Por Eriberto Monteiro
Semana passada eu publiquei uma crônica afetiva que trouxe ao cenário o porteiro do Cine Pax, Raimundo Nonato Albuquerque, carinhosamente conhecido como “Balão” (veja AQUI). Dessa vez, quero transportar-me em mais uma crônica afetiva ao interior do saudoso Cine Pax, um dos mais importantes espaços de entretenimento e convivência social da história de Mossoró por muito tempo.
Inaugurado em 23 de janeiro de 1943, com capacidade para aproximadamente 1.200 espectadores, o Pax marcou gerações de mossoroenses até encerrar definitivamente suas atividades, em janeiro de 2008, após 65 anos de existência. Criado por Jorge Pinto (empresário e ex-prefeito de Mossoró), o seu projeto arquitetônico é atribuído ao arquiteto francês George Lumier.
Para termos uma ideia da grandiosidade desse empreendimento, basta compará-lo ao Teatro Municipal Dix-huit Rosado, inaugurado em 2004, com capacidade para pouco mais de 700 espectadores. Ou seja, mais de seis décadas antes, Mossoró já possuía um cine-teatro capaz de acomodar um público consideravelmente bem maior que os atuais em casa de entretenimento.
Mas, para quem viveu aqueles tempos, o Pax representava muito mais do que números, cadeiras e uma enorme tela de projeção. Era um verdadeiro templo da sétima arte, onde a imaginação ganhava asas e cada sessão proporcionava uma aventura diferente.
Eu guardo lembranças inesquecíveis daquele cinema. Gostava muito de assistir aos filmes, principalmente sentado na primeira fileira, bem próximo ao enorme ventilador que ficava instalado embaixo do palco. O vento era tão intenso que, ao término da sessão, meus olhos estavam ardidos e ressecados. Mesmo assim, aquele era um dos meus lugares preferidos.
Aos domingos, nos tradicionais vesperais dominicais, eu estava lá. O cinema era meu ponto predileto, principalmente quando a programação oferecia sessões duplas ou até triplas. Eram horas de diversão, emoção, suspense e muitas gargalhadas. Mas, nem tudo acontecia conforme o esperado. Havia uma situação que provocava a indignação generalizada da plateia: os famosos “roubos”. Era assim que chamávamos quando alguma coisa dava errado durante a projeção.
Às vezes, a película queimava ou se rompia, obrigando o operador a interromper a sessão para fazer o remendo. Em outras ocasiões, o projecionista não aguardava o encerramento de um rolo e acionava o seguinte antes da hora, fazendo desaparecer cenas inteiras do filme. E aí começava o espetáculo dentro do próprio cinema. Os protestos eram inevitáveis. Gritos de “roubo!”, assobios estridentes, vaias e até chutes nas cadeiras transformavam a sala numa verdadeira algazarra ou campo de guerra.

Cine Pax e Pavilhão Vitória, na Praça Rodolfo Fernandes (Foto: Autoria não identificada/Arquivo do BCS)
Ninguém aceitava perder um pedaço da história, principalmente quando a cena interrompida era justamente uma das mais emocionantes ou picantes.
Passado o tumulto, a projeção recomeçava e tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido, mesmo que a cadeira tivesse quebrada.
Ao final do filme, já do lado de fora, os jovens ficavam imitando socos no ar, chutes e gestos que remetiam ao filme que acabara de assistir.
Outra mania que eu tinha era mastigar os chamados “torreiros de pipoca”. Aqueles grãos de milho que não estouravam durante o preparo. Acredito que vocês conheçam essa “iguaria” por muitos pipoqueiros, descartáveis. Enquanto muitos os desprezavam, eu fazia questão de comprar e passar todo filme mastigando demoradamente. Eram duros como pequenas pedras e certamente não faziam nenhum bem à minha dentição. Mas quem se preocupava com isso naquela idade?
E assim, entre o barulho dos projetores, o vento forte do ventilador, os gritos de “roubo!”, os assobios da plateia, a gritaria e os grãos de milho que mastigava com força, construí algumas das mais bonitas recordações da minha juventude.
Hoje eu posso dizer que o Cine Pax fez parte da minha vida e guardo essas recordações com alegria e ao mesmo tempo tristeza pelo seu fechamento. Mas ele continua vivo na minha memória, pois tive o privilégio de frequentar por longos anos da minha vida.
Sua história se confunde com a própria trajetória cultural de Mossoró, quando ir ao cinema era um acontecimento aguardado com entusiasmo durante toda a semana. E se confunde com a história da minha própria vida.
Obs: A fotografia abaixo não tem autoria identificada, foi gentilmente cedida por Jorge Luiz Mendes Pinto, filho do proprietário do Pax, a quem agradeço pela valiosa contribuição à preservação da memória histórica e afetiva de nossa cidade.
Eriberto Monteiro é escritor, pesquisador e administrador da página do Facebook Mossoró do Passado.

























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