domingo - 17/09/2023 - 07:51h

Modesta fortuna

Por Marcos FerreiraMarcos Ferreira - Modesta Lonjura, Papangu na Rede - 31 de agosto

Quando amanheceu nas lonjuras daquele lugarejo, ponto limítrofe entre a zona urbana e a rural, onde os raios da manhã surgiam mais cedo que na selva de pedra, a jovem senhora Ruth, de quarenta e um anos, dispunha apenas de uma soma hoje equivalente a trinta reais para adquirir o alimento para os filhos — dois meninos miúdos e três meninas maiores que os irmãos, todos com idades entre dez e quatro anos. Esta, portanto, a prole do carroceiro Pedro e da lavadeira Ruth.

Era meados de 1980. A carestia campeava e impunha privações e infringia constrangimentos às famílias mais pobres daquela localidade de Barreiro Seco. Com as sombras a ocuparem a maior parte da precária residência, edificação composta de madeira e barro, a mulher desarmou a rede dela e a do marido, que já havia saído para o Centro, especificamente o entorno do Mercado Central, em busca de pequenos fretes. Algo incerto e minguado naqueles tempos de escassez. Não raro o senhor Pedro Soares, já pegando cinquenta anos, regressava de mãos abanando. Tirava o chapéu, pendurava-o numa ponta de ripa da parede, e meneava a cabeça negativamente perante Ruth. Com esse simples gesto ele não carecia de falar mais nada.

Cedinho, então, as crianças começaram a acordar. Todas analfabetas, a exemplo dos pais. Àquela altura Ruth se antecipara e dera um pulo até a única panificadora nas imediações e adquirira boa quantidade de pães da véspera, que afinal de contas pensava-se tão nutritivos quanto os assados minutos antes e custavam a metade do preço. Daí a pouco o leiteiro gritou lá fora. Nesse dia, no entanto, os Soares tomariam apenas o café preto, cujo pó fora reaproveitado da tarde passada.

A senhora Ruth desenrolou a esteira de palha sobre o chão batido da cozinha. Essas peças artesanais eram uma opção bastante utilizada pela gente pobre, quase sem mobília. Um tanto bamba, a única mesa de que dispunham não comportava todos. Na cozinha dos Soares, além de um fogão a lenha, cuja tisna enegrecia as paredes e as picumãs que rendilhavam o teto, contava-se com dois potes de barro para água de beber e cozinhar. Existia, ainda, um paneleiro de metal enferrujado. Não tinham luz elétrica. Lamparinas de querosene ardiam até certo horário da noite. Dentro em breve o carroceiro as apagava e todos se aquietavam nas suas redes.

Ruth apresentava nos olhos castanhos um brilho de regozijo. Possuía experiência em não ter o que oferecer às suas crias em diversas manhãs e noites. Naquele instante, entretanto, a situação os favorecia. Oposto de outras vezes, quando as refeições se resumiam a farinha misturada com açúcar ou café aguado.

Nos últimos meses, quem sabe por causa da inflação nas alturas, ela estava sem conseguir dinheiro regularmente. Sobretudo porque a sua principal cliente, casada com um médico da Marinha, fora embora com o marido para Alagoas, onde ofereceram ao homem vantagem econômica e progressão na carreira. Os demais serviços que Ruth adquiria não passavam de rendimentos pinga-pinga. Pedro sustentava a barra mais pesada, embora o seu lucro também fosse imprevisível.

Os meninos se mostravam felizes. A mãe dispôs a garrafa do café, os pães dormidos, meia lata de margarina e umas batatas-doces que guardara da noite anterior. Viviam um momento de modesta fortuna. Os rebentos comiam gulosamente. Copiando a genitora, um deles colocou uma colherinha de margarina no café, conferindo a este um sabor especial. Era mais um dia sem o pesadelo da fome.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 27/08/2023 - 10:48h

Modesta fortuna

Por Marcos FerreiraModesta fortuna

Quando amanheceu nas lonjuras daquele lugarejo, ponto limítrofe entre a zona urbana e a rural, onde os raios da manhã surgiam mais cedo que na selva de pedra, a jovem senhora Ruth, de quarenta e um anos, dispunha apenas de uma soma hoje equivalente a trinta reais para adquirir o alimento para os filhos — dois meninos miúdos e três meninas maiores que os irmãos, todos com idades entre dez e quatro anos. Esta, portanto, a prole do carroceiro Pedro e da lavadeira Ruth.

Era meados de 1980. A carestia campeava e impunha privações e infringia constrangimentos às famílias mais pobres daquela localidade de Barreiro Seco. Com as sombras a ocuparem a maior parte da precária residência, edificação composta de madeira e barro, a mulher desarmou a rede dela e a do marido, que já havia saído para o Centro, especificamente o entorno do Mercado Central, em busca de pequenos fretes. Algo incerto e minguado naqueles tempos de escassez. Não raro o senhor Pedro Soares, já pegando cinquenta anos, regressava de mãos abanando. Tirava o chapéu, pendurava-o numa ponta de ripa da parede, e meneava a cabeça negativamente perante Ruth. Com esse simples gesto ele não carecia de falar mais nada.

Cedinho, então, as crianças começaram a acordar. Todas analfabetas, a exemplo dos pais. Àquela altura Ruth se antecipara e dera um pulo até a única panificadora nas imediações e adquirira boa quantidade de pães da véspera, que afinal de contas pensava-se tão nutritivos quanto os assados minutos antes e custavam a metade do preço. Daí a pouco o leiteiro gritou lá fora. Nesse dia, no entanto, os Soares tomariam apenas o café preto, cujo pó fora reaproveitado da tarde passada.

A senhora Ruth desenrolou a esteira de palha sobre o chão batido da cozinha. Essas peças artesanais eram uma opção bastante utilizada pela gente pobre, quase sem mobília. Um tanto bamba, a única mesa de que dispunham não comportava todos. Na cozinha dos Soares, além de um fogão a lenha, cuja tisna enegrecia as paredes e as picumãs que rendilhavam o teto, contava-se com dois potes de barro para água de beber e cozinhar. Existia, ainda, um paneleiro de metal enferrujado. Não tinham luz elétrica. Lamparinas de querosene ardiam até certo horário da noite. Dentro em breve o carroceiro as apagava e todos se aquietavam nas suas redes.

Ruth apresentava nos olhos castanhos um brilho de regozijo. Possuía experiência em não ter o que oferecer às suas crias em diversas manhãs e noites. Naquele instante, entretanto, a situação os favorecia. Oposto de outras vezes, quando as refeições se resumiam a farinha misturada com açúcar ou café aguado.

Nos últimos meses, quem sabe por causa da inflação nas alturas, ela estava sem conseguir dinheiro regularmente. Sobretudo porque a sua principal cliente, casada com um médico da Marinha, fora embora com o marido para Alagoas, onde ofereceram ao homem vantagem econômica e progressão na carreira. Os demais serviços que Ruth adquiria não passavam de rendimentos pinga-pinga. Pedro sustentava a barra mais pesada, embora o seu lucro também fosse imprevisível.

Os meninos se mostravam felizes. A mãe dispôs a garrafa do café, os pães dormidos, meia lata de margarina e umas batatas-doces que guardara da noite anterior. Viviam um momento de modesta fortuna. Os rebentos comiam gulosamente. Copiando a genitora, um deles colocou uma colherinha de margarina no café, conferindo a este um sabor especial. Era mais um dia sem o pesadelo da fome.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 06/08/2023 - 08:20h

Olhos profundos

Por Marcos Ferreira

Getty Images (Foto ilustrativa)

Getty Images (Foto ilustrativa)

Talvez o leitor já esteja farto desse assunto. O assunto dos necessitados, das pessoas que estão por aí na pior, na pobreza extrema, caídas na sarjeta. Talvez eu tenha batido demais nessa tecla. Ah! Que se exploda o teclado!

Naquele dia (já era noite, aliás) fui a um supermercado próximo à minha casa. Fiz algumas compras, especialmente itens para abastecer a geladeira, e me encaminhei ao pátio, onde eu havia deixado a minha moto. Foi aí que avistei, sentadinha na calçada, à meia-luz, uma criança de uns oito ou dez anos. Pareceu-me entregue à própria sorte, rifada entre os perigos e armadilhas desta cidade violenta.

Hoje, transcorrido mais de um mês, resolvi escrever sobre tal encontro. A demora se deve ao fato de que fiquei impactado, congelei, travei enquanto cronista. Isto justamente porque aquela garota não era qualquer uma. Muito diversa dos menores de rua que sabemos existirem na maior parte do mundo. Apiedado, aproximei-me dela. Talvez eu pudesse ajudá-la de algum modo. Sim. Estou convicto de que, muito ou pouco, cada um de nós pode mitigar o padecimento dos desvalidos.

Portanto, como eu ia dizendo, acheguei-me até à frágil desconhecida. E essa aproximação me revelou alguns detalhes graciosos quanto amenos daquela menininha negra, de uma beleza singular. Seus olhos eram garços, magnéticos, profundos, entre o verde e o azul, emoldurados num rosto belo, quiçá exótico.

De certo modo, vale a pena citar, a guria não estava de todo sozinha. Entre seus braços, carinhosamente, segurava um lindo gatinho preto cujos olhos também eram de um azul intenso, luzidio. Um sugeria proteger o outro. Todavia, neste município notoriamente classificado como um dos mais perigosos do planeta, a situação em que ambos se encontravam inspirava temeridade. Ao menos a mim. Tentei conversar com ela, afagar o bichano, mas se retraiu, naturalmente me fazendo compreender que eu não devia ultrapassar o limite do solilóquio a que me restringiu.

