domingo - 09/06/2024 - 10:54h

Guia turístico

Por Marcos Ferreira

Praça Vigário Antônio Joaquim no Centro de Mossoró (Foto: Marcos Elias de Oliveira Júnior)

Praça Vigário Antônio Joaquim no Centro de Mossoró (Foto: Marcos Elias de Oliveira Júnior)

Seja bem-vindo. Esta é Mossoró, minha cidade. O ‘minha’, claro, é mera força de expressão; mais pertenço que possuo. Bom, eis a remota Mossoró, terra da liberdade, conforme apregoam há quase um século. Município este que, segundo a lenda, expulsou o destemido Lampião e justiçou o também cangaceiro Jararaca quando os fora da lei invadiram esta província lá pelos idos de 1927.

Particularmente, embora os doutores do cangaço torçam o nariz, não me orgulho nem um pingo dessa história de brabeza de Mossoró. No fim das contas, depois de tanta chuva de bala, os bandoleiros dominaram esta comuna na trincheira da cultura. Sim. Hoje ninguém mais fala nos resistentes, mas tão só no bando de salteadores. Olhe ali, por exemplo, o espaço denominado Arte da Terra: dois bonecos gigantes de Lampião e Maria Bonita bem na frente, dando boas-vindas.

Isto sem falarmos num Memorial da Resistência que não resistiu à tentação de oferecer mais destaque aos invasores do que aos defensores. Hoje em dia, sendo otimista, talvez apenas uma dúzia de nomes que defenderam este fim de mundo à época do ataque ainda seja lembrada pelos mossoroenses de um modo geral, como o então prefeito Rodolfo Fernandes. Pudera, trata-se do prefeito.

Outra coisa. Jararaca, ferido com um balaço e enterrado ainda vivo no São Sebastião, de acordo com alguns historiadores, foi alçado à condição de santo milagreiro pelo povo desta cidade e adjacências. É o que estou dizendo. O sujeito passou de facínora a santo da noite para o dia. A sua cova no São Sebastião é simplesmente a mais visitada no Dia de Finados. Já o túmulo do herói Rodolfo Fernandes, sepultado no mesmo cemitério, salvo exceções, ninguém sabe onde fica.

Aquele prédio imponente ali era o glorioso Cine Pax, ora transformado em loja de roupas. Foi inaugurado em janeiro de 1943 e funcionou por mais de seis décadas. Fechou de vez as portas no ano de 2008, se não me engano. Assisti a ótimos filmes nesse importante símbolo da vida cultural mossoroense. O ponto alto do fim de semana das pessoas do meu tempo era ver um filme no Pax.

Cuidado com a moto! Melhor subirmos na calçada. Nosso trânsito é um bicho traiçoeiro. Aqui não se pratica direção defensiva, mas predatória. Alguns donos desses carrões, sobretudo, só faltam passar por cima da gente. Parece até que eles têm aversão a pedestres, a ciclistas e motociclistas. Tipos arrogantes, tanto os condutores dos carrões quanto os motoqueiros. A maioria vira para um lado e para o outro sem ligar a seta. Em especial os referidos donos dos carros luxuosos.

Está quente, não? Pois bem, meu amigo. Mossoró, entre outras denominações, é a terra do calor, do siroco em tardes mormacentas como esta e de eventuais madrugadas com uma cruviana gostosa. Durante o inverno, quando há, é uma maravilha, apesar do Centro alagar com facilidade. As noites costumam ser bem aprazíveis, e os bairros periféricos ficam cheios de cadeiras nas calçadas.

Esta é a Praça Vigário Antônio Joaquim. Mas o busto do vigário se encontra escondido naquela pracinha ao lado da Catedral de Santa Luzia. Por incrível que pareça, a enorme estátua que você está vendo no centro da Praça do Vigário não é do vigário. Esse é um monumento em homenagem ao ex-prefeito desta urbe e ex-governador do estado Jerônimo Dix-sept Rosado Maia, que morreu no auge da sua promissora carreira política em um acidente aviatório no ano de 1951.

Como eu disse, ali é a Catedral de Santa Luzia, onde os fiéis curvam os joelhos com peditórios ao Todo-Poderoso. Em geral, apesar da nossa estatística de homicídios ser uma das maiores do planeta, o mossoroense é um povo religioso, com supremacia católica. Aqui predomina a política do olho por olho, dente por dente, contudo as pessoas morrem de medo de ir parar no Inferno. Então, como se buscassem uma espécie de habeas corpus celeste, correm para os pés de Jesus.

Vamos para o outro lado. Que calor, hein?! Mossoró não é para amadores, nem para turistas desavisados. Beba sua aguinha gelada, se ainda estiver gelada. Ali é o Mercado Central, primeiro shopping de Mossoró. Eu e meus irmãos ficávamos animadíssimos quando chegava o domingo e meu pai nos trazia, antes do sol raiar, para fazermos algumas compras no Mercado. Era uma festa!

Tempos idos e vividos. Tenho saudades de muita coisa daquela época, embora o pão fosse tão caro e a liberdade pequena, como no poema do Ferreira Gullar. Hoje, entretanto, o pão voltou a custar muito caro, e a liberdade vive sob constante ameaça, se me faço entender. Mas voltemos ao pujante Mercado de outrora. Fico com a boca cheia d’água só de me lembrar do pastel quentinho, feito naquela horinha, que a gente devorava com um copázio de vitamina de abacate.

Quando não era uma abacatada com pastel, traçávamos uma panelada com molho de pimenta-malagueta. O bucho ficava em tempo de espocar, e o suor porejava na testa. “Caiu na fraqueza”, dizia meu pai caçoando de mim e dos meus irmãos. De outra feita, menino já taludo, trabalhei algumas vezes no entorno do Mercado, pastorando as bicicletas da clientela para descolar uns tostões.

Agora quero lhe mostrar o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, suntuosa construção que homenageia outro político da tradicional família Rosado e também ex-prefeito desta província, morto no ano de 1996. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia (isso é algo fácil deduzir) é irmão do ex-governador Dix-sept Rosado, cuja impressionante estátua, como o senhor constatou, se encontra no meio da Praça do Vigário. Aí está, portanto, o Teatro Municipal, palco da cultura mossoroense.

Veja aquela casa de drinques do outro lado da rua, na Avenida Rio Branco. Ali, durante uns bons anos, funcionou a Livraria Café & Cultura. Lugar excelente, ponto de encontro da intelectualidade local. Escritores, jornalistas, poetas, historiadores, médicos, advogados, professores, juízes, arquitetos, artistas, enfim, toda uma constelação pensante ocupava as cadeiras e mesas da Café & Cultura.

Era uma livraria como hoje não mais existe neste município, administrada e mantida pela senhora Ticiana Rosado. Nesse endereço, permita-me a autopropaganda, fiz o lançamento da primeira edição do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que contou com público expressivo. Foi no ano de 2006. Atualmente, ouso dizer, no tocante a uma livraria de verdade, com amplo acervo de autores e obras, disponibilizando um bom café para a clientela, estamos órfãos.

Bem, acredito que o senhor está cheio desse papo de letras. Vamos agora a um reduto não menos cultural e emblemático desta aldeia: o Alto do Louvor. Já ouviu falar no Alto do Louvor? Não?! Então, meu caro, apresentá-lo-ei, como diria, cheio de mesóclises, o missivista federal Michel Temer. Trata-se do berço recreativo e sifilítico deste fim de mundo. Mal comparando, vir até aqui e não conhecer o Alto do Louvor é mais ou menos como você ir a Roma e não ver o Papa.

Alto do Louvor é a nossa extinta zona de meretrício. Muitos dos nossos ilustres e respeitáveis homens (não foi o meu caso!) foram iniciados sexualmente nesse antro do amor remunerado. O antes glamouroso Alto do Louvor fechou as portas há muito, porém a lenda das suas casas de tolerância e mulheres de vida nada fácil sobrevive até hoje no imaginário popular como uma ferida benigna.

Beba mais água. O senhor está ofegante.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/06/2024 - 08:18h

A conta está chegando

Por Marcos Ferreira

Foto extraída da Web

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Talvez o colapso absoluto, o apocalipse total, ainda demore um século. Ou, quem sabe, bem menos do que isso. Não sei. O que sei é que a conta está chegando. Os cientistas estão carecas de nos alertar sobre essa questão.

Uma espécie de Zaqueu, antigo cobrador de impostos em Jericó, baterá à nossa porta. E, ao que parece, ele vem a galope. Trata-se de uma dívida que geramos e que não pode ser paga com nenhum cartão de crédito. Quando o sapato realmente apertar, quando chegar a hora da onça beber água, não mais será possível pendurar a despesa num prego, parcelar em prestações a perder de vista.

Este globo azul, nosso lindo planeta Terra, mostra-se de saco cheio, zangado. Já não tolera como antes tantas agressões e desumanidades da destrutiva raça humana. O Homem é essencialmente mau, pernicioso, um corpo estranho, um tumor que a Natureza decerto vai expelir.

Sim, há muita gente boa por aí, pessoas que agem de modo admirável, que respeitam e tentam fazer do nosso habitat um lugar melhor. Esses, infelizmente, são um tiquinho, uma gota de sensatez no oceano das maldades do bicho-homem. Chuvas diluvianas, furacões, fortes ondas de calor, terremotos e temperaturas glaciais surgem mundo afora. É isso. A conta está chegando com juros altíssimos e não temos como pagá-la. Gastamos até o último níquel de paciência da Natureza. Ninguém se engane, não suponham que este planeta será destruído. Não como se imagina.

O que está em avançado processo de extinção é a nossa permanência sobre a face da Terra. O planeta vai cobrar o que devemos, vai se livrar dos tumores que somos nós: a nociva humanidade. O desrespeito à fauna e à flora e a cobiça que nos leva a incontáveis e irreparáveis agressões ao meio ambiente não ficarão impunes. Não. Nada disso receberá indulto. O débito é astronômico e inegociável.

Não sou cientista nem religioso. Todavia tenho olhos com que ver e ouvidos com que ouvir. Os sinais estão às escâncaras. O derretimento dessa “geleira do juízo final”, por exemplo, é uma reação da Natureza entre o sem-número de consequências pelas quais teremos que responder. Aquelas suaves e inócuas palavras do sumo pontífice pedindo um cessar-fogo são um risco n’água. Ninguém (entenda-se Rússia e Israel) dá a mínima. Com as exceções já referidas, o Homem é o pior inquilino que habita a Terra. Sim. O ser humano é uma besta-fera falsamente civilizada. Sob as barbas e olhos das grandes e pequenas nações, o tirano da Rússia prossegue massacrando a Ucrânia. Idosos, mulheres e crianças somam a maior quantidade de mortos.

Em Gaza é ainda pior. Com sangue nos olhos e nas mãos, Benjamin Netanyahu, primeiro-demônio de Israel, também comanda uma guerra covarde contra a Palestina, genocídio que já resultou em milhares de mortos, civis inocentes, sobretudo (repito) mulheres, crianças e idosos. Enquanto isso os terroristas do Hamas, verdadeiros alvos do exército israelense, continuam vivinhos da silva.

O jumento é bom. O Homem é mau. É mais ou menos assim que dizia Luiz Gonzaga em uma de suas músicas de maior sucesso.

A Terra, como sempre, vai renascer do cataclismo. O mesmo não se pode dizer da espécie humana. É possível que não reste ninguém para repovoar este planeta. Nem mesmo os imortais das academias de letras, supostamente imorredouros. A hecatombe aqui abordada não representa uma simples crônica distópica. Não é mera distopia! E não acho que Deus ou Jesus Cristo moverá uma palha sequer para salvar a nossa pele.

O Criador também está de saco cheio. Tal coisa não é de hoje. Segundo as Escrituras, o Todo-Poderoso ficou transtornado e lavou as mãos desde aquele terrível dia em que crucificaram o Nazareno, o filho unigênito do Altíssimo.

As tragédias são brutais. As guerras e a fúria da Natureza têm se revelado piores do que em todas as etapas da era medieval. As superpotências bélicas e econômicas cairão de joelhos, as mãos erguidas para o Céu, pedindo clemência. Mas aí será tarde demais. Como diz o conto bíblico, haverá choro e ranger de dentes. Acho muito improvável que dessa vez surja um Noé com uma arca salvadora.

