domingo - 04/09/2022 - 06:32h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 12

Sem verbos nem vírgulas

Por Marcos Ferreira

Um homem sem palavras neste começo de manhã em Mondrongo. Mudo por inteiro. Sequer um solilóquio. Fechado consigo mesmo. Entregue ao silêncio à sua volta. A vizinhança quieta. Quase inexistente neste domingo sem a fuzarca dos humanos. À exceção do canto dos pássaros nas árvores próximas. Jaime de bem com essa quietude dominical. Reservado. Discreto com os seus pensamentos sombrios. Quiçá povoados de vingança. Nenhuma conjugação verbal. Assim como este parágrafo e capítulo inteiramente sem verbos e também sem vírgulas. Não. Nada de verbos nem de vírgulas. Não ao menos por hoje. Em homenagem ao escritor Jaime Peçanha.Uso da vírgula

Bem cedo o preparo do café na nova cafeteira com jarra de inox. Semiamargo e forte. Caneca quase cheia. Degustação da rubiácea em goles demorados. Ele com ar pensativo sentado à mesa da cozinha. Os cotovelos sobre a coberta de plástico. As duas mãos em torno da grande caneca fumegante. Sem pressa ou comida àquela hora. Apenas um copo d’água pouco antes. Após o café a volta à cama.

Laura (como em outras oportunidades) de plantão no Hospital Tancredo Neves. Ali no quarto o silêncio e a meia-luz aconchegantes. A privacidade. O peculiar prazer da solidão momentânea. Além de um friozinho agradável. Cinco e cinquenta da matina. Ele encurvado sobre os tépidos lençóis. Sim. Tépidos. Não mornos. Para o desagrado de certos leitores rabugentos. Jaime em sua quietude matinal. Quase inerte. Os olhos fixos num ponto perdido do quarto. Nenhuma demonstração de interesse pelo tresoitão embalado na flanela verde na caixa de sapatos em cima do guarda-roupa. Sem qualquer curiosidade ou atração pela arma neste seu momento sorumbático.

Pois bem. O semblante impassível. A barba rala e fina à espera de lâmina. O cabelo já crescido. Revolto. A pele clara. Os olhos castanho-claros. A estatura nem baixa nem mediana. Cerca de um metro e oitenta e cinco. Físico longilíneo. Trinta e dois anos de idade. Bem-dotado. Confortável em sua bermuda jeans surrada. Com pequenos rasgos na parte fronteira das coxas. Nu da cintura para cima.

— Ahhhh! — um bocejo após longos minutos.

Porém nenhuma quebra registrada na ausência de verbos e vírgulas nesta parte da narrativa. Isto não por interesse do jornalista e escritor Jaime Peçanha. Mas tão somente por masoquismo do narrador deste capítulo desverbalizado e desvirgulado. Tarefa esta nada fácil ou de todo impossível a um elemento tacanho e espécie de equídeo da língua portuguesa como o marginal e humorista chinfrim João Claudione — nome “artístico” de João Cláudio. Traficante de armas e drogas. Vendedor do pau de fogo a Jaime por três mil e quinhentos reais. Além dos duzentos reais cobrados por cinquenta cartuchos. Tudo uma pechincha. Segundo o meliante João Claudione.

Cadê Wallace Batista nesta bela manhã ensolarada? O prefeitinho de Mondrongo. Decerto em sua imponente mansão no residencial de luxo Alphaville. E o também abastado vereador Leonardo Jardim? Presidente da Câmara Municipal. Qual o paradeiro de Alberto Cardoso? Diretor-administrativo da Tribuna Mondronguense. E o traiçoeiro e vingativo Mauro Mosca? Vulgo Rato Branco. Onde?

Jaime Peçanha agora imerso em pensamentos insondáveis até para este narrador pretensamente onisciente. Olhar distante. Remoto como aquele tempo de vigilante da empresa seguradora de numerários. Ou mais longe ainda que isso. No tempo de criança miserável no bairro Santo Antônio. Faminto em companhia do pai analfabeto e alcoólatra. Época de agressões. De vários maus-tratos. A mãe morta durante o parto de Jaime. Uma década após a morte do pai. Esfaqueado em uma briga com um colega de copo num prostíbulo de Mondrongo. Jaime sozinho no mundo. Dez anos de idade. Apenas sob os cuidados da avó paterna. Ela também viciada em álcool.

Curto período colegial. No primário o seu encontro e amizade com o futuro barra-pesada João Claudione. Ambos com breve permanência na vida escolar. Jaime (apesar dos pesares) dominado pelo hábito da leitura. Apaixonado por livros desde sempre. Mas um completo zero à esquerda em aritmética. Entregue à leitura como se esta uma fome ancestral. Um típico caso de autodidatismo nas letras.

Jaime estagnado. Engessado no mundo formal. Nenhum diploma universitário entre seus papéis. A sua maior façanha curricular resumida ao ensino médio. Esta a nomenclatura de hoje em dia. Mas nunca o divórcio das letras. Absolutamente fiel à sua vocação de literato. A devoção à escrita levada a sério. Jamais uma brincadeira. Um robby. Um passatempo. Resultado: um escritor polígrafo. Cônscio de sua arte com pouco mais de vinte anos de idade. A vida toda influenciado pelos clássicos. Literatura nacional quanto estrangeira. Ficcionista. Cronista. Poeta. Sonetista burilador — apesar de alguns leitores e críticos rançosos aversos à gaiola dos catorze versos.

Longe da cozinha. Em jejum. Sequer uma fruta. Só o café escoteiro. Curvado sobre a cama. Ora com um lado do corpo. Ora com o outro. Olhos abertos. Às vezes cerrados. Indisposto. Talvez já tocado pela bipolaridade. Daí a pouco o som das chaves na porta da frente. Laura de volta do plantão. Adeus o silêncio. A boa calmaria. A solidão provisória. E este capítulo sem verbos nem vírgulas.

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Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 28/08/2022 - 04:40h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 11

Brinquedo mortífero

Por Marcos Ferreira 

Depois que foi brutalmente agredido naquela noite por três homens encapuzados, Jaime Peçanha decidiu não esperar por outra sova. Sua psique sofreu grande desequilíbrio desde o grave incidente. É comum ele passar longo tempo elaborando mentalmente um revide contra os seus incógnitos agressores e supostos mandantes daquela ação covarde. Em sua paranoia, culpa o prefeito Wallace Batista.

A verdade é que Jaime nunca bateu muito bem da bola. É instável e enfermiço como quase todos que padecem de transtorno bipolar. O ataque aconteceu na obscura ruazinha que margeia a Biblioteca Municipal de Mondrongo, após ele deixar o lançamento do livro de crônicas do amigo advogado Luciano Aires, antes das nove horas. Por conta disso, então, Peçanha perdeu o amor a uma significativa quantia de dinheiro e decidiu se armar. Recorrendo ao valor que lhe foi pago pela rescisão trabalhista na Tribuna Mondronguense, sacou três mil e quinhentos reais e os aplicou na aquisição de um revólver calibre 38 com capacidade para oito disparos.

Foto própria do arquivo do Canal BCS (caráter ilustrativo)

Foto própria do arquivo do Canal BCS (caráter ilustrativo)

O brinquedinho, um Taurus seminovo com numeração raspada, foi adquirido por intermédio de João Claudione, amigo de infância de Jaime que se tornou traficante de armas e drogas. No mercado legal o revólver pode custar em torno dos sete mil reais. Em aço inox fosco, com mira ajustável, coronha anatômica e cano de seis polegadas e meia, concilia desempenho de ponta e alto poder de fogo.

— Ele é uma belezinha — gabou o traficante.

— Hum. Também gostei — admitiu Jaime.

— Vale o investimento — disse o marginal.

— Faça um precinho camarada na munição.

— Com certeza, meu peixe… Deixe comigo.

— Quanto tem? Não precisa ser das especiais.

— O quanto quiser — respondeu o meliante.

— Não sei ao certo. Talvez umas cinquenta.

— Cinquenta vão lhe custar só duzentos reais.

— Ok, Claudione. O seu preço está razoável.

— Isso é considerando a nossa velha amizade.

— Obrigado. Você sempre foi muito bacana.

— Não vá dizer que pegou um otário, hein?

— Claro que não, amigo. Nunca eu faria isso.

— Não, não. É que eu sou metido a humorista.

— Sim. Essa sua veia é bem antiga, meu caro.

— Meu sonho era ir ao programa do Rô Sabóia.

— Bem, isso agora está bastante complicado.

— É verdade. E nem programa ele tinha mais.

— Seja como for, o Rô Sabóia foi um gigante.

— Com certeza! E eu serei um eterno fã dele.

— Apesar dessa vida, você tem alma de artista.

— O meu desejo era mesmo ser um humorista.

— Hum. Quem sabe ainda haja tempo, rapaz.

— Depois que a gente entra nesse mundo, não tem mais saída. Talvez eu até possua talento para fazer as minhas piadinhas que alguns amigos acham engraçadas, outros nem tanto, porém enveredei pela bandidagem e não tem mais volta. De possível artista passei a bandido de quinta categoria. Um fracasso!

— Não deve ser tão severo consigo mesmo.

— Já fiz tanta coisa que você nem imagina.

— Não precisa me contar nada, Claudione. Seja lá o que tenha feito, continuamos amigos. Nunca vou esquecer que você me salvava dos moleques da escola. Alguns queriam bater em mim e você botava todos para correr. Acho que você foi o meu primeiro super-herói. Os safados morriam de medo de você.

— E você me salvava nas avalições de português. Sempre fui um jegue em se tratando de língua portuguesa. Já você era craque.

— Mas você me socorria em matemática.

— Me lembro. Foram bons tempos aqueles.