Cabelos ondulados caídos nos ombros, miudinha e assustadiça, vestia umas roupinhas humildes e calçava sandálias de borracha. Ainda assim, sobrepondo a humildade, tinha um aspecto íntegro, malcuidada, mas altiva.

Lá estavam aquelas duas criaturinhas ignoradas numa calçada do estacionamento, junto a uma parede. Consumidores de sortidos naipes e perfis iam e vinham sem dar pela presença de ambos. Os pequenos pareciam como que invisíveis à percepção da apressada clientela. Fiz-lhe algumas perguntas e ela me respondeu apenas balançando a cabeça afirmativa ou negativamente. Por exemplo, expressou um não quando lhe indaguei se gostaria que eu lhe comprasse algum alimento.

Não quis. A seguir, porém, ao inquirir se aceitaria um salgado, meneou a cabeça de modo afirmativo. Botei minhas compras no chão, pertinho dela, e voltei para o supermercado no intuito de comprar a iguaria que ela aprovara. Naquele horário, quase oito horas, já não havia no balcão dos salgados muitas opções. Poucas, na realidade. Restavam tão só uma fatia de pizza de calabresa e um rissole de queijo. Peguei os dois, além de uma garrafinha de suco supostamente natural, e fui mais uma vez ao também suposto caixa rápido. Ao todo demorei uns quinze minutos.

Quando cheguei ao local onde os deixara, para minha completa decepção, encontrei unicamente as três sacolas com minhas compras junto à parede. Aquela enigmática dupla havia sumido. De tal maneira que não possuo convicção do que vi. Então, se alguém tiver alguma notícia do paradeiro de ambos, da bela pequenina e do seu lindo gatinho de olhos azuis, gentileza comunicar a este cronista.

Não faço ideia de onde estejam a esta hora, ou se existem só na minha imaginação, contudo, não sendo outra de minhas fantastiquices, sinto que necessitam de nosso amparo. Pois nesta terra, hoje tão marcada pela violência, ouso dizer que até os fantasmas correm perigo. Imaginem dois seres naquelas condições. Depois de um mês e poucos dias, enfim, não tenho nenhuma certeza sobre coisa alguma.

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domingo - 18/06/2023 - 08:38h

O enigma de Sherlock

Por Marcos FerreiraSherlock Holmes (1)Logo que abriu o portão, por volta das nove da noite, Emília Reis avistou o corpo amarronzado no fim da garagem. Seu coração disparou de imediato. Aquele era um típico siamês, adotado ainda pequenino nas ruas, contudo se tornara bastante bonito e não menos mimado por sua tutora. Depois da separação, além da casa e do carro, ela ficara também com Sherlock. Eis o nome da vítima. Emília desceu do carro aos prantos.

— Oh, Senhor! Não me tire o meu Sherlock!

Tarde demais. Porque o Altíssimo, que tudo sabe, tudo vê e tudo pode, deve ter assuntos mais urgentes para se ocupar no Reino dos Céus.

Perto da boca do animal estava uma pequena poça de sangue. Não muito distante se encontrava um rato de médio porte também morto. Então, ao contrário das intrincadas histórias do famoso investigador (o guapo detetive Holmes) ali não existia nenhum mistério que valesse a pena ser averiguado.

A causa da morte do protegido daquela mulher era algo de uma clareza solar. O aclamado britânico não se prestaria a solucionar o óbvio, pois o sinistro se tratava de uma evidente fatalidade. Concluiria que Sherlock fenecera por envenenamento graças ao rato, que terminou de morrer nas garras do bichano.

Secretária da Universidade Estadual de Vila Negra, a jovem senhora saíra mais cedo àquela noite, visto que habitualmente deixava o serviço às dez. Nessa ocasião, acometida por uma enxaqueca que resistia aos analgésicos, largou o expediente antes do horário costumeiro. Passados quinze ou vinte minutos sobreveio o choque.

Depois de tocar em Sherlock e constatar que o corpo se enrijecera, ela desmoronou e decidiu que o enterraria no quintal. Seria isto o mínimo que ele merecia. Então, com os nervos muito abalados, sentiu que não seria capaz de realizar o sepultamento de Sherlock.

Lembrou-se do vizinho Fernando, motorista de táxi morador de uma residência defronte à sua. O problema era que Fernando quase não parava em casa, isto devido àquela atividade e à numerosa clientela. Portanto, seria uma sorte encontrá-lo. Ainda assim, desnorteada e com o rosto banhado de lágrimas, foi até lá. Bateu ao portão, chamou pela esposa do homem, com quem tinha maior intimidade, e em breve o portão foi aberto.

— Pois não, senhora Emília — falou Fernando.

— Graças ao bom Deus, você está em casa!

Ela continuava com os olhos lacrimosos.

— O que aconteceu, vizinha. Posso ajudar?

— Meu Sherlock morreu. Foi envenenado.

— Lamento. Geralmente é por conta de ratos.

— Sim. Tem um morto na minha garagem.

— O que deseja que eu faça? Pode dizer.

— Eu gostaria que o enterrasse na parte de trás do meu quintal. Desculpe lhe pedir uma coisa dessas, mas não posso simplesmente jogá-lo fora.

— Farei o que deseja. Eu tenho uma pá.

— Desculpem mesmo por incomodá-los.

— Não se preocupe. Darei conta do serviço.

No próprio instante em que Fernando abriu o portão, Navegantes, sua mulher, já estava ao seu lado e ouviu toda a conversa. A moça convidou a vizinha a entrar, ofereceu-lhe um pouco de água, todavia ela recusou, alegando que precisava acender a luz de trás. Então, de posse da sua ferramenta, Fernando foi abrindo a cova, cuja terra era um tanto fofa.

Daí a pouco, antes que o homem enterrasse o siamês, Emília entregou ao taxista uma pequena toalha e pediu que Sherlock fosse embrulhado nesta. Dessa maneira o vizinho procedeu. A cova, com aproximadamente setenta centímetros de profundidade, talvez não fosse tão funda, mas era o bastante para sepultar aquele cadáver com cerca de um ano.

No dia seguinte, antes das seis horas, a mulher se levantou ainda entristecida e foi dar uma olhada no local onde Sherlock fora enterrado. Nesse instante ela tomou outro grande susto. Pois, de maneira bizarra, havia sobre a sepultura uma bela e pequenina roseira de flores miúdas e vermelhas. Atônita, impactada, de novo foi à residência dos vizinhos, apesar de ser demasiado cedo, e narrou ao casal o que havia encontrado.

— O que quer que eu faça dessa vez? — indagou Fernando. — Continuo à sua disposição. Quero ver isso. É algo de fato inexplicável.

— Preciso que você desenterre o Sherlock, por favor! Do contrário, meus amigos, eu sei que não terei mais sossego. Como pode uma planta desse tipo nascer assim, da noite para o dia, justamente sobre a cova do meu gatinho?

— Vou buscar a pá — disse Fernando, intrigado.

O rapaz primeiramente arrancou a roseira pela raiz, que não era tão arraigada. Após foi reescavando com cuidado, paleando a terra úmida até o ponto onde se esperava encontrar o corpo do felino. Daí a pouco, para a surpresa geral, Fernando retirou do buraco (totalmente intacta) nada mais que a toalha. Não se imagina como Sherlock desaparecera. Quem sabe esse seja um mistério para o célebre detetive desvendar.

A partir de agora, talvez, o senhor Holmes decida voltar os seus talentos investigativos para o sumiço do bem-amado Sherlock e o repentino aparecimento da roseira. Como se sabe, há um provérbio que diz que os gatos têm sete vidas.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 09/04/2023 - 04:38h

Fatalidades

Por Marcos Ferreira

Hoje, exatamente hoje, completam-se dois anos da trágica morte de um pardal aqui na minha rua. “Que fato irrelevante!” Protestará alguém pregueando a testa, um cristão ou cristã cuja existência é tão concreta e objetiva quanto as quatro operações de aritmética; ciência exata que por anos me assombrou.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Entre outras coisas, jamais me dei bem com os algarismos. Mas isso nunca foi novidade.

Bom. Eu falava sobre a morte do pardalzinho. Ocorreu no fim de uma tarde de sábado, 9 de abril de 2021, horas antes do meu aniversário. Sim, aquilo foi uma tragédia. O coitado não teve a menor chance de empreender fuga. Pousou perto do arame farpado. Eu estava na calçada com uma pequena xícara de café. Assisti a tudo. Fiquei perplexo, o coração aos pulos. Súbito um gato marrom irrompeu de dentro do mato que encobria parte da cerca do terreno e capturou aquele ser alado.

Embora eu tenha instintivamente emitido um grito no intuito de assustar o bichano e ele largar o pobre do pássaro, não pude fazer mais nada. Depois de cravar suas unhas e presas na vítima, logo o felino arrepiou carreira, escafedeu-se rapidamente por entre o matagal e eu fiquei estático, a boca semiaberta.

Por causa do meu aniversário, como podem concluir, gravei essa data na memória. Dali há mais treze meses seria a minha vez de me despedir deste plano físico. Fui vitimado por uma bala perdida quando da troca de tiros entre integrantes de uma facção criminosa e homens da Força Nacional.

O tiro, disparado não sei por qual dos lados, entrou pelas costelas e atingiu meus pulmões. Fui socorrido pelos policiais, levado à urgência do Hospital Regional Tancredo Neves, aqui em Vila Negra, mas era muito tarde. Quando acordei eu já estava num caixão, sendo velado em casa.

