domingo - 18/03/2012 - 11:02h

Da arte de largar a velha nicotina

Por Mário Prata

Largar de fumar é facílimo! A frase não é minha. É do sempre ótimo Millôr Fernandes, que complementava:

– Eu, por exemplo, já larguei umas quinze vezes!

O pior problema dos tabagistas, não é fumar. É passar a vida inventando maneiras de deixar de fumar. Sempre achei que um dia irão proibir a fabricação e a gente vai fumar unzinho só, traficado, por dia. Da lata! Mas, enquanto os governos não tomam providências, cada um vai se virando da sua maneira para deixar o vício.

Conheço várias histórias de tentativas verdadeiras (todas frustradas, é claro) de amigos e amigas. A minha comadre Joana Fomm, por exemplo, foi me visitar um dia em Cascais, tirou o maço do bolso e me pediu:

– Não rias! Não rias!

Cortou com a mão metade do cigarro e fumou a outra parte. Claro que eu ri. Joana continua fumando até hoje. Só que, no lugar de um maço, fuma dois, pela metade. Mas tem seu fundo científico. Segundo o doutor Castanho, do spa São Pedro, este método está sendo testado nos Estados Unidos e muita gente vem abandonando o prazer. Sabia, Joaninha?

Meu querido colega João Ubaldo Ribeiro, por exemplo. Foi proibido de fumar porque a nicotina estava afetando a visão dele. Na Copa dos Estados Unidos, onde quer que a gente estivesse, ele se encostava em mim e falava baixinho no meu ouvido:

– Me dá um.

– Mas você não está proibido?

– Mas eu vou fumar escondido.

– Escondido de quem?

– De mim, uai.

E ia fumar atrás de uma árvore. Parecia que estava a fazer xixi.

Tenho um amigo, em Lins, de mais idade, que também está proibido. E olha que ele é médico. Sabe o que ele faz? Nem fuma, nem traga. Come cigarro. Isso mesmo, come.

Mas os métodos vão evoluindo. Na minha infância tinha um tal de Nicotinex. Depois inventaram chichetes de nicotina. Dava um hálito horroroso. Hoje em dia tem as tais placas que você gruda no peito. Com todo o meu respeito às indústrias farmacêuticas, sei não…

E o furo na orelha, você lembra? Grande moda do final dos anos setenta. Chegou um gringo aqui e começou a furar orelha de todo mundo. Parecia o Tyson. Não podia ver um fumante com orelha que mandava o bisturi. Depois dava um ponto. Tinha uma fila.

Ele operava trinta, quarenta pessoas de cada vez. Deve ter ficado rico. Sem falar na acupuntura. Sei não… Me lembro de um famoso advogado que fez a operação da orelha (eu também fiz) e começou a fumar escondido da família e dos amigos. Pode? Pode, porque eu também fiz a mesma coisa.

Agora, o pior não-fumante é o ex-fumante. Como fica chato. É como aquele que para de beber e não consegue mais acompanhar o papo dos que bebem. Além do mais, passam a fumar charutos e/ou cachimbo. Quer cheiro pior?

Toda essa tergiversação começou com um encontro casual que eu tive com uma ex-namorada que eu não via há quase 30 anos. Foi domingo num spa. Ela estava com as tais placas peito acima, me garantindo que, desta vez, ia largar o vício de mais de 40 anos. Ela estava de visita ao irmão e eu num almoço para uns publicitários. Cinco horas, ela indo embora. Meu cigarro acabou e eu ainda ia ficar mais umas duas horas.

– Aninha, você não se incomoda de deixar o seu maço comigo? O meu acabou e a lojinha está fechada.

– Tenho vergonha, me disse toda tímida.

– Vergonha do quê, de me dar o seu maço?

– É que você não vai acreditar.

Me deu um maço de Free. Já tínhamos (novamente) alguma coisa em comum.

– Olha. Olhei.

– Mas o que é isso? Juro:

– É que, para fumar menos, puxar menos fumaça, eu pego o maço, ainda fechado e faço vários furos nele. De um lado até o outro do maço, está vendo. Igual àquelas espadas nas caixas de mágico com, mulher dentro. Acerto o filtro e várias partes do cigarro.

Você não pode imaginar o estrago que estava o maço da Aninha. Ela foi embora. Eu tentei fumar. Tentei. Pode ser uma solução. Furar o mal pela raiz.

Mário Prata é escritor e cronista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/02/2012 - 13:34h

História de mineiro

Por Dinah Silveira de Queiroz

Estou sabendo de uma historinha que bem valia um conto e feito por quem a narrou, o contista que anda arrebatando todos os prêmios dos concursos em que se inscreve: Edson Guedes de Morais. É um caso de mineiro.

Trata de gente pobre e de filho que veio trabalhar no Rio, prosperou e um dia mandou uma carta ao pai:

Meu pai, com a graça de Deus, posso dizer que já tenho economia suficiente para pretender realizar qualquer sonho seu. Minha maior felicidade estará em poder propor: que possa fazer para alegrá-lo? 0 que mais desejaria na vida? Tenho pensado muito em sua luta de sacrificado e não me lembro de tê-lo ouvido falar sobre qualquer aspiração. Não se acanhe, papai, mande dizer se o senhor quiser alguma coisa.”