— Pois é… Foram inesquecíveis para mim.

— Faço minhas as suas palavras, meu chapa.

Jaime chegou em casa totalmente deslumbrado com a compra que fizera. Sozinho a tarde inteira, atirou-se sobre a cama e ficou lambendo a “cria” durante horas. Só bastante depois guardou o revólver e foi tomar um banho.

A esposa, Laura Gondim, e o amigo jornalista Reginaldo Marinho viram a compra do revólver como uma medida arriscada para o próprio Jaime, tendo em vista que ele, pelo que se supõe, é meramente um homem de letras, e não de armas. Reginaldo, temendo o pior, recordou que as estatísticas apontam que a maior parte das pessoas que tentam reagir a algum tipo de abordagem, mesmo que se trate de violência psicológica ou física, não raro acabam mortas por seus agressores, pois estes, ao contrário de suas vítimas, sempre contam com o elemento surpresa em suas atuações criminosas. Por sua vez, Peçanha se escora no fato de haver servido no Exército e trabalhado durante um curto período em uma empresa seguradora de numerários.

À noite, na mesa da cozinha, contando com a presença de Reginaldo, que tomava sopa com o casal, Jaime encostou o prato e foi ao quarto. Daí a pouco retornou com uma caixa de sapatos e a colocou à sua direita, na ponta da mesa. Deu mais duas colheradas na sopa, limpou os lábios finos com um guardanapo de papel e abriu a caixa. Dela, enrolado numa flanela verde, retirou o pau de fogo.

— Não precisava ter trazido essa coisa para cá, justamente no momento em que estamos jantando! É assim que agradece ao Nosso Senhor pela refeição?! — protestou Laura. — Se queria apenas mostrar a Reginaldo, que esperasse acabarmos a comida. Só de olhar para isso fico com os meus nervos abalados. Sabe muito bem que não quero tal objeto em minha casa. Mas aí você me aparece logo com um troço desses. Para mim, eu já lhe disse, isso simboliza violência, cheira à desgraça, à morte. Como se não bastasse, ainda tem a questão da origem do revólver, cuja numeração, como me contou, está raspada. Além desse detalhe, para complicar de vez a sua situação, você se encontra completamente ilegal, porque não possui um porte de arma.

— Vejam só como ele é bonito — disse Jaime.

— Mas está carregado? — inquiriu Reginaldo.

— Claro que não. Deixei a munição lá dentro.

— Ah, pelo menos isso — resmungou Laura.

— Sinta só o peso. Isto sem os oito cartuchos.

Jaime passou o trinta e oito para Reginaldo Marinho. O repórter de política o recebeu em meio a um leve suspiro, exibindo um excesso de cuidado, como se tivesse em mãos uma delicada peça de cristal. Desocupou uma das mãos e aprumou os óculos. Então, com certo brilho nos olhos, conferiu a empunhadura, fez mira no relógio oblongo pendurado na parede à sua frente, pressionou de maneira suave o gatilho, mas sem puxá-lo. A seguir, como se tivesse intimidade com aquilo, destravou o dispositivo e abriu o tambor. Examinou mais detidamente as oito culatras e comentou algo acerca do cano de seis polegadas e meia e sobre a possível dificuldade de andar por aí com uma arma tão grande e pesada na cintura. Jaime sorriu e disse que essa questão não seria um problema; o importante era não ser pego pela polícia com ela no cós.

— Lembre-se de que agora você não tem mais um crachá da imprensa pendurado no bolso da camisa. Isso já me salvou em algumas blitze, numa época em que a minha habilitação estava atrasada. O policial de trânsito viu o meu crachá da Tribuna e aí mandou logo que eu prosseguisse — observou Reginaldo.

— Como hoje estou a pé, não corro esse risco.

— E quanto à munição? — indagou Reginaldo.

— Hum. Comprei apenas cinquenta unidades.

— À mesma pessoa que vendeu o revólver?

— Exato. Por um preço bem mais em conta.

— Até agora não me disse quem é esse sujeito — interveio Laura. — Bom indivíduo não deve ser. Do contrário não lhe venderia uma arma com numeração raspada. Isso não pode ter boa procedência de maneira alguma.

— Comprei a um sargento da Polícia Militar. Somos amigos desde a infância, embora não tenhamos muito contato — mentiu Jaime.

— Sargento ou não, a arma continua ilegal — sustentou Laura. — Esse sargento, não precisa nem que eu lhe diga, está infringindo a lei.

— Mas nem tudo tem que ser ao pé da letra.

— Certas coisas, sim — ponderou Reginaldo.

— Ah, vocês dois estão sendo muito caxias. Agora o que preciso é encontrar um bom lugar para dar uns tiros. De preferência, Reginaldo, em alguma propriedade ou estrada carroçável a certa distância de Mondrongo; na zona rural. Creio que a minha pontaria está um pouco enferrujada. O que é compreensível, pois não dou um atiro há nem sei quanto tempo. Eu gostaria que você viesse comigo.

— Pode ser — respondeu Reginaldo de pronto.

— É bom que tomem bastante cuidado — alertou-os Laura. — Saibam que os disparos podem atrair a polícia. Aí a enrascada será das piores. Certamente os dois irão em cana. Se isso acontecer, não será por falta de aviso.

— Já pensei nisso. Vou escolher bem o lugar. Não posso dar bobeira. Do jeito que ando azarado, é capaz de eu cair de costas e quebrar o pau.

— Que piadinha sem graça, Jaime — disse Laura.

Naquela noite, excitado com a aquisição do revólver, que veio com coldre original, Jaime não tomou parte na cama com Laura e Reginaldo. Ficou nas cadeiras da área fronteira da casa, fumando e acariciando o seu canhão portátil. Nesse ensejo, ao contrário do momento do jantar, ele havia colocado os oito cartuchos no tambor. Depois do sexo, Reginaldo e Laura foram se juntar a Jaime para fumar. Os três falavam baixinho, quase silabicamente. Laura observou com reprovação o fato de o marido ainda estar ali com a arma, como se esta agora fosse um totem, seu principal objeto do desejo. Por sua vez, Reginaldo murmurou que achava que ia chover, o que findou ocorrendo. Mas foi apenas uma rápida garoa que sequer interferiu na temperatura.

Mais tarde, quando estirou-se na cama a fim somente de dormir, pois naquela noite ele não faria amor com Laura, que havia transado com o primo Reginaldo algum tempo antes, o escritor Jaime Peçanha estava sem sono. Fechava os olhos por alguns minutos e depois tornava a abri-los, alternando um lado e outro do rosto no travesseiro. A esposa, ao contrário, dormiu logo. Pois precisaria acordar cedo para assumir o seu posto de enfermeira da UTI do Hospital Regional Tancredo Neves.

Mais uma vez, como em outras ocasiões, a mente doentia de Jaime entrava num furioso turbilhão de pensamentos destrutivos. Ali na meia-luz do quarto, enquanto Laura ressonava, ele se imaginava com o seu poderoso revólver em punho alvejando todos aqueles que considerava seus inimigos e desafetos. Sobretudo pessoas pelas quais alimentava uma bílis sombria, corrosiva, como o prefeito Wallace Batista, o diretor administrativo da Tribuna Mondronguense, Alberto Cardoso, e o atual presidente da Câmara Municipal, o palavroso vereador Leonardo Jardim. Esses três, sobretudo, seriam executados com requintes de crueldade, pois receberiam os primeiros disparos em locais que não implicassem em morte imediata, como nas pernas e nos braços.

Pensava também num meio de identificar e fazer sofrer da mesma maneira os três elementos que o agrediram na noite em que ele deixou a Biblioteca Municipal de Mondrongo. Todos estavam encapuzados no instante do espancamento, repito, e vestidos com roupas pretas, camisas de mangas longas e luvas. Jaime não conseguiu ver sequer se algum deles possuía algo revelador como uma tatuagem.

Para eliminar os seus inimigos, concluiu que poderia se vestir como os homens que o atacaram na saída da Biblioteca. O alvo mais arriscado decerto seria o prefeitinho Wallace Batista, que não vai a lugar nenhum sem ao menos dois seguranças armados, possivelmente policiais militares à paisana, típicos meganhas de cabelos rebaixados, corpulentos, mal-encarados e usando óculos de sombra.

Até aí, recordemos, o paranoico escriba está se esquecendo de outro arquirrival: o tísico jornalista Mauro Mosca, do Diário do Oeste, conhecido no ramo de imprensa pela infame alcunha de Rato Branco, antonomásia esta que lhe foi colocada pelo próprio Jaime durante uma acirrada discussão que eles tiveram há muitos anos na redação do Diário. Isto, contudo, já foi dito em algum ponto deste folhetim. A verdade, ressalte-se, é que Rato Branco não é menos psicótico e vingativo que seu arqui-inimigo. Também foi dito que Mauro Mosca pode ter culpa no cartório e, quem sabe, ser o mandante da surra que seu desafeto sofreu naquela noite de sexta-feira.

Hoje, no entanto, Jaime supostamente possui uma forma com que se defender de um ataque dessa natureza. Quase não mais desgruda do seu brinquedo mortífero. Por simples experimentação ou por descontrole psíquico, tem andado com o revólver na cintura até dentro de casa. Parece não menos que insano.

Não adiantava. O sono não vinha. Deixou a cama, com cuidado para não acordar Laura. Foi às estantes de ferro, ora sem maior serventia, onde estavam uns poucos livros que não vendeu ao ganancioso sebista Antoniel Silva, dono do Sebo Verdugo, e notório lambe-botas da elite intelectual e financeira de Mondrongo, principalmente do prefeito Wallace Batista e do presidente da Câmara, o vereador Leonardo Jardim. Entre os exemplares ali dispostos, passando a mão para remover alguma poeira, escolheu dois títulos que ganhou há poucos dias de autores do estado. Foram as seguintes obras: Algodão Doce, volume de contos de Marcos Antonio Campos, e O Segredo da Ordem do Santo Sacrifício, romance vampiresco com um enredo “não recomendado a pessoas de pouca fé”, segundo o próprio escritor e filósofo Ayala Gurgel.