Presenciei a minha família em lágrimas. Pude sentir o cheiro das velas e das rosas. Vizinhos entravam e saíam, contudo ninguém se apercebeu da minha presença. Meu rosto estava lívido, empalidecido, os dedos cruzados sobre o peito. Não pude ver, claro, o ferimento das costelas. Hoje, enfim, eu me lembro do pardalzinho. Desde então vago a esmo em meio a uma incalculável multidão sem matéria.

— Sinto muito! — talvez alguém diga.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
quinta-feira - 23/02/2023 - 20:22h
Num distante reino...

A fábula do cachorro ‘mijador’ e a Cosern

Arte: ajustes do Canal BCS

Arte: ajustes do Canal BCS

Há muitos e muitos séculos, no distante Reino dos Potiguares, era comum que a cada neblina ou mesmo chuva mais intensa, seus habitantes ficassem sem energia elétrica. Também somavam prejuízos com queima de equipamentos eletrodomésticos.

Nesse tempo, até se tinha a crença de que a empresa pública concessionária do serviço, conhecida por Cosern, não era responsável por tudo ou, pelo menos, em relação à maior parte dos problemas.

A culpa era do cachorro mijador, um ser de quatro patas que mesmo inocentemente, apenas seguindo seus instintos e levado por necessidade fisiológica, acabava por causar tantos transtornos à população

Virou lenda a crença de que o mijador ao levantar uma das patas e urinar em qualquer poste de iluminação, imediatamente causava blecaute.

Nos dias atuais, com o retorno do mesmo problema no distante Reino dos Potiguares, o comentário entre os súditos é de que o doguinho está de volta também. Agora, com outra pelagem e nome: Neoenergia Cosern.

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domingo - 11/09/2022 - 14:24h

Maranhão – Capítulo V

Por Inácio Augusto de Almeida  pagamento, dinheiro, salário, folha,

– O Doutor esteve por aqui procurando por você.

– Por mim, Lopes? O que ele quer comigo?

– Parece que é para você ir a Vargem Grande. Negócio de carregar um teodolito. Sei lá, parece que o nome é este. Diz ele que é uma peça muito pesada e precisa de um homem forte como você para carregá-la.

Sandoval afastou a trunfa de cabelos que teimava em cobrir-lhe os olhos. Não respondeu de imediato ao Lopes. Querer ir não queria, mas estava sem dinheiro até para comer. Às vezes,  virava as noites estudando como uma forma de espantar a fome. Ontem tinha sido uma delas. Fazer o quê…

– E ele paga bem?

– Se paga bem eu não sei. Mas que ele vai lhe pagar, vai. Ele é safadinho mas não é doido, há, há, há.

– Quando ele aparecer por aqui, diz que eu estou em frente ao Hotel Central. Se a grana compensar, se for coisa de eu passar lá dez dias e o dinheiro que eu ganhar der para eu comer vinte dias, eu vou.

– Vai dar é para mais.

Olhou bem para a estátua de João Lisboa. E lembrou-se de que não tinha visto ainda em São Luís nenhuma estátua de Manuel Bequimão. Continuou andando e quando passava na na praça Benedito Leite, já quase em frente ao Hotel Central, viu uma outra estátua. Mas também não era de Bequimão…

“Aos vencedores, tudo. Aos derrotados as cebolas. E isto enquanto estiverem baratas. Mas Bequimão não foi um derrotado. Bequimão foi o mais vitorioso de todos os maranhenses. Um dia, São Luís terá uma enorme estátua deste grande homem. Um dia, a maior praça desta cidade terá o seu nome. Por que não um grande parque, um enorme parque com o seu nome?”

– Sandoval.

– Sandoval, acorda homem! O Doutor quer falar contigo. É para ir a …

– Já sei, já sei. Vamos lá. Dependendo do dinheiro, eu viajo agora.

ACOMPANHE

Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

Leia tambémMaranhão – Capítulo II;

Leia tambémMaranhão – Capítulo III;

Leia também: Maranhão – Capítulo IV.

Inácio Augusto de Almeida é Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 04/09/2022 - 12:34h

Maranhão – Capítulo IV

Por Inácio Augusto de Almeida

Juan Lopez tinha o costume de passar as suas horas livres no tombadilho do Regina. O barulho das ondas a baterem no casco do navio de Alonso de Ojeda. E aquele marulhar era, para Lopez, como uma canção de ninar. Fitando as estrelas da noite clara daquele luar de agosto, recordava-se da sua Espanha querida.

Foto ilustrativa (Web)

Foto ilustrativa (Web)

“Carmem, Carmem. Com quem estará Carmem dormindo esta noite?”

No céu mais do que estrelado daquele verão no Atlântico Sul surgiu como por encanto uma pequena luz. A princípio, Juan Lopez não fez muito caso daquele brilho. Acostumado a navegar por todos os oceanos do planeta, já vira de tudo. Numa ressaca braba, saindo de um porto que o porre fez com que esquecesse o nome, viu uma sereia que subiu a amurada deste mesmo Regina para lhe convidar a um mergulho. Só não afundou com aquela coisa linda porque já tinha ouvido falar de Ulisses. Estava bêbado, sim, mas não era doido. Nem doido, nem besta.

Juan Lopez riu ao se lembrar da sereia. E lembrou-se também da Greta. Greta, a mais envolvente de todas as mulheres de cais do porto.

Mas a luz se tornava cada vez mais forte. O que antes parecia uma moeda de dobrão, agora já se mostrava do tamanho da lua. E com mais brilho, mesmo sendo uma noite de fase cheia.

Quando observou que aquela luz começava a se movimentar com uma velocidade estonteante, fazendo movimentos curvilíneos, deu um salto e, de pé, tentando se equilibrar ao balanço do navio, passou a gritar feito um desesperado. Alguns marujos que acorreram ainda conseguiram ver alguma coisa diferente no céu. Mas a grande maioria nada viu. E para o comandante Alonso de Ojeda, aquela gritaria toda não tinha passado de mais uma presepada do Lopez.

–  Quatro dias a ferro, para não assustar a marujada. E outra desta eu te deixo no primeiro chão de terra que avistar.

Mesmo já estando quase que acostumado à solitária, Lopez sentia muita revolta. Ele tinha visto a luz, não inventara nada. Outros também tinham visto, mas por covardia, calavam-se. No fundo do seu coração crescia um sentimento enorme de revolta, de vontade de tudo e de nada.

A luz do sol doía-lhe os olhos. Levou algum tempo até voltar a se acostumar com a claridade. Só então se deu conta de que o Regina já não navegava em mar aberto. Com as velas arriadas, lentamente se aproximava de uma praia de ondas tranquilas e de águas límpidas, transparentes. Nas brancas areias, dunas cobertas de uma vegetação rasteira, nenhuma presença de animais ou de selvagens.

– Arriar bote, gritou Alonso.

– Quantos homens mando no bote?

– Mande cinco, Júlio.

E cinco homens foram mandados à terra. E só quatro homens voltaram.

ACOMPANHE

Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

Leia tambémMaranhão – Capítulo II;

Leia também: Maranhão – Capítulo III.

Inácio Augusto de Almeida é Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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Categoria(s): Conto/Romance
  • Repet
domingo - 28/08/2022 - 13:24h

Maranhão – Capítulo III

Por Inácio Augusto de Almeida

Do alto dos seus cento e quarenta e cinco centímetros, Conversinha abriu o seu riso safado. E, fazendo-se de vítima:

– Você me explora, Bórgia. Me coloca em missões impossíveis e ainda me acusa de ser, dentro deste jornal, um privilegiado. Ou será que ir a Belém, ficar dentro daqueles hotéis, enfrentar coquetéis, jantares e discursos, é tarefa para um jornalista qualquer? Só um vocacionado como eu suporta tarefa tamanha.

Foto ilustrativa (Web)

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– Explora o que, seu cascateiro. Quando é para ir ao Tirirical esperar a chegada de um político, você pula fora. Até adoecer, adoece.

– Bórgia, aeroporto é lugar de se esperar avião para embarcar.

– Você é como os outros que eu conheço. Dissimulado, ingrato e ambicioso.

– Tudo bem, Bórgia, tudo bem. Mas não se esqueça da verba da Secretaria de Comunicação Social que eu puxei para o jornal.

– Vai viver eternamente disto? Vai?

Conversinha resolveu sair da redação. No dia em que o Bórgia entrava nas suas enxaquecas… Até achar que os outros eram os dissimulados, ingratos e ambiciosos, ele achava. O Bórgia achando os outros ambiciosos… Dá para rir…

Na sorveteria que ficava no Ferro de Engomar, bem em frente ao jornal, pediu um sorvete de bacuri. Cada colherada era uma resmungada e uma praga atirada no Bórgia. O rapazinho de cabelos à escovinha começou a rir da sua maluquice. Ficou sério e concluiu que o Bórgia o estava levando à loucura. Nem mesmo se lembrou que tinha passado uma semana sem aparecer no jornal.

– Ainda bem, que ele não estava cantando nenhum tango.

– Conversinha. Tomando sorvete? Eita ressaca braba, hein?

– A ressaca não é nada. Brabo mesmo é enfrentar o Bórgia. Ainda bem que consegui o vale. Dele estou livre mais uma semana. E você, Arrupiado, deu-se bem no jogo?

ACOMPANHE

Leia também: Maranhão – Capítulo I;

Leia também: Maranhão – Capítulo II.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 28/08/2022 - 04:40h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 11

Brinquedo mortífero

Por Marcos Ferreira 

Depois que foi brutalmente agredido naquela noite por três homens encapuzados, Jaime Peçanha decidiu não esperar por outra sova. Sua psique sofreu grande desequilíbrio desde o grave incidente. É comum ele passar longo tempo elaborando mentalmente um revide contra os seus incógnitos agressores e supostos mandantes daquela ação covarde. Em sua paranoia, culpa o prefeito Wallace Batista.

