domingo - 18/10/2026 - 09:52h

O rio que passou…

Por Júlio Rosado

Arte ilustrativa exclusiva em estilo de aquarela, com recursos de IA, para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva em estilo de aquarela, com recursos de IA, para o BCS

Pereira sempre fora dado a festas e bebedeiras. Já estragara vários relacionamentos por conta dos arroubos de violência e a prioridade que dava à farra. Desdenhava da ideia de que precisaria morar junto para ter um encontro conjugal. Para ele, enquanto houvesse condições de botar preço no carinho que receberia, não haveria mais a necessidade de ter uma companheira fixa.

– É mais barato pagar pelo atendimento avulso e eventual, – dizia ele. – Pela minha experiência, o sexo dito gratuito finda por sair mais caro.

De natureza bruta, Pereira, que era açougueiro profissional, também era um faz tudo de mão cheia. Não era o melhor, mas conseguia dar conta de qualquer pequeno desafio em uma obra, da carpintaria à elétrica, da hidráulica à alvenaria. Era o famoso ‘quebra galho’ competente. Carnavalesco de primeira linha, sua habilidade o fazia útil na montagem dos carros alegóricos da Agremiação Recreativa Unidos do Carnaubal. O que aconteceu por anos.

A despeito de trabalhar com o que gosta, seu corpo começara a sentir os impactos da relação destrutiva com o álcool. O fígado, de vez em vez, dava sinais de fadiga. O coração, enrijecido de mágoas, dava sinais de exaustão.

– “Aqui se faz, aqui se paga”, repetia sempre que alguém indagava sobre as ex-companheiras que desapareceram de sua vida.

Para qualquer situação, Pereira tinha o hábito de elaborar respostas com base em ditados populares conhecidos. Sobre o comprometimento de seus órgãos vitais, dizia que “desgraça pouca é bobagem” ou “barco perdido bem carregado” e logo se punha a exagerar na bebida.

O tempo, contado pelos vários carnavais que ajudara a organizar, passava devagar para Pereira. Sofrendo com os sucessivos abandonos compulsórios, com o peso da idade começou a pensar em mudar de vida. Era difícil continuar sem se preocupar com o futuro. Já não se sentia tão produtivo. Algumas tarefas, antes banais, se tornavam um desafio a suas qualificações.

– “Devagar com o andor que o santo é de barro”, reclamava.

Não demorou, Pereira foi obrigado a se aposentar do açougue.

– “Quem espera sempre alcança”, celebrava sem muita empolgação.

A rotina menos agitada que passou a ter lhe apresentou dois sentimentos que, até então, não percebia: o remorso e a solidão. Para ocupar os dias, Pereira começou a ler as escrituras sagradas. Como resultado, aproximou-se da igreja e converteu-se na fé. Ao mudar suas rotinas, acalmou seu ânimo. Empenhado em construir uma nova história, evitava palavrões e diminuiu o uso dos irritantes axiomas, criando novos hábitos e costumes.

O destino agiu para que se aproximasse de Evangelina, que fora passista de sua, antes, agremiação carnavalesca. Ela começara a frequentar a mesma congregação. De imediato, o velho açougueiro se interessou por aquela mulher de beleza exuberante. Estimulado por receber suas atenções, ocupou um terreno próximo ao Rio Mandubim, onde começou a fazer, com as próprias mãos, a casa na qual pretendia viver com sua amada. Era um homem renovado.

Todo o dinheiro que poupara, Pereira gastou naqueles dois anos que se passaram enquanto levantava sua morada. Os móveis e eletrodomésticos compraria em 36 prestações nas ‘Lojas Paraguaias’. Tudo conspirava para que pudessem se casar na primeira quinta-feira após o carnaval.

Já havia três anos que Pereira não bebia e nem participava das atividades do Grêmio Carnavalesco. Aquele tipo de ambiente se presentava pecaminoso como fosse uma sucursal do inferno na terra. Ele afirmava não sentir falta. Seu maior desejo era chegar o dia de seu casamento. Seria a união de dois vasos quebrados entregues nas mãos do oleiro. Ele, que fora por anos um carnavalesco engajado com a agremiação, e ela, que fora uma sambista destacada. O casal tinha tudo para ser a expressão simbólica da conversão, e do arrependimento, na felicidade.

No sábado de carnaval, Pereira, após insistir, convencera Evangelina a conhecer a casa onde viveriam. Iria convencê-la a dormir lá naquela noite. Seria um pecadinho antes da união iminente. A casa estava pronta, mobiliada com o que há de melhor. Tudo era aconchegante. Quem resistiria?

Mal anoitecera e Genildo, o Diretor da Agremiação Carnavalesca, apareceu bastante agitado à porta de Pereira, implorando-lhe para que fosse até o galpão de ensaios, posto que a iluminação do barracão estava desligada e, daquele jeito, não conseguiriam concluir, a tempo, os arranjos do desfile de domingo. Piorando a situação, começou a chover forte.

A princípio, Pereira se negou a ir. Relutou ao máximo que pode. Porém, ante a oferta de uma soma vultosa para resolver o problema, findou cedendo ao apelo e se comprometeu a fazer o reparo. Antes de ir, no entanto, pediu que, enquanto estivesse fora, o Diretor da Agremiação ficasse em sua casa para receber Evangelina, o que, prontamente, foi aceito. O mestre artífice, então, partiu para a quadra carnavalesca.

Enquanto fazia a revisão da fiação do barracão, vendo que talvez não fosse possível resolver todo o problema devido à chuva que se tornara torrencial, o ex-sambista lembrou que sua casa ficava em área próxima às margens ribeirinhas e resolveu fazer um arremedo de gambiarra apenas nos espaços do ensaio para apressar a conclusão do serviço e poder retornar ao seu lar.

Como já foi dito, Pereira poderia não ser o melhor, mas era muito bom no que fazia. O terreno de sua casa fora prudentemente aterrado para fazer o piso ficar elevado a ponto de dificultar ser atingido por inundações. Talvez o estratagema não fosse o suficiente para aquela chuvarada que crescia.

Nas ruas, Pereira percebeu que começara a se formar grande volume de águas pluviais escorrendo pelas valas. Tudo o que ele queria era chegar o mais rápido possível para salvar seus móveis ainda novos. Para ganhar tempo, usou um atalho pulando pelo muro que dava para a rua de trás. As águas estavam a pouca distância de atingir sua quadra.

Com certa facilidade chegou ao destino. Ofegante, procurou por Genildo. A princípio, percebeu um sussurro cortado pelo som do chuveiro e de um gemido gutural. Assustado, e para sua proteção, Pereira pegou uma de suas facas de açougueiro. De supetão, abriu a porta do banheiro, puxando a cortina do box. A visão infernal o enlouqueceria: sua amada Evangelina sorria sedutoramente, enquanto se contorcia em êxtase ao ser possuída pelo traiçoeiro Genildo.

Em pouco tempo, a rua estava tomada por viaturas com os giroflex acesos e as luzes piscando. Aquela claridade se confundiria com a das chamas que consumiam a casa recém construída, ora tomada pelo fogo ateado pelo ex-açougueiro.

Sob a mira dos policiais, atônitos com a cena, molhado pela chuva que aumentava o nível do Rio Mandubim, Pereira, em seu surto delirante, com os punhos ensanguentados e o rosto chamuscado pelas brasas, toca, solitariamente, sua antiga cuíca, ritmando o choro lamurioso do instrumento musical com o apito estridente e o pulsar arquejante daqueles dois corações desalmados, há pouco arrancados dos corpos daquela dupla traiçoeira.

Júlio Rosado é escritor

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Categoria(s): Blog

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