Insone, Jaime Peçanha varou a noite quase toda na área fronteira da casa, lendo alternadamente cada livro e fumando um cigarro atrás do outro. Na cintura da velha bermuda jeans, claro, portava o desconfortável revólver. Pode-se dizer que, ao menos por um instante, mostrando-se deveras interessado nas obras que lia, talvez tenha se livrado do fascínio que a referida arma exercia sobre ele.

Dali a uma semana, quando foi testar a pontaria numa propriedade rural disponibilizada pelo próprio traficante João Claudione, local este onde o criminoso oculta armas e drogas, Jaime levou folhas impressas com os rostos do prefeito Wallace Batista, do vereador Leonardo Amorim e do diretor administrativo da Tribuna Mondronguense, Alberto Cardoso. Colou-as em uma parede que sobrou de um velho galpão em ruínas. Serviram de alvo para cerca de quinze disparos. O delinquente João Claudione achou aquilo demasiado perturbador e emitiu este comentário:

— Esqueça essa gente. Pois não vale a pena.

— Ah, mas não se preocupe. Os rostos aí são casuais. Nada contra esses elementos. Estou apenas cuidando da pontaria e da minha defesa pessoal. Você sabe o que os encapuzados me fizeram. Olhe aqui o corte no meu supercílio. Ainda está bem visível. O pior é a cicatriz que eles deixaram no meu espírito.

Reginaldo, que acompanhava o treinamento com as mãos nos bolsos, não disparar nenhum tiro contra os alvos fixados por Peçanha. Haviam se dirigido ao local no carro de Reginaldo e este reprovou a ideia dos rostos desde o primeiro momento em que soube daquela escolha macabra. Outra coisa é que ele desconhecia a ficha do marginal João Claudione, apresentado como um agricultor e amigo do tal sargento de quem Jaime teria adquirido o revólver juntamente com a munição.

De fato, apesar do pouco treinamento, Jaime Peçanha não é o pior dos atiradores. Na verdade, diga-se, está longe disso. Perfurou os papéis com as caras dos seus desafetos em pelo menos dois locais certeiros a uma distância de aproximadamente vinte metros. Desse dia em diante, aonde quer que vá, quase não larga mais o revólver. Por vezes dorme com a arma debaixo do travesseiro, nas noites em que Laura está de plantão no hospital. Nem lhe passa pela cabeça que seu real e pior inimigo pode ser Mauro Mosca, aquele a quem ele sentenciou com o apelido de Rato Branco.

Quem sabe, quando menos esperarmos, o desmilinguido roedor ponha o rabo e o focinho de fora, saia da sua toca. Na “cidade que nunca leu um livro”, conforme declarou o avô do cangaceiro Lampião, tudo pode acontecer.

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Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 21/08/2022 - 04:36h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 10

Rato Branco

Por Marcos Ferreira

Como todo elemento acometido por transtorno bipolar, ou quase todos, pois sempre existem as exceções, o jornalista e literato Jaime Peçanha possui as suas severas crises de ego inflado e de humor intempestivo. Por exemplo, embora certas situações levem a crer nisto, ele enfiou na cabeça que o prefeito Wallace Batista o caça a pau e pedra no município de Mondrongo. Tal político, numa perseguição amiúde e implacável, estaria mancomunado até com o diretor administrativo da Tribuna Mondronguense, Alberto Cardoso, vínculo este, segundo o entendimento do perturbado escritor, que teria culminado na sua sumária demissão do centenário veículo.

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Também como a maioria dos autores, Jaime Peçanha padece de superestima em relação a si próprio e a tudo quanto produz no tocante à palavra escrita. Julga-se um virtuose das letras, um talento injustiçado e boicotado em sua própria terra, cidade ante a qual há muito ele alimenta uma relação de amor e ódio, com menos intensidade, possivelmente, no primeiro sentimento que no segundo.

A verdade, contudo, é que ele adquiriu uma porção de inimigos em Mondrongo. Inimigos ou desafetos que podem ser outros, obviamente, que não Wallace Batista e Alberto Cardoso. Mesmo entre os homens de letras, muitos dos quais ele já atingiu de algum modo com a sua verve contundente e não raro incivil, Jaime é malquisto. São poucos os escribas deste município que o suportam ou, mais raramente, o admiram. A maior parte dos homens de letras, sobretudo, quer vê-lo pelas costas, fodido e estrepado. Os mais ressentidos não sentam à sua mesa, tecem comentários desabonadores sobre o seu caráter e competência enquanto escritor e costumam trocar de calçada ao se defrontarem com ele em algum ponto desta cidade repleta de picuinhas.

Às vezes, tão somente por exercício do mau humor, Jaime Peçanha costumava publicar textos venenosos em sua coluna na Tribuna Mondronguense, indiretas corrosivas, ácidas, ferinas, tanto em verso quanto em prosa. Principalmente por meio de sonetos lapidares e não menos devastadores, como alguns que estampou, aos domingos, no caderno de cultura da Tribuna, intitulado Multiverso.

Dentre os presumíveis alvos do raivoso Jaime Peçanha, figurava o prefeito de Mondrongo, brindado com poemas por vezes rasteiros, desleais, embora impecáveis na sua forma e conteúdo. Nesse caso, como as poesias eram claramente direcionadas, Wallace Batista não tinha como se livrar da carapuça, composta de catorze versos decassílabos, dois quartetos e dois tercetos. Então, outra pessoa não poderia vesti-la, exceto o jovem alcaide. Apesar disso, por estratégia ou resignação, o político jamais passou recibo nem, por via jurídica, tomou nenhuma medida contra o bardo ferino, versão mondronguense de Gregório de Matos — o Boca do Inferno.

Enquanto Jaime esteve na editoria de cultura da Tribuna, outro homem público deste município foi “mimoseado” com a gaiola dos catorze versos do Boca do Inferno mondronguense. Trata-se do presidente da Câmara, o edil Leonardo Jardim. Este, no entanto, a exemplo do prefeito, também nunca se manifestou pública ou juridicamente acerca das indiretas e ilações contra ele desferidas.

Em meio a todos esses supostos desafetos, todavia, existe um que Jaime Peçanha não leva muito a sério, mas que é extremamente vingativo e perigoso. Trata-se de Mauro Mosca, mais conhecido nas redações de Mondrongo e alhures pelo apelido Rato Branco. Isto em referência ao seu porte mirrado, raquítico, e à sua cútis excessivamente nívea, parecendo-se, portanto, com aqueles ratinhos de laboratórios, mutantes albinos de ratazanas. O roedor da imprensa provinciana é um animalzinho, astuto, traiçoeiro, de hábitos sub-reptícios tanto nas relações sociais quanto profissionais. Fez com que Jaime desistisse de tentar uma vaga de revisor no Diário do Oeste.

A desistência foi compreensível. Pois, além de ser inimigo figadal de Jaime, o esquelético jornalista é sobrinho do velho Fernando Nonato, dono do Diário do Oeste. Então, ainda que conseguisse a vaga de revisor, Jaime experimentaria toda sorte de perseguições movidas por Mauro Mosca, a quem a maioria das pessoas (exceto as mais íntimas) só chama pelo apelido Rato Branco às ocultas.

E por que essa ira de Mauro Mosca contra Jaime? Ora! Simplesmente porque foi Jaime quem o ferrou com a perturbadora alcunha. Isso ocorreu há vários anos, quando Peçanha, rigoroso na grafia das palavras, trabalhou alguns meses como revisor no Diário e se desentendeu com Mosca justamente por conta de verbetes incorretos num determinado texto do colega. Jaime o alertou sobre o equívoco, mas aí Mauro Mosca sustentou que os vocábulos estavam corretos, que o revisor se considerava a personificação do dicionário Aurélio e eles trocaram agressões verbais. Nesse momento, enfim, com a redação lotada, Jaime xingou Mauro Mosca de Rato Branco.

Não teve jeito. Jaime foi demitido naquela semana, mas o cognome grudou em Mauro Mosca, marcou-o para sempre como uma profunda cicatriz no rosto. Daí por diante, após Jaime conseguir emprego na Tribuna Mondronguense, os dois redatores passaram a trocar mensagens subliminares em suas colunas. Usavam como trincheira, aos domingos, os cadernos de cultura desses veículos.

Por mais de uma vez, ao longo de uma década, ambos perderam totalmente as estribeiras e partiram para as vias de fato. O confronto mais recente entre eles se deu há pouco mais de um ano num pequeno café do Pastagem Shopping. Não houve consequências graves devido a amigos em comum, que intervieram e separaram os contendores, tocando cada qual para destinos diferentes. Nascido em berço de ouro, mimado, cheio da grana, Mauro Mosca chegou a ameaçar Jaime de morte duas vezes. Este, por outro lado, fez pouco-caso das ameaças dizendo que o outro era um fanfarrão e que seria muito mais útil num laboratório do que numa empresa de notícias.

Depois que voltou suas baterias contra os políticos de Mondrongo, direcionadas especialmente para o prefeito Wallace Batista e o edil Leonardo Jardim, presidente da Câmara, Jaime passou a dar bem menos importância a seu opositor e hoje quase não se recorda do antigo desafeto. Mosca, entrementes, feito uma brasa moribunda queimando sob as cinzas, não se esqueceu da sua cicatriz moral.

