domingo - 20/09/2026 - 08:14h

O homem que nunca impõe

Por George Macedo Heronildes

Elder Heronildes faleceu aos 92 anos (Foto: Reprodução/Acervo familiar)

Elder Heronildes faleceu aos 92 anos (Foto: Reprodução/Acervo familiar)

Exmo. Sr. Presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL), Professor Diógenes da Cunha Lima, por intermédio de cuja autoridade, cumprimento a todos os membros desta Academia.

“In memoriam”, cumprimento os amigos Vingt-Un Rosado e Dorian Jorge Freire (com os quais, hoje, papai, se confraterniza alegremente).

Respectivamente, as minhas queridas mãe, Zélia Macedo Heronildes, e esposa, Andréa Holanda Heronildes, por intermédio de cujas pessoas cumprimento a todos os demais familiares e amigos.

Exmo. Sr. Desembargador Manoel Onofre Júnior, membro desta Academia, a quem cumprimento agradecendo a belíssima oração proferida em homenagem ao meu estimado pai, Elder Heronildes.

Minhas Senhoras, meus Senhores.

“O HOMEM QUE NUNCA IMPÕE, SIM PROCURA CONQUISTAR”

Por conta dos problemas de saúde, que começaram, mais seriamente, a acometer o meu pai nos últimos tempos, passei a ir com bastante assiduidade a Mossoró.

De vez em quando, sozinho, tarde da noite, sentava-me na cadeira giratória dele, no escritório da casa e ficava olhando os objetos que, lá, ainda, se encontram, dentre os quais, no birô, representativamente: sua primeira máquina de escrever; seu computador, a cujo emprego já aderira; um porta-canetas; uma lupa, que, por conta da visão prejudicada, o auxiliava nas leituras e alguns livros sobrepostos entre si. Pendurados na parede frontal (sob a ótica de quem entra), ladeando o janelão que se abre para o jardim da casa, os retratos dos seus pais (o Velho Darico e Dona Tita) e dos sogros (Francisco Macedo e Maria Lopes de Macedo).

Na parede lateral direita, enfileirados, os retratos dos respectivos irmãos (Elpídio, Eudes, Nias, Puca, Epitácio, Laura e Dita), além de medalhas e comendas. Nas outras duas paredes, as estantes com os livros e alguns banners em sua homenagem, dentre os quais, um deles, (idealizado pelo Lions Club Mossoró – Centro), chamou-me a atenção pelos dizeres: “O HOMEM QUE NUNCA IMPÕE, SIM PROCURA CONQUISTAR”.

É, em apenas oito palavras, o resumo da personalidade de papai. Adorne-as com alguns poucos substantivos da mesma natureza (pacificidade, serenidade e cordialidade) e eis Elder Heronildes.

A frase me descortinou a razão respeitante a determinados comportamentos dele acontecidos há muitos anos, conjugando-os com outros mais recentes.

Lembro-me que, há mais de 50 anos, determinado jornalista, cumprindo o dever da livre manifestação, criticava-o quase diariamente, no Jornal, onde escrevia e, contudo, papai, cotidianamente, ia visitá-lo para um cafezinho na dita empresa jornalística. Mamãe admoestava: “Elder, não sei como você suporta fazer isso!” E eu ficava pensando: deveras … qual o motivo? Parecia-me contraditório.

Mas, então, passei a comparar com outras atitudes dele, dentre as quais, cito mais esta: papai sempre foi defensor de um lado partidário político na Cidade. Todos sabem, até porque participava das campanhas e discursava nos palanques e trios-elétricos. Certa feita, passada a eleição e sagrando-se eleito o candidato por nós apoiado, eis que, no comício da vitória, ele resolveu colocar no próprio automóvel duas bandeiras: uma com a cor do nosso partido e a outra com a cor do partido adversário.

Novamente, mamãe admoestou: “Elder, você não está vendo que isto vai dar errado? No mínimo, quebrarão e arrancarão a bandeira adversa tão logo estacionarmos.” Foi, exatamente, o acontecido. Só isto, graças a Deus.

Dizia Gandhi: “Não há caminho para a paz, a paz é o caminho”.

Juntando esses e outros fatos, passei a entender: simplesmente, papai queria, pacífica, serena, cordial e, às vezes, transversalmente, conquistar a união de todos (sem exceção) em prol do bem comum. Um idealista, um sonhador.

Mas, como disse, de forma magistral, o Monsenhor João Medeiros Filho, ilustre membro desta Academia, em uma de suas últimas crônicas: “Sonhar pode não determinar o lugar ao qual iremos chegar, mas produz a força necessária para nos libertar da estagnação.” … “Sonhar faz parte da energia divina, latente na alma humana.”

Ao fim, para não cansar, cito a derradeira, por ser mais recente.

Nestes últimos dias, o estimado Filemon Rodrigues (Vice-presidente da Academia Mossoroense de Letras – AMOL) contou-me que, segundo a respectiva ótica, a Vice-presidência daquela Instituição deveria ser ocupada por um Acadêmico mais jovem, possuidor de engenhos renovados, para ajudar adequadamente à Presidência. Dessarte, procurou papai, visando a expor tal opinião e dizer que, portanto, não gostaria de concorrer na eleição seguinte. Obteve a concordância como resposta inicial, apenas sob a condição de que encontrasse um nome para a consequente mudança.

Contudo, quando já ia saindo pela porta de nossa casa, papai o chamou de volta e disse: “por favor, encontre, também, um nome para a Presidência, pois sem a sua ajuda não conseguirei administrar”. Resultado: Filemon resolveu mudar de ideia.

Querido pai, ou, como disse o Prof. Diógenes, “nosso querido Elder”: que Deus o tenha junto aos seus familiares, antes mencionados, mais os seus velhos e estimados amigos Joaquim Borges, Emerson Azevedo, Canindé Alves, João Escóssia, Dorian Jorge, Jaime Hipólito, Vingt-Un, Vingt, Dix-Huit, Dix-Neuf e muitos, muitos outros.

Com estas palavras, fico assaz obrigado.

George Macedo Heronildes é advogado e Filho de Elder Heronildes

*Discurso proferido na Academia Norte-riograndense de Letras (ANRL) – em Natal – no dia 18 de agosto, em evento que homenageou Elder Heronildes, falecido dia 30 de junho deste ano (veja AQUI).

Leia também: Elder Heronildes, um cidadão irradiante de alegria e otimismo

Leia também: Tenho para mim que você não partiu

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Categoria(s): Crônica

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