Se tal arca por acaso aparecer, creio que será (merecidamente) para resgatar um bocado de bichos ditos irracionais. Esses não têm culpa alguma no cartório planetário. E eu, que nem sei rezar, apenas aguardo nosso fim.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 26/05/2024 - 03:42h

Meu velhobook

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa da Web

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Hoje, usando apenas o dedo indicador da mão direita, posto que não tenho a destreza que tantos apresentam no tocante a mensagens por escrito neste aplicativo, resolvi escrever esta crônica no WhatsApp. Adianto, porém, que é um atrevimento que não pretendo repetir. Meus óculos já não contribuem para esse tipo de ousadia.

A deficiência ocular é para perto quanto para longe. Esta, então, é a primeira e última vez, embora eu deva admitir que estou até desasnando, como se diz.

O motivo disso é que meu velhobook está passando uns dias na casa de recuperação Tec-Micro, situada na Avenida Alberto Maranhão, 2377. Precisa de um urgente e delicado reparo. Embora com uma aparência um tanto jovial, ele entrou na terceira idade. Tem muitos anos de serviços prestados, de entrosamento com este escriba. Parceria que, até o momento, rendeu-me três romances, um livro de contos (afora alguns esparsos) e três reuniões de poemas.

Dois dos romances, a exemplo dos contos e poemas (cujos títulos convém não divulgar agora), são inéditos. Há também uma porção de crônicas e o premiado e republicado A Hora Azul do Silêncio, vencedor dos “Prêmios Literários Cidade de Manaus” na categoria melhor livro de poesia.

A ideia de trocar meu aparelho por outro novinho, mais avançado, desagrada-me. Pois nosso vínculo vai além da tecnologia. Bem parecido com o sentimento que alguns autores tiveram quando da mudança das velhas máquinas de datilografar para produzir seus escritos num computador. Isso se deu, por exemplo, com o recém-falecido José Nicodemos (veja AQUI), verdadeiro estilista da língua portuguesa, sobretudo da crônica.

Nicodemos nos deixou no dia 18 de maio. Ele tinha oitenta e seis anos e, a exemplo de Dorian Jorge Freire, um dos melhores textos do nosso país.

Pensei num mundéu de coisas para escrever, entretanto preciso me contentar com o que foi dito. Aliás, escrito. Cogitei dedicar uma página inteira a essa tragédia brutal que assola o Rio Grande do Sul, mas sem esquecer dos incontáveis desabrigados e desvalidos desta Mossoró (salvo exceções!) desalmada.

Essa utilíssima ferramenta chamada WhatsApp, no ritmo que estamos, vai quebrar o meu galho, me salvar da lacuna durante a ausência do meu velhobook. A repetição do carinhoso neologismo velhobook, que pode representar uma típica redundância, é um tratamento de mero afeto. Percebo, com a minha cabeça ora cheia de metalinguagem, que até esses equipamentos têm seu lado estimável. É mais ou menos o que existe entre mim e minha máquina de escrever, de contar histórias.

Bom. Acho que devo parar por aqui. Puxar mais conversa, engordar esta prosa do velhobook escrevendo neste aplicativo me parece um risco. De repente, não mais do que de repente, como no verso do poeta Vinicius de Moraes, pode acontecer uma trapalhada da minha parte e tudo isso se perder. Torço que o meu Editor consiga pinçar esta crônica digressiva, copiá-la do WhatsApp de algum jeito.

Depois, quando o velhobook retornar dos seus dias de conserto, trocaremos umas ideias e aí talvez eu traga à tona uma crônica mais robusta, que lhes ofereça um volume maior de texto. Todavia isso é por demais relativo; algo discutível. Um grande número de páginas ou livros bastante volumosos não significam sucesso literário. Se fosse assim todo dicionarista ganharia um Nobel de Literatura.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/05/2024 - 10:30h

Confraria do café

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

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O poeta Mario Quintana disse certa vez que “o café é a bebida da amizade, o companheiro das reflexões solitárias, o refúgio dos pensamentos inquietos.” Sim, é bom saborear um café para começar o dia; um gole de café nos faz despertar para a labuta diária. E, como bem disse o poeta, é o companheiro das reflexões solitárias. Às vezes, ao tomar um café, refletimos sobre o nosso eu, muitas vezes tão repleto de dúvidas e angústias.

Entretanto, degustar um café ao lado de boas companhias faz toda diferença. Assim é com a confraria do café, lá na casa do nosso dileto escritor, Marcos Ferreira. Ele nos recebe de braços abertos, com um sorrisão estampado no rosto. Já tive o prazer de fazer parte dessa reunião de pessoas do bem, juntamente com Rocha Neto, do excelente restaurante Prato de Ouro. É um momento para dar boas risadas, sem o formalismo de alguns ambientes cheios de frescuras.

Por lá, aparecem pessoas dos mais variados estratos sociais, e o melhor é que não há hierarquia entre os convivas, todos ficam à vontade. É um espaço plural, no qual as conversas são leves, sem o radicalismo que tem dividido o país nos últimos tempos.

O fato é que sempre gostei de visitar Cafés. Há mais de dez anos, semanalmente, vou tomar um cafezinho em Duarte´s Café, de propriedade de Dona Toinha e Rafael Arcanjo, professor aposentado da Uern. Já conversei com muita gente boa no local. Aliás, foi onde conheci o advogado e escritor Bruno Ernesto, colaborador deste Blog.

Vez ou outra, acompanhado da minha mulher, visitamos alguns Cafés da cidade, já conhecemos quase todos. Alguns ambientes são mais requintados, outros, simples. Não importa, o que vale é o calor da companhia, além do café, claro.

Durante os quinze anos que lecionei na Universidade Potiguar, no intervalo das aulas, convivia com professores de vários cursos e, ao tomarmos um café, trocávamos experiências, era um momento aprazível. No Fórum da Comarca de Areia Branca, onde trabalho há quase dezenove anos, sempre tem a pausa para o cafezinho, ocasião para ficar atualizado das fofocas.

Pois é, da próxima vez que for à casa de Marcos Ferreira, na confraria do café, levarei umas saborosas bolachas da padaria de Sinval e, entre um gole e outro, vamos colocar a prosa em dia. Mesmo porque, segundo Quintana, “o café é a poesia dos encontros, o elo que une pessoas e histórias.”

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

 

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 19/05/2024 - 09:28h

Copidesques e revisores

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa

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Espero que ninguém se ofenda, contudo acho que o trabalho mais ingrato, senão inútil para quem o realiza, é o de copidesque e revisor de textos. O ofício desses lapidadores do nosso idioma é totalmente obscuro. Pois nesse triunvirato entre escritor, copidesque e revisor, quem sempre leva os louros por uma coisa bem escrita (livre de pleonasmos, ecos, redundâncias, erros de ortografia, de concordância verbal e nominal, além da sintaxe por vezes caótica) é o suposto literato.

Precisa-se fazer a seguinte distinção: nem todo revisor é copidesque, porém todo copidesque é revisor. No geral, sem que isso seja considerado um detalhe negativo, o revisor se encarrega da importante missão de localizar e consertar falhas puramente gramaticais e tropeços de digitação. Já o outro faz tudo isso e pode transformar uma página ou livro muito ruim em algo apresentável do ponto de vista redacional. Quanto ao aspecto artístico, aí vai depender de cada autor. Do contrário, ultrapassando essa linha de atuação, descambaria para a alçada do escritor fantasma.

Tudo bem que há aqueles indivíduos fora de série, narradores excepcionais, homens e mulheres com “redação própria”, como no caso de Otto Lara Resende, mas isso não é uma regra. Porque ninguém, por melhor que seja, pode ignorar a prudência e abrir mão de olhos treinados, mais atentos e descansados.

Diante do que oferecem, e considerando a remuneração desses profissionais, pode-se dizer que o reconhecimento é pífio. Na medicina, na advocacia, na arquitetura e na engenharia, por exemplo, é certeza que as pessoas logo perguntem quem foi (ou é) o médico responsável, o advogado, o arquiteto ou engenheiro.

Já em relação a um determinado romance, um livro de contos, de crônicas ou de poemas, ninguém quer saber quem foi o sujeito (oculto) que cuidou do copidesque e da revisão. Sei que as palavras copidesque e revisor aqui empregadas pipocam como um tipo de redundância, todavia não é possível falar acerca dessa questão sem repeti-las.

Segundo Luis Fernando Verissimo, que também foi revisor de jornal: “Os revisores só não dominaram o mundo porque ainda não se deram conta do poder que têm”. A meu ver, enfim, esses operários das letras são muito pouco reconhecidos. Não sei o que seria dos literatos sem os copidesques e revisores.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/05/2024 - 05:44h

De onde brotam os meus escritos

Foto do próprio autor da crônica

Foto do próprio autor da crônica

Por Marcos Ferreira

Certas vezes, já noite alta, acontece de avistarmos em algumas ruas e estradas aquele ser humano (homem ou mulher, idoso ou idosa) sozinho e a pé em direção a lugar nenhum. Isso mesmo! Pois não têm para onde ir ou retornar. Simplesmente vagam por aí durante horas a fio sem amparo, sem um teto.

São os leprosos sociais. Uma gigantesca parcela de indivíduos tapa o nariz e passa ao largo ao se deparar com os pobres-diabos. Há quem ache que miséria é transmissível pelo ar e, sobretudo, pelo contato físico. Já fui um leproso social, no entanto encontrei cidadãos que me trataram com dignidade. Vivi tempos difíceis, como muitos, mas tive a felicidade de ser acolhido por anjos sem asas.

Nem todos querem saber desses desprotegidos que a Bíblia Sagrada afiança que são nossos irmãos. Porque (na cabeça de certos fatalistas) tais desgraçados estão colhendo somente o que plantaram. E assim lavam as mãos, imitam Pôncio Pilatos e vão às suas igrejas na cara dura dizer a Deus e a Jesus Cristo que são dignos de todas as bênçãos, bem-aventurança e prosperidade. É de sacripantas dessa natureza que brotam os meus escritos. Querem salvação sem fazer caridade.

Olho à minha volta e constato o quanto sou privilegiado. A saúde às vezes falha um pouco, todavia estou no lucro. Penso logo naqueles que não têm nada, que estão na sarjeta. É daí, entre outras coisas, que brotam os meus escritos. Adquiri essa mania, essa teimosia que faz com que eu me importe com a vida alheia. A vida de gente dessa espécie, gente desvalida, abandonada por Deus e pelo Diabo, invisíveis em meio a uma sociedade (salvo exceções) materialista e discricionária.

Agora todo “mundo” está sensibilizado com a tragédia no Rio Grande do Sul. Uma lástima! É comovente. Difícil segurar as comportas dos nossos olhos. Ao menos as comportas dos meus. Mas não vi (não vejo) comoção dos brasileiros e governos quando a seca no Nordeste castiga e humilha os nossos microscópicos agricultores, a gente pobre do sertão nordestino, o sertanejo que, desde sempre, é largado à própria sorte, ao deus-dará. Daí também brotam os meus escritos.

Essa barbárie na Palestina e na Ucrânia é uma vergonha ecumênica, uma pústula planetária. Vi em uma rede social uma frase atribuída a William Shakespeare que diz o seguinte: “O Inferno está vazio, todos os demônios estão aqui!”. Concordo. Enquanto inocentes são massacrados na Palestina e na Ucrânia, o sumo pontífice (a exemplo de todos os outros em suas épocas) segue rezando, contudo os demônios não dão a mínima para as orações do porta-voz do Altíssimo.

Fulano escreve, anuncia-se como solidário, mas na hora de baixar o vidro do carro e estender a mão ele vira a cara para o outro lado, o semáforo fica verdinho e o falso cristão segue viagem no bem-bom do ar-condicionado do seu veículo confortável. Outros são mais afetados, pegam um microfone e deitam falação, vendem-se por defensores e representantes dos miseráveis. Tudo lorota!

Dessas e outras coisas, volto a dizer, brotam os meus escritos. Aquele sem-número de gatinhos e cães abandonados em Mossoró são criaturas do Criador e merecem o mínimo de nossa sensibilidade e ajuda. Mas os políticos (os da direita quanto os da esquerda) se passam por cegos ou fingem não saber de nada. Desprezam a problemática dos animais de rua e o vínculo disso com as zoonoses.

