domingo - 07/12/2025 - 07:30h

Missão cumprida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Como era de se esperar, estou de volta à crônica, esse tipo de escrita ainda marginalizado ou depreciado perante as demais categorias literárias. De um modo geral, e isto não é novidade, o romance, o conto e a poesia têm maior público. Exatamente nesta ordem. Porém, ao que me parece, aqui a crônica possui certa firmeza junto aos seus adeptos e amantes. Pois é, tenho essa impressão. Neste município, e decerto em nosso estado, a produção dos cronistas faz algum sucesso. Conforme declarei, então, estou outra vez na pequena área tentando cavar um pênalti. Quem sabe assim, ao contrário das tentativas anteriores, eu consiga marcar um golzinho.

Publiquei neste blogue, até o domingo passado, ao longo de vinte e sete semanas ininterruptas, um romance denominado “O Efeito Casulo”. Do ponto de vista do ibope, entre outros, foi um grande fiasco. É isso aí. Apenas uns oito ou dez leitores, se não estou sendo otimista demais, acompanharam e emitiram suas impressões a cada capítulo. Eu já esperava pelo desinteresse da maior parte dos leitores. Alguns entendem tanto de romance quanto de engenharia atômica.

Outros, embora familiarizados com o gênero, optaram friamente pelo silêncio e indiferença. Esses (não todos, obviamente) são os que talvez não gostem deste autor e torceram, de modo secreto, que me faltasse fôlego para a empreitada de verter tal obra à maneira de folhetim.

Nada de extraordinário, nada de incomum. A arte, lançando mão de um termo mais abrangente, padece de inanição, de falta de prestígio ou audiência desde o tempo das pinturas, dos hieróglifos e desenhos em paredes de cavernas. O artista, independente da modalidade artística, sempre foi e permanece um animal ameaçado de extinção.

Todavia esse mesmo animal se mostra um tipo de fênix que prossegue renascendo das próprias cinzas, como na história da ave mitológica. Porque o que deveras rende cliques no universo virtual de hoje em dia são duas coisas díspares e insuperáveis: celebridades e tragédias. Sangue ainda vende jornais. Os veículos impressos foram quase todos aniquilados pelo imparável advento da Internet, no entanto os telejornais, blogues, sites e portais continuam com notável êxito financeiro.

Não imaginem que esta retomada da crônica tem o intuito de resmungar devido à pífia repercussão de “O Efeito Casulo”, que vem a ser o segundo romance que publico no BCS — Blog Carlos Santos. O primeiro foi “A Cidade que Nunca Leu um Livro”, cuja receptividade teve melhor resultado. Estou de bem comigo e vacinado contra melindres ou queixumes em relação ao leitor deste espaço. Totalmente longe do sentimento de que ofereci (ou ofereço) pérolas aos porcos.

A sensação que guardo, apesar do registro de malogro editorial, é que cumpri a missão que reservei para mim próprio. Quanto ao resto, sem nenhum rancor ou falsa modéstia, digo que valeu a pena cada página, cada capítulo gestado. Sou um escritor obscuro, por mais que os amigos digam o contrário, entrementes realizo com pleno amor e paixão este honroso sacerdócio da literatura.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 20/11/2022 - 04:04h
Conversando com... Marcos Ferreira

Um escritor e seu folhetim que faz história no mundo virtual

Por Carlos Santos

Escritor polígrafo, Marcos Ferreira de Sousa nasceu aos 10 de abril de 1970 em Mossoró (RN), onde reside desde sempre. Tem figurado entre as primeiras colocações de alguns importantes concursos literários no país.

Com a obra “A Hora Azul do Silêncio” venceu os “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, na categoria Melhor Livro de Poesia. Além do folhetim “A Cidade que Nunca leu um Livro” (romance publicado aos domingos no Canal BCS), possui obras inéditas nos gêneros conto, romance, poesia e crônicas.

Marcos Ferreira é escritor de origem mossoroense com vários prêmios literários (Foto: arquivo)

Marcos Ferreira é escritor de origem mossoroense com vários prêmios literários (Foto: arquivo)

Autodidata, Marcos atuou na imprensa mossoroense, onde desempenhou as funções de revisor, copidesque, repórter e editor de cultura. Entre outras distinções, foi laureado com os prêmios “José Cândido de Carvalho” (Categoria Contos); “Prêmio Petrobras de Literatura Prata da Casa”, edições do Rio de Janeiro e Salvador (Categoria Poesia); e o “Prêmio Vinicius de Moraes” (Categoria Sonetos), promovido pela editora Companhia das Letras.

