domingo - 24/05/2026 - 15:38h

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Por Bruno Ernesto

Peça “A Invenção do Nordeste”, Grupo Carmin, Teatro Lauro Monte Filho Foto: Bruno Ernesto, 14/05/2026)

Peça “A Invenção do Nordeste”, Grupo Carmin, Teatro Lauro Monte Filho (Foto: Bruno Ernesto, 14/05/2026)

Todo palco teatral é, e sempre deve ser, um espaço sagrado, livre de mordaças, instigador, contestador, incitador, revolucionário e, sobretudo, acolhedor.

Arte que é arte, deve provocar os melhores e piores sentimentos em nós. Nisto reside a sua essência.

A maturidade de um povo se mede também pelo alcance da arte. A identidade e memória de um povo passa pela cultura; arte, literatura, cinema e teatro.

A arte pode ser o remédio para muitos males e mazelas, muito embora seja necessário reconhecer que ainda precisamos avançar muito para que ela seja e esteja, de fato, ao alcance de todos.

O apoio à cultura deve ter mão dupla, incentivar e apoiar tanto quem produz quanto quem a consome, num verdadeiro processo simbiótico, pois não podemos criar, permitir ou manter um abismo estrutural, geográfico e econômico, de modo a impedir o seu pleno acesso. Na cultura não deve existir elite.

Neste ponto, é dever do poder público manter uma política cultural permanente, especialmente para os artistas locais os quais, muitas vezes são os primeiros a nos apresentar a face viva da arte e cultura, porém são injustamente preteridos. É um paradoxo.

Tomemos como exemplo o que a Noruega estabeleceu como política de incentivo cultural, ao exigir que toda cidade mantenha um teatro, mínimo que seja, de modo a garantir o acesso da população local a grande parte os espetáculos, o que fortalece tanto os grupos teatrais locais quanto a própria comunidade, que tem acesso fácil aos espetáculos.

Uma coisa se interliga com outra. Se há um evento cultural, toda a cadeia econômica local se beneficia instantaneamente.

E isso reflete diretamente em outros campos da economia como, por exemplo, a redução da jornada de trabalho, renúncia de receita fiscal, valorização de espaços, busca por conhecimento cultural, dentre tantos outros aspectos.

Parece inatingível para nossos padrões, não é? Mas, e se fosse uma realidade?

A capilaridade cultural é extremamente importante e necessária para toda e qualquer política cultural, pois ninguém deixa de prestigiar o que está ao seu alcance, especialmente o livre acesso à cultura.

Assim, a inauguração ou reabertura de qualquer equipamento cultural é sempre motivo de comemoração, não só para a classe artista, mas para todos que fazem parte dessa engrenagem cultural, especialmente para o público, que sempre aguarda por bons eventos, com mais espetáculos, mais literatura, mais arte e mais lazer.

E é justamente o caso do Teatro Lauro Monte Filho que, após dezoito anos sem atividades, foi reaberto no último dia 14 de maio, e pelos próximos vinte anos abrigará o projeto Banco do Nordeste Cultural, ampliando a rede cultural na cidade de Mossoró/RN e região.

Foi emocionante assistir à sua retomada, ver aquele palco pulsar novamente, e saber que nele não deve haver neutralidade, lado A ou lado B, dualismo ou dicotomia, pois o torpor que ele proporciona é único, e tão democrático, que nele há espaço para Deus e para o Diabo – às vezes até ao mesmo tempo -, e ambos agradam à plateia.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM @ihgmossoro e curador do portal cultural marsertao.com @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica / Cultura

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