Por Laurita Arruda (Coluna Território Livre)
Há quem trate o debate sobre perfis fakes na política como se estivéssemos diante de uma invenção de 2026. Não estamos.
Muito antes da internet, das redes sociais e dos algoritmos, campanhas eleitorais já conviviam com o anonimato. Os antigos panfletos apócrifos, distribuídos durante a madrugada, faziam exatamente o papel que hoje se atribui aos perfis sem identificação: atacavam adversários, espalhavam boatos, insinuavam, difamavam e diziam aquilo que seus autores jamais sustentariam de cara limpa em um palanque ou debate.
A tecnologia mudou. A natureza humana, nem tanto.
Quando a internet passou a influenciar eleições, o anonimato simplesmente migrou de plataforma. Vieram os blogs, depois o Orkut, o Twitter, o Facebook, o Instagram e tantas outras ferramentas. Em cada fase, surgiram personagens, páginas e perfis dedicados exclusivamente à guerra política.
O Rio Grande do Norte conhece essa história. E muito bem.
Quem viveu a eleição municipal de Natal em 2008 certamente se recorda do Xeleléu News, mistura de humor, sátira e militância política que ganhou enorme repercussão durante a campanha que terminou com a eleição de Micarla de Sousa prefeita.
No auge do Twitter, entre 2010 e 2018, perfis potiguares tornaram-se protagonistas de disputas políticas e até de processos judiciais. A expressão “rei dos fakes” entrou definitivamente no vocabulário político do Estado. Coincidências entre discursos, sincronismo nas publicações e ataques coordenados eram assunto frequente muito antes de o algoritmo do Instagram dominar o debate público.
Nada disso é novidade.
O que há de novo, agora, é a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte determinando que a Meta preserve e forneça dados de perfis do Instagram investigados por suposta atuação coordenada em favor da pré-candidatura de Allyson Bezerra ao Governo do Estado.
A decisão merece registro exatamente pelo seu aspecto jurídico. A Justiça busca identificar quem administra as contas, verificar eventual coordenação entre elas e produzir provas. Não condenou ninguém. Não reconheceu irregularidade. Apenas determinou a apuração dos fatos, como deve acontecer em um Estado de Direito.
É uma diferença importante, que parece obedecer o entendimento do Tribunal Superior Eleitoral.
Antes mesmo da identificação oficial, um dos administradores resolveu aparecer espontaneamente. O estudante João Carlos assumiu ser responsável pelo perfil “RN com Allyson” e declarou agir por iniciativa própria. O fato, por si só, desmonta parte da narrativa segundo a qual toda manifestação política favorável a um candidato necessariamente nasce escondida atrás do anonimato.
Mas talvez a discussão mais interessante nem seja essa.
O curioso é observar quem descobriu apenas agora que existem perfis políticos nas redes sociais.
Subitamente, há quem fale do tema como se estivéssemos diante de uma prática inédita, exclusiva ou característica de um único grupo político. A memória, entretanto, costuma ser mais confiável que os discursos de ocasião.
Ao longo das últimas décadas, praticamente todos os agrupamentos políticos potiguares conviveram — alguns mais, outros menos — com blogs militantes, perfis anônimos, páginas de humor, influenciadores engajados e estruturas digitais dedicadas à construção de narrativas favoráveis e ao desgaste dos adversários.
Alguns condenavam quando eram vítimas.
Outros defendiam quando eram beneficiários.
Em muitos casos, eram exatamente as mesmas pessoas.
O jornalista Heitor Gregório aproveitou a polêmica para registrar uma situação emblemática. Enquanto o ex-prefeito Álvaro Dias questiona perfis favoráveis a Allyson Bezerra, existe também um perfil nas redes sociais dedicado à divulgação de conteúdo crítico ao ex-prefeito de Mossoró sem identificação ostensiva de seu responsável. Até agora, não há notícia da mesma mobilização ou judicialização para descobrir quem está por trás dessa conta.
É justamente aí que mora a incoerência.
Não é o método que escandaliza. É o beneficiário.
Se o perfil favorece o aliado, trata-se de militância espontânea, liberdade de expressão ou engajamento popular. Se favorece o adversário, transforma-se imediatamente em uma ameaça à democracia.
O critério nunca foi o instrumento. Sempre foi o lado.
As redes sociais apenas sofisticaram uma velha prática da política brasileira. Aliás, o anonimato deixou de ser indispensável.
Hoje há perfis administrados por pessoas perfeitamente identificadas, com CPF, profissão, diploma, milhares de seguidores e ampla circulação. A blindagem já não depende da ausência de nome, mas da disposição de quem compartilha, impulsiona e amplifica determinado conteúdo.
O museu das grandes novidades continua funcionando normalmente.
Mudam os aplicativos.
Mudam os algoritmos.
Mudam os personagens.
O enredo permanece rigorosamente o mesmo.
Na política, a novidade costuma ser apenas o lado de quem, desta vez, resolveu se escandalizar.
Laurita Arruda é jornalista
























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