domingo - 12/03/2023 - 06:24h

Um procurador de talentos

Por Marcos Ferreira

Aqui estamos mais uma vez neste blogue cheio de leitores e leitoras fidedignos. E eis que novamente é domingo. Os domingos conferem a este espaço ilustrado uma aura de arte e cultura que pouco se vê nos ordinários dias desta urbe. Aqui há colaboradores dos mais diversos naipes e estaturas intelectuais, a exemplo do cronista Taumaturgo Herculano. Vamos chamá-lo por esse nome parrudo.

Ilustração

Ilustração

Então, à maneira de outros escribas, esse beletrista é dono de uma escrita escorreita, com expertise em resenhas e ensaísmos. É preciso que se reconheça a voltagem verbal do cidadão Taumaturgo. Digo isto sem conhecê-lo pessoalmente e com a mais completa isenção. O homem é bom! Só não é melhor porque alguns (não todos) não conseguem vê-lo a olho nu. Nesse caso estamos diante de um típico, um grave caso de miopia literária. Porque o senhor Taumaturgo é um monstro, um craque em se tratando de arranjar palavras acerca de diversos autores e obras.

Seria necessário, portanto, que outro elemento deste reduto literário se desse ao trabalho de escandir, exaltar os predicados verbais dessa persona que tão abnegadamente se contenta em chover no molhado, em replicar a fama, a notabilidade dos maiores e até pouco populares vultos da literatura brasileira e universal. O leitor pode perguntar, com inegável razão, por que eu próprio não faço isso.

— Quem é o sujeito? — hão de indagar.

— Também não sei — eu lhes respondo.

Se não perceberam, apesar do criptônimo empregado para me referir ao verdadeiro Taumaturgo Herculano, estas linhas vêm justamente conferir alguma justiça ao trabalho de ourives do homem de letras em questão. Digo ainda que não tratamos de qualquer um enquanto escafandrista da obra de terceiros, mas também de um prosador íntimo da nossa enxovalhada língua portuguesa. Por essas e por outras, então, opino que o senhor Taumaturgo Herculano é o melhor ensaísta do Blog Carlos Santos. E se não digo o nome do santo é por não sabê-lo e não expô-lo à inveja.

É isto. A inveja, como uma bactéria, pode estar presente onde menos supomos. Sobretudo porque ela, assim como o nosso insigne literato, não é vista ou notada por nós outros com acuidade visual supostamente apurada. Tudo isso, enfim, é uma absurdez, um contrassenso. Onde já se viu uma coisa dessas: um gigante da ensaística como Taumaturgo Herculano não ser notado neste habitat!

É bem possível que neste exato momento, enquanto aqui produzo esta página dominical, o senhor resenhista também esteja concebendo mais uma de suas irretocáveis crônicas sobre notáveis expoentes da literatura. “Quem é esse sujeito?”, você insiste em me perguntar. Quem sabe seja um heterônimo de alguém famoso. Dessa maneira, portanto, não nos deixemos convencer pela legenda que consta no final de seus escritos. Isso, como tantas vezes já se deu em nossa literatura, pode ser um mero despiste. Diversos indivíduos assumiram outras identidades artísticas.

Agora transfiro a vocês a necessária tarefa de abrir os seus olhos e prestar bem atenção na escrita desse procurador de talentos alheios. Vale a pena se entregar a esse garimpo literário. De minha parte, enfim, seguirei conferindo, domingo após domingo, a rica produção desse “desconhecido”. Já quanto a esta crônica, reparem só, eu fico imaginando o senhor Taumaturgo se reconhecendo nela.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/02/2023 - 08:34h

Meus tempos de imprensa

Por Marcos FerreiraIlustração para Meus tempos de imprensa 1

Ninguém perguntou, mas hoje quero contar a história de um rapaz ordinário. Aqui ordinário vai no sentido de comum, antes que se pense outra coisa acerca dessa palavra consagrada com sentido pejorativo. Naquela idade (vinte e quatro anos) esse moço ainda vivia sem eira nem beira. Falto de grana para quase tudo, virando-se apenas com biscates.

Só que o rapazinho, desde os breves tempos de escola, adquirira o hábito de escrever versos e, enquanto leitor, possuía uma estrada considerável. Na verdade, o hábito da leitura veio antes dos poemas revestidos com açúcar.

Até que um dia (sempre há um dia!) um renomado advogado e poeta destas penhas tomou conhecimento de que ali próximo à casa de sua nora havia um moço que compunha versos e tinha dois cadernos cheios dessas coisas que agora se escreve primeiramente em celulares e computadores e, logo depois, vão parar nos sites e nos blogues.

O nome do eminente advogado e literato era Apolônio Cardoso, autor de um texto musicado não sei por quem, tendo obtido bastante sucesso à época.

O título da então música de Apolônio Cardoso era (ainda é) “Flor do mocambo”, cujos versos admito não recordar. Então, com olhos indulgentes, esse consagrado homem de letras folheou e examinou uns dez poemas de minha autoria, em especial sonetos, e me pediu, pousando a mão no meu ombro, que eu o procurasse em seu escritório advocatício no dia seguinte, num prédio de primeiro andar nas imediações da Praça Vigário Antônio Joaquim.

Fui ao encontro de Apolônio no dia combinado, e ele repetiu elogios que me havia dito na véspera. Deu-me um papelzinho, um bilhete para que eu fosse ao Jornal O Mossoroense e lá procurasse o também poeta Cid Augusto. O tal bilhete abonava a minha participação no centenário como colaborador.

Cid Augusto de pronto botou os olhos naqueles sonetos carregados de influências clássicas, prenhes do estilo passadista de uma centena de autores, aprumou os óculos e balançou a cabeça afirmativamente: “Muito bem, senhor Ferreira, você fará parte da nossa equipe de colaboradores dominicais. Venha cá, eu quero lhe apresentar ao rapsodo Caio César Muniz”, disse o inveterado e jovem boêmio com quem (mesmo sem ser boêmio) mantenho uma consistente amizade até os dias de hoje.

Graças a Apolônio, portanto, eis que ingressei na imprensa desta província, muito embora continuasse na pindaíba, sem um tostão furado. Uma tarde, infelizmente, tomei conhecimento da morte do autor de “Flor do mocambo” e de outras composições de expressividade em nossa literatura e além fronteiras potiguares. Súbito, então, me senti como que órfão, desapadrinhado no contexto literário.

Em uma outra tarde, quando cheguei à redação de O Mossoroense para entregar minha colaboração para o caderno do domingo, fui chamado pelo diretor financeiro e este me comunicou que havia uma vaga para revisor de textos e que Cid Augusto me indicara.

Fiz um teste gramatical à época, já que existiam outras pessoas interessadas no cargo, e obtive a maior nota, embora minha situação escolar não fosse além da sétima série ginasial. É isto, sou um autodidata por convicção.

Decorrido cerca de um ano e meio, também por indicação de Cid Augusto, ascendi ao cargo de editor de cultura, conciliando com a tarefa de revisor. O emprego no jornal, se eu não disse ainda, foi o primeiro trabalho onde me senti de fato visto como alguém com outro potencial que subempregos anteriores não me proporcionaram. Isto sem sugerir aqui que esse ou aquele emprego não seja digno.

De minha parte, todavia, me encontrava num lugar com o qual me identificava, fazendo o que sabia e gostava. É verdade, contudo, que a função de repórter cultural era algo que não me agradava tanto quanto as demais atividades correlatas: revisor de textos e copidesque.

Um dia, como tudo se finda, minha ligação com O Mossoroense ruiu (não sou um elemento fácil de ser domesticado) e fui respeitosamente convidado a sair. Aqui e acolá, então, me bate uma sincera saudade daqueles bons tempos. Em especial do bardo Apolônio Cardoso. Fiquei no ora-veja.

Por outro lado, segundo Ernest Hemingway: “Todo bom escritor tem que passar por uma redação de jornal. Mas, para ser bom mesmo, ele tem que sair dela”. Não sei se me tornei bom, no entanto saí.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/02/2023 - 08:22h

Bandeira branca

Por Marcos Ferreira

Algumas vezes eu te ofendi com palavras duras e afiadas como um disco de diamante. Sim, eu te maldisse em momentos incontáveis. Pisei nos teus calos, cuspi no teu chão com revolta e desprezo. Eu tinha (talvez ainda possua) vários motivos para te cobrir de impropérios. Nossa relação nunca foi fácil. Na verdade, a bem da verdade, vivemos um amor às avessas, um amor entre a ternura e o desgosto. Esperei de ti um mínimo afago, contudo só recebi pancadas, desdém, escárnio.Ilustração Bandeira branca 1

Ainda assim não me considero vítima de coisa alguma. Percorri os sombrios abismos de teu coração de olhos bem abertos. Eu sempre soube que, a qualquer momento, tu me cravarias uma faca nas costas. Jamais me enganaste. Não foi por inocência ou descuido que caí nos teus charcos, nos teus pântanos de mutismo, desprezo, descaso. Muitos me alertaram: toma cuidado com ela! É ardilosa.

Volta e meia alguém me dizia algo desse tipo a teu respeito. Todavia eu tinha plena consciência de onde estava pisando. Ou sendo pisado. Exatamente. Talvez eu tenha sido espezinhado mais do que pisei. Houve até um tempo, imagine só, em que eu te dediquei versos ingênuos, honestos, piegas. Por sua vez, claro, não deste a mínima para aqueles poemas açucarados, tão repletos de poeticidade quanto uma bigorna. Sim. Durante determinado tempo te levei a sério e te bendisse.

O tempo foi passando, e minha frustração ofertou espaço a um sentimento revoltoso. Fui me cansando de viver a teus pés, mendigando atenção, reconhecimento. Nada disso me foi oferecido. Quebrei a cara, perdi o encanto e me tornei um sujeito amargo e pouco receptivo à “vida em rebanho”, como diria Antonio Alvino. Bem lá no fundo, porém, guardei alguns resquícios de empatia por ti.

Embalde. Nossa relação de amor e ódio jamais nos permitiu viver outra coisa exceto uma tácita inveja um do outro. Apequenamos todas as nossas conquistas, fizemos pouco-caso de nossas vitórias, desdenhamos de tudo de positivo e admirável que possuíamos. Eu, mergulhado no ressentimento. Tu, cega de inveja dos meus pequenos sucessos neste ringue das palavras supostamente artísticas. Não nos respeitamos. Só dissimulamos, fingimos o tempo inteiro não nos enxergarmos.

Hoje, enfim, em nome de tudo que poderíamos ter sido e que não fomos, quero te propor uma trégua, levanto uma bandeira branca para simbolizar um armistício entre nós. Que tal? Imagino que nenhum dos lados tem nada a perder com isso. Até porque, na minha opinião, já perdemos muito tempo e muitas coisas durante todo esse arraigado e não discutido mal-estar entre nós. Tu sabes disso.

Estou farto desse bangue-bangue sem chumbo nem cheiro de pólvora. Quero novamente andar entre as tuas ruas, becos, avenidas e vielas sem me sentir uma espécie de escavadeira de tuas pedras e do teu asfalto. Até te perdoo (momentaneamente) por tantas árvores que foram ceifadas bem debaixo do teu nariz. E o que dizer do nosso poluído e agonizante rio? Tu fizeste muitas concessões a elementos caça-níqueis, a grileiros urbanos. Hoje se apoderaram de ti como de uma messalina.

Enquanto isso, diante deste velho notebook, eu também tento me vender por homem de letras. Ao menos um escriba dominical, arremedo de cronista com excesso de ego e pouco talento. De resto, portanto, ergo uma bandeira branca em nome de uma paz que já deveríamos ter adquirido desde o tempo em que éramos jovens e cheios de esperança no futuro desta cidade sem honra nem glória.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/02/2023 - 04:30h

Boêmio sem boemia

Por Marcos Ferreira

Nunca fui de fato um boêmio. Não ao menos por natureza. Embora tenha ido a certos lugares etílicos por um determinado tempo. Isto em companhia dos notívagos Caio César Muniz, Túlio Ratto e Cid Augusto. Eu frequentava os bares e alguns outros endereços onde se adquiria bebida alcoólica, no entanto nunca passei de uma garrafinha ou duas de refrigerante.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Hoje, por respeito à saúde, não bebo nem mais isso. Só uma vez por ano sucumbo à tentação de uma KS geladinha.

Há outras coisas que mudaram. Refém da Netflix, costumo assistir a vários filmes. O mais recente que vi foi “O Pálido Olho Azul”, longa-metragem bem-bolado que destaca a vida do poeta americano Edgard Allan Poe. Há poucos dias, a propósito, essa película ganhou uma bela resenha de Cid Augusto. Então, quanto a “O Pálido Olho Azul”, depois da resenha de Cid, não tenho mais nada a declarar.

Com o tempo, em especial quando a literatura “se fez mais forte/ mais sentida”, como na canção do Peninha, tornei-me recluso. Durante determinada parte do dia, embora não seja aposentado, eu me dedico ao exercício da palavra escrita, feito agora acontece. À noite, para descontrair, armo uma rede e vou me entreter com a sétima arte. A essa altura, porém, já tenho tomado meu arsenal de remedinhos e aí acontece de eu deixar cerca da metade das cenas para a noite seguinte.

É isto. Não mais me sinto confortável ou à vontade nesses espaços muitas vezes barulhentos, com música ao vivo e pessoas falando alto ao mesmo tempo. É por essas e por outras razões que não boto meus pés na praia de Tibau nessa época do ano. Um empresário ricaço deste município chegou a me oferecer duzentos mil reais para que eu passasse o final de semana em Tibau, porém recusei.

Como dizia Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Além de não mais ir a bares, lugares que se encontram cheios de homens vazios, segundo afirmou Vinicius de Moraes, habituei-me a viver só e a ter uma vida social mínima, com um pequeno número de amigos de fato verdadeiros.

Com isto não pretendo dizer que as pessoas que frequentam os referidos bares sejam inferiores ou vazias. Não. Tal frase, a meu ver, não passa de uma boutade do autor de “Pátria Minha”.

No momento, para que ninguém diga que veio a esta casa e não bebeu coisa nenhuma, tenho a oferecer um bom café numa residência novinha. Como a obra está nos acabamentos, não entrarei em detalhes. Mas Carlos Santos e Elias Epaminondas já cantaram a bola e disseram que devemos (regado a café) promover um sarau para inaugurarmos a casa.

Concordo e todos serão bem-vindos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 05/02/2023 - 08:42h

Pequeno ensaio sobre a bondade

Por Marcos Ferreira

Vamos brincar de ser gentis?! Sim, gentis. Todos estão convidados. Não importa a cor da pessoa, a orientação sexual, a idade nem o poder aquisitivo. Quem sabe incorporemos a brincadeira e, sem que notemos, isso se instale em nossa alma como uma tatuagem invisível.

Foto ilustrativa

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Aprendamos, portanto, a ser mais fraternos e afetuosos com nossos semelhantes. Eu diria até que não somente com nossos semelhantes. Não. Pois há tantos animaizinhos por aí sofrendo, vagando nas ruas sem um lar, sem um tutor que lhes ofereça a mínima proteção e carinho. Brinquemos de ser amáveis. Provoco você a fazer parte dessa brincadeira inclusiva. Fazer o bem é tão salutar!

Por não possuir muita audiência nas redes sociais, uso este Canal BCS para propagar a minha mensagem agregativa. Que este Blog do Carlos Santos seja um fio condutor. Ultimamente eu me sinto assim: propenso a praticar a bondade, tornar minha existência uma ponte em vez de um abismo. Sinto a mais absoluta obrigação de ser benévolo com tudo e com todos à minha volta. Não é difícil, não custa nada ser amável, fraterno. E se custa é tão pouco que nem vale a pena calcular.

Venha! Não se deixe barrar pela inação ou timidez. Como antigas crianças que um dia todos nós fomos, embora alguns continuem crianças, troquemos nossa carranca, nosso ar sisudo por um sorriso de orelha a orelha. Sorrir também faz parte do processo de pacificação do espírito e do despertar daquilo que há de bom em nós. Eu mesmo, para ser franco, estou surpreso com minha repentina atitude em prol da paz e do amor entre todos os indivíduos. Pois é, nem sempre fui assim, voltado à resignação e à concórdia. Minha origem, minha fama, é de espadachim do verbo, atirador infalível sob a camuflagem das palavras de aço e fogo. Hoje, enfim, brinquemos dessa maneira. Porque isto, creiam, é algo bom, que infunde bonomia em cada um de nós.