Furioso com o epíteto que lhe foi pespegado, Mauro Mosca tentou usar de sua influência junto a Jerônimo Albuquerque Azevedo, proprietário da Tribuna Mondronguense, e do diretor administrativo Alberto Cardoso, para que seu inimigo fosse demitido. Não funcionou. Jerônimo Albuquerque Azevedo simpatizava com Jaime Peçanha, deu uma desculpa qualquer e manteve Jaime no emprego, que à época era apenas revisor e copidesque. Somente em meados de dezembro daquele ano ele ascenderia a repórter e editor de cultura. Outro aspecto em favor de Jaime é que nesse tempo o diretor administrativo não lhe devotava nenhuma animosidade.

— Aquele safado ainda vai ter o que merece — dizia Mauro Mosca nos bares, cafés e panelinhas intelectuais de Mondrongo. Noite e dia, de forma incansável, caluniava Jaime pelos quatro cantos da província, inventando toda espécie de relatos para macular o nome e a reputação do seu arqui-inimigo. Esses verbos no passado decerto são inadequados. Pois a calúnia prossegue. Não será nenhuma surpresa, então, se Rato Branco estiver envolvido nos ataques contra Jaime Peçanha.

Tal possibilidade não pode ser descartada.

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Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 14/08/2022 - 05:32h

Memórias do vento enquanto fogo

Por Marcos Ferreira

Somos inúmeros e estamos em toda parte o tempo todo, embora em quantidades às vezes mínimas, imperceptíveis. Diversidade é uma das nossas principais características. Há quem se engane, porém, achando que somos um único fenômeno atmosférico, que o vento que sopra no Alasca ou na Sibéria é o mesmo que abrange o deserto do Saara.ventos, ventania,

Não. Mas é como se possuíssemos o dom da ubiquidade, da onipresença, e nos tornamos tão essenciais para a vida quanto a água e o Sol, apesar de tanta destruição que já causamos e continuaremos a causar. Fomos criados para corrermos livres por este mundo sem termos que prestar contas com nada nem ninguém.

Em certas condições e lugares, a depender também da cultura de alguns povos, chamam-nos de nomes exóticos e estrambóticos. Normalmente somos conhecidos por palavras como ciclone, tufão, tornado, furacão, etc. e tal. Há ensejos em que atingimos velocidades da ordem de quase quinhentos quilômetros horários, no caso dos tornados. Aí pouca coisa continua de pé após nossa passagem. Os supersticiosos, ao surgirmos com pequena intensidade, nos chamam até de Saci Pererê.

Isto, contudo, são histórias da carochinha, folclore brasileiro. Na realidade, acreditem, não temos nada de fantástico ou prosaico.

Dessa maneira, gostem ou não, foi como o Criador nos fez. Eu, por exemplo, já varri diversas áreas, continentes, remotas regiões deste fabuloso planeta Terra, estive em quase todas as vastidões e recantos do globo, enveredei pela garganta dos maiores e piores vulcões em atividade e percorri desde o polo ártico ao polo antártico. Atualmente, depois de centenas de milênios de serviços prestados, tendo presenciado o surgimento do Homem e seu processo de autodestruição, que segue em ritmo avançado, limitei-me aos domínios desta cidadezinha para descansar um pouco e observar os seus mortais com maior atenção. Por que exatamente não sei lhes dizer.

Pretendo ficar por aqui como regente ventígeno destas cercanias até que o Todo-poderoso resolva me designar para outro cafundório. Esta província, pelo que noto, pode ser do meu agrado. Se algo me enfurecer, entretanto, posso me transformar num furacão de elevada magnitude e devastar esta vila e esses matutos metidos a cosmopolitas. Isto, na verdade, é bem pouco provável. Muitíssimo improvável, aliás. Porque essa gente é tão previsível e entediante que chega a me dar sono.

Então, diferentemente de outras épocas e de como atuei noutros pontos, aqui circulo apenas como uma tépida e ordeira brisa na maior parte do tempo. Durante as madrugadas, segundo os referidos matutos, eu sou o que eles chamam poeticamente de cruviana, um ventinho frio e bem-vindo que embala o sono dos munícipes. Esta, todavia, é a minha forma agradável, boazinha. O que eles não sabem, nem vocês conhecem, é a minha real natureza — o fogo. Sim. Se não sabiam, que fiquem logo sabendo. O fogo só existe a partir de mim, do oxigênio e da combustão de materiais inflamáveis, isto que é propagado e pode ser resumido tão só como o ar em movimento.

Trocando em miúdos, se ainda não me fiz entender, sou o vento. Enquanto fogo, convertido em chamas, fui devastador, implacável na maioria das ocasiões em que avancei — desde os tempos imemoriais — sobre cidadelas, pequenos e grandes lares, imponentes edifícios e palácios suntuosos, templos, florestas, vilarejos e plataformas de petróleo, ceifando vidas humanas, de animais e vegetais.

Há poucos meses, investido do fogo, como eu disse, castiguei duramente a Amazônia brasileira. Pois, graças à negligência de um presidente da República insensível, e de um ministro do meio ambiente visto como notório traficante de madeira, encontrei as condições ideais para promover a morte e destruição de importante parcela da fauna e da flora. Agora me estabeleci aqui. Outro do meu tipo e equivalência assumiu a tarefa de multiplicar os vários focos de incêndio na floresta.

Por dever do ofício, digo sem orgulho algum que fui coadjuvante daquela desgraça toda, pois o Homem, este sim, é sempre o protagonista. Então, para ser franco, estou cansado desta vida trágica, fatídica, violenta. Já solicitei e aguardo uma audiência com o Criador para dar entrada na minha aposentadoria.

Acho que escolherei passar o restante da minha eternidade nesta insólita Mossoró, terrinha calorenta, de pessoas boas e também de um monte de sem-vergonhas, como ocorre em toda parte.

Pretendo trilhar estas ruas, becos e avenidas informalmente, aqui e ali jogando uma poeirinha do solo árido sobre todo mundo. Mas nada pessoal, claro. Hoje, portanto, a minha ambição é esta: pendurar as chuteiras e ser, durante a madrugada, não mais do que uma simples cruviana. Se Deus quiser.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/07/2022 - 04:04h

Diáspora

Pão, pobreza, dividindo pão, fome. misériaPor Marcos Ferreira

O menino pequeno e negro abre a lixeira.

Revira o lixo e encontra um pedaço de pão.

Parece que contém um pouco de sujeira…

Estuda o fragmento e logo passa a mão.

 

Depois, espertamente, o garotinho cheira

A massa descartada e ele mordisca. Então

Descobre que seu gosto não é de primeira,

Porém não desperdiça aquela refeição.

 

É magro e cabeçudo, pernas bem cambadas.

Decerto o pobrezinho não tem nem dez anos.

À noite, com a mãe, dormindo nas calçadas.

 

Divide o pão com ela, cerca da metade.

A mãe quanto o pequeno são bolivianos,

Sozinhos e invisíveis na grande cidade.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 17/07/2022 - 04:30h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9

Psicose do chumbo e da pólvora

Por Marcos Ferreira

Durante dois ou três minutos permaneceu imóvel, sentado sobre o colchão, as pernas trançadas, ar pensativo, contudo exibindo no rosto ainda por barbear traços de contrariedade. Acordara de súbito, o sono importunado pela memória recente dos homens que o agrediram naquela noite quando ele deixou o lançamento do livro do amigo advogado Luciano Aires, na Biblioteca Municipal de Mondrongo.

O trauma da violência física e psicológica, o cano da pistola em sua boca, os socos e pontapés, tudo isso machucava, torturava por demais o seu espírito, fazia-o se sentir impotente e não menos revoltado. Vingar-se, àquela altura, era o seu único desejo.pistola-com-cartuchos-sobre-mesa-de-betão-preto-armas-fogo-em-fundo-concreto-fechar-o-ponto-bala-e-as-balas-munições-conceito-222070073

Na penumbra, contando com a meia-luz provinda do banheiro, pegou o telefone sobre o criado-mudo e verificou as horas: quatro e dezessete da madrugada. Sabia que depois daquilo, do pesadelo com os seus agressores, não mais conseguiria voltar a dormir. Laura estava de plantão de doze horas no Hospital Regional Tancredo Neves e só chegaria em casa por volta das sete e meia daquela manhã.

Sem a intenção de voltar a dormir, recolocou a cabeça no travesseiro e se deixou quieto, curvado sobre a cama, os olhos bem abertos, a refletir sobre a sua atual e incômoda condição de desempregado. Pensou também no dinheiro que recebera de rescisão trabalhista da Tribuna Mondronguense e começou a avaliar a possibilidade de retirar uma parte para adquirir uma arma de fogo: revólver ou pistola.

Havia servido no Exército no período de serviço militar e possuía certo traquejo com essas coisas. Noutra época, estando com vinte e cinco anos de idade, fizera curso de vigilante e chegou a trabalhar durante um tempo numa empresa seguradora de numerários.

Recordou-se, além disso, que foi forçado a deixar o ramo de segurança armada devido a problemas psíquicos, à instabilidade emocional que se lhe introduziu na mente, atacando-lhe os nervos, o autocontrole. Até culminar com o dia em que, numa agência bancária, confundiu um jovem médico negro com um pseudoassaltante, botou o revólver na cara do rapaz e o mandou deitar no chão, esbravejando.

Após uma semana de afastamento e reavaliação com supervisores da seguradora, recebeu instruções de consultar um médico psiquiatra. Então o profissional o classificou com o diagnóstico de transtorno bipolar. Jaime Peçanha entrou de benefício pelo serviço de previdência social e daí por diante nunca mais voltou a trabalhar na área nem pegar em armas. Não muito depois, graças ao seu antigo vínculo com a literatura e a escrita, conseguiu o emprego como revisor de textos na centenária Tribuna Mondronguense, onde ascendeu a copidesque, repórter e editor de cultura.