Lá da cidadezinha das Minas Gerais veio uma carta. Daquele homem religioso, devoto de Nossa Senhora Aparecida, austero, confiando nos seus deveres e trabalhos: o homem que jamais manifestara ao filho o seu desejo de possuir, por exemplo, um carro, ou ter um negócio só seu, ou, no mínimo, de adquirir uma lavadeira automática para desafogar o trabalho da mulher:

— “Meu filho, com a graça de Deus, todos vão com saúde. Não me falta nada. Assim como vivo, vivo bem. Mas se você quiser saber de um desejo que sempre tive fique sabendo agora que toda a vida quis ver o mar. É só isso, meu filho, mais nada.”

Tão pouco lhe pedia o pai ! Mandou-lhe o filho a passagem, depois de ter escolhido um bom hotelzinho na Tijuca, freqüentado por gente de pequenas posses, mas pessoas escolhidas — só família, enfim.

E o velho chegou com a alegria de ver o filho que realizara o que inúmeras gerações de sua gente não haviam conseguido: ter dinheiro sobrando. Vieram as efusões, as lágrimas. O primeiro dia passou, e, logo no segundo, o filho veio buscar o pai:

“Papai, vista-se que eu vou levá-lo a Copacabana. Está na hora de realizar o desejo.”

O velho olhou-o piscando meio trêmulo:

— “Hoje, não. Quero visitar a prima Carlota, que mora aqui perto. Amanhã eu vou”. Chegou amanhã, e o pai, sempre tremendo e piscando, disse que não se sentia bem para ir a Copacabana. No terceiro e no quarto dias também, afirmou que não podia ir e que queria comprar uma lembrancinha para a mulher e para a filha.

Alguns dias decorreram e o grande encontro entre o mineiro e o mar foi sendo protelado. Já, então, o filho estava meio triste com aquela estranha atitude do pai e, afinal, desabafou:

— “Parece que o senhor não está querendo mesmo ir ver o mar! Desde que chegou aqui não encontra um dia para realizar aquilo que afirmou ser o único desejo de sua vida!”

O pai chegou a pegar o chapéu, passou a mão no ombro do filho mas estava tão perturbado, que desta vez, realmente, parecia doente.

— “Meu pai, o que é que o senhor tem? O que há?”

O velho mineiro, de olhos nublados, hesitou. Por fim, largou o peso da verdade de uma vez:

— “Acho uma coisa tão maravilhosa poder ir ver o mar que quero entregar a Nossa Senhora o meu sacrifício. Meu filho, não se zangue. Vou voltar hoje mesmo para casa sem ir a Copacabana”.

— “Mas por que, meu pai? Por quê? Nem Nossa Senhora vai aceitar esse seu sacrifício. Todo mundo vê o mar todo dia. Gente há que nem liga, passa pela praia e nem volta o rosto para ele…”

Mas, a essa altura, o velho já ia juntando os seus trens. Nesse mesmo dia voltou para sua cidade das Minas Gerais, levando em sua imaginação a idéia do abismo de assombro que ele jamais encontraria.

Dinah Silveira Queiroz – (1911-1982) Escritora e romancista nascida em São Paulo-SP

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Categoria(s): Crônica / Grandes Autores e Pensadores
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domingo - 22/01/2012 - 08:58h

Uma oração

Por Jorge Luís Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana.

É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias.

O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me.

O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta.

A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo.

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios.

O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados. Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luís Borges – (1899-1986) – Era escritor argentino

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Categoria(s): Crônica
sábado - 31/12/2011 - 20:15h
Ano Novo

Simpatia para ser feliz em 2012

Daqui a poucas horas, 2012.

O calendário é uma invenção humana. Ajuda-nos a realimentar esperança, reordenar projetos, fazer novos planos, nos situarmos no tempo. Misturamos espiritualidade com crendice e certos jogos lúdicos, que psicologicamente nos levam a acreditar que a felicidade pode estar em comer lentilhas ou pular sete ondas (com sete pedidos) à beira-mar, nesta noite.

Em se tratando de “simpatia”, prefiro o substantivo feminino. Nele, resumidamente, tem-se a ideia de afinidade e bem-estar transmitidos por outra pessoa.

A simpatia no sentido da supertição, não me atrai. Diverte-me. Mas evito o desdém diante de quem confia em mogangas, com suposta conexão celestial, para guiar o próprio destino.

Até me pergunto, como escapar a esse turbilhão de expectativa que se cria, ao final de cada ano, em forma de cores, gestos e rituais. Não custa nada festejar nossa cultura. Pelo menos, para não começar o novo período – do calendário – alimentando contrariedades bobas.

Para dar tudo certo, vá de branco, tá bom?

Chupe sete sementes na noite de Réveillon, embrulhe todas num papel e guarde o pacotinho na carteira para ter dinheiro o ano inteiro.

À meia-noite, para ter sorte no amor, cumprimente em primeiro lugar uma pessoa do sexo oposto.

Na primeira noite do ano, use lençóis limpos. Assim tudo começa desembaciado no ano novo.

Dê três pulinhos com uma taça de champanhe na mão, sem derramar nenhuma gota, e jogue todo o líquido para trás. Assim, tudo o que for ruim ficará no passado.

Ah, ia esquecendo: pule num pé só (o direito), à meia-noite, para atrair coisas boas.

Reforce-se para afastar maus fluidos, diante do mar. Pegue cinco ou oito rosas brancas (números de Iemanjá e Oxum), perfume de alfazema, fitas com as cores da harmonia (azul, amarelo, rosa, branco e verde), espelho, talco, sabonete e bijuterias. Forre uma cesta com celofane, amarre uma fita no cabo de uma flor e jogue um pouco de talco e de perfume por cima. Depois, coloque o espelho, o sabonete e as bijuterias na cesta e leve para o mar. Conte três ondas e, na quarta, ofereça a cesta à Iemanjá e a Oxum.

