Por Marcos Ferreira
Embora modesto, financeira e intelectualmente, digo de mim para comigo que sou um tipo afortunado, que vivo uma condição invejável por parte de outros indivíduos que se encontram abaixo da minha condição econômica. Acho que é isso. Quem olha de fora, quem põe uma lupa sobre meu minúsculo poder aquisitivo, talvez tenha até a impressão de que sou infeliz. É claro que às vezes, aqui recolhido com os meus botões, reflito um pouco e também me sinto menos que medíocre.
Mas, considerando minhas origens e uma malsegura trajetória de subempregos, além da falta de um diploma de nível superior, sinto que estou no lucro. Talvez eu não tenha me tornado um elemento de fato remediado, sem me preocupar com os algarismos que me cobram as companhias de água e de luz, entretanto hoje em dia levo uma existência sem grandes transtornos monetários. Passei por muitos perrengues, enfrentei tempos bicudos num passado não tão distante.
Primogênito de uma prole de onze filhos, comi o pão que o diabo amassou e vi dois irmãos pequenos morrerem de diarreia e desnutrição. Por pouco não fui parar na sarjeta, como tantos por aí. Minha salvação foi que um dia, após doze anos de completo analfabetismo, topei com a Língua Portuguesa, e esta me disse assim: “Vem! Sou tua tábua de salvação”.
Foi mais ou menos desse jeito. O nosso idioma, ao contrário da matemática e das outras ciências exatas, tornou-se o meu bote salva-vidas; um amor à primeira vista. Agarrei-me com o alfabeto e nunca mais o larguei. Aquela infância miserável e a adolescência constrangedora foram se desprendendo de mim lentamente. Aprender a ler e a escrever naqueles começos de minha educação formal foi o maior alumbramento do meu mundo. Não é a primeira vez que digo isso, porém repito.
Minha permanência em sala de aula foi curta; eu era então um sapateiro ganhando meio salário mínimo naqueles primeiros anos de fábrica de calçados Mossoró, mas nunca abandonei os livros: entenda-se a literatura. Li (outra vez repito) com uma fome ancestral. Sempre me faltaram alguns tostões, no entanto os livros de grandes autores pareciam destinados a chegarem às minhas mãos. Começar a escrever foi uma consequência. Hoje não mais, minha memória sofreu grande atrofia depois que entrei em colapso psiquiátrico, contudo naquela época de pouca comida e muita leitura eu sabia de cor e salteado uma variedade admirável de poesia. Crônicas e contos de menor tamanho (permitam a imodéstia) eu lia e relia até conseguir memorizá-los.
Por que, então, hoje estou batendo nesta tecla de autoanálise e vanglória? Faço isso para recordar a mim mesmo que não sou de todo uma criatura falhada na vida. Trilhando caminhos tortuosos, caindo e levantando aqui e acolá, cheguei ao nível social onde agora me encontro. Pois volta e meia é preciso a gente relembrar as nossas origens (especialmente quem saiu do útero da miséria e sabe o que é passar fome) para conseguir valorizar o que conquistamos, apesar dos pesares.
Este breve relato não é direcionado a você. Esta é tão somente uma reflexão que destino à minha própria pessoa. Tais palavras não têm outro endereço senão este cronista dominical. Para não me esquecer de quem sou.
Marcos Ferreira é escritor
























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