A verdade é que Jaime nunca bateu muito bem da bola. É instável e enfermiço como quase todos que padecem de transtorno bipolar. O ataque aconteceu na obscura ruazinha que margeia a Biblioteca Municipal de Mondrongo, após ele deixar o lançamento do livro de crônicas do amigo advogado Luciano Aires, antes das nove horas. Por conta disso, então, Peçanha perdeu o amor a uma significativa quantia de dinheiro e decidiu se armar. Recorrendo ao valor que lhe foi pago pela rescisão trabalhista na Tribuna Mondronguense, sacou três mil e quinhentos reais e os aplicou na aquisição de um revólver calibre 38 com capacidade para oito disparos.

Foto própria do arquivo do Canal BCS (caráter ilustrativo)

Foto própria do arquivo do Canal BCS (caráter ilustrativo)

O brinquedinho, um Taurus seminovo com numeração raspada, foi adquirido por intermédio de João Claudione, amigo de infância de Jaime que se tornou traficante de armas e drogas. No mercado legal o revólver pode custar em torno dos sete mil reais. Em aço inox fosco, com mira ajustável, coronha anatômica e cano de seis polegadas e meia, concilia desempenho de ponta e alto poder de fogo.

— Ele é uma belezinha — gabou o traficante.

— Hum. Também gostei — admitiu Jaime.

— Vale o investimento — disse o marginal.

— Faça um precinho camarada na munição.

— Com certeza, meu peixe… Deixe comigo.

— Quanto tem? Não precisa ser das especiais.

— O quanto quiser — respondeu o meliante.

— Não sei ao certo. Talvez umas cinquenta.

— Cinquenta vão lhe custar só duzentos reais.

— Ok, Claudione. O seu preço está razoável.

— Isso é considerando a nossa velha amizade.

— Obrigado. Você sempre foi muito bacana.

— Não vá dizer que pegou um otário, hein?

— Claro que não, amigo. Nunca eu faria isso.

— Não, não. É que eu sou metido a humorista.

— Sim. Essa sua veia é bem antiga, meu caro.

— Meu sonho era ir ao programa do Rô Sabóia.

— Bem, isso agora está bastante complicado.

— É verdade. E nem programa ele tinha mais.

— Seja como for, o Rô Sabóia foi um gigante.

— Com certeza! E eu serei um eterno fã dele.

— Apesar dessa vida, você tem alma de artista.

— O meu desejo era mesmo ser um humorista.

— Hum. Quem sabe ainda haja tempo, rapaz.

— Depois que a gente entra nesse mundo, não tem mais saída. Talvez eu até possua talento para fazer as minhas piadinhas que alguns amigos acham engraçadas, outros nem tanto, porém enveredei pela bandidagem e não tem mais volta. De possível artista passei a bandido de quinta categoria. Um fracasso!

— Não deve ser tão severo consigo mesmo.

— Já fiz tanta coisa que você nem imagina.

— Não precisa me contar nada, Claudione. Seja lá o que tenha feito, continuamos amigos. Nunca vou esquecer que você me salvava dos moleques da escola. Alguns queriam bater em mim e você botava todos para correr. Acho que você foi o meu primeiro super-herói. Os safados morriam de medo de você.

— E você me salvava nas avalições de português. Sempre fui um jegue em se tratando de língua portuguesa. Já você era craque.

— Mas você me socorria em matemática.

— Me lembro. Foram bons tempos aqueles.

— Pois é… Foram inesquecíveis para mim.

— Faço minhas as suas palavras, meu chapa.

Jaime chegou em casa totalmente deslumbrado com a compra que fizera. Sozinho a tarde inteira, atirou-se sobre a cama e ficou lambendo a “cria” durante horas. Só bastante depois guardou o revólver e foi tomar um banho.

A esposa, Laura Gondim, e o amigo jornalista Reginaldo Marinho viram a compra do revólver como uma medida arriscada para o próprio Jaime, tendo em vista que ele, pelo que se supõe, é meramente um homem de letras, e não de armas. Reginaldo, temendo o pior, recordou que as estatísticas apontam que a maior parte das pessoas que tentam reagir a algum tipo de abordagem, mesmo que se trate de violência psicológica ou física, não raro acabam mortas por seus agressores, pois estes, ao contrário de suas vítimas, sempre contam com o elemento surpresa em suas atuações criminosas. Por sua vez, Peçanha se escora no fato de haver servido no Exército e trabalhado durante um curto período em uma empresa seguradora de numerários.

À noite, na mesa da cozinha, contando com a presença de Reginaldo, que tomava sopa com o casal, Jaime encostou o prato e foi ao quarto. Daí a pouco retornou com uma caixa de sapatos e a colocou à sua direita, na ponta da mesa. Deu mais duas colheradas na sopa, limpou os lábios finos com um guardanapo de papel e abriu a caixa. Dela, enrolado numa flanela verde, retirou o pau de fogo.

— Não precisava ter trazido essa coisa para cá, justamente no momento em que estamos jantando! É assim que agradece ao Nosso Senhor pela refeição?! — protestou Laura. — Se queria apenas mostrar a Reginaldo, que esperasse acabarmos a comida. Só de olhar para isso fico com os meus nervos abalados. Sabe muito bem que não quero tal objeto em minha casa. Mas aí você me aparece logo com um troço desses. Para mim, eu já lhe disse, isso simboliza violência, cheira à desgraça, à morte. Como se não bastasse, ainda tem a questão da origem do revólver, cuja numeração, como me contou, está raspada. Além desse detalhe, para complicar de vez a sua situação, você se encontra completamente ilegal, porque não possui um porte de arma.

— Vejam só como ele é bonito — disse Jaime.

— Mas está carregado? — inquiriu Reginaldo.

— Claro que não. Deixei a munição lá dentro.

— Ah, pelo menos isso — resmungou Laura.

— Sinta só o peso. Isto sem os oito cartuchos.

Jaime passou o trinta e oito para Reginaldo Marinho. O repórter de política o recebeu em meio a um leve suspiro, exibindo um excesso de cuidado, como se tivesse em mãos uma delicada peça de cristal. Desocupou uma das mãos e aprumou os óculos. Então, com certo brilho nos olhos, conferiu a empunhadura, fez mira no relógio oblongo pendurado na parede à sua frente, pressionou de maneira suave o gatilho, mas sem puxá-lo. A seguir, como se tivesse intimidade com aquilo, destravou o dispositivo e abriu o tambor. Examinou mais detidamente as oito culatras e comentou algo acerca do cano de seis polegadas e meia e sobre a possível dificuldade de andar por aí com uma arma tão grande e pesada na cintura. Jaime sorriu e disse que essa questão não seria um problema; o importante era não ser pego pela polícia com ela no cós.

— Lembre-se de que agora você não tem mais um crachá da imprensa pendurado no bolso da camisa. Isso já me salvou em algumas blitze, numa época em que a minha habilitação estava atrasada. O policial de trânsito viu o meu crachá da Tribuna e aí mandou logo que eu prosseguisse — observou Reginaldo.

— Como hoje estou a pé, não corro esse risco.

— E quanto à munição? — indagou Reginaldo.

— Hum. Comprei apenas cinquenta unidades.

— À mesma pessoa que vendeu o revólver?

— Exato. Por um preço bem mais em conta.

— Até agora não me disse quem é esse sujeito — interveio Laura. — Bom indivíduo não deve ser. Do contrário não lhe venderia uma arma com numeração raspada. Isso não pode ter boa procedência de maneira alguma.

— Comprei a um sargento da Polícia Militar. Somos amigos desde a infância, embora não tenhamos muito contato — mentiu Jaime.

— Sargento ou não, a arma continua ilegal — sustentou Laura. — Esse sargento, não precisa nem que eu lhe diga, está infringindo a lei.

— Mas nem tudo tem que ser ao pé da letra.

— Certas coisas, sim — ponderou Reginaldo.

— Ah, vocês dois estão sendo muito caxias. Agora o que preciso é encontrar um bom lugar para dar uns tiros. De preferência, Reginaldo, em alguma propriedade ou estrada carroçável a certa distância de Mondrongo; na zona rural. Creio que a minha pontaria está um pouco enferrujada. O que é compreensível, pois não dou um atiro há nem sei quanto tempo. Eu gostaria que você viesse comigo.

— Pode ser — respondeu Reginaldo de pronto.

— É bom que tomem bastante cuidado — alertou-os Laura. — Saibam que os disparos podem atrair a polícia. Aí a enrascada será das piores. Certamente os dois irão em cana. Se isso acontecer, não será por falta de aviso.

— Já pensei nisso. Vou escolher bem o lugar. Não posso dar bobeira. Do jeito que ando azarado, é capaz de eu cair de costas e quebrar o pau.

— Que piadinha sem graça, Jaime — disse Laura.

Naquela noite, excitado com a aquisição do revólver, que veio com coldre original, Jaime não tomou parte na cama com Laura e Reginaldo. Ficou nas cadeiras da área fronteira da casa, fumando e acariciando o seu canhão portátil. Nesse ensejo, ao contrário do momento do jantar, ele havia colocado os oito cartuchos no tambor. Depois do sexo, Reginaldo e Laura foram se juntar a Jaime para fumar. Os três falavam baixinho, quase silabicamente. Laura observou com reprovação o fato de o marido ainda estar ali com a arma, como se esta agora fosse um totem, seu principal objeto do desejo. Por sua vez, Reginaldo murmurou que achava que ia chover, o que findou ocorrendo. Mas foi apenas uma rápida garoa que sequer interferiu na temperatura.

