domingo - 30/08/2026 - 21:20h

Velhas novidades

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS 

Percebo que hoje em dia algumas novidades (tantas, aliás) já nascem meio que velhas, com uma aura de passadismo ou matéria requentada. Vejamos se consigo me explicar melhor. É que dificilmente vejo no rosto de quase todo mundo o impacto da novidade da vez, assim como acontecia num passado não tão remoto. O surgimento da inteligência artificial parece ter sido a gota d’água. Eu mesmo perdi bastante a minha propensão a me surpreender com certas coisas novinhas em folha. O progresso deu um salto tão grande, tanta coisa se modernizou da noite para o dia, que dificilmente nos admiramos com o novo.

No meu tempo de criança neste cafundó, de adolescente e rapazinho, por exemplo, as coisas recém-lançadas tinham mais gosto e cheiro de inovação, de ineditismo e descoberta. Agora estamos meio que insensíveis, quase ninguém fica assombrado, estarrecido ou deslumbrado com os lançamentos que pipocam diariamente em toda parte, principalmente no universo dainternet. O avanço estratosférico da internet, agora tão acessível como nunca, banalizou o tsunami de invenções que surgem a cada hora diante de nós. Observem isto: aminha vizinha da casa 30 passa uma parte do seu tempoconversando com uma tal de Alexa. No início imaginei que a senhora Cilene Freitas havia recebido uma visita. Depois, entretanto, notei que ela dava muitas ordens à suposta interlocutora. Então a ficha caiu.  Pois é, eu estava por fora dessa escrava tecnológica. Foi a primeira vez queo nome Alexa chegou aos meus ouvidos.

Até eu próprio, que me considero um indivíduo fora de moda, estou a par de uma porção de modernidades de que jamais imaginei usufruir. O tal do pix, que ora menciono para citar um recurso que chegou mais recentemente à minha caixa de ferramentas sociais, é algo que me surpreendeu de maneira positiva. Embora o homem mau dos Estados Unidos, segundo eu soube por meio de vários canais de informação, esteja querendo tirar de nós brasileiros. Mas o pix, feito o petróleo, é nosso e o boi não lambe! Que o homem mau da América do Norte vá cuidar de sua cozinha.

Tenho a forte impressão de que o planeta se transformou em uma esfera high-tech. A caneta e os cadernos da literatura foram banidos do meu (nosso) cotidiano. Não escrevo nem reescrevo de próprio punho como antigamente. Assim eu enviava para publicação na imprensa meus textos em prosa e verso, com caligrafia caprichada e memorizada por conta da repetitiva escrita manual. Não demorou a chegar às minhas mãos uma sofisticada máquina de datilografar. Aquilo foi um alumbramento para este escrevinhador de fim de mundo. Tratava-se de uma Olivetti Linea 88. Esse avanço na minha atividade redacional foi possibilitado graças ao publicitário Rogério Dias, que em tempos outros foi donode uma escola de datilografia. Graças a Rogério, pois, que dispunha de algumas dessas máquinas em perfeitas condições de uso, fiz um curso ao pé da letra e me tornei, modéstia à parte, um digitador de razoável competência.

Depois entrei na era dos computadores. Agora digito estas linhas com os dez dedos sem olhar para o teclado. Perdoem outra vez a imodéstia. No mais, devido à velocidade com que a tecnologia avança a cada dia, várias coisas vão se tornando velhas novidades. À maneira destesofrido notebook, que atualmente se arrasta (se não me engano na conta) com dezoito anos de bons serviços prestados.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

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