Assim, dizem, tudo vai dar certo no ano novo.

Huum!! Mas cá pra nós: simpatia mesmo é o gesto que cativa. A palavra amiga, o ombro solidário, o peito fraterno, o choro comum, o riso à vontade, o trabalho apaixonado e a suprema elegância do respeito às diferenças.

Que venha 2012. E não custa nada botar um galhinho de arruda preso à orelha para ajudar.

Amém!

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 20/11/2011 - 12:07h
À luta, mesmo assim

Não se preocupe com a vida… você não vai escapar vivo

New Orleans (EUA) dos negros, da pobreza, mas também do jazz, do rio Mississipi, piratas e corsários, poliglota; da indústria do petróleo, do arrasador furacão Katrina (2005) e multicultural, inspirou o jornalista-escritor Truman Capote. Em muitas de suas crônicas ela era o ambiente. A atmosfera.

Num café, “o menos frequentado de New Orleans”, ele descreve em 1946, o jeitão da proprietária, senhora Morris Otto Kunze: “não parecia se importar; passava o dia sentada atrás do balcão (…), e só se movia para espantar as moscas”.

Mas foi lá, que ele captou num mural rococó, em espelho quebrado e sujo,  uma frase que imprimia justificativa à vida do lugar: “Não se preocupe com a vida… você não vai escapar dela vivo mesmo!”

Esse olhar largado, quase entregue ao determinismo, é uma versão mais antiga do “deixa a vida me levar… vida leva eu”, do sambista carioca Zeca Pagodinho. Tem funcionado para ele.

Comigo tem sido diferente, mesmo sabendo que não vou escapar vivo dessa vida. Eu cuido do meu destino e da minha própria felicidade.

Não os passei a terceiros. Não os entrego a outrem.

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domingo - 13/11/2011 - 16:23h

Cravo e canela e o fruto da maturidade

Por Carlos Santos

Tropical como somos, temos uma infinidade de frutas a mexer com o paladar nacional. Muitas, agora, na versão mulher. Há algum tempo, quase não existem mais daquelas de carne e osso. “Tá em falta”, diria o feirante da Ceasa.

Sobram principalmente as de bundas enormes e peitos siliconados, vendidas como “piriguetes” ou “modelos”. No fundo, é bom que esclareçamos: seu “consumo” é subjetivo e virtual, ou cabe apenas na conta de uma minoria endinheirada para rápida “digestão”.

Pelo visto, começa a escassear a mulher-mulher, daquelas que são apenas loura ou morena, branquinha ou negra, que gostam de ser amadas e não apenas “comidas”.

Como toda mulher normal, ela tem dúvidas quanto aos seus próprios encantos.

Raramente são autosuficientes como as “frutas” e ainda se enternecem com as flores e a música que fala de amor, símbolos atemporais do bem-querer.

Costumam repetir que “todo homem é igual”, numa generalização tão errônea quanto à adotada pelo sexo oposto, de que “toda mulher é a mesma coisa”.

Que bom, você existe! Sinuosa no olhar, cintilante. Com uma beleza brejeira, quase infantil. Cândida. Que irrompe a vida de cara limpa, sorriso maroto, como se fosse nascida de um romance de Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Jorge Amado.

Menina? Mulher? Menina-mulher.

É cravo e canela.

Para aqueles que se movem por apetite lascivo, em sua direção, só aparecem seus contornos de mulher. Sem aguçada serenidade e percepção, jamais vão descobrir os traços de ninfa, nem seu vigor como gente que não aceita dizer “sim”,  cavilosamente, porque  aprendeu cedo a dizer “não” por livre-arbítrio.

Essa mulher é recheada de dúvidas, oscila entre amar e se esconder, mas não se entende como objeto. Chora, angustia-se. Fecha-se ensimesmada. Sorrir para dizer que as lágrimas não lhe fazem mal, porque fertilizam seu peito e serão o sopro de renovação da vida em seu útero.

Ela sabe que partilhar rima sempre com amar. Que distância fere e limita movimentos, mas é uma ponte, se os extremos querem chegar a outra margem.

Com essa mulher é diferente. Ainda bem. Não deixa de ser menina, roendo unhas, rindo de tudo, dando rabiçaca com a cabeça, lambuzando-se de sorvete e saindo por essa vida aventureira repleta de sonhos.

Amuando-se para ser, de novo, afagada. Mimada para se descobrir menina; carregada no colo para ser mulher.

Olhos de Capitu, desconfiados; olhos de Diadorim, vítreos, reluzentes; olhos de Gabriela, de um negro intenso… não importa. Seu olhar é sempre ponto de partida ou porto seguro. Um paradoxo em si. Arquipélago que nos puxa do alto mar à terra firme, como vigorosos fios de cabelo.

Cabelos que encobrem um rosto ruborizado, em que lábios proeminentes se contraem, a prender o fôlego e sufocar palavras. Assim, ajudam a traçar uma moldura entre o inocente e o travesso. Cativante imagem que é um convite ao vinho, com pés desnudos, prontos ao carinho.

Muitos perdem o apetite pela descoberta, depois de certas experiências e tempo. Até confundem mulher com fruta, volume com conteúdo. O escritor Truman Capote descreveu bem o que é maturidade para separar delírio de brilho:

Depois de certa idade ou certas noções, torna-se muito difícil o deslumbramento; ele funciona melhor na infância; depois, se a pessoa der sorte, encontra uma ponte até a infância e a atravessa.

Carlos Santos é criador e editor desta página

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 13/11/2011 - 08:28h

O cronista é um escritor crônico

Por Affonso Romano de Sant´Anna

O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo.

Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente.

Virei um escritor crônico.

O que é um cronista? Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula.

Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando.

São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva.

Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista. O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim como há outra confusão entre articulista e cronista.

O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu “eu”, como o do poeta, é um eu de utilidade pública.

Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos, faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais.

Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Não tem importância.

O cronista é crônico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.

Affonso Romano de Sant´Anna é escritor

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 31/10/2011 - 10:57h
Para Drummond

A ‘dádiva’ de não ser poeta

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” (Carlos Drummond de Andrade)

O gosto pelas letras chegou cedo. Em casa, entre os mantimentos diários acomodados num balde de alumínio, um jornal. Era assim, diariamente.

Tínhamos as revistas Seleções, O Cruzeiro. Depois apareceram outras notivades da escrita, num tempo em que a televisão não era tão soberana e onipotente.

Revistas em quadrinhos foram centenas, sob o combate da mãe zelosa, que não via nelas qualquer atrativo à minha formação. Enganara-se. Pelo menos dessa feita, enganara-se.

Drummond, mais do que um “José”

E o que dizer da coleção Tesouros da Juventude? Todos os clássicos infanto-juvenís estavam lá. Alexandre Dumas em seus enredo de capa-e-espada, Júlio Verne futurista.

Nesse tempo eu queria escrever. Seria escritor. Jornalista, não. Poeta, quem sabe, heim?

Nem escritor nem poeta. Um repórter provinciano, é o que sou. É o que posso ser, sem perder a admiração por quem o é.

Drummond, Quintana (meu preferido), Manuel Bandeira, Thiago de Mello, Leminski, Castro Alves, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Patativa, Olavo Bilac…

Os nossos, próximos, Marcos Ferreira, Antônio Francisco, Cid Augusto, Cefas Carvalho, Paulo de Tarso Correia de Melo, Luiz Campos…

Aceito, passivamente, a “dádiva” de não ser poeta. Se o fosse, o que seria de mim? Um bardo sem prumo. Coube-me o gosto pelo verbo lapidado por esses e tantos outros escultores. Eu, como um Michelangelo tosco, apenas imploro diante de Moisés: “Parla!”

Enquanto isso, vou-me nessa vida aventureira, um “gauche” sem a poética que anseio. Em busca do paroxismo da frase perfeita.

* Minha homenagem a Carlos Drummond de Andrade, que hoje estaria completando 109 anos: 1902-1987.

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sábado - 29/10/2011 - 04:36h

Reflexão para ser feliz III

O medo é parte essencial entre os que têm coragem.

Sem ele, até atravessar uma rua movimentada, sem olhar pros lado, é um ato de loucura.

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quarta-feira - 26/10/2011 - 09:17h

Reflexão para ser feliz

Se toda vez que a gente for se relacionar com alguém, começando pela exumação do seu passado, é melhor ficar em casa com uma boneca inflável.

Mas até ela enche.

Também!

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 23/10/2011 - 13:32h

A imortalidade

Por Carlos Santos

Não sei o tempo que me resta aqui na terra.

Mais um dia? Alguns meses? Podem ser vários anos.

O certo é que não farei, do tempo, um resto de vida.

Tem que valer a pena. Tem valido.

Cada segundo é precioso. Respirar apenas, não me basta.

Preciso existir nos outros, pelos meus atos e não apenas com a palavra que lapido no meu trabalho.

A imortalidade é o que deixamos no coração dos que ficam. Enquanto ele bater, pulsará também pelo o que fizemos de bom e útil.

Imortal!

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domingo - 09/10/2011 - 07:29h

Antes que eles cresçam

Por Affonso Romano de Sant’Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença.

Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto.

Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções.

Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta   dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e Cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis.

Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos.

Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.

Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant’Anna é escritor, professor e cronista brasileiro

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Categoria(s): Crônica / Grandes Autores e Pensadores
  • Art&C - PMM - Festa da Liberdade - Setembro de 2026
sexta-feira - 30/09/2011 - 11:56h
Crônica

À lembrança do pai

Por Cefas Carvalho (jornalista e escritor) no Facebook:

Um dia 30 de setembro de registros. Alguns, de felicidade: 4 meses de namoro com Sandra. 4 meses no apartamento novo. Mas, o registro maior é de saudades: hoje completa 20 anos da morte de José Luiz Silva, o “Padre Zé Luiz”.

Teólogo, escritor, jornalista, publicitário, pai de primeira qualidade e dono de um humor ferino (que lhe rendeu inimigos e desafetos), padre que marcou época em municípios como Pendências, Zé Luiz deixa saudades entre amigos e familiares.

Nota do Blog – Meu querido amigo, acordei há pouco e deparo-me com essa ode ao padre Zé Luiz. Você, filho, rebento legítimo de sua inteligência e cultura, premia seus amigos na infovia, com o sentimento que nunca cessa; não cessa por ser o melhor dos sentimentos: o amor. Abração! Saúde e paz. Zé Luiz vive!

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 19/09/2011 - 10:01h
A um filho

Reverência à minha saudade

A saudade tem um gosto paradoxal: faz bem e atenua a falta; faz mal porque nos avisa que não estamos próximos.

Sempre tenho saudades. Cultivo-as como um sacrário. Presto-lhes homenagens não apenas com a lembrança, mas com reverência.

Hoje, do filho distante; perto, assim mesmo.

O filho que está em “Sum” Paulo e que não sai de mim.

O filho amado, de quem sou fã.

Amado a distância; querido, quando perto.

Amém!

Assim é minha saudade: reverencial.

Feliz aniversário, meu filho!

