminho que percorro há tempos.

Ressalto, claro, que estou a anos-luz da fecundidade, da prenhez e dos recursos econômicos de autores de minha estima como Clauder Arcanjo, Ayala Gurgel e o prolífero e versátil Marcos Antonio Campos, três mosqueteiros, três espadachins bem-sucedidos nos salutares duelos com a arte do fazer literário.

Além desses três, e não menos meritórios, temos no País de Mossoró e no estado manejadores da língua portuguesa bem-aventurados como Vanda Maria Jacinto, Fátima Feitosa, Dulce Cavalcante, Margarete Freire, Lúcia Rocha, Júlio Rosado, Caio César Muniz, Cid Augusto, Jessé de Andrade Alexandria, Crispiniano Neto, François Silvestre, Carlos Santos, Inácio Rodrigues Lima Neto, Airton Cilon, Thiago Galdino, Marcos Pinto, Francisco Nolasco, David Leite, Honório de Medeiros, Antonio Alvino e, devido às condições da memória, outros mais que ora não recordo.

Todos, com um nível maior ou menor de arrebatamento, buscam esse pão nosso de cada dia que resulta em crônicas, contos, romances, poemas. No que me toca, enquanto cativo deste mister de arranjar palavras e exibi-las em páginas com um mínimo de qualidade, produzo coisas desse tipo: uma crônica um tanto quanto prolixa, mas sempre com a mão na massa do verbo do qual nos alimentamos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 23/03/2025 - 07:34h

A ilha perdida

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa obtida com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa obtida com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Na minha infância e na adolescência, as minhas disciplinas preferidas eram História e Geografia. Matemática? Deus me livre! Nas aulas de Português, gostava quando a professora fazia ditado, a fim de que pudéssemos escrever corretamente. E sempre gostei de ler, sempre.

Lembro da Série Vaga-Lume, com livros da escritora Maria José Dupré. Havia, também, a Coleção de livros do Cachorrinho Samba. Creio que li praticamente todos os livros que faziam parte dessas coleções.

Contudo, o livro que mais gostei de ler foi A Ilha Perdida, da mencionada escritora. Nele, dois garotos se aventuram em uma ilha, um deles se perde, e encontra um homem misterioso, um eremita que habita o lugar, chamado Simão. O garoto passa a morar com ele, e descobre um mundo desconhecido, explorando uma rica fauna e uma abundante flora.

A partir da minha adolescência, outros livros começaram a fazer parte do meu dia a dia. Li Machado de Assis, José de Alencar, entre vários autores nacionais. Li, também, livros de Sidney Sheldon.

Na fase adulta enveredei por vários caminhos, leio romances escritos por Jane Austen, Ernest Hemingway, Dostoievsky, entre outros literatos. Um livro que me encantou foi o Conde de Monte-Cristo, de Alexandre Dumas.

Há meses que tento “escalar” a Montanha Mágica, de Thomas Mann. O livro é denso, por vezes cansativo, mas hei de alcançar o “topo da Montanha”. Lembro que na minha juventude, pedi de presente ao meu pai a coleção de O Capital, de Karl Marx. Todavia, o meu velho não me presentou. Somente tempos depois, adquiri e li algumas páginas.

Atualmente, no entanto, sou apaixonado pelas crônicas. Não importa o tema ou o autor, se for crônica, leio. Tenho consciência que leio pouco, há muito o que ler e, sobretudo, aprender.

Mas, voltando à Ilha Perdida, o livro marcou a minha memória afetiva. Conta o livro que, quando o garoto consegue voltar para casa, e narra aos familiares a aventura que viveu, ninguém acreditou. Para provar que estava falando a verdade, retorna à ilha com algumas pessoas.

Todavia, o velho Simão soube se esconder e não o encontraram. Quando estavam voltando para casa num pequeno barco, o garoto viu uma mão acenando, lá da ilha perdida. Emocionado, ficando em pé no barco, gritou: “até um dia, Simão”.

Eis, portanto, o final de uma singela história que marcou a minha infância.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/03/2025 - 08:02h

Sossego

Por Odemirton Filho

Imagem gerada com Inteligência Artificial para o BCS

Imagem gerada com Inteligência Artificial para o BCS

Chega-se a uma fase da vida que colocamos o pé no freio. A correria de tempos passados perde o sentido, pois se começa a perceber que mais dia, menos dia, tudo ficará para trás. Assim, ao amadurecer, começamos a dar mais valor a companhia daqueles que amamos.

Prezamos ficar ao lado dos nossos pais, achamos bom ouvir as suas histórias, adoramos sorrir com o seu sorriso; gostamos de curtir os nossos filhos e netos. Qualquer brincadeira ou palavra dita pelos netos é motivo de alegria. O que parecia tão trivial, começa verdadeiramente a ser importante, a ganhar o valor merecido.

Adoramos curtir a nossa própria companhia, a navegar nas lembranças e saudades que marcaram a alma. Tudo se torna leve. Já não queremos carregar em nossa bagagem o peso dos problemas. Tentamos esvaziar o coração, deixando-o bater num lento compasso.

Cada um procura vivenciar aquilo que faz bem. Vamos à praia e olhamos o horizonte, no qual vislumbramos o eterno. Quem gosta de sentir o cheiro da terra, sobretudo quando cai a chuva, encontra refúgio em uma fazenda ou num sítio. Toma-se uma taça de vinho, uma dose de cachaça, de uísque ou uma cervejinha para relaxar. Quem pode viajar por aí, viaja.

Vamos à missa ou ao culto para alimentar a fé; lemos um bom livro, uma boa crônica, daquelas que afloram bons sentimentos. Passeamos pelas ruas; e começamos a olhar os pássaros que habitam as árvores. Eu, por exemplo, gosto de ver – após regar as plantas do meu quintal – um lindo beija-flor batendo as asas em volta, ligeirinho, ligeirinho.

Enfim, queremos viver e curtir o singelo. Na realidade, o que há de mais valioso na vida.

Certa vez, o poeta Mario Quintana escreveu:

“De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem. A opinião dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que seja sobre nós, não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado, e sim a vida que cada um escolheu experimentar. Por fim, entendemos que tudo que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento.

E só”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 09/03/2025 - 15:28h

Nunca deixe de sonhar

Por Odemirton Filho

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

“O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado”, disse Ariano Suassuna. Sem dúvida, os sonhos nos levam a buscar os nossos objetivos, dando-nos força para seguir em frente, num mundo de tantas dificuldades.

É preciso muito jogo de cintura para encarar a vida, palmilhando o caminho com sonhos. Imagine você se não tivéssemos a capacidade de sonhar. Ficaríamos eternamente envolvidos pela labuta diária e pelos problemas. Cada um de nós tem a sua batalha, uns mais, outros, menos.

