domingo - 05/07/2026 - 12:10h
Conversando com... Tabata Tesser

A batalha pelos católicos é fundamental na corrida presidencial

Por Giullia Chechia do Canal Meio para o BCS

"Existe aproximação entre mulheres católicas conservadoras e lideranças evangélicas", diz Tesser (Foto: Instagram)

“Existe aproximação entre mulheres católicas conservadoras e lideranças evangélicas”, diz Tesser (Foto: Instagram)

Cem milhões. É esse o tamanho da população católica no Brasil. Os dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE, mostram que 100,2 milhões de brasileiros se declaram com essa escolha religiosa. Embora representem a menor proporção da população desde 1987, eles seguem formando o maior grupo religioso do país e, às vésperas da eleição de 2026, uma das fatias mais cobiçadas do eleitorado. A pesquisa AtlasIntel divulgada nesta semana ajuda a explicar por quê: neste segmento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 48,3% das intenções de voto, contra 37,9% do pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL).

Nos últimos meses, os dois partidos intensificaram os gestos em direção a esses eleitores. Os percentuais revelam uma disputa. Não explicam, porém, sua complexidade. No catolicismo, a política segue outra lógica. Entre a memória da Teologia da Libertação, o avanço de um conservadorismo católico, o surgimento de influenciadores religiosos e até os reflexos da disputa entre Donald Trump e o papa Leão XIV, a Igreja vive uma reorganização que ajuda a explicar por que esse segmento se tornou um dos mais estratégicos da corrida presidencial. Foi esse cenário que Tabata Tesser, socióloga da religião da USP, desenhou em entrevista ao Meio. Confira os principais trechos da conversa.

A última pesquisa Atlas mediu como os católicos pretendem votar nesse ciclo eleitoral. Lula marca 48,3% contra 37,9% de Flávio. O que isso indica?

Para responder, vale olhar para o passado dos católicos nas eleições. Isso ajuda a entender por que se fala tanto que a tríade mais complexa para Flávio Bolsonaro nessas eleições é formada pelas mulheres, pelo voto nordestino e pelos católicos. A disputa pelo eleitorado católico não começou em 2026. O catolicismo sempre teve presença política, tanto no campo conservador quanto no campo popular, desde as Comunidades Eclesiais de Base, a Teologia da Libertação e as pastorais sociais até os setores mais tradicionais e carismáticos. No governo Bolsonaro, houve uma participação expressiva de católicos. Muito se fala do papel da Damares Alves no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, mas quem ocupava a Secretaria da Família era a jurista Angela Gandra, uma católica. A família Gandra ajuda a entender essa tentativa de aproximar o catolicismo de uma ala mais bolsonarista. Ainda assim, é muito mais complexo dizer que existe um bloco propriamente católico bolsonarista. Podemos citar lideranças como Simone Marchetto, Eros Biondini e a aproximação de Flávio com o padre Reginaldo Manzotti como ativos importantes. Mas isso é diferente de afirmar que exista uma base eleitoral católica consolidada em torno do bolsonarismo.

Como Lula e Flávio Bolsonaro estão tentando disputar esse mesmo eleitorado?

O PT tem uma relação histórica com o catolicismo popular. O partido nasce no contexto das Comunidades Eclesiais de Base, da Pastoral Operária, da Comissão Pastoral da Terra e da Teologia da Libertação. Talvez a grande questão seja que não só esse PT não existe mais como também esse catolicismo perdeu muita força. O que vemos hoje é uma tentativa do partido de dialogar novamente com esse campo e recuperar uma memória afetiva dessa relação. Já Flávio Bolsonaro está fazendo com os católicos algo parecido com o que a esquerda tentou fazer com os evangélicos nas eleições de 2018 e 2022: uma aproximação com lideranças e símbolos religiosos. O encontro com o padre Manzotti, a visita ao Vaticano e o pedido para que o papa rezasse pelo Brasil fazem parte dessa estratégia. Ao mesmo tempo, há uma diferença importante em relação ao mundo evangélico. Pouco depois de receber Flávio, o padre Manzotti também recebeu o ex-ministro do Lula, Camilo Santana. Isso mostra como o catolicismo institucional costuma manter canais de diálogo com diferentes campos políticos.