Não tenhamos nojo, repulsa, àqueles que se encontram à noite dormindo sobre pedaços de papelão, rifados nas madrugadas de chuva ou de Lua, de estômagos vazios e cheios desesperança. Não joguemos, por exemplo, óleo quente sobre tais indivíduos. Não é desse tipo de banho que os sem-teto carecem. Não façamos tal barbaridade a ninguém. Abracemos seriamente a bondade. Experimente!

Aposto que você, tão logo pratique a caridade, há de se sentir mais leve, decerto livre daquele arraigado espírito de chumbo que nos torna cabisbaixos perante nossos irmãos, diante daqueles pobres-diabos que suplicam por nossa atenção, nossa misericórdia. Exercitar a bondade, ser ameno, repito, é algo possível, mesmo que a maior parte das pessoas desconfie do palavreado deste cronista e prefira não tomar parte nesse exercício que busca seriamente tornar a existência de outras pessoas menos sofrida.

Que sejamos benévolos sem tirar fotografias ajudando alguém com o celular na mão, fotografando tudo. Mas, se você não consegue realizar o bem sem expor essas pessoas, siga postando suas selfies nas vitrines do Facebook e do Instagram.

O importante, apesar da ostentação, é matar a fome dos necessitados, daqueles que certamente atravessam noites inteiras sem nenhuma comida. Brinquemos de ser justos, afáveis. A gentileza engrandece mais o cidadão bondoso do que a pessoa em situação de miséria. A vida, reparem bem, é muito bela e boa para todos nós que temos um teto, que podemos contar com amigos nas horas difíceis, pessoas que estão do nosso lado nos momentos alegres e nas situações mais complicadas.

— Isso é realmente uma crônica ou literatura de autoajuda?! — talvez alguém assim me fustigue no espaço reservado à opinião dos leitores. Que seja! Não tem problema. Pois se neste exato momento minha escrita for de autoajuda e ela ajudar alguém de algum modo, senhoras e senhores, eu já me sentirei recompensado. Isso, todavia, não vem ao caso. O que de fato proponho, aqui e agora, é que brinquemos seriamente de ser bons, que pratiquemos a gentileza sem olhar a quem, conforme está nas Escrituras. Pois há poucos com tanto e muitos sem nada (perdoem o jogo de palavras). Às vezes me pergunto por que tamanha desigualdade e falta de comunhão. Não pensemos que no apagar das luzes levaremos alguma fortuna para o sepulcro.

A frase não é minha, aviso logo, porém “gentileza gera gentileza”. Agradeçamos a dádiva de sermos o que somos e possuirmos um coração e uma mente que nos tornam superiores a certos animais. Mas não somos melhores, por exemplo, que um beija-flor ou um cãozinho abandonado. Apesar de tudo, graças ao Altíssimo, somos a espécie dominante. Apenas carecemos de praticar mais a bondade.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/01/2023 - 09:50h

Retalhos sentimentais

Por Marcos Ferreira

Centro de Mossoró (Foto de Manuelito/Arquivo)

Centro de Mossoró (Foto de Manuelito/Arquivo)

Hoje eu gostaria de dizer, apesar do esforço do nosso imberbe prefeito, que nossa província vai de mal a pior. Claro que o rapaz trabalha incansavelmente (o senhor prefeito), contudo é muita coisa errada para um só cristão consertar. Meus conterrâneos, juntamente com aqueles que esta cidade adotou e que aqui fazem desordem e fortuna, embora sejam minoria, transformaram nossa poética terra do sal e petróleo numa casa de recurso, num randevu onde muitos se relacionam promiscuamente.

Lamento trazer este assunto nevrálgico para este domingo azul e ensolarado.

As ruas continuam repletas de buracos. Os paralelepípedos do Conjunto Walfredo Gurgel, onde resido, por exemplo, estão na maior parte revirados. O Executivo passou o asfalto em uma determinada rua do bairro (não sei dizer qual foi o critério), porém o resto é uma buraqueira lunar, exibindo crateras do tamanho da Rússia, do Canadá ou China. Os governos pretéritos, é bom que se diga, deixaram uma batata quente nas mãos do atual prefeito, um abacaxi nada fácil para descascar.

Então, unindo nossa histórica desordem administrativa à vocação depredatória do povo (tanto os necessitados quantos os novos-ricos) esta comuna sofre nas mãos e sob os pés dos seus insensíveis habitantes, salvo exceções. O nosso rio, de tão massacrado pela poluição, é outra personagem desta aldeia que agoniza ante a inação dos políticos aboletados na Câmara Municipal. Até o novo prefeito, embora bem-intencionado, parece fazer vistas grossas a calamidade do velho rio. O município possui um aeroporto quase inoperante, utilizado bem mais por corujas e urubus.

Como diria Vinícius de Moraes, os bares estão cheios de homens vazios. As noites deste cafundó perderam a poética do histórico Cine Pax e entraram em cena os desfiles de carrões disputando estacionamento nos arredores de casas de pasto e no Partagem Shopping.

Somos, volto a frisar que há exceções, uma população que não se interessa por livros de fato literários. Até porque só restou em nosso meio cultural uma única e modesta livraria, instalada justamente no tal shopping.

Rapazes e moças de cabelos estilizados, a exemplo de gente de meia-idade, todos muito prafrentex, exibem as melhores roupas e assessórios nos bares e restaurantes mais badalados. À volta desses endereços está a tropa de flanelinhas auxiliando os motoristas a estacionarem seus possantes. Fico a imaginar o que seria de certos condutores não fosse o imprescindível papel dos guardadores de carros, todos na expectativa de descolar um trocadinho quando seus “clientes” decidirem voltar para suas residências absolutamente bem diversas daquelas dos referidos flanelinhas.

Nossa terra, como falei, já foi mais poética, prosaica, pitoresca. Agora, à maneira de grandes municípios, está semelhante a uma espécie de porco-espinho de alvenaria, isto a julgar pelo constante aparecimento de arranha-céus que brotam do chão perfurando nuvens e reduzindo a população de árvores, de edifícios históricos, tornando as fotografias do mestre Manuelito em retalhos sentimentais de um tempo oculto sob concreto armado.

Saudades daquele tempo que sequer vivenciei.

Mas nem tudo nesta crônica melancólica são choro e ranger de dentes. Também enxergo prosperidade. Há muita coisa positiva em meio ao capitalismo selvagem. Apesar das rasteiras e pancadas que já levei, amo este berço natal. Ainda tenho esperança de que os nossos políticos, entre os quais se encontram indivíduos de boa índole e comprometidos com o bem desta Macondo do semiárido, façam jus aos votos que receberam e trabalhem por um progresso igualitário para todos. A começar, quem sabe, tomando medidas efetivas para que salvemos o nosso padecido rio.

Espero verdadeiramente que esta terra encontre o seu ideal. Como na canção do Chico Buarque. Não podemos restaurar o passado, impiedosamente destruído, todavia é possível construir um futuro menos insensível e solidário.

Que plantemos outras árvores para compensar tantas que ceifamos em benefício do ferro e do concreto. Este município, cujo nome faço questão de omitir, todo mundo conhece e sabe que não estou aqui contando nenhuma lorota. Ao menos presumo que não.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 22/01/2023 - 13:34h

Confidências a Ferreira

Por Clauder Arcanjo

Foto de Marcos Ferreira (Revista Papangu)

Foto de Marcos Ferreira (Revista Papangu)

Agora habita o meu olhar 

noturno este vazio estranho, 

esta memória de chuva 

que descolore o pôr do sol, 

que emudece as palavras 

e silencia o chocalho das horas. 

Noturnos, os poetas se emudecem no silêncio das madrugadas, a fim de encontrarem a raiz poética, (re)encarnada na cumeeira do vazio.

Enquanto a cidade dorme, a poesia se apresenta, antes do nascer do sol, como oferenda legítima e mundana do (des)colorido atormentado da vida.

Pois não sou este espírito a esmo 

Que me busca entre sombras e abalos 

Na infinita procura de si mesmo. 

&&&

Os passos 

no corredor, 

a luz acesa. 

O perfume 

da inocência 

brincando 

entre as mãos 

pervertidas 

do vento. 

— Poeta Marcos Ferreira, há sempre em nós uma confissão tardia! — Assombra-se Carlos Meireles, entre palavras de pecado e farta remissão.

Eu olho para a parede alta e nua à nossa frente. Um fero obstáculo a nos usurpar da liberdade de flertar com a arquitetura das nuvens, de antever o bulício dadivoso dos arrebóis.

Apenas o céu 

emoldurado 

na janela, 

a tia nas orações 

— tateando 

o paraíso 

nas contas 

encardidas 

do rosário. 

&&&

Perdi meu romantismo. Não sou mais 

O amante, o cavalheiro, o menestrel 

— O ingênuo cantador de madrigais. 

O que se perde, Poeta, mais se nos (re)define. Defino-me mais pelo que abandonei, desrespeitoso com meus despojos, do que pelo que levo na algibeira das minhas certezas vãs.

Hoje, neste ranzinza habitáculo em que meu corpo habita, quero recobrar os meus românticos perdidos, mas o mundo, cruel engenho, já cuidou dos seus funerais.

A poesia só me encontra quando me perco, pecador por palavras, nos seus cruentos madrigais.

Estremeço à tua passagem 

e meu olhar de chumbo 

se afunda na ilusão movediça 

do teu colo de aromas. 

A tarde boceja envolta 

num pijama de arrebol 

e as últimas cardigueiras 

desaparecem na linha 

ensanguentada do horizonte. 

&&&

Ontem voltei à rua dos 

meus tempos de criança… 

O fantasma do amor imberbe 

atravessou-me num abraço diáfano. 

Sobre a laje negra do asfalto 

brincava o doido esqueleto 

do meu cavalinho de pau. 

A infância usurpa o nosso presente. De quando em vez, joga seus espectros em nossa frente. E, cabisbaixos e saudosos do ontem, caqueticamente, nos tornamos fantasmas do nosso passado.

Hoje, Poeta, esperarei a assombração do eu-menino com a roupa de homem, em frente à porta da frente. Se ele passar por mim e entrar… Bendito seja eu, Ferreira!

&&&

Acho que a velha casa 

dos meus sonhos mirins 

ameaçou um sorriso de janelas. 

Ainda hoje sonho com a velha casa de Licânia. Entre os meus, colhido pelos tipos da rua, recebi as minhas lições de maior valia. Na nossa rua, não havia pobres nem ricos, existiam amigos e amigas. Gente boa, gente crédula, gente simples.

Cresci e me formei. E o mundo, Poeta, depois de Licânia, só me deseducou; e, hoje, não sonho mais com o sorriso do nosso janelão da frente. Lições de menos-valia.

— E quando retornarás a Licânia?, você me indaga.

E Licânia algum dia saiu de mim?! Se tu te referes a este meu esqueleto, ele será plantado na terra que me viu chorar, e muito sorrir no peito.

Mesmo que a luz 

de nossas almas 

se apague e o tempo 

nos arraste para 

o mundo das sombras 

e da saudade, 

haverá sempre esta 

candeia de esperança 

ardendo na solidão 

lacrimosa do meu peito. 

&&&

Ontem concebi 

um poema 

bastardo. 

Cumpre-me agora 

escrevê-lo, 

pois larguei-o 

entre as águas 

do banho 

e ele se afogou 

na garganta 

escura do ralo 

Há versos concebidos na antevéspera do escarro; outros, na comunhão de um afago; alguns, não raros, no lusco-fusco da esperança. São raros os que resistem ao tempo, juiz cruel de muito enfado.

Não adianta te cercares das lições comezinhas dos vates de outrora, nem das homilias poéticas dos modernosos de agora, pois o poema, aprendiz de poeta, só se entrega (e se revela) a quem nunca o espera, e dele se torna um fiel escravo.

Um sopro de angústia vai movendo 

as dobradiças do silêncio. 

As teias do tempo se espalharam 

por todos os cômodos e móveis. 

Sequer o velho relógio de pêndulo 

reagiu à minha súbita presença. 

Vê, em frente ao teu espelho, o sopro lívido da tua última quimera se esvair por entre as nesgas do silêncio, e se acomodar nas engrenagens das horas extremas.

O mais é tudo sombra e frialdade. 

&&&

É tarde… Um galo canta no vizinho. 

Então ele retorna e continua 

Os versos que deixou pelo caminho. 

Levanta, Marcos, os raros leitores de poesia aguardam o recital do teu soneto esquecido na última tarde. O primeiro quarteto, em alexandrinos perfeitos, ultrajava a dor que te tornara forte; o segundo, rimado e bem urdido, decantava a flor que tu havias tido; o primeiro terceto, arejado e reverente, tecia a família que, de ti, se orgulhava. Já a última estrofe, Poeta, toma cuidado!, pois daqui antevejo o traquinas Chico de Neco Carteiro a tentar escandir-lhe os versos, com sua voz rascante de augusta e rutilante matraca.

É de lábios 

e línguas 

este anseio 

que deriva 

da curva 

do teu medo 

e se gruda 

nos fios 

do silêncio. 

Na curva do arremedo, os poetastros cevaram os espectros dos seus pretensos poemas. De paletó e gravata, cercados de muitos festejos, eles se esqueceram de convidar a musa humilde.

Acharam, por certo, que, para eles, não havia segredo. Cumularam-se de saberes, outorgaram-se detentores de uma fama de araque… e se defrontaram, fatal desencanto, com o “poema” oco, perdido na tepidez funérea do vazio.

Abracei-a com força, mas não creio 

Ter podido prendê-la muito assim… 

Ela foi e eu fiquei ali no meio 

Do silêncio noturno do jardim. 

No silêncio da noite, sem a algaravia dos falsos arpejos, aprendi que a graça da poesia só nos alumbrará se riscada em laivos transparentes, pendidos, com a força solfejante da cola de uma mísera rima, sob a platitude lírica do abismo.

Não te maldigas pela sorte escassa 

Nem pela vida muita vez tão dura… 

Aqui no mundo nada sai de graça, 

Ainda mais quando se tem ternura. 

Quando a última ternura me caiu no colo opresso, nem percebi quando se deu tão sublime esmola, obrou-se o milagre de me ver em festa, quando todos lá fora se consumiam em desenganos.

E, se ao fim e ao cabo, tu, ternura, me tornares imprestável para a lida cotidiana, só me restará a lira… e a sina malsinada de me fazer poeta.

Hoje amanheceu bonito 

Como fosse primavera… 

Sem metáforas de sombra, 

Nem pedaços de quimera. 

&&&

Declaro, para todos 

os fins que se fizerem 

necessários, que não possuo 

bem algum neste mundo 

em que os homens 

declaram a guerra 

e sonegam a paz 

E tu, Marcos Ferreira, cuida de assinar o teu último armistício poético; eu, por aqui, rabiscarei o testamento do meu degredo.

Entre os fulgores da morte, as sonegações da paz, nós, tortos poetinhas, finalizaremos o nosso espólio, declarando fé no amanhã, apesar do risco de sermos fuzilados por isso.

No coração da noite segue uma tristeza 

Com passos muito lentos e desmotivados 

Obs.: os trechos em itálico foram extraídos do livro A hora azul do silêncio, de Marcos Ferreira. — 2ª edição — Mossoró: Editora Verboletras, 2016.

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras

*Texto originalmente publicado na revista Papangu

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Categoria(s): Crônica
domingo - 22/01/2023 - 09:46h

A velhinha de bicicleta

Por Marcos FerreiraA velhinha de bicicleta

Algumas vezes me lamentei, no mais de forma íntima, por não possuir certas coisas e precisar me expor a certas situações. Todavia, por comodismo ou trapaça do destino, sempre vivi monasticamente, porém com o mínimo de dignidade. Disponho de uma saúde claudicante, é verdade, mas a minha dieta de psicotrópicos me mantém nos trilhos, apesar do efeito colateral do sobrepeso. De um modo ou de outro, enfim, pude contar em muitas ocasiões com a mão amiga de várias pessoas, figuras que considero irmãos de espírito e de coração. Nem todos podem contar com isso.