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
quinta-feira - 25/08/2011 - 10:05h

Imagens do meu sertão de uma janela embaciada

No instante em que escrevo esta postagem, Natal é coberta por uma densa chuva. Água fertilizadora.

Da janela do apartamento, em Morro Branco, vejo uma cidade que se entrega ao banho matinal. Mesmo assim, ruge. O ronco de seus carros, o zunir de uma furadeira do outro lado da rua e o abrir e fechar do elevador, que cospe gente para sua rotina urbana, quebram meu encanto inicial.

Na vidraça, embaciada, pincelo minha rubrica com o indicador. Ou caberia o grafismo de um coração, que se volatiza porque não é feito de pedra?

Lá no meu sertão, a chuva espanta bode, empanzina açudes e junta amigos e famílias nas calçadas.

Caindo mansa ou de forma torrencial em nosso cocuruto, das bicas nas casas alpendradas ou não, vira ducha  in natura. É uma cascata celestial. Um privilégio. Se for acompanhada por uma boa cachaça, ô!!

É a mesma expressão da natureza que multiplica a vida e transforma árvores retorcidas e chão árido em cenário de encher os olhos. Sapos coaxam, curimatã cumpre seu ciclo de reprodução; insetos povoam as lâmpadas da posteação e fogem da lamparina ardente.

Um vento frio sibila à ponta do nariz. Muitos de nós emitem sons ininteligíveis. Fazemos vibrar os próprios lábios em bico e urramos para espantar a temperatura estranha. As crianças e os mais velhos cruzam os braços e apertam o próprio corpo, como se fossem esmigalhá-lo.

A pele tostada pelo sol, se enruga.

“Fenômeno da seca”, lugar-comum de cientistas, leigos e imprensa, quer fazer do que é costumeiro, algo inusitado. Não, não.

Na verdade, é essa chuva benfazeja que lá, no meu sertão, é recebida como um acontecimento inusitado. Pra muitos, benção divina.

Entregamo-nos a rituais que agradecem sua chegada ou por vezes clamam que pare um pouquinho, só um pouquinho, como na célebre canção de Luiz Gonzaga.

De minha janela, no segundo andar, não tiro os olhos das imagens que a mente guarda. São telúricas, sim. Dou-me ao luxo de experimentar o feijão na panela de barro; canjica que sai quentinha do fogão à lenha e a água tirada do pote no canto de parede.

O vira-lata, dócil, como a fiel “Baleia” de Graciliano Ramos, faz-me um pouco Fabiano – seu dono. Mas não é de sua morte que quero falar. Chove lá fora… e aqui, faz tanto frio…

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/07/2011 - 13:13h

Nenhuma mulher se acha bonita

Por Fabrício Carpinejar

Toda mulher bonita não se acha bonita. Mesmo a mais bonita. É alguma coisa que não agrada: a orelha, o pé, a mão.

São detalhes imperceptíveis para a tripulação barbuda. Ou as veias estão muito saltadas ou as unhas quebram rápido. Uma coisinha que somente ela nota. E ela sofre duas vezes: quando alguém descobre e quando ninguém enxerga.

A segunda opção é a mais triste.

Caso o problema passe despercebido, partirá do princípio de que é tão insignificante que não merece a atenção dos outros.

Toda mulher se vê filha única do defeito. E não é um defeito, mas uma cisma. A maior parte dos defeitos é superstição.

Talvez o martírio feminino venha do excesso de controle: ela se olha demais, e tudo ganha o dobro de importância. O homem se olha de menos, e nunca teve estrias e celulite.

Para a mulher, espelho é lupa. Para o homem, espelho é janela.

Uma espinha, por exemplo, quando descoberta por uma mulher torna-se o próprio rosto. O rosto não existe mais, somente a espinha, que é alisada a cada preocupação.

Mulher não se acha realmente bonita. Nem Brigitte Bardot antes. Nem Gisele Bündchen agora.

Mulher nenhuma no mundo é vaidosa; vaidade é a confirmação de um atributo e ela desconhece suas qualidades. Mulher nenhuma acredita que é bonita, apenas disfarça que é bonita.

O elogio que recebe soa como ironia. A ausência de elogio soa como reclamação.

Arrumar-se de manhã para a mulher não é um prazer, e sim um pânico. No fundo, ela se considera um encalhe. Jura que qualquer novo amor é resultado de compaixão ou cegueira masculina.

Mulher não nasce bonita, torna-se provisoriamente bonita (em sua concepção, a beleza dura apenas um dia).

Ela se monta por 24h, mais do que isso não consegue: carrega o medo de se desmanchar com a luz e desiludir a expectativa do próximo. Seus cuidados são vinganças: à infância, ao deboche da família, ao bullying na escola.

Dentro dela, ela continua uma nerd. Guardará para sempre a imagem de menina inteligente e problemática, de gorda balofa, de desengonçada e fora do time, de alta girafa, de sardenta enferrujada, de vesga fundo de garrafa.

Não adianta convencê-la de que ela é linda, ela se acorda despenteada e nasce de novo, como se não tivesse vivido antes. Não é falsa modéstia, sequer é modéstia, ela se percebe feia.

Toda mulher bonita acredita que, no máximo, pode se ajeitar.

Em seus olhos, corre uma insatisfação permanente que não permite descanso e luto. Se seus cabelos são lisos, ela gostaria que fossem cacheados; se são cacheados gostaria que fossem ondulados, se são ondulados gostaria que fossem crespos.

A beleza é uma conclusão. E toda mulher vive de dúvidas, toda mulher é uma pergunta. Uma insaciável pergunta.