Mais tarde, quando estirou-se na cama a fim somente de dormir, pois naquela noite ele não faria amor com Laura, que havia transado com o primo Reginaldo algum tempo antes, o escritor Jaime Peçanha estava sem sono. Fechava os olhos por alguns minutos e depois tornava a abri-los, alternando um lado e outro do rosto no travesseiro. A esposa, ao contrário, dormiu logo. Pois precisaria acordar cedo para assumir o seu posto de enfermeira da UTI do Hospital Regional Tancredo Neves.

Mais uma vez, como em outras ocasiões, a mente doentia de Jaime entrava num furioso turbilhão de pensamentos destrutivos. Ali na meia-luz do quarto, enquanto Laura ressonava, ele se imaginava com o seu poderoso revólver em punho alvejando todos aqueles que considerava seus inimigos e desafetos. Sobretudo pessoas pelas quais alimentava uma bílis sombria, corrosiva, como o prefeito Wallace Batista, o diretor administrativo da Tribuna Mondronguense, Alberto Cardoso, e o atual presidente da Câmara Municipal, o palavroso vereador Leonardo Jardim. Esses três, sobretudo, seriam executados com requintes de crueldade, pois receberiam os primeiros disparos em locais que não implicassem em morte imediata, como nas pernas e nos braços.

Pensava também num meio de identificar e fazer sofrer da mesma maneira os três elementos que o agrediram na noite em que ele deixou a Biblioteca Municipal de Mondrongo. Todos estavam encapuzados no instante do espancamento, repito, e vestidos com roupas pretas, camisas de mangas longas e luvas. Jaime não conseguiu ver sequer se algum deles possuía algo revelador como uma tatuagem.

Para eliminar os seus inimigos, concluiu que poderia se vestir como os homens que o atacaram na saída da Biblioteca. O alvo mais arriscado decerto seria o prefeitinho Wallace Batista, que não vai a lugar nenhum sem ao menos dois seguranças armados, possivelmente policiais militares à paisana, típicos meganhas de cabelos rebaixados, corpulentos, mal-encarados e usando óculos de sombra.

Até aí, recordemos, o paranoico escriba está se esquecendo de outro arquirrival: o tísico jornalista Mauro Mosca, do Diário do Oeste, conhecido no ramo de imprensa pela infame alcunha de Rato Branco, antonomásia esta que lhe foi colocada pelo próprio Jaime durante uma acirrada discussão que eles tiveram há muitos anos na redação do Diário. Isto, contudo, já foi dito em algum ponto deste folhetim. A verdade, ressalte-se, é que Rato Branco não é menos psicótico e vingativo que seu arqui-inimigo. Também foi dito que Mauro Mosca pode ter culpa no cartório e, quem sabe, ser o mandante da surra que seu desafeto sofreu naquela noite de sexta-feira.

Hoje, no entanto, Jaime supostamente possui uma forma com que se defender de um ataque dessa natureza. Quase não mais desgruda do seu brinquedo mortífero. Por simples experimentação ou por descontrole psíquico, tem andado com o revólver na cintura até dentro de casa. Parece não menos que insano.

Não adiantava. O sono não vinha. Deixou a cama, com cuidado para não acordar Laura. Foi às estantes de ferro, ora sem maior serventia, onde estavam uns poucos livros que não vendeu ao ganancioso sebista Antoniel Silva, dono do Sebo Verdugo, e notório lambe-botas da elite intelectual e financeira de Mondrongo, principalmente do prefeito Wallace Batista e do presidente da Câmara, o vereador Leonardo Jardim. Entre os exemplares ali dispostos, passando a mão para remover alguma poeira, escolheu dois títulos que ganhou há poucos dias de autores do estado. Foram as seguintes obras: Algodão Doce, volume de contos de Marcos Antonio Campos, e O Segredo da Ordem do Santo Sacrifício, romance vampiresco com um enredo “não recomendado a pessoas de pouca fé”, segundo o próprio escritor e filósofo Ayala Gurgel.

Insone, Jaime Peçanha varou a noite quase toda na área fronteira da casa, lendo alternadamente cada livro e fumando um cigarro atrás do outro. Na cintura da velha bermuda jeans, claro, portava o desconfortável revólver. Pode-se dizer que, ao menos por um instante, mostrando-se deveras interessado nas obras que lia, talvez tenha se livrado do fascínio que a referida arma exercia sobre ele.

Dali a uma semana, quando foi testar a pontaria numa propriedade rural disponibilizada pelo próprio traficante João Claudione, local este onde o criminoso oculta armas e drogas, Jaime levou folhas impressas com os rostos do prefeito Wallace Batista, do vereador Leonardo Amorim e do diretor administrativo da Tribuna Mondronguense, Alberto Cardoso. Colou-as em uma parede que sobrou de um velho galpão em ruínas. Serviram de alvo para cerca de quinze disparos. O delinquente João Claudione achou aquilo demasiado perturbador e emitiu este comentário:

— Esqueça essa gente. Pois não vale a pena.

— Ah, mas não se preocupe. Os rostos aí são casuais. Nada contra esses elementos. Estou apenas cuidando da pontaria e da minha defesa pessoal. Você sabe o que os encapuzados me fizeram. Olhe aqui o corte no meu supercílio. Ainda está bem visível. O pior é a cicatriz que eles deixaram no meu espírito.

Reginaldo, que acompanhava o treinamento com as mãos nos bolsos, não disparar nenhum tiro contra os alvos fixados por Peçanha. Haviam se dirigido ao local no carro de Reginaldo e este reprovou a ideia dos rostos desde o primeiro momento em que soube daquela escolha macabra. Outra coisa é que ele desconhecia a ficha do marginal João Claudione, apresentado como um agricultor e amigo do tal sargento de quem Jaime teria adquirido o revólver juntamente com a munição.

De fato, apesar do pouco treinamento, Jaime Peçanha não é o pior dos atiradores. Na verdade, diga-se, está longe disso. Perfurou os papéis com as caras dos seus desafetos em pelo menos dois locais certeiros a uma distância de aproximadamente vinte metros. Desse dia em diante, aonde quer que vá, quase não larga mais o revólver. Por vezes dorme com a arma debaixo do travesseiro, nas noites em que Laura está de plantão no hospital. Nem lhe passa pela cabeça que seu real e pior inimigo pode ser Mauro Mosca, aquele a quem ele sentenciou com o apelido de Rato Branco.

Quem sabe, quando menos esperarmos, o desmilinguido roedor ponha o rabo e o focinho de fora, saia da sua toca. Na “cidade que nunca leu um livro”, conforme declarou o avô do cangaceiro Lampião, tudo pode acontecer.

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 10.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 21/08/2022 - 14:20h

Maranhão – Capítulo II

Por Inácio Augusto de Almeida

Era um tipo baixinho, gordinho e tinha uma cara de safadinho. Andava sempre em companhia de um deficiente físico, a quem o Lopes costumava chamar de o único bideficiente físico do mundo. E explicava:

– Além do problema na perna, é deficiente, também, de caráter.

Foto ilustrativa (Web)

Foto ilustrativa (Web)

Mas a grande restrição não era feita ao bideficiente. O gordinho safadinho é que o Lopes não conseguia engolir. Mas como a profissão o obrigava a alguns sacrifícios…

– Doutor! Manda o quê, Doutor?

– Tô atrás do Sandoval. Preciso mandá-lo até Vargem Grande. Ele é forte e estamos precisando de um cabra forte para carregar o teodolito. Coisa de poucos dias, já que o trabalho da topografia está quase terminando.

– Então o trecho Vargem Grande/Urbano Santos está terminado?

– Não, Lopes, quase terminado. Se acabar logo como você quer, deixa de chegar dinheiro, há, há, há.

– Claro, claro (ladrãozinho safadinho). Mas o Sandoval só costuma aparecer aqui lá por volta das dez horas. Fica lendo até tarde.

– Pelo menos nestes dias que ele estiver carregando o teodolito não vai estragar a vista.

– Preste atenção no que eu vou lhe dizer, Doutor. O Sandoval ainda vai ser gente. E gente muito importante. Ele já tomou consciência de que somente através do estudo se consegue avançar na vida.

– Tá bom, Lopes. Me ache o Sandoval. Eu quero que ele viaje amanhã.

– Tudo bem, Doutor.

As portas de vai-e-vem do Grêmio 1º de Janeiro não paravam. Era um entra e sai constante.

“Rui Barbosa tinha razão. Como tinha. Eita nulidadezinha que não se cansa de triunfar, de rir da honra… Honra? Será que ele sabe o que é honra?”

Maurílio, dono do único laboratório de análises clínicas de São Luís, na sua indefectível indumentária branca, posou a mão no ombro do Lopes e o convidou a uma partida de sinuca.

– Vamos, meu Sócrates dos trópicos. Vamos a uma partida de bilhar?

– É o jeito, meu estimado “drácula”. Vamos às bolas, meu bom “vampiro”.

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Leia também: Maranhão – Capítulo I.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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domingo - 14/08/2022 - 13:12h

Maranhão – Capítulo I

Por Inácio Augusto de Almeida

Na Magalhães de Almeida, ladeira que leva ao mercado central, já começavam a circular os primeiros ônibus. Pequenos, de carrocerias de madeira, lembravam mais pequenas caixas de fósforos. O sol, ainda tímido, ensaiava iluminar a cidade que teimava em não despertar.mingau-de-maisena_22052020154755

Lopes caminhava em direção ao mingau de arroz da Socorro, o melhor mingau de arroz do Maranhão, e pensava em como era comum as boas intenções provocarem resultados desastrosos.