Há cerca de um mês, ao comentar uma crônica minha, o senhor Pedro Nunes, meu vizinho, perguntou-me de onde é que tiro tanto assunto para escrever. Respondi que essa é a parte menos difícil, pois os meus escritos brotam de um manancial chamado vida em sociedade. Ou seja, algo que não tem fim.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 05/05/2024 - 09:14h

Autorretrato

Por Marcos Ferreira

Foto do autor aos quatro anos de idade (Reprodução)

Foto do autor aos quatro anos de idade (Reprodução)

Tudo está na mesa, tudo às claras, meu irmão. Só não vê quem não quer. Todas as cartas estão na mesa da desigualdade social. A vida está posta e a gente sabe que a vida não é moleza, não. Nesse jogo da existência, do sobreviver cotidianamente, o pão não é um artigo fácil. São muitas voltas no corpo, muito jogo de cintura. Pergunte aos desvalidos deste país se estou mentindo. Não estou.

Ah, como somos felizes! Ainda assim nem sempre somos gratos; há vezes em que esquecemos disso. É até corriqueiro. Somos avarentos, somíticos. Porque, como se diz, a medida do ter nunca enche, sempre queremos algo mais. Nunca (salvo exceções) estamos satisfeitos com o que já temos. No final das contas, meu irmão, para a maior parte das pessoas que constituem esta pátria por demais injusta, a vida é um osso. É muito sofrer, muito suor, lágrimas, choro, ranger de dentes.

Quantos não estão por aí tiritando de frio, desabrigados, acossados pela fome, perseguidos pelo desemprego, sem onde cair mortos? Já eu, graças a Deus, estou muito bem, obrigado. Como se os outros, os miseráveis, não fossem merecedores da mão protetora desse mesmo Deus que ora me propicia bem-estar e amparo. Não compreendo esse Deus, porém todos gritam que Deus sabe o que faz.

Penso agora nessa desinteligência, nesse desígnio que deixa uma gigantesca parcela da população ao deus-dará. No frigir dos ovos, pois, parece que Deus não vê isso. É tão triste, meu irmão. Olho à minha volta e aqui me encontro e me sinto privilegiado, agraciado com um teto, comida, meus remédios e um pouco de dinheiro para acudir as despesas, pagar consultas médicas. Minha geladeira, meu irmão, é velha, mas representa um luxo na minha também modesta opinião.

Além de comida, água, luz, uma rede de dormir e alguns poucos móveis, usufruo de segurança. Considerando a penúria, a invisibilidade escancarada nos semáforos, os cartazes com pedidos de socorro, os brasileiros desamparados que suplicam pela caridade de pessoas que podem ajudar e não ajudam, afirmo que atualmente minha vida é um paraíso. Conto até com um serviço de internet.

Desapareceu a casa de taipa, de pau a pique. A chuva pode vir com vontade, pois aquele teto estiolado agora é outro que não me causa transtornos. O fogão a lenha escafedeu-se. Sumiram a tisna das paredes da cozinha e o rendilhado de picumãs. O café da manhã já não é diáfano com o pão da véspera, que a gente comprava pela metade do preço em uma padaria da Avenida Alberto Maranhão.

A farinha com açúcar no almoço ou jantar deu lugar a coisas melhores. Após longos anos, Deus disse: “Vão embora da vida dessa criatura, senhora Fome e senhora Miséria!” Então elas obedeceram e picaram a mula.

Deus precisa repetir essas mesmas palavras em todos os lares onde a Miséria e a Fome continuam como inquilinas, meu irmão. Tenho certeza de que não sou o único merecedor da intercessão do Altíssimo. É inevitável, quando pego no prato de comida e na colher, esquecer desses que agora mendigam nos semáforos, lançando contra os abastados as flechas dos seus olhares famintos, carentes.

Sou um sobrevivente, meu irmão. E hoje, após aqueles tempos bicudos, estou certo de que o correto é a gente contar nossa história com veracidade. Deus me disse ainda que eu não fizesse muitos planos, que esse negócio de diploma de nível superior não era (até agora não) para mim. Em troca, para meu ressarcimento, o Todo-Poderoso me deu o consolo de escrever por homologação divina. Isto não dá camisa a ninguém, como se costuma dizer, mas me abriu algumas portas.

Josué de Castro, em seu clássico Geografia da Fome, diz: “Metade da humanidade não come; e a outra não dorme, com medo da que não come”. Quem dera que fosse só a metade sem comida. O número é muito maior, infelizmente. Josué de Castro (o qual o deputado federal Guilherme Boulos parafraseou) também disse que a fome no Brasil não é um problema social, e um projeto político.

Entendo dessas coisas, meu irmão. Tenho conhecimento de causa nesses assuntos de vazio estomacal. No correr daqueles anos de 1970 e 1980, sobretudo, éramos uma prole de onze filhos para um sapateiro e uma dona de casa analfabeta colocar comida na barriga. Ah, meu irmão! Não diga que é coitadismo ou pobrismo que agora salta das pontas dos dedos deste tecelão de palavras. Não diga.

Imagine isso: um menininho cabeçudo e com cara de choro, extraído do útero da miséria, agora exposto num retrato em preto e branco carcomido pelo tempo. Quem diria que ele (um zero à esquerda no tocante aos algarismos) se tornaria um homem de letras. Não é muita coisa, eu sei, contudo não deixa de ser uma simbólica façanha. Porque você, meu irmão, ficou comigo até o final destas linhas.

Imagino que isso seja um indicativo de que este autorretrato, feito de reminiscências que não se apagam na minha cabeça, tocou o seu coração e enterneceu a sua alma. Dito isto, meu irmão, é sempre possível a gente tirar um tantinho do quanto nós temos e oferecer, ao menos, um pão da véspera àquelas pessoas que talvez só tenham em suas casas nada além de café ralo e farinha com açúcar.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Política
domingo - 28/04/2024 - 06:20h

Onde você estiver

Por Marcos Ferreira

"Preciosa" em pose para foto do autor da crônica

“Preciosa” em pose para foto do autor da crônica

Penso em quanta vida você tinha pela frente. Uma mocinha cheia de saúde e vigor, uma bichana sapeca, irresistível. Assim era você. Poderíamos chegar à velhice juntos. Isto supondo que eu alcance uma idade avançada. Porém o acaso, um destino injusto e tão perverso, tirou você de mim. Estamos irremediavelmente separados. Onde você estiver, Preciosa, saiba que você nunca será esquecida.

Restaram sobre os móveis as marcas dos seus pesinhos. Todas as suas coisinhas continuam aqui: a caixa com a areia que você nem pôde usar; a ração também posta recentemente; a vasilha com a água que eu trocava com frequência por outra geladinha. Sim. Daqui por diante, neste nosso diálogo (na verdade um monólogo proferido em silêncio), empregarei uma porção de diminutivos repletos de amor e brandura. Durante esses dias fui dormir (ao menos tentei) com a janela e a porta da cozinha abertas, na esperança de você voltar a qualquer hora da noite.

Você não calcula o quanto é difícil enxergar o que escrevo neste momento tendo nos olhos um oceano de tristeza e saudade. É complicado, Preciosa. Talvez alguém me diga: “Adote outra gatinha”. Não quero! Não tenho mais lugar, não tenho mais espaço no meu coração onde se possa inserir outra cicatriz gerada pela morte de uma ternurinha como você. Você se foi para sempre, querida Preciosa, e me deixou todo esse vazio impossível de ser preenchido por nenhuma outra.

Lembra de quando a gente se encontrou, da primeira vez que nos vimos? Naquele instante (com um ou dois meses de vida, abandonada no mundo, indefesa, passando fome e sede, doente e invisível perante a maior parte das pessoas) senti que as nossas almas tinham tudo a ver. Você foi um arrimo, uma companheirinha, o meu facho de luz, um farol nesta minha existência por vezes obscura.

Ah, Preciosa! Você fazia a Solidão de gato e sapato. A sua presença, além de uma dádiva para este meu espírito de pescador de encantamentos, era um dia a dia de afagos, mimos, cumplicidade. Seus pelinhos permanecem, sobretudo, nas roupas de dormir. Tínhamos, você sabe, uma sintonia, uma praxe toda especial quando se aproximava a vez de sossegarmos, após eu tomar os meus remédios e ver um pouco de televisão.

A rede armada na sala, duas cadeiras perto de mim. Você ocupava uma e na outra ficavam meus óculos, o telefone e o controle remoto da tevê.

Depois de passar um tempinho comigo na rede, de afagar o meu peito com as suas patinhas acolchoadas e conferir o meu cheiro, como se assim estivesse me dando um beijinho de boa noite, você ia para a sua cadeirinha. Daí a pouco você já estava dormindo. O efeito dos meus remédios também chegava, eu desligava tudo e a gente dormia dessa maneira. Até que na manhã seguinte você me acordava logo que os passarinhos começavam a pipilar nos verdes condomínios das arvores.

Agora não há mais nada disso, Preciosa; apenas esta dor, a ausência, a salina que se formou nos meus olhos e vai riscando o meu rosto. Procurei você em tantos lugares. Perguntei a um monte de moradores deste bairro, contudo nenhum deles me deu notícias de você, Preciosa. Nem o apoio das redes sociais foi poderoso o bastante para informar o seu paradeiro. Achei que estivesse muito distante, porém você estava quase debaixo do meu nariz. Isto é, em cima do telhado de uma casa vizinha. Somente o mau cheiro, após esses dias de buscas, denunciou a sua localização.

Você desapareceu naquele começo de noite. Até agora não sei o que aconteceu. O que eu sei é que nunca mais terei as suas pequenas travessuras, as suas brincadeiras repentinas, os zapetrapes vez por outra nos meus calcanhares, a sua meiguice à noite, no horário em que a gente se preparava para dormir.

Dava um trabalhinho, mas eu adorava fotografar você. O seu olhar me transmitia muita coisa boa. Sentia-me tão querido por você. Guardarei as suas fotos, os vídeos e as boas e tantas recordações.

Adeus, minha Preciosa!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 21/04/2024 - 08:50h

Aniversário em nuvens coloridas

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica, em sua casa

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica, em sua casa

Por Marcos Ferreira

Posso afirmar, modéstia à parte, que sou um tipo discreto, apesar da circunferência craniana. Hoje, porém, quero sair um pouco dessa característica e apontar quatro indivíduos, denunciá-los por uma benfazeja conspiração a mim destinada. Isto ainda em virtude da passagem do meu natalício, ocorrida aos 10 de abril. Aproveito o momento para agradecer a todos aqueles que, de um modo ou de outro, não deixaram essa obscura data passar em brancas nuvens, como se diz popularmente. Não deixaram, não.

O dia dos meus anos transcorreu em meio a nuvens bem coloridas, afagos e muito carinho. Gente que eu nem esperava pegou o telefone e me deu os parabéns.

Vejamos se não entrego os “acusados” logo de cara. Vamos protelando um tantinho a revelação dos conspiradores. Sim, meu intuito é fazer um pouco de suspense, bancar o mestre Conan Doyle, mas sem a pretensão (podem crer!) de me comparar ao criador do célebre detetive Sherlock Holmes. De jeito algum.

Bem, acho que não terei como ocultar os nomes dos “acusados” dessa forma, fazendo rodeios em demasia, esgotando a paciência do leitor. Temo que essa estratégia (brincadeira de esconde-esconde) faça com que um Valdemar Siqueira, um Rocha Neto, uma Vanda Jacinto, uma Zilene Medeiros ou um Fransueldo Vieira de Araújo, por exemplo, fiquem entediados com tantas delongas e se interessem por ver apenas o que hoje os talentosos cronistas Odemirton Filho e Bruno Ernesto escreveram.

Obviamente que há outros articulistas deste Blog Carlos Santos não menos interessantes. Pois é, reconheço que o circunlóquio está excessivo, longo por demais. Então cuidemos logo de encurtar a conversa e revelar os envolvidos na conspiração.

Antes, para que a palmatória do esquecimento não me castigue, quero registrar que meu aniversário teve um bolo da melhor qualidade. Foi feito por Natália, boleira de mão cheia. Felizmente não estava coberto de velas miúdas nem com uma plaquinha de número 54 indicando o antes ou o depois de Cristo.

Além do bolo, continuando com as gentilezas, informo que fui surpreendido com outros presentinhos que me deixaram muito contente. É isso. Não tenho porque negar. Senti-me querido, lisonjeado, da mesma forma como me senti com as mensagens nas redes sociais, pelo WhatsApp, nos telefonemas e também da maneira como fez meu querido amigo Elias Epaminondas, que queimou a linha de largada e já me parabenizou uns cinco dias antes no Facebook. A todos sou grato.

