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domingo - 11/06/2017 - 15:56h
A trilha do cangaço

Cidades guardam marcas da passagem de Lampião no RN

Reportagem especial mostra o caminho percorrido por cangaceiro e seu bando até ataque a Mossoró

Por Ivanúcia Lopes e Hugo Andrade (G1RN)

O povo falava que Lampião tinha passado por aqui e tinha umas armas guardadas…”. Foi assim que dona Ilma de Oliveira começou a contar a história que sempre ouviu dos mais velhos. A senhora de cinquenta e poucos anos mora na casa que serviu de apoio aos cangaceiros em 10 de junho de 1927.

Naquele dia de madrugada Lampião e seu bando entravam em terras potiguares. Eles chegaram pela Paraíba, cruzaram a divisa dos estados e apearam-se bem na casa onde dona Ilma criou os três filhos. A estrutura é quase a mesma: paredes largas, teto alto, tornos de madeira e caritós para guardar objetos. “Até um tempo desse os familiares do antigo dono ainda vinha aqui olhar e recordar”, conta.

A casa que fica no sítio Baixio, no pé da Serra de Luís Gomes, pertencia a familiares dos cangaceiros Massilon Leite e Pinga-fogo. Massilon era ‘os olhos e ouvidos’ do líder pelas bandas do sertão potiguar. Era ele o responsável por guiar os homens do cangaço no plano de atacar a cidade próspera de Mossoró.

Foi nessa casa que Lampião se abrigou ao entrar no RN em 1927 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

A recepção durou pouco. Quando amanheceu os cangaceiros se embrenharam na caatinga. Galoparam por veredas, saquearam fazendas e fizeram prisioneiros. Na Fazenda Nova, onde hoje é o município de Major Sales, até o padrinho de Massilon, coronel Joaquim Moreira, foi sequestrado. Na fazenda vizinha de Aroeira, onde hoje é a cidade de Paraná, eles fizeram mais uma refém: a senhora Maria José foi levada pelo bando que seguia despistando a polícia e invadindo propriedades.

“A passagem do bando de Lampião pelo RN está qualificada como banditismo, pois tem casos de assalto, assassinato e uma novidade que até então não tinha aqui que era o sequestro”, explicou o pesquisador Rostand Medeiros que já fez o mesmo trajeto de Lampião no RN algumas vezes. “Depois desses ataques na manhã do dia 10, o bando continuou subindo e praticando todo tipo de desordem”, lembrou.

Para seguirem sem alardes os cangaceiros evitavam a passagem por centros urbanos mais desenvolvidos e desviavam de estradas reais, aquelas por onde passava o gado e o movimento era maior. O objetivo era evitar confrontos para não desperdiçar munição e nem perder homens, já que ainda tinha muito caminho até Mossoró.

Mapa mostra o percurso feito por Lampião em terras potiguares (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Mais ataques

Na tardinha do dia 10 de junho de 1927 o grupo chegava na Vila Vitória, território que hoje pertence ao município de Marcelino Vieira. No povoado ainda é possível encontrar casas remanescentes da época, e algumas até com sinais da violência praticada pelo bando. Na casa de dona Maria Emília da Silva, por exemplo, eles deixaram marcas de boca de fuzil. Era comum bater com as armas na madeira para assustar os donos da casa. “Eles só foram embora quando viram o retrato de Padre Cícero. Onde tinha retrato de Padre Cícero ele não fazia nada”, contou.

Na comunidade vizinha os cangaceiros saquearam a casa onde mora dona Terezinha de Jesus. A casa é antiga, do ano de 1904, mas ainda mantém a estrutura da época. A aposentada conta que o pai avistou de longe quando o bando chegava, mas não teve tempo de fugir. Na casa, eles procuraram joias, armas e dinheiro.

“Eles iam a cavalo e armados. Papai dizia que para montar era um serviço grande porque estavam pesados com armas”, disse Dona Terezinha ao mostrar o quarto dos fundos onde ficam guardados os baús alvos dos cangaceiros. “Deixavam as roupas tudo no chão. Jogavam tudo atrás de dinheiro. Aí dinheiro não tinha. Naquela época era difícil, né? Mas se achassem podiam levar. Era o que diziam”, contou dona Terezinha enquanto acendia a lamparina para mostrar os objetos preservados.

Depoimentos de testemunhas e vítimas da vila Vitória compõem o processo contra Lampião que tramitou na Comarca de Pau dos Ferros.

