domingo - 14/06/2026 - 08:38h

Só um palpite

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Minha cidade não é mais a mesma, claro que não. Mudou positivamente. Mas essa mudança não foi muito para melhor se levarmos em conta a tríade igualdade, fraternidade e liberdade. De qualquer modo, pelo que tenho visto, o mossoroense anda exultante em meio a toda a pirotecnia e carnavalização de uma terra que há tempos jogou para o escanteio preceitos sociais, morais e ideológicos. Ao povo (há exceções!) basta o furdunço, a folia, as decorações juninas, o foguetório retumbante e um entorpecedor e aclamado carnaval fora de época. É aí que são adquiridos uns trapinhos coloridos com que os caboclos e as caboclas daqui se vestem e curtem sua apoteose em camarotes custando os olhos da cara. Isso não é problema, alguns se estrepam no cartão de crédito e tudo dá certo, sem que se importem com a ressaca econômica.

Hipnotizantes eventos fazem desaparecerem das vistas dos nativos a enorme buraqueira nos bairros periféricos, a superpopulação de animais abandonados e a fome, a desvalia dos sem-teto; pessoas sem amparo nenhum por parte dos órgãos públicos desta nossa feliz e purificada pátria do faz de conta.

Apesar dos pesares, e a bem da verdade, minha cidade melhorou ao longo dessas últimas três ou quatro décadas; está indubitavelmente mais apresentável, entretanto piorou sobremaneira no tocante à insensibilidade para com os necessitados, gente invisível, sujeira social varrida para debaixo do tapete do Executivo e do Legislativo desde sempre. Chato falar sobre o óbvio, eu sei. Assunto desagradável e repisado. Tenho consciência de que estou ferindo susceptibilidades, abespinhando melindres. É isto, admito que venho chovendo no molhado e enfeando o verniz reluzente na carranca de certos cidadãos baludos. Assim mesmo ponho o dedo nessa ferida. Porque o mutismo geral, absoluto, produz uma infecção do tipo “cada um que se vire”.

Acho que podemos ser mais que estampidos e cheiro de pólvora. Mossoró, com necessária boa-fé e freio em obras de orçamentos suspeitos, pode agir em favor dos maltrapilhos, desses conterrâneos que agora se encontram na sarjeta. Cães e gatos magríssimos e famintos perambulam por toda parte!

Que o povo se divirta, ora essa! Que festeje e se esbalde nos carnavais e no são-joão, mas sem perder a ternura, a sensibilidade. Avanços graúdos já foram conquistados; obras de relevo e projetos estruturais realizados em diversos pontos do município. Falta, porém, destinar recursos para a vida de quem não tem nada na vida. Ações sociais precisam ser desenvolvidas e contar com lastro financeiro do governo municipal. Não é possível sustentar um país (mesmo que o País de Mossoró) apenas com pão e circo.

A propósito, se olharmos com um pouco mais de atenção, veremos que há cada vez menos pão. O circo armado e nutrido com milhões de reais pela prefeitura na Estação das Artes Elizeu Ventania é algo de nível primeiro-mundista.

Admito que minha cidade está bonita. Tem futuro, potencial, contudo é da conhecida ordem de inúmeras outras que empurram no miolo dos munícipes o ópio das festanças e da fuzarca. Precisamos assegurar meios para oferecer o mínimo aos desvalidos, criar um programa de controle populacional de gatos e cachorros, que também passam fome e sede nesta urbe. Podemos ser melhores sob o aspecto humano, caridosos, comprometidos com o bem-estar daqueles que precisam de nós.

Isto é só um palpite; sequer um puxão de orelha. Longe de ser uma receita para a prosperidade geral. Todavia, quem sabe, represente um grito para que não percamos a boiada no precipício do egoísmo. O gado tem disso; é facilmente tangido, transformado em massa de manobra em currais eleitoreiros.

Vejam! Mais uma eleição se aproxima.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Julio Rosado diz:

    Sugiro a leitura desse texto pelos locutores do Cidade Junina a cada noite de festa.

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro escritor Júlio Rosado,
      Isso nem me passou pela cabeça, porém eu me sentiria prestigiado. Sua ideia é uma boa crítica ao delírio coletivo dos mossoroenses. Uma semana de saúde, paz e realizações para você.
      Forte abraço.

  2. Bernadete Lino diz:

    É o mundo das aparências! Muita maquiagem para encobrir as mazelas dos necessitados. Importante é ficar bem na foto! E o povo é só um detalhe, como diria Chico Anisio! Parabéns por mais uma crônica regada de sensibilidade e empatia!

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida Bernadete Lino,
      Você sintetizou a crônica com pouquíssimas palavras: é o mundo das aparências. Aqui neste município e em quase tudo que é canto. Grato por sua leitura e opinião.
      Abraço. 🤗

  3. Ayala Gurgel diz:

    O grito do oprimido dentro de uma lata de margarina é tempero do orgulho de quem se faz público na vida política. E isto porque você não falou da copa.

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro mestre Ayala,
      De fato, como você assinalou, esqueci o delírio da Copa com nosso time de pernas de pau. Torço que essa ilusão finde o mais rápido possível e todos retornem para o Brasil com o rabinho entre as pernas.
      Abraço.