Agora, enfim, vamos aos benditos conspiradores: a bancária aposentada Bernadete Lino, de Caruaru; o gramático João Bezerra de Castro, de Parnamirim; e o poeta Francisco Nolasco, este último do País de Mossoró.

Os três, num trabalho de equipe apoiado por Natália, especialmente a partir do olhar sensível de Bernadete Lino, visitaram um tal de Mercado Livre e, quando eu me dei conta, eis que chegou a esta Euclides Deocleciano, 32, nada mais, nada menos que uma lindíssima escrivaninha. Ou seja, Bernadete Lino, atenta a uma crônica com a minha felina Preciosa em cima do meu espaço de escrita (uma pequena banca de plástico), propôs aos demais amigos a aquisição do referido móvel.

Claro que esse gesto me agradou não só pelo aspecto material. Sobretudo pela delicadeza de quem, embora tão longe geograficamente da realidade e do cotidiano deste homem de letras dos cafundós, falou consigo própria e decidiu que mereço algo mais do que uma mesa de plástico apertada para escrever. Por anos a fio, o que não era nenhum segredo, produzi os meus textos em tais condições.

Foi Bernadete, portanto, com o seu olhar atento e bondoso, quem orquestrou a compra desta confortável escrivaninha em que ora redijo estas palavras emotivas. Cada vez mais, ao contrário de tempos outros, vejo que estou cercado por pessoas que me têm sincera estima e benquerer. Assim como Cilene Freitas, amiga e vizinha que me brindou com uma belíssima (permitam mais este superlativo) caneca de louça na qual foi gravada uma foto deste cronista. Tudo feito de modo carinhoso, antecipado, com o nobre intuito de fazer este coração de escriba bater mais feliz.

É muito bom ser lembrado. Mas é ainda melhor não ser esquecido. É possível que o leitor considere que há redundância nessa questão de memória e esquecimento, contudo lhes asseguro que existe uma diferença semântica, algo conotativo. Deixemos isso de lado. Meu aniversário não passou em brancas nuvens, não caiu na deslembrança. Vieram as nuvens coloridas e isso me fez muito bem.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/04/2024 - 14:24h

A irmã de Cristo

Por Marcos Ferreirafé , biblia, religiosidade, sagradas escrituras,

Quase três horas adulando um soneto. Consegui dar cabo dos quartetos (razoáveis, a meu ver), porém os tercetos emperraram. Paciência. Mudemos para a crônica. Deixemos o poema amadurecendo nos escaninhos da mente. No mais das vezes persevero, travo uma luta ferrenha com os meus neurônios, mas há ocasiões em que é preciso dar um tempo, tomar um banho bem frio e uma boa talagada de café amargo. Após isso, o que não é regra, termino encontrando a solução para os versos insubordinados, inacessíveis como certos políticos reeleitos.

Se eu sigo algum ritual para escrever? Talvez. Mas seria algo involuntário. Inquieto-me da mesa para a cama, da cama para a rede, armada aqui na sala, às vezes com uma caneta e bloco de notas. Então “eu olho, assustado, para a página branca de susto”. Apenas para citar Quintana, embora alguns leitores mais áridos, carentes de cultura literária, considerem tais citações uma coisa presumida, empolada, pedante. Fazer o quê? Não posso responder pela ignorância alheia. A minha já me é o bastante para que eu entenda que aquilo que sei é uma gota e o que ignoro é um oceano, como nas palavras do cientista inglês Isaac Newton.

Ouso dizer que hoje em dia, dispondo-se de um serviço de internet, de um celular ou computador, tornou-se fácil (aspas) que um indivíduo se venda por intelectual. Ou afete, digamos, uma intelectualidade medíocre. Porque frases engenhosas como essa de Newton são absolutamente encontráveis nos sites de busca, sem que o suposto intelectual precise consultar sua biblioteca física um sem-número de vezes, no caso daquelas pessoas que possuem bibliotecas.

Temos em Mossoró um autor — rapaz velho com mais de setenta anos, formado em ciências jurídicas e medicina veterinária, entretanto estabelecido no ramo de peças de automóveis — que já deveria ter sido agraciado com um Jabuti ou um Prêmio São Paulo de Literatura. Se não pelas várias obras publicadas do próprio bolso, entusiasticamente aplaudidas pelas igrejinhas daqui e da capital potiguar, ao menos pela admirável qualidade das epígrafes e aforismos com que ele impregna os seus romances, contos, poemas, crônicas e ensaios literários.

Sim. O senhor Olavo Cardoso, eis o nome do referido escriba, notabiliza-se (no meu modo de ver) muito mais pela citação das obras e pensamentos de terceiros do que pelos méritos de suas próprias letras.

Isso, no entanto, não é da minha conta. Decerto também não é do interesse do paciente leitor. Iniciei estas linhas falando sobre poesia, e é sobre poesia que desejo continuar falando. Talvez eu devesse expor aqui as duas primeiras estrofes do referido soneto. Não. Fiquemos na categoria da crônica. O que não me impede de lhes apresentar a minha opinião sobre a arte do verso.

Eu dizia da minha peleja à cata dos tercetos, até agora sem remédio. Estalo os dedos. Daí a pouco vou dar uma olhada no trânsito. Espio por cima do muro, que é baixo o suficiente para esse tipo de espreita. Subo em dois tijolos de cerâmica, que mantenho ali para essa finalidade. Ganho uns vinte centímetros de altura e consigo espichar a cabeça para melhor examinar a rua. Contudo ainda é cedo e quase não há tráfego; uma motocicleta e um carro passam devagar. A seguir, com menos velocidade, dois ciclistas e um carroceiro tomam rumos contrários. A carroça segue em direção ao oeste enquanto as bicicletas rumam para o leste. Ruazinha estragada e morta de um domingo igualmente morto. Continuo, repito, sem engenho para dar à luz os tercetos necessários à conclusão daquele soneto iniciado há horas.

Volto para a rede, enfastiado da monótona paisagem da rua. Apesar do inexplicável tremor das minhas mãos, coisa que o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) tem se empenhado em resolver, pego o bloco de notas e me ponho a cismar, os olhos mirando o vazio, mordiscando a tampa da caneta. Sobre o que escrever, afinal, nesta crônica digressiva, sem rumo certo? “Decifra-me ou te devoro”, ameaça-me a esfinge de Tebas. É melhor que eu não permaneça na enrolação, abusando da paciência do leitor, cujo tempo destinado às nossas crônicas de qualidade pretensamente elevada merece ser valorizado. Pego outra xícara de café amargo e me ponho a saborear a rubiácea. Sequer um braço de vento se insurge contra a quietude.

Ouço a buzina de um carro, seguida pelo som das portas se fechando, e vou espiar a rua outra vez. A visita não é para mim, felizmente. O veículo parou diante da casa da senhora Margareth. Desceu um jovem e rechonchudo casal e o rapaz tocou a campainha da residência. Daí a pouco a senhora Margareth lhes abriu o portão. O cachorro vira-lata do padeiro Saldanha vela um osso descarnado ao pé do poste. E esta rua vazia e morta me lembra um poema de Mauro Mota. Uma cigarra estridula seu característico canto de acasalamento nas imediações.

Sofro intimamente a dor dos versos que não consigo parir, esperando uma fagulha de engenho. Tenho a impressão de que me olham, à sorrelfa, os olhos invisíveis da Poesia, que hoje está de mal comigo.

Antes de atritarem as primeiras pedras e obterem o fogo, ela já se fizera inquilina dos subterrâneos e porões das nossas almas. Precede a escrita, a tinta e o papiro. Constitui os primórdios da linguagem. Compõe a nossa essência e cotidiano desde a pré-história, do interior das cavernas às habitações de agora. Socializou e interagiu com o homem primitivo à volta de fogueiras.

Ela está em toda parte. Sobreviveu a hecatombes e cataclismos, foi tragada por dilúvios e consumida por vulcões, no entanto ressurgiu como uma fênix. Sempre viveu conosco, em meio à luz e às trevas, independente do nosso querer e escolha. Existe desde a criação do mundo e do ser humano. Possui dimensões microscópicas quanto gigantescas. Muitas vezes se encontra bem diante dos nossos olhos e não conseguimos enxergá-la. Com algumas exceções, pois há quem jure de pés juntos que a desprezam e repelem, todos a estimamos e a cobiçamos.

Sinto a sua presença enquanto escrevo. Adivinho o seu olhar onipresente pairando sobre mim. Está dentro de nós, habita-nos e nos circunda a um só tempo. Não nos diz a que veio (nem carece), pois a ela nos destinamos, embora a subestimemos aqui e ali com a nossa fria e pragmática lógica.

Hoje a Poesia não parece disposta a colaborar para a conclusão do meu soneto. Vejo-a reflorir entre os espinhos e pedras do caminho. Continua e será exatamente a mesma, por séculos infindos, diversa e una. Reina sobre todas as amarras e grilhões, sobre todas as formas e regras, antiguidades e modernismos, vozes e silêncios, guerras e paz. Ela coexiste entre a lágrima e o riso, entre o êxtase e a dor, o fracasso e o sucesso. É fardo e fortuna, prazer e suplício de todos os seus discípulos e devotos. Alista reis e vassalos para a empresa de sua eternidade. Nobres e plebeus compartilham do mesmo pão verbal à sua mesa farta e indistinta.

Não possui fronteiras nem alfândegas. Cabe no útero de uma ostra e transborda rios, agita oceanos. É a pomba e o chacal, a espada e o cordeiro. Ora é festa e multidão, noutro instante é abandono e vazio. E se acaso à noite ela se revela sombra e embaraço, ressurge cristalina “mal rompe a manhã”.

Eis, senhoras e senhores, a irmã de Cristo, a filha bastarda que Deus não quis registrar nas sagradas escrituras: a Poesia!

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede, em 29 maio de 2021.

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/04/2024 - 06:42h

Cafeteira explosiva

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Estou ciente de que diversos tipos de exemplos valiosos ficarão de fora. Outra coisa é que não entrarei em detalhes sobre os que apontarei ao longo desta relação. É sempre um risco a gente fazer listas, seja de que tipo for. Mas vamos logo ao que interessa, pois esse nariz de cera já ficou muito comprido.

Alguns nomes ou conjunto de palavras me causam especial agrado e admiração. Tenho gosto por um sem-número de coisas, desde denominações de carros (marcas, modelos) e por certos registros incomuns de pessoas.

Basta a gente fazer uma ligeira busca na internet e lá está uma série de exemplos de indivíduos batizados de modo perverso. Vejam quanta maldade: Terezinha Tosse, Magnésia Bisurada do Patrocínio, Primavera Verão Outono Inverno, Restos Mortais de Catarina, Faraó do Egito de Souza, Sebastião Salgado Doce, Padre Filho do Espírito Santo Amém, Chevrolet da Silva Ford, Oceano Atlântico Linhares, Necrotério Pereira da Silva. São incontáveis os ferretes esdrúxulos por aí afora.

Meu gosto por nomes-títulos diferentes não se resume a seres humanos. Há topônimos, sobretudo de municípios, batizados de forma belíssima e, a meu ver, poética. Em mais uma pesquisa, mencionando somente os nossos, quero registrar nestas linhas os municípios potiguares de Santo Antônio do Salto da Onça (que um vigário desocupado abreviou para Santo Antônio), Caiçara do Rio do Vento, Jardim de Piranhas (como pode um jardim conter piranhas?!), Passa-e-Fica, São Miguel do Gostoso (decerto uma delícia), Rio do Fogo, Serra Negra do Norte e Riacho da Cruz.

Na seara da literatura, entre tantos e tão bonitos, pincei os seguintes títulos e seus respectivos autores: “O morro dos ventos uivantes” (Emily Brontë); “Memórias do cárcere” (Graciliano Ramos); “Ensaio sobre a cegueira” (José Saramago); “Lavoura arcaica” (Raduan Nassar); “Memórias póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis); “A insustentável leveza do ser” (Milan Kundera); “Tomates verdes fritos” (Fannie Flagg); “Quarto de despejo” (Carolina Maria de Jesus); “Morte e vida severina” (João Cabral de Melo Neto); “A sombra do vento” (Carlos Ruiz Zafón); “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” (Marçal Aquino); “As vinhas da ira” (John Steinbeck) e, modéstia à parte, “A hora azul do silêncio” (Marcos Ferreira).