Abaixo, um bate-papo com ele em relação a uma experiência inusitada: a produção de romance em série, como nos antigos folhetins, albergado em nossa página ao longo de 22 semanas:

Pelo visto, “A cidade que nunca leu um livro”, concluído no domingo passado (veja AQUI), é o primeiro romance publicado em suporte digital e em série na imprensa potiguar, talvez do País. Como você avalia essa experiência?

Não tenho conhecimento quanto ao ineditismo ou não. Mas acho que isso é uma consequência dos novos tempos, especificamente da blogosfera e das redes sociais. Trata-se de uma linha tão peculiar quanto plural. São os tempos irreversíveis das plataformas eletrônicas e esse é um caminho sem volta. Os veículos impressos tiveram a sua longa e apaixonante época, contudo agora os poucos que restaram vivem a debacle, a asfixia econômica, o crepúsculo de suas edições em papel-jornal. Outros romances digitais, a exemplo de “A Cidade que Nunca eu um Livro”, logo surgirão e esse é um processo que vem desde longa data quando do apogeu dos folhetins publicados nos jornais impressos, momento em que se destacaram, entre outros, grandes vultos da literatura brasileira como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Machado de Assis.

Marcos, um romance virtual, ou seja, em plataforma diferente do livro físico, é uma experiência incomum para nós do Canal BCS e acredito que para você também. Como nasceu a ideia?

Marcos tem planos para novos lançamentos (Foto: arquivo)

Marcos tem planos para novos lançamentos (Foto: arquivo)

Eu comecei literalmente do zero, não tinha nada pronto ou em andamento. Num determinado dia, então, eu sentei para escrever a minha habitual crônica que eu veiculava aos domingos no Canal BCS e aí, como o texto é um bicho cheio de vontades próprias, eis que eu senti que aquela suposta crônica havia descambado para algo diferente, uma coisa que me pareceu muito mais um conto ou capítulo de um romance do que propriamente uma simples crônica. Foi aí que tudo começou. Mesmo vivenciando a gangorra da minha saúde instável, eu fiz a minha estreia como folhetinista no Canal BCS e arquei com a responsabilidade de todo domingo ter um novo capítulo de romance para apresentar ao público leitor e, se possível, mantê-lo interessado na trama.

A construção de personagens, a narrativa, o esforço para prender o webleitor e o fio de ligação entre uma publicação e outra, entre um domingo e outro, são dificuldades enormes à produção, não temos dúvidas. O escritor na plataforma virtual é um novo caminho?

Sem dúvida. A plataforma digital, espaço em que o ficcionista recebe a pressão de fazer o dever de casa chova ou faça sol, é um desafio muito maior do que aquele vivido por um literato que está isento dessa cobrança e escreve, digamos assim, quando se sente inspirado. O escritor que surfa na crista da onda da plataforma digital tem que lidar com uma cobrança muito maior, tanto de si próprio quanto dos webleitores cuja atenção ele despertou.

O romance é um gênero muito disseminado há séculos no mundo. No Brasil, ele ganhou forma no século 19, com popularização em jornais impressos, em capítulos, o chamado “folhetim”. O Canal BCS e você dão ao leitor cibernético, plugado, on-line, uma experiência que resgata esse período. Como é viver essa realidade virtual?

Digo sem nenhuma economia ou excesso de vaidade que “A Cidade que Nunca leu um Livro”, pelas características já expostas e que envolvem o compromisso de um capítulo semanal para continuar alimentando o fogo da criatividade, foi, até aqui, o projeto mais ousado e desafiador a que me lancei e me propus a realizar. E agora, encerrando essa trama da personagem Jaime Peçanha após vinte e dois capítulos seriais, não posso negar, particularmente, o gostinho de vitória, o sentimento da missão cumprida.

Tivemos webleitores acompanhando o romance “A Cidade que Nunca leu um Livro” de vários estados do país e diversos municípios do RN, conforme dados de nossa estatística. Como você lida com essa interação ‘estranha’, digamos assim, diferente do que o livro físico proporciona?

