Por Marcos Araújo
Prenuncia-se a entrada de um novo ano. Os computadores domésticos e profissionais já assinalam o envio e a entrada de milhões (ou bilhões) de mensagens aspirando e desejando invariavelmente o mesmo substantivo: a paz. Nesse período, as igrejas de todas as crenças e os profitentes dos mais diversos credos afinam-se num único discurso: um pedido de paz.
Santa hipocrisia ou pura hipostasia…
Esse desejo de paz, no plano da convivencia social e religiosa, tem muito de hipocrisia e hipostasia. Já que todo mundo sabe que hipocrisia é fingimento, apenas esclareço que hipostasia é um equivoco cognitivo onde se atribui existência a uma realidade fictícia, abstrata. Quando as pessoas desejam paz, e afirmam viverem em paz, convivendo desarmonicamente, é uma hipostasia.
Ora, a paz é sinônima da tranquilidade pública; da harmonia, da concórdia… Nem entre os religiosos conseguimos concórdia. Basta ver esse conflito milenar entre os cristãos e os muçulmanos na terra santa. A barbárie e o cometimento de toda espécie de crimes e atentados terroristas são praticados em nome de Deus ou de Maomé. Lembrando o Salmista, “Quando eu digo: “Paz”, eles dizem: “Guerra”. (Sl 120, 7).
Narra o evangelista Marcos que Jesus Cristo ao pronunciar o sermão da montanha sentenciou: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Cap. 5, v. 9)
Se são felizes os que promovem a paz, como disse Jesus, quem por acaso pode se dizer um agente da paz?
Entre nós, católicos, falta paz quando os cânones proíbem o batismo das crianças havidas de pais solteiros ou nascidas de pessoas não matrimoniadas nos seus costumes. Os mesmos cânones obrigam a prelazia a ser intolerante com os descasados e divorciados, impedindo-os do sacramento da eucaristia.
Como podemos realmente almejar a paz se endossamos essas orientações tão excludentes?
Entre os pentecostais, o alcoolismo e o homossexualismo são tidos como manifestações demoníacas. A santidade, para algumas dessas igrejas, somente é medida ou demonstrada pelo tamanho da doação do devoto.
Pratica-se, com muito gosto, a teologia da prosperidade e a simonia (a venda de coisas sagradas). A televisão anuncia a cada minuto, nas primeiras horas da manhã, a cura das doenças espirituais e a salvação das almas, tudo com preço fixado, a gosto do pagante. Ainda se pode desejar a paz nessas circunstancias?
Entre os evangélicos, vigora o entendimento de que somente serão salvos 144.000 crentes autênticos. É a leitura radical do livro do Apocalipse, escrito por João. Somente na cidade de Natal, existem mais de duzentos mil evangélicos. Quem desses será salvo? Quem fará essa separação?
Nem me atrevo a falar nos demais setores sociais ou profissionais. Fico apenas no campo religioso, para não ter que relatar desentendimentos graves entre os políticos, na Ordem dos Advogados, na classe médica, no Poder Judiciário etc.
Nessa hora, lembro São Francisco de Assis e a sua oração pela paz: “Senhor, Fazei-me instrumento de vossa paz…”. A Oração de São Francisco quer fazer de nós instrumentos de paz, daquela paz que nasce do coração de Deus e que penetra no íntimo de todas as pessoas que Nele creem.
A paz haverá quando as igrejas e as pessoas se preocuparem unicamente com a perfeita comunhão entre o seu pensamento benigno e as suas ações. Não adianta desejar a paz se o seu coração age como se estivesse em guerra. Haverá paz, quando “a paz de Deus domine vossos corações”, como dizia São Paulo (Colossenses, 3:15).
Como desejar a paz, se fazemos adversários gratuitos e tecemos críticas indébitas? Somos construtores da paz quando produzimos pensamentos contraditórios e arremessamos pedras da incompreensão sobre outros irmãos? Que paz advém de nossas atitudes se em nossos comentários nos blogs usamos de sarcasmo, agressividade e menosprezo pelos nossos semelhantes?
Pelo visto, não queremos paz, embora falsamente desejamo-la para o próximo nas nossas mensagens de fim de ano. Somos o que pensamos. Como ensinava Buda, com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo.
Teremos paz, entretanto, se guardarmos a serenidade e se atuarmos na extensão do bem, porque, como disse Chico Xavier, “resguardando a consciência tranqüila, terás nos recessos da própria alma a paz de Cristo que ninguém destruirá”.
Nesses momentos de angústia e de guerra social, só a fé em Cristo mantém-nos serenos. Nada agrada mais a Deus do que a genuflexão de um homem livre.
Rezemos pela paz! Quem sabe se mudarmos os nossos hábitos, não poderemos dizer para o próximo: Shalom!
Marcos Araújo é advogado e professor universitário.




