Quando somos crianças, inúmeros são os sonhos sonhados. Na adolescência, achamos que a vida se resume as farras com os amigos e aos namoricos. Depois, com o passar do tempo, após levar umas pancadas da vida, despertamos para o mundo, e passamos a sonhar, mas com os pés no chão. É assim que tem de ser. Sonhar, contudo, levando a vida com pragmatismo.

Difícil? Talvez. Entrementes, precisamos compatibilizar essa dualidade.

O fato é que nem todos têm as mesmas oportunidades. Há pessoas que nascem em berço de ouro, com múltiplas oportunidades; estudam em um bom colégio, viajam mundo afora, tem dinheiro. A maioria, porém, pelo menos neste país verde e amarelo, sonha em ter um prato com comida diariamente.

Muitos alunos vão à escola somente para ter a oportunidade de comer o lanche, quem sabe, a única refeição do dia. Ora, até o café e o ovo estão caros.

E digo mais: no meu ofício de oficial de Justiça, já intimei inúmeras pessoas que tem familiares envolvidos com drogas. Só eu sei o semblante das mães e das avós que aproveitam a minha presença para desabafar.

Incontáveis vezes escuto relatos de pais e avós que têm em casa filhos ou netos envolvidos com drogas. E não só as drogas ilícitas. O álcool há muito tem destruído os sonhos de muitas famílias, das mais variadas classes sociais.

Entretanto, apesar de cada um de nós carregar sobre os ombros um fardo maior ou menor, o importante é nunca deixar de sonhar, pois “o sonho é que leva a gente para a frente”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 09/03/2025 - 04:10h

Os habitantes do BCS

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign

Imagem ilustrativa da Web – Creative Sign

Duvidar, não duvido. Pois decerto existe no Brasil e no mundo quem desconheça o significado da nossa familiar sigla BCS, tão notória, por exemplo, quanto SUS, FBI, CIA, ONU ou a temida e extinta KGB, agência de espionagem e polícia secreta da igualmente morta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Alguém ariscará dizer, entre outros equívocos, que se trata de Banco Central da Suíça. É possível, portanto, que existam indivíduos neste planeta que nunca tenham ouvido falar no Blog Carlos Santos (BCS). Além disso, alguns terráqueos não têm conhecimento (ignorância não menos grave) do rol de colaboradores do referido Blog.

Todo domingo, desde tempos imemoriais, cabeças singulares da intelectualidade mossoroense e de além fronteiras do RN exibem as suas tintas neste ilustrado espaço de opinião, arte e cultura. Temos aqueles que marcam presença de modo bissexto, esporádico, contudo há um punhado de articulistas que muito raramente deixam uma lacuna nestas manhãs domingueiras que contam ainda com o brilho e categoria de um sem-número de leitores e comentaristas de alto nível.

Os habitantes do BCS, tanto os cronistas, os poetas, os ficcionistas e, repito, o precioso rol de leitores e comentaristas, mantêm uma sintonia e fidelidade admiráveis. Encontramos neste gueto das palavras várias cucas talentosas, beletristas de responsa. Ninguém pode se queixar da produção intelectual que os homens de engenho deitam dominicalmente entre as quatro linhas desta vitrine da prosa, do verso e, como não poderia deixar de ser, com informes do atacado e do varejo da política norte-rio-grandense, nacional e mundial. Aqui, no tocante à informação e à cultura como um todo, os leitores dispõem de grande sortimento de ideias e debates.

Sendo um pouco indiscreto, permito-me citar os nomes de expressivos escribas que têm concorrido para o brilho e sucesso do BCS. Falo, entre outros, de malhadores de teclados como o próprio Carlos Santos, Marcelo Alves Dias de Souza, Honório de Medeiros, David Leite, William Robson, Marcos Pinto, Odemirton Filho, Bruno Ernesto, François Silvestre, Marcos Araújo e, mais recentemente, surge para enriquecer o escrete um tal de Ayala Gurgel. Este último, a meu ver, representa uma das mentes mais engenhosas e prolíferas da nova ficção norte-rio-grandense.

Quem quiser que diga que estou puxando o saco do BCS e dos seus habitantes dominicais. Não tem problema. O aplauso e a vaia são livres. Vivemos (ao menos até o momento) num país democrático. Sim. A democracia esteve seriamente ameaçada no governo anterior, todavia não sucumbimos ao golpismo.

Creio que em breve o “mito” (o espírito de porco, a degradante alma sebosa que infectou o Brasil, fez pouco-caso dos mortos pela pandemia e zombou de famílias enlutadas) está prestes a conhecer as acomodações de Bangu 8 ou da Papuda. Deixem estar.

Voltando à audiência e relevância do Blog, penso que não existem por aí muitos espaços assim, com tantos e tão bons poetas e prosadores. É um ambiente digital dos mais procurados pelo público leitor. Enfim, agora parodiando aquele frevo do Caetano Veloso, digo que só não vai atrás do BCS quem já morreu.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 02/03/2025 - 12:38h

Hoje é Carnaval

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Na minha juventude eu gostava de brincar o carnaval. Era tempo de viver a vida sem qualquer preocupação, a não ser os estudos. A adolescência, creio, brinda-nos com os melhores momentos de nossas vidas.

Eu brincava o carnaval lá no clube Creda, em Tibau. Os meus pais compravam as senhas para que pudesse curtir os quatro dias; “compravam a mesa”, como se dizia.

No finalzinho dos anos oitenta, ainda se tocavam as marchinhas de carnaval, porém, o axé começava a despontar como ritmo a animar os foliões.

Lembro que quando tinha uns dez ou doze anos, os meus pais me levaram para um baile de carnaval na ACDP, no início dos anos oitenta. Acredito que foi um dos últimos bailes realizado no clube. Sentia um cheiro de perfume no ar, nem sabia o que era, e, sentado à mesa, tomava guaraná Antarctica. Meus pais, juntamente com amigos, divertiam-se pra valer.

Bandeirinha, um amigo de meu pai, gostava de cantar (desculpe o trocadilho), “bandeira branca, amor… Ele pensava que cachaça era água, mas cachaça não é água não ….

Tio Espínola (de saudosa memória) e tia Adna chegavam mais cedo lá em casa, na rua Tiradentes, e tomavam umas pra carregar as baterias, antes de irem para o clube com os meus genitores.

Disse meu pai que os carnavais no clube Ypiranga e da ACDP eram maravilhosos. À época, era comum os famosos “assaltos” nas casas de algumas pessoas, e os anfitriões serviam comida e bebida à vontade aos presentes.