Primeiramente, antes que digam que eu não falei das flores, essa é uma notícia que me surpreende de maneira muito positiva. Eu não tinha ideia de que minha história contasse com toda essa audiência. Acho que isso é o coroamento (e aí entram as flores) de um texto e de uma trama produzidos com muita seriedade e respeito aos webleitores de um modo geral. Pois é sempre vital, imprescindível, respeitar o leitor (no caso, webleitor) e coroá-lo com o que podemos oferecer de melhor em matéria de literatura.

Você considera possível a maior difusão do romance e outros gêneros literários por meio dessa infovia e suas diversas plataformas, como o blog, Instagram, Facebook etc?

Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Tanto que passei muitos anos sem publicar uma só vírgulas nos jornais impressos, quando ainda existiam jornais impressos em Mossoró, exceção para o De Fato, mas aí eu voltei a escrever com periodicidade semanal graças ao BCS — Blog Carlos Santos. A infovia está aberta para todos os gêneros e expressões de arte literária, inclusive o romance. Quanto ao meu retorno a escrever, existe algo que o Canal BCS me ofereceu que outros não ofertaram: motivação.

No universo criativo, no campo das artes, da literatura à pintura, passando por escultura e outras manifestações artísticas, muitos feneceram sem experimentar o gosto do sucesso de público e o mínimo de bem-estar à vida pessoal. Costumo dizer, usando adágio popular, que “quem incha com bafo (elogios) é cuscuz.” Isso o incomoda e o angustia?

A hora azul do silêncio à venda na Amazon, para leitura virtual (Reprodução)

A hora azul do silêncio à venda na Amazon, para leitura virtual (Reprodução)

A mim tal patologia (a da vaidade do cuscuz) não acomete. Possuo certa vaidade, sim, mas esta é no tocante a produzir alguma coisa em matéria de literatura e tomar conhecimento de que algumas pessoas estão gostando. Então, levando-se em conta o meu tipo de vaidade, não tenho nenhuma bigorna pesando na consciência. Não sou, muito menos, aquele tipo de literato que tem que dormir de beliche: ele embaixo e o ego em cima.

Quais os próximos planos literários de Marcos Ferreira?

Antes de responder a esta pergunta, quero agradecer aos webleitores que têm me acompanhado no Canal BCS. Agora, sem querer contar vantagem, no entanto me permitam um tiquinho de imodéstia, possuo um certo número de livros inéditos e que não estão expostos nas prateleiras das livrarias e quejandos simplesmente porque não tenho grana para a autopublicação. “A Cidade que Nunca leu um Livro”, por exemplo, é um romance que gostei de escrever e que eu gostaria de vê-lo publicado em livro físico. Quanto aos meus próximos planos literários, o que pretendo fazer é continuar escrevendo. Isto porque, bem ou mal, não há outra coisa que eu saiba fazer melhor do que escrever. Por falta de habilidade em ofícios diversos, portanto, escrevo.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 16/10/2022 - 04:20h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 18

Arrepiando carreira

Por Marcos Ferreira

Nenhum projétil transfixou o colete, sequer o disparo à queima-roupa contra as suas costas. Jaime sentia na pele e musculatura o impacto daqueles três balaços, sobretudo o que lhe atingiu o dorso. A duras penas, consciente de que os atiradores haviam se evadido, ele mais uma vez se arrastou até o meio-fio, sem forças para se erguer. Decorrido algum tempo, como é comum nessas situações, os vizinhos começaram a aparecer nas portas e janelas de suas casas, curiosos e hesitantes. Comportamento seguido por outros um pouco mais longe.compressa-quente-1

O primeiro a tomar chegada junto a Jaime foi o grandalhão conhecido por Espirro de Gato, a quem Jaime, a exemplo de outros moradores, só conhecia por esse apelido. Portanto, Espirro de Gato foi ao socorro do homem sentado na calçada, escorado numa árvore, sem poder ficar de pé.

— Está ferido?! — indagou Espirro de Gato com os olhos precipitados para fora das órbitas. — Eu vou chamar uma ambulância.

— Não precisa, meu amigo. Só me ajude a ficar de pé e me leve até a minha casa, aquela do portão marrom em frente à padaria.

— Sei onde você mora, senhor Jaime.

— Ok! Então me conduza até lá, por gentileza. Minha esposa é enfermeira e vai cuidar de mim. Não estou ferido. Por muita sorte nenhuma bala perfurou minha carne. Apenas estou machucado pela força dos impactos.

— Ora, você foi atingido por disparos.

