domingo - 06/09/2026 - 11:00h

O conto

Por Bruno Ernesto

Foto, do autor da crônica, mostra o túmulo monumental de Jean-Jacques Rousseau, na cripta do Panthéon de Paris

Foto, do autor da crônica, mostra o túmulo monumental de Jean-Jacques Rousseau, na cripta do Panthéon de Paris

O meu xará e psicólogo austro-americano, Bruno Bettelheim, permanece lembrado pela sua psicanálise dos contos de fadas.

Para os desavisados, a presença da violência quase brutal e dos tabus em suas obras, talvez seja um limite moral e psicológico intransponível.

Porém, ele utilizava essas abordagens como forma da criança enfrentar seus próprios medos, muitas vezes buscando as origens de problemas, fazendo com que enfrente e supere os obstáculos.

Se você observar, a violência atrai tanto o adulto quanto as crianças.

Para alguns adultos, notícias violentas apresentadas de forma explicita e torrencial nas redes sociais são fascinantes.

Para as crianças, o lobo mau dos Irmãos Grimm, ou a Cuca do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, significam a mesma coisa.

Entre um balanço e outro na cadeira, alguém lhe olha em riste e pergunta sobre famoso pensamento de Rousseau, de que é a sociedade quem corrompe o homem.

Confesso que me indaguei silenciosamente enquanto me pus em frente ao seu túmulo no Panteão, mas recorro a um conto para refletirmos sobre esta questão:

Certo dia, o Diabo observava um belo cavalo que estava amarrado no estábulo. Foi lá e o soltou.

O cavalo pisoteou o jardim do vizinho e enquanto comia as flores, o vizinho atirou e o matou.

Em seguida, o dono do cavalo, para vingar a sua morte, matou os filhos do seu vizinho, que adoravam brincar com aquele cavalo.

Em seguida. , o próprio vizinho foi morto pelo vizinho, pai das crianças que, arrependido, tirou a própria vida; mas não sem antes perguntar ao Diabo – que assistia a tudo aquilo se balançando numa cadeira – o porquê ele tinha feito aquilo tudo, se antes todos viviam em paz e harmonia.

O Diabo sorriu, enquanto se balançava na cadeira, e questionou:

— Como assim, o que eu fiz?

— Eu apenas soltei o cavalo.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica

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