No Centro de Mossoró, como se estivesse indo em direção ao Alto de São Manoel, avistei aquela senhora de óculos e cabelos totalmente brancos em sua bicicleta, uma Monark verde-claro com para-lamas vermelhos, cujo ano não ouso presumir. De tão usada, a tal bicicleta pareceu-me ter a mesma idade da sua condutora. Isto é, cerca de setenta anos ou mais. Naquele horário de pico, então, com o trânsito agitado e perigoso, a brava mulher se deteve no semáforo na lateral da Riachuelo.

Eu batia pernas pelo comércio em busca de orçamentos para a aquisição de materiais hidráulicos para a minha casa (tudo pela hora da morte!) e deparei com essa idosa guiando sua antiga Monark. Isso me desconcertou. Por força da necessidade, obviamente, eis que uma pessoa como Maria do Socorro (vamos chamá-la assim) via-se forçada a se arriscar em meio a carros e motocicletas, exposta à falta de zelo e cuidado para com uma ciclista frágil, e decerto já sem os reflexos e a desenvoltura nos pedais quanto um indivíduo jovem. Maria do Socorro me pareceu ofegante.

De roupas comuns, trajava um short ou saia azul e uma blusa laranja desgastada, essa anônima personagem em meio ao trânsito feroz me dava a impressão de que seria abatida, derrubada a qualquer momento. Imaginei o quanto melhor seria se ela dispusesse de alguém mais jovem para acompanhá-la (quiçá num veículo motorizado) até o destino de seu interesse. Contudo, infelizmente, ali estava a referida velhinha Maria do Socorro se aventurando, sujeita a qualquer tipo de acidente.

Que Nossa Senhora dos Idosos a proteja!

Seu rosto, o de Maria do Socorro, tinha um aspecto humilde, resignado, cara de quem enfrenta outras privações e riscos em sua vida de mulher pobre e provavelmente integrante de família tão carente quanto ela. Sim. Duvido mesmo que alguém como Maria do Socorro, rifada em meio ao rio metálico de automóveis e motos apressados, estaria pedalando naquelas condições se tivesse outra opção. Eu próprio, que tenho menos futuro que passado, não gostaria de viver tal experiência. Não me vejo aos setenta anos ou mais guiando uma bicicleta em meio a tantos perigos.

Quando criança, por volta dos dez ou doze anos, eu suspirava por uma bicicleta, mesmo que fosse velinha como a senhora Maria do Socorro. Meu coração palpitava, sobretudo quando eu via aquele antigo comercial de televisão que dizia o seguinte: “Não esqueça a minha Caloi!” Quem lembra disso? Mas só pude adquirir uma bicicleta quando comecei a trabalhar de sapateiro, economizando cada tostão, e tive a minha carteira profissional assinada com meus quinze anos de idade.

Quem será Maria do Socorro? Qual o seu verdadeiro nome? Onde será que mora Maria do Socorro? Aquele cabelo de um branco encardido, os braços e pernas já bambos, flácidos, entre outros detalhes, infundiram ao meu coração um súbito sentimento de fraternidade. Por que não a interceptei e não me ofereci para ir guiando sua bicicleta, levá-la ao seu destino? Entretanto estanquei na esquina do extinto Cine Pax e deixei que Maria do Socorro fosse embora sozinha em meio aos carros e motos, correndo o risco de ser atropelada, derrubada no asfalto áspero e quente.

Que Nossa Senhora dos Idosos a proteja!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 15/01/2023 - 06:52h

Começos arrebatadores

Por Marcos Ferreira

Como você decide qual a primeira palavra a ser escrita? Ouvi esta pergunta recentemente e não me lembro quem me fez tal indagação. Talvez eu a tenha lido em algum lugar. Ou foi por telefone, em conversa com algum amigo ou amiga cujo nome, infelizmente, não me recordo para lhe dar o merecido crédito. Minha memória, repito, é firme quanto um Sonrisal num copo d’água.Livro, escrita, crônica, literatura

O fato é que a primeira palavra, às vezes uma simples letra, um artigo masculino ou feminino, é responsável por todo o texto que está por vir. Sem essa largada, continuamos no zero, a página inteira em branco. Portanto, trata-se do gatilho, da espoleta, da fagulha que vai libertar todo o pensamento represado. No mesmo grau de importância considero o primeiro parágrafo de um texto. Poucos são os leitores que seguem adiante após um início de história ruim ou medíocre.

Como um anzol, digamos, você precisa fisgar o leitor já na largada, no comecinho da sua página. Esta que vemos em curso, por exemplo, também se submete aos ditames em questão: tem que atrair o interesse do leitor logo na saída. Dificilmente, numa livraria qualquer deste país e do planeta, o sujeito levará para casa uma obra que não conheça, a menos que se agrade do princípio.

Claro que isso de fisgar o leitor nas primeiras linhas é muito relativo. Em vários casos, ou na maioria deles, depende do gosto de cada pessoa por determinado estilo ou gênero literário. Mas vamos supor que você acabou de entrar numa livraria e, com grana para comprar apenas um livro, está a fim de adquirir algo novo, um autor e obra desconhecidos. É aí, pois, que o efeito azougue da escrita vai fazer a diferença, seja num romance, livro de contos, crônicas ou poemas.

Tem que ter aquela mensagem imantada, engenhosa, ou no estilo arrasa quarteirão. Seja por meio de uma frase poética, metafórica, ou através do velho recurso de tentar arrebatar o leitor à custa de um introito chocante, por vezes na forma de violência, como num disparo de arma de fogo, alguém que se lança do alto de um arranha-céu ou se enforca. Enfim, um cadáver já no abre-alas.

— Meu Deus! — podem se persignar.

A literatura nos oferece mil e uma possibilidades de narração de uma história utilizando o recurso de impactar o leitor. Sobretudo quando se trata de prosa fictícia, em particular nos romances e contos. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, que praticamente escrevem com sangue as suas narrativas carniceiras, como Rubem Fonseca e Stephen King, para citarmos apenas dois. Outros nos atordoam pela surpresa e conteúdo insólito, feito o escritor tcheco Franz Kafka.

Para mim, que tenho verdadeiro horror a baratas, essa largada de A Metamorfose é um dos começos de novelas mais assustadores e inescapáveis da literatura: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Embora sem especificar o tipo de inseto, a descrição da barata é imagética e repugnante.

Um dos começos de livros mais aplaudidos, e merecidamente, é o do clássico Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. Diz ele: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. E quem pode resistir e não seguir em frente na leitura após se deparar com as primeiras linhas de romances como Insônia e São Bernardo, do mestre Graciliano Ramos?

Não terem dado um Nobel a Graciliano foi uma grande injustiça, posto que tantos autores discutíveis levaram tal prêmio da academia sueca. Temos aqui, em solo tupiniquim, inclusive entre meus contemporâneos, literatura de alto nível. Outro gênio da prosa de ficção, o nosso insuperável Machado de Assis, abre o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas com um parágrafo arrebatador:

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo”. Simplesmente genial!

Assim como o romancista, o contista e até o poeta, o cronista precisa fazer valer o seu reflexo de pescador. O peixe a ser fisgado, claro, é o leitor. A crônica deve ser atraente desde o título, que é o coadjuvante da isca, ou seja, as primeiras linhas. Ao contrário do que se dá com os livros nas livrarias, as crônicas expostas nos periódicos não contam com o chamariz de uma capa bonita.

— Mas ilustramos — dirá meu editor.

Sim. Porém o prezado leitor e a gentil leitora, que nem sempre concordam que uma imagem vale por mil palavras, esperam um texto que lhes salve o domingo (eis o nosso compromisso) da banalidade das páginas meramente jornalísticas, tão difundidas ao longo da semana. Deseja-se, então, que o cronista tenha algo de invulgar a oferecer, uma mensagem ou história (nem precisa ser real) que caia suave como os primeiros goles daquele café escoteiro tomado bem cedinho.

Daí a importância, num espaço tão eclético e ilustrado quanto o Canal BCS (Blog Carlos Santos) de nós cronistas botarmos a cara aqui todo domingo com uma narrativa capaz de atrair e manter o leitor interessado no que temos a contar. Tal conquista, volto a recordar, parte desde o título, mas, principalmente, ganha impulso a partir de um primeiro parágrafo de fato sedutor, cativante.

Isto significa que o final nem carece ser tão apoteótico ou estrondoso como um toque de gongo, contudo o leitor não costuma abrir mão de um começo arrebatador, envolvente. É aí, no mais das vezes, que está o sucesso ou fracasso do seu texto, seja ele um romance, um conto, uma crônica e até um poema mais longo. Você, por uma razão ou por outra, permaneceu comigo até este momento, e há de concordar com o meu raciocínio. Acredito, portanto, que iniciamos bem.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/01/2023 - 07:26h

Necessidade e talento

Por Marcos Ferreira

Hoje me ocorre dizer que escrevo não por talento, mas por necessidade. Uma necessidade, contudo, no sentido de complemento de minha existência. Digo isto sem sugerir ou reivindicar para mim qualquer espécie de nobreza ou excelsitude. Não se trata disso.Ilustração Escrever

O que me motiva a redigir, entre outros aspectos, é sobretudo o fato de que não aprendi a fazer outra coisa com mais desenvoltura que lidar com palavras. Não estou insinuando, vejam bem, que sou um craque das letras. Bem ou mal, porém, o que me sinto mais apto a realizar é esta valsa com nossa língua portuguesa.

Então, mesmo ciente de minhas limitações e pouco brilho, tal constatação afirmo sem falsa modéstia, escrever me restitui certos valores e posses que o mundo me negou. Outro detalhe é que não envergonho a língua portuguesa, não pisoteio sobre nosso já tão massacrado idioma. Quem se mete e se declara escritor deve (tem a obrigação) de conhecer e respeitar a própria língua. É o que eu penso.

Um literato que desconhece sua língua é como uma ave implume: até almeja e sonha com altos voos, mas não consegue ir a lugar nenhum. Eu, cujas asas e as penas não são as de um albatroz, por exemplo, aprendi ao menos a sobrevoar os melhores expoentes, os mestres do ofício da palavra escrita. Não vou deitar aqui uma listinha desses nomes tão consagrados quanto batidos, ademais não é possível decolar para o céu da grande literatura sem conhecer certos autores e obras, nacionais quanto estrangeiros. “Que rapazinho pedante”, talvez alguém assim me classifique.

Rabiscar, acreditem, digo escrever literatura, requer algo mais que boas intenções e autoridade curricular, estofo acadêmico e títulos outros. Felizmente isso não é uma regra. Porque textos que não são puramente literários (digo literários no sentido de artísticos) têm seu relevo e grande importância. Imaginem que saco seria a escrita cravejada apenas com poesia, contos, crônicas, romances, etc.

Nem oito nem oitenta. É verdade, todavia, que a cada rede social que se passa as pessoas (salvo exceções) estão se divorciando da maneira correta de escrever. Muitos dão coices e patadas violentíssimos no léxico. Sei que este é um assunto chato, pois é uma forma de colocar o dedo na ferida de muita gente, no entanto não sei onde vai parar a pancadaria sobre a língua de Camões e de Machado de Assis. De minha parte, pelo prazer e respeito ao nosso idioma, continuo tentando errar o menos possível quando rascunho, por exemplo, uma página de arriscada como esta.

Redigir, menos por talento que necessidade, é meu barato, meu ópio, meu fraco, minha onda e o meu vício. Decerto um leitor mais atento, ou menos discreto, vai colocar o lápis sobre determinada falha desta crônica um tanto quanto pretensiosa. O tal leitor, cheio de orgulho, dirá assim: “Olha só, falando de quem escreve mal e aqui está um erro dele”. Ainda que seja um mero deslize de digitação.

Escrever com certo talento ou arte, agora chovendo no molhado, é impossível sem que o sujeito antes adquira um bom cabedal oriundo dos autores e de suas melhores obras. Não. Sem isso não dá. Como se diz, é colocar o carro na frente dos bois.

Eu prometi que não vou expor aqui nenhuma listinha de grandes vultos da literatura estrangeira ou nacional e vou cumprir a promessa. Porque sempre é um risco, além de ostentatório, desfilar medalhões das letras, quer daqueles que já foram “estudar a geologia dos túmulos” ou dos que estão neste plano terreno e em atividade.

Torço que embora nesta crônica prolixa o rigorosa o leitor consiga encontrar algum prazer ou vestígio de arte literária. Porque o que tem para hoje é isto. Quem sabe na próxima semana, aqui neste mesmo Canal BCS, blog este onde tenho vivido a aventura de escrever semanalmente, eu lhes traga um assunto menos resmelengo. No mais, repito, escrevo menos por talento que por necessidade.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 25/12/2022 - 07:42h

O inverno está chegando

Por Marcos Ferreira

Aqui não cabe todo mundo. Nem pretendo expor os nomes dos bons samaritanos deste dezembro que transcorre para mim como um verdadeiro presente de Natal. Não. Não vou deitar nomes agora. Deixem estar que num domingo destes farei isso. Encontrarei outro ensejo para nominar tantos amigos que nos últimos dias têm me dado a perspectiva de viver sob um teto e entre paredes novos.Casa e inverno, residência e echarpe

A obra está um pouco além da metade. Não tem um só dia em que eu não sonhe ou deixe de espiar o serviço. Tanto pela manhã quanto à tarde, lá estou no canteiro, buscando o máximo possível não atrapalhar os trabalhadores. Nesse tempo converso e troco algumas brincadeiras com eles, que parecem gostar da minha presença e do meu gênio espirituoso.

São dois pedreiros e dois serventes que até o momento não têm me dado a mais mínima dor de cabeça. O mestre de obras é Jailson Batista. Os demais são Rogério (pedreiro) e os serventes Wellington e Gutemberg.

As paredes estão altas. Acima da altura de portas e janelas. A laje dos banheiros está pronta e receberá duas caixas d’água de mil litros. A parte de ferragem (conforme minha vasta experiência em sapataria) é reforçada e, segundo Jailson, possui uma estrutura que suporta primeiro andar. Tento não atrapalhar, como eu disse, mas se eu pudesse colocaria a mão na massa para acelerar o processo.

Após longos anos sob uma estrutura precária, respirando salitre entre paredes velhas e malseguras, habitando um lar periclitante, quase inóspito, hoje se me apresenta a realização de um sonho nutrido (estes não posso me furtar de mencionar primeiro que os demais) por um amigo de longa data chamado Elias Epaminondas e a sua esposa, arquiteta Miriam Ferreira. Exatamente.

ELIAS E MIRIAM bateram o pé e disseram: “Você não vai vender sua casa. Vamos aproveitar seu terreno, que é bem localizado, e construir outra”. E foi assim que começamos a saga da nova moradia.

— Vai dar tudo certo! — garantiu-me Elias.

Em breve virão as chuvas, o inverno está chegando e vai lavar minha alma e meu coração contentes, e aí estarei bem abrigado sob uma residência novinha, cheirando a massa fresca, mesmo que alguns detalhes (como a cerâmica) fiquem para outro momento devido ao nosso curto fôlego financeiro. Hoje, enquanto a nova casa é erguida, moro num cubículo que aluguei bem próximo da construção.

Meu novo domicílio é pequeno, porém confortável, de cômodos espaçosos resumidos a uma suíte, um banheiro social, sala e cozinha interligadas, além de uma garagem e terraço para a área de serviço. O projeto de Miriam foi feito no capricho, levando em conta meus parcos recursos e a possibilidade de contarmos com a contribuição dos amigos que mostraram que eu não estava sozinho nesta empreitada.

Amigos estes que citarei um por um noutra página aqui no Canal BCS — Blog Carlos Santos. Porque gratidão, ao menos para mim, não é motivo de constrangimento.