Lembrava-se de alguns políticos. E ria, ria mostrando os dentes brancos e bonitos. O bonde, talvez o primeiro daquela manhã, passou em direção ao cemitério de São Pantaleão. Sentia um pouco de cansaço. A noite mal dormida, bebera quase até às três com o Arrupiado. Mas o hábito de acordar cedo o colocava de pé junto com o sol. Era sempre assim.

A negra gorda, com um avental de duas semanas, foi logo enchendo o copo do seu mais fiel cliente. E com um sorriso puro: Diga, meu compadre. Diga aquela fala bonita que todo dia você diz.

Lopes a olhou bem dentro dos olhos. Sentiu o mingau quente a queimar-lhe a língua e soltou:

– As almas não morrem.

– Como é esta estória, compadre?

Lopes tomou outro gole de mingau. Passou as costas da mão na boca e, meio rindo meio sério, repetiu:

– As almas não morrem, comadre. Nunca, nunca morrem!

– Como assim?

– A comadre já viu o enterro de alguma?

Pagou o mingau com uma moeda, beijou a testa da Socorro e mais nada disse.

Enquanto atendia a outros fregueses, entre eles um menino de cabelos cortados à escovinha, vestido numa calça de jeans barato e já muito gasto, a minguazeira resmungava que o compadre Lopes não ia muito bem da bola. Ou é muito sono, ou juízo meio fraco. Diamba eu sei que não é. O compadre não é destas coisas.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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segunda-feira - 08/08/2022 - 16:48h
Cultura

Editora da Ufersa segue com inscrições para o seu I Concurso Literário

Concurso Literário da Ufersa - LogoEscritores do Rio Grande do Norte podem participar do I Concurso Literário da Edufersa, Editora da Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA). O concurso vai contemplar as categorias conto, poema e crônica.

É exigido texto inédito, escrito em língua portuguesa e em formato pdf.

As inscrições começaram ainda dia 12 de julho e vão até o dia 12 de setembro. Cada participante poderá concorrer em apenas uma categoria.

Serão selecionadas os 5 melhores contos; as 10 melhores crônicas e, os 20 melhores poemas.

As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas no site da Revista Informação em Cultura (RIC), após o cadastro no sistema.

Acesse o edital 

Como critério de avaliação serão considerados a originalidade e a relevância do texto; a qualidade estética e literária; a qualidade de escrita e a qualidade dos aspectos formais do texto. O resultado será divulgado no dia 18 de novembro de 2022 em evento a ser promovido pela Edufersa.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e YouTube AQUI.

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Categoria(s): Cultura
domingo - 24/04/2022 - 12:12h

A história se repete

Por Inácio Augusto de Almeida 

Chorou muito ao saber que seria deixado na escola. Olhou para a cartilha, o caderno e o lápis. Dos pais ouviu que teria muitos coleguinhas com quem brincar e ganharia uma nova tia.

Ficou virando as páginas da fina e pequena cartilha e via apenas riscos que na sua imaginação viravam animais e aves. Gostava muito do ratinho e, mais ainda, do passarinho que voava num céu muito lindo. Ficou pensativo e apontando para a figura que parecia a escada usada pela mãe para pegar frutas no quintal.Família, nova família,Quando apontou com o dedinho a figura, o pai com muita paciência disse ser a letra A.

De lancheira de plástico a tiracolo, onde a mãe colocou uma banana e um pão, seguiu para seu primeiro dia de escola. A cartilha, caderno e lápis o pai entregou à diretora.

Chorou, mas logo começou a sorrir com as peraltices dos coleguinhas e as brincadeiras organizadas pela tia.

Feliz ficou quando viu a letra A no quadro negro e lembrou do que o pai tinha lhe ensinado. E riu quando outros coleguinhas não sabiam que aquela figura era a primeira letra do alfabeto.

Manifestava-se, pela primeira vez, a alegria do sentir-se superior.

O tempo passou e chegou a época da primeira série.

Já conhecia todas as letras e conseguia formar palavras como pai, mãe e casa.

Na escola seguiu aprendendo e percebeu que agora levava para casa dever que fazia sempre com a ajuda da mãe ou do pai.

E assim, sempre ouvindo que era preciso estudar muito para na vida ser feliz, a criança viu no espelho o rosto se transformando com a chegada da penugem…

Na juventude o papo girava em torno do vestibular. Era vestibular e a Carteira de Motorista o que mais a turma visava para ser feliz.

O ingresso na Universidade era visto como a porta da felicidade. Estar realizando um curso superior e ter uma CNH era o tudo para todos que tinham como diversão os filmes das sessões dos sábados no PAX.

Quando conseguiu a CNH e o diploma percebeu que felicidade mesmo só casando e tendo filhos.

E casou e teve filhos.

Mas felicidade sem ter os filhos bem encaminhados? Como?

Daí se dedicou de corpo e alma a trabalhar na emancipação dos filhos. Filhos que hoje crescidos e bem posicionados na vida estavam.

Lembra-se das alegrias das festas de formatura, aprovação em concursos disputadíssimos e dos casamentos.

Agora estava certo de que a felicidade conheceria tão logo surgissem os netos para brincar de montar quebra-cabeças, jogar damas e fazer palavras cruzadas.

E os netos surgiram, mas sempre muito ocupados com jogos eletrônicos.

Perguntou a si mesmo pela tal felicidade.

E lembrou-se que fazia meses que não via o brilho de alegria explodindo nos olhos dos seus pais.

Descobria pela dor o quanto a felicidade sempre tão perto não tinha percebido.

Reuniu os filhos, noras, genros, netos e, todos juntos, foram à casa dos já quase esquecidos pais.

E sentiu-se pela primeira vez plenamente feliz.

Feliz por ver o brilho de olhos cansados inundados por lágrimas de felicidade.

E percebeu, finalmente, que a história sempre se repete.

História que relega a um plano menor o que realmente nos faz conhecer a felicidade.

Felicidade que só existe no amor mais puro e verdadeiro.

Enquanto os netos brincavam e os filhos conversavam, ficou a observar os corações dos seus pais que viajavam olhando as travessuras dos bisnetos.

Muito feliz ficou por ter descoberto e voltado a tempo.

Voltado ao que existia.

No seu coração, a alegria pela descoberta da verdadeira felicidade.

Inácio Augusto de Almeida é escritor e Jornalista

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domingo - 06/06/2021 - 11:24h

Contos do Tirol – Dahora

Oficina e amor, coração, mecânica,Por David Leite

José Vitorino, é verdade, foi pronunciado pelo pároco da Matriz de Nossa Senhora dos Homens e, tal qual a água benta que lhe molhou a moleira, sumiu lá pelos sertões de Baixa Verde. Na adolescência, quando tornou-se lambaio de caminhão de um tio, além de minguados trocados, ganhou o apelido Dahora.

O tio, final dos anos 1940, vendeu o caminhão e resolveu instalar uma oficina na capital, num prédio que adquiriu no bairro Tirol. O sobrinho embarcou na migração. Duas décadas depois Dahora, de forma natural, herdou a titularidade da profissão, mas segue, até os dias correntes, inquilino da prima Juliana.

Mecânico à moda antiga, Dahora e sua oficina parecem estranhos em meio às modernidades. Hábitos e instalações que passariam despercebidos não fossem as excentricidades desse camarense. O município de nascimento de Dahora teve o nome mudado: Baixa Verde passou a chamar-se João Câmara. Pitar o cigarrinho de palha na calçada seria igualmente ignorado se Dahora, nesses intervalos, largasse os cacoetes de insinuantes olhares e gracejos às mulheres que passam.

Dahora pronuncia tais pilhérias em tom baixo, esboçando ar de desentendido, mas deixando escapar um riso sonso. Assim segue e, muitas vezes, as transeuntes nem percebem ou dão de ombros, por já conhecerem aquela figura.

Outro detalhe digno de registro: apesar dos muitos anos decorridos, Dahora conserva quase a mesma destreza no manuseio das ferramentas. Chaves combinadas, de boca com fresada, de torque para ajustes de parafusos dos motores… todas manejadas pelas velhas mãos, sem luvas. Sim, para ele vigora ainda a pasta de sabão e areia utilizada na remoção da graxa.

E o franzino corpo do ágil mecânico continua deslizando em seu carrinho de rolamentos, onde, deitado, consegue observar detalhes por baixo dos veículos. Enfim, Dahora seria objeto de estudo, ou um case, no que diz respeito à longevidade e resistência física.

Nesse cenário todo, outro dia ocorreu o seguinte: uma jovem professora de nome Maria de Fátima, sustentando livros pelo antebraço direito em encontro ao corpo, passou e sentiu-se incomodada devido à piada de Dahora:

— Que moça danada de bonita é essa?!

A professora nem olhou para o galanteador, mas seguiu martelando resposta à altura, caso aquela situação tornasse a ocorrer. Não deu outra. Igual cenário e personagens se repetiram dias depois:

— Que moça danada de bonita é essa?!

— Meu pai também é — respondeu incisivamente.

— Vige, então é a família toda — replicou o astucioso mecânico.

Maria de Fátima, ao chegar ao colégio, comentou com as colegas de trabalho que fora tomada por um misto de espanto e vontade de rir que resultou no apressar de passos e confessou que iria alterar seu percurso diário, embora aumentado-o em dois quarteirões, para não passar na calçada de Dahora:

— Oh, velho enxerido! — comentou em meio a risos.

David Leite é professor da Uern e doutor pela Universidade de Salamanca (USAL) – Espanha

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/05/2020 - 10:00h

Sozinho

Por Ary Dulcídio

Era um garoto de modos taciturnos, nunca teve muitos amigos, ou melhor, nenhum. Depois que se mudou de sua cidade natal para estudar, nem a família sobrou.