Em 1927 os pertences dos moradores eram guardados em baús (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Fogo da Caiçara: o primeiro combate militar

A notícia de que o bando estava invadindo propriedades na Vila Vitória mobilizou a força militar. A polícia juntou homens para enfrentar os cangaceiros. O combate aconteceu no local onde hoje é o açude de Marcelino Vieira. “Por conta da seca é possível ver exatamente onde ocorreu o primeiro combate militar contra a invasão do bando no estado. Essas plantas que estavam cobertas de água ainda podem testemunhar esse fato”, disse o historiador Romualdo Carneiro ao mostrar as marcas de tiros que ficaram nos pés de canafístulas.

Quando o combate começou a caatinga se acinzentou com a queima da pólvora dos rifles e espingardas dos dois grupos em guerra. O agricultor Pedro Felix ouviu o pai contar como foi: “Muito tiro. Muito tiro. Chega assombrava o povo que só pensava em fugir”.

O escritor Sergio Dantas, conta em seu livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, que o tiroteio durou trinta minutos. Os cangaceiros, em maior número e treinados na guerrilha da caatinga, puseram a frota militar ao recuo. No confronto morreram o soldado José Monteiro de Matos e um cangaceiro conhecido como Azulão.

O monumento atual fica próximo a capela onde é celebrada a tradicional missa do soldado (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Os moradores da região até hoje se referem ao soldado como sendo um herói. “Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.” contou seu Pedro ao apontar para os restos de tijolos do antigo monumento construído em homenagem ao soldado. “Era bem aqui que tinha uma cruz pra ele, mas quando fizeram o açude levaram lá pro outro lado”, explicou.

Ainda hoje o local onde está o monumento recebe visitações. Todo dia 10 de junho a figura do soldado é homenageada pelos moradores que fazem celebrações. A missa do soldado virou um evento no povoado.

Fim da festa, não do medo

Não demorou para o bando chegar ao povoado de Boa Esperança, local onde hoje é o município de Antônio Martins. O ataque aconteceu em frente a igrejinha da comunidade onde acontecia a festa de Santo Antônio. “Em vez de recepcionar a banda de música para a novena do padroeiro os devotos foram surpreendidos com a chegada dos cangaceiros que bagunçaram as casas, saquearam o comércio, quebraram melancia na cabeça do dono e acabaram com a festa”, contou o historiador Chagas Cristovão.

O ataque aconteceu no pátio dessa capelinha construída em 1901 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O principal comércio da época ficava ao lado da Igrejinha. O prédio ainda guarda as características de antigamente. Relatos dão conta de que na tarde do ataque o bando só foi embora depois que uma senhora implorou. “Atendendo ao pedido de Rosina Maria, que era da mesma terra de Lampião, o bando deixou o vilarejo e seguiu rumo a Mossoró.”, concluiu o historiador.

Mesmo depois que os cangaceiros se debandaram o medo permaneceu entre os moradores. Houve até quem fizesse promessa para não sofrer as maldades do bando. Hoje dá pra avistar no alto da serra, uma capelinha construída para agradecer a proteção.

O massacre

Eram altas horas da noite do dia 11 de junho quando o bando entrava na Vila de Lucrécia. Uma das casas invadidas na Fazenda Serrota continua preservada. Na janela estão as marcas de tiros e nas paredes os retratos daqueles que estiveram frente a frente com Lampião. “Quem morava aqui eram meus avós Egidio Dias e Donatila Dias. Eles amarraram Egídio Dias e levaram ele lá pro Caboré.”, contou o aposentado Raimundo Leite, que mora ao lado da antiga casa dos avós.

Caboré é um sítio que fica a poucos quilômetros da Fazenda. O prisioneiro teria sido levado por uma estrada de terra onde hoje é a RN 072. Os cangaceiros pediram dez contos de reis para poder soltar o fazendeiro. “Um grupo de mais de dez homens foi até lá pra tentar salvar Egídio, mas foi surpreendido por uma emboscada. Três homens acabaram mortos.”, relatou a pedagoga Antônia Costa.

No local do massacre foi construído um monumento em homenagem aos homens. Em Lucrécia eles são reconhecidos como heróis. “Todo dia 11 de junho tem programação na cidade em memória de Francisco Canela, Bartolomeu Paulo e Sebastião Trajano”, enfatizou a pedagoga.

Egídio Dias fugiu. Permaneceu várias horas no mato. Só depois que o bando foi embora ele conseguiu voltar para o convívio da família.

O bando seguiu desafiando a caatinga. Os rastros de destruição ficavam pelas propriedades. Na manhãzinha do dia 12 eles entraram na Fazenda Campos, onde hoje é território de Umarizal. Na casa grande, que estava abandonada pelos donos amedrontados, eles ficaram pouco tempo até pegarem a estrada de novo. Uma marcha que parecia não ter fim.