O que mais tem sido feito?

Os acenos de Flávio mostram que ele reconhece a dificuldade de ampliar sua votação entre os católicos. Se observarmos as duas últimas propagandas do PL, há uma tentativa de incorporar uma gramática muito próxima das campanhas da própria Igreja Católica, falando de desigualdade, recuperação social e da imagem dos pobres. Do lado do PT, também houve uma articulação recente. O 13º Encontro Nacional da Pastoral de Fé e Política foi seguido pela Carta dos Católicos e Católicas do PT, que apoia a reeleição, defende o Estado laico, mas evita temas como direitos sexuais e reprodutivos. Isso revela uma escolha deliberada de dialogar com um segmento do eleitorado que pode estar mais próximo do bolsonarismo. Por isso, eu diria que Flávio está tentando fazer com os católicos aquilo que a esquerda tentou fazer com os evangélicos nas eleições anteriores: disputar um eleitorado que nunca foi homogêneo e continua sendo decisivo.

Mas a Igreja Católica participa dessa disputa de forma diferente das igrejas evangélicas?

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é uma instituição bastante plural. A CNBB tem uma posição histórica de não indicar candidatos. O que ela faz é divulgar cartas aos seus fiéis, estabelecendo diretrizes para o pleito. A gente poderia dizer que a CNBB não faz campanha para candidato, mas faz política no sentido forte do termo, porque oferece espaços de diálogo para que essas conversas possam acontecer. O que está em jogo nessa disputa é o próprio significado público do catolicismo. A Igreja Católica vive um momento de pós-Francisco, dialogando com temas como Amazônia, defesa da Casa Comum, moradia e combate à desigualdade. Ao mesmo tempo, os documentos da CNBB reafirmam a defesa da vida desde a concepção e uma posição contrária ao aborto. Então, ao mesmo tempo em que a Igreja orienta os fiéis a votarem contra a desinformação e a compra de votos, ela também dialoga com pautas morais que aproximam parte desse eleitorado do bolsonarismo. É por isso que esse eleitorado é tão complexo.

A carta do PT critica a politização nas igrejas, algo que estamos acostumados a ver em igrejas evangélicas. Como isso tem atravessado a Igreja Católica nos últimos anos?

Olha, eu diria que a própria CNBB também está preocupada em não ser associada nem ao PT nem ao PL. Dou dois exemplos. Depois do Encontro Nacional da CNBB, o presidente Lula gravou uma mensagem que foi publicada nas redes sociais da Conferência. O vídeo acabou sendo retirado da página após a pressão nos comentários. Outro caso é o do frei Gilson. Ele se tornou um fenômeno de popularidade, recebeu o Nikolas Ferreira e passou a ser associado a um público bolsonarista. A CNBB o chamou para conversar, ele retirou alguns vídeos e, nos últimos meses, adotou uma postura bem mais cautelosa. Há ainda o caso do padre Júlio Lancellotti, que também enfrenta críticas e restrições justamente por ser identificado com a esquerda.

De que maneira a Igreja faz política, então?

A CNBB nunca disse que os católicos não devem participar da política. A compreensão dela sobre participação política não passa necessariamente pela participação partidária. Historicamente, as pastorais sociais, os movimentos populares e os grupos de fé e política sempre incentivaram a presença dos católicos no espaço público. É uma lógica diferente daquela dos grandes congressos evangélicos marcadamente partidários. Talvez a melhor forma de olhar para o eleitorado católico seja entender que ele nunca votou como um bloco homogêneo. Justamente por ser o maior grupo religioso do país, reúne perfis sociais, econômicos e ideológicos muito diferentes.

Mas dá para dizer que há mais afinidade com algum candidato?