— Sim. Porém eu estou usando colete.

— Colete à prova de balas? Por quê?

— Porque venho recebendo ameaças.

— O que o senhor fez para tudo isso?

— É por causa de um livro que escrevi.

— Só por conta disso?… Que absurdo!

— Alguns são mortos por muito menos.

— É uma gente sem Deus, senhor Jaime.

— Pois é. Certas pessoas não toleram que a gente as acuse dos podres, do fedor e dos seus atos corruptos. Refiro-me a certos políticos que se se julgam acima do bem e do mal. Mas isso é uma longa história. Vamos indo.

A essa altura a pequena Padre Mota estava em polvorosa, cheia de curiosos que de início se trancaram em suas casas, assustadiços com o tiroteio tão próximo dos seus portões. Daí a pouco outro morador se aproximou e também deu o ombro para Jaime se apoiar, sustentando-o pela cintura. As pessoas cochichavam nas calçadas, todas sem entender como o escritor saíra vivo daquele atentado, praticamente ileso, exceto pelos hematomas ocasionados nos pontos do corpo onde as balas se choraram contra o colete. Sim, o colete barra os projéteis, a depender do calibre, mas parte do impacto é transferida para a pele. Por muita sorte os pistoleiros não alvejaram, principalmente, a cabeça de Jaime nem os membros inferiores ou superiores. Se houvessem mirado na cabeça, aí sem dúvida o literato vestiria um paletó de madeira.

Em meio às dores e ao ardor dos hematomas, ainda se recordou de conferir, por meio do tato, se o trinta e oito continuava no cós da sua calça. Suspirou aliviado ao constatar que a arma permanecia com ele. Arma esta que, dada a velocidade com que fora rendido pelos sujeitos da picape, findara lhe sendo inútil naquele momento em que os três encapuzados o coloraram sob a mira de pistolas.

Por volta das sete da manhã, Laura encontrou Jaime sobre a cama, curvado, trajando apenas uma bermuda e se contorcendo em dores. Apresentava duas regiões do peito e das costas muito arroxeadas, marcas dos balaços. O hematoma das costas era o mais destacado. Ela tomou um enorme susto. Embora tivesse conhecimento de que o marido trabalhasse no romance A Cidade que Nunca leu um Livro, atividade que ela não dava muita importância, ignorava que tal obra pudesse estar contrariando demasiadamente pessoas poderosas de Mondrongo, abespinhando os humores e a ira dos desafetos de Jaime Peçanha. Para Laura, enfim, o livro não passava de uma história ficcional sem a maior relevância e fadada ao fracasso no meio literário. Pôs-se a examinar o esposo, fez compressas de gelo nos hematomas e disse com alívio:

— Por sorte não atingiu nenhum osso. Ao menos é o que parece. O ideal é tirar um raio-X, para a gente ter certeza de que não houve fratura. As costelas e a espinha dorsal parecem preservadas, mas não posso garantir.

— Nada de hospital, Laura. Eu ficarei bem.

— Iremos no carro do Reginaldo Marinho.

— Não. Eles podem descobrir que estou vivo.

— Meu Deus! O que pretende fazer, então?

— Terei que desaparecer por um bom tempo. Se souberem que estou no hospital, amor, não duvido de que vão até lá acabar comigo.

— Por enquanto, pois, permaneça aqui, trancado. Farei umas compressas de gelo e você vai tomando anti-inflamatórios para as lesões.

— Tenho que falar com o Luciano Aires, que sempre me socorreu em situações difíceis. Vou contar a ele tudo o que me aconteceu. Também vou ligar para o Raimundo Gilmar, que trabalha na Copiadora Expressa, no Centro. Quero encarregá-lo de imprimir três cópias de A Cidade que Nunca leu um Livro e trazê-las para mim, de maneira que eu possa postar nos Correios de Vila Negra.

Esses originais serão enviados para três editoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Da parte de Luciano, espero que me deixe ficar num apartamento que ele possui em Vila Negra. Ao menos até a poeira baixar. Isto se baixar. Do contrário, Laura, terei que largar Mondrongo em definitivo. Estou envolvido em coisas que você nem imagina. Mas tudo em minha defesa. Reagi às agressões que sofri nos últimos tempos. Tudo unicamente para me defender.

— Como essa coisa chegou a tanto, Jaime?