Da Sétima Arte, para não passar em branco, recordo alguns filmes intitulados de modo criativo: “Abril despedaçado” (melhor filme brasileiro que eu já vi), “O senhor dos anéis”, “Um estranho no ninho”, “O silêncio dos inocentes”, “Bastardos inglórios”, “O auto da Compadecida”, “Os homens que não amavam as mulheres”, “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” e “Laranja mecânica”.

No mês passado, precisamente aos 16 de março, no Mosteiro da Santíssima Trindade, ocorreu o lançamento (outro nome bonito) do livro de poemas “Um provinciano no caos”, mais uma obra do escritor cearense-potiguar Clauder Arcanjo. O aspecto complicador, ao menos para mim, é que foi às nove e meia da madrugada, em uma manhã de sol vivíssimo. E eu, que tenho uma reputação de vampiro a zelar, com raríssimas aparições em público, sobretudo à luz do dia, não poderia levar falta. Coloquei meus óculos antirreflexo contra o astro-rei e fui de carona com o autor.

Nessa oportunidade, apesar do meu desconforto com o sol e com o fato de estar num ambiente com muita gente por metro quadrado, reencontrei uma porção de figuras bacanas da intelectualidade e literatura deste município, homens e mulheres que eu não avistava há um longo tempo. Até me senti à vontade.

Voltando aos nomes curiosos, eis que os meus ouvidos captaram esta combinação bombástica: “cafeteira explosiva”. Isto porque, entre os convidados que compareceram à manhã de autógrafos, entrei num bate-papo com os advogados e intelectuais Marcos Araújo e o remoçado André Luís. Foi uma conversa saborosa, com direito a poses para fotos e comentários espirituosos. E desse encontro firmamos o compromisso de ambos virem a esta minha inspiradora Casa Branca da Euclides Deocleciano, 32, no Conjunto Walfredo Gurgel, para entabularmos mais um colóquio regado a cafezinhos; desta feita com a presença do nosso guapo Editor Carlos Santos.

Estávamos em total sintonia. Até que o douto (não confundir com doutor) Marcos Araújo, com seu carisma notório, anunciou que levaria, para incrementar nosso cafezinho de final de tarde, uma cafeteira, segundo ele, especial. Foi aí que a bomba estourou. Pois o impagável André Luís, num bate-pronto, me fez este alerta da mais absoluta gravidade: “Cuidado! Ele já explodiu duas residências com essa cafeteira!”. Achei isso um repente fantástico, uma facécia da melhor categoria.

E eu ri às pampas com essa boutade.

Nosso amigo Marcos Araújo está se recuperando de um acidente doméstico (ressalto que não foi com a “cafeteira explosiva”) e torço que em breve possamos escolher uma data para o nosso cafezinho (sem qualquer perigo) com a cafeteira especial do colaborador deste Blog Carlos Santos. Vai ser bom.

Esse nome, portanto, ficaria bem na capa de um livro de contos. Talvez um título de filme, o que me recorda o famoso “Máquina mortífera” (estrelado por Mel Gibson), e até mesmo para nominar uma simples crônica.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/03/2024 - 15:22h

Licença poética

Por Marcos Ferreira

Preciosa em registro do autor

Preciosa em registro do autor

Ontem, sábado (30) à noite, pelo WhatsApp, precisamente às dezenove horas e quarenta e cinco minutos, eu já havia entregado os pontos, jogado a toalha, e dito ao nosso amigo e cronista Odemirton Filho que ainda não escrevera nada para hoje. Ou seja, estaria de fora deste tatame do bom combate.

O plano era só ficar na moita, de olho nos oportunos e bem escritos resgates históricos do Bruno Ernesto; aguardar o Odemirton Filho, que sempre nos aparece com um assunto relevante, digno de reflexão; e me deliciar com os capítulos da saborosa novela/romance do François Silvestre, trama que venho acompanhando com crescente interesse a cada capítulo.

Ocorreu, porém, que uma determinada “leitora” não se deu por satisfeita e me exigiu participação, empenho para duelar com o relógio de ponto, arregaçar as mangas e dar o meu jeito para cumprir esta missão nem sempre tão fácil, todavia apaixonante. Assim, graças a citada “leitora” (que nunca ocupa o espaço reservado à opinião dos leitores) tomei gosto novamente por essa peleja com os meus neurônios e percebi que nem tudo estava perdido, que ainda me restara uma chance.

Parece até que ela percebe quando a locomotiva está fora dos trilhos, que existe algo tirando minha tranquilidade ou inspiração. Preciosa tem esse tipo de sensibilidade. É isso o que eu pressinto em relação a ela. Por exemplo, quando estanquei diante da página toda em branco, sem saber o que produzir, apresentar ao leitor de hoje, ela de novo preparou o salto, subiu na mesa e me ficou olhando fixamente, como dissesse com incomum brandura: “não desista; você vai conseguir”.

A gatinha é dessa forma, quer saber tudo que estou fazendo ou deixando de fazer. Compreende, atina para o meu estado de espírito. Não é de agora que a bichana me socorre nesses prolegômenos com que consigo desenvolver (às vezes mais, noutras vezes menos) um texto com até três páginas.

Penso, entretanto, que não será o caso de hoje. Eis, porém, a minha Preciosa com o seu olhar cheio de charme quanto intrigante. Então, como tutor coruja que eu sou, depressa agarrei o celular e fiz uma fotozinha para ilustrar está crônica que possivelmente há de vingar, salvar-se.

Hoje, portanto, ela pulou para dentro da minha rede (não durmo de cama) e me acordou às duas e quarenta da madrugada, espezinhando-me, puxando minha camisa, a fim de que eu fizesse minhas abluções, preparasse o café e me pusesse aqui, de modo a não faltar com esse compromisso com os leitores. É essa espécie de ideia que tento expor a esta hora. Não ofereço outra coisa. Após me tirar da rede, constatar que eu estava com o café pronto, os olhos bem abertos e iniciado a redação, ela abriu um bocejo e se recolheu.

Voltou para a cadeira em cima da qual gosta de dormir, à meia luz. E eu, para não a incomodar, liguei apenas a luminária da mesa.

Nos últimos dias Preciosa tem agido assim. Consegue roubar a cena; pula sobre meu colo, sobe nesta mesa de plástico bem pequena que mal cabe o notebook, uma luminária e a caneca de ágata com café. Volta e meia ela coloca uma patinha no teclado, ameaça desfazer o texto, como o julgasse inferior, sem a devida qualidade literária; puxa o fio do mouse, mordisca a tela, cobra um pouco de atenção. Não gosta (demonstra isso) quando fico quieto demais, silencioso, conversando com os meus botões, pensando no que o leitor aprovará ou não aprovará desta vez.

Só falta a Preciosa uma licença poética, tornar-se uma fábula e conversar comigo, bater um papo, dar algum palpite sobre este exercício solitário e nem sempre reconhecido que é o sacerdócio da escrita, cruz metafórica que abraçamos como devotos das letras.

Sim, existe uma psique bacana em Preciosa, como em todos os gatos e cães, um elo que as palavras se tornam insuficientes para explicar.

Vejo o reloginho no canto inferior direito do computador e constato que são seis horas e cinquenta e seis minutos. A passarada já fez a sua festa abandonando os dormitórios nas árvores das imediações. Imagino que não há mais o que dizer ou escrever. O café se acabou, o sono bateu e agora eu vou dormir.

Acho que cumpri com a minha missão.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/03/2024 - 12:40h

A Caern em chamas

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Freepik

Ilustração da Freepik

Parece até piada pronta, mas não é. A Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (CAERN) está em chamas. A empresa vinha tentando apagar o fogo por conta própria, mas a situação fugiu do controle e o caos explodiu na semana passada. A boca é quente! Sua gestão, que já se encontrava queimada, agora virou cinzas. Outra vez, de forma negativa, Mossoró irrompe no cenário da mídia nacional (e também aos olhos da imprensa internacional) com um novo vexame.

Dezenas de repórteres da Rede Globo (incluindo equipes do Fantástico) ocupam hotéis do município. São tantos que até o Hotel Caraúbas está lotado. William Bonner e Renata Vasconcellos não têm dormido direito por causa da grande ansiedade de transmitir, em primeira mão, o desfecho dessa crise hídrica.

Mas o páreo é duro. Entre outros que buscam dar o furo jornalístico, estão CNN, The New York Times, The Washington Post, Folha de São Paulo, USA Today, Jornal de Fato, Brasil 247, Jornal O Mossoroense, Le Mond, Estadão, 95 FM, BBC News, The Guardian, Correio Braziliense, Blog Carol Ribeiro, O Câmera, Passando na Hora, Mossoró Hoje, Na Boca da Noite, Inter TV, TCM Telecom, Rádio Difusora, Revista Papangu, Blog do Barreto, Blog Carlos Santos e o Fuxiqueiras News, este último aqui da Rua Euclides Deocleciano, no Conjunto Walfredo Gurgel.

Veículos do Corpo de Bombeiros de Mossoró, de Natal, Parnamirim, Fortaleza e de João Pessoa estão atuando durante vinte e quatro horas por dia para debelar as chamas, no entanto o incêndio é de magnitude vulcânica.

Com urgência urgentíssima, a governadora Fátima Bezerra transferiu o governo do Rio Grande do Norte para Mossoró e está na cidade cercada por toda a sua tropa de gerenciadores de crise. O atual presidente da estatal, Roberto Sérgio Linhares, encontra-se à beira de um colapso nervoso. Enquanto isso o ministro da Justiça e Segurança Pública, que não suporta mais nem ouvir falar no nome de Mossoró, o senhor Ricardo Lewandowski, está retornando a este cafundó do judas. Portanto, Lewandowski desembarcará na província ressequida a qualquer momento.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou a sua agenda e também virá com os comandantes das Forças Armadas a tiracolo. Aquele aparato policial disponibilizado para a captura dos dois fugitivos da penitenciária de segurança “máxima” de Mossoró (integrantes do Comando Vermelho) agora será redirecionado para compor os esforços no sentido de prender ladrões de água potável.

Sim. Toda essa barafunda se deve ao fato de que poços da Caern vêm sendo constantemente atacados por elementos cuja identidade ainda é um mistério. Os indivíduos, por meios que a Companhia não consegue explicar, têm furtado muita água da empresa, sobretudo durante a madrugada. A Caern acionou as polícias civil, militar, federal, Ibama, todos os grupos de escoteiros de Mossoró, rezadeiras de tudo quanto é parte, entretanto a água continua sendo desviada de um modo quase sobrenatural. Comenta-se nos escritórios da Avenida Alberto Maranhão que gerentes e supervisores locais da Caern estão em polvorosa, puxando os próprios cabelos, sem que nenhum deles compreenda como é possível, da noite para o dia, tanta água ser roubada.

Os políticos potiguares, angustiados e com os olhos vermelhos menos pela comoção que pela fumaça, deixaram de lado as suas futricas, questiúnculas e diferenças partidárias. Agora estão unidos em favor de medidas que possam salvar a Caern das lavas desse vulcão que segue devastando a Companhia.

A situação é gravíssima, bem pior do que aquele espetáculo de aspecto cinematográfico protagonizado pelos fugitivos que conseguiram escapar da penitenciária de segurança “máxima” desta aldeia. Comparado ao problema de agora, aquilo é fichinha. Portanto, órgãos de imprensa de várias partes do planeta estão na terra da “liberdade” para cobrir a captura dos fora da lei com os quais a população desassistida simpatiza e chama apropriadamente de Quadrilha da Torneira. Tais “espíritos” (repito que ninguém sabe dizer como) transferem água de poços com bom funcionamento para os lares onde a Caern não coloca uma gota d’água desde o ano passado.

Graças à ação dos infratores, ou seres extraterrenos, correm boatos de que pessoas dos subúrbios desabastecidos conseguem tomar até um banho por semana, cozinhar, lavar umas três ou quatro calcinhas e cuecas, panelas, pratos, e também dar de beber a bichinhos domésticos como cães e gatos, que têm sofrido com a falta d’água. A felicidade geral é quando bate uma chuva e os munícipes conseguem captar parte dessa água. Registre-se que os banhos não são propriamente banhos. São tomados usando panos molhados, como se o cidadão fosse uma espécie de vidraça humana.

O serviço de inteligência da empresa, que entrou em parafuso, acha que a Quadrilha furtou cerca de oitocentos a um milhão de litros do precioso líquido das instalações da estatal. A Caern não faz a menor ideia, claro, do número de sujeitos que integra a Quadrilha da Torneira. Esses Robin Hoods urbanos, como foi dito, acodem famílias carentes que não têm como pagar por carros-pipa que são vendidos e disputados pelos condomínios de luxo ao preço de mil e quinhentos reais. Ainda assim, apesar das façanhas dos “ninjas”, a quantidade subtraída é pouca para atender a tantos necessitados. Porque o desabastecimento é de uma abrangência nunca vista.