Fabrício Carpinejar é jornalista, professor e escritor gaúcho

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  • Art&C - PMM - Festa da Liberdade - Setembro de 2026
quarta-feira - 20/07/2011 - 19:43h
Assim penso

Confissão da amizade sem dia, hora ou lugar

(…) Os melhores amigos
Não trazem dentro da boca
Palavras fingidas ou falsas histórias
Sabem entender o silêncio (Amizade Sincera, Renato Teixeira)

Avisam-me pela rede de microblogs Twitter (siga-me AQUI), que hoje é o “Dia do Amigo”.

Ah, tá!

Tudo bem.

Dizer o quê?

É-me fundamental falar o que penso. É de minha natureza. Rejeito o lugar-comum.

Meus amigos o são. Sem dia, sem hora, sem lugar. Feliz, triste. Bem, mal.

Cada um com seu jeito, suas manias e defeitos (ainda bem). Sim, todos têm defeitos, mas nenhuma deformidade.

Ex-amigos? Não os tenho. Algumas pessoas passaram por mim, como rios cauladosos que avançam pelas margens em busca de um pedaço a mais de territorio, mas que terminam áridos ou assoreados pela pequenez de seus gestos.

Por vezes borbulham anos sem que eu os veja. Noutros tempos, nos falamos diariamente… de forma diluviana.

O silêncio e a distância não viram vácuo.

Por quê?

Porque o são. Somos amigos, sim.

Não padeço da solidão glacial da falta de amigos. Possuo-os com a intensidade dos que amam de graça, feliz por tê-los quando não parecem importantes e quando são imprescindíveis.

Meus amigos, muito obrigado.

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domingo - 03/07/2011 - 13:44h

Se não fosse o anel…

Por Honório de Medeiros

Como se encarnasse um sonho irreal de adolescente, na terceira ou quarta volta em torno do salão onde casais dançavam ao ritmo das músicas daqueles loucos anos 70 ela lhe apareceu. Em um gesto instintivo você levantou o copo de rum Montilla com coca-cola como que oferecendo enquanto a avaliava.

Ali estava uma mulher bonita, muito bonita, pelo menos para o seu padrão: cabelos longos, crespos, cheios, displicentemente soltos e partidos ao meio, emoldurando um rosto oval perfeito no qual pontificavam um nariz diminuto acima de uma boca carmim/carnudo-vermelha e olhos sempre meio escondidos por longos e abundantes cílios; o corpo magro quase oculto por um daqueles vestidos longos, típicos da época, terminava nos tornozelos pousados em sandálias das quais saiam finas tiras de couro que subiam pernas acima.

O copo foi aos lábios dela e sem trocarem qualquer palavra se dirigiram a um batente meio afastado que circundava a área onde ficavam as mesas. Então conversaram. Não se sabe se o primeiro beijo veio logo ou demorou. Não se sabe acerca do que falaram, mas o passado e o futuro se fizeram presente.

Na ânsia de conhecê-la você mergulhou seus olhos nos dela querendo alcançar os fatos e pensamentos mais remotos gravados em sua memória. A noite adquiriu contornos mágicos: seu perfume, discreto, suave, era único; o bulício longínquo da festa, um pano-de-fundo perfeito para os silêncios intermitentes; a música estava dentro de cada um.

Já no final, ainda desatento ao fato de que a encontrara vagando sozinha e não fora procurada, até então, por quem quer que seja, enquanto a multidão se dispersava você perguntou onde ela morava. Ela lhe disse, vagamente, que no Centro. E como iria para casa? Não houve resposta.

Àquela hora somente havia táxi. Ou carona, já que carro era um luxo distante. Poderiam ir a pé, você propôs, afinal não ficava tão distante, e as ruas e bairros seriam atravessados lentamente enquanto o sentimento fluía mundo afora e saudava a manhã nascente. Não ocorrera, ainda, a você, quão estranho era a solidão que a cercava.

Se você não estivesse ali – era o caso de se pensar – ela teria ido sozinha enfrentando a madrugada, para casa? Assim, foram. Mãos dadas. Silêncios interrompidos por brincadeiras. As ruas silenciosas por testemunha. A manhã possuindo a noite.

Na altura do velho cinema ela parou e lhe disse que ali precisariam se separar. Não era possível deixá-la em frente à sua casa. Não houve questionamento. Sua relutância não a oprimiu. Beijou-a e lembrou-lhe o compromisso de telefonar no momento que acordasse.

Pegou o caminho da volta. Antes da esquina que a tiraria de seu ângulo de visão olhou para trás. Ela estava lá esperando esse gesto. Beijou a palma da mão, apontou-a para você e soprou. E seu coração adolescente, feliz, exultou. Foi a última vez que a viu. Ao longo do dia a espera foi interminável, opressiva.

O toque do telefone fazia o coração disparar. O livro, sequer folheado, jazia pousado no chão ao lado do sofá. Passaram-se os dias. Nada. Nenhum rastro. As pessoas que moravam no entorno do lugar onde você a deixara talvez tenham estranhado seu vai-e-vem incessante, nos primeiros dias, quando ainda havia a esperança de encontrá-la saindo de algum lugar.

Todo tipo de pergunta, a si mesmo, foi feita. Não houve resposta. Nunca houve. Não haverá. Poderia parecer algo sobrenatural não fosse, passados todos esses anos, aquela bijuteria – um anel – que teima em lhe deixar pensativo e um pouco melancólico quando você o põe na palma da mão, e o lenço – naquele tempo ainda se usava – no qual resiste ao tempo a lembrança de um perfume.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 19/06/2011 - 08:22h

Canção de homens e mulheres lamentáveis

Por Antônio Maria

Esta noite… esta chuva… estas reticências. Sei lá.

Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?

Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

— Estou me sentindo assim, assim, assim…

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde etão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.

Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.

E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”.

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.

Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.

Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

— Que é que houve? O senhor está mais velho? Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos…

Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

Antônio Maria (1921-1964) era jornalista, escritor e compositor.

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sexta-feira - 20/05/2011 - 11:42h

Um oficial de justiça (amigo) em minha porta

Batendo à porta, porta,Mais uma vez tenho um oficial de justiça à minha porta. A batida ao portão, com o punho cerrado e em sequência tonitruante, não me deixa dúvida. Pergunto só para conferir mesmo:

– Quem é?

– Sou eu, Carlos Santos. É Otacílio, oficial de justiça.

Nem precisava a declaração oficial.

O “toque” de Otacílio é personalíssimo.

Tomo a liberdade, para não atrasá-lo, de sair em trajes quase sumários, com meu físico de pintassilgo resfriado, pernas de talo de coentro à mostra.

Uso apenas uma toalha contornando a cintura, dorso “atlético” à exibição, como um gladiador apolíneo, espécie de deus grego do semi-árido.

Tenho essa naturalidade, em face da frequência com que os oficiais de justiça aportam aqui em meu muquifo, sempre trazendo citações e intimações da patota que está no poder e, que, não é do ramo.

Pelo menos do ramo de governar, que se diga.

Suas manoplas têm outras habilidades.

Bem, mas voltemos ao ponto central desta prosa.

Surpreendi-me. Nem intimação nem citação.

O amigo Otacílio, de manhã ainda cedo, pede desculpas pelo suposto incômodo. Quer apenas uma informação sobre outra pessoa a ser citada judicialmente. Oriento-lhe, ajudo-o. E, lógico, coloco-me sempre à disposição para esse ou outro fim ao meu alcance.

Como jurisdicionado, até cobro tratamento diferenciado, pois me considero o melhor por essas plagas, sem nunca me esconder ou colocar qualquer embaraço ao prosseguimento processual, desde a simples citação.

Dessa vez, na pressa não deu para oferecer pelo menos um copo com água ao Otacílio. Mais não posso. A geladeira parece um chafariz: só tem água.

Fica para uma próxima.

– Volte sempre – intimo ao me despedir.

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domingo - 20/02/2011 - 18:16h

A mensagem do alpinista

Por Carlos Santos

Eu tinha dúvida quanto ao ano. Confesso uma certa dificuldade para me situar no tempo, quando viajo cronologicamente, com uso apenas do recurso da minha memória. É um GPS inconfiável.

Bem, mas o ano não importava.

O que me parecia fundamental era o fato em si. Sua contextualização, pinçando-o para me situar, é o que me interessava mais.

Como alguém tem coragem de cortar o próprio pulso, com a lâmina de um canivete? Razões? Há-as para tudo, até mesmo para automutilação, raciocinava.

Tirou-me o fôlego a narrativa que ouvi à madrugada, em casa, com a TV sendo minha única fonte de luminosidade e companhia, incidindo sobre meu rosto opaco, num quarto lúgubre.

O sorriso de Aron Ralston, um jovem alpinista norte-americano, de braço erguido e parcialmente amputado, era um contraste com minha apatia. Uma sisudez tocada pela alegria de quem tinha acabado de perder parte do corpo e, assim mesmo, comemorava.

Sim, o ano… vamos a ele. Descobri que foi em 2003. Abril.

A TV era uma presença onipotente diante da cama, praticamente ligada 24 horas por dia. Hoje, não. Até de lá foi expulsa. Está entronizada na sala, sem qualquer pompa. Empoeirada.

Tempos difíceis, de transição, de muitas perplexidades e interrogações. Assim era meu 2003. Quase à beira de um ataque de nervos e em meio a constantes esbórnias. Meio “easy rider” (sem destino). Um Peter Fonda sem motocicleta.

Aron, ao contrário, tomado por um vigor maior, prometia voltar ao Grand Junction, um cânion no Colorado (EUA), que quase o sepultara. Não se intimidara com o infortúnio de ter sido preso a uma rocha, que o obrigou a se livrar de uma das mãos, após quase cinco dias imobilizado e sem ser localizado pelo resgate.

Admitiu que em vários momentos acreditou que não sairia vivo do lugar. Ficara entre a dúvida e a esperança. Mesmo após arrancar parte de seu corpo, ainda teve que rastejar, descer um precipício de 18 metros e andar 10 km, até ser socorrido.

A decisão veio de uma força espiritual, que não soube explicar. Conseguir sobreviver, para recomeçar e novamente encarar quem quase o engolira de vez, era uma segunda chance.

Seria uma sobrevida?

Na verdade, a lição que logo tomei para mim e não paro de rememorar, até hoje, é até simplista: para continuar inteiro às vezes é preciso arrancar uma parte de nós.

É uma medida drástica que por vezes somos obrigados a tomar, mas recuamos. Acovardamo-nos. Cortar a própria carne é morrer um pouco, sim. Contudo pode ser nossa única chance de ficar vivo. Renascer das cinzas, como a lendária Fênix.

Lembra um pouco a alegoria do “Mito da Caverna” de Platão. Continuamos na escuridão porque duvidamos da existência da luz. Limitamo-nos, somos limitados; conformamo-nos com as trevas.

Cometemos o pior dos erros humanos: o da omissão.

