Por Júlio Rosado
Em qualquer pequeno circo itinerante, creio que para evitar custos e pela própria escassez de talentos artísticos para executar algumas funções, vemos que atividades de naturezas diversas são assumidas por uma mesma pessoa. Assim é que a moça dos malabares poderá ser a mesma que se arrisca no trapézio e vende maçãs caramelizadas. O dono do circo é quem anuncia o espetáculo e vende ingressos. O mágico, por sua vez, se dispõe a ser, concomitantemente, o atirador de facas, enquanto o palhaço se presta a pilotar no globo da morte. Todos se alternam e se ajudam vendendo pipocas e algodão doce ou fazendo parte da equipe de manutenção.
Reconhecidamente, o ofício da arte circense é uma atividade que envolve famílias e, nestas, suas descendências. Ser de circo é assimilar o glamour, vivenciando tanto a fartura quanto a escassez, no imprevisto do momento. É estar disposto a levar ao público o melhor do entretenimento, mesmo se a própria alma estiver dilacerada. O artista sabe que o show não pode parar.
No caso de Claudino, sabemos que ele não nasceu no circo. Foi assimilado como parte da trupe aos seis anos de idade após sua mãe, Fátima, se juntar ao grupo por se envolver romanticamente com o ‘Palhaço Panelinha’. Para ela, à época mãe solo e faxineira ocasional nas casas alheias, o mundo circense pareceu a solução mais viável para fugir da rotina tediosa e carente que vivenciava. Com o padrasto, o pequeno Claudino aprendeu facilmente as técnicas de fazer rir e logo se tornou ‘escada’ para as situações de humor no picadeiro. Ainda criança, seu ponto alto era o encerramento das apresentações, ao repetir o bordão ‘… e o palhaço o que é?’, apontando para o padrasto e ouvindo da plateia, como resposta, um sonoro ‘… é ladrão de mulher’.
Além da posição no circo, o enteado de ‘Panelinha’ herdou a derivação torta de seu nome de ‘clown’, ’Canelinha’, e o latente estilo mulherengo daquele que é ‘ladrão de mulher’. Desde o fim de sua adolescência, era comum flagrá-lo por trás das lonas se agarrando com as jovens mais salientes dos lugarejos onde se apresentavam. Aquele comportamento era uma constante preocupação para a mãe, que precisava amenizar a ira dos pais ou companheiros aborrecidos com as investidas do rapaz. Tantas namoradas até faziam parecer que ‘Canelinha’ seria filho biológico de ‘Panelinha’. Ambos cultivaram semelhança e cumplicidade em muitas coisas.
Fátima sentiu alivio em seu coração ao perceber que o filho se interessara por Gizelda, que recentemente migrara com o irmão, o fenomenal mágico Rodan, de um outro circo concorrente para se agregar à nova formação. A bela, além de pilotar no globo da morte e ser habilidosa como maquiadora, se dispunha a fazer ‘escada’ para o palhaço ‘Canelinha’, que lhe o nome artístico ‘Gizdecêra’, em referência a seu próprio nome, sugerindo um conceito lúdico, quase pedagógico, a sua persona.
O possível relacionamento do filho com alguém do métier deu tranquilidade a Fátima. De certo modo, temia que sua história viesse a se repetir e o filho aparecesse com uma companheira de fora daquele universo particular. Ela sabia o quanto foram extenuantes as provações diárias de resiliência a que fora submetida durante o processo de adaptação para ser aceita na trupe. Contudo, sua maior preocupação era com a possibilidade real de uma tragédia, o que poderia acontecer caso o filho viesse a se envolver com alguma mulher comprometida. Afinal, influenciado pelo padrasto, Claudino cresceu estimulado a se imaginar, naturalmente, como o próprio ‘ladrão de mulher’. Fátima sabia que isso poderia significar um grande problema para o filho.
Considerando a boa lábia como uma de suas características, ‘Canelinha’ era o escolhido para negociar, com os administradores municipais, as permissões necessárias para instalação e apresentações do circo. Desenrolado, conhecedor das vaidades humanas, após acertar as taxas administrativas, Claudino sempre tinha a iniciativa de doar uma volumosa remessa de ingressos para que se fizesse a distribuição entre alunos das escolas públicas.
Com este gesto, além de agradar os gestores, garantia a ocupação das cadeiras e arquibancadas do circo nos dias iniciais. ‘Canelinha’ tinha convicção de que a presença de muitas pessoas, tal como os espetáculos, atrai mais pessoas para o circo. Casa lotada é a maior propaganda que existe, dizia.
Quando o filho foi negociar a permanência do circo na cidade de Lagoa das Seriemas, a mãe de Claudino teve o cuidado de pedir a ‘Gizdecêra’ para acompanhá-lo. É certo que queria aproximá-los, mas havia um outro motivo para a solicitação: Fátima tinha forte intuição, desde quando ‘Panelinha’ desempenhava essa função em anos anteriores, que Lindaura, mulher do paradoxalmente simpático e truculento Prefeito Éder, se insinuava aos visitantes. Com ciúmes acumulados e precauções em relação ao filho, a presença de Gizelda serviria para conter os avanços da primeira dama.