Sempre tentou se enturmar, mas sua estranheza acabou por torná-lo definitivamente solitário. Embora isso fosse o que mais o incomodava, percebera que seus esforços seriam insuficientes. Nem mais tentava se socializar.

Sobrevivia por meio de uma mesada que recebia dos pais. Morava sozinho, um pouco isolado do centro da cidade, em um casebre, com apenas uma suíte, de um tio que passava uns anos no exterior. Estava no período de recesso da faculdade na época da história que se segue.Todos os dias, naquele tempo, eram iguais. De manhã, preparava a comida para o restante do dia; à tarde, desenhava e pintava até a exaustão; e à noite, antes de dormir, lavava a louça que sujara durante as refeições. Era organizado e metódico.

Como o ciclo da vida, sua rotina prosseguia. E continuou, até que, certo dia, ao resolver tomar seu leite matinal, se surpreendeu: havia uma pontual xícara que repousava, suja de café, sobre sua bancada fria de granito.

Sentiu um misto de medo e dúvida. Realmente, fizera café no dia anterior, mas se lembrava perfeitamente da imagem satisfatória de sua pia limpa.

Devia ser coisa da sua cabeça. Checou a porta da frente e estava trancada. As janelas eram todas gradeadas. Isso foi suficiente para ele continuar o dia normalmente.

Rotina santa de cada dia – já havia passado a manhã cozinhando, a tarde desenhando e pintando; agora, ele se via novamente lavando a louça de noite. Dessa vez, lavara tudo, com certeza absoluta, não restava mais nada largado à pia.

A última coisa que se pode lembrar sobre aquele dia é seu olhar inquietante em direção à xícara, antes de guardá-la em seu devido local.

Dormiu bem. Seguramente havia trancado a porta.

O sol já raiava. Ele precisava tirar a prova. Foi como um raio até a cozinha.

Não podia ser possível… após olhar aquela cena, correu imediatamente para verificar: a porta estava trancada. Já não entendia mais nada. A xícara estava novamente suja de café e apoiada sobre a pia. E, dessa vez, fora pior, ele nem havia feito café no dia anterior e, mesmo assim, sua cafeteira estava suja. Imediatamente a lavou junto com o utensílio de porcelana.

O medo e a dúvida o faziam delirar. Acabou por não preparar comida pela manhã. Do sentimento de aflição, veio a ideia, e a tarde foi artisticamente produtiva. No início da noite sua casa estava lotada de desenhos e pinturas daquela imagem que tanto o perturbava: a xícara vazia com resquícios de café.

Decidiu-se. Passaria a noite acordado e descobriria de uma vez por todas o que estava acontecendo.

Foi à cozinha e pegou a mais afiada e lustrosa de suas facas. Lá estava ele sentado na escuridão de sua sala, rodeado de seus quadros e rabiscos, enquanto empunhava aquele fatal utensílio.

Não havia certeza, mas sentia que alguém o observava. Apertava cada vez mais a pegada no cabo de sua arma branca, que agora quase deslizava devido à sudorese anormal de suas mãos.

O sol voltava a raiar mais uma vez. Nada de extraordinário havia acontecido.

A frustração era perceptível em seu rosto. Foi à cozinha e lá estava tudo como havia deixado na manhã anterior: nenhuma xícara ou cafeteira fora do lugar e a porta continuava trancada. Novamente, não podia ser possível… nada acontecera justamente quando resolveu tomar providências.

Tentaria outra vez, mas de maneira diferente. Passou o dia e a tarde em meio à produção de sua arte, e à noite, já era hora de pôr seu plano em prática.

Deixou preparado o melhor café que fizera em toda a sua vida, pôs a faca do dia anterior dentro de sua jaqueta e saiu de casa, assegurando-se de trancar a porta, em meio à escuridão.

Durante sua caminhada por entre os grandes espaços vazios nos arredores de sua casa, pensava em sua solitária vida e, após duas horas assim, decidiu que era hora de voltar.

Retornou à sua casa. Ao se aproximar da porta de entrada, foi pondo sua mão lentamente sobre a maçaneta e, após um suspiro, girou-a. Desta vez, estava destrancada – um calafrio subiu pela sua espinha.

Adentrou a casa já com a faca em mãos e assim chegou à sala. Não pôde acreditar. Realmente havia alguém: um homem estranho admirava de pé as obras que o esperavam enquanto tomava seu café. Na cintura do desconhecido, estava pendurado um molho de chaves que reluzia à luz lunar que invadia o cômodo pelas frestas da janela.

Com o medo, as mãos do artista ficaram trêmulas e a lâmina que empunhava agora ia de encontro ao chão. O som metálico que o utensílio produziu chamara a atenção do estranho e os dois homens se fitavam.

O medo, que cercava o dono da casa, ia embora à medida que se aproximava do estranho e, com um súbito abraço unilateral, de sua parte, já não sentia medo algum. E, em meio às lágrimas, teve a oportunidade de não se sentir sozinho pela primeira vez em sua vida.

Ary Dulcídio é estudante

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 17/11/2019 - 07:18h

Memórias em cacos

Por Inácio Rodrigues

A verdade é que o copo caiu e os pedaços estavam espalhados pelo quarto. Ivone não pode evitar a colisão com o utensílio de vidro, quando sua mão deslocava-se rapidamente no gestual que ajudava ao ancoramento da vivaz argumentação.

Debatia com Fábio, o companheiro, que era modelo fotográfico, sobre marcas de roupas, perfumes e acessórios. Onde comprá-los mais baratos, e, principalmente, como obter recursos para a realização dos seus prioritários desejos de consumo.

Ivone, ex-miss e agora dona de uma academia, fazia de sua vida com Fábio um deleite de luxo e sofisticação. De jantares a viagens, perfumes, carros e roupas importadas, viviam como se não houvesse o amanhã.Ambos vindos de famílias humildes, haviam esquecido definitivamente as origens.

Sem filhos, apesar da união de seis anos – diziam que era por opção – moravam numa cobertura alugada, antiga mas imponente, com três empregados, e mantinham veículos financiados, cujos carnês se assemelhavam a bíblias, volumosos, indicando o parcelamento em muitos anos. Iam a Miami como quem vai ao shopping do bairro.

Eram até reconhecidos pelos funcionários da imigração dos EUA, tal a frequência das visitas. Nas passeatas pelo impeachment foram presença constante, e com suas camisas patrióticas da CBF, acreditavam que salvavam o país dos “corruptos vermelhos”.

Tudo ia bem, até que veio o agravamento da crise. Como os trabalhos rareavam cada vez mais para Fábio, que aos 38 anos não tinha a cara e nem o corpo de dez anos antes, e a academia há muito não era suficiente para sustentar o alto padrão de vida que usufruíam, estando praticamente falida, naquela noite o casal discutia o mais importante pra eles. Como conseguir dinheiro para manter o mesmo padrão de vida?

As ideias foram surgindo, evidenciando o risível nível de entendimento do mundo que tinham Fábio e Ivone. Pensaram em comprar muamba em Miami para revender no Brasil, pois de produtos supérfluos e luxuosos entendiam muito bem.

Desistiram.

Lembraram que não tinham o capital nem para as passagens. Cogitaram um curso de etiquetas, ministrado por eles, praticamente ingleses, afim de trazer um pouco de civilidade aos mal educados bárbaros do local. Recuaram quando alguém, em um ato de generosidade sincericida, garantiu que eram  eles que tinham menos educação que os possíveis alunos.

Doeu ouvir.

Perdidos em devaneios e maluquices fúteis e sem saída à vista, ouviram o telefone fixo tocar, único aparelho telefônico que ainda não havia sido bloqueado por falta de pagamento. Ivone se viu compelida a atender. A última funcionária fora embora há três dias, levando o microondas como indenização trabalhista e salários atrasados. Com as duas outras já haviam ido uma televisão e o frigobar.

“Alô”, disse Ivone com uma voz empostada, temendo ser aquela mais uma das costumeiras ligações da imobiliária cobrando os meses de aluguel e condomínios atrasados. Inicialmente até se arrependeu de ter tirado o telefone do gancho, mas ao ouvir a voz de uma idosa, sentiu segurança, e perguntou do que se tratava.

Docemente, com a paciência de quem vivera muito, a senhora se identificou como Eponina Martins, e disse que havia conseguido aquele número de telefone com Evandro, irmão de Ivone. Esclareceu que era avó paterna de Rômulo, um amigo de infância de Ivone, na verdade, o seu primeiro namorado.

Terminou dizendo que tinha uma boa notícia, e que se eles aceitassem, no dia seguinte ela iria pessoalmente visitá-los. Claro que aceitaram. E ficou a expectativa. O que aquela senhora queria? O que ela iria propor? Qual seria a natureza da notícia?

Providenciada uma rápida pesquisa no Google, ficou bem esclarecido que  a senhora Eponina era dona de empresas, indústrias e imóveis. Riquíssima.

O coração dos amantes se abriu em esperança que boas coisas viessem. Naquele deserto de opções, uma possibilidade era tudo. Sonhavam com uma solução que propiciasse a volta da boa e velha vida que levavam antes da crise. Fábio perguntou sobre Rômulo. Sabia que ele havia sido o primeiro namorado de Ivone, mas quis saber mais, querendo entender se ele poderia ter alguma ligação com a boa notícia que viria de Eponina.

Ivone se limitou a repetir, como já fizera mil vezes, que o seu namoro com Rômulo fora pueril, coisas de crianças, sem maiores consequências. Afinal, tinha apenas 15 anos e não houve sexo. De forma constrangida, pois Fábio não gostava da lembrança, teve que repetir que sua virgindade só fora perdida dois anos depois, durante uma viagem com a equipe de vôlei da escola.