Que venham as águas de janeiro, fevereiro e março. Serão bem-vindas. Sempre gostei de chuvas, apesar de certos transtornos. E dessa vez não terei que colocar as minhas coisas para fora por conta de que dentro de casa molhava mais do que fora. Sim, sim. Que venham as chuvas. “Eu já escuto os teus sinais”. Muito embora o astro-rei esteja soberano sobre nossas cabeças.

O inverno está chegando.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/12/2022 - 05:04h

Retalhos do cotidiano

Por Marcos Ferreira

Penso agora em escrever alguma coisa na terceira pessoa, algo sobre fatos que não tenham nada a ver diretamente comigo. É isso. Ao menos uma pequena crônica que fale sobre terceiros, eventos alheios. Acontece, porém, que hoje, a exemplo de vários outros dias, não estou com vocação para falar sobre a vida além da minha pífia existência. Suponho que os meus poucos leitores já estejam enjoados, de saco cheio, de ler tantas narrativas tão pessoais.

Por que não falar um pouco sobre política? Não quero me ocupar com política. Até por uma questão de higiene mental.retalhos, cabeça, pensamento, cotidiano, homem, rosto, pensamentos

Há outros assuntos muito na moda. O futebol, por exemplo, é um deles. Contudo não entendo patavina acerca dessa matéria. Sei apenas que nossos atletas, os da seleção canarinha (vai com minúsculas mesmo) se preocupam muito mais em mudar a cor e o corte do cabelo a cada jogo, fazer dancinhas, mogangas e caretas do que propriamente jogar bem. Isso, todavia, como eu já disse, não é assunto para mim. Então passo a bola para o ex-futebolista e comentarista Walter Casagrande.

Hoje, entretanto, diante da escassez de motivação ou inspiração, digo honestamente que me sinto vazio, sem uma centelha de criatividade, sem voltagem literária. Considero chato, no entanto, e isso é uma opinião de muitos cronistas craques do gênero, como Rubem Braga e Fernando Sabino, Antônio Maria, lamuriar-me por causa da falta do que escrever. Não. Embora seja uma solução bem-aceita, uma receitinha caseira e salvadora, não vou ceder ou consolar o leitor com essa chupeta. Acho que ele sempre merece mais do que tapeação, lugares-comuns e monotonia.

Nessas horas de esterilidade verbal, situação esta que ocorre com incômoda frequência, penso na prosa suave e honesta do cronista Odemirton Filho, penso no estilo cheio de poeticidade do vate Cid Augusto, recordo o verbo instantâneo e burilado do meu Editor, jornalista e escritor Carlos Santos, além de outros colaboradores deste espaço dominical. Esses manejadores da palavra escrita, os quais leio e sempre aprendo alguma lição nova, dão corpo e forma a mais este parágrafo.

Acima, então, eis um parágrafo tão honesto quanto merecido. Porque não menciono tais pessoas nesta página fria por uma questão de favor ou de coleguismo gratuito. Não, meus prezados amigos. Não sou desse tipo, não sou bajulador. E há outros trabalhadores do verbo (colaboradores deste Blog) que povoam o Canal BCS e merecem igual referência, muito embora eu incorra no pecado da omissão e da curta memória. Cito, portanto, escribas de admirável talento como Honório de Medeiros, François Silvestre e o não menos aguerrido comentarista Marcos Pinto.

Bom. Deixemos o beija-mão de lado. E peço desculpas àqueles que deixei de citar por traição da memória. Neste momento da manhã, cuja hora prefiro não revelar, outra vez escuto a procissão dos pregoeiros do conjunto Walfredo Gurgel. Vão passando aqui pela rua do cubículo que habito provisoriamente. Negociam com todo tipo de coisa. Como o anônimo vendedor de frutas: “Olha a banana, olha a acerola, o abacaxi, a manga, a verdura, o melão”, diz o homem sobre sua carroça.

Outros mais, como eu já mencionei em textos anteriores, mercadejam toda sorte de produtos. Um anuncia o queijo de coalho, outro propaga que tem galinha caipira fresquinha, daí a pouco passa o carro dos ovos, o entregador de leite chama a clientela cativa: “Olha o leite!”, grita o sujeito sobre a motocicleta, já destampando o botijão metálico. Não só homens trafegam por estas ruas de paralelepípedos oferecendo uma coisa e outra aos moradores. Jovens senhoras, às vezes em companhia de filhos miúdos, tentam vender pamonha, canjica, tapioca, cocada, picolé e sorvete.

Eu bem sei que estou a me repetir. Como também sei que você não se apraz com isso. Os leitores querem, esperam por um assunto novo a cada semana, a cada domingo. Não lhes tiro a razão. Às vezes, porém, a gente precisa requentar o pão. E pão requentado não é coisa das piores. Porque não existe pão duro para uma boa fome. Ainda assim quem nos acompanha está correto. Pois paga, com o tempo que nos dedica, por um texto minimamente e, quem sabe, inovador. Não basta só arte.

A vida neste cubículo claustrofóbico, embora com a perspectiva de que isso dure cerca de três meses, é algo desestimulante. Aqui não há saída de ar, apenas a porta da frente, de maneira que o vento não entra. Não bastasse, fica defronte para o sol após o meio-dia. O ventilador já deu sinais de cansaço.

Pensar em literatura também se tornou um luxo bem pouco acessível. Minha velha casa foi demolida para a construção de uma nova. Um pouco menor, é verdade, mas sem o risco iminente de cair por cima de mim. O inverno está chegando, mas eu me sinto otimista.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 06/11/2022 - 09:22h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 21

Paranoia

Por Marcos Ferreira

Depois que Luciano foi embora, estando Jaime sozinho no apartamento, ele se posicionou mais uma vez no parapeito da varanda para contemplar a rua e parte do movimento da cidade. Não tinha lembrança de que em algum momento de sua vida estivera em um prédio tão alto. Ao todo o edifício possuía vinte andares. A vista daquele ponto era realmente privilegiada em virtude do formado em arco da varanda, algo que proporcionava a tal visão panorâmica referida por Luciano.

Exausto devido a todo o estresse a que fora submetido na madrugada anterior, oportunidade em que trocou chumbo com os homens de Rato Branco e conseguiu acertar um tiro certeiro na cabeça do motorista da picape de cor cinza, fazendo com que esta descesse a ribanceira e explodisse com os ocupantes, Jaime acabou pegando no sono na cama de Luciano Aires.Paranoia, sombra, mania de perseguição

Ele próprio, ao ter a pontaria elogiada pelo amigo advogado, ressaltou que ter alvejado o dito-cujo em movimento não fora nada mais que um lance de sorte. Nessa manhã, portanto, extenuado física e psicologicamente, o escritor fora da lei terminou caindo num sono profundo, confortavelmente embalado pelo friozinho do aparelho de ar-condicionado. Quando acordou, já um tanto preocupado com o horário, viu que era tarde para realizar a postagem dos originais.

Ainda assim, por via das dúvidas, resolveu descer e verificar se a agência estava fechada. Qual era mesmo o nome da rua? “Major Moisés Resende. Um carioca filho da puta e alcaguete da ditadura homenageado em Vila Negra”, dissera Luciano Aires num tom de revolta. Naquele fim de tarde, portanto, ao cruzar a portaria do Condomínio Anatólia e se ver com os pés na calçada, Jaime sentiu mais uma vez a sensação de que estava sendo observado por algum pistoleiro de Rato Branco.

Em meio ao luxo, ao requinte do Anatólia, Jaime se sentia uma espécie de estranho no ninho. Até o sujeito da portaria, um tipo vermelho e de olhos agateados, o fitara com cara de poucos amigos. Apertado no colete à prova de balas sob a jaqueta jeans, o revólver no cós da calça, seu receio era ainda incômodo. Antes de efetuar qualquer passo, tendo às costas uma mochila com os originais de A Cidade que Nunca leu um Livro, notou que na frente do prédio diversas pessoas praticavam caminhada num ritmo apressado no entorno do logradouro bem-arborizado. Já outros indivíduos (uma pequena parcela) estavam sentados nos banquinhos de alvenaria e madeira, papeando sabe-se lá que assuntos com as suas garrafinhas de água e roupas esportivas. Nesse minuto ele imaginou como seria se fosse obrigado a trocar tiros ali com um pistoleiro.

SERIA UM PANDEMÔNIO, um salve-se quem puder. Certamente inocentes seriam atingidos pelo fogo cruzado. O pesadelo da Rodovia 315 se repetiria. E desta vez ele estaria completamente só, sem o apoio de Luciano Aires para também efetuar disparos contra o atirador. Refletiu, aprumou a mochila nas costas e resolveu que, diante do horário avançado, não mais valeria a pena deslocar-se até a Rua Major Moisés Resende a fim de conferir se a agência postal ainda estava aberta.

Apertou o botão da guarita e outra vez o homem o fitou com ar pouco amistoso. Desta feita, quiçá por mera implicância, indagou quem era ele e quem desejava visitar no Condomínio Anatólia. Respirando fundo, com a fleuma de um monge budista, Jaime explicou que estava hospedado, provisoriamente, no décimo nono andar, apartamento de propriedade do advogado Luciano Aires.

O cara da portaria admitiu que estava ciente do fato, pois Luciano havia comunicado à recepção sobre a presença de Jaime no condomínio, e que ele ficaria ali por tempo indeterminado. Mesmo assim, avaliando o semblante e as roupas desgastadas de Jaime, a exemplo da surrada jaqueta e dos tênis sofríveis, o recepcionista permaneceu de cara amarrada e comunicou ao literato que o acesso à piscina estava suspenso devido a uma obra de manutenção.

No dia seguinte, por volta das oito e meia da manhã, Jaime finalmente postou os originais de A Cidade que Nunca leu um Livro para três editoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os volumes estavam devidamente encadernados e embalados em envelopes com o endereço do apartamento de Luciano Aires como remetente das obras. Jaime pagou a postagem em dinheiro e se deu conta da importância e gentileza de Luciano em lhe ter disponibilizado aquela quantia no total de mil reais.

— Bem, a sorte está lançada — monologou.

Após a postagem, ao passar pela porta sem detector de metais, Jaime viu uma picape de cor cinza no outro lado da rua. O escritor empalideceu de imediato. O veículo era exatamente igual ao que na madrugada passada descera a ribanceira com os atiradores e se transformara em chamas. Por alguns segundos, quiçá um minuto, ele ficou inerte, o coração aos baques, a mente em torvelinho, os olhos arregalados. De forma discreta, então, tocou a cintura para sentir a saliência do revólver. Pensou até que ponto o colete poderia salvá-lo. Temeu que de repente os vidros fossem baixados e dois ou três elementos abrissem fogo contra ele. Começou a suar frio, as mãos ficaram trêmulas. Será que Rato Branco teria enviado um veículo igualzinho com novos comparsas para dar cabo dele? Até as pernas de Jaime começaram a tremer.

Daí a pouco, conduzindo uma menininha de uns cinco anos de idade, uma jovem senhora saiu de um colégio ali vizinho à agência dos Correios, abriu a porta de trás da picape, colocou o cinto de segurança na possível filha, assumiu o volante e seguiu devagarinho pela Rua Major Moisés Resende. Ainda ligeiramente trêmulo, Jaime Peçanha respirou aliviado, seu coração voltou a bater num ritmo normal e ele enfim retornou com passos lentos para o luxuoso Condomínio Anatólia.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

Apertou o botão da campainha e esperou que o portão fosse aberto. O funcionário da guarita não mais o fitou de cara trancada. Começara a se habituar com ele. No apartamento, usufruindo de uma sensação de segurança pela primeira vez ao longo de semanas, Jaime se despiu do colete à prova de balas, trancou a porta na chave, passou os dois ferrolhos de reforço, largou o trinta e oito cheio de balas sobre o criado-mudo e foi tomar um banho quente para relaxar a musculatura absolutamente tensa. A seguir, na cozinha, pegou ovos e presunto na geladeira, preparou umas xícaras de café ao mesmo tempo em que fritava os ovos e o presunto. Bebeu um suco de caju desses que os mercados vendem em garrafinhas de vidro. Daí a pouco a cafeteira entrou nos últimos estertores e Jaime se serviu de uma boa dose da rubiácea pura e escoteira.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

Disse baixinho consigo próprio, sentado à mesa da cozinha, a caneca entre as duas mãos, os cotovelos apoiados sobre o tampo de vidro. Parecia até que na madrugada anterior não havia sofrido um grave atentado contra a sua vida e a de Luciano Aires. O revólver comprado ao amigo João Claudione, indivíduo atualmente em poder da polícia, permanecia lá no quarto. Quanto ao colete, ele o jogara ao pé da cama como se este fosse um tipo de armadura de que ele não fosse mais precisar.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

ACOMPANHE

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 30/10/2022 - 09:48h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 20

Exilado em Vila Negra

Por Marcos Ferreira

Buscando o máximo de privacidade, Jaime pediu a Luciano que dispensasse (ao menos por enquanto) os dois serviçais que cuidavam do imóvel: o jardineiro e a faxineira. Luciano, embora jovem, era um advogado bem-sucedido e de posses. Então ordenou aos auxiliares que não viessem trabalhar por um tempo, contudo lhes assegurou que os seus proventos continuariam sendo depositados em suas contas bancárias.

O causídico alegou que Jaime era um amigo e escritor recluso e que necessitava ficar sozinho para finalizar um romance em que vinha trabalhando há cerca de três meses. Os auxiliares se entreolharam e balançaram a cabeça de modo afirmativo.Imagem exilado em Vila Negra

Após o jardineiro e a doméstica irem embora, Luciano meteu a mão no bolso da calça, retirou um maço de notas de cem reais preso em uma dessas borrachinhas elásticas e entregou a soma em dinheiro a Jaime. Este, visivelmente constrangido, relutou em aceitar aquela quantia, porém Luciano o convenceu do contrário dizendo que ele não poderia ficar ali sem uma grana para se manter e postar seus originais nos Correios de Vila Negra. “Deixe de cerimônia, meu caro”, disse o advogado.

Luciano continuou com um pequeno sorriso:

— Ok, Jaime. Vamos entrar. Quero lhe mostrar o apartamento. — Falou Luciano com a mão apoiada no ombro do escritor. — É no décimo nono piso, com vista panorâmica para a cidade. Imagino que vai gostar. Aqui estará seguro. Sobretudo agora que você mandou os comparsas de Rato Branco para os quintos. A menos que ele contrate outros pistoleiros, penso que talvez você não precise usar esse colete desconfortável o tempo todo nem ficar ininterruptamente com sua arma na cintura. Tente relaxar, querido. Isso vai ser bom para a sua paz de espírito. O pior já passou. Ninguém imagina que você está aqui. Os caras morreram, não restaram testemunhas.

— Acontece, Luciano, que eu me preocupo com Laura. Receio que Rato Branco mande alguém ir atrás dela, talvez para obrigá-la a revelar onde estou. Laura não merece que nada disso respingue sobre ela. Nem o Reginaldo Marinho e muito menos você. Veja só: o seu carro está com buracos de bala em diversos locais. A Polícia Rodoviária pode abordá-lo para saber o que aconteceu. Outro detalhe é que você não pode mais voltar para Mondrongo com essa pistola. Se você for parado no posto rodoviário, e fizeram uma inspeção, é muito provável que encontrem a arma.

— Tudo bem, homem. Ao menos por agora a arma ficará com você. Quanto aos tiros que perfuraram meu carro, se porventura me pararem na Polícia Rodoviária Federal, direi que fui vítima de uma tentativa de assalto na noite anterior e que consegui fugir da ação dos bandidos. Fato este que é parcialmente verdadeiro. A seguir apresentarei a minha carteira da OAB e suponho que não terei problemas para prosseguir no meu percurso. Já você, logo que for possível, faça a postagem dos seus originais. Existe uma agência dos Correios a duas quadras daqui, na Major Moisés Resende. Basta você seguir na rua do posto de gasolina e virar à direita. É quase na esquina.

Luciano apontou para o outro lado da rua e disse:

— Veja! Há um restaurantezinho naquele imóvel azul com um toldo e uma placa na calçada. Vendem comida boa por um preço razoável.