Atendendo ao pleiteado por Fátima, a pretensa nora demonstrou entender a gravidade da situação e sugeriu que, aproveitando para divulgar, ambos fossem vestidos de palhaços. Acreditava que, estando caracterizados, inibiriam a libido da ‘Linda de Éder’. A decisão, entretanto, viria a se confirmar um erro de interpretação. Ao chegaram ao gabinete municipal, Lindaura fez questão de estar presente ao lado do marido Prefeito para recebê-los e logo se posicionou com os visitantes, passando boa parte da manhã tirando fotos, abraçando e se pondo entre ‘Canelinha’ e ‘Gizdecêra’.
Fã assumida das artes circenses, ao ver a dupla Claudino e Gizelda caracterizados, a Primeira Dama sentiu aflorar um fetiche até então pouco percebido. Devido ao furor que tomou de conta de suas atitudes, Lindaura quase não conseguiu disfarçar o desejo, a muito custo reprimido. A realidade estava à sua frente. Haveria de se compor para não comprometer sua imagem perante a cidade.
No íntimo, a mulher do Prefeito já planejara o que iria fazer para dar vazão a seus instintos. Após a estreia do circo, assistiria a todas as apresentações da primeira semana de exibições. Em algum momento conseguiria o encontro que saciaria seu desejo. Teria que dar certo. Nada a impediria de tomar sua decisão. Lindaura sabia que um outro circo demoraria a aparecer na cidade. ‘Teria que dar certo’, repetia inconscientemente. A excitação se apossava de seus pensamentos. Um leve frenesi, do seu corpo.
Éder já percebera que a mulher ficava agitada quando um circo visitava a cidade, mas nunca se preocupou com isso. Certamente, a situação se devia à ansiedade de morar em uma cidade pequena, sem opções para concorrer com a magia do circo. Ademais, é sabido que a violência é uma característica sua. A mulher não se arriscaria a ser pega em uma aventura amorosa e ninguém teria coragem de encostar na ‘Linda’.
Todavia, o que despertou a atenção do Prefeito foi ouvir, no encerramento do encontro, ‘Gizdecêra’ empolgada, apontando para ‘Canelinha’, repetir o bordão ‘… e o palhaço o que é?’, recebendo a animada resposta de Lindaura: ‘… é ladrão de mulher’. A cena inusitada lhe pareceu mais do que coincidência. A partir desse instante, observaria o comportamento da companheira. Qualquer coisa, os ‘meninos’ da segurança dariam um ‘corretivo’ no incauto que se insinuasse para sua venerada primeira dama.
Naquela semana, a pretexto de acompanhar os estudantes, Lindaura forçou visitas diárias aos bastidores do circo sob a desculpa de despertar-lhes o interesse pelas artes. Coube a Gizelda guiar esses grupos, dando atenção à ‘Linda’, que aguardava uma oportunidade para dar vazão a suas fantasias. Insistiria até conseguir.
O Prefeito Éder, que ouvira rumores, não poderia ser imprudente. Reconhecia a grande projeção de Lindaura sobre o eleitorado, a maior responsável por suas vitórias. Sua empatia com o público era algo natural e o povo votaria em qualquer candidato que ela indicasse. Decidiu, então, que nada faria enquanto não ocorresse nada que o afetasse. Na quinta-feira à noite, porém, duas horas após encerrar a última exibição, recebeu a informação de que a esposa não retornara ao lar.
De imediato convocou seus capangas e determinou que encontrassem o Palhaço atrevido. ‘Não tenham dó. Podem quebrar as canelas do ‘Canelinha’. O importante é resgatar a primeira dama’.
No início da madrugada, o Prefeito chega ao circo para conferir o motivo da demora em ter suas ordens cumpridas. Recostada num velho baú, Fátima chora, silenciosamente, com o filho espancado em seu colo, numa cena que remete à escultura ‘Pietá’, de Michelângelo. Os seguranças, procurando a ‘Linda de Éder’ quebram tudo no trailer que Claudino dividia com a mãe. O silêncio e a culpa imperam no ambiente.
Do lado de fora da habitação uma pequena multidão se avoluma em busca de saber o que estaria ocorrendo. Claudino, entre um suspiro e um urro de dor, balbucia algo de modo quase inaudível. Éder se debruça sobre sua vítima para ouvir melhor. Demorando para entender, escuta que ‘o show não pode parar’. Ansioso, pergunta por sua ‘Linda’ e ouve do palhaço, com uma lágrima escorrendo pelo rosto: ‘Gizdecêra’.
Solenemente, o mágico Rodan se aproxima de Éder e lê o bilhete em que a irmã confidencia ter encontrado seu grande amor em Lindaura. Elas partiram resolvidas numa das potentes motos do globo da morte para construir vida nova em outro circo. Ao ouvir o que o mágico falara, Claudino, com a boca ensanguentada, corpo dolorido da surra que levara, sorri e chora simultaneamente para, apontando o fraturado dedo indicador para Éder, o violento marido abandonado, repetir o bordão: ‘…e o palhaço o que é?’
Júlio Rosado (@juliorosado.escritor) é escritor
























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