Agora, porém, a Tribuna é passado. Ele sabe que está em palpos de aranha, que a grana da rescisão não vai durar muito e que os biscates que surgirem da revisão de livros de autores locais não serão o suficiente para sustentá-lo por tempo indeterminado. Sente-se furioso, possesso, pois lembra da animosidade para com ele nutrida pelo diretor administrativo Alberto Cardoso, razão pela qual foi demitido.

Como se não bastasse, tem conhecimento de que sua cabeça foi pedida pelo prefeito Wallace Batista. Por essas e por outras, a ideia da aquisição da arma vai se fixando na mente de Jaime. E não apenas por uma questão de autodefesa, mas também por ira.

Ali recurvo sobre a cama, com uma lateral da face no travesseiro, imagina-se armado até os dentes invadindo os gabinetes do prefeito e do diretor administrativo para crivar seus desafetos de balas. Antes de executá-los, no entanto, ele primeiramente os alvejaria nas pernas e braços, romperia-lhes os joelhos com vários disparos. Não os extinguiria de imediato. Concederia a si mesmo o mórbido, o doentio prazer de vê-los suplicar, sofrer, estertorar, para só depois encher-lhes a cara de chumbo. A seguir não se importaria de meter uma bala na própria cabeça.

— Filhos da puta! — exclama baixinho.

Tais lucubrações, contudo, findam por agastá-lo. Jaime emerge num autoexame e pondera que seu acerto de contas através da psicose do chumbo e da pólvora é impraticável, impossível de ser levado a efeito. Ainda em meio à penumbra, solitário, volta a sentar-se na cama, coça os olhos e abana a cabeça negativamente. Conclui, então, que está desperdiçando energia, queimando neurônios à toa.

Seus pensamentos vão desanuviando, o semblante assume um ar sereno. A psicose do chumbo e da pólvora se foi. Ele entrelaça os dedos, move discretamente os lábios, como se fosse dizer alguma coisa, mas não emite nenhuma palavra. Sua arma, o instrumento com que pretende ajustar contas com o prefeito e o diretor administrativo da Tribuna Mondronguense, volta a ser a literatura, o livro-dossiê (meio romance e meio reportagem) em que vem trabalhando há oito meses.

Recorda-se, entrementes, que precisa convencer o senhor Pablo Licurgo, empresário do ramo de construção civil, arruinado graças às tramoias contratuais da Secretaria de Urbanismo e Obras de Mondrongo, sob ingerência do prefeito. Sim, é necessário que o senhor Licurgo respalde as provas coligidas por Jaime ao longo de quase três dúzias de cópias de uma documentação fraudulenta, com serviços superfaturados, aditivos fantasiosos e calote em fornecedores e certos prestadores de serviços, como se deu com o senhor Pablo Licurgo quando este se negou a fazer parte do esquema criminoso. No fim das contas o homem terminou falido e endividado.

Jaime pulou da cama como se houvesse recebido uma injeção de ânimo. Foi ao banheiro, urinou, lavou o rosto demoradamente, fez as suas abluções, penteou mais ou menos o cabelo, vestiu uma bermuda jeans e uma camiseta velha de algodão e seguiu para a cozinha. Então preparou a cafeteira e filtrou meia jarra de café puro. Serviu-se da rubiácea e bebeu seu ópio negro com vagar, pensativo.

Daí a pouco ligou o notebook sobre a mesa da cozinha e voltou a trabalhar no dossiê a que possivelmente dará o título de “A cidade que nunca leu um livro”. Quando Laura chegou, ele havia escrito quatro páginas e bebido o café quase todo. Ela disse que estava exausta, morta de sono, e foi para o quarto.

Jaime continuou entretido com a fabulação. Daí a cerca de meia hora, enquanto sorvia o restinho do café, colocava o ponto final em mais um capítulo do romance. Nesse instante pensou no quanto seria interessante se pudesse publicar aquelas páginas num jornal de Mondrongo, à maneira de folhetim. Tolice. Isso era praticamente suicídio. A truculência do prefeito Wallace não conhecia limites.

&&&

— E se o prefeito não tiver nada a ver com o peixe? — ponderara Laura no dia seguintes às agressões. — Já parou para pensar nessa possibilidade alguma vez? Quem sabe você possui outros desafetos em Mondrongo e nem ao menos tem conhecimento disso. Até hoje, convenhamos, ninguém conhece o prefeito por essa característica. Percebo você obcecado; botou na sua cabeça que Wallace Batista é responsável por essa violência toda e talvez ele não tenha culpa no cartório.

— Como não?! — protestou. — Aquele sonso é um lobo em pele de cordeiro. Não existe mais ninguém que tenha nada contra mim; exceto ele e o safado do Alberto Cardoso. Ambos se vendem por cidadãos de bem nas colunas sociais, obedientes a Deus. Frequentam a mesma igreja protestante. Gostam de sentar nos primeiros bancos, fecham os olhos durante longos minutos e fingem estar em sintonia com Jesus. Já presenciei tal teatro uma vez, em companhia do seu primo Reginaldo.

— Hum. Estranho! — observou Laura enquanto colocava a louça do café na pia da cozinha. — Eu não sabia que você e Reginaldo frequentavam igreja alguma. Até agora eu os tinha como dois agnósticos. Não estou certa?

— Sim, está. Isso foi apenas uma noite. Recebemos o convite de uma colega da Redação, a Margareth, e aproveitamos para investigar.

— Bisbilhotar, você quer dizer. Muito bonito!

— Fomos convidados, Laura. Porém não nego que nos aproveitamos da situação para conferir o engodo do prefeitinho e de Alberto Cardoso. O povo de Mondrongo, e não é pouca gente, está muito enganado com esse sujeito.

— As pessoas gostam dele, Jaime. Admita.

— Eu sei disso. Porém tal simpatia está essencialmente ligada ao fato de ele (eu goste ou não) representar a ruptura, a libertação de Mondrongo da antiga oligarquia dos Albuquerque Azevedo. Eis o único mérito desse prefeito farsante. Afora isto, Laura, ele não passa disso: um farsante. É tão falso e corrupto quanto aqueles contra os quais apontou sujeiras, falcatruas, podres, mandos e desmandos.

— Está bem. Termine o seu café. Preciso ver seus curativos, pois tenho outros afazeres para breve. Além do hospital mais tarde.

&&&

A casa estava silenciosa. Laura, exausta do longo plantão, fora tomar um banho e naquele instante possivelmente já havia dormido. Jaime se pôs a revisar o capítulo que dera por encerrado. Compreendia, portanto, que era preciso aguardar a ocasião certa. Aquilo não podia ser exposto como folhetim, sob determinada periodicidade, e sim de uma só vez, em formato de livro. É o que ele faria.

Como uma nuvem negra, porém, a psicose do chumbo e da pólvora ronda a sua cabeça, seu pensamento, a sua mente enfermiça. Tentará se vingar do espancamento e de outras coisas por meio da literatura, mas, lá no fundo, ele não descarta um ato camicase, tresloucado, se nada der certo através das palavras.

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 10/07/2022 - 04:24h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8

Em maus lençóis

Por Marcos Ferreira

Nariz e supercílio ensanguentados, pescoço preso por um mata-leão, Jaime Peçanha tinha dificuldade de respirar. A vista de um dos olhos também estava comprometida por um soco e ele não fazia ideia de onde estariam os seus óculos. Os três homens que o dominaram na ruazinha ao lado da Biblioteca Municipal de Mondrongo, todos encapuzados, eram corpulentos, vestiam roupas pretas; e Jaime logo percebeu que eles não estavam ali para roubar-lhe nada, mas tão só para espancá-lo e ameaçá-lo. Entre as palavras hostis, ainda que de maneira vaga, os tipos fizeram referência ao suposto dossiê que o escritor estaria elaborando contra o prefeito Wallace Batista.

Fist. Pop art retro comic style. Punch, cartoon vector

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— Olha só, rapazinho! — disse um dos sujeitos que estavam diante do literato, enquanto o que dava o mata-leão pareceu afrouxar um pouco o golpe. — Tome cuidado com essas coisas que você vem escrevendo contra pessoas de bem desta cidade. Estamos de olho em você faz tempo e não vamos deixar barato se você se meter a besta e publicar uma linha sequer dessas páginas. Estará cavando sua própria cova, pode ficar certo disso. Entenda que está mexendo com gente muito errada.

— Não estou escrevendo material nenhum — balbuciou Jaime tentando afrouxar os braços fortes do agressor. — Sou apenas um jornalista de cultura e homem de letras. O que eu faço, além do jornalismo, é escrever histórias puramente ficcionais. Nada a ver com personagens e acontecimentos do mundo real.

Uma dorzinha de cabeça o retirara mais cedo do evento. Eram então cerca de oito e meia da noite. Ele seguira pela rua totalmente erma e mal-iluminada. Aquele estreito pedaço da Travessa César Mendes inspirava certo receio e era por demais propício para tal abordagem truculenta. Sim, escolhera pessimamente o caminho ao deixar o coquetel de lançamento do livro de crônicas do amigo e advogado Luciano Aires. O texto impresso na segunda orelha fora escrito por Jaime. O seu exemplar de Caixa-pregos, com gentil dedicatória, devia estar por ali em algum ponto do pavimento de paralelepípedos umedecidos, pois havia pouco caíra uma rápida garoa.

— Nem no jornal eu continuo. Fui demitido há duas semanas. Não publiquei nada nesses últimos dias — alegou a vítima. — Já falei que não possuo dossiê nenhum contra ninguém, se é por causa disso que estão aqui.