Romero fora o colega de classe autor da façanha dolorida e sem graça. Lembrou ainda que não sabia que rumo Rômulo havia tomado na vida e nem onde ele residia atualmente.

Quando a manhã chegou os encontrou insones e mais ansiosos que na noite anterior. Quatorze horas fora o horário combinado. Ao meio dia o relógio da sala batia devagar, enquanto cada um cultivava um canteiro de hipóteses e expectativas, sentados imóveis e em um silêncio que contrastava com a agitação do início da manhã.

O tic tac da máquina ditava o ritmo dos corações. Enfim, o horário chegou, e a campanhia tocou. Fábio foi atender.

Ficara assim estabelecido, na longa noite em que os detalhes foram combinados a exaustão, nos vários cenários imaginados pela dupla. Fariam parecer casual. Fabio atenderia a porta com o celular a mão, mesmo que bloqueado por falta de pagamento, e simularia uma conversa com um interlocutor inexistente. Assim, imaginavam – vejam o nível de futilidade – não teriam que explicar a ausência dos criados que deveriam ter aberto a porta e em seguida anunciado a visitante.

Dona Eponina entrou e não pareceu se importar com o fato de a porta ter sido aberta por Fábio. Era uma senhora discreta, vestida como executiva, de blazer e salto alto, aparentando uns 69, 70 anos. Tinha os cabelos pintados de preto e um bom corpo. Chamava a atenção a maquiagem forte, talvez para atenuar sinais do tempo.

Ela foi direta. Cumprimentou Ivone que estava trêmula na sala, e passou a detalhar o motivo da visita. Fábio, que já encerrara a simulação inicial com o telefone, ficou atento ao relato.

A idosa contou que seu neto Rômulo era um profissional muito bem-sucedido na área da construção civil, e que como engenheiro amealhou farto patrimônio financeiro e imobiliário. Era, porque morrera há dois anos, ainda muito jovem, nem chegado aos 40. Apesar do grande patrimônio, Rômulo nunca casara ou tivera filhos. Guardara até a morte, causada por um inesperado e terrível câncer no pâncreas, o segredo que lhe consumiu por toda a vida.

Amou em segredo e profundamente Ivone desde a época do namorico da adolescência.

Com o fim do incipiente relacionamento, forçosamente  foi embora com a família para o sudeste, pois o pai era militar e havia sido transferido. Perdeu o contato com Ivone, mas nunca a esqueceu. Muito pelo contrário. A distância, com o tempo, acentuou as qualidades e suprimiu os defeitos da amada, nas lembranças de Rômulo.

Depois de 23 anos, Ivone era a mulher ideal, intocável, uma perfeição, na visão deturpada construída pela mente do aficionado. Ele até tentou contatá-la em algumas ocasiões, mas a timidez patológica, em contraposição a grande capacidade empreendedora, não o deixava avançar ao contato com a mulher que tanto amava.

Talvez também temesse que algum detalhe injusto da realidade quebrasse aquele encantamento de uma vida inteira. Preferia a segurança da idealização, da lembrança sólida que não pode sofrer a triste ação do presente, esse estraga prazeres. Quando soube que ela passou a viver com Fábio, desistiu de vez da proximidade física, e mergulhou fundo num culto nostálgico, pegajoso e choroso, que sempre preocupou os amigos. Alguns garantiam que na casa dele havia um altar com fotos de Ivone, fato nunca confirmado.

Quando veio a doença, culparam aquele sentimento lúgubre, doentio, pelo aparecimento de tão grave moléstia. Rômulo nunca quis namorar e morreu virgem, consumido por um amor que  criou na cabeça, mas que nunca encontrou eco na realidade. Muitas mulheres o desejavam, era rico e não era feio. Mas não adiantava. Era Santa Ivone e mais ninguém.

Depois de contar tudo em detalhes, Dona Eponina arrematou esclarecendo que Rômulo deixara em testamento, 50%  de todo o patrimônio para Ivone. Rômulo julgara que Ivone era merecedora de tão lucrativa distinção pelo simples fato de ter existido, servindo  de farol a sua curta existência.

Fez-se o silêncio.

Fábio tremia da cabeça aos pés. Ivone ficou em choque. Não conseguia falar. A senhora retirou um papel da bolsa e leu: sua parte, descontados os impostos, é de seis milhões de reais. Fábio sentia a cabeça girando, enquanto aquelas palavras entravam como que em câmera lenta em seus ouvidos. Ivone desmaiou.  Seis milhões. Era um bom dinheiro!

Ivone aos poucos foi acordando. Procurou o companheiro, mas não o enxergou. Dona Eponina também não estava mais no local. Se viu deitada, e com os pulsos amarrados numa cama de uma sala que parecia a de um hospital. Onde estava todos? As palavras de Dona Eponina ainda ecoavam nos seus ouvidos. Seis milhões! Lembrou bem do choque que teve ao saber que tal valor lhe pertencia. Mas não via ninguém e estava sozinha naquele lugar gélido.

Enquanto tentava entender o que se passava, uma senhora entrou no local fardada de faxineira, com vassouras e materiais de limpeza. Tinha um rosto familiar. Em silêncio a tal senhora passou a recolher cacos de um copo de vidro quebrado que estavam próximos a cama na qual Ivone pousava.

Com a proximidade dela, Ivone conseguiu ler na bata da mulher apenas as palavras: “Eponina” e “Clinica psiquiátrica”.

Enquanto Ivone gritava dizendo que não era louca, que queria seus seis milhões e que não havia sonhado ou imaginado tudo aquilo, a assistente de serviços gerais Eponina chamava, também aos gritos, o médico Fábio, o enfermeiro Rômulo e o maqueiro Evandro para atenderem mais um surto daquela senhora esquizofrênica de oitenta e dois anos.

A única verdade é que o copo caiu e os pedaços estavam espalhados pelo quarto.

Inácio Rodrigues é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/09/2019 - 07:24h

Esse é Zé Brasil

Por Inácio Augusto de Almeida

Membro da milícia papal, cavaleiro d ordem de São João da Barra, centrista convicto. Um homem simples, negro velho, amante da boêmia e inimigo número um do capital e do trabalho, principalmente do trabalho.

Conheci Zé Brasil no Espetinho Mossoró, ali, bem pertinho do Mercadinho do Alto da Conceição.

Já octogenário, Zé viveu a Mossoró de Dix-Huit Rosado . Admirador do Monsenhor Walfredo Gurgel, valentemente combateu as arbitrariedades do regime militar, isto entre um conhaque e outro.

Zé é um tipo que se não existisse , seria preciso inventar…

Pertence atualmente à esquerda da Igreja Católica. Não, não se surpreendam. É verdade. Zé Brasil está na esquerda católica. Se ela existe ou não isto é de somenos importância.

No Espetinho Mossoró, tomando mais um conhaque, Zé degusta as frases de efeito do Papa Francisco.

E vibra quando o Papa Francisco diz que a corrupção fede e que o dinheiro da corrupção é sujo com o sangue e as lágrimas de inocentes.

Repete a todo instante, depois de alguns conhaques, claro, que o Papa Francisco afirma que a igreja cansou de dizer amém. E conclui que não mais escutam o Papa.

Espera que um dia o Papa inicie a construção da igreja dos pobres, pois para Zé Brasil a igreja dos ricos já está construída.

Outro dia perguntei ao Zé Brasil quando Cristo voltaria.

Ele, naquela sua simplicidade, me respondeu:

Não volta mais. Ele agora está acordado. E por estar acordado é que sempre está no meio de nós, mas nunca mais voltará a nós. Basta a crucificação daquela época. Hoje seria muito pior.

E entre um conhaque e outro condena abertamente a destinação de recursos públicos para campanhas políticas em uma época que faltam recursos para Educação, Saúde e Segurança. Melhor, na sua opinião, que este dinheiro fosse utilizado na compra de medicamentos e de livros.

Assim é o Zé Brasil, sempre preocupado com os grandes problemas nacionais.

Sonhador, como todos os boêmios, Zé devaneia.

E nos seus devaneios, isto após 15 conhaques, vê um lugar onde os corruptos são punidos com rigor e a forma maior é a inteligência.

E bebe mais um conhaque, convicto de que um dia tudo será como ele sonha…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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sexta-feira - 26/07/2019 - 12:20h
Coleção Mossoroense

Fundação Vingt-un Rosado lança Concurso Literário

“A Fundação Vingt-un Rosado lançou o “Concurso Literário Coleção Mossoroense 70 anos” para celebrar os 70 anos de existência da Coleção Mossoroense, maior movimento editorial sem fins lucrativo do Brasil.

Professor Vingt-un foi um personagem marcante à produção cultural de Mossoró e no país (Foto: arquivo)

Os candidatos poderão concorrer nas 4 categorias, a saber: conto, crônica, poesia e trabalho jornalístico, com o tema “Coleção Mossoroense, 70 anos”. O concurso está aberto ao público participante, sendo vedado apenas às pessoas que tenham ligações com a Fundação Vingt-un Rosado.

Para participar, os concorrentes não terão custo nenhum e nem inscrição, é só mandar o material para os e-mails fvrcm@uol.com.br ou eribertomonteiro@hotmail.com informando o pseudônimo e telefone de contato.

O tema é delimitado, porém, dentro do próprio tema, inúmeros tópicos relacionados aos 70 anos de existência da Coleção Mossoroense podem ser explorados.

Mais informações: (84) 98886-0520 com falar com Eriberto Monteiro.

Nota do Blog – Como o professor e mecenas Vingt-un Rosado faz-nos falta.

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