Por Marcos Ferreira
Percebo que hoje em dia algumas novidades (tantas, aliás) já nascem meio que velhas, com uma aura de passadismo ou matéria requentada. Vejamos se consigo me explicar melhor. É que dificilmente vejo no rosto de quase todo mundo o impacto da novidade da vez, assim como acontecia num passado não tão remoto. O surgimento da inteligência artificial parece ter sido a gota d’água. Eu mesmo perdi bastante a minha propensão a me surpreender com certas coisas novinhas em folha. O progresso deu um salto tão grande, tanta coisa se modernizou da noite para o dia, que dificilmente nos admiramos com o novo.
No meu tempo de criança neste cafundó, de adolescente e rapazinho, por exemplo, as coisas recém-lançadas tinham mais gosto e cheiro de inovação, de ineditismo e descoberta. Agora estamos meio que insensíveis, quase ninguém fica assombrado, estarrecido ou deslumbrado com os lançamentos que pipocam diariamente em toda parte, principalmente no universo dainternet. O avanço estratosférico da internet, agora tão acessível como nunca, banalizou o tsunami de invenções que surgem a cada hora diante de nós. Observem só isto: aminha vizinha da casa 30 passa uma parte do seu tempoconversando com uma tal de Alexa. No início imaginei que a senhora Cilene Freitas havia recebido uma visita. Depois, entretanto, notei que ela dava muitas ordens à suposta interlocutora. Então a ficha caiu. Pois é, eu estava por fora dessa escrava tecnológica. Foi a primeira vez queo nome Alexa chegou aos meus ouvidos.
Até eu próprio, que me considero um indivíduo fora de moda, estou a par de uma porção de modernidades de que jamais imaginei usufruir. O tal do pix, que ora menciono para citar um recurso que chegou mais recentemente à minha caixa de ferramentas sociais, é algo que me surpreendeu de maneira positiva. Embora o homem mau dos Estados Unidos, segundo eu soube por meio de vários canais de informação, esteja querendo tirar de nós brasileiros. Mas o pix, feito o petróleo, é nosso e o boi não lambe! Que o homem mau da América do Norte vá cuidar de sua cozinha.
Tenho a forte impressão de que o planeta se transformou em uma esfera high-tech. A caneta e os cadernos da literatura foram banidos do meu (nosso) cotidiano. Não escrevo nem reescrevo de próprio punho como antigamente. Assim eu enviava para publicação na imprensa meus textos em prosa e verso, com caligrafia caprichada e memorizada por conta da repetitiva escrita manual. Não demorou a chegar às minhas mãos uma sofisticada máquina de datilografar. Aquilo foi um alumbramento para este escrevinhador de fim de mundo. Tratava-se de uma Olivetti Linea 88. Esse avanço na minha atividade redacional foi possibilitado graças ao publicitário Rogério Dias, que em tempos outros foi donode uma escola de datilografia. Graças a Rogério, pois, que dispunha de algumas dessas máquinas em perfeitas condições de uso, fiz um curso ao pé da letra e me tornei, modéstia à parte, um digitador de razoável competência.
Depois entrei na era dos computadores. Agora digito estas linhas com os dez dedos sem olhar para o teclado. Perdoem outra vez a imodéstia. No mais, devido à velocidade com que a tecnologia avança a cada dia, várias coisas vão se tornando velhas novidades. À maneira destesofrido notebook, que atualmente se arrasta (se não me engano na conta) com dezoito anos de bons serviços prestados.
Marcos Ferreira é escritor
























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