Quando entraram, Jaime ficou impressionado com todo aquele requinte. Tudo limpo e harmonioso. Apartamento com três quartos, sala e cozinha amplas, varanda com excelente vista para boa parte da cidade, além de uma mobília de primeira qualidade.

Também avistou, dispostos numa estrutura de alvenaria e vidro, cerca de mil livros muito bem organizados e sem nenhum indício de poeira. Jaime então recordou-se dos míseros quinhentos volumes que vendeu ao sebista Antoniel Silva.

— Fique à vontade, meu caro — confortou-o Luciano. — Infelizmente, por força do trabalho, tenho que voltar imediatamente para Mondrongo. Como defensor público, hoje tenho que comparecer a uma audiência inadiável. Aqui, como percebe, o sossego é tão grande que às vezes até incomoda ou nos entedia. Os dois apartamentos vizinhos estão vazios, disponíveis para aluguel. Portanto, o silêncio é absoluto. Se porventura surgir algum problema, você tem o meu telefone e pode ligar a qualquer hora. Você não está sozinho nesse momento complicado de sua vida. Estamos juntos, Jaime. Quem sabe após essa poeira toda baixar possamos pensar em nós dois.

— Por enquanto, Luciano, ainda estou zonzo.

— E não é para menos… Você está abalado.

— Sou grato demais por tudo que você tem feito por mim. Até mesmo colocar a sua própria vida em risco para me ajudar. Então, quando as coisas estiverem mais tranquilas, prometo que pensarei em nosso relacionamento bruscamente interrompido. Eu só lhe advirto que não posso deixar Laura por conta disso.

— Entendo. E não lhe pediria uma coisa dessas. O que me importa é que a nossa ligação sobreviva e perdure. Laura nem ninguém precisam saber de nada. Isso é uma coisa apenas nossa. Pois eu pressinto que é algo especial.

Jaime deu alguns passos pelo apartamento, foi até a varanda, fixou os cotovelos no parapeito devidamente guarnecido por uma tela de proteção, e depois se deteve por algum tempo diante da estante de livros. Cogitou sacar algum da prateleira, todavia desistiu de fazê-lo, pois imaginou que a verve de outro autor pudesse interferir negativamente em sua concepção sobre A Cidade que Nunca leu um Livro.

Súbito, então, num ímpeto de gratidão ou de desejo, Jaime avançou sobre Luciano e o beijou na boca por uns breves segundos. Depois, com a cabeça baixa e as mãos nos ombros do advogado, murmurou que também sentia algo de especial por Luciano e que ainda não sabia direito como lidar com tal sentimento. Sobretudo porque tinha plena certeza de que era apaixonado por Laura como nunca fora por nenhuma outra mulher.

— Eu lhe compreendo — falou Luciano colando a testa na de Jaime. — E lhe repito que você não tem que deixar Laura para ficar comigo. Eu só não desejo que você coloque um ponto final em nosso relacionamento por se sentir pressionado por alguém ou por sua própria consciência. Sou perdidamente apaixonado por você, Jaime Peçanha. Amo tudo que é seu: seu cheiro, sua voz, tudo, tudo.

— Bom, agora você precisa ir — falou Jaime. — E tome cuidado na estrada. Vou tomar um banho, descansar um pouco e ainda na manhã de hoje irei àquela agência dos Correios que você me indicou para postar os meus originais. Como eu já disse, vou enviá-los para o Rio e São Paulo. Qual é mesmo o nome da rua da agência postal? Lembro-me tão somente de que é após o posto de gasolina, entrando à direita. O resto eu já esqueci. Às vezes consigo me lembrar de coisas bem distantes no tempo e não gravo informações mais recentes. Como esse nome da rua que você falou.

— É a Major Moisés Resende. Um carioca filho da puta e alcaguete da ditadura homenageado em Vila Negra não sei por que diabos.

— Deixe comigo, Luciano. Não vou esquecer.

E os dois se despediram com outro beijinho.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 23/10/2022 - 06:30h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 19

Um tiro certeiro

Por Marcos Ferreira

Assustado, com receio de ser morto até dentro da própria casa, Jaime passava o tempo inteiro recluso e sem tirar o tresoitão do cós da bermuda. Vez por outra espiava a rua por uma fresta da janela. Durante um tempo, mesmo refugiado no seu domicílio, acalentou a possibilidade de realizar um revide contra os homens que o balearam há duas noites na Rua Padre Mota, a poucos metros de sua residência.Um tiro certiro - ilustração

No entendimento dele, os atiradores não eram outros senão capangas de Mauro Mosca, vulgo Rato Branco. Para isso, portanto, Jaime considerou que o amigo João Claudione o ajudaria em tal empreitada, tendo em vista que, não muito antes, o próprio Claudione afirmara que os comparsas de Rato Brancos seriam eliminados um após o outro.

O problema é que Jaime não sabia que Claudione enfim caíra nas garras da polícia, que fez um pente-fino na sua propriedade rural e apreendeu todo o arsenal bélico do fora da lei e destruiu suas instalações de armazenamento e refino de cocaína. A prisão de Claudione foi determinada por um juiz federal da 13ª Vara de Mondrongo. A ação contou com a participação das polícias civil, militar e federal.

Antes de ser apanhado, todavia, João Claudione teve tempo de destruir o chip do telefone e jogar o aparelho fora, pois uns cinco minutos antes ele recebera um telefonema de um policial militar que fazia parte de sua folha de pagamento. O informante de Claudione tomou conhecimento da ação de última hora e avisou o contraventor imediatamente, salientando que ele destruísse o chip e se livrasse do celular. Assim foi feito. Tal evento explica porque Jaime ligou diversas vezes para o amigo criminoso e as chamadas sempre caíam na caixa de mensagens. Ele também cogitou acionar Reginaldo Marinho para ir com ele até a propriedade de Claudione, mas achou melhor não botar a cara na rua naquele momento. Esperaria o cheiro da pólvora se dissipar.

Diante da inexplicável falta de contato com Claudione, Jaime desistiu de investir contra o empresário e ex-jornalista Rato Branco e os seus inseparáveis comparsas. Sentindo-se encurralado, ainda usando o colete à prova de balas e com o pau de fogo na cintura, preferiu se contentar com a promessa que Luciano Aires lhe fizera, a de levá-lo até o vizinho município de Vila Negra e abrigá-lo em seu apartamento no elitizado Condomínio Anatólia, em área nobre daquele município.

Cerca de vinte e quatro horas depois, entre as duas e três da madrugada, Luciano parou a Toyota Hilux diante da casa de Jaime e deu uma leve buzinada. O escritor pôs os pés na rua olhando para os lados a todo instante. Na soleira da porta, de braços cruzados, Laura recebeu um beijinho rápido e assistiu ao marido debandar com duas mochilas, uma nas costas e a outra presa por uma das alças num só lado do ombro.

Ele acenou para ela da janela do veículo e, após colocar o cinto de segurança, imediatamente fechou o vidro da caminhonete. Nesse instante, talvez um tanto paranoico, Jaime considerou o quanto seria apropriado se o carro de Luciano Aires, a exemplo de seu milagroso colete, também contasse com uma boa blindagem à prova de balas.

Na calada da noite, então, armado com um trinta e oito de grosso calibre, trajando outra jaqueta jeans que ocultava o resistente colete, o autor de A Cidade que Nunca leu um Livro deixou Mondrongo a fim de acalmar os pensamentos e postar seu romance nos Correios de Vila Negra o mais depressa possível. Em uma das mochilas se encontravam as três cópias da referida obra devidamente encadernadas. Pois naquela mesma noite o seu amigo Raimundo Gilmar lhe entregara o material.

Alguns quilômetros depois, logo que ultrapassaram o viaduto da Rodovia 315, Jaime e Luciano perceberam que estavam sendo seguidos possivelmente por uma picape de cor cinza. Luciano, que também se encontrava armado com uma pistola, mantinha um olho no retrovisor e o outro na estrada. Jaime, contudo, de quando em quando girava o pescoço e olhava para trás. Durante dez ou vinte quilômetros a picape se manteve a uma distância estratégica da Hilux de Luciano. Jaime retirou o revólver da cintura e ficou com ele pronto para qualquer investida dos prováveis capangas de Rato Branco. Isto porque os homens de Mauro Mosca haviam ido ao cemitério na manhã e na tarde seguintes e não toparam com o enterro do indivíduo que eles alvejaram.

— Só pode ser eles, Luciano! — afirmou Jaime.

— É bem possível. Baixe seu vidro e fique pronto.

— Quer que eu troque tiros com esses bandidos?

— Você deve acertar apenas o motorista, Jaime.

— Entendi. Mas isso não é tão simples, amigo.

— É a melhor maneira de nos livrarmos deles.

— Você sabe que os outros vão atirar na gente.

— É como eu falei: acerte o motorista e pronto.

— Ora! Não sou um atirador de elite, Luciano.

— Bom, terá que ser. Acerte o cara na cabeça.

— Você está armado. Consegue atirar também?

— Pode confiar que sim. Eu já fiz aulas de tiro.

— Prepare-se! Eles estão se aproximando rápido.

— Não se esqueça. Atire somente no motorista.

— Você consegue dar conta dos outros sozinho?

— Vou tentar. Não temos outra opção, Jaime.

Antes que eles emparelhassem, os homens da picape começaram a disparar contra o veículo de Luciano. Um dos projéteis estilhaçou o vidro traseiro, fazendo com que os dois ocupantes da Hilux se abaixassem instintivamente. Daí a pouco, em alta velocidade, estavam emparelhados. Jaime apoiou a arma na porta e mirou no motorista. Errou os três primeiros disparos, contudo acertou o alvo na cabeça no quarto balaço. Descontrolada, a picape desceu a ribanceira e explodiu. Luciano freou o carro devagarinho, deu marcha a ré e se certificou do fim dos inimigos, três pistoleiros de Rato Branco. Enquanto isso Jaime tinha as mãos trêmulas, porém suspirou aliviado. Alguns motoristas foram parando para ver o carro em chamas e Luciano deixou o local.

— Você acertou na mosca, rapaz — disse Luciano com uma ponta de riso. — Não fosse por isso talvez agora nós estivéssemos mortos.

— Não tivemos outra opção. Era nós ou eles.

— Seu tiro pareceu o de um atirador de elite.

— Isso foi apenas sorte. Sorte de principiante.

Nesse tiroteio Jaime e Luciano saíram ilesos.

Duas horas depois chegaram em Vila Negra.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 16/10/2022 - 04:20h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 18

Arrepiando carreira

Por Marcos Ferreira

Nenhum projétil transfixou o colete, sequer o disparo à queima-roupa contra as suas costas. Jaime sentia na pele e musculatura o impacto daqueles três balaços, sobretudo o que lhe atingiu o dorso. A duras penas, consciente de que os atiradores haviam se evadido, ele mais uma vez se arrastou até o meio-fio, sem forças para se erguer. Decorrido algum tempo, como é comum nessas situações, os vizinhos começaram a aparecer nas portas e janelas de suas casas, curiosos e hesitantes. Comportamento seguido por outros um pouco mais longe.compressa-quente-1

O primeiro a tomar chegada junto a Jaime foi o grandalhão conhecido por Espirro de Gato, a quem Jaime, a exemplo de outros moradores, só conhecia por esse apelido. Portanto, Espirro de Gato foi ao socorro do homem sentado na calçada, escorado numa árvore, sem poder ficar de pé.

— Está ferido?! — indagou Espirro de Gato com os olhos precipitados para fora das órbitas. — Eu vou chamar uma ambulância.

— Não precisa, meu amigo. Só me ajude a ficar de pé e me leve até a minha casa, aquela do portão marrom em frente à padaria.

— Sei onde você mora, senhor Jaime.

— Ok! Então me conduza até lá, por gentileza. Minha esposa é enfermeira e vai cuidar de mim. Não estou ferido. Por muita sorte nenhuma bala perfurou minha carne. Apenas estou machucado pela força dos impactos.

— Ora, você foi atingido por disparos.

— Sim. Porém eu estou usando colete.

— Colete à prova de balas? Por quê?

— Porque venho recebendo ameaças.

— O que o senhor fez para tudo isso?

— É por causa de um livro que escrevi.

— Só por conta disso?… Que absurdo!

— Alguns são mortos por muito menos.

— É uma gente sem Deus, senhor Jaime.

— Pois é. Certas pessoas não toleram que a gente as acuse dos podres, do fedor e dos seus atos corruptos. Refiro-me a certos políticos que se se julgam acima do bem e do mal. Mas isso é uma longa história. Vamos indo.

A essa altura a pequena Padre Mota estava em polvorosa, cheia de curiosos que de início se trancaram em suas casas, assustadiços com o tiroteio tão próximo dos seus portões. Daí a pouco outro morador se aproximou e também deu o ombro para Jaime se apoiar, sustentando-o pela cintura. As pessoas cochichavam nas calçadas, todas sem entender como o escritor saíra vivo daquele atentado, praticamente ileso, exceto pelos hematomas ocasionados nos pontos do corpo onde as balas se choraram contra o colete. Sim, o colete barra os projéteis, a depender do calibre, mas parte do impacto é transferida para a pele. Por muita sorte os pistoleiros não alvejaram, principalmente, a cabeça de Jaime nem os membros inferiores ou superiores. Se houvessem mirado na cabeça, aí sem dúvida o literato vestiria um paletó de madeira.

Em meio às dores e ao ardor dos hematomas, ainda se recordou de conferir, por meio do tato, se o trinta e oito continuava no cós da sua calça. Suspirou aliviado ao constatar que a arma permanecia com ele. Arma esta que, dada a velocidade com que fora rendido pelos sujeitos da picape, findara lhe sendo inútil naquele momento em que os três encapuzados o coloraram sob a mira de pistolas.

Por volta das sete da manhã, Laura encontrou Jaime sobre a cama, curvado, trajando apenas uma bermuda e se contorcendo em dores. Apresentava duas regiões do peito e das costas muito arroxeadas, marcas dos balaços. O hematoma das costas era o mais destacado. Ela tomou um enorme susto. Embora tivesse conhecimento de que o marido trabalhasse no romance A Cidade que Nunca leu um Livro, atividade que ela não dava muita importância, ignorava que tal obra pudesse estar contrariando demasiadamente pessoas poderosas de Mondrongo, abespinhando os humores e a ira dos desafetos de Jaime Peçanha. Para Laura, enfim, o livro não passava de uma história ficcional sem a maior relevância e fadada ao fracasso no meio literário. Pôs-se a examinar o esposo, fez compressas de gelo nos hematomas e disse com alívio:

— Por sorte não atingiu nenhum osso. Ao menos é o que parece. O ideal é tirar um raio-X, para a gente ter certeza de que não houve fratura. As costelas e a espinha dorsal parecem preservadas, mas não posso garantir.

— Nada de hospital, Laura. Eu ficarei bem.

— Iremos no carro do Reginaldo Marinho.

— Não. Eles podem descobrir que estou vivo.

— Meu Deus! O que pretende fazer, então?

— Terei que desaparecer por um bom tempo. Se souberem que estou no hospital, amor, não duvido de que vão até lá acabar comigo.

— Por enquanto, pois, permaneça aqui, trancado. Farei umas compressas de gelo e você vai tomando anti-inflamatórios para as lesões.

— Tenho que falar com o Luciano Aires, que sempre me socorreu em situações difíceis. Vou contar a ele tudo o que me aconteceu. Também vou ligar para o Raimundo Gilmar, que trabalha na Copiadora Expressa, no Centro. Quero encarregá-lo de imprimir três cópias de A Cidade que Nunca leu um Livro e trazê-las para mim, de maneira que eu possa postar nos Correios de Vila Negra.

Esses originais serão enviados para três editoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Da parte de Luciano, espero que me deixe ficar num apartamento que ele possui em Vila Negra. Ao menos até a poeira baixar. Isto se baixar. Do contrário, Laura, terei que largar Mondrongo em definitivo. Estou envolvido em coisas que você nem imagina. Mas tudo em minha defesa. Reagi às agressões que sofri nos últimos tempos. Tudo unicamente para me defender.

— Como essa coisa chegou a tanto, Jaime?