— Deus, proteja a Quadrilha! — rogam as vidas secas desta urbe, às quais a Caern só envia a conta de uma água que ela não fornece.

Os irmãos e músicos Caetano Veloso e Maria Bethânia vão dar uma pausa nos preparativos para a turnê conjunta, anunciada para o início do mês de agosto, e vêm ao País de Mossoró ver de pertinho o que Vulcano (deus do fogo) anda aprontando por aqui. Por sua vez, Jair Bolsonaro solta fogos de sua nova mansão em Brasília, onde se refugiou com medo de Alexandre de Moraes e da Polícia Federal. Pois é, o futuro morador de Bangu 8 está gostando do caos da Caern. Não menos desprezível, o sevandija Donald Trump também deseja ver a Caern carbonizada.

Em solidariedade à situação dramática em que se meteu a Caern, Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky anunciaram um cessar-fogo na guerra entre Rússia e Ucrânia. O mesmo gesto foi copiado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e pela cúpula do Hamas. O papa Francisco, em suas triviais orações, suplica ao Todo-Poderoso para que a Quadrilha da Torneira seja trancafiada em uma prisão de segurança máxima. “Que não seja naquela cidade!”, apela o pontífice.

— Deus do Céu, proteja nossos benfeitores!

É dessa forma que a população desvalida, que padece nos bairros onde um litro de água está custando os olhos da cara, reza ao Altíssimo para que livre e guarde a infalível, louvada e miraculosa Quadrilha da Torneira.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/03/2024 - 10:26h

Um Oscar para o rapaz velho

Por Marcos Ferreira

Reprodução do autor da crônica

Reprodução do autor da crônica

Passei alguns dias meditabundo. Pois é, já começo esta conversa assim, com uma palavrinha cheirando a mofo, de pouca empregabilidade, falando difícil como quem desejasse que o leitor enrugue a testa e abandone esta página antes do primeiro parágrafo terminar. Mas não é este meu intuito. Então troquemos o famigerado “meditabundo” por “entristecido”. Pronto, é isso. Andei uns dias com um bocado de fastio para certos “pratos” da cozinha cotidiana de nossa existência.

Agora, porém, o apetite voltou. Inclusive o da escrita. Especialmente depois que li “Uma confissão de amor para me sentir vivo”, do meu colega de xícaras e neuras Carlos Santos. Texto de profunda inspiração que nos inspira de maneira profunda. Ao menos a mim. Isto não é um simples elogio, é merecimento. É a mais sincera opinião deste sapateiro das letras. Digo sapateiro porque é esta a única assinatura em minha carteira de trabalho (CTPS) de que tenho o maior orgulho.

Hoje não, os anos 1980 foram embora, as fábricas de calçados de Mossoró quebraram por causa da produção das grandes indústrias em escala planetária, todavia já fui um sapateiro profissional. Comecei com dez anos de idade, e o patrão carimbou minha CTPS quando completei quinze anos. “É o seu presente de aniversário”, disse-me. Daí por diante me ocupei com outras coisas, toda sorte de bicos e subempregos. Fui impostor em um bocado de atividades, até me tornar isto, um sujeito que não conseguiu aprender outra coisa melhor para fazer além de escrever.

“Uma confissão de amor para me sentir vivo”, a meu ver, só tem um defeito: não foi escrita por mim. É daquelas coisas que a gente termina de ler e exclama: “Caramba! Muito bom!” Foi o que eu disse. Tanto que agora estou pegando carona na “confissão”, escrevendo uma crônica sobre outra crônica, como se a página do Carlos Santos precisasse do brilho emprestado das minhas tintas.

Não precisa. “Uma confissão de amor para me sentir vivo” tem luz própria. É uma declaração, um testemunho tocante, uma ode apaixonada, um genuíno louvor. Enxerguei a mim mesmo em vários pontos da mensagem.

Essa entrega, esse compromisso com o mister do ofício da escrita, mexe com os meus botões. Imagino que estamos no mesmo barcos das palavras. Às vezes, pelo capricho dos ventos, seguimos em direção à notícia pura e simples; noutro momento, com ou sem um pouco de arte, ajustamos as velas no rumo das águas onde habitam as criaturas linguísticas com maior e subjetiva grandeza.

Identifiquei-me, enquanto enfeitiçado que sou da necessidade de escrever, com a reverência do rapaz velho à sua longeva profissão de fé, devoção que hoje já está com trinta e nove anos de serviços prestados ao bom jornalismo do Rio Grande do Norte, bem na borda, na beiradinha dos quarenta anos.

Quem quiser que diga que estou puxando o saco. Há sempre quem não goste de ver outrem recebendo um reconhecimento assim, público, e sem economizar os méritos do homenageado. Dirão, pois, que estou puxando o saco. É verdade que já peguei nos bagos de supostas unanimidades da cena literária potiguar, autênticos pavões assinalados, contudo foi só para deixá-los sem as bolas. Mas aposentei o bisturi; hoje não faço mais esse tipo de intervenção cirúrgico-escrotal.

“Uma confissão de amor para me sentir vivo” recebeu um nome belíssimo. Algo que fica muito bem, por exemplo, para intitular um livro de poemas, crônicas, contos ou romance. Ouso dizer, ainda, que o título é coisa de cinema. Peço, então, nesta nossa Hollywood dos invisíveis, um Oscar de melhor roteiro original para o rapaz velho. Enquanto eu concorreria, claro, como ator coadjuvante.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/03/2024 - 11:12h

Oração para o menino riquinho

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Web

Ilustração da Web

Minhas leituras, assim como esta página que hoje escrevo para o Blog Carlos Santos, espaço este que representa uma espécie de para-raios para as minhas neuras, estão em atraso. Contudo, entre os poucos autores que li nas últimas quarenta e oito horas, quero citar uma crônica de Vanda Maria Jacinto, a qual deu o título “Visita especial”. É um toque de pluma, algo deveras leve e sensível. Saiu no Jornal de Fato, edição do dia 7 de março deste ano. Vale a pena conhecer essa ternurinha de Vanda, das mulheres que melhor escrevem neste nosso condado das letras.

Também fiquei devendo um palpite sobre o “Sagrado pão” do Bruno Ernesto. Literariamente saboroso, difícil de resistir. Depois, e não menos apetecível, vieram os causos do Odemirton Filho na sua trajetória enquanto oficial de justiça. Como disse correta e apropriadamente o leitor e comentarista Fransueldo Vieira de Araújo, Odemirton tem “um indiscutível talento para a escrita”.

A seguir topamos com “Os cães cariocas”, outra crônica relevante, oportuna e de boa fatura do François Silvestre, que parece ter adquirido novas tintas para deixar este blogue ainda mais colorido. François faz um contraponto, retrata a desigualdade social até entre os cachorros muito bem tratados da classe média carioca com moradores de rua. Quiçá pessoas assim, desvalidas, sem um teto, quisessem levar uma vida dessas, de um cão classe média.

Agora mudemos da água para o vinho. Melhor dizendo, do xarope para a tosse, do mel para a cicuta. Falemos um pouco (isso não é proibido nem é crime) da incrível máquina de fazer polpa de miolos desta província. Trocaremos o peso-mosca da crônica pela categoria peso-pesado da política. “Estava tão bem no caminho da neutralidade e da concórdia, todavia estragou o texto”, alguém pode dizer. Porém, nem que seja uma vez aqui, outra acolá, é bom a gente sair de cima do muro, não ficar só balançando a cabeça a tudo e a todos feito lagartixas bem-comportadas.

Ainda não tomei meus remédios matinais, sobretudo o que me segura nos trilhos do bom humor. Isto não significa que pretendo atirar coquetel molotov contra ninguém nem promover quebra-quebra de reputações. Nada disso. Apenas dei um cavalo de pau na página, mudei o rumo da prosa com uma guinada no tema, se assim posso exemplificar a metamorfose em curso. Perdi a noção do tempo esses dias e apenas agora, em plena manhã de domingo, arrumei ânimo e não vou faltar ao meu compromisso com os leitores. Então, embora digressivo, eis o meu relato.

Dormi mal e acordei azougado, mais amargo que o café puro que vou sorvendo. Os dias têm passando muito depressa; e quando me dou conta é sexta-feira à noite. O sábado também corre velocíssimo, igual a um político reeleito fugindo do Ministério Público, dos seus eleitores e dos compromissos de campanha. Essa fuga me lembra, a propósito, aquela promessa (o ludíbrio, a mentira eleitoreira!) de que o nosso agonizante rio Mossoró seria socorrido. Sequer lhe ofereceram uma extrema-unção, um golpe de misericórdia. Coisa nenhuma! O atual governo, a exemplo dos oligárquicos e ex-donos desta cidade, também aplicou um golpe na praça.

O bom-moço é trabalhador, não resta dúvida. Iniciou e concluiu várias obras importantes; o município está um brinco. Deu um banho de loja na burrinha, mas continua insensível às questões ambientais. Despreza o problema das zoonoses, da explosão populacional de cães e gatos (doentes, famintos) abandonados, perambulando nesta urbe pseudolibertária. Não. Libertária uma ova! O povo (que sempre mereceu os políticos que pôs no poder) continua no xilindró do embuste.

O prefeito da hora tem a alma blindada. Nasceu e foi criado no Sítio Chafariz. Não tem macumba, olho-grande, mau-olhado ou quebranto que derrube esse rapaz do palanque do qual nunca desceu. Aposto os dez dedos com que ora digito estas linhas como será reeleito com uma vitória esmagadora. Há quem veja nele uma espécie de meta-humano, de herói sem capa do universo Marvel local.

O menino riquinho (chamado de “menino pobrezinho” por uma rosa petulante na eleição passada) caiu no gosto e nas graças do povão. Não tem mais nada de pobre sob o ponto de vista financeiro. Vive montado na grana; usufrui do bem-bom, do luxo e da glória que, merecidamente, conquistou. Não se preocupa com os tostões, as despesas do Palácio da Resistência. Administra o País de Mossoró com um vigor hercúleo, a toque de caixa. A hipnose do Mossoró Cidade Junina vem por aí. Ele já bateu o prego e virou a ponta. Artistas com cachês milionários farão a cabeça do populacho. O garoto prodígio está por cima da carne-seca. O seu ibope atingiu a ionosfera. Tem mais seguidores nas redes sociais do que estrelas na galáxia. Pode-se dizer, sem qualquer tipo de exagero ou hipérbole, que é um guru, o líder de uma seita.

Alysson Leandro Bezerra da Silva é um predestinado. Emergiu das profundezas do serviço público para abiscoitar um mandato de deputado estadual e, logo após, a prefeitura de Mossoró. Lançou uma pá de cal sobre a poderosa e velha oligarquia e vai matando a concorrência e a esquerda de Mossoró (sempre incompetentes!) na unha. Não tem predador, nenhum opositor à sua altura. É o leão desta selva de pedra de cambalachos, maracutaias e podres poderes. Bezerra se utiliza de uma proveitosa e estratégica aliança com os vereadores de sua fidedigna base governista.

O chefe do Executivo municipal deita e rola, pinta o sete e borda o oito, sem essa coisa careta de gastar dinheiro com bobagens: um castramóvel, por exemplo. É craque nas quatro linhas do populismo e toca o terror nos seus adversários. Jovem com a experiência de um matusalém, ele mostra jogo de cintura; sabe servir a dois senhores: mantém um pé sobre os católicos e outro em riba dos protestantes. É carismático e falsamente humilde; usa um chapeuzinho de couro quando poderia ostentar uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas. Parece gostar do cheiro e do suor do povo, entretanto possui um rei na barriga e padece de elefantíase do ego.

Ao contrário de alguns politicoides broncos, ele sabe tanger muito bem o rebanho para o seu curral de votos. Tem lá os seus defeitos, é claro, mas também as suas virtudes. Considerando o aspecto meramente urbanístico, Mossoró nunca esteve tão bem na fita. O seu feeling administrativo (especialmente no tocante à cultura do pão e do circo) é uma coisa de cinema. As más-línguas falam, à boca miúda, em supostas obras superfaturadas.