Somos levados a acreditar que não temos saída ou qualquer alternativa. Essa tal de felicidade fica por aí, no ar, pairando sobre nossas cabeças, como se fora um Zeppelin, aquele imponente dirigível. A qualquer momento, ela flutua e some, ou desaba em chamas.

Vivemos de ciclos. Para começar um novo é fundamental, em alguns momentos, extirparmos por completo o anterior. Toda escolha corresponde a alguma forma de renúncia.

Só chegaremos ao cume do Everest, o nirvana, abrindo mão de boa parte da “carga” amealhada desde o sopé da montanha. É uma espécie de tributo à vida. Impossível levarmos e termos tudo até o alto.

Talvez resida nesse aspecto, outro grande ensinamento à minha existência. Trato-o como “a parábola da montanha”.

Aron Ralston voltou tempos depois ao cânion, amputado, mas não mutilado.

Entendi assim, a mensagem que me chegara àquela madrugada, pelas “mãos” do alpinista.

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sexta-feira - 21/01/2011 - 00:07h

Nau esperança

Relembro o poeta Gonçalves Dias em “Juca Pirama” para proclamar: “Meninos, eu vi”. Testemunhei duas enchentes épicas em Mossoró. Dois quadros, duas visões.

Rua Jerônimo Rosado virou um marzão (Foto: origem não identificada)

Rua Jerônimo Rosado virou um marzão (Foto: origem não identificada)

Em uma delas fui desalojado pela enxurrada; de outra resultou meu alojamento, de forma indireta, numa paixão: o jornalismo.

Vou contar o primeiro caso. Depois, quem sabe, abordo o outro, acontecido em 1985.

Situo-me em 1974. Estou nos arrabaldes do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, Centro de Mossoró. Assisto o rio Mossoró banhar lentamente a rua Jerônimo Rosado, escalar as escadarias do adro desse templo e ocupar nossa casa sem resistência.

Sua água barrenta e devastadora produzia cenas incomuns aos meus olhos infantis: Homens com calças arregaçadas, outras crianças a nado, caminhões ou simples carroças transportando móveis e picuás da vizinhança.

A chuva incessante que engordou o rio nos empurrou para fora com a força de quem manda, sem pedir licença. Um poder onipotente. Mesmo assim, a água que quase batia à cintura de muitos ali bem em frente, me divertia, sem que eu soubesse medir os estragos ou pressentir os desdobramentos da cheia.

Sapos apareciam aos montes, como se fora reprodução de uma das dez pragas do Egito. Multiplicavam-se aos milhares, fazendo do enorme quintal uma Normandia no Dia D, só para anfíbios. Uma cena grotesca que nunca mais vi se repetir.

Canoas e pequenas lanchas navegavam à nossa frente; o rádio ligado noticiava a ampliação territorial do rio Mossoró. Estávamos ilhados, acuados, a cada dia.

O burburinho na rua e o alagamento continuado não me afligiam. A imagem diluviana era acima de tudo encantadora à minha avaliação limitada. Cinematográfica. Estimulava a imaginação cheia de aventuras e super-heróis da TV e quadrinhos.

Ruas, praças e avenidas estavam transformadas num marzão. Uma via só. Fluvial. Quase amazônica.

Só me toquei do pior com a convocação final: “Arrume suas coisas. Amanhã cedinho a gente vai embora”. Partimos para nunca mais voltarmos àquele endereço.

Lá ficou uma parte de minha infância e inocência: a pequena pracinha de seu João Cantídio, nosso Colégio Dom Bosco a tão poucos passos.

Para trás o presépio de Maria de Uriel, miniatura bíblica cheia de vida em todo Natal; a casa acolhedora de dona Fefita e seus netos, todos meus amigos, que vez por outra me convocavam para tumultuar seu sossego.

A padaria de seu Eliseu Costa e dona Julita nunca mais seriam meu endereço de fim de tarde. Seus pães e bolos deliciosos, enrolados com técnica apurada em papel madeira, continuam em meus olhos, olfato e paladar. Memória sensorial.

As confrarias noturnas à calçada, com o tititi do dia, quase sempre vetadas à presença de crianças curiosas, continuam gravadas. As famílias pareciam uma só, sem o temor da violência urbana, sem as aflições psicossociais deste século XXI.

Vários nomes e lugares mantêm-se memorizados, outros se dispersaram com o tempo, mesmo que a imagem deles, ainda turva, pulule até hoje em minha mente.

Vejo o casal Izete-Raílton; Moisés dos Portões, padre Américo Simonetti e suas concorridas missas no Coração de Jesus; o tenente e delegado Clodoaldo Meira aboletado num Jeep aterrorizando quem teimava em jogar bola na área, pronto para picotar a pelota.

A senhora Júlia Menezes absorta; as irmãs Ilná e Alaíde Nascimento; minha “Maura” sempre loquaz, festiva e amante da prosa com Nadir Brasil e tantos amigos e amigas. A professora exemplar Dagmar Filgueira e a serenidade do senhor Trajano Filgueira.

O sítio “Pica-pau” no beiço do rio; o Cine Cid tão perto e a lenda de que em seu subsolo existia uma baleia. Com chuva ou sol, enchente ou não, o barulho que vinha de lá nos fazia acreditar nesse “Moby Dick” subterrâneo, enredo que caberia numa aventura escrita por Júlio Verne.

Por aquele pequeno portão gradeado de ferro da casa em que eu morava, de batente alto, soltei meu barquinho tosco, de papel. Vi-o flutuar nas águas por alguns minutos, até que desaparecesse.

Só muito tempo depois descobri que “navegar é preciso”. Minha nau frágil, não tripulada, era também esperança.

Buscava outro porto seguro além-mar.

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