Por Marcos Ferreira
Vejo-me às portas do tempo, mas ainda não estou pronto para partir. Um tempo que me lançou no mundo e agora reclama a minha volta às suas profundezas milenares e insondáveis. Antes, porém, me deixem compor uma canção. Uma melodia e letra que eternizem minha passagem por este planeta caótico, por entre esta humanidade autodestrutiva. Quero uma canção para ninar a alma empedernida dos homens duros, tipos de corações também de pedra. Não é possível que sejamos aniquilados por nossas próprias mãos, por atos deletérios e irresponsáveis. Vejo que nos comportamos pior que qualquer espécie que exista ou já tenha existido nesta bola azul fantástica.
Os dinossauros não fizeram nenhum mal a este planeta, entretanto hipotéticos designíos do universo os extinguiu. Com que direito massacramos nosso próprio habitat? É muita leviandade! Estou às portas do tempo, sem muito tempo para muita coisa. Mas desejo me despedir com uma canção terna, que seja leve e não menos firme.
Por que impedir que os pássaros continuem a voar e a cantar? O que temos contra o cântico dessas adoráveis criaturas aladas? Lamento dizer que nos tornamos predadores da poesia, que existe e que resiste sob nossas garras de adamantium. Por que negar as flores às borboletas? O jardim é primordialmente propriedade delas. É preciso admitir, reconhecer que estamos destruindo nosso jardim ancestral. O tempo, posso sentir, cobra meu regresso. Armou uma emboscada para mim.
Quero produzir uma canção que tenha a especial capacidade de me oferecer um sono reparador. Não esse tipo de sono que atualmente me chega entremeado de pesadelos. O tempo me quer de volta, preciso repetir. Todavia não estou pronto, acaso eu possa escolher outro momento. É isso, não fiz a música que me tornará imortal após a minha partida. Preciso de inspiração.
Necessito conciliar a melodia mais encantadora com uma letra que possa apaziguar, amainar as almas que ocupam este plano existencial. Anseio uma canção que assegure às árvores o direito à vida, que o Homem não tenha mais desculpa para ceifá-las. Planejo compor uma melodia assim, uma canção para cessar as absurdidades que resultam em guerras abomináveis.
É isto, o tempo me ronda e não é de hoje. Haverá de esperar mais um pouco, isto porque ainda não estou com os meus papéis em ordem. Possuo livros inéditos, obras que precisam se tornar públicas. Além disso, se me for permitido, existe essa canção que espero brotar cheia de superpoderes, de força excepcional para tocar os corações duros de tantos indivíduos que talvez nem tenham coração. O tempo há de me conceder um pouco mais de tempo, de modo que eu possa trazer à luz esta canção para ninar gente grande, reduzir tanta iniquidade sobre a face da Terra.
Marcos Ferreira é escritor
























Faça um Comentário