Só que nenhum cidadão, enquanto vou encerrando estas linhas, apresentou sequer um zero à esquerda em desfavor do midiático prefeito.

Até que se prove o contrário, o que piora a choradeira dos rivais, Bezerra da Silva tem as mãos e os pés limpinhos. E vou logo cantando a bola. Em breve será governador deste estado. O céu é o limite para esse autêntico (no bom sentido!) alpinista social. Que Deus abençoe e proteja o menino riquinho. Amém!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/03/2024 - 08:12h

Outra vez sob controle

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa da Web

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica

Precisei antecipar (Natália cuidou disso) meu retorno ao psiquiatra. Eu vinha até me esforçando, mentalizando coisas boas, entretanto não foi o suficiente. Minha cuca havia se complicado, saído do prumo. Pesadelos medonhos, noites maldormidas e dias de cansaço e desmotivação se tornaram rotina. Até Preciosa não brincava comigo como de costume.

A felina pressentiu o meu humor negativo. Fui logo para a clínica. Após uma longa consulta, o médico disse que eu estava em uma crise mista de depressão e bipolaridade. Isto é, na iminência de um novo surto.

Passei semanas borocoxô e uns três meses sem tirar a barba nem cortar o cabelo. Não queria sair de casa. A saudável peleja com a literatura entrou no fastio. Sentia-me nervoso, enraivecido, coração acelerado, sem vontade de falar com ninguém. Mantive o telefone fora de área durante vários dias. Hoje, contudo, estou num momento sereno. No entanto, por orientação médica, sigo fugindo, esquivando-me de qualquer coisa que possa me render inconvenientes, irritação, estresse.

Dr. Dirceu Lopes, como eu esperava, fez uso de sua poderosa bateria de psicofármacos. Voltou com alguns que eu já não tomava há tempos, como a olanzapina e o cloridrato de propranolol. Aumentou, entre outros, a dose do Rivotril, que passou para dois miligramas. Entre as dez e as onze horas, quando finalmente consigo me levantar, estando com o equilíbrio e a coordenação motora comprometidos, tomo um Levoide em jejum. Após o café engulo a losartana e o primeiro Depakote do dia. À noite, depois do jantar, a sobremesa é literalmente substancial e colorida.

Então decidi colocar essas drogas todas num pratinho azul em cima da mesa e fazer uma foto para ilustrar a minha própria crônica. Aí estão todos os comprimidos do período noturno: os grandes e azulados são o Depakote; as bandas longas e amarelas são a quetiapina; o branco com fenda é o famoso Rivotril; o outro branco (sem fenda) é a olanzapina; o amarelo grande com fenda é a lamotrigina. O último é o cloridato de propranolol, que aparece em uma bandinha branca.

Estou, portanto, sob controle. Tranquilo.

Bem! Não tenho o menor pudor de compartilhar com meus leitores essas turbulências psicológicas. O Blog Carlos Santos, se me permite, é o meu divã. Aqui me desnudo, me visto e me inspiro com a escrita dos demais colaboradores deste espaço eclético. Domingo passado, felizmente, tivemos a volta do François Silvestre. Há muito não dava o ar da sua graça. Torço que ele sempre retorne.

Trago à tona estes meus sufocos emocionais como fizeram em suas épocas, por exemplo, indivíduos como o filósofo Friedrich Nietzsche e o escritor Lima Barreto. Este último, assim como eu, também experimentou os dissabores de passar por um hospício. Agora (e de novo) é preciso renovar as forças, ficar o mais longe possível dessa moléstia silenciosa e traiçoeira.

Estou me autoanalisando. Tentarei colocar menos angústias e ocupações infrutíferas no meu juízo. Porque o tratamento medicamentoso não resolve tudo. Preciso exercitar, além da mente, este corpinho pré-histórico. Farei meditação, caminhadas, e continuarei cometendo os meus escritos.

Além disso, vou diminuir drasticamente a atenção que eu dava às redes sociais. E, ao menos por enquanto, só estarei disponível no telefone e no WhatsApp a partir das treze horas. Preciso de um tempinho para sair do nevoeiro dos medicamentos. Aí já terei tomado um banho, feito alguma coisa para comer e bebido um café puro. Ainda assim, por via das dúvidas, peço ao meu exército de quase dez leitores que continue com as orações para o bem-estar e proteção deste cronista.

Marcos Ferreira é escritor

Nota do BCS – Querido Marcos, esse divã é seu, mas também meu, nosso. O “Nosso Blog“, como definiu Naide Rosado, é compartilhado, diverso, necessariamente conflituoso, plural, feito por muitos; dialético. É, também, onde temos o privilégio de seus escritos e da participação ainda de tantos outros colaboradores, incluindo os webleitores e comentaristas.

Faz-lhe bem? Que bom! A nós, então…

No caso deste editor, a página nasceu como terapêutica às próprias neuras e segue sendo útil nesse fim.

Tamo junto.

Cuide-se.

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 25/02/2024 - 06:48h

O universo fantástico de Ayala Gurgel

Por Marcos Ferreira

Livro de Ayala Gurgel (Reprodução)

Livro de Ayala Gurgel (Reprodução)

Não sou estudioso da produção livresca potiguar. De modo algum. Nem mesmo do âmbito mossoroense. Ignoro, destarte, que tenhamos entre nós um literato mais sombrio e fiel às surpresas do estilo sobrenatural, com os recursos criativos, as características e peculiaridades de Ayala Gurgel. Sim. Trata-se de um ficcionista engenhoso, fecundo, versátil, autor, principalmente, de títulos nas modalidades conto, novela e romance.

Conquistou posições de destaque em relevantes prêmios literários, além de integrar antologias organizadas e lançadas ao longe de nossa província.

Embora pouco conhecido nos meios intelectuais do RN e de Mossoró, Ayala já escreveu e publicou quase uma dezena de livros através de edições particulares. Unindo criatividade e elementos verídicos, o seu estro adota como pano de fundo a temática e vastidão da caatinga. Transita, invariavelmente, pelo gênero sobre-humano, sempre arraigado na ficção teológica. Nessa esfera, que conhece a fundo, apresenta as suas garras de escritor ácido. É aí que estabelece e desenvolve uma escrita iconoclástica, pródiga em sistemáticas críticas à instituição da Igreja Católica.

Nascido em 1971 no município norte-rio-grandense de Alexandria, Ayala Gurgel reúne vasta formação acadêmica. Tem passagem por importantes universidades brasileiras, informações estas que não gosta de divulgar. Entre outras habilitações, é doutor em Políticas Públicas e Filosofia. Desde 2014 é professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).

Possui experiência no campo da Filosofia, sobretudo em Ética, Bioética, Tanatologia e Saúde Mental. Atualmente desenvolve pesquisas na área de filosofia da linguagem ordinária e teoria da argumentação. 

Em Brumas & Brenhas, cujo prefácio leva a minha assinatura, mas que poderia lhes expor a avaliação de alguém mais familiarizado com o simbolismo do místico, ouso dizer que o autor de O Segredo da Ordem do Santo Sacrifício se revela em sua melhor forma enquanto criador de mundos e personagens. Inventivo, de pulso firme e se utilizando das tintas de um demiurgo como Stephen King, de quem é confesso admirador, Ayala nos mostra que também sabe contar uma boa história e infundir algum medo em pessoas menos habituadas a leituras dessa natureza.

Não pretendo esmiuçar, traduzir nem oferecer a bem elaborada narrativa de Brumas & Brenhas toda mastigadinha para o respeitável leitor. Não. Isso está fora de minha competência. Ao menos é o que eu presumo. Recomendo ao público, portanto, mergulhar na trama e ver de perto o saboroso e extraordinário conto acerca de indivíduos tão incríveis quanto verossímeis. Em especial a jornada que dois padres jesuítas empreendem pelas brenhas do alto oeste potiguar no ano de 1751.

Gurgel: instigante (Foto: divulgação)

Gurgel: instigante e ácido (Foto: divulgação)

A HISTÓRIA É CONTADA em primeira pessoa por um narrador onisciente e ignoto. Na segunda parte do causo, com uma prosa clara e instigante, é relatado o aparecimento do seguinte fenômeno climático:

“A situação estava feia e não dava sinais de melhora, anjos e santos pareciam não se apiedarem, mas naquele exato dia 06 de abril de 1751, ainda de madrugada, antes do sol raiar, uma névoa úmida começou a subir da areia fina do riacho onde se encontravam as últimas cacimbas com alguma serventia. Não houve relâmpago ou trovão durante a noite toda, nenhum sinal de que cairia uma gota d’água, nada que indicasse mudança do tempo, apenas a bruma que começou a subir da terra, atingindo, em pouco tempo, a copa das árvores ciliares”.

A trama é construída a partir de um documento fictício que supostamente aponta para a origem da cidade natal do romancista, um lugarejo de nome Barriguda. Aí encontramos tipos cativantes, a exemplo do protagonista e contador de histórias Zé Preto, escravo que conseguiu sua alforria por meios que ninguém sabe ao certo.

À volta de Zé Preto, que relata aos jesuítas o mistério da súbita bruma, gravita uma série de catingueiros interessantes como Dona Antônia, Seu Zé de Brejeiro, Dona Amélia, Preá, Baraúna, Filomena, Zefa, Cocota, Mundico, Zefinha e Madalena.

Posso afirmar que, entre todos os trabalhos artísticos de Ayala, Brumas & Brenhas é o meu preferido. Digo mais: estamos perante um homem de letras que realmente sabe escrever, talento este que não é regra em nosso habitat. Então, sem querer me alongar nem chover no molhado, fico por aqui e convido vocês a se embrenharem no universo fantástico de Ayala Gurgel. Afianço que vale a pena.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/02/2024 - 06:46h

Inúteis notas de inutilidade pública

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Web

Ilustração da Web

Esta semana, precisamente na terça, fui convidado a não participar de uma magnífica antologia com os mais expressivos e baludos contistas, poetas e cronistas de nossa província. Todos eles, devo admitir, mestres de uma poeticidade e ficção bacanas, medalhões da alta-roda destes confins do mundo.

Os romancistas ficaram de fora desse divisor de águas da pujança editorial de Mossoró, claro, porque romance é romance e não aceita compartilhar holofotes com os demais gêneros.

O livro, que pode atingir as quatrocentas páginas, sairá com uma musculosa tiragem de dez mil exemplares e selo da conceituada Pombagira, casa publicadora com sede em Salvador. Os integrantes da antologia vão custear cinquenta por cento da edição. Os outros cinquenta ficam por conta da Pombagira.

Metade da tiragem, assim, entrará na algibeira dos autores. Está programada uma glamourosa noite de autógrafos na imensa área de festas do hotel cinco estrelas Cabaré Palace. A estimativa de público é de mil convidados. O DJ Alouco, aclamado internacionalmente, virá do Rio de Janeiro para animar o megaevento.

O bufê, o cachê do artista carioca, o aluguel do espaço recreativo do Cabaré e metade dos cinquenta por cento das despesas gráficas que rolam para os escribas serão patrocinados pela Construtora Irmãos Pindaíba, pela Secretaria de Cultura e Câmara de Vereadores. A imprensa escrita, televisiva, falada e digital fará uma cobertura maciça.

Após o lançamento da coletânea, a obra ficará disponível para aquisição na livraria do Bodega Shopping, perto do Condomínio Alfavela, e nas plataformas de gigantes do e-commerces como Amazon e Mercado Livre.

No total, entre contistas, poetas e cronistas, a seleta reúne trinta nomes de notória inventividade literária. Quase todos são imortais das academias de letras de Mossoró e do Rio Grande do Norte. Cinco dessas cabeças pensantes, para a glória do nosso mundo das palavras, já conquistaram o prestigioso Prêmio Tartaruga, a mais cobiçada honra da literatura tupiniquim.

A Feira do Livro de Mossoró, desde sempre, é uma vitrine exclusiva e fiel dos nobres bruxos e bruxas do Cosme Novo.

Considero uma tremenda sacanagem o fato de tantos e tão bons escritores do Brasil nunca terem ganho um Nobel. Outra baita injustiça é nenhum literato da terra dos monxorós sequer ser indicado para o galardão da Academia Sueca. Absurdo do absurdo! Bom! Enquanto o Nobel não chega para algum dos meritórios autores mossoroenses, e sem nada de mais importante para fazer, hoje eu resolvi divulgar (na melhor das intenções!) estas inúteis notas de inutilidade pública.

