Não é fácil montar esse quebra-cabeça oligárquico do Rio Grande do Norte, sobretudo quando se chega ao clã Rosado. Lembra os Buendia do romance "Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez, com uma árvore genealógica intrincada. Mossoró é um pouco a "Macondo" dessa ficção.
Afimo sem exagero: desde que trabalho com essa matéria-prima – o jornalismo político, a reportagem em epígrafe é o que saiu de melhor sobre o tema na chamada Grande Imprensa. Detalhista, didático, jornalisticamente denso e clarividente à maioria das pessoas, mesmo os potiguares.
Até entre os mossoroenses, é complexa a compreensão quanto a nomes, sobrenomes, siglas e interesses em jogo no ambiente movediço e inóspito da política oligárquica.
De saída, muitos ouvem e poucos conseguem entender o que seja "oligarquia".
Desde a antiguidade, quando o homem começou a se organizar e balbuciar o vocábulo política, que oligarquia representa uma forma "impura e degenerada" de governo, exercida por um pequeno grupo e por vezes num formato prioritariamente familiar. É o caso de Mossoró, que nas últimas décadas fechou a porta para qualquer outro nome não-Rosado ao exercício de mandatos públicos.
O filósofo Aristóteles, no célebre trabalho "A política", já tratava do tema com essa contundência.
É um sofisma a pregação da governadora Rosalba Ciarlini (Rosado), do DEM, legitimando esse atraso com o amparo do voto direto. Saddam Hussein ficou durante longos anos no poder no Iraque através do voto "popular", a ponto de ter quase 100% dos sufrágios em determinados pleitos. E daí? É democrático?
Neocoronelismo
Engatinhamos como democracia. Somos um simulacro de democracia. Como República, o atraso talvez ainda seja maior, com a prosperidade do nepotismo, do empreguismo como moeda eleitoral, a impunidade de corruptos e a balela do princípio de que "todos são iguais perante a lei".
A reportagem é consistente, porque também não se prende ao encolhe-estica das lutas paroquiais e às influências de interesses subalternos em sua confecção. Permite que tenhamos um entendimento cientificista do fenômeno da oligarquia urbana predominante no Rio Grande do Norte, espécie de neocoronelismo.
Desfiando o novelo com nomes, cargos, siglas, na mistura de parentes e aderentes, fica fácil entender nosso atraso social e econômico. Ele é inversamente proporcional à prosperidade de uns poucos.
Muitos transformaram o ente público num negócio privado. Num meio de vida familiar.
O problema não é ser Rosado, Maia, Alves, Melo, Faria, Marinho, Sousa etc. Ninguém deve também ser içado ao poder apenas por não ser Rosado, Maia ou Alves. Eles estão no topo por competência no jogo político, pela capacidade de adaptação e manipulação das peças desse tabuleiro.
O debate deflagrado pelo Congresso em Foco não é em cima de castas, açulando o enfrentamento entre famílias ou "casas" nobres, como na Idade Média.
Em questionamento está o modelo concentrador, que funciona como uma centrífuga, triturando tudo em sua volta para fazer desse moído a essência de um apartheid. A massa-gente, inculta e atoleimada, ainda assim imagina que é levada a sério.
Em nenhuma parte do mundo civilizado, hoje ou no passado, a oligarquia foi sinônimo de avanço à sociedade. Ela não se encorpa onde a democracia ganhou maior sustância, porque é exatamente o que Aristóteles desenhou a milênios: um atraso.

