O saudoso colaborador deste Blog, Paulo Menezes, também escreveu sobre os carnavais de outrora. Segundo ele, “os blocos de salão mais famosos da época eram: Hi-fi, Sky e Os vips. A recepção era com muita bebida e salgadinhos de finos paladares. Não faltava também o “Lança-perfume Rodouro”, aromatizando o ambiente e embriagando-nos ao tempo que nos transportava para um mundo de sonhos e fantasias”.

Era o tempo das marchinhas de carnaval. Aliás, “ô abre alas, que eu quero, eu sou da Lira, não posso negar, Rosa de Ouro é que vai ganhar…” foi a primeira, de autoria de Chiquinha Gonzaga, em 1899.

Ao lado de amigos, eu passava o dia na praia. Às vezes, quando o dinheiro acabava, e não dava pra comprar cervejas, deixávamos no “prego”, pois o dono da barraca era nosso “chegado”. “As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão, na saca, saca rolha, e bebo até me afogar”.

À noite era no clube Creda. A turma jovem lotava o espaço, e todos eram nossos conhecidos. Eram quatro noites de folia. Somente tempos depois o clube Álibi foi inaugurado.

Quando o carnaval da cidade de Aracati começou a ganhar fama, eu e alguns amigos, acompanhados por nossas namoradas, íamos até lá, numa das inúmeras aventuras da adolescência. “Chegou à turma do funil, todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto…

Hoje, entretanto, a história é outra. A maturidade já não me anima a brincar o carnaval; curto os dias de momo ao lado da minha família, escutando músicas do meu gosto, acompanhado de umas boas doses, é claro, porque ninguém é de ferro.

Leia também: Um Carnaval que não será igual ao que passou (Paulo Menezes, 14/02/2021)

Enfim, peço desculpas por trazer à baila essas reminiscências, mas “eu quero matar a saudade (…) não me leve a mal, hoje é carnaval …

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 23/02/2025 - 07:28h

Crônica artificial

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso de Inteligência Artificial para o BCS

Um dia desses, por curiosidade, acessei um desses chats e solicitei a elaboração de crônicas sobre temas variados. Em poucos segundos, a Inteligência Artificial (IA) elaborou várias crônicas; textos bem-feitos, diga-se.

Pois bem, entramos na era da IA. É uma realidade da qual não podemos fugir, a tecnologia caminha a passos largos. Entre vários conceitos, pode-se dizer que “a Inteligência Artificial é um campo da ciência da computação que se dedica ao estudo e ao desenvolvimento de máquinas e programas computacionais capazes de reproduzir o comportamento humano na tomada de decisões e na realização de tarefas, desde as mais simples até as mais complexas”.

Segundo li, existem quatro níveis básicos de AI: a primeira, a “fraca”, está associada a tarefas simples, como trancar a porta do carro. A segunda, chamada de “geral”, é aplicável a atividades automatizadas, como na linha de produção ou gestão de lavouras. A terceira, “superinteligência artificial”, é utilizada em máquinas que podem decisões rápidas, a exemplo dos carros sem motorista. Por fim, a quarta, “generativa”, capaz de elaborar textos, imagens, códigos de programação, vídeos etc.

É inegável os avanços que a IA trará para a humanidade, embora muitos tenham receio dessa tecnologia de ponta. Entretanto, os avanços em todas as áreas do conhecimento humano, seja na medicina, na produção agrícola e no nosso dia a dia serão notórios, segundo os especialistas.

Contudo, no tocante ao ato de escrever, sobretudo, na elaboração de crônicas, nada substituirá o humano, os sentimentos que deixamos impressos ao escrever. Não quero nem imaginar, por exemplo, uma crônica sem a magia das palavras de Marcos Ferreira.

Escrever crônicas é navegar em sentimentos, lembranças e saudades. É resgatar tempos idos, esmiuçar o cotidiano. Como escrever sobre a beleza do mar ou do horizonte sem ter vislumbrado a paisagem? Como falar sobre o amor sem vivê-lo, senti-lo?

Uma crônica não pode ser artificial. A crônica é viva, pulsante. Escrever crônicas é fazer do feio, o belo, do menor, o maior. É observar a vida sob diversos ângulos, em diálogo com o leitor, que também embarcará nessas reminiscências.

Como bem disse Rubem Braga, dos nossos melhores cronistas: “escrever com sentimento tão fundo, e a mão tão leve, que não sei dizer o que quero, ou talvez não queira dizer o que sinto”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 16/02/2025 - 14:54h

Ouvir é uma arte

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de Inteligência Artificial do AI Meta para o BCS

Arte ilustrativa com uso de Inteligência Artificial do AI Meta para o BCS

Existe um poema do escritor Rubem Alves que diz: “sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir”.

E é verdade. Neste mundo, fala-se muito, ouve-se pouco. Todos querem falar, contudo, quase ninguém escuta o outro. Quase todos querem aparecer, mostrar-se ao mundo virtual, ser o dono da razão; as redes sociais estão aí para provar.

No entanto, às vezes, é preciso silenciar. Escutar. Ouvir, principalmente, a voz do coração. O silêncio tem muito a dizer. Escutar a voz do outro, os desejos de quem está ao nosso lado não é comum. Normalmente se quer ganhar no grito, pois ouvir é uma arte.

Será que realmente sabemos o que pensa o outro? Será que temos a sensibilidade para escutar o que a outra pessoa tem a nos dizer? Talvez, ela necessite ser ouvida. Ao escutar o outro, entramos no seu mundo e, quem sabe, podemos ajudá-lo de alguma forma.

Onde também existe muita zoada é no ambiente da política; fala-se demais, ouve-se de menos. Quase ninguém escuta os argumentos contrários aos nossos. Aliás, a paixão pelo candidato de nossa preferência tem nos tirado a razão. E eles estão lá, no “bem-bom”.

O exercício da cidadania não combina com paixão cega. Devemos acompanhar o político que elegemos, se ele tem realizado o prometido. O cidadão consciente de seu papel aponta os erros desse ou daquele político, mesmo o de sua preferência.

Enfim, “aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça, disse-nos Jesus. Se és homem ou mulher de fé, escute a palavra de Deus. Ele tem muito a nos ensinar. No silêncio da nossa alma escutamos a sua voz. Sim, Ele nos fala, mas precisamos escutá-lo.

Nesse contexto, o cardeal José Tolentino escreveu:

“A audição se faz com os ouvidos, mas também com o coração, ouvindo o dito e não dito, o fora e o avesso, o presente e o futuro que é dado em cada instante”.