  4. Francisco Nolasco diz:

    Boa noite, Ferreira…
    O cidadão Mossoroense, salvo algumas exceções, vivem de aparência. De maquiagem e se ” balançando” nas redes sociais.
    Nada sentem das vidas animais. Só compactuam com farras…e o resto que se dane!
    E o poder público agradece.

    • Marcos Ferreira diz:

      Olá, meu caro poeta Francisco Nolasco. Infelizmente, como você destacou, a maioria das pessoas só quer saber que tem festança. O resto que se exploda. Ótima semana para vocês, saúde e paz. Abraço.

  5. Kelly Adriana diz:

    Há muito tempo não lia um texto tão escancaradamente igual aos meus pensamentos. Vida longa aos corajosos que não só pensam como eu, mas expõe.

    • Marcos Ferreira diz:

      Boa tarde, Kelly Adriana. Muito obrigado. Bom contar com sua leitura e opinião. Uma semana abençoada para você, saúde e paz. Abraço.

  6. Marcos Pinto. diz:

    Nunca a antológica frase do saudoso Poeta Dr. Apolônio Cardoso se fez tão contextualizada com os presentes dias : ” DE TANTO VER BURROS MANDAR NOS HOMENS DE INTELIGÈNCIA, ÁS VEZES FICO A PENSAR QUE BURRICE É UMA CIÊNCIA “.

    • Marcos Ferreira diz:

      Boa tarde, meu xará. Obrigado pelo comentário. Fiquei feliz com sua citação do saudoso mestre Apolônio Cardoso. Tive o privilégio de desfrutar da amizade dele. Uma semana com muita saúde e paz para você. Abraço.

  7. Luiz Soares Filho diz:

    Parabéns, senhor MARCOS FERREIRA.
    A sua humilde, escorregadia, mas eloquente visão, evidenciada por ocasião de sua crônica publicada no Domingo 14 de junho, que ficarar cristalizada na mente de milhares de leitores deste conceituado espaço do Jornalista pertencente ao jornalista CARLOS SANTOS.
    Vez que, o seu selencioso grito, pode até não resolver o problema dos que ainda GEMEM NOS APROBIOS dos linsanos, digo: Tiranos, más, com certeza, ficará clara e cristalizada na mente daqueles que apreciam contemplarem a clareza das ” chamadas estrelas três Marias, em contra ponto da escuridão evidenciadas nas caatingas dos sertões.
    Vez que, numa linguagem simples e coloquial, você mostrou a sujeira que os responsáveis( irresponsáveis) pela a administração dos recursos dos que trabalham, serem torrados por uma meia dúzia de Artistas, ditos populares que, enquanto um trabalhador derrama o suol durante 30 dias para ganhar pouco mais de mil e seiscentos reais, essa turma de analfabeto, recebe mil vezes mais para, simplesmente, durante pouco mais de uma hora, darem peidos e gritos em cima de arquitetadas estruturas, feita com o dinheiro público, sem contudo, esquecerem de jogar para detrás do sofá, o lamaçal de tão evidente contradição, frente a centenas de miseráveis abrigados debaixo das marquises de predios, enrolados em pedaços de lonas ou caixas de papelão.
    Dito isto é, por compreender a linguagem daqueles que conhecem o siguinificado de fuzarca, furduncio, foguetorios e sulancas, eu, assim como eles, fico a vê navios, diante de tanta falta de misericórdia.
    Por isso, e para que a sua crônica possa despertar o olhar de muitos e além Mossoró, eu peço as devidas vendas para compartilhar em minhas redes sociais. Pelo que agradeço a compreensão.

    • Marcos Ferreira diz:

      Prezado escritor Luiz Soares Filho,
      Boa tarde.
      Sua presença aqui no BCS – Blog Carlos Santos, é motivo de júbilo para este cronista. Sobretudo por sua sensibilidade e inteligência. Grato por suas palavras tão bem formuladas e motivadoras. Você honra este escrevinhador e enriquece este espaço de opinião e cultura. Uma ótima semana para você, saúde e paz.
      Abraço.

  8. Marcos Araujo diz:

    Genial, como sempre, querido Marcos Ferreira.

    Há um anacrônico e repetitivo modus operandi no manuseio das massas. No passado, Otávio Augusto, imperador romano, percebeu o aumento populacional em torno de Roma e a fome e o desemprego ameaçando um levante e uma queda de popularidade. De logo mandou fazer o Circo Máximo e o Coliseu. O objetivo era distrair o povo, evitar revoltas e garantir apoio popular. O poeta satírico romano Juvenal criou o termo “panem et cicercenses” (pão e circo) para denunciar o oportunismo do imperador.
    Desde então, as enganações são as mesmas…
    No Século XXI, o nosso querido poeta MARCOS FERREIRA faz a mesma denúncia…

    • Marcos Ferreira diz:

      Querido xará Marcos Araújo,
      Muito obrigado (mais uma vez) por suas palavras sempre gentis e carregadadas de estímulo a este seu admirador e irmão de espírito e arte escrita. Saudades de você e do nosso estimado Editor do BCS. Aguardo, ansioso, por um reencontro nosso em alguma cafeteria do País de Mossoró, conforme já conversamos. Estou no aguardo. Saudades de vocês. Que esta lhe seja uma semana abençoada, de saúde e paz.
      Abraços.

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