Por Inácio Augusto de Almeida
Ouço no rádio que o banco estatal vai financiar a construção de mais uma fábrica de cachaça. Gera emprego, diz o locutor.
Em seguida, ouço o resultado do jogo do bicho. Gera emprego, diz o locutor.
E logo depois, o mesmo locutor informa que Fernando Gabeira, aquele que participou do seqüestro do embaixador americano, defende o turismo sexual. Fernando Gabeira fundou o partido verde mas dele já se afastou. Não sei por qual partido anda no momento.
Diz o deputado Gabeira que o turismo sexual atrai turista. Pelo menos foi assim que o locutor terminou o noticiário.
Não, não havia nenhum tom de censura na voz do locutor.
Estas notícias foram lidas com toda naturalidade, como se ele estivesse a noticiar a construção de mais uma escola, uma estrada ou um hospital.
De tanto convivermos com o absurdo, já não nos chocamos com nada.
Estamos anestesiados e passamos a aceitar tudo como normal.
Parece que somente os que questionam são os desviados.
E assim vamos caminhando.
Agora o locutor fala de um condômino que levou um gato para o apartamento, causando revolta em todos os outros moradores do prédio.
Na sua voz há indignação.
Eu? Rio…
Que mais posso fazer?
E você ?…
Inácio Augusto de Almeida é jornalista








































