Por Bruno Ernesto
Quem costuma andar pelo sertão sabe que o sol dita muita coisa.
Pegar a estrada cedo proporciona um espetáculo particular, um microclima de curtíssimo tempo – talvez nem uma hora – onde a névoa, o ar pesado e o sol frio enganam o semiárido.
Nesse instante, sequer as águas dos açudes, barreiros e açudecos se atrevem a tremer.
Nem mesmo as palhas do carnaubal, do sorgo, milho ou cana-de-açúcar, que passam apressadas pela janela lateral do carro, se atrevem a ficar no diz-que-diz-que.
Quanto mais você se embrenha no meio da caatinga, parece que o sertão vai lhe dando as boas-vindas, vai contrariando a língua Tupi com um multicolorido de fazer inveja às pinceladas de Vincent van Gogh ou às obras de Andy Warhol.
Não à toa serviu como inspiração para Ayala Gurgel, Assis Marinho, Dorian Gray, Newton Navarro e tantos outros.
Repare que até os cactos parecem estender o braço a lhe cumprimentar, como um velho cão fiel, que ali se fincou aguardando o seu retorno.
O passar do dia, porém, vai fervendo o chão, escondendo os Tejos, rolinhas e o cancão.
Vai cansando o gado, espalhando as cabras e estalando a cumieira antes do oitão acalmar, e faz até parecer que o urubu – estendendo as suas asas e com os pés juntos, como quem reza um Pai Nosso – pede para o sol esfriar novamente, para poder alçar voo em busca das vítimas dos infortúnios do dia.
Ora frio, ora quente, o sertão sempre nos espera sorrindo.
Bruno Ernesto é escritor, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog









































