Por Marcelo Alves
Parte em resposta à fracassada “invasão da Baía dos Porcos” de 1961, parte em contrapartida à presença de mísseis balísticos norte-americanos na Europa (Itália e Turquia em especial), a “crise dos mísseis cubanos” foi um confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética, entre os dias 16 e 28 de outubro de 1962, relacionado à implantação de mísseis balísticos soviéticos em Cuba. Mais do que em qualquer outro momento, chegamos ali muito próximo de um confronto nuclear entre as superpotências da Guerra Fria. Resultado de tensas negociações, um acordo foi alcançado entre os líderes de então, John Kennedy e Nikita Kruschev, dando assim mais um prazo de validade à nossa civilização. Ufa!
Sobre a “crise dos mísseis”, o economista e diplomata (entre muitíssimas outras coisas) John Kenneth Galbraith, em “The Age of Uncertainty” (“A era da incerteza”, Pioneira, 1980), nos conta uma interessante história, que há de nos servir de lição (tenho ainda essa esperança).
Por essa época, “generais [e outros afoitos de ocasião] faziam discursos ameaçando os comunistas com o extermínio atômico”, lembra Galbraith. Conclamavam os americanos a embarcar na empreitada. E mostravam – pelo menos eles pensavam que sim – uma suposta coragem pessoal. Durante alguns dias angustiantes, a perspectiva de uma guerra nuclear – reciprocamente suicida, para dizer o mínimo – tornou-se clara e iminente.
Entretanto, como especialmente ressalta John Kenneth Galbraith, “algo mais evidenciou-se nessa crise, pelo menos para o Presidente dos Estados Unidos. Foi a de que homens de pouca coragem moral, quando se veem forçados a uma decisão, ficam com medo de resistir ao ponto de vista consagrado, não importando quão catastrófico ele possa ser. Assim, paradoxalmente, por covardia, com receio de divergir ou parecer fracos, eles concitam a tomar-se o curso mais perigoso. Durante a crise dos mísseis, foram esses homens que advogaram um ataque às bases de lançamento dos mesmos, no que chamaram de golpe cirúrgico. Ninguém poderia dizer que a eles faltasse coragem ou determinação, acusação essa que mais eles temiam. Os homens de coragem não comprometida – Adlai Stevenson, George Ball, Robert Kennedy – recomendaram comedimento, prudência. Ao voltar da Índia, alguns dias após o fim da crise, fui uma noite ao teatro com o Presidente e a Srª Kennedy. Durante o intervalo (…). Ele contou-me, com emoção, dos conselhos imprudentes que havia recebido no transcorrer da crise cubana. Os piores, asseverou, vieram daqueles que tinham medo de ser sensatos”.
Foi Karl Marx quem disse, desenvolvendo uma ideia de Hegel, que a “história se repete como farsa”. Para quem não sabe, Marx analisava como Luís Bonaparte, o Napoleão III ou Napoléon le Petit, assumiu o poder na França emulando o seu tio, Napoleão Bonaparte, dito le Grand, resultando assim em uma versão “farsesca” do original.
Por estes dias, em que se fecham caminhos já deveras estreitos e se ameaça exterminar civilizações, muito se tem de farsa – e de tragédia também, infelizmente. Eu só espero que, nesse novo teatro, em que não podemos mais contar com um poder civil de coragem não comprometida (os Kennedy, Stevenson e Ball da história), tenhamos generais prudentes que não se deixem lambuzar com os porcos.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL
























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