— Para lhe ser sincero, nem eu mesmo calculei que pudesse acabar nisso. Confesso que subestimei a capacidade de intolerância e truculência desse pessoal. Gente como Rato Branco e seus comparsas, além do prefeito Wallace Batista e de Leonardo Jardim, presidente da Câmara de Vereadores. De quebra, como se não me bastasse, ainda tenho que lidar com o sebista pau-mandado Antoniel Silva.

Ali sobre a cama, quando Laura pousou a bolsa de gelo no hematoma das costas de Jaime, ele se contraiu e soltou outro gemido. Ela pediu que ele aguentasse firme, pois era preciso que o gelo adormecesse a área arroxeada.

— Feche essa janela e acenda a luz, por favor — pediu ele. — Se estiver quente para você, ligue o ventilador. E as outras janelas e as portas da frente e da cozinha estão todas trancadas? Receio que eles venham me matar aqui dentro de casa. Não duvido nem mesmo de que façam algum mal a você apenas por estar na minha companhia. Essa gente é ruim, não vale nada, é perigosa. Por isso tenho que ir embora daqui o quanto antes. Você não está segura perto de mim. Já ligou para o Reginaldo Marinho? Espero que o se primo me leve até Vila Negra. São cerca de oitenta quilômetros.

— E o seu revólver? Não deu tempo de puxar?

— Nada. Quando pisquei eu já estava rendido.

— Você só não morreu por muita sorte, Jaime.

— Sim. Poderiam ter atirado na minha cabeça.

— Você deve sua vida também a esse colete.

— Exato. É o colete que o Claudione me deu.

Quase oito e meia. Laura circulava a bolsa de gelo sobre a região arroxeada da pele, especialmente nas costas de Jaime. De quando em quando ele se contraía e solicitava que ela fizesse isso com a mão um pouco mais leve.

— Atenda seu telefone. É Raimundo Gilmar.

— Ótimo! Contarei o que houve e passarei as instruções sobre a impressão dos originais. Ao todo serão apenas três cópias. Assim, Laura, após Gilmar imprimir e encadernar tudo, irei embora de Mondrongo amanhã mesmo. Isto, claro, se o seu primo Reginaldo Marinho for me deixar em Vila Negra.

— Quando você pretende retornar, Jaime?

— Não sei. Talvez apenas após o meu livro ser publicado por alguma editora do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Se Reginaldo não puder me levar até Vila Negra, então pedirei a Luciano que faça isso. Até porque o apartamento é dele e não conheço Vila Negra direito. Trata-se de uma cidade um pouco maior que Mondrongo. Certamente eu teria alguma dificuldade de localizar o apartamento.

— Então, meu querido Jaime, vá com Deus.

— Ultimamente o Altíssimo não tem andado muito comigo. Sei que fiz por merecer. O Todo-Poderoso parece ter me virado as costas.

— Não pense assim. Você acabou de levar três tiros e continua vivo. Acredito que foi o Pai que lhe protegeu. Quem mais o salvaria?

— Eu penso que foi tão somente o colete.

— Que homem de pouca fé é você, Jaime.

A seguir ele fechou os olhos, abaixou a cabeça, cruzou os dedos e pôs as mãos na fronte. Era como se fizesse uma prece silenciosa.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 09/10/2022 - 09:08h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 17

Prova de fogo

Por Marcos Ferreira

Dizem (sujeito indeterminado) que até as pedras se encontram. Não duvido. Mas não afirmo que sim. Logo que pegou a calçadinha da Ponte Jerônimo Rosado, num horário em que o trânsito subindo a Presidente Dutra era o mais intenso e caótico possível, Jaime topou com o sebista Antoniel Silva, dono do Sebo Verdugo, o segundo maior do município, cidade esta que possui apenas dois sebos. O maior e melhorzinho é o Bate-Bucha, pertencente ao xilógrafo Gotardo Lins.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Tanto Antoniel quanto Gotardo fazem as vezes de editor e ambos lançaram certas obras com o selo dos seus respectivos comércios. Conforme já foi dito, ao menos creio que sim, o Bate-Bucha situa-se na Rua Jerônimo Rosado. Nessa mesma rua, consintam que eu me repita, também encontramos a loja de carros do senhor Mauro Mosca, vulgo Rato Branco.

Muito bem. Lá caminhava, a passos largos, o escritor Jaime Peçanha, ora alçado à condição de assassino, além do delito de posse ilegal de arma de fogo. Subia a calçadinha da Ponte Jerônimo Rosado com a sua mochila nas costas, a tal mochila contendo a cópia impressa da obra A Cidade que Nunca leu um Livro. Súbito, então, aparece-lhe à direita, sempre a direita!, o sebista falacioso Antoniel Silva. Este vinha assim como quem viesse da pequena e íngreme rua do ponto de ônibus.

Não foi possível ao escritor fazer de conta que não avistou o sebista magricelo por trás daqueles óculos de fundos de garrafa. Nem o sebista, apesar da acuidade visual não ser das melhores, se permitiria simular que não fora visto. Um a par da presença do outro, portanto, o diálogo entre os dois cordiais desafetos foi inevitável. E já nas primeiras palavras, com sua peculiar gagueira, como era de se esperar, o atrevido Antoniel Silva não perdeu tempo e pôs o dedo na ferida política de Jaime Peçanha: o seu imbróglio com os mandachuvas locais, notadamente os senhores Wallace Batista (prefeito) e Leonardo Jardim (presidente da Câmara). Sem rodeios, mas com meias palavras, Antoniel asseverou que estava por dentro das novidades e que ele, se estivesse no lugar de Jaime Peçanha, já teria desaparecido de Mondrongo há muito tempo.

— Sua batata com os políticos agora vai assar.

— Acho melhor batata assada que batata crua.

— Tem uma história por aí cheirando à pólvora.

— Você está botando verde para colher maduro.

— Mas, sendo franco, não creio em tal história.

— Está sendo bonzinho, ou me subestimando?

— Só acho que você não tem pulso para tanto.

— Então está me subestimando. Isso é um erro.

— Quer dizer que confessa o que estão dizendo?

— Não. Até porque ninguém me acusou ainda.

— Já existe um corpo e um crime a ser esclarecido.

— É bom que tome mais cuidado com sua língua.

— Isso por acaso é uma ameaça, Jaime Peçanha?

— Não. Porém você não sabe do que sou capaz.

— Eu não sei de certeza. Apenas já ouvi falar.

— Mesmo assim ainda duvida? Me subestima?

— Eu não tenho medo de você, escritorzinho.

— Deveria ter. Sobretudo com esses rumores.

— Como já disse, talvez isso seja apenas fofoca.

— Suponho que você perdeu a noção do perigo.

— Eu não, e sim você, que mexeu com políticos.

— Eles que tomem cuidado comigo, Antoniel.

— Olhe só para você, Jaime! É um zé-ninguém.

— Melhor que ser um capacho público e notório.

— O que você tem é inveja das minhas amizades.

Jaime gargalhou e bateu no ombro de Antoniel:

— Que amizades?! Você é um puxa-saco oficial!

— Hum! Pelo menos não sou um alvo ambulante.

— Claro que não. Porque você é um mosca-morta.

— Nossa conversa acabou, Jaime. Minha casa é nessa rua. Espero ainda vê-lo (vivo!) para batermos outro papo desses qualquer dia.

— Não posso dizer que foi um prazer reencontrá-lo, mas eu também espero que esta não seja a nossa última conversa. Apesar dos pesares.

Antoniel Silva pegou a rua da casa dele, que ficava ali pertinho, enquanto que Jaime prosseguiu subindo a Avenida Presidente Dutra.

O tempo continuava agradável, contudo sem indícios de chuva. Tal condição, a temperatura daquele jeito, favorecia o uso do colete à prova de balas e também suavizava o contato da mochila nas costas. A mochila continha o original de A Cidade que Nunca leu um Livro, cópia esta que Jaime havia imprimido no escritório de Luciano Aires e nem teve tempo de imprimir o restante na Copiadora Expressa.

A tarefa foi delegada ao seu amigo impressor, funcionário da Copiadora, Raimundo Gilmar. Dessa forma, com o colete bem ajustado por baixo da jaqueta jeans e com o trinta e oito também oculto no cós da calça, subiu a Presidente Dutra e seus passos pareciam mais largos do que quando vinha conversando com o sebista Antoniel Silva. Em certo momento, ao passar por um tipo mal-encarado, lembrou-se da frase de Antoniel:

“Pelo menos não sou um alvo ambulante.”

Um frio lhe correu pela espinha. Discretamente olhou para trás. Da mesma forma, agora espiando um pouco por cima do ombro, virou a cabeça para o outro lado e passou a mão no cós. Conferiu, pelo tato, o volume do revólver de oito culatras. Talvez temesse, por alguma razão inexplicável, que a arma houvesse sumido, desaparecido da sua cintura. Também começou a prestar atenção nos veículos, sobretudo em picapes cinza, como o modelo usado por Rato Branco e os seus comparsas.

De onde se encontrava até a sua casa, no Conjunto Walfredo Gurgel, calculou que restassem uns dois quilômetros. Seu coração batia acelerado. De quando em vez olhava para trás. Cogitou se não seria prudente àquela hora recorrer aos serviços de um mototaxista. Sempre havia um ou dois na esquina da bodega do poeta Francisco Nolasco. Entretanto, recordando-se do que teria que gastar no dia seguinte com a impressão, encadernação e embarque dos originais nos Correios, achou melhor economizar aqueles possíveis dez reais da corrida com o mototaxista. Trajava calça também jeans, tênis marrons de cadarços e um boné preto do New York Yankees.

A frase do sebista Antoniel Silva, aquela sobre “alvo ambulante”, ainda o perturbava. Contrariava-o assim como uma espécie de insulto, um motejo ou brincadeira de mau gosto. Tal coisa, portanto, não tinha graça. Nesse instante, opondo-se às condições climáticas, seu sangue quase entrou em processo de ebulição. Isto é, esteve perto de ferver. Sua preocupação com o que pudesse atingi-lo pelas costas era frequente. Podia ser qualquer um armado até com uma faca, um elemento a mando de Rato Branco.

Depois de uns trinta minutos, sem perder o ritmo, já se encontrava próximo de casa, quase na esquina da drogaria. Nesse instante, quem sabe para aliviar a tensão, resolveu entrar na drogaria para se pesar: oitenta e seis quilos na balança digital. Enfim, agora com os passos mais relaxados, ele deixara a altibaixa e atordoante Presidente Dutra. Entrou no Conjunto Walfredo Gurgel pela primeira esquina. Uma sensação de segurança e bem-estar o dominava. Pegou a rua de paralelepípedos da praça.

Local ruidoso. A fumaça dos espetinhos de carne assada subia feito uma névoa naquele trecho do conjunto. Agora Jaime se sentia em casa, são e salvo, como prometera o advogado Luciano Aires ainda no escritório.

Quase oito horas. Dois flanelinhas maltrapilhos disputavam a atenção e as gorjetas dos motoristas que circulavam o setor a fim de estacionar os seus veículos. Havia barulho promíscuo de música no entorno. Um jogo de futebol era transmitido por um projetor para um telão afixado no que restou da grade de ferro que devia proteger a quadra de esportes. Quase a praça inteira, como é comum ocorrer da segunda até o domingo, tomada pelas mesas e cadeiras de plástico dos comerciantes. Ali se vende toda sorte de comidas, refrigerantes e bebidas alcoólicas.

Aquele, de maneira informal, é o ponto de recreação do bairro. Não raro há um jogo de bingo cujos apostadores costumam marcar as suas cartelas com caroços de milho ou grãos de feijão. Área esta também disputada por duas igrejas evangélicas e um terreiro de umbanda.

Jaime retirou o boné. Enfiou os dedos no cabelo e sentiu que, apesar da temperatura amena, havia um pouco de suor na cabeleira já um tanto crescida. Pôs o boné de volta e aprumou os óculos. Olhou novamente para trás, pela derradeira vez, e logo em seguida contemplou toda aquela gente aglutinada na praça. De repente, “não mais do que de repente”, imaginou que numa daquelas mesas poderia haver um pistoleiro ou dois à sua espera. Por conta disso tornou a acelerar os passos.

Desceu por uma das laterais da praça e virou à esquerda. Entrou na obscura e desértica Padre Mota, onde reside com a enfermeira Laura Gondim. Nessa noite Laura se encontrava de plantão no hospital e só retornaria por volta das sete horas do dia seguinte. Percorreu cerca de cinquenta metros na própria rua e daí a pouco uma picape cinza (como se houvesse surgido do nada) freou praticamente em cima dele.

Três homens encapuzados logo o puseram sob a mira de pistolas. Num átimo, então, concluiu que estava rendido, em menor número e sem qualquer possibilidade de reação. Portanto, deu-se conta de que tentar puxar o seu trinta e oito seria uma grande tolice. Ordenaram que tirasse a mochila e a jogasse para perto deles, e assim Jaime o fez.

Supôs que quisessem apenas o livro, porém recebeu dois tiros seguidos no peito. Ao rastejar, tomou um balaço nas costas, à queima-roupa. Fingiu-se de morto e ouviu a picape arrancar, cantando pneus. O colete o salvou.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 02/10/2022 - 11:00h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 16

Da literatura à pistolagem

Por Marcos Ferreira

Embora hoje tenha enveredado para o mundo da violência e do assassínio, pois agora as suas mãos estão sujas de sangue, e talvez tenha reagido de forma desproporcional às agressões que sofreu, Jaime tornou-se um criminoso, um fora da lei. Entretanto, apesar dos pesares, de algum modo ele ainda alimenta a sua veia de homem de letras. Não desistiu de ser (nem ele pode estimar como) um talento reconhecido. Não vislumbra, de forma animadora, sobretudo com os capangas de Rato Branco no seu encalço, um meio de concretizar, de cravar uma obra na posteridade mondronguense.

Pintura digital de Anderson Santos

Pintura digital de Anderson Santos

Estamos falando, obviamente, do seu caótico e nebuloso romance A Cidade que Nunca Leu um Livro, título este supostamente originário de uma simples frase que teria sido proferida ou mesmo publicada em jornal há mais de um século por um livreiro falido de Mondrongo, o senhor Leopoldo Ferreira de Andrade, isto tudo num enredo entrelaçado com episódios remotos quanto atuais: ou seja, de 1912 a 2000.

A história já começa nada menos que fantasmática. Pois, segundo o aclamado folclorista Cândido Besouro, em seu “clássico” O Propósito de Lampião em Mondrongo, conto este da carochinha do qual o leitor talvez se recorde, tem a ver com a narrativa de que o avô paterno do Rei do Cangaço supostamente abrira a primeira livraria de Mondrongo e teria falido menos de um ano depois por falta de clientes. Então, senhoras e senhores, magoado e ressentido, o avô de Virgulino teria publicado um artigo na Tribuna Mondronguense afirmando que os habitantes de Mondrongo jamais leram um livro, ele que era ex-ferroviário, descendente de espanhóis e natural do nordeste baiano.

O tal “clássico” de Cândido Besouro também dá conta de que, como citamos numa conversa com o sebista Antoniel da Silva, Lampião era um poeta e, nas horas vagas, escrevia versos para Maria Bonita. Besouro informa, portanto, que o empresário e poeta bissexto, amante desmedido da literatura, teria empenhado todas as suas economias nesse projeto fracassado e findou perdendo tudo quanto possuía, caiu na ruína, terminando como mendigo pelas ruas sujas e sem luz elétrica de Mondrongo.

— Uma esmola pelo amor de Deus!

O problema, convenhamos, é que agora o romance promíscuo de Jaime está numa encruzilhada ficcional ou mesmo confessional. Isto no tocante à morte de Paulo César dos Anjos e do rasto que tal homicídio imprimiu no caminho de Rato Branco e dos demais capangas que restam ao ex-jornalista e atual empresário do ramo de automóveis. Por outro lado, de maneira ainda menos plausível, A Cidade que Nunca Leu um Livro duvidosamente promete jogar no ventilador a lama da política local, como, sobretudo, as pseudodenúncias de corrupção envolvendo o senhor prefeito Wallace Batista e o vereador Leonardo Jardim, atual presidente da Câmara.