Tente diminuir a correria da vida. Fique em silêncio.

E escute.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/02/2025 - 03:46h

Quando eu crescer

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Web

Arte ilustrativa Web

Estamos às portas do carnaval, infelizmente. Falo por mim, claro. Há ocasiões em que imagino que não sou deste planeta. Bom. Não é da minha conta o fato de um mundo e meio de indivíduos curtirem o momo. É uma espécie de cartão de visita do Brasil. Eu, entrementes, desprezo essa tradição com todas as minhas forças. Tanto o carnaval oficial quanto os ditos “fora de época”.

Sim, sou avesso a multidões, a fuzarcas, furdunços, frevos, pândegas, etc. Agrada-me, todavia, uma boa roda de amigos, que prefiro com a ausência ou sem excessos alcoólicos. Possuo, tenho meus motivos, um forte desconforto (um trauma, na verdade) quanto à cultura etílica.

Esqueçamos o carnaval e o álcool. Fui bobo ao tocar nesse ponto nevrálgico, pois pretendo discorrer acerca de outras coisas. Aqui estou, nos acréscimos do segundo tempo, com mais um desafio de produzir uma crônica para este meu domingo de bocejos e de preguiça. Bocejo é um negócio contagiante. Ao ver alguém bocejar, dificilmente a gente não boceja. Só de pensar já estou abrindo a boca.

Fixando-me agora no compromisso da escrita, confesso que estou enchendo linguiça, conforme o ditado. Careço extrair dos meus quatrocentos ou quinhentos neurônios uma página minimamente atrativa, digna da atenção do leitor. No mais tenho plena consciência de que escrever sobre o ato de escrever é um legítimo lugar-comum, um tema pisado e repisado, um tipo de artimanha tão desagradável e perniciosa quanto o ogro Donald Trump. Desta vez, observem só, aqui me vejo ocupando, gastando tinta com o lodaçal, o charco político que voltou à Casa Branca.

Num domingo como este cai bem certas amenidades, um bocado de pacatez, uma escrita branda. Nada de mau humor, de ranço ou polêmicas. Isso, em particular o âmbito da política partidária, finda abespinhando alguém. Quando eu crescer, por exemplo, quero que a minha pena adquira determinadas qualidades.

Assim sendo, suponhamos que meu texto possuiria a suavidade e leveza de Odemirton Filho, que é o cronista mais cuca-fresca que vejo no Blog Carlos Santos. É o que estou dizendo. Odemirton escreve macio como algodão. O homem demonstra a fleuma, a mansuetude de um peixinho de aquário. Sou fã dele tanto quanto Natália Maia e Bernadete Lino.

Quem quiser, talvez por mera inveja, que diga que sou puxa-saco. Não me importa. Estou sendo tão somente franco e justo. Assim como devo aplausos à memória prodigiosa de nosso confrade Rocha Neto. Essa benquista figura (eis mais um puxão de orelha) está nos devendo um livro com suas reminiscências faz muito tempo. Não sei por que tanto protela. Falta de estímulo é que não é.

Ambiciono, no bom sentido, o fôlego e a inventividade de Clauder Arcanjo e Ayala Gurgel, dois escritores versáteis e fecundos. E o que dizer do causídico Bruno Ernesto? Ora! O rapaz é ilustrado, carrega no quengo uma rara ciência das coisas de antanho, fortuna histórica, amplo conhecimento relativo ao passado desta nossa capital do embuste. Coisa mesmo das priscas eras. É um cronista-historiador e vice-versa. Não menos me encanta a prosa cristalina e saborosamente erudita do meu xará Marcos Araújo. Como diria o saudoso cronista e filólogo José Nicodemos, sou-lhe macaca de auditório. Favor nenhum. O sujeito faz jus aos seus predicados.

Admiro, também, o verbo de Antonio Alvino da Silva Filho, pensador, filósofo contemporâneo e autor do livro de crônicas intitulado Contrapontos — Reflexões a partir da vida em rebanho, cujo prefácio tive a honra de escrever. Permitam-me alongar a lista de meus escribas diletos, a maior parte articulistas deste blogue. Isto porque não posso esquecer de maneira alguma do senhor delegado da Polícia Civil (homem de armas e de letras) Inácio Rodrigues, cuja escrita ficcional me encantou logo de cara. Esta não é a primeira vez que destaco o talento de Inácio.

Quando eu crescer, pois, quem sabe meu estro amarre as chuteiras dos beletristas ora citados. Neste universo das palavras, como ninguém é de ferro, almejo até uns vestígios, uns mínimos resquícios de um Graciliano Ramos e de um Machado de Assis. Exatamente nesta ordem. Além de mestres do gênero crônica como Otto Lara Resende e Rubem Braga. Mas, repito, só quando eu crescer.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 09/02/2025 - 07:22h

Sino da vitória

Por Odemirton Filho

Paciente agradece a cura, após tocar sino (Foto: Arquivo do Primeira Página)

Paciente agradece a cura, após tocar sino (Foto: Arquivo do Primeira Página)

Na semana passada, assisti a uma reportagem bastante emocionante, que tocam o nosso coração e a nossa alma. Em um hospital para tratamento de câncer em Cuiabá, salvo engano, ao final do tratamento os pacientes batem um sino, comemorando a remissão.

O ato é de um simbolismo sem igual. Comemora-se a vitória, após um longo e doloroso tratamento. Quem já padeceu desse mal ou acompanhou o sofrimento de uma pessoa querida, sabe o quão é importante agradecer e festejar a recuperação.

Muitas são as batalhas da vida, as quais travamos diuturnamente. Enfrentamos lutas de todos os tipos, num embate sem trégua pela nossa sobrevivência. Cada um de nós tem a sua labuta individual, uns mais, outros menos.

E vencer uma batalha, por vezes desigual, é motivo de regozijo. Quantas pessoas não estão a padecer nos leitos de hospitais ou de suas casas? Muitos venceram, muitos perderam. A ciência, infelizmente, ainda não conseguiu descobrir a cura para o câncer. Há, sem dúvida, investimentos de bilhões em pesquisas, mas, até o momento, não se conseguiu a cura para todos os tipos, embora existam tratamentos.

Entendo as famílias que passam por esse momento delicado da vida, pois há mais de vinte anos perdi um sobrinho quando ele ainda era criança. A nossa família sofreu demasiadamente, foi um dor sem igual, até hoje sentimos o gosto amargo da saudade. Ao ver a vitória de pessoas que lutam contra esse mal, fiquei imensamente feliz.

Certa vez, John Donne (1572 – 1631), um dos maiores poetas da língua inglesa, escreveu:

“Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”.