— Ah, não brinca! — desta vez falou em tom zombeteiro o cara que aplicava o mata-leão. — Temos notícias de que você diz o contrário onde chega. Vem dando muito com a língua nos dentes, escritorzinho, divulgando essa sua lorota pelos quatro cantos da cidade. Começou na redação da Tribuna Mondronguense, passando às livrarias e sebos. Acho que mesmo no Cemitério São Sebastião o senhor anda sussurrando que vai destruir metade de Mondrongo com um livro bombástico contra políticos honestos, que trabalham por melhorias para o nosso município. Temos olhos e ouvidos em toda parte. O senhor está redondamente enganado se imagina o contrário.

De repente o terceiro sujeito, de porte alto e menos corpulento que os outros, sacou uma pistola e encostou o cano contra o rosto de Jaime:

— Abre essa boca! — ordenou todo furioso.

— Isso não é necessário! — alegou Jaime.

— Já mandei abrir! Ou atiro no seu joelho!

Em seguida o cara enfiou parte do cano da arma na boca do escritor e jornalista. Olhou para um lado e outro e disse que só não matava Jaime naquele instante porque recebera ordens para tão somente transmitir um recado. E o recado era que o escritor em maus lençóis desse um basta, um fim no suposto dossiê e parasse de publicar “acusações levianas na mídia contra os políticos de bem do município, homens que lutaram bravamente ao lado do povo para livrar a cidade da velha oligarquia dos caciques políticos, que dominaram Mondrongo ao longo de várias décadas”.

Quando o cano da arma lhe foi retirado da boca, Jaime lhes respondeu aliviado, embora ainda tivesse o pescoço na chave de braço:

— Podem ficar certos. Vou me comportar.

— É bom realmente que se comporte. Para o seu próprio bem — disse o encapuzado ocultando a pistola no cós, por sob a camisa.

O sujeito que aplicava o mata-leão libertou o pescoço de Jaime. Mas quando o escritor pensou que iriam deixá-lo em paz e ir embora, eis que lhes foram desferidos um forte soco no estômago e uma joelhada no rosto. Ele tombou sobre o paralelepípedo e daí em diante o cobriram com uma breve sessão de pontapés. Só então os três entraram numa picape que estava ali perto e foram embora calmamente. Jaime ainda ficou no chão por um curto espaço de tempo, porém conseguiu se erguer e localizar os óculos de grau, que tinha uma das lentes quebrada. Ele desamassou a armação e a colocou no rosto machucado. Também conseguiu localizar o exemplar de Caixa-pregos, o livro de crônicas com dedicatória do amigo cronista Luciano Aires.

— Filhos da puta! — rugiu entredentes. — Estão muito enganados se pensam que eu vou enfiar o rabo entre as pernas ou destruir tudo o que já tenho escrito e guardado contra aquele prefeito farsante. Não mais soltarei nada nos periódicos, contudo vou trabalhar na surdina. A hora de Wallace Batista vai chegar.

Na esquina do Banco do Brasil, quando subiu a calçada da Praça Vigário Antônio Joaquim, tendo o corpo cheio de dores, enxergando mal por um olho e com a cara e roupa ensanguentadas, Jaime acenou a um mototáxi que ia passando e o homem parou. O condutor não conseguiu esconder o espanto ao vê-lo naquelas condições e indagou acerca do que havia acontecido e se ele queria ir ao hospital. Foi-lhe respondido que aquilo fora a ação de três assaltantes e que ele, Jaime, iria diretamente para casa, e não para um pronto-socorro, como o mototaxista lhe havia recomendado.

Chegando em sua residência no Conjunto Walfredo Gurgel, ainda com o rosto banhado de sangue, Jaime causou um grande choque na esposa Laura Gondim e no amigo jornalista Reginaldo Marinho, que desta vez não estavam na cama, apenas conversavam à mesa da cozinha coincidentemente sobre os riscos da postura de Jaime frente ao prefeito de Mondrongo e quanto a eventuais consequências.

— Pelo amor de Deus, querido! — espantou-se Laura. — O que aconteceu? Quem lhe fez essa maldade? Jesus! Olha só isso, Reginaldo.

— Acalme-se, Laura, ele vai nos contar tudo.

— Ora! Foram homens do prefeito Wallace!

Enfermeira ágil e experiente, Laura ordenou:

— Leve ele para a mesa, Reginaldo. Vou pegar a caixa dos remédios e fazer os primeiros curativos. Depois vamos ao pronto-socorro.

— Não vou a lugar nenhum — recusou Jaime.

Laura cuidou dele, deu-lhe dois pontos no supercílio direito, ministrou anti-inflamatórios contra os vários hematomas, especialmente o do nariz, que não quebrou por sorte, e Jaime passou três dias sem botar a cara fora. Depois procurou um oftalmologista para receitar-lhe a aquisição de outro par de óculos.

— Isso não vai ficar assim — disse consigo próprio o escritor, mirando-se no espelho afixado sobre a cuba da lavanderia de roupas, no terraço, na parte posterior da residência. “A cidade que nunca leu um livro” está se delineando na minha cabeça de maneira bem clara. Deixe estar, prefeitinho pilantra!

Cogitou fazer a barba, porém desistiu; o rosto ainda muito machucado. Ali diante do espelho, sozinho, as suas mãos tremiam de raiva.

No dia seguinte ao ataque, naturalmente transtornado, Jaime cogito procurar o amigo advogado Luciano Aires e registrar o caso na delegacia. Pensou, além disso, em apontar o prefeito Wallace Bezerra como mandante do espancamento. Deu-se conta, entretanto, de que não tinha como provar tal acusação contra aquele sujeitinho influente e poderoso. Ao menos por enquanto era inútil acusá-lo de quaisquer crimes. Lançou água nos olhos e se pôs a refletir com os próprios botões.

De todo modo, por necessidade de desabafo, o escritor decidiu procurar Luciano e lhe expôs o que se passou quando deixou o lançamento do Caixa-pregos àquela noite, na travessa da Biblioteca Municipal de Mondrongo. Aires, estarrecido, insistiu que sim, que era preciso registrar o boletim de ocorrência. Mas, sem poder usufruir do prazer de apontar o prefeito como mandante, Jaime não quis.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 03/07/2022 - 03:48h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7

Servindo a dois senhores

Por Marcos Ferreira

O palpite de Jaime Peçanha e de Laura Gondim acerca da não dispensa de Reginaldo Marinho, repórter de política da Tribuna Mondronguense, se confirmou. Reginaldo não foi demitido. Entretanto, no dia em que esteve na sala de Alberto Cardoso, diretor administrativo daquele órgão, Reginaldo ouviu do sujeito uma proposta indecente, uma chantagem para que, daquele momento em diante, o repórter se tornasse os olhos e os ouvidos de Alberto junto a Jaime. Sim, ele queria que Reginaldo espionasse a produção literária do escritor e tudo o quanto ele estivesse elaborando sobre o prefeito Wallace Batista. Em especial no tocante a um dossiê contra o chefe do Executivo, coisa que o próprio Peçanha já dissera possuir a alguns interlocutores.dossiê -2

— Peço-lhe que me desculpe, mas eu não posso.

— Claro que pode, Reginaldo. Além de precisar desse emprego, nós somos cunhados. Você tem que jogar no meu time. Não no dele.

— Procure outro para fazer esse servicinho sujo. Não sou dedo-duro, Alberto. Você sabe que Jaime é casado com uma prima minha, a Laura. Agora desempregado, ele se encontra em dificuldades. Disse que vai bater à porta dos outros veículos de imprensa escrita, porém, do jeito que as coisas estão, é provável que não consiga nenhum trabalho fixo na concorrência. Nem sequer como revisor de textos.

— Eu não sabia que vocês eram tão chegados.

— Não se trata de amizade. Realmente não somos muito próximos. Mas o Jaime é um bom tipo, bom esposo, inteligente, trabalhador.

Alberto Cardoso moveu-se para um lado e outro na sua cadeira giratória. Passou a mão no rosto sempre rigorosamente barbeado e largou esse contra-argumento que expôs o seu vínculo com o chefe do Executivo municipal:

— Acho que o prefeito discorda dessas qualidades.

— Quer dizer, Alberto, que o seu intuito em espionar Jaime tem a ver com o prefeitinho? Eu acredito que esta centenária Tribuna seja oposição a ele. Pelo que vejo, contudo, parece que você está de conchavo com aquele sonso. Isso explica a demissão de Jaime e a chantagem que você pretende me impor.

— Pense na minha irmã e nos seus filhos.

— Pense você também na sua irmã e sobrinhos.

— Eu gostaria de entender essa sua lealdade a ele. Você, pelo que sei, não deve nada a Jaime. Ou deve? Fique do meu lado! Eis a atitude correta. Não posso escolher outra pessoa. Porque você tem trânsito livre na casa de sua prima. Quero saber o que ele anda tramando (isto é, escrevendo) para atingir o prefeito. Pronto, vou lhe confessar: tenho amizade com Wallace Batista, e ouvi, assim como o prefeito, falarem por aí que Jaime possui um suposto dossiê virulento. Decerto são aleivosias, mas algo assim em época de reeleição pode arranhar a imagem de um candidato.

Sentado em uma cadeira igualmente giratória diante da mesa de Alberto Cardoso, o repórter de política não se deixou cooptar. Descruzou a perna, puxou um cigarro do bolso da camisa e apenas o prendeu na orelha direita, como se o simples contato com o Hollywood o satisfizesse, e sustentou a sua opinião:

— Acho que você tem outras maneiras de saber o que deseja sem ser por meu intermédio. Por que não contrata alguém do meio literário? O que não falta em Mondrongo é intelectual, principalmente da fauna dos escribas, querendo puxar o tapete de um desafeto das letras. Jaime, o que não é segredo, possui muitos pares que o veem atravessado, doidos para enfiar-lhe uma faca pelas costas.