Horas depois eles chegaram ao povoado de São Sebastião, hoje Governador Dix Sept Rosado. “Meu pai conta que Lampião passou na Estação de Trem e fez muita bagunça. Aí o povo do sítio era tudo no mato com medo. Meu pai mesmo dormiu muitas noites no mato, com medo”, relembra seu Maurilio Virgílio, aposentado de 75 anos que hoje mora pertinho da Estação alvo dos ataques.

A estação foi alvo dos cangaceiros no povoado de São Sebastião (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Os cangaceiros ainda saquearam o comércio, queimaram os vagões do trem e destruíram o telégrafo. Mas antes disso, um agente da Estação conseguiu mandar uma mensagem para Mossoró informando que o bando estava a caminho.

Mossoró é alertada

Foi o tempo de Mossoró se preparar para a luta. E a cidade tava mesmo preparada. Quando receberam o recado que Lampião e seu bando estava por vir, autoridades e outras personalidades da época se uniram, chamaram os moradores e começaram a montar as estratégias de defesa. Essas pessoas que venceram o combate 90 anos atrás são conhecidos como heróis da resistência.

“Foi um feito heroico de um grupo de cidadãos e cidadãs, que se juntou pra defender a cidade. Quando eu olho para a resistência ao bando de lampião, eu não vejo uma individualidade, vejo um ato de cidadania, de coragem que esse grupo frente à sua vida, à sua cidade”, diz o historiador Lemuel Rodrigues.

Noventa anos depois, os resistentes já se foram, mas ficou o legado. Ter um herói na família é motivo de orgulho para muitos mossoroenses. Algumas figuras estavam na linha de frente e lideraram a defesa da cidade contra o bando de Lampião. Tenente Laurentino, por exemplo, organizou as trincheiras e montou o plano de resistência com o apoio dos civis, todos liderados pelo prefeito Rodolfo Fernandes.

Capela de São Vicente foi ponto decisivo da resistência de Mossoró em 13 de junho de 1927 (Foto: reprodução)

De acordo com os registros da época, o confronto entre os moradores e o bando de lampião durou cerca de quarenta minutos. Quase 170 homens participaram da defesa da cidade e ficaram espalhados em 23 trincheiras no centro de Mossoró. Uma delas teve papel fundamental para o sucesso do combate: a torre da capela de São Vicente que era o ponto mais alto de Mossoró. Do local, os resistentes tinham uma visão privilegiada. Três homens ficaram na torre e surpreenderam os cangaceiros.

“Manoel Félix, Tel Teófilo e Manoel Duarte eram os três homens que estavam no Alto da Torre. A partir daí, eles começaram a informar que os cangaceiros estavam vindo do lado de cá, na lateral da capela. E nesse momento, eles passam a ser revidados e deixam de ser atiradores para se tornarem alvos”, explicou o historiador Kydelmir Dantas,.

Os homens que ficaram lá em cima não foram atingidos, mas as marcas dos tiros ainda permanecem no alto da torre. A capela que serviu de trincheira e guarda um dos maiores símbolos do combate de 13 de junho de 1927, dia em que Lampião e seu bando bateram em retirada de Mossoró.

Veja vídeo dessa matéria clicando AQUI.

Nota do Blog – Da torre da Capela de São Vicente partiram os tiros que mataram o cangaceiro Colchete e feriram Jararaca, que foi capturado e depois executado.

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Categoria(s): Cultura / Gerais

Comentários

  1. João Claudio diz:

    Dando uma espiada na NET, deparei-me com o blog cearense ”Seminário Cariri do Cangaço”.

    Dentre tantas matérias sobre o cangaço, eu li ”O Trucidamento de Jararaca em Mossoró”, escrito por Romero Cardoso.
    Entre os comentários (no final da página) o comentário do historiador Alex Pereira em resposta a um comentarista mossoroense me chamou a atenção.

    Leiam.