Jaime ficou sem poder lançar o seu bombástico livro, cheio de inúmeras acusações contrárias ao prefeito e contra o presidente da Câmara, simplesmente porque um araponga traiçoeiro, lacaio do próprio João Claudione, soube das ações da dupla e jogou toda a história no bico de Wallace Batista e de Leonardo Jardim. De repente, então, o escritor se viu em papos de aranha.

Raciocinando ingenuamente, levou em consideração a hipótese de tentar lançar A Cidade que Nunca leu um Livro fora de Mondrongo, preferencialmente em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Contudo, Jaime tem consciência de que tais editoras só costumam publicar celebridades, medalhões, best-sellers, e não autores e obras obscuros, rigorosamente anônimos. Mesmo assim, contrariando a regra, prepararia três cópias impressas de seu original e as enviaria para editores do Sudeste. Imprimiria tais cópias no escritório do advogado Luciano Aires.

Já com a grana bastante curta, pois João Claudione o havia depenado, e temendo a pancada que sofreria no guichê dos Correios, inicialmente ele fez quatro cópias em disquetes do seu original. Uma ele entregou a Reginaldo Marinho na calçada da Tribuna Mondronguense, com quem partilhava a esposa, Laura; entregou uma outra a Luciano Aires, que se espantou com a atitude de estar recebendo aquela espécie de bilhete de despedida; e a esposa ficou com a terceira.

O quarto disquete Jaime levou no final da tarde para imprimir na Copiadora Expressa, onde trabalhava o seu também amigo Raimundo Gilmar da Silva Ferreira, este já acostumado a imprimir e confeccionar as cópias encadernadas dos livros de Jaime, trabalhos inéditos remetidos a diversos concursos de que ele participava. Escritor polígrafo, comumente se aventurava nos gêneros poesia, contos, romances, crônicas e até ensaios literários.

Por um lado, segundo o raciocínio de Jaime, nem o prefeitinho Wallace Batista nem o pavonesco vereador Leonardo Jardim moveriam uma palha sequer contra ele. Não neste momento. Pois ambos têm o rabo preso, culpa no cartório, e o romance de Jaime poderia produzir grande estrago em uma época de reeleição como esta. Não o atingiriam ao menos do ponto de vista jurídico. Jaime não descarta, entrementes, que os políticos requebrantes se unissem com o tísico Rato Branco para dar cabo dele. Especialmente agora que estão a par das ações praticadas por Jaime em parceria com o frustrado humorista João Claudione, este que nas sérias instâncias policiais não passa de um percevejo, assassino, traficante, fichado como João Cláudio Santana, marginal perigoso e, por enquanto, sob a proteção de agentes corruptos da própria polícia. Mas seus dias estão contados; e sua casa deve cair a qualquer momento.

Na cozinha, antes de sair, Jaime bebeu um pouco de café. Daí a pouco, sentado na cadeira da área frontal, fumou um cigarro com vagar. Depois foi ao quarto, paramentou-se com o colete à prova de balas, vestiu a jaqueta abotoada por cima, pôs uma mochila vazia nas costas, a fim de colocar os três originais impressos e encadernados que receberia na Copiadora Expressa.

Semblante grave, enfiou o trinta e oito na cintura. Havia, repito, preparado quatro cópias de disquetes, isto além do arquivo que deixara no computador. Por último, colocou as cópias nos bolsos internos da jaqueta jeans. Na cintura, entre um leve roçar e outro, ele se incomodava com o peso do revólver de grande porte com as oito cápsulas no tambor. Por baixo da jaqueta, conforme ressaltamos, estava aquela espécie de anjo da guarda: o firme e quase imperceptível colete.

Por volta das três da tarde, então, debaixo de um céu incomumente nublado e em meio a uma temperatura também poucas vezes experimentada pelos mondronguenses, Jaime pegou um mototáxi perto de sua casa e desceu direto para o Centro. O seu destino era o escritório de Luciano Aires, que estava com um cliente em tal ocasião, e Jaime ainda precisou aguardar uns trinta minutos. Daí a pouco o cliente saiu e Jaime e Luciano se viram a sós. Naquele dia, portanto, como já vinha ocorrendo há dois meses, Jaime estava no escritório de Luciano não meramente como amigo. Aqui e acolá experimentavam umas intimidades homoafetivas. Ambos trocavam uns rápidos beijinhos e se agarravam um pouco antes que o próximo cliente desse o ar da graça. Nem Laura nem Reginaldo Marinho, com os quais Jaime participava de um trissal, tinham conhecimento dessa relação paralela. Jaime passou a utilizar a impressora de Luciano para imprimir as cópias de que precisava para encadernar e colocar nos Correios.

— Hoje a minha tarde foi bastante cheia, Jaime. Todavia, se você puder esperar mais uma horinha, talvez até menos, eu vou lhe acompanhar no trabalho da copiadora. E cumprida esta missão das cópias, e também após um pouquinho de prazer, logo que sairmos daquele motelzinho bacana, eu prometo que vou deixar você em casa, são e salvo. O que me diz, senhor das letras? — propôs Luciano.

— Não vai dar. Estou com pressa. Eu quero ver se consigo fazer a encadernação dessas coisas hoje ainda. Tenho a sensação de que ando por aí o tempo todo com um alvo no peito ou nas costas A postagem nos Correios vai ficar mesmo para amanhã. Quero que guarde isto com você. É uma cópia do meu romance. Estou sofrendo ameaças, Luciano, justamente por conta desse livro e não sei o que me pode acontecer se essa minha obra for publicada aqui em Mondrongo. Então, meu caro, uma cópia ficará com você. Outra vou entregar ao Reginaldo, uma ficará com Laura e a quarta eu vou confiar a Raimundo Gilmar da Silva Ferreira, aquele meu amigo impressor da Copiadora Expressa. Ele me conhece há bastante tempo e imprime os livros que lhe envio para os concursos de que participo. Se algo de pior me acontecer, se eu for morto por conta dessas páginas, meu último desejo é vê-las publicadas, aqui ou fora de Mondrongo. E a todos aos quais entreguei os disquetes ficarão com responsabilidade dessa obra. Principalmente você, Luciano, justamente com o Raimundo Gilmar.

— Não fale assim, homem! Até fico arrepiado só de imaginar uma coisa dessas. Esta cidade de bosta não vai fazer nada de tão grave contra você! Fique tranquilo. Você não vai morrer por conta desse livro e de nenhum outro. Aquele incidente na noite do lançamento do meu Caixa-pregos foi apenas para lhe intimidar. Até porque, convenhamos, você pega pesado com esse pessoal poderoso.

— Não se trata de nada que eles não mereçam.

— Precisa de algum dinheiro para a impressão das cópias e a postagem? Pode falar, não tenha cerimônia entre nós. Recebi honorários e estou cheio da grana — brincou Luciano. — Sei que isso custa caro, principalmente os Correios.

— Sim, eu aceito. Mas lhe prometo que vou devolver.

O tempo passou rápido. Voara. Daí a pouco chegou o cliente que Luciano estava esperando, um senhor rosado e de meia-idade, e logo Jaime precisou ir embora com apenas uma das três cópias que conseguira imprimir do original.

“O resto eu faço na copiadora”, pensou. Mas as horas haviam passado céleres. As luzes dos postes já estavam acesas, e quando Jaime chegou à copiadora, esta se achava com uma placa de “fechado” pendurada na porta de vidro. Ainda assim, por uma portinhola superior, Jaime acenou a Raimundo Gilmar da Silva Ferreira e eles conversaram rapidamente. Jaime Peçanha explicou a urgência da situação, entregou-lhe o disquete pela portinhola e Raimundo Gilmar o guardou no bolso da camisa. “Pode ficar tranquilo, meu amigo”, disse Raimundo prometendo que a primeira impressão do dia seguinte seriam as duas cópias de A Cidade que Nunca Leu um Livro, juntamente com as encadernações, já que uma das impressões, justamente a que fora feita no escritório de Luciano, seguiu sem encadernação na mochila de Jaime. Convém agora recordarmos que nessa época as editoras em geral ainda recebiam dezenas (talvez centenas) de originais impressos e encadernados. Atualmente, passados mais de vinte anos, é tudo recebido somente por e-mail, por correio postal, com arquivos sobretudo nos formatos Word e PDF.

Não se sabe por que razão, portanto, Jaime decidiu levar consigo, na mochila, a cópia que conseguira imprimir no escritório de Luciano Aires. Perfeccionista, não duvidemos de que objetivasse uma última revisão.

— Amanhã cedo, Gilmar, eu estarei aqui com a terceira cópia para você fazer a encarnação. Esses originais seguirão para o Rio e São Paulo.

— Peço uma esmola pelo amor de Deus! — implorava o livreiro falido, o mesmo que supostamente afirmara que esta cidade nunca leu um livro.

Jaime Peçanha deu meia-volta levando na mochila apenas a cópia que fizera no escritório de Luciano, pouco antes do próximo cliente chegar. Além de um punhado de balas nos bolsos internos da jaqueta que encobria o colete tecnicamente impenetrável, ele ultimamente havia adquirido um carregador automático, de maneira que trocaria de carga em tempo mínimo. Na cintura, um tanto desconfortável, portava o poderoso berro, o quase inseparável revólver. Àquela altura já havia comprado de João Claudione uma caixa de projéteis novinha: cem unidades.

O tempo estava bem ameno para uma caminhada. Então Jaime decidiu subir a Presidente Dutra a pé. Talvez tenha sido esse o seu grande erro.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 25/09/2022 - 07:40h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 15

arma e baralho, jogatinia, submundo, jogos de azarEmboscada na jogatina

Por Marcos Ferreira

Ficaram de campana por mais de duas horas, entre a meia-noite e as três da madrugada. Daí a pouco, enfim, meio trôpego, o indivíduo deixou o galpão da jogatina. Dentro do carro, um sedã preto com vidros fumê, Jaime portava seu tresoitão com capacidade para efetuar oito disparos. Por sua vez, no banco do motorista, o traficante João Claudione retinha na cintura uma pistola calibre 45. O alvo dos dois àquela noite de persistente garoa não era outro senão o capanga do Rato Branco, o pau-mandado e lambe-botas conhecido nos meios policiais por Paulo César dos Anjos. Este fora o valentão que enfiara o cano da pistola na boca de Jaime.

— É ele! Se prepare! — proferiu Claudione.

— Deixe ele vir mais. Eu já estou pronto.

Sendo um dos últimos a deixar o estabelecimento clandestino de jogos de azar, razoavelmente embriagado e com algum dinheiro das apostas na carteira, Paulo foi rápida e facilmente dominado por Jaime Peçanha e por João Claudione, que lhe puseram as armas nas fuças. É um fato importante a ser relatado que Paulo César tinha apenas dezessete anos quando, num ímpeto, esfaqueou o próprio pai para defender a mãe habitualmente agredida pelo marido alcoolizado e drogado. Paulo ficou conhecido nos fichários da polícia como Paulo César dos Anjos. Jaime e João Claudione colocaram a vítima no porta-malas, taparam a boca dele com uma fita adesiva e se evadiram do local sem a testemunha sequer de um vira-lata. Naquele momento o que era uma simples garoa se transformou em chuva.

— Não me matem, pelo amor de Deus! Eu tenho família. Sou pai de duas meninas ainda pequeninas! — naquela hora, todavia, o Altíssimo preferiu não se intrometer naquele acerto de contas e, assim como Pilatos, também lavou as mãos. Então, apesar das rogativas e das promessas de que nunca mais se envolveria com Rato Branco, Paulo César dos Anjos findou alvejado com mais de quinze tiros à queima-roupa.

A execução aconteceu à beira de uma estrada carroçável, a cerca de quinze quilômetros da área urbana de Mondrongo. Durante aquela madrugada, sob forte chuva, o porta-malas estava forrado com um plástico grosso, de cor preta, para a finalidade de evitar que o carro ficasse sujo de sangue. O último tiro foi deflagrado por Jaime Peçanha contra a testa de Paulo César. Em seguida, embora ensanguentado, puseram o defunto no porta-malas e o levaram até o rio Mondrongo. Em lá chegando, o lançaram numa das laterais da barragem, fazendo com que o corpo boiasse nas águas. O falecido não afundou por estar preso com cordas no saco plástico. O propósito dos executores era dar logo notícias a Rato Branco sobre o triste fim do seu testa de ferro, e as imediações da Ponte Jerônimo Rosado, de intenso tráfego, eram mais que apropriadas para desovar o cadáver do ex-valentão.

Vale ressaltar que, apesar de certa choradeira, João Claudione fatura alto com os seus negócios de venda e compra de armas e drogas. Conta com amigos influentes na Polícia Civil, Rodoviária e até no Judiciário. Não se tornou o humorista de sucesso que almejava, entretanto não lhe falta o vil metal. Ele possui pelo menos dez propriedades em nomes de laranjas, todas mascaradas como pequenos negócios agrícolas.

A participação de João Claudione na execução do inimigo de Jaime ficou por um preço irrisório, apenas um trocado para o contraventor frequentar o bordel Suzano: mil reais. Isto, claro, levando-se em conta a longa amizade dos dois ex-colegas de primário. Por exemplo, Jaime Peçanha é padrinho do filho mais velho de Claudione, morto pela Polícia Militar durante um suposto tiroteio numa boca de fumo. Quanto à execução do cupincha de Mauro Mosca, seja dito que a maior parte dos tiros foi feita por Jaime, que parecia estar tomado de grande fúria e descarregou as oito cápsulas e mais algumas. João Claudione tem a mesma idade que Jaime e seu principal hobby é matar policiais militares traiçoeiramente.

— A partir de agora não vou lhe cobrar mais nada. Seus inimigos se tornaram meus inimigos. Vamos acabar com todos eles, um por um.

— Eu agradeço demais por contar com a sua ajuda.

— Pois é. Rato Branco está com os dias contados.

Ao longo de mais de seis anos, sempre de maneira impune, é possível que Claudione já tenha matado, a sangue frio, algo em torno de oito militares. Até mesmo um tenente à paisana. O homem é um estrategista, típico exemplo de perito. Serviu no Exército com louvor, juntamente com Jaime, e possui grande expertise em armamentos de diversas modalidades, calibres e munições. Notável atirador de elite, é capaz de atingir facilmente um alvo a meio quilômetro de distância. Em seu arsenal, oculto em um municiado bunker debaixo da garagem de uma de suas fazendolas, ele dispõe de armas de grosso calibre de uso do Exército, como refles, bazucas, metralhadoras, fuzis com miras telescópicas de longo alcance, coletes à prova de balas e até granadas de mão.

— De hoje em diante, Jaime, você vai andar com colete à prova de balas. Arrume uma jaqueta jeans bem folgada e use o colete por baixo. Esse pessoal vai lhe caçar a pau e pedra, e eu não posso lhe proteger em tempo integral. O seu revolver, dependendo da investida deles, não vai lhe ser de muita serventia, a depender, repito, do fogo contrário. Portanto, meu chapa, eu lhe digo que se cuide. Como reza o ditado, “seguro morreu de velho”.

— Eu estou pronto para o que der e vier, Claudione.

— Não está não, Jaime. Às vezes a gente pensa que está, mas não está pronto para porra nenhuma. Ninguém, ao menos que eu saiba, se acha pronto para morrer. Exceto, talvez, de causas naturais. O melhor a fazer é você tomar todas as precauções que puder.

— Claro! Eu vou me cuidar o máximo possível.

— Suponho, Jaime, que a esta hora Rato Branco, o Mauro Mosca, esteja botando fogo pelas ventas. Mas ele sequer vai prestar queixa contra você na polícia, pois tenho plena certeza de que o plano dele é fazer com que você pague na mesma moeda.

— Certamente. Vou aceitar a sugestão do colete.

— Tenho coletes de primeira qualidade, artigos usados até pelas Forças Especiais. É claro, como nós sabemos, que esses produtos não protegem ninguém cem por cento, mas dá tempo de o sujeito esboçar uma reação, lhe dá um tempinho para reagir e, quem sabe, sacar a sua arma. O problema é somente se o disparo atingir a sua cabeça. Aí, compadre, não tem choro nem vela. É tiro e queda, caixão e vela preta. Apesar de você possuir um bom revólver, acho que eu deveria ter facilitado para você adquirir uma parabélum, pistola automática de grande calibre e fabricada na Alemanha. Tenho três joias dessas no meu arsenal. São belíssimas e possuem grande impacto.

