Por Inácio Augusto de Almeida
O time tricampeão do Flamengo era Garcia, Tomires e Pavão. Jadir, Dequinha e Jordan. Joel, Rubens, Índio, Benitez e Esquerdinha. Por que decorei o nome de todos os jogadores? Porque Dequinha era mossoroense. E isto fazia com que o menino sonhador que eu era se imaginasse parte daquele grupo.
Da menina que na janela ficava todas as tardes me lembro muito bem. Lembro até que nunca ouvi uma só palavra pronunciada por aquele anjinho de olhinhos e cabelos negros.
Montava bem a cavalo, com ou sem sela e me imaginava um cowboy mais destemido do que Roy Rogers. Das revistas em quadrinhos gostava de todas e viajava junto com o Zorro e o Tonto.
Colocava talo de jaca com alpiste para pegar passarinho, que logo em seguida soltava por perceber o sofrimento nos olhos do galo de campina ou do canário. Tinha uma baladeira, mas só atirava pedra nas mangas e cajus.
O tempo passa rápido…
Aos poucos fui fazendo amizades no colégio. Wanderley, Lobato, Antônio. Wanderley virou bancário e Lobato dono de farmácia. Do Antônio nunca mais tive notícia.
Iolanda foi a namoradinha do primeiro beijo. Mocinha de saia azul e blusa branca como normalista que era.
Aí chega a verdade da vida e tenho que trabalhar de dia e estudar de noite.
Vejo a Iolanda casando. Passei a namorar Georgeteh. Naquela idade o coração suporta bem as dores de amor. Casei, tive filhos que cresceram e seguiram seus caminhos. Hoje restam lembranças, doces e amargas.
Saudade tenho do tempo de lateral esquerdo do Graça Aranha de São Luís do Maranhão. Eu me julgava um Nilton Santos. Daquela época, lembro bem de num programa de calouros, as rádios tinham programas de auditório, ter cantado ALGUÉM ME DISSE, anasalando a voz para parecer Anísio Silva, o cantor sucesso da época.
Que ninguém diga que eu não tentei.
Nesta tarde ameaçando chuva, flashs de momentos divertidos. Mas não esqueço dos momentos duros, difíceis. Imagino se me fosse permitido voltar para tudo viver novamente.
Eu aceitaria ou recusaria? Não sei.
Não sei porque acredito que vivemos para seguir em frente na escala evolucional e o passado pertence ao passado. Até seria bom reviver momentos significativos do meu passado. Momentos que enchem meu coração de saudade.
Lembro que assim aconteceu com meus pais e fico a pensar ser a vida uma reprise com variações mínimas, quase imperceptíveis. Basta ver que vivemos mais para os filhos do que para nós mesmos.
Melhor não aceitar recomeçar e entender que o maior encanto da vida é caminhar.
Hoje preso numa cama, vítima de uma maldita ou bendita artrose, certeza tenho de que a morte não me assusta. Estas malditas dores e mais acreditar que a morte não é o fim, afastaram de mim todo o medo da passagem que em breve acontecerá.
Mas, se eu estiver enganado e a morte for o fim? Se apenas escuridão existir? O que farei?
Um eterno ronco será a minha resposta a esta brincadeira sem graça do Criador.
Bendita artrose que me permite voltar ao passado e fazer estas reflexões. Maldita artrose que tanta dor me causa.
E assim constato que a vida é céu e inferno a um só tempo.
Fecho os olhos e em vão procuro a estrela em que a menina de olhinhos negros se escondeu.
Inácio Augusto de Almeida é escritor e Jornalista
Crônica dedicada ao professor Odemirton Filho








