— Para lhe ser sincero, nem eu mesmo calculei que pudesse acabar nisso. Confesso que subestimei a capacidade de intolerância e truculência desse pessoal. Gente como Rato Branco e seus comparsas, além do prefeito Wallace Batista e de Leonardo Jardim, presidente da Câmara de Vereadores. De quebra, como se não me bastasse, ainda tenho que lidar com o sebista pau-mandado Antoniel Silva.

Ali sobre a cama, quando Laura pousou a bolsa de gelo no hematoma das costas de Jaime, ele se contraiu e soltou outro gemido. Ela pediu que ele aguentasse firme, pois era preciso que o gelo adormecesse a área arroxeada.

— Feche essa janela e acenda a luz, por favor — pediu ele. — Se estiver quente para você, ligue o ventilador. E as outras janelas e as portas da frente e da cozinha estão todas trancadas? Receio que eles venham me matar aqui dentro de casa. Não duvido nem mesmo de que façam algum mal a você apenas por estar na minha companhia. Essa gente é ruim, não vale nada, é perigosa. Por isso tenho que ir embora daqui o quanto antes. Você não está segura perto de mim. Já ligou para o Reginaldo Marinho? Espero que o se primo me leve até Vila Negra. São cerca de oitenta quilômetros.

— E o seu revólver? Não deu tempo de puxar?

— Nada. Quando pisquei eu já estava rendido.

— Você só não morreu por muita sorte, Jaime.

— Sim. Poderiam ter atirado na minha cabeça.

— Você deve sua vida também a esse colete.

— Exato. É o colete que o Claudione me deu.

Quase oito e meia. Laura circulava a bolsa de gelo sobre a região arroxeada da pele, especialmente nas costas de Jaime. De quando em quando ele se contraía e solicitava que ela fizesse isso com a mão um pouco mais leve.

— Atenda seu telefone. É Raimundo Gilmar.

— Ótimo! Contarei o que houve e passarei as instruções sobre a impressão dos originais. Ao todo serão apenas três cópias. Assim, Laura, após Gilmar imprimir e encadernar tudo, irei embora de Mondrongo amanhã mesmo. Isto, claro, se o seu primo Reginaldo Marinho for me deixar em Vila Negra.

— Quando você pretende retornar, Jaime?

— Não sei. Talvez apenas após o meu livro ser publicado por alguma editora do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Se Reginaldo não puder me levar até Vila Negra, então pedirei a Luciano que faça isso. Até porque o apartamento é dele e não conheço Vila Negra direito. Trata-se de uma cidade um pouco maior que Mondrongo. Certamente eu teria alguma dificuldade de localizar o apartamento.

— Então, meu querido Jaime, vá com Deus.

— Ultimamente o Altíssimo não tem andado muito comigo. Sei que fiz por merecer. O Todo-Poderoso parece ter me virado as costas.

— Não pense assim. Você acabou de levar três tiros e continua vivo. Acredito que foi o Pai que lhe protegeu. Quem mais o salvaria?

— Eu penso que foi tão somente o colete.

— Que homem de pouca fé é você, Jaime.

A seguir ele fechou os olhos, abaixou a cabeça, cruzou os dedos e pôs as mãos na fronte. Era como se fizesse uma prece silenciosa.

ACOMPANHE

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 10;

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 15;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 16;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 17.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 29/05/2022 - 08:10h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 2

MALDITA TRINDADE

Por Marcos Ferreira

Um ano e oito meses antes, naquela manhã que tinha tudo para ser mais uma como outra qualquer, entre o barulho de algumas máquinas de datilografar e a fumaça de cigarros, Jaime Peçanha se encontrava na redação da Tribuna Mondronguense, onde já trabalhava há três anos. De repente, o choque medonho.demissao-justa-causa

Era o ano de 2001, precisamente uma terça-feira, cerca de nove horas e treze minutos do dia 11 de setembro. Jaime e outros colegas de redação assistiam, pela tevê da sala, à colisão dos dois aviões contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, na ilha de Manhattan, em Nova York. Um terceiro aparelho atingiu o Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos EUA, em Washington D.C.), enquanto outro caiu em uma área deserta no estado da Pensilvânia. “Meu Deus do Céu!”, monologaram alguns amigos de Jaime, estarrecidos. Jaime, todavia, não disse palavra, abismado. Daí a pouco Margareth, a funcionária da recepção, tocou no ombro de Jaime:

— Alberto, o diretor, está chamando você.