Alberto Cardoso teve um raro ímpeto de aborrecimento e bateu com a palma da mão sobre o birô, causando estranheza a Reginaldo. A seguir, recompondo o semblante, que se avermelhara de súbito, falou com suavidade:

— Assim você não me deixa saída, cunhado.

— Se resolver me demitir, você é quem sabe.

Com o rosto voltando a ficar rubro pela contrariedade, o diretor administrativo respirou fundo, ajeitou-se na cadeira e daí a mais alguns segundos reassumiu o seu calmo e natural tom de voz, que ele havia elevado por um instante ao bater com a mão espalmada sobre o birô de madeira com tampo de vidro temperado:

— Não vou demiti-lo, Reginaldo. Mas apenas porque você é meu cunhado e não quero que, indiretamente, minha irmã e os meus sobrinhos paguem por sua estupidez. Do contrário, saiba que eu o jogaria no olho da rua sem ao menos pestanejar. A partir de hoje, porém, você está fora da editoria de política. Vai cobrir eventos esportivos, desde briga de galos até jogo de bilha. César Calisto, que já o substituiu nas suas férias e algumas vezes em que você esteve doente, assumirá seu lugar.

Agora, retirando o cigarro da orelha sem motivo aparente, foi a vez de Reginaldo bater na mesa e se colocar de pé, a cara afogueada de aborrecimento e falando de modo exaltado. Reginaldo sustentou que Alberto ficasse à vontade para demiti-lo, pois não aceitaria aquela humilhação, até porque o salário dele na editoria de política era bem melhor do que o de César Calisto, na área de esportes. Alberto pediu que ele sentasse, todavia Reginaldo continuou de pé e com a voz elevada:

— O que o dono do jornal achará disso?

— Disso o quê, Reginaldo?!… Seja claro.

— Falo do seu conchavo com o prefeito.

— Você por acaso está me chantageando?

— Só estou lhe fazendo provar do seu remedinho. Pois pretende me tirar da editoria de política só porque não aceitei tomar parte nessa sua perseguição apoiada pelo prefeito contra Jaime. Quero saber o que o mandachuva Jerônimo Albuquerque Azevedo fará quando souber que você está de conluio com o prefeitinho exibicionista, que passou o primeiro mandato inteiro sem descer do palanque. Será preciso que eu desenhe para você que a Tribuna Mondronguense é oposição a esse indivíduo? Pode me colocar onde quiser, Alberto, contudo Jerônimo Albuquerque Azevedo ficará sabendo que o diretor administrativo dele está servindo a dois senhores.

Alberto Cardoso voltou a corar as faces. Desta vez, entretanto, de apreensão, ou de constrangimento. Reginaldo continuava falando grosso. Mais uma vez, cochichando, o diretor administrativo pediu que ele se sentasse:

— Calma, homem. Fale baixo, por favor.

Enfim, para a tranquilidade de Alberto Cardoso, o repórter de política resolveu se sentar e tornou a prender o cigarro na orelha direita.

— Vamos esquecer isso — falou Alberto.

— Acredito que é o melhor para nós dois.

— Exatamente. Deixemos as coisas como estão. É melhor. Prossiga na editoria de política e o César Calisto se manterá na de esportes. Tudo igual. Por ser meu cunhado, imaginei que não fosse se opor tanto a colaborar comigo nesse trabalhinho. Acho que a ligação de vocês é bem mais forte do que eu supunha. Estou realmente surpreso que tenha se mostrado tão fiel, tão solidário a ele. Logo você, Reginaldo, um cara que é acostumado a bater em gregos e troianos no universo político de Mondrongo e também do estado de Santa Luzia. Mas faça de conta, enfim, que não tivemos essa conversa. A única coisa que lhe peço é que nada do que falamos saia desta sala. Muito menos chegue aos ouvidos de Jaime Peçanha. Posso contar com a sua discrição?

— Não vou comentar nada com ninguém.

— Ótimo! Você não é mesmo dedo-duro.

— Não sou, não. Você me avaliou mal.

Por volta das sete da noite, após cumprir suas obrigações na Tribuna ainda como editor de política, Reginaldo foi direto para a casa de Laura Gondim. Lá chegando tomou um banho demorado e foram conversar na cama, já seminus. Então Reginaldo contou a Jaime e a Laura tudo o quanto ele ouvira do cunhado. Depois partilharem um cigarrinho, como de outras vezes, e fizeram sexo a três.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 26/06/2022 - 04:34h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6

A origem do fim

Por Marcos Ferreira

Desempregado e ainda sem ter recebido um centavo da rescisão trabalhista, Jaime Peçanha levou adiante o que prometera à esposa, Laura Gondim: vender todos os livros dele. Isso, além de amenizar o drama financeiro, faria com que ele ganhasse alguns pontos junto à mulher, que sempre manifestara o desejo de se livrar daqueles “condomínios de ácaros e fungos” que lhe atacavam a rinite alérgica.fim, túnel, dúvida

Entre autores nacionais e estrangeiros, como Graciliano Ramos, Guilherme de Almeida, Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Adonias Filho, Dostoiévski, Miguel de Cervantes, Tolstói, Mario Quintana, Florbela Espanca, Gabriela Mistral, Lúcio Cardoso, Olavo Bilac, Cesário Verde, Lima Barreto e Júlia Lopes de Almeida, foram quase oitocentos títulos vendidos por três mil reais. Valor este dividido em três parcelas de mil reais. O sebista também exigiu as três estantes de ferro.

A negociação, toda ela pechinchada, rolou da metade da manhã para próximo do meio-dia. Durante o tempo em que esteve no Sebo Verdugo, onde conseguiu vender a sua biblioteca de algumas centenas de volumes por esse preço simbólico, o jornalista e escritor Jaime Peçanha demorou-se mais do que imaginara devido a um assunto levantado em determinado momento — na verdade requentado — pelo astucioso sebista Antoniel Silva. É importante recordar que em Mondrongo existem somente dois sebos: o Verdugo e o Sebo Bate-Bucha, este de propriedade do xilógrafo Gotardo Luís. O xilógrafo ofereceu meramente dois mil reais pelo acervo, em duas parcelas. A cidade conta com duas pequenas livrarias. Uma está situada no Centro e a outra funciona no único shopping, o Pastagem, uma grande bodega mal refrigerada e elitista.

— Você realmente acredita nessa lenda, Antoniel? — refutou, Jaime sentado num banquinho de madeira diante de Antoniel Silva, que ocupava outro banco do mesmo tipo, ambos num local menos apertado, à entrada do comércio, que naquele instante não contava com nenhum cliente. — Isso não passa de folclore propagado pelo Cândido Besouro, tido e havido como um semideus neste cu de judas.

Com um robusto exemplar de O Propósito de Lampião em Mondrongo, já pela terceira ou quarta edição, esta última lançada pelo próprio Sebo Verdugo, Antoniel Silva usava de sua lábia e astúcia de antigo negociante de livros e egos para tentar vender o seu peixe de tinta e celulose a Jaime Peçanha por nada mais, nada menos que setenta reais. Título que já caiu em domínio público, pois a primeira edição data de 1935, O Propósito de Lampião em Mondrongo tem como lastro não o mero saque a esta comuna, mas uma conspiração do coronel Juarez Albuquerque Azevedo para que Lampião assassinasse o então prefeito de Mondrongo, Adolfo Fagundes.

— Rapaz, está tudo aqui — assegurou Antoniel folheando o livrório de umas quatrocentas páginas, novo e com posfácio de Dionísio da Costa Limeira, perpétuo presidente da Academia Santa-luziense de Letras. — Você sabe que o mestre Cândido Besouro era um folclorista e historiador sério, estudioso da mais alta credibilidade e competência ante os acontecimentos pesquisados e registrados por ele.

Daí teve início a seguinte porfia entre os dois:

— Como se não bastasse, Besouro ainda escreveu nesse calhamaço, o qual eu já li numa determinada época, que Lampião, um elemento notoriamente conhecido como semianalfabeto, teria dito que Mondrongo é “a cidade que nunca leu um livro” — contestou Jaime. — Ora! Besouro diz ainda que Virgulino Ferreira da Silva, o vulgo Lampião, o Rei do Cangaço, escrevia poemas de amor para a sua não menos valente Maria Bonita. Tenha santa paciência, meu caro! Nenhum outro folclorista deste país deu semelhante vexame historiográfico. Quando não sabia de uma coisa, para não deixar ninguém sem resposta e não ficar por desinformado, Besouro costumava inventar histórias desse tipo. Lampião não se interessava por versos, era homem de armas, não de letras, muito menos poderia dizer se Mondrongo possuía ou não leitores.

Antoniel Silva consertou os grandes óculos de grau sobre o narigão vermelho, sungou os testículos, largou dois pigarros e prosseguiu defendendo a reputação do folclorista, historiador, etnógrafo, antropólogo, poeta, advogado, jornalista, nazista, fascista e o escambau. Enquanto Antoniel tagarelava na defesa do semideus da intelectualidade santa-luziense, Jaime Peçanha teve este rápido estalo:

— “A cidade que nunca leu um livro” — falou.

— O que isso tem a ver? — inquiriu Antoniel.

— Me parece que soa bem para um romance.

— Péssimo nome. E você tem um romance?

— Estou começando… Ainda faltava o título.

