domingo - 06/09/2026 - 11:52h

A caderneta do fiado

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Dia desses, em diligências lá pela zona rural de Grossos, deparei-me com uma situação que há muito não presenciava. Eu estava em uma bodega à procura de informações sobre uma pessoa a ser intimada. Após alguns minutos, chegou um morador da comunidade e pediu um quilo de arroz ao proprietário do estabelecimento comercial. Ao receber a mercadoria, o freguês solicitou que a compra fosse anotada na caderneta, o que foi prontamente atendido pelo comerciante.

Confesso que fiquei surpreso, pois achava que esse modo de mercadejar, em virtude da modernidade dos dias atuais, com as compras sendo realizadas por meio de cartões de crédito ou PIX, não era mais usual. Era comum tempos atrás, principalmente, nas mercearias dos bairros mais afastados. Muitos clientes eram aposentados, os quais realizavam as suas compras para pagar quando recebiam o “aposento”. Tudo devidamente anotado na caderneta do dono da bodega, como na caderneta do comprador, pra que na hora de pagamento, feita a conferência, não houvesse erros.

Indaguei ao comerciante se ele tinha muito “fiado” em sua caderneta, e ele me respondeu que sim, a maioria dos seus fregueses ainda comprava na caderneta, pois não tinham cartão de crédito ou se tinham, já estavam devendo ao banco. Segundo ele, tudo era feito na base da confiança, no apalavrado, mas devidamente anotado na caderneta, é claro.

Conforme falou, somente não vendia na caderneta bebida alcoólica, pois “beber é luxo”, e só deve beber cachaça quem tem dinheiro no bolso, disse, sorrindo. Ele também me falou que raramente tinha problemas para receber o que lhe era devido. A maioria era moradores que há muito residiam no local, muitos eram familiares ou amigos de longa data. Apesar de humildes, eram arrimos de família e cumpridores da palavra empenhada. Ali, naquela pequena comunidade rural, e acredito que em muitos lugares deste país, ainda convivem o presente e o passado.

Ao terminar o bate-papo e sair da bodega, encontrei alguns “papudinhos” sentados na calçada; um deles pediu uns trocados pra “tomar umas”. Dei-lhe os vinte reais que tinha no bolso. Ele agradeceu, mas me alertou, com um leve sorriso: “na próxima vez traga cinquenta reais”. Eu entrei no carro e fui embora, morrendo de rir.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica

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