Hoje, Lula continua mais forte entre os católicos, enquanto Flávio Bolsonaro lidera entre os evangélicos. Mas eu acho que existe outra questão importante. O papel das outras candidaturas. Existe um eleitorado católico que se incomoda com o bolsonarismo por causa da pauta armamentista, da linguagem bélica e de temas ligados aos direitos humanos. Ao mesmo tempo, também há católicos que fazem críticas ao PT, especialmente em relação à corrupção. Então, talvez a disputa entre os católicos não seja apenas entre Lula e Flávio Bolsonaro. Pode haver espaço para uma dispersão desse eleitorado entre outros candidatos, como Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado.

Qual delas conversaria bem com esse eleitorado?

Existe uma franja importante do conservadorismo católico muito ligada ao campo do MBL. Apesar de o Renan Santos ter todo cuidado com o eleitorado evangélico, existe uma massa crítica desse bolsonarismo conservador católico que poderia migrar para ele. E aí entram também fatores conjunturais, como o caso Master. Outro ponto importante é o papel do Zema. Existe aquela piada no contexto eleitoral de que quem ganha em Minas Gerais ganha a Presidência. E tem pesquisadores acompanhando a trajetória de lideranças como o Nikolas Ferreira, que, apesar de ser evangélico, vem fazendo acenos importantes ao campo católico. É preciso entender esses movimentos nos estados. O peso do catolicismo é muito importante no Nordeste. Essa vaga de vice de Flávio Bolsonaro — ele já acenou para Clarissa Tércio ou com Simone Marchetto — é uma tentativa de suprir aqueles três pontos em que ele tem mais dificuldade: mulheres, Nordeste e católicos.

Bolsonaro conseguiu construir uma base evangélica forte, mas se elegeu sendo católico. Por que não conseguiu construir uma base católica do bolsonarismo?

Lembro de um estudo muito interessante do professor Ronaldo de Almeida que cita a participação de católicos no governo Bolsonaro. Alguns grupos da Igreja Católica, apesar de estarem em comunhão com a Igreja, têm posições bastante autoritárias e participaram de espaços públicos naquele governo. É o caso dos Arautos do Evangelho e também do Centro Dom Bosco, que esteve ligado por muitos anos à deputada Chris Tonietto, no Rio. Então, existem tentativas de organizar um campo católico bolsonarista. Mas o catolicismo, diferentemente do universo evangélico, é uma religião hierarquizada, submetida a uma estrutura que passa pela paróquia, diocese, arquidiocese e chega à CNBB. Isso torna a atuação política muito mais difusa. Ao mesmo tempo, é importante dizer: a Igreja Católica não tem candidatos, mas há católicos candidatos, com força eleitoral e representando grupos bastante expressivos dentro da Igreja. A própria Chris Tonietto dialoga com um setor ultratradicionalista. Eros Biondini representa um segmento importante da Renovação Carismática. Já Chico Alencar conversa com o campo da Teologia da Libertação. Ou seja, os segmentos católicos têm seus candidatos, mas a Igreja, institucionalmente, não tem.

Então, a diferença é que o catolicismo distribui essas lideranças em vários campos, em vez de concentrá-las em um projeto político?

Acho que isso dificulta justamente a construção de uma estrutura político-partidária como a que existe entre os evangélicos. Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja incentivou os leigos a se organizarem na sociedade civil e atuarem no espaço público. Foi daí que surgiram muitas pastorais sociais. Hoje, porém, vemos também um catolicismo paralelo crescendo. Há padres influenciadores, editoras, associações e grupos conservadores que não estão vinculados diretamente às estruturas oficiais da Igreja, mas que ganharam relevância pública e eleitoral. Essas lideranças acabam dialogando com candidatos, mesmo sem representar oficialmente a Igreja. O caso de Bolsonaro em Aparecida ilustra bem essa diferença. Ele foi recebido, mas também foi vaiado. Tem também um outro ponto interessante: a naturalização da presença do catolicismo no Estado. A gente olha muito para o crescimento político dos evangélicos porque ele é mais visível, mas isso acaba escondendo que os católicos sempre ocuparam espaços importantes.

Quais espaços?

