Por Marcos Ferreira
Viúva há menos de um ano, foi àquela residência a fim de conversar com a senhora Elvira, mulher do prefeito. Porém ela não se encontrava. Esmeralda queria arrumar trabalho como doméstica. O marido de Elvira aproveitou para colocar as unhas de fora com um palavreado nada sutil. Esquivando-se das investidas do prefeito, a jovem viúva não deu trela àquele sujeito casado e já próximo dos setenta anos. Agradou-se, entretanto, da iniciativa dele ao convidá-la para trabalhar ali. O desemprego no pequeno município atingiu um nível tão elevado quanto o das cheias.
Filha única, órfã de pai e de mãe, Esmeralda não tem familiares ou parentes em Jangada Velha, para onde se mudou após a morte precoce dos seus genitores em um acidente de carro a caminho de Serra Pintada. Então ela foi morar com uma tia por parte da mãe, mulher de meia-idade, solteira e sem filhos, empregada na casa de um médico na função de cozinheira. Morreu vítima da pandemia.
Outro intuito de Esmeralda naquela manhã era o de conseguir comida para oferecer às filhas. Na volta da casa do prefeito, então, tencionava passar na mercearia do senhor Eufrásio. Vez por outra realizava algumas comprinhas naquele comércio na base do fiado, sobretudo quando o marido ainda era vivo. As meninas haviam feito uma refeição àquela manhã: mingau de massa de milho com leite. Há uns quatro dias ela não providenciava uma refeição de verdade, substancial. Vinha enganando a fome do jeito que podia com o pouco de que dispunha. Ao dobrar a esquina do posto de saúde avistou a mercearia do senhor Eufrásio fechada e cercada pela cheia.
Embora a contragosto, decidiu-se por pedir ajuda na casa sogra. Ali, felizmente, conseguiu remediar a situação com o apoio de sua cunhada e enfermeira Joana. Esta foi à despensa e pegou alguns víveres para Esmeralda. Encheu quatro sacolas com mantimentos. Ao chegar, a viúva disse às filhas que ia tomar um banho rápido. Sentia-se incomodada com os pés um tanto enlameados. Jangada Velha só dispõe de pavimento de paralelepípedos no Centro, que está tomado pelas águas. Em breve ela cuidaria do almoço; o horário avançara mais do que se dera conta.
Apesar de toda a calamidade das enchentes, que engoliram a cidade praticamente inteira, imaginou o quanto se encontrariam bem se Epitácio ainda estivesse entre elas. Em algumas ocasiões se via sem palavras para explicar às meninas o recente desaparecimento do pai. Mal tivera tempo de chorar a morte do marido. Pois, sem trabalho fixo, todo dia buscava recursos para si e para as pequenas.
Agora a viuvinha apresentava um semblante mais tranquilo. Respirou fundo, sentindo-se aliviada. Os gêneros que a cunhada Joana lhe dera seriam o bastante para mais ou menos uma semana. Não era benquista pela sogra, a senhora Constância, que desejava que o filho tivesse se casado com outra moça. Esmeralda pusera os mantimentos no armário de metal fixado na parede, ao lado da janela. Agora dispunha de algumas latas de sardinha, macarrão, batata-doce, arroz, feijão, farinha de trigo, margarina, biscoitos, uma bandeja de ovos e um pedaço de charque.
À mesa com Ruth e Laurinha, a viúva mastigava a refeição vagarosamente, o olhar distante, aqui e acolá se voltando para as crianças. Mostrava-se perdida em pensamentos, recordações do esposo morto também pela pandemia. Pensava no seu jeito quase sempre risonho, bem-humorado. Epitácio, que contava com trinta e cinco anos quando de sua morte, era um tipo de pele branca, olhos castanhos, cabelo aloirado. Saíra mais ao pai que à mãe, especialmente pela índole pacata e natureza extrovertida. Corpo esbelto, talhado pela rotina braçal exigida nas atividades da olaria, media pouco mais de um metro e setenta de altura e pesava menos de oitenta quilos.
Esmeralda, mulher de cabelos loiros na altura dos ombros, de corpo benfeito e olhos claros, cruzou os dedos sobre a mesa de madeira rústica, fechou os olhos por alguns segundos e agradeceu ao Todo-Poderoso por aquela refeição. A seguir, como julgasse não ser ouvida, lastimou a ausência do esposo:
— Ah, querido… Você nos faz tanta falta…
— O que disse, mamãe? — indagou Ruth, do alto dos seus cinco anos de idade. Menina inteligente e com a qual a mãe interage mais, já que Laurinha é dois anos mais nova e ainda permanece alheia a várias coisas.
— Nada, filha. Só estava aqui pensando alto.
— Ontem ouvi a senhora pensando alto.
— O que quer dizer, minha querida?
— Foi à noite, mamãe. A senhora falava dormindo. Dizia alto o nome de papai de vez em quando. Como se estivessem conversando.
— Ah, isso deve ter sido apenas um sonho.
— É verdade que ele não vai mais voltar?
— Sim, é verdade. Seu pai foi morar no Céu.
— Tia Joana falou que está num lugar melhor.
— Ela tem razão, meu anjo. Pode acreditar.
— Então por que ele não levou a gente?
— Porque foi Deus quem quis assim, meu amor. Lá onde ele se encontra está velando por nós aqui embaixo. Não nos abandonou.
A menina fez uma carinha triste e argumentou:
— Eu não queria que Deus tivesse levado papai.
— Nem eu, Ruth. Mas Deus sabe o que faz. Coma, está bem?… Senão sua comida vai esfriar demais. Está gostando do almoço de hoje?
— Sim, estou. E esse outro prato, é para o papai? A senhora colocou um prato no lugar onde ele sentava. Como se ele fosse chegar.
— Desculpe. Eu me distraí. Foi somente o costume.
Algumas lágrimas rolaram pelo rosto da viúva.
Marcos Ferreira é escritor
























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