Quem sabe num futuro não muito remoto, quando os algarismos da loteria enfim caírem na minha cuca, eu seja convidado para fazer parte de uma segunda antologia mossoroense dessa magnitude. A menos que não me considerem um escritor.

Mas com Deus, saúde e dinheiro tudo é possível. Deixem estar.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 11/02/2024 - 06:46h

Viva a quarta-feira de cinzas!

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Antes de começar a escrever estas linhas, sentindo-me sem saco e sem tesão para mexer com literatura, pensei em pedir socorro aos escritores Bruno Ernesto e Odemirton Filho. Quem sabe algum deles tivesse sobrando, num escaninho do computador, uma crônica que eu pudesse assinar como minha. Só por hoje.

Depois, já livre deste meu fastio, eu retribuiria a gentileza com um texto inédito que eles também pudessem assinar como deles. Vizinhos (cronistas) são para essas coisas.

Porém me lembrei de que Bruno Ernesto e Odemirton têm uma impressão digital muito peculiar e já bastante conhecida pelos leitores deste blogue do Carlos Santos. Decerto o embuste seria facilmente notado. O mesmo poderia acontecer a qualquer um deles assinando uma crônica minha, cuja impressão digital não expõe uma vírgula sequer da leveza literária do Odemirton Filho nem dos bem narrados resgates históricos do Bruno Ernesto.

Essa literal troca de papéis ficaria menos crível do que uma cédula de cento e cinquenta reais. O jeito, então, é admitir que não tem jeito e me virar. O tempo está correndo e tenho prazo curto para realizar o serviço.

Isto porque o meu Editor, por motivo de viagem à Cidade Maravilhosa, quando marcará presença na Marquês de Sapucaí, pediu-me para adiantar a página que costumo produzir (no mais das vezes) apenas no início das tardes de sábado. Assim, com ou sem saco, com tesão ou sem tesão, retorno ao batente.

Hoje, entretanto, eu estava mais interessado em curtir um bom e bocejante ócio. Nada de leituras ou escrevinhar. Só ouvir um blues baixinho, preparar uma xícara daquele café de altíssima qualidade com que Elias Epaminondas me presenteou, deixar a casa à meia-luz, aproveitar o silêncio que (ao menos neste momento) os vizinhos me oferecem, travar o cadeado no portão e desligar o telefone.

Mais tarde, cerca de nove da noite, assistir a um filmezinho da Netflix com Preciosa ressonando sobre meu peito. A gatinha é um grude! Deus me livre de notícia de carnaval! Seja pela televisão ou internet. Gosto mesmo é da quarta-feira de cinzas. E de ouvir falar da ressaca etílica e financeira dos foliões.

Mas que Deus, o Todo-Poderoso, socorra os bolsos desses pierrôs e colombinas contritos.

E viva a quarta-feira de cinzas! Aleluia!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/02/2024 - 07:28h

Sinal de fumaça

Screenshot_2024-02-04-08-31-24-056_com.google.android.gm-editPor Marcos Ferreira

Querido amigo João Bezerra de Castro, saudações.

Desejo que esteja em paz e gozando de plena saúde.

Dou a mão à palmatória. Sei que estou em falta com você e com os nossos amigos e leitores, com os quais você gentilmente compartilha minhas crônicas domingueiras. Lamento pelo silêncio e falta de, ao menos, um sinal de fumaça. É muita coisa por aqui me roubando tempo e o pouco juízo que me resta.

O psiquiatra mexeu outra vez nos meus remédios; o neurologista decretou a volta do Rivotril. Passo a manhã quase toda fora de combate, hibernando, chapado. Não assumo compromissos nesse período. Exceto por força de um exame de sangue (naturalmente em jejum) ou por consulta médica que não consigo agendar para o horário da tarde. Existem ainda, afora a minha torturada escrita, os afazeres domésticos. Pois é. Parodiando o marketing daquela ex-primeira-dama da República, também sou recatado e do lar. Falta-me só a beleza física, mas isso é problema do espelho.

Tenho esse vínculo com o reputado blogue do Carlos Santos aos domingos, algo que valorizo bastante e que Natália não aceita desculpas de que estou sem a verve necessária, contudo eu lhe digo que atualmente o meu maior ardor nas letras é aquela literatura de ficção mais complicada: romances e contos.

Como não disponho de meios para bancar meus “best-sellers” confinados no notebook (pagar o serviço do diagramador e do capista, mandar imprimir essas produções em uma gráfica bacana), resta-me o peneirão de prestigiosos concursos literários do País para obras inéditas. Sim, amigo, eles existem. Mesmo em municípios muito menores que Mossoró e Natal. Então, além de publicar o livro vencedor, os certames nacionais costumam oferecer um bom prêmio em dinheiro ao literato.

Sabemos que ninguém, em raríssimos casos, assegura o pão de cada dia apenas escrevendo livros. Isso não quer dizer, todavia, que devemos silenciar, meter o rabo entre as pernas, e não cobrar dos governantes, dos gestores, ações que fomentem e promovam a produção e o engrandecimento da arte da palavra.

Neste RN de políticos (salvo exceções!) arrivistas e avarentos, donos de um vernáculo obtuso e uma lábia poderosa, não existem concursos literários. E quando aparece algum é oferecendo nonadas, mixaria, troféus e medalhas ordinários, pedaços de cartolina com uma suposta distinção de honra ao mérito. Vergonha! Mesquinhez! O escritor precisa ser recompensado na alma e também na carteira.

É isso, amigo João. A literatura, como outros ramos de arte, resistirá sob paus e pedras. Porque seguiremos escrevendo e escrever é preciso. O resto que se dane futebol clube. Eis agora um sinal de fumaça para você e nossos amigos Bernadete Lino, Francisco Nolasco, Evandro Agnoletto, Marcos Campos, Vânia Granja, Gilberto Monteiro, Raimundo Gilmar, Israel Carvalho, João Bosco Costa, Nivaldo Caravina, Julimar Mendonça e Fernando Costa Filho. Desculpe se me esqueci de alguém. Porque minha memória tem a durabilidade de um Sonrisal num copo d’água.

Fico por aqui. Já são quase cinco horas desta tarde de sábado e nem comecei a escrever a crônica de amanhã. O pior é que estou sem assunto. Acho que vou falar sobre a coqueluche do Big Brother. Melhor não tocar nesse vespeiro. Deus me livre! A lavagem cerebral foi muito bem-feita e é irreversível.

Depois eu mando outras fumacinhas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 28/01/2024 - 07:46h

O café-soçaite no Beco das Frutas

Por Marcos Ferreira

Ilustração Web

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Outra vez, falhando em uma disciplina que almejo, deixei esta moita pornográfica, indecente, ficar deste tamanho. Aqui estou (carrancudo) parecendo com o rosto de um porco-espinho. Invejo, até certo ponto, aqueles indivíduos de carinha andrógina, sem barba nenhuma. Às vezes, quando muito, exibem uns fios ralos, finíssimos, quase imperceptíveis. Admiro os sujeitos que, diariamente, como cumprissem uma promessa inquebrável, enfrentam o espelho, fazem um pouco de espuma, dão de garra da navalha e raspam a cara de novo, eliminando vestígios dos pelos.

Os meus heróis da resistência (a pouca telha que me resta) também carecem de uma poda cuidadosa, cirúrgica. Preciso ir ao Beco das Frutas, entregar-me aos cuidados do senhor Fernandes, e readquirir as feições de um ser humano. O salão é de primeira. Aí está o poeta Aluísio Barros que não me deixa mentir. Há mais ou menos dois meses me deparei com Aluísio no referido espaço. O poeta, agradável e gentil como sempre, avaliou o meu jeitão pé-na-cova, falou que estava sem pressa e me convenceu a ficar com a vez dele. Isto é, fui inserido no atendimento preferencial.

Recordo bem que era uma tarde de segunda-feira. Guardo essa lembrança porque foi justamente quando (embora eu não saiba dizer qual santo baixou em mim) resolvi fazer uma caminhada. Então, me fiando nos meus cambitos, coloquei uma roupinha apropriada, calcei o meu único e malhado par de tênis, deixei o Conjunto Walfredo Gurgel e desci a Presidente Dutra na contramão. Cheio de gás!

O meu plano era mesmo aproveitar a viagem e cuidar das fuças. Então prossegui avenida abaixo. Dessa forma, compensando o meu frágil condicionamento físico, utilizei-me da ladeira. Porque descendo todo santo é puxa-saco. Ao fim e ao cabo, sem querer contar vantagem, mas contando, cheguei ao meu destino. Consciente, no entanto, de que o retorno seria através de um telefonema para o número 192: o velho e bom Samu. Como raras vezes acontece, o salão estava quase que vazio.

Depois do cabelo cortado e da barba feita, animei-me, recobrei as forças e fui parar na TecMicro, loja e oficina de informática dos amigos Nilson e Marquinhos Rebouças, situada na Alberto Maranhão, defronte do ginásio de esportes. Riram bastante da minha aventura e ousadia, mas arrumei uma carona com eles.

O senhor Fernandes, ao lado da sua equipe de mulheres, todas reconhecidas profissionais da beleza, oferece tudo o que um salão de responsa deve oferecer. O corte de cabelo (ao menos o masculino) custa dez reais. A barba, vinte. Não é, portanto, algo para quem quer; é para quem pode. Ignoro os preços dos demais serviços. O que sei é que a alta-roda mossoroense só pisa naquele beco a fim de melhorar o visual. Ali, em meio ao cheiro das frutas e ao ruído do comércio, encontramos destacadas figuras do âmbito político, empresarial, literário e religioso desta cidade.

É no Beco das Frutas, de segunda a sábado, onde muita gente cuida da aparência e da autoestima. Só não revelo o nome do estabelecimento para não abespinhar marqueteiros, publicitários, relações-públicas e colunistas sociais, dignos arautos da honra, solidez e glória do café-soçaite destes confins do mundo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/01/2024 - 08:24h

Leite de pedra

Por Marcos Ferreira

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Mal acompanhado. É dessa forma (nos períodos de crise) que respondo ao escritor Clauder Arcanjo quando ele me liga e pergunta como estou. Explico o que isso quer dizer. Trata-se da presença indesejável da enxaqueca. Esta última visita, que nunca é a derradeira, foi longa e penosa. Durou a semana quase toda. Começou na terça e teve fim apenas com o pôr do sol da sexta, cansada de me fustigar.

Depois do vômito e da cabeça zonza, falei com os meus botões: “Vou colocar um ‘atestado médico’ no blogue do Carlos Santos, requentar um pão dormido. Quem sabe até um daqueles sonetos com cheiro de naftalina. Aí ficarei de molho mais uns dias. Aproveito e também dou uma folga ao meu sofrido notebook”. O que?! Ledo engano! Sabendo que meu encosto latejante tinha pegado o beco, Natália rasgou o “atestado”: “Deixe de moleza. Ainda dá tempo. Cuide de escrever a crônica do domingo. Não invente de mandar texto que já foi publicado! O pessoal não gosta, espera por coisa nova”. Até que na tarde de ontem, pelo WhatsApp, me chega este lembrete:

— Arremesse a crônica. Estou no aguardo.

— Positivo, meu Editor. Falta só a revisão.

Mentira! Eu não havia escrito uma linha sequer. “Deixe de moleza”. Dissera Natália. Como percebem, transformei fraquezas em forças e tirei leite de pedra. Mas nós sabemos que nem sempre tal façanha é possível. De qualquer jeito, mesmo com um travo de dipirona, estou de volta às palavras. Nada de fazer corpo mole. Sem essa de pão dormido. “O pessoal não gosta, espera por coisa nova”.

Concordo. Tantos bons autores, chovesse ou fizesse sol, abraçaram o compromisso de escrever uma crônica todo santo dia. Como fizeram, entre outros, Dorian Jorge Freire, Otto Lara Resende, Rubem Braga e Antônio Maria. Aqui pertinho, no Jornal de Fato, temos o José Nicodemos, verdadeiro artista da crônica. Ele não deixa a peteca cair, escreve cotidianamente, sem requentar pão dormido.

Penso nos que empregam alguns minutos do seu tempo na leitura do que escrevo. Fico feliz. São leitores daqui e de longe. Rostos conhecidos e outros que nunca vi.

Esse vínculo, essa conexão por vezes tão remota, é algo que faz tudo isso valer a pena. Assim, principalmente quando a enxaqueca é derrotada pelo saco de pancadas, é necessário retirar o leite da pedra e oferecer um pão bem novinho.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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