Alguém aí sabe qual a verdadeira intenção por trás da criação do Conselho Político do Governo Rosalba Ciarlini (DEM), anunciado na última quarta-feira (25), em Brasília, pela própria governante? Em tese, serviria para auxiliar Rosalba na gestão das crises que se alastram no governismo, contenciosos que arrastam a administração para o descrédito.
Ao mesmo tempo, objetivaria tornar mais homogênea a base interpartidária que dá suporte ao governo, visando as eleições em 167 municípios do estado.
A governadora listou que além dela, fazem parte do conselho o seu marido e ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado (DEM), tido como “governador de fato”; o senador José Agripino (DEM), ministro-senador Garibaldi Filho (PMDB), deputado federal Henrique Alves (PMDB), presidente da Assembleia Legislativa Ricardo Motta (PMN) e deputado federal João Maia (PR).
Talvez esteja passando despercebido, até agora, o real papel de dois nomes desse colegiado: um, que o compõe; outro, que é uma ausência descabida.
Carlos Augusto Rosado finalmente ganha visibilidade pública, de poder, após cerca de 24 anos nas sombras, ao longo de três mandatos da mulher como prefeita de Mossoró, iniciado em 1989, bem como quatro anos como senadora da República. Portanto, algo incomum, para quem apostou nas trevas ou bastidores, como ambiente para gerir interesses da gestão pública e articulação política do chamado “rosalbismo”. É uma situação atípica, que nunca Mossoró tinha testemunhado, mas que o Rio Grande do Norte passou a conviver, numa faceta diametralmente oposta a que ele cultivara por longos anos.
‘Incluído fora’
Ao mesmo tempo, é estranha a exclusão de uma pessoa. Quem foi “incluído fora” do Conselho Político é o deputado estadual e líder da bancada governista na Assembleia Legislativa, o fidelíssimo Getúlio Rego (DEM). Sem qualquer explicação plausível, ele ficou à margem do colegiado. É um desperdício, bem como claro desprestígio e desvalorização quanto ao seu papel, um político que tem 8 mandatos consecutivos na Casa (primeira eleição em 1982) e sempre no mesmo grupo político.
Outra estranheza é a hierarquia das prioridades já definidas para trabalho desse grupo: “A primeira decisão do conselho político será sobre as eleições municipais de Mossoró”, informou a governadora. O desmanche da Saúde, a metástase da Segurança Pública-Sistema Prisional; o redemoinho na Educação, a desmotivação do servidor público e outras graves mazelas ficam para depois.
Há poucos dias, em entrevista ao jornal Tribuna do Norte, Getúlio Rego alertou para a bomba-relógio em crescente tic-tac na Assembleia Legislativa. Disse, sem subterfúgios, que “a governadora Rosalba Ciarlini não tem interlocução com os deputados estaduais. A situação é mais grave porque falta ao chefe de Gabinete, Anselmo de Carvalho, a quem caberia prioritariamente conduzir o diálogo do Governo com os parlamentares, a autonomia necessária para as negociações com os aliados”.
Simplificando: indiretamente, o parlamentar endossou o que já dissera meses antes o ex-chefe de Gabinete Paulo de Tarso Fernandes (veja AQUI), numa entrevista arrasa-quarteirão: o governo não tem planejamento, está sem rumo e Rosalba não consegue interagir sequer com os próprios aliados. Não manda em patavina.
O Conselho Político, em si, não existe como parte da engrenagem orgânica do poder. Não está no organograma do Estado.
É um ‘nome de fantasia’ à construção de uma imagem pública que pretende melhorar o perfil do governo, lhe dando um caráter mais democrático, descentralizador e arejado. Assim, passa a supostamente legitimar a própria presença e intervenção de Carlos Augusto Rosado, lhe ofertando corpo naquilo que antes era apenas um espectro, já tratado pela sociedade e setores da mídia como um estorvo.
Direito subjetivo
Carlos Augusto Rosado, dessa forma, encontra nos outros nomes e no verniz do Conselho Político, um direito subjetivo: o de governar a partir da Residência Oficial do Estado, localizada no bairro Morro Branco, em Natal. Passa, inclusive, a se sentir menos embaraçado em transitar pelos escaninhos da Governadoria, sem ser visto como um marido impertinente, mas conselheiro.
É pouco provável que o Conselho Político tenha efeito prático como a propaganda oficial propaga. A fórmula não é nova e de longe em nada parece, por exemplo, com o que fora instituído em 1931 pelo governo português, por decreto, para cumprir funções consultivas nos campos político, administrativo etc., para definição do regime corporativo de Estado. Também não chega a ser o que se denomina de Gabinete de Crise.
No Governo Federal do Brasil, a função de gerenciar crises é atribuída ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, por meio da Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais (SAEI). Não se trata de uma miragem: tem salas, equipes, trabalha diuturnamente. Auxilia o Executivo desde uma greve que possa paralisar o setor produtivo a uma epidemia de dengue.
O 33º presidente norte-americano, Harry Truman, mantinha sobre sua mesa na Casa Branca, uma placa com mensagem que em nada combina com a atual realidade do poder executivo do Rio Grande do Norte: “O problema acaba aqui”.
Quem despachava com o governante que assumiu o governo em plena 2ª Guerra Mundial, após a morte do titular – Franklin Delano Rosevelt, sabia quem mandava. Na Governadoria do Estado potiguar, pelo visto, essa placa não teria qualquer serventia nos dias atuais. No máximo caberia um banner à porta: “A culpa é dos outros”.
Veja AQUI, matéria especial veiculada pelo Blog no dia 6 de novembro de 2011 (Carlos Augusto se livra de ‘Ravengar’ para ser governador), em que era identificada a alteração radical no comportamento de Carlos Augusto, em relação ao poder e seu papel nele).




