Aliás, foi inspirado nesse texto, que Ernest Hemingway, escritor norte-americano, escreveu um dos seus mais famosos romances. Que muitas pessoas possam continuar batendo o sino da vitória. Afinal, a vitória de um é a vitória de todos.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/02/2025 - 03:30h

Quando fevereiro chegar

Por Odemirton Filho

Ilustração

Ilustração

Um dia desses um amigo me disse: “rapaz, quando você escreve sobre Tibau das antigas, me dá uma vontade danada de chorar”. Eu respondi que um dos meus objetivos era escrever sobre coisas que nos faziam bem, como lembranças, saudades e sentimentos.

Aliás, lembro-me dos ensinamentos do saudoso Inácio Augusto de Almeida que me dizia: “escreva com sentimentos, tente passar emoção ao leitor”. No mesmo pensar, o dileto editor deste Blog gosta de ressaltar que a leitura aos domingos deve ser leve.

E é o que tento fazer quando resgato do baú da memória lembranças de Mossoró e Tibau. Não com melancolia, mas com o propósito de fazer com que o leitor navegue por tempos idos.

Noutro dia, num supermercado, outro amigo me falou: “gosto de ler suas crônicas, pois remetem aos bons tempos”. E me contou histórias de tempos passados, as quais algumas também vivenciei; qualquer domingo desses, eu compartilho com o leitor.

Confesso que fiquei feliz, uma vez que já bastam os problemas cotidianos, as notícias sobre corrupção, o radicalismo político-partidário e a toxicidade das redes sociais. É claro que precisamos enfrentar a vida com pragmatismo, vivendo o presente, não do passado, nem no futuro. Contudo, aqui ou acolá, uma pitada de boas lembranças faz um bem danado.

Como sabemos, “todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação”. Assim, continuemos nessa jornada de encontros e despedidas, afinal, não sabemos quando será o último adeus.

Certa vez, o cronista Fernando Sabino escreveu sobre o tempo pretérito. Segundo ele, um tempo em que as areias das praias eram mais claras. Em que as letras impressas eram maiores. Em que as ladeiras eram mais suaves. Em que as distâncias eram mais curtas. Em que os dias eram mais longos. Em que o amor era mais puro. Em que a mocidade era eterna”.

É a mais cristalina verdade. Quando estamos na flor da idade, a vida parece ser eterna, apesar do entardecer dos nossos dias chegar tão depressa.

E fevereiro chegou.

Vamos à luta, já que “saudade já não mata a gente”. Nessa breve caminhada pela vida, “a gente ri, a gente chora…

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 26/01/2025 - 05:30h

Entre céu e mar

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa da Meta AI do BCS

Arte ilustrativa da Meta AI do BCS

Amyr Klink é um navegador brasileiro e escritor. Foi pioneiro na travessia, a remo, do Atlântico Sul, em 1984. No livro que narra a sua saga (Cem dias entre céu e mar), Amyr mostrou-se resiliente para alcançar os seus objetivos. Enfrentando mares revoltos, sozinho dia e noite, com a companhia de baleias e tubarões, ele soube vencer os desafios.

“Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer”.

Querer. Talvez, seja a palavra-chave. O desejo de vencer um obstáculo, a força motriz que nos faz alçar voos. Muitas vezes, ficamos amuados, desiludidos com os problemas da vida. E são muitos. Quem não pensou em “chutar o balde”? Às vezes, parece que nada dá certo.

Entretanto, é preciso paciência. Persistência. Querer. Conheço muitas pessoas que reclamam da vida. Porém, nada fazem para sair do lugar que se encontram. Não há vitória sem luta, como dizem por aí.

Vou dar um exemplo: tive muitos alunos e alunas que sonhavam em ser aprovados em um concurso público. Contudo, quando não conseguiam ser aprovados na segunda ou terceira tentativa, desistiam. Faltou o querer. Concurso se faz até ser aprovado, não importa quantas vezes, se realmente é isso que se quer. Essa persistência serve para tudo que se almeja na vida.

E mais: quantos empreendedores não fracassaram? Aqui em nossa cidade, empresários já foram à bancarrota, mas conseguiram se reerguer. Somos forjados na labuta diária, no sol a pino que aquece nossa cabeça e alma.

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”; “o brasileiro não desiste nunca”. Mais do que frases de efeito, são verdades. O brasileiro enfrenta uma luta renhida para sobreviver, sobretudo num país marcado pela desigualdade social e corrupção.

E assim, solitário no meio do oceano, por vezes sentindo um frio de rachar, Amyr Klink pensava no percurso a ser vencido; nas inúmeras remadas para concluir o trajeto. Todavia, continuou descortinando o horizonte à sua frente.

“O horizonte, linha perfeita e segura, fronteira do destino que se renova eternamente e que abriga nossos objetivos, passou a ser meu ponto de apoio e companheiro de viagem”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/01/2025 - 01:00h

Onde está a felicidade?

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos da Inteligência Artificial do BCS

Arte ilustrativa com recursos da Inteligência Artificial do BCS

O homem sempre procurou a felicidade. Não é de hoje que a buscamos. Entretanto, a felicidade é algo intrínseco, que diz respeito a cada um. O que pode se constituir felicidade para uma pessoa, pode não ser para outra.

Na história da filosofia, encontramos conceitos diversos sobre o tema. Segundo o filósofo Tales de Mileto, é feliz quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada. Já Demócrito de Abdera, dizia que a felicidade era a medida do prazer e a proporção da vida.

Por outro lado, o filósofo Sócrates afirmava que a felicidade era o bem da alma, só podendo ser alcançada por meio de uma conduta virtuosa e justa. Antístenes, discípulo de Sócrates, dizia que o homem feliz é o homem autossuficiente.

Para o filósofo Platão a função da alma é ser virtuosa e justa, assim, praticando a justiça e a virtude o homem seria feliz. De forma mais prática, Aristóteles afirmava que para ser feliz é fundamental ao homem ter uma boa saúde, liberdade e uma boa situação socioeconômica. Para a filosofia cristã, tendo como uns dos pilares Santo Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, mais do que a felicidade o que conta é a salvação da alma.

Em sua obra, Crítica da razão prática, Immanuel Kant definiu a felicidade como a condição do ser racional no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com o seu desejo e vontade.

Desse modo, podemos observar que a felicidade é definida sob vários ângulos filosóficos. Cada pensador tem o seu modo de vê-la. Com certeza, cada um sente a felicidade de forma diferente. Há quem encontre felicidade somente no que o dinheiro pode proporcionar.