Nós fizemos uma pesquisa no Judiciário, com o Instituto de Estudos da Religião (ISER), e identificamos que, enquanto vemos uma presença muito explícita dos evangélicos no Parlamento, existe um ativismo muito mais discreto dos católicos no Judiciário. Isso não significa que eles não atuem politicamente. Significa apenas que ocupam espaços diferentes. O fato de o Judiciário exigir muitos recursos, de o catolicismo ter forte presença no Ensino Superior e, historicamente, entre as elites, ajuda a explicar esse perfil e a naturalização dos católicos nos espaços de poder. O próprio Lula é um exemplo disso. Ele governou o país por dois mandatos e o fato de ser católico nunca foi tratado como um ativo eleitoral. Agora vemos um reavivamento dos Católicos do PT. Isso mostra que a religião passou a ser um valor mais explícito na disputa política.

Tabata Tesser é socióloga da religião da USP (Foto: redes sociais)

Tabata Tesser é socióloga da religião da USP (Foto: redes sociais)

O que mudou na relação entre PT e católicos?

Acho que a Igreja Católica e o PT vivem, de certa forma, um sintoma parecido. São instituições que tentam dialogar com um Brasil que ainda existe, mas que já mudou muito. Ao mesmo tempo, isso não significa que os católicos tenham deixado de participar da política. Recuperei os dados do ato em defesa dos envolvidos no 8 de Janeiro, na Avenida Paulista. O Monitor do Debate Político da USP identificou que a maioria dos participantes era católica. Embora o carro de som e a organização fossem marcadamente bolsonaristas e evangélicos, a base presente era majoritariamente católica. Isso mostra uma diferença importante: enquanto os evangélicos aparecem mais na mídia e no Parlamento, construindo uma identidade fortemente associada ao bolsonarismo, os católicos também participam desses espaços, mas de maneira menos visível, talvez porque historicamente já ocupem instituições do Estado.

O que mais há de novidade nessa atuação?

A aproximação entre mulheres católicas conservadoras e lideranças evangélicas. Hoje existe um contingente importante de católicas participando de espaços organizados por mulheres evangélicas conservadoras. Isso me parece um fenômeno relativamente novo. Por exemplo, a deputada Ana Campagnolo é evangélica e convida para seus cursos e livros antifeministas católicas como Pietra Bertolazzi, Patrícia Silva e Gabriela Saboia. A partir das pautas conservadoras, Ana também consegue mobilizar os dois públicos: católicas e evangélicas. Ao mesmo tempo, continuam existindo espaços próprios de organização do conservadorismo católico. O recente caso da excomunhão da Fraternidade São Pio X mostra que esse campo continua muito ativo e que essas tensões não acontecem apenas no Brasil.

E como o cenário internacional também influencia essa disputa?

A candidatura do Flávio Bolsonaro está muito associada ao governo Trump, e os conflitos recentes entre Donald Trump e o papa Leão XIV podem produzir efeitos também entre os católicos brasileiros. Isso ficou evidente porque lideranças conservadoras que normalmente apoiam Trump, como Eros Biondini e o padre Paulo Ricardo, fizeram críticas quando os ataques passaram a atingir diretamente o papa. Em outros temas internacionais houve silêncio, mas, quando o conflito envolveu a liderança da Igreja, houve reação. Nos EUA, existe um setor católico importante dentro do movimento MAGA. Só que, depois desses conflitos com o papa, já começam a aparecer sinais de dispersão desse campo. Não por acaso, o vice-presidente J.D. Vance, que se converteu ao catolicismo, lançou um livro narrando sua conversão e tem feito acenos explícitos a esse eleitorado.

A carta dos Católicos do PT defende o Estado laico, algo que não apareceu na carta dos evangélicos. Por quê?

Acho que fica muito mais fácil para os católicos defenderem o Estado laico porque eles já ocuparam historicamente diversas esferas do Estado. Não existe contradição entre ser religioso e defender o Estado laico. Mas, institucionalmente, faz diferença já ter experimentado esse lugar. A pergunta mais importante é: o que significa, na prática, um Estado laico? Porque, muitas vezes, ele aparece como um consenso, mas raramente se explica como se efetiva.

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