Antoniel Silva, que àquela altura já havia se dado conta de que não conseguiria abater o seu produto “da mais alta credibilidade e competência” no dinheiro que teria que pagar a Jaime, súbito começou a tomar a recusa do outro como uma ofensa pessoal: “Você é um invejoso, um despeitado. É isso, tem inveja da grandeza e glória do mestre Cândido Besouro”. Jaime não deu bola para o fricote. Pois outro fato notório é que o sebista-editor Antoniel Silva é um baba-ovo despudorado não somente da memória intelectual de Besouro, mas também de toda uma récua de intocáveis pavões de Mondrongo e de Cafundolândia, a capital do nosso estado de Santa Luzia.

— Mudei de ideia — disse Jaime de repente.

— A respeito de que você está falando agora?

— Decidi que vou levar esse troço do Besouro.

— Garanto que está fazendo ótima aquisição.

— Não é pela obra em si, eu também asseguro.

— Por quê, então?! Trata-se de um clássico!

— Porra nenhuma, Antoniel Silva! Porém me será útil de alguma maneira na composição do meu enredo “A cidade que nunca leu um livro”. Pronto, camarada! Agora eu já tenho um título, e você fica sabendo de antemão.

— Segundo Cândido Besouro em seu clássico O Propósito de Lampião em Mondrongo, como você talvez recorde, tem a ver com a narrativa de que o avô paterno do Rei do Cangaço supostamente abriu a primeira livraria de Mondrongo, vindo a falir em menos de um ano de atividade por falta de clientes. Isto é, leitores. Magoado, portanto, o avô de Virgulino Ferreira teria publicado um artigo na Tribuna Mondronguense afirmando que os habitantes de Mondrongo jamais leram um livro.

— Conheço essa história. O problema é que Besouro não transcreveu o referido artigo nem jamais nenhum pesquisador do estado de Santa Luzia nem de parte alguma localizou o desabafo do avô de Lampião nos arquivos da Tribuna. Na obra, sem riqueza de detalhes, Besouro diz que o homem se chamava Leopoldo Ferreira, ex-ferroviário, e que seria natural de Serra Talhada, em Pernambuco. Informa ainda que o cara, poeta bissexto e amante da literatura, teria empregado todas as suas economias nesse projeto fracassado da livraria e terminou perdendo tudo, afundando na ruína financeira, terminando os seus dias de vida como mendigo em Mondrongo.

Como era de se esperar, o sebista-editor ficou satisfeito por, enfim, ter conseguido vender seu peixe de papel. Contudo, não digerindo bem o descaso de Jaime em relação a Cândido Besouro, retrucou o que lhe pareceu uma guinada contraditória na produção literária de Jaime Peçanha: as críticas que não raro, por meio de contos, poemas e crônicas, Jaime desferia contra a hoje derrotada oligarquia Albuquerque Azevedo e a administração pirotécnica e afetada do prefeitinho Wallace Batista:

— Você por acaso virou a casaca, Peçanha?

— Não estou entendo o porquê da pergunta.

— Ora, amigo, você num domingo sim e no outro também baixava o cacete no lombo do atual prefeito em suas produções cheias de veneno e duplo sentido, mas agora resolve se voltar contra o nosso maior folclorista Cândido Besouro! Vai escrever também sobre cangaço, logo você que sempre desprezou esse tema?! Ou seja, trocará de alvo tão só para atacar o nome de um ícone das nossas letras.

Depois de uma gargalhada, Jaime respondeu:

— Larga de ser puxa-saco de defunto, homem! Já lhe basta essa intelectualidade pavonesca cujos testículos você vive osculando. Entenda que não passa pela minha cabeça, não ao menos neste momento, escrever nada contra o senhor Cândido Besouro, embora ele também mereça umas boas chibatadas.

— O que pretende fazer, então? Você não dá ponto sem nó, Jaime. Aposto que está tramando também contra o mestre Besouro.

— Não seja paranoico. Adquiri o catatau porque acho que me será útil em certos momentos da minha narrativa, de modo a embasar algumas coisas. Como eu lhe disse, Antoniel, eu já li essa porcaria e sei que tem vários ingredientes aí que, juntando com o material que tenho em curso, poderão resultar num bom caldo. Não estou livrando a cara do prefeitinho Wallace Batista de modo algum. Pelo contrário. Disponho de um dossiê devastador contra ele, desde o tempo em que foi presidente da Câmara de Vereadores, deputado estadual e hoje se aboletou na Prefeitura.

— Está louco? Vai plagiar o mestre Besouro?

— Não exija muito dos seus vinte neurônios.

— Fala sério, Peçanha! Que porra vai fazer?

— Eu já falei que vou reler O Propósito de Lampião em Mondrongo meramente para me reiterar de certas historietas registradas nesse trabalho pelo seu mestre coleóptero. Não vou plagiar merda alguma. Confesso, todavia, que talvez eu reescreva algumas dessas anedotas, como essa, sobretudo, do cangaceiro Lampião supostamente haver dito que Mondrongo é “a cidade que nunca leu um livro”. De onde diabos Cândido Besouro tirou esse conto da carochinha? Você faz alguma ideia? Também fico imaginando Virgulino Ferreira no meio da caatinga, enquanto se escondia das volantes, de posse de lápis e papel escrevendo versinhos para a Maria Bonita dele.

— O trabalho de Besouro tem lastro, amigo.

— Francamente, um Lampião poeta não dá.

— Ora! Jesuíno Brilhante não se tornou conhecido como o cangaceiro romântico? Por que Lampião, que sabia ler e escrever, de forma precária, mas sabia, não poderia gostar de versos e escrever para a rainha do cangaço?

— Se Besouro tivesse afirmado em algum livro que a Terra é quadrada, Antoniel, até hoje você estaria defendendo tal despautério.

— Acho melhor você se ocupar com a oligarquia Albuquerque Azevedo e o prefeito Wallace Batista. Mas tome cuidado com ele.

— Por que eu deveria me preocupar em especial com o prefeitinho Wallace Batista? Você está sabendo de algo sobre a índole do jovem alcaide que não sei? Porventura devo sair de casa agora usando colete à prova de balas? E qual seria o nível de resistência a que tipo de calibres? Já estou tremendo de medo.

— É bom mesmo que tome cuidado. Você não tem peito de aço e Wallace Batista não é de levar desaforo para casa como esse pessoal da oligarquia Albuquerque Azevedo, contra quem você costuma escrever cobras e lagartos.

Jaime Peçanha se cansou daquela lenga-lenga:

— Vamos ao que importa. Assine meu cheque.

— Já vou descontar os setenta do livro, ok?

— Claro que sim! Contanto que tenha fundos.

— Você e suas piadinhas sem graça, Jaime.

— É somente força do hábito, caro Antoniel.

Naquele dia, embora bem-humorado, Jaime deixou o Sebo Verdugo com a estranha sensação de que possuía um alvo desenhado em suas costas, no peito ou na testa. Pois no fundo ele sabia que o senhor prefeito, embora não fosse homem de armas e muito menos de ação, possuía índole sub-reptícia e traiçoeira. Não duvidava, pois, que o prefeitinho fosse capaz de contratar um pistoleiro para silenciá-lo e pôr um basta em suas críticas arrimadas na literatura: contos, poemas e crônicas.

Além disso, agora Jaime também trabalhava num dossiê, um romance bombástico que detonaria, mesmo se resguardando na trincheira de peça ficcional, a carreira política de Wallace Batista, elemento este que vem se revelando até pior do que grande parte dos integrantes da oligarquia Albuquerque Azevedo.

Ali começava, portanto, a origem do fim.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 19/06/2022 - 03:40h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Por Marcos Ferreira

Continuemos com o nosso recuo no tempo.

Naquela época, mês de setembro de 2001, quando explodira como estrela absoluta nos noticiários o devastador ataque terrorista contra os Estados Unidos, ocorrido precisamente em uma monótona manhã do dia 11, quase ninguém estava ligado ou interessado em blogues, sites ou portais eletrônicos. Não. Naquele momento, como era de se esperar, as emissoras de televisão deram um show à parte, com transmissões ao vivo especialmente de locais o mais próximo possível dos escombros das Torres Gêmeas do World Trade Center, na ilha de Manhattan, em Nova Iorque. Quase não se televisionava outra matéria ou programa. O terrorismo roubou a cena.redação de um jornal - foto antiga

No dia seguinte, enfim, a carcaça midiática do maior ataque terrorista de todos os tempos foi compartilhada e difundida pelos jornalões e demais órgãos da miuçalha, os veículos impressos, feito sobras, restos mortais de uma presa sobejada por leões ao dispor das hienas. Mesmo assim, salvo uns gatos-pingados, ninguém buscou por essas informações na blogosfera. Não ao menos em Mondrongo.

O público leitor não tinha afinidade, entrosamento ou interesse pelo pouco que se realizava de jornalismo virtual naquele comecinho de década. Talvez apenas no Sudeste um blogue aqui e outro acolá já tivessem adquirido qualquer audiência e repercussão junto aos leitores.

Porque tais coisas praticamente inexistiam em nossa maniqueísta sociedade. Configuravam-se como projetos raros em todo o estado de Santa Luzia, mesmo em Cafundolândia, nossa bela capital. O próprio advento da Internet, a exemplo da telefonia móvel, era um recurso nada acessível para a maior parte da população, disponível, sobretudo, para a classe média alta, a elite financeira.

Na realidade, porém, a mídia impressa de Mondrongo já se achava ferida de morte. Os departamentos de publicidade desses veículos sofriam para conseguir anunciantes, ou segurar os que possuíam. Mês a mês, para o desespero de Alberto Cardoso, diretor administrativo da Tribuna, um anunciante ou outro arrepiava carreira do jornal. Situação agravada pelo elevado número de inadimplentes.

Mondrongo, então com cerca de duzentos e sessenta mil habitantes, hoje ultrapassa um pouquinho os trezentos mil, possuía cinco jornais impressos circulando diariamente, disputando leitores e o terreno das publicidades palmo a palmo. Era de se esperar