domingo - 01/11/2026 - 08:28h

Vanitas

Por Bruno Ernesto

Igreja Westerkerk-Amsterdam (Foto: Bruno Ernesto/2024)

Igreja Westerkerk-Amsterdam (Foto: Bruno Ernesto/2024)

Há um tipo de pintura que foi muito popular no século XVII, época de ouro das grandes obras do barroco, do realismo psicológico, cuja característica principal é nos lembrar que a vida, os prazeres e as riquezas são passageiros.

Para isso reúnem símbolos que representam o transcurso do tempo e a inevitabilidade do fim através de objetos simples do nosso dia a dia, os quais muitas vezes sequer lembramos de sua existência, como relógios, caveiras, flores murchando, frutas apodrecendo ou uma simples vela apagando, como um latente aviso de que a vida nem atrasa, nem negocia, e que são conhecidas em latim como Vanitas, ou, sugestiva e simplesmente, vaidade.

Representa a brevidade da vida, dos prazeres mundanos e o que muitos temem: a inutilidade das riquezas.

Havia, sobretudo, uma forte carga de valores, ideias, crenças e princípios que orientavam a vida naquele tempo, mas que hoje passam totalmente despercebidos por nós; talvez, em grande parte, por não darmos mais importância ao que deveria acontecer naturalmente: viver.

Nesse período também surgiu a técnica de pintura que ficou conhecida como tenebrismo, e que permitiu um impacto inicial para quem observa aquela cena hiperfocada, carregada de luzes sobressaindo muitas vezes não uma, mas várias cenas dramáticas, em um contraste extremo entre a luz e a escuridão, e que reforçou aquele gênero de pintura.

Foi um estilo de pintura popular na arte holandesa daquele tempo, que muito lembra essas pinturas do tipo natureza-morta que hoje ficam penduradas nas paredes de muitas cozinhas, muitas delas já engorduradas próximas ao fogão, e nela vemos cestos de frutas belíssimas.

Guardadas as proporções, talvez hoje o que mais simbolicamente representa isso seja o aviso na tela do celular de que a bateria está prestes a descarregar, pois não há quem não deixe de fazer o que estava fazendo para tentar poupá-la e que, intimamente, se arrependa de ter assistido ao vídeo de dez minutos atrás que custou oito por cento da bateria.

Acredito que a maior noção e representatividade de finitude hoje se resuma a isso, e talvez não aconteça apenas com você.

Para ilustrar esse apego à lembrança da nossa finitude, gosto sempre de tomar como exemplo as anotações de Anne Frank em seu diário, aquele escrito no quarto secreto do anexo da casa da Prinsengracht, 263.

Na incerteza de uma saída, totalmente isolada do contato exterior, e na ansiedade pela possível descoberta do seu esconderijo, as badaladas dos sinos da Igreja Westerkerk, que fica a não mais de cem passos daquele esconderijo, lhe serviam, além de um contato com o mundo exterior, como um lembrete da medida do tempo, mas que nada podia fazer. Tão perto e tão longe.

Aquela igreja ainda hoje é a maior igreja protestante da cidade de Amsterdam, e possui um detalhe incomum em ambas as portadas de sua entrada, mas que dá o mesmo recado da Vanitas, com aqueles crânios esculpidos, plenamente visíveis para quem passa na pracinha.

Se para uma pessoa desatenta isso nada significa, ou talvez lhe seja indiferente diante das circunstâncias da vida, amanhã é um daqueles dias que nos fazem refletir um pouco sobre a fugacidade da vida e um dilema: o que mais lhe assusta, viver ou morrer? É medo do que ainda precisa ser vivido ou a incerteza do que virá depois?

Rubem Alves, ao ser perguntado se a vida era uma causa perdida, respirou profundamente e disse que ela é perdida, pois um dia ela acabará. Mas até lá, ela é um desafio, uma aventura.

Amanhã talvez seja um daqueles dias em que você fale as mesmíssimas palavras que queria escutar enquanto conforta alguém. Na mesmíssima sequência, como quem fala para si diante de um espelho.

Amanhã, quando vir multidões de pessoas imóveis, mudas e cabisbaixas diante de pequenos retratos, flores e epitáfios, lembre-se do que Graciliano Ramos disse, pois quando se quer bem a uma pessoa, a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada.

Porém, não esqueça de Manoel de Barros, pois andando devagar é que atrasa o dia.

Bruno Ernesto é escritor, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica

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