Porém, há quem sinta felicidade nas coisas simples da vida, estando ao lado da família, dos amigos ou mesmo sozinho. Para milhões de pessoas a felicidade é encontrada no direito de ter um emprego, em se alimentar diariamente e ter um teto para se abrigar, ou seja, viver com o mínimo de dignidade. Além disso, é bom não esquecer: inexiste felicidade ou riqueza maior do que a saúde e o sossego.

Onde está a felicidade? Cada um deve procurá-la. Ao encontrá-la, vivê-la intensamente, pois a felicidade é algo subjetivo, um estado de espírito, vivenciada em alguns momentos das nossas vidas.

Parafraseando uma canção de Seu Jorge, a felicidade pode ser encontrada, por exemplo, num fim de semana, curtindo uma praia bacana, com um pôr do sol de arrasar.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 05/01/2025 - 08:48h

O prazer de escrever

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa da Inteligência Artificial do BCS

Arte ilustrativa da Inteligência Artificial do BCS

O cronista, por vezes, ressente-se da falta de assunto. Aliás, a maioria já escreveu sobre esse vazio de ideias. Às vezes, sentamos diante da tela do computador e não conseguimos extrair algo para ser dito. Ficamos a matutar. E nada.

Olhamos para um lado, para o outro. Tomamos um gole de café. Olhamos pela janela, e a danada da inspiração não vem. Pensamos até em não enviar texto algum para ser publicado.

Entretanto, temos uma necessidade. Algo que nos impele, força-nos a escrever algumas linhas, e terminamos por fazer. Por obrigação? Não, não, por prazer.

Escrever nos deixa leves. Colocamos a nossa alma nos textos. Deixamos registrados em palavras os nossos sentimentos, o nosso coração, angústias, sonhos, alegrias e tristezas. Como sabemos, entra ano, e sai ano, e a vida se repete.

Por isso, é preciso oxigenar a vida, fazer valer a pena os nossos dias neste plano terrestre. Fazer o que se gosta, amar e ser amado, viver ao lado daquelas pessoas que nos fazem bem.

Como é bom cultivar o que é prazeroso. Assim, eu escrevo sem qualquer pretensão de reconhecimento literário. Sei das minhas limitações. A minha paga é simplesmente o prazer de escrever, de compartilhar um pouco de mim.

As reminiscências que, vez ou outra, trago a este espaço são um deleite para a alma, pois alegram o nosso cotidiano. Lembrar o que nos fez bem é tão bom.

Assim, escrevo este pequeno texto para me manter fiel ao que me dá prazer; livre, como se estivesse em pleno voo.

Tentarei escrever por mais um ano neste espaço plural, repleto de boa gente. Continuarei a oferecer um pouco de mim; o leitor, a sua agradável companhia.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/12/2024 - 11:42h

Esperança

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de Inteligência Artificial do BCS

Arte ilustrativa com uso de Inteligência Artificial do BCS

Os primeiros versos de um poema de Mario Quintana dizem assim: “lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano vive uma louca chamada Esperança”…

Terminamos mais um ano. Aos trancos e barrancos? Talvez. Mas terminamos. Começaremos uma nova jornada. Jornada de lutas, alegrias e tristezas. A vida é essa eterna batalha, e precisamos estar preparados.

O que nos espera? Sei lá! Só Deus sabe. Contudo, temos que estar firmes e fortes pra o que der e vier. Cada um tem os seus problemas, suas lutas e objetivos. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Em um mundo tão cheio de guerras, onde se matam milhares de pessoas em razão da irracionalidade e ganância de uns poucos, inocentes padecem. Não é de hoje que o homem se digladia, é de sempre, e sempre será. Sem esquecer da fome, da miséria e das doenças, mundo afora.

No Brasil dividido entre a direita e a esquerda, os problemas e o radicalismo político-ideológico continuarão. As promessas descumpridas, a roubalheira nos quatro cantos do país, o velho compadrio, o toma lá, dá cá, também.

Nas famílias, e todas se parecem, só mudam de endereço, as picuinhas e as desavenças acontecerão. Relacionamentos são difíceis, é da natureza humana. Sentimentos menores, infelizmente, fazem parte da alma do homem.

Entretanto, apesar dos pesares, não devemos desesperançar. A vida é uma mistura de emoções, há bons e maus momentos. Estamos vivos, vivos! E isso é motivo para agradecer. Peçamos a Deus saúde pra enfrentar a vida, peçamos ao bom Deus amor no coração.

Agradeçamos pelo ano de 2024; e esperemos que o ano de 2025 seja um dos melhores de nossas vidas, pois “a sabedoria humana está nessas palavras: esperar e ter esperança”.

Na inspiradora reflexão do cardeal José Tolentino de Mendonça: “a esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pela força da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 22/12/2024 - 12:30h

Ler e refletir

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa do IA do BCS

Arte ilustrativa do IA do BCS

“Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas”.

O texto acima foi escrito por Ruy Barbosa, um dos nossos maiores intelectuais. No mundo contemporâneo, no qual o hábito da leitura vem perdendo espaço, ler se tornou um ato de vanguarda. Atualmente, refletir sobre um determinado texto é de somenos. O prazeroso hábito de ler, muitas vezes é realizado de forma rápida, mera formalidade a ser cumprida.

No mundo virtual, onde estamos vivendo boa parte do nosso tempo, fazemos leituras superficiais, rasas, sem adentrar no âmago do texto ou realizar qualquer esforço interpretativo. Absorvemos o que nos é repassado sem filtrar a mensagem, como se fosse uma verdade irrefutável.

O que lemos nas redes sociais sobre política é algo que beira a irracionalidade. Inventam-se fatos inverídicos somente para achacar o adversário político, muitas vezes, sem qualquer sintonia com a realidade.

As fakes news invadem nossas telas numa velocidade impressionante e, na maioria das vezes, não questionamos o conteúdo, pois é algo que se coaduna com o nosso viés político-partidário. E, o pior, compartilhamos essas mentiras. Achamos natural.

Aliás, um dia desses, conversando com o editor deste Blog, ele me falou de como as pessoas têm preguiça de pensar, de refletir. Repetem o que leem e escutam por aí, sem fazer uma análise acurada. “Pensar dá trabalho”, disse-me o meu dileto editor. E é a mais pura verdade.

De acordo com o escritor Jeferson Tenório, “quando você se torna leitor, viver de maneira harmônica com o mundo é impossível. A impressão é que estamos em constante desacordo com a realidade”.