    Anônimo disse…

    Ao ilustre nativo de Mossoró “José Mendes Pereira”:

    Meu caro, não entendo por que tamanha indignação da vossa parte com o destino do cangaceiro jararaca!!! Um bandido facínora que adentrou a Mossoró disposto a fazer toda maldade e selvageria possível, e pensar que esse enviado do inferno virou santo e é adorado por muitos (inclusive mossoroenses) que fazem de seu túmulo objeto de adoração e peregrinação para (pasmem) agradecerem graças alcançadas, enquanto o “Verdadeiro Herói da Resistência de mossoró” o prefeito Cel. Rodolfo Fernandes segue esquecido e tem seu tumulo em total abandono e em ruínas e sua memória quase apagada da história da cidade. Corajoso Cel Rodolfo Fernandes, este sim, deveria ser carinhosamente homenageado pela população de Mossoró. Lamentável a desastrada inversão de valores onde o bravo homem a serviço do bem e da lei é esquecido, e um facínora, bandido e sanguinário é exaltado como se fosse um santo!!!

    Alex Pereira – Historiador

    Endereço para acessar o blog ↓

    //cariricangaco.blogspot.com.br/2010/06/o-trucidamento-de-jararaca-em-mossoro.html

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    Comentário de João Claudio:

    O povo de Mossoró transformou um bandido em herói, em ídolo.

    Ninguém ouve falar de Rodolfo Fernandes. Milhares não sabe nem quem foi, e só pronunciam o seu nome quanto se referem à praça que leva o seu nome.

    Porém, TODOS sabem de cor e salteado quem foi Lampião.

    Essa adoração dos mossoroenses pelo bandido, já serviu de chacota para muita gente de outros estados. Já foi matéria em grandes veículos de comunicação.

    Quanto mais o tempo passa, mais o bandido é idolatrado. Caiu na graça do povo.

    Caso acessem o blog, não deixem de ler o comentário de ”Cardoso Veras”. Ele diz que Lampião veio a Mossoró para matar o prefeito Rodolfo Fernandes, a pedido de uma tradicional família de Mossoró.

    Leia o comentário e saiba quem é essa família.

    Eu, heim?

    Ah, leia também o comentário de ”Mendes e Mendes” que deu origem à resposta do historiador Alex Pereira.

  2. naide maria rosado de souza diz:

    O historiador Kydelmir Dantas é o um dos grandes nomes da cultura nordestina, por quem tenho enorme apreciação e o prazer de conhecer. Conversar com ele é uma espécie de bênção, dádiva. A fala de Kydelmir é fonte de riqueza.

  3. marcelo silva diz:

    Não me venham com esta de que o povo de Mossoró é tolo, ou coisa assim…Quem era o grande fã de lampião no ceará ? (Padre Cícero), inclusive o acoitava naquele estado, e este cangaceiro era devoto do Padre Cícero. Os bandidos não eram somente os cangaceiros, e sim os coronéis que exploravam o agricultor nordestino, a polícia também as vezes era pior que os cangaceiros, e por que estes também não eram julgados pela sociedade/justiça? O verdadeiro herói de Mossoró foi cada combatente que estava na trincheira e não Rodolfo Fernandes, lógico que esta teve um grande papel…

  4. carlos alberto de almeida diz:

    NInguém comenta da cortada de caminho que o Virgulino Ferreira deu com medo de passar por Caraùbas, pois lá tinha um senhor muito bravo e justo o famoso apelidado de gato vermelho:Quinca saldanha: Eita cabra macho botou o Lampiãopara correr…….

  5. João Claudio diz:

    Gato Vermelho, foi?

    Mas homi, eu imaginava que, quem botou Lampião pra correr foram os Carneiros.

    Marcelo, o povo de Mossoró é chamado de tolo, porque adotaram Lampião como ”O Meu Bandido Preferido”, e

    pelo fato de Mossoró ser a unica cidade do brasil onde os bandidos cangaceiros são festejados.

    O brasil todo sabe disso.

    É fato, viu?

    • Dyego diz:

      Mas a apreciação de bandidos por parte do povo faz parte da cultura nordestina. Veja o amor dos nordestinos por Luiz Inácio Lula da Silva.

  6. Archimedes Marques diz:

    A história de Lampião, apesar dele ter sido um atros bandido, é a grande história do nosso Nordeste, dos nossos sertões…
    Sou delegado de polícia em Sergipe, pesquisador e escritor do tema cangaço, Conselheiro do Movimento Cariri Cangaço… Meu mais recente livro LAMPIÃO E O CANGAÇO NA HISTORIOGRAFIA DE SERGIPE está à disposição de todos vocês que quiserem saber algo mais dessa história ocorrida no estado de Sergipe, para tanto solicito que o meu endereço de e-mail seja divulgado para contato: archimedes-marques@bol.com.br

  7. Anne diz:

    Aqui a história que meu avô contava bate perfeitamente com o texto. Fico muito feliz.

  8. Na rota do cangaço diz:

    Material Fantástico. parabéns a todos pelo belíssimo trabalho.

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