domingo - 19/07/2026 - 09:48h

Negar o humano que há em nós

Por Honório de Medeiros

Jorge Luis Borges (Foto: Reprodução Web/Sem identificação de autoria)

Jorge Luis Borges (Foto: Reprodução Web/Sem identificação de autoria)

Lidar com as pessoas exclusivamente a partir do filtro ideológico é pobreza de espírito.

Ideologia é um conjunto de valores que cada um construiu para si.

Valores são relativos.

Uma ideologia imposta é a negação do humano que há em nós. Argumentar, persuadir, convencer, sim; impor, manipular, nunca.

Negar o humano que há em nós é próprio do pensamento totalitário, seja de esquerda ou direita, e contra tudo quanto a humanidade construiu de relevante ao longo do processo civilizatório.

Construção que permitiu nossa sobrevivência enquanto espécie, desde as eras mais antigas, quando éramos caçadores-coletores, graças à cooperação…

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in “A Cifra” (Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica

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