Portanto, a leitura nos enriquece intelectualmente, alarga o nosso horizonte e vocabulário. Contudo, refletir sobre o que lemos é fundamental, pois nos ajuda a evoluir pessoal e profissionalmente, aguçando o nosso senso crítico.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/12/2024 - 09:54h

Banhos de mar

Por Odemirton Filho 

Foto ilustrativa

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Entre as muitas crônicas que leio existe uma, de Clarice Lispector, que toca a minha alma. Trata-se de um belo texto sobre os banhos de mar nos tempos da infância da poetisa.

Por que gosto de ler e reler essa crônica? Porque desperta inúmeras lembranças adormecidas no meu coração; bate uma saudade danada dos banhos no mar de Tibau, no período de veraneio, quando era menino.

Ao lado da minha mãe, das minhas irmãs, de alguns primos e amigos, sentia-me realizado, numa felicidade que só vendo. Fazíamos castelos de areia, jogávamos bolas, “caçávamos” caranguejos, pegávamos “jacaré”, íamos pra pedra do Ceará, chupávamos picolés d`água do rio, esperávamos as jangadas aportarem à beira-mar com uma ruma de peixes. “Essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro”.

E, claro, tomávamos banho de mar até o pingo da mei dia. “Eu fazia com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até a minha boca, eu bebia diariamente o mar, de tal modo que queria me unir a ele”.

Porque estamos no mês de dezembro, quase janeiro, essas lembranças invadem a minha alma, sonhando com aqueles momentos. “De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa”. Ao amanhecer, tudo de novo, de novo… Era o mês inteiro nessa toada. Por mim, poderia ser o ano. À tarde, era esperar o grude, as tapiocas, o bolo de leite. Depois, ir ao morro do labirinto para brincar.

À noite, no alpendre da casa de meus pais, reuniam-se os parentes pra jogar conversa fora e falar da vida alheia. Então, a criançada ficava planejando o que iria fazer no dia seguinte. Na adolescência, costumávamos ir à praia de tardezinha. Era o tempo das paqueras, dos primeiros porres e das festas. “O cheiro do mar me invadia e me embriagava”.

Porém, o tempo passou. Casei. Vieram os filhos. Com eles, as responsabilidades da vida adulta. O banho de mar ficou em segundo plano. Pedi aos meus filhos que, quando eu morrer, se possível joguem as cinzas no pedaço de mar que mergulhei a minha infância.

Enfim, “era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpido e sem o mar”. O mar de Tibau fazia parte de mim.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

P.S. Esta crônica é dedicada a tia Miriam Oliveira, que partiu para a casa do Pai no último dia 13.

Obrigado pelos momentos vividos em Tibau, nos janeiros da minha infância. Guardo, com carinho, no meu coração.

Vá em paz, tia.

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domingo - 08/12/2024 - 06:38h

Ainda estou aqui

Por Odemirton Filho

À esquerda da foto, os filhos Adiel, Albenice e Ana Maria. À direita, Alba (mãe do cronista), Adna e Adnélia. O mais alto da foto é o filho mais velho, Alcides. No colo da mãe Placinda, Alcivan; no colo do pai Vivaldo, Arnon (Álbum de família)

À esquerda da foto, os filhos Adiel, Albenice e Ana Maria. À direita, Alba (mãe do cronista), Adna e Adnélia. O mais alto da foto é o filho mais velho, Alcides. No colo da mãe Placinda, Alcivan; no colo do pai Vivaldo, Arnon (Álbum de família)

“Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Beyrodt Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, viu-se obrigada a criá-los sozinha quando, em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor e às incertezas, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras”.

“Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou”, escreve Marcelo Rubens Paiva neste relato emocionante sobre o passado, as perdas e a volta por cima. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, ele fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento sombrio da história recente brasileira para contar – e tentar entender- o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971”.

Eis a sinopse do livro, “Ainda estou aqui.” A história baseou o filme, protagonizado pelas atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, e pelo ator Selton Mello.

Ao folhear as páginas do livro, lembranças vieram à tona. Lembrei da história que minha mãe conta, com os olhos marejados, sobre a prisão do meu avô materno, Vivaldo Dantas de Farias. Como ele lutava nas trincheiras em defesa da democracia, foi preso em sua residência, na rua 06 de Janeiro. Os treze filhos ficaram assustados com aqueles homens de coturnos. O suposto crime? Lutar por um estado democrático de Direito.

Daí em diante começava um calvário para a minha avó, Placinda Dutra. Ela teve que ter discernimento para acalmar os filhos, pois eles ficaram com medo de nunca mais terem o pai de volta; teve que tocar, sozinha, a sua fábrica de redes.

Entretanto, ela soube conduzir a situação com fé inabalável. Conta-nos minha mãe que a minha avó escondeu os livros de meu avô em uma carroça, mandando-os para serem enterrados em um terreno distante de sua residência. Livros com ideias comunistas, à época, eram um libelo-crime.

Da mesma forma que a família de Rubens Paiva, a minha também não sabia o local no qual o meu avô estava preso. Foram quarenta e cinco dias de tortura psicológica, uma agonia para familiares e amigos.

Por outro lado, o livro aborda a doença de Alzheimer, a qual acometeu Eunice Paiva no final de sua vida. A minha avó também padeceu da doença nos últimos anos de sua existência. Quem convive com pessoas assim, sabe como é delicado o dia a dia, é preciso muito amor, cuidado e paciência.

Leia tambémÀ memória de Vivaldo Dantas de Farias (2014)

Leia tambémVô Vivaldo (2022)

Triste é ver quem amamos já não reconhecer quem está ao seu ao lado, precisando de ajuda para fazer as simples atividades do cotidiano. As memórias recentes são apagadas, já as antigas são recontadas, recontadas …

Eunice e Placinda sofreram dos mesmos males: a ditadura militar e a doença de Alzheimer.

Entretanto, o meu avô, apesar de machucado no corpo e na alma, voltou para casa. Rubens Paiva, infelizmente, não.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/12/2024 - 14:38h

Metamorfose ambulante

Por Odemirton Filho 

Arte ilustrativa do Mudando de Rota

Arte ilustrativa do Mudando de Rota

Nesses tempos de extremismo e pós-verdade, pensar fora da caixinha tornou-se um ato de rebeldia. É pecado ter uma opinião diversa daquelas que presidem o nosso dia a dia. O maniqueísmo, ou seja, a divisão entre o bem e o mal, é a regra nas discussões nos dias atuais.

Entretanto, ao longo de nossas vidas inúmeras vezes mudamos de opinião acerca de alguém ou sobre algo. Se ontem pensávamos de uma forma, hoje, podemos pensar e entender o mundo de forma diferente, não constituindo, a meu ver, qualquer fraqueza, pois não devemos ter compromisso com o erro ou a mentira. Verdades postas como irrefutáveis podem, e devem ser analisadas. Porém, valores de vida são inegociáveis.

