domingo - 12/07/2026 - 09:10h

Sobre confiança, conselhos e saudade…

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Há uma solidão e uma angústia silenciosa que acompanham todo jovem profissional. Ela não está na ausência de conhecimento, mas no desejo de uma oportunidade para demonstrá-lo. Assome-se a isto uma justa expectativa – dele próprio e dos próprios pais – da obtenção de uma independência financeira logo que o diploma seja pendurado na parede. Foi assim comigo também…

Fui diplomado em Direito logo após fazer vinte anos. Trazia comigo a ousadia própria da juventude e as inquietações de mudança de vida, uma vez que era cobrador e garçom, simultaneamente. Fazia com a formatura um “up grade” profissional: de cobrador e garçom passava a ser advogado. Na primeira sala locada de Almir Gomes da Silveira (“Almir do Laçador”), na rua Dionísio Filgueira, pensava eu– erroneamente – que se encarrilhariam atendimentos contínuos de clientes…

Passei dias, meses, e até mais de um ano, em que a clientela consistia em dois ou três “gatos pingados”, amigos da família, sem qualquer remuneração. Eles serviram para associar a teoria à prática. E eu ainda era grato por ter a possibilidade de testar meus conhecimentos. Hoje em dia, o recém-formado imagina que o cliente é um privilegiado em ter lhe escolhido e que o diploma expedido há pouco já é uma prova de sua “elevada” qualificação técnica.

Escrevo estas linhas movido pela gratidão aos amigos (prefiro chamá-los assim, em vez de “clientes”) que confiaram naquele advogado ainda muito jovem, com pouco mais de vinte anos, inseguro e quase sem experiência.

Essa lembrança voltou a ativar o meu córtex cerebral depois de uma conversa nostálgica com o casal João Marcelo Fernandes e Lorna Frota Rosado, sobre o avô dela, seu Cristóvam Gurgel Frota. Foi um dos meus primeiros clientes, juntamente com Avelino Borges, Raimundo Alves, João Marinaldo e seu Chiquinho Germano. Foram eles os primeiros depositantes do critério validador de um profissional: a confiança. Em comum, para minha tristeza e desconforto pessoal, todos eles estão entre as miríades celestiais e têm assento no colo sagrado de Deus.

Outra característica em comum é que eles já eram pessoas maduras quando recorreram aos serviços daquele jovem. De seu Cristovam, ganhei um presente que remuneraria qualquer grande causa: uma caneta folheada a ouro, que guardo com muito carinho. De seu Chiquinho Germano, igualmente, ganhei como prova de nossa amizade um relógio de algibeira que foi do seu pai, o Desembargador José Vieira. São esses mimos meus grandes tesouros, juntamente com imagens de santos, terços, quadros e outros presentes de amigos/as queridos/as que fui acumulando ao longo de minha trajetória, todos guardados com inestimável carinho e muito cuidado.

Lembro demais de seu Chiquinho Germano. De vez em quando, ao abrir um arquivo com seu nome, ao manusear papéis de Rodolfo Fernandes, deparo-me com a letra dele. E aí, é como se a sua voz voltasse à minha memória, pedindo licença, perguntando pela família, oferecendo queijo de manteiga e cajus trazidos da fazenda São Gabriel. E brigando comigo porque estava respondendo mensagens pelo celular e não estava olhando direto para ele…

A minha clientela envelheceu comigo. Se os maduros me abriram as portas quando eu era um moço de mãos sem calo; agora sou eu quem lhes abre a porta, lhes ofereço a cadeira, lhes escuto as histórias longas … Não é apenas clientela: é gratidão convertida em ofício.

O advogado que atende gente madura aprende cedo uma lição que não está nos manuais: o cliente não procura apenas justiça, procura escuta. Ele quer que alguém acredite na sua versão dos fatos, sim, mas quer sobretudo que alguém acredite na sua versão da vida. E nós, que os escutamos, vamos ficando depositários involuntários de um acervo imenso: genealogia, histórias da família, disputas patrimoniais, safras perdidas, heranças disputadas, amores antigos, salinas, roçados, promessas pagas a santos e a homens. Por isso, adoro escutar Marcelo Monteiro, Vilmar Pereira, Fernando Rosado, seu Masatoshi Otani, dona Euvércia, dona Loyola, entre outros.

Pensando em conselhos e sabedoria, tenho muita saudade de meu pai. Carlos Drummond de Andrade, matuto de Itabira que entendia dessas coisas, escreveu que a ausência é um estar em si. É exatamente isso, meu pai me habita como habita um alicerce.

Mesmo amadurecido, já professor, já doutor, eu continuava subindo uma escada que nenhum sucesso dispensa: a da casa do meu pai. Ele, beirando os noventa anos, seguia sendo o meu primeiro conselheiro. Seu Ary era muito inteligente, e ainda por cima metido a filósofo, criador de frases soltas, dando orientações de vida com muita precisão.

Sentava-me diante dele como quem se senta diante de um oráculo, e escutava de tudo: conselhos sobre a vida, sobre a família, sobre a profissão… Descobri, então, que a idade não me havia emancipado da sabedoria dos mais velhos; havia apenas me ensinado a valorizá-la ainda mais. Diante do meu pai, mesmo como advogado, por mais rodado que fosse, voltava a ser um inseguro estagiário da vida. E, quando decidia azucriná-lo com brincadeiras, ele respondia impassível:

– Dizem que esse menino é inteligente, mas é mentira. Ô menino besta!

E eu adorava provocar essa reação dele, para ser desconstituído e desapossado dos rótulos formais, colocado em situação de inferioridade e dá-lo a condição de poder me chamar enfaticamente de “besta”. Queria muito que os meus filhos, e os filhos dos meus amigos, mesmo sendo adultos, tivessem esse mesmo privilégio de aceitar os conselhos dos pais, como poetizou Sebastião Dias, aprendendo que “O mundo tem dois caminhos um é certo o outro errado /  Na escolha de um deles é preciso ter cuidado.”

Há noites em que a memória faz uma ronda pelo meu cérebro e lá estão todos: meu pai, meus avós, os tios, os velhos clientes, os amigos do Inocoop, dormindo o sono fundo dos que já cumpriram sua sentença de viver. Mas o sono deles não é ausência definitiva. Mario Quintana ensinou que morrer é apenas deixar de ser visto. Eu os vejo. Vejo-os toda vez que atendo um senhor de oitenta anos que chega devagar, saco de plástico com documentos na mão, e começa a conversa pelo tempo e pela chuva antes de chegar ao assunto.

Por isso, quando fecho o escritório ao fim da tarde e apago a luz, tenho a impressão de que a cadeira do outro lado da mesa não fica vazia. Fica encantada, como diria Guimarães Rosa.

Cícero dizia que a gratidão é a maior de todas as virtudes. A eles, meus oráculos do passado e do presente, minha gratidão e o meu amor fraternal. Dizia Esopo que a gratidão é a virtude das almas nobres. Shakespeare denominava a gratidão como o tesouro dos humildes. Não sei se tenho virtude alguma, mas sou muito grato a todos esses que confiaram – e continuam a confiar – em mim! Aos jovens, aos nossos sucessores, a minha confiança plena também. Desejo-lhes sucesso, com virtude e respeito aos nossos antecessores.

Marcos Araújo é advogado e professor da Uern

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Categoria(s): Crônica

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