— Obrigado. Já estou indo — respondeu.

Ao longo daqueles três anos em que atuava na Tribuna Mondronguense como repórter e editor de cultura, Jaime nunca se dera bem com o diretor administrativo Alberto Cardoso. Sem motivo aparente, Alberto desenvolvera e nutria contra Jaime uma animosidade e antipatia que o repórter não fazia ideia do porquê ou origem. Jaime iniciara sua trajetória na Tribuna como revisor e copidesque, função esta que, posteriormente, o habilitou a também escrever matérias culturais para o Mondronguense. Devido a essa antipatia gratuita do senhor diretor administrativo, no fim das contas Jaime trabalhou durante cerca de um ano e meio como repórter, porém com a carteira ainda assinada apenas como revisor de textos, atualização postergada por Alberto.

Essas e outras fizeram com que o clima entre o editor de cultura e o diretor financeiro só piorasse com o passar do tempo. Uma rixa tácita e nem sempre velada se estabeleceu entre os dois. Até que naquela manhã de 11 de setembro de 2001, logo após o atentado terrorista contra os Estados Unidos, Jaime Peçanha foi chamado ao gabinete de Alberto Cardoso. Com indisfarçável regozijo, Alberto demitiu Jaime categoricamente, sem justa causa. O diretor financeiro apenas alegou que a empresa estava em apuros e que, dali em diante, iniciaria uma redução de pessoal.

Tipo vermelho e jovem, menos de quarenta anos de idade, contudo com os cabelos quase totalmente grisalhos, Alberto Cardoso era um homem de temperamento comedido, quiçá frio, e não menos educado. Apesar daquela má vontade em relação a Jaime, que parecia algo até patológico, era respeitoso com ele.

— Sente-se aí, Jaime. O que tenho para lhe dizer é um pouco chato e naturalmente terei que lhe apresentar algumas justificativas. Pois você, a exemplo de outros desta empresa de notícias, desempenha suas funções com responsabilidade e competência. O que lhe direi agora também terei que expor a mais algumas pessoas. Portanto, se não se importar, eu gostaria que você sentasse para me ouvir.

— Resuma. Ouvirei mesmo em pé — disse.

— Se prefere assim… Você está demitido!

— Tudo bem. Acho até que demorou muito.

— Fique sabendo que isso não é nada pessoal.

— Ah, claro que não! É porque eu mereço.

— A empresa precisa fazer alguns cortes.

— Ok. Onde assino? Essa conversa é inútil.

Jaime Peçanha assinou a demissão em três vias e deixou a sala sem apertar a mão do diretor Alberto Cardoso, que ficou com o braço estendido por alguns segundos e, de rosto um tanto mais vermelho pelo constrangimento, recolheu a mão e baixou a cabeça. Ao fim e ao cabo, entretanto, como era da vontade dele há um bom tempo, Alberto conseguira ver o enfezado Jaime Peçanha pelas costas.

— Por favor, peça ao Reginaldo que entre.

— Não o vi por aqui — respondeu Jaime.

No jornal e no mundo todo não se falava noutra coisa, exceto o atentado terrorista contra os Estados Unidos. Na cabeça de Jaime, porém, isso não se fixava. O que lhe martelava no juízo era chegar em casa naquela manhã e comunicar a Laura, sua esposa, que fora demitido do Mondronguense “por insubordinação mental”, feito ele vez por outra costumava vaticinar como razão de sua previsível dispensa. Então, com a cabeça quente, cheia de aborrecimentos e apreensões, rumou para sua residência no grande Alto de São Manoel, mais precisamente no Conjunto Walfredo Gurgel, à Rua Padre Mota, número 3521. Ali ele teria outra surpresa desagradável.

Ele não tinha o hábito de chegar naquele horário, antes das onze horas. No mais das vezes só aparecia para o almoço (e nem sempre) após o meio-dia. Jaime tirou o pequeno molho de chaves do bolso da calça e abriu o portão. A porta da frente estava aberta. Silencioso, entrou à procura da esposa. Encontrou-a no quarto, sobre a cama, toda nua, com o Reginaldo Marinho, repórter de política da Tribuna, também por inteiro despido em cima dela, ambos se comendo danadamente.

Antes de ser visto, Jaime deu meia-volta.

Marcos Ferreira é escritor

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – (Capítulo 1 – Prólogo).

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Categoria(s): Conto/Romance
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