A dialética hegeliana, que se constitui na tese, antítese e síntese deve ser aplicada. Refletir e tirar as nossas conclusões nos torna diferentes, aguçando o nosso senso crítico. Não devemos concordar e aceitar tudo que nos é apresentado como verdade.

No decorrer do tempo, muitas vezes observamos a vida por ângulos diversos. Vemos um horizonte que, às vezes, pode estar nublado, outras, cristalino. Como disse linhas atrás, valores de nossas vidas não podem ser negociados. A ética, à guisa de exemplo, deve pautar as nossas relações, sejam pessoais ou profissionais.

A mudança é salutar, sempre. Mudar, amadurecer, crescer pessoal e profissionalmente deve ser continuamente perseguido. Atualmente, no tocante à política, vivemos no mundo do radicalismo. Somente o que vale é a nossa posição político-ideológica. Não paramos para ouvir a argumentação contrária. Contudo, mudar não é demérito. Aliás, pode ser uma virtude, mesmo porque não somos os donos da verdade (embora alguns acreditem que são).

Nessa toada, de um texto da escritora Martha Medeiros, extrai o seguinte fragmento:

“(…) Você vê um quadro hoje. Vê o quadro de novo daqui a dez anos, o revê daqui a vinte, trinta, quarenta … É o mesmo quadro com a mesma moldura, na mesma parede do mesmo museu, com a mesma luz, é você, mas cada vez será visto de outra forma. Cada vez ele nos conta uma história. O quadro não mudou. Já nós” …

Como diria o Maluco Beleza: “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 24/11/2024 - 04:26h

Deus na escuridão

Por Odemirton Filho

Capa do livro de Valter Hugo Mãe (Reprodução)

Capa do livro de Valter Hugo Mãe (Reprodução)

Estou lendo o livro Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe; um presente do meu amado filho, no dia do meu aniversário. Em resumo, o livro tem como um dos personagens, Felicíssimo, que é um protetor do seu irmão, Pouquinho, o qual nasceu frágil, e precisa da atenção especial. “Felicíssimo, porém, aceita desde o primeiro momento esse compromisso não como um dever, mas como um ato supremo de afeição”. De antemão, advirto que não se trata de uma resenha sobre o livro, mas de uma reflexão sobre o título da obra.

Pois bem. Quantas vezes estamos com um vazio na alma? Precisando de uma ajuda, de uma mão amiga, de um abraço apertado? Quantas vezes, no decorrer de nossa existência, atravessamos mares revoltos? Quantas vezes não estamos vivendo na escuridão?

É nesse momento, no qual estamos cegos pela escuridão, que precisamos encontrar uma fresta, um farol para iluminar as nossas vidas. E aí, quem professa alguma fé, procura nas palavras e nos ensinamentos de Deus um bálsamo para seus sofrimentos, um lenitivo para a alma.

Cada um tem, ou não, o seu Deus, algo superior no qual acredita, o metafísico. É uma questão de fé, do subjetivismo de cada um de nós. O fato é que quando estamos na escuridão é imprescindível procurar o caminho da luz, seja mergulhando em nossas orações, em íntima comunhão com o divino, seja buscando em alguém um gesto concreto de amor. Com efeito, atitudes valem mais do que mil palavras. Muito embora, vale dizer, uma palavra reconfortante pode, em um dado momento, ser determinante pra mudar o nosso rumo.

“Deus é luz; nele não há treva alguma”. Quão bom é o Senhor que, no obscuro de nossa alma, concede-nos a luz, a clarear os nossos pensamentos e caminhos. Por vezes estamos angustiados em razão de problemas de saúde, dificuldades financeiras, com problemas diversos. No mundo de hoje, quantas mães não choram por seus filhos estarem no mundo das drogas? Quantos jovens não estão a perder as suas vidas, vítimas de homicídio e acidentes?

Nas belas palavras de Valter Hugo Mãe:

– “Deus espera na escuridão. Deus assume suas dores, mas quer apenas entregar alegrias. Quando encontrado, Deus apenas promete alegria. Tudo o mais é falso. Desdém de quem não quis voltar a casa. De quem se perdeu e envergonhou.”

Sim, sempre haverá Deus na escuridão de nossas vidas.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 17/11/2024 - 08:28h

Antes que o café esfrie

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

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O romance do escritor japonês Toshikazu Kawaguchi, que tem o título desta crônica, narra a história de um estabelecimento que serve um café especial. No local, os frequentadores têm a oportunidade de fazer uma viagem no tempo, reencontrando pessoas que também já estiveram no lugar. Porém, o encontro é breve, somente o tempo de o café esfriar.

Imagine o leitor se realmente tivéssemos essa oportunidade singular. Como seria abrasador para o coração reencontrar pessoas que se foram, deixando um vazio enorme no nosso peito. Sentar à mesa com aquela pessoal especial para reviver bons momentos ou, quem sabe, viver um pouquinho o que deixamos de aproveitar. Quantos momentos em nossas vidas não deixamos passar e, depois, nos arrependemos. Na correria do dia a dia, perdemos doces momentos.

Creio que cada um de nós gostaria de reencontrar alguém, um instante que fosse. Conversar, abraçar, sorrir, amar. Seria a oportunidade de dizer palavras não ditas, carregadas de sentimentos, compartilhando carinhos. O café, assim como o amor, deve ser servido quente, dizem por aí.

Decerto, há pessoas que passam por nossas vidas tão rapidamente que deixamos escapar instantes mágicos. Falta-nos priorizar pessoas que nos são queridas. Tudo deixamos para mais adiante. Mas, é de se perguntar: você tem certeza do porvir? Tá esperando o quê?

Quem não gostaria de rever a mãe, o pai, os avós? Certamente muitos de nós. Quem não gostaria de rever alguém que foi especial em nossas vidas? As saudades são muitas, não podemos mensurar.

Eu, particularmente, gostaria de sentar à mesa com o meu amado sobrinho, que tão cedo partiu, deixando-nos com o gosto amargo da saudade. Gostaria de rever meu vô materno, e conversar novamente com ele, aprendendo um pouco mais sobre a vida. Gostaria de prosear com um querido amigo da infância e juventude, não pra tomar um café, mas pra tomar aquela cerveja que ficou gelando, lá na casa dos meus pais, em Tibau.

Se tivesse essa oportunidade, antes mesmo que o café esfriasse, eu aproveitaria para dizer-lhes que fazem uma falta danada; são uma saudade constante.

Um dia, creio piamente, hei de reencontrá-los.

E você, se fosse possível viajar no tempo, quem gostaria de encontrar?

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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