— Essa tal parabélum é muito grande, Claudione?

— Um pouco. Mas de grosso calibre e automática.

— Nossa! Isso deve custar uma grana alta, hein?

— Olha, só para você eu fecharia pelos oito mil.

— Sei. Mas está fora das minhas possibilidades.

— Seu trinta e oito também é bom. Não vai falhar.

— Pois é, eu vou ficar com ele. Gostei demais.

— Se ligue, então. Rato Branco vai para cima de você.

— Não ele propriamente, mas os seus capangas.

— Vou pegar o seu colete. É artigo dos melhores.

— Obrigado, Claudione! Nem sei como lhe agradecer.

— Besteira! É um presente meu para você. Fique tranquilo. Cuide logo de providenciar uma jaqueta. Também lhe previno que vai esquentar um pouco. Falo do contato do colete juntamente com o da jaqueta.

— Tudo bem. Estou acostumado com esse calor de Mondrongo. Depois de tudo que fizemos hoje, meu amigo, e debaixo dessa chuva abençoada, acho que eu vou dormir muito bem e com uma grande paz de espírito.

— Então, amigo, boa noite. Durma com os anjos.

— Você também. Que Deus sempre lhe proteja.

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domingo - 18/09/2022 - 08:20h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 14

Nas águas do rio Mondrongo

Por Marcos Ferreira

Como urubus à espera de uma carniça boiando nas águas do infecto rio Mondrongo, dezenas de curiosos contemplavam aquele corpo que já se aproximava de uma das margens. Uma equipe do Corpo de Bombeiros foi acionada e dois dos homens se lançaram nas verdes águas, nadaram até o defunto e conduziram o cadáver à parede da barragem. Colocaram-no sobre a pedra lodosa, enquanto outros bombeiros, juntamente com a Polícia Militar, trataram de interditar as duas extremidades da barragem.Lixo, detritos, curva de rio, monturo,

Ainda era cedo, por volta das sete horas, todavia o número de curiosos era demasiado. Entre aqueles que se encontravam no local, estava o escritor Jaime Peçanha, com uma mochila nas costas e usando um boné amarelo. Ele assistia a toda aquela operação de resgate de camarote, totalmente sereno, escorado numa varanda da ponte.

Quando finalmente trouxeram o corpo para o carro do Instituto Médico Legal (IML), constataram que o homem estava crivado de balas, havia até uma perfuração de um projétil no cento da testa. Ao examinarem os bolsos do sujeito, encontraram a carteira de cédulas da vítima com todos os pertences, até mesmo uma razoável soma de dinheiro. Ou seja, o crime não fora de latrocínio, mas de vingança, acerto de contas. Eis agora o nome do cidadão: Paulo César dos Anjos, justo o que enfiara o cano da pistola na boca de Jaime Peçanha na noite em que este fora espancado.

A especulação tomava conta dos circunstantes. Quem teria cometido aquele crime? Quem seria a vítima? Tratava-se, porventura, de um pescador que se afogara buscando o alimento para a família? Não. De maneira alguma. Aquele tipo ainda jovem, crivado de chumbo, era outro bem diverso de um simples pescador. Tinha antecedentes criminais e já cumprira pena por porte ilegal de armas e drogas. Nos últimos quinze meses se tornara testa de ferro do hoje empresário Rato Branco, a quem servia, sobretudo, pressionando clientes endividados em companhia dos outros capangas. Agora, como o time se via em maus lençóis, sofrera uma importante baixa.

Dali a uns quinze minutos, quando os homens do rabecão jogaram o sinistro presunto no caixão de zinco e foram embora com as sirenes ligadas, a multidão se dispersou e cada qual seguiu o seu rumo. Exceto Jaime, que ainda demorou mais tempo contemplando as águas sujas do fétido rio Mondrongo, que decerto cheiravam tão mal quanto o cadáver do indivíduo assassinado com vários balaços. Os curiosos foram embora satisfeitos por apenas testemunharem mais uma tragédia na terra das chuvas de bala no País de Mondrongo. “Neste mundo de olho por olho e dente por dente, colhemos o que plantamos. E, pelo visto, esse aí já vai tarde”, proferiu Peçanha com um ar de satisfação, deixando escapar a sombra de um sorrisinho.

— Quero ver o pavor deles — disse Jaime.

Após testemunhar o sinistro nas águas do rio Mondrongo, Jaime Peçanha seguiu direto para o Centro, exatamente com destino à Rua Jerônimo Rosado, imediações do Sebo Bate-Bucha, bem diante da loja de automóveis de Rato Branco. Ali ele permaneceu por trás do carrinho de batata frita, degustando lentamente a iguaria. Daí a pouco avistou quando os outros dois capangas de Mauro Mosca surgiram atordoados na concessionária e foram ter com Rato Branco acerca da trágica morte de Paulo César.

No escritório envidraçado, portanto, com a mão na cabeça, comunicaram o desfecho do fiel comparsa. Por sua vez, embora com os miolos fervendo, Jaime se manteve absolutamente calmo, comia o seu pacotinho de bata frita com a placidez de um monge tibetano. “Você tem aí mais um pouquinho de sal?”, perguntou ao vendedor. “Sim, aqui está. Fique à vontade”, respondeu o prestativo ambulante naquele momento.

Ali no cós, por baixo da camisa, esta com as barras totalmente para fora da calça, Jaime portava o revólver cheio de munição pronto para oito disparos. Teve ainda o ímpeto de ir à concessionário e realizar um banho de sangue, não lhe importando se sairia vivo ou morto. No seu pensamento, claro, ele acertaria primeiramente Rato Branco, realizando uma intensa troca de tiros com os demais pistoleiros.

Porém os indivíduos entraram às pressas no carro e saíram cantando pneus com Rato Branco no banco da frente. Do outro lado da rua, plácido como um monge tibetano, permitam-me repetir, Jaime degustava a sua batatinha. “Você tem aí uma água mineral geladinha?”, indagou. “Tenho”, respondeu o rapaz.

— A água refresca, mas hoje estou com sede de outra coisa. Uma bebida um pouco mais forte. Quem sabe até um bom vinho tinto?

— “A vingança é um prato que se come frio.” Um bandido já se foi. Restam apenas três. Rato Branco será o último na minha lista.

— O senhor perguntou alguma coisa?

— Não. A batatinha está uma delícia.

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Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 11/09/2022 - 10:20h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 13

Armado e perigoso

Por Marcos Ferreira

Pouco depois do meio-dia, mal acabara o almoço, o telefone de Jaime tocou sobre a mesa. Era o sebista Gotardo Lins, proprietário do Sebo Bate-Bucha, localizado na Rua Jerônimo Rosado, no Centro. Gotardo, conforme adiantou por telefone, tinha um serviço de revisão de livro para Jaime — um volume de memórias de uma senhora conhecida por Bernadete Lino, residente em Caruaru, cidade do Agreste pernambucano, e aposentada do Banco do Brasil. “Essa mulher escreve bem; dá gosto ler o que ela produz”, antecipara Gotardo. “O texto dela é limpinho, romanceado. Aposto que não vai lhe dar trabalho”, arrematou o sebista empolgado com o fato de utilizar o selo da Bate-Bucha como editora numa parceria com uma conceituada gráfica de Recife.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Por volta das quinze horas, então, Jaime se abalou até o Sebo Bate-Bucha para conversar com Gotardo Lins e conhecer o livro de memórias da senhora Bernadete Lino, sobre o qual o sebista havia tecido comentários entusiasmantes. Pois, na maioria das vezes, os livros que Jaime pegava para consertar a gramática, a sintaxe e a ortografia eram uma dor de cabeça. Coisa de ferver os miolos do revisor.

Recorrendo a um mototáxi, Jaime trafegava pela Jerônimo Rosado rumo ao Bate-Bucha. Nesse momento, porém, a poucos metros do seu destino, avistou a loja de veículos novos e usados do seu arqui-inimigo Mauro Mosca, vulgo Rato Branco. O escritor bateu de leve no ombro do mototaxista e pediu que este parasse um instante. Ali defronte ao comércio Jaime viu uma grande picape cinza igual àquela usada por seus agressores na noite em que foi espancado na saída da Biblioteca Municipal. Além do veículo, distinguiu três indivíduos com os mesmos biótipos dos homens que o atacaram. Um deles, de apelido Quebra Osso, era segurança do extinto Diário do Oeste.

Com o tresoitão na cintura, o sangue de Jaime ferveu. Isto sem ele ter a menor certeza de que tais sujeitos seriam os responsáveis pela surra que lhe fora dada naquela noite violente, quando se ausentou do lançamento do livro do amigo advogado Luciano Aires. Jaime não mais continuou a viagem. Pagou a corrida e ficou ali de olho por trás de um carrinho de batata frita, comendo a iguaria devagar.

— Foram esses escrotos! — rosnou baixinho.

De fato, além da presença da picape cinza estacionada diante da concessionária de Rato Branco, os tipos conversavam animadamente e possuíam o porte físico dos agressores. Eram dois tipos bem fortes, um tanto mais baixos e robustos, enquanto o terceiro era de compleição um pouco mais alta e menos corpulento. Este, na visão de Peçanha, fora o que enfiara o cano da pistola em sua boca e dissera que “só não matava Jaime naquele instante porque recebera ordens para tão somente transmitir um recado”. Este último, portanto, mais magro e longilíneo, possuía mais ou menos a estatura de Jaime. Outro detalhe, porém, não indicava que aqueles indivíduos pudessem ser os homens que haviam espancado o escritor naquela noite de sexta-feira.

— Pulhas! E eu esse tempo todo achando que eram homens do prefeito Wallace Batista e do presidente da Câmara, Leonardo Amorim — murmurou enquanto comia lentamente a batatinha frita, ali por trás do carrinho.

Daí a pouco o próprio e desmilinguido Rato Branco surgiu no saguão. Os homens se dirigiram até Mauro Mosca risonhos e trocaram enérgicos apertos de mãos e tapinhas nas costas. Mesmo àquela distância, assistindo a tudo do outro lado da rua, foi possível a Jaime compreender que, talvez de maneira oficial, os três capangas trabalhavam para Rato Branco como corretores e na realização de outras atividades espúrias, como ameaçar e espancar desafetos do endinheirado Mauro Mosca. Peçanha também concluiu que a picape utilizada pelos homens era de propriedade do empresário, hoje bem-sucedido no comércio de compra e venda de carros novos e usados. Resumindo, os supostos agressores de Jaime eram mesmo capangas de Rato Branco.

Jaime saiu de trás do carrinho de batata frita, jogou o restante da iguaria num cesto de lixo ali próximo e cruzou a rua. Subiu os degraus do patamar do patamar e foi confrontar os quatro insicísuoa, que papeavam sem o menor receio de sofrerem aquela repentina abordagem de um velho desafeto, sobretudo no caso de Rato Branco. Jaime não ignorava que os indivíduos também estivessem armados, todavia o sangue quente e a confiança no seu trinta e oito o tornaram destemido.

Rato Branco empalideceu ao se defrontar com Jaime. Os demais homens tiveram a mesma reação. Peçanha, contudo, tinha o rosto afogueado, como se em brasa. Naquele exato instante Mauro Mosca compreendeu que Jaime estava a par de que ele fora o mandante da surra que o escritor sofrera há pouco mais de trinta dias. De cútis ainda mais pálida, entretanto, daí a pouco Rato Branco adquiriu uma tonalidade avermelhada, como se uma indignação por aquele arquirrival ter tido a audácia de pisar em seu estabelecimento comercial sem ser convidado, assim de maneira brusca e desafiadora. Mauro Mosca não teve dificuldade de concluir que a presença de Jaime em seu estabelecimento tinha fortes indícios de acerto de contas, ou algo pior.

— O que você deseja aqui, seu mequetrefe?! — vociferou Rato Branco com as faces avermelhadas e olhando ao mesmo tempo para os comparsas, como buscasse nestes a validação e o encorajamento para as suas palavras hostis.

Os elementos assumiram posições diferentes no salão, de maneira que Jaime Peçanha se viu meio que cercado por eles. O escritor sabia que, dos três, ao menos o mais alto e magro estava armado, pois fora este que enfiara o cano da pistola em sua boca naquela noite. Era provável, ainda, que os demais estivessem portando arma de fogo. Talvez a exceção fosse apenas o próprio Rato Branco.

— Estou aqui, roedorzinho sem-vergonha, para lhe dizer que já descobri toda a sua armação, estou por dentro de tudo que você aprontou contra mim, sobre aquela sua ação covarde e traiçoeira no mês passado, juntamente com esses seus puxa-sacos que aí estão — disse Jaime em tom destemido, e com os olhos injetados de ódio. — Quero que saiba que isso não vai ficar de graça. Você e esses canalhas vão me pagar pelo que fizeram. Seja por meio da justiça ou na própria pele. Não tenho medo de vocês, estou preparado para o que der e vier. Não tenho nada a perder.

Após o desabafo raivoso de Jaime os homens se caquearam, levaram as mãos à cintura como se fossem puxar ou meramente exibir suas armas, porém Rato Branco ergueu a mão reprovando a atitude e os sujeitos interromperam a ação. Havia uma certa quantidade de clientes na local e talvez Mauro Mosca tenha preferido não gerar nenhum incidente que pudesse escandalizar a sua clientela.

Jaime trouxe a verdade à tona perante eles:

— Naquela noite, por intermédio dos seus percevejos, você me fez acreditar que o ataque que sofri havia sido coisa do prefeito Wallace Batista, do vereador Leonardo Jardim e de outros políticos situacionistas, os quais sempre critiquei na minha coluna na Tribuna Mondronguense. Lembro muito bem quando esse aí (Jaime apontou para o elemento com estatura parecida com a sua) me disse exatamente estas palavras, pondo o cano de uma pistola enfiado na minha boca, ordenando que eu desse um fim num dossiê que venho escrevendo contra o prefeito e que eu parasse de publicar tais “acusações levianas na mídia contra os políticos de bem do município, homens que lutaram bravamente ao lado do povo para livrar a cidade da velha oligarquia dos caciques políticos, que dominaram Mondrongo ao longo de várias décadas”.

— Está maluco! Por acaso não tomou os seus remédios hoje? Retire-se imediatamente daqui, seu fracassado! — explodiu Rato Branco. — Saia agora ou eu chamo a polícia. Você não é bem-vindo de maneira algum.

— Tomo meus remédios direitinho. E você, que não é nenhum tolo, sabe que pessoas que tomam esse tipo de medicação são inimputáveis. Portanto, eu posso acabar com a sua raça qualquer dia, pois estou preparado para isso, sem sofrer maiores consequências perante a Justiça. Não imagine mais que agora eu ando de mão abanando, como na noite em que esses seus paus-mandados me atacaram na saída da Biblioteca. Eu lhe garanto que agora ao menos um de vocês vai ficar estirado no chão. No mais, porém, saiba que seus dias estão contados, Rato Branco. Pode crer.

A situação começou a ficar fora de controle:

— Vejam isto — Jaime ergueu a camisa e expôs a coronha do enorme trinta e oito. Os capangas de Mauro Mosca fizeram o mesmo movimento. Todos estavam armados, e não apenas o indivíduo que botara o cano da pistola na boca do escritor. Em desvantagem numérica, então, Jaime se satisfez em ficar no plano da exibição do revólver, fato este que de certa forma dava a entender que ele também não estava ali para brincadeira, disposto a qualquer tipo de atitude. Peçanha agora era visto não mais apenas como um saco de pancadas, mas como homem de ação, armado e perigoso.

— O que está esperando?! Retire-se da minha loja!

— Eu vou, sim. Mas saibam que vocês vão me pagar.

— Saia logo, antes que eu mande lhe dar outra surra.

— Era só o que eu precisava ouvir, Rato Branco.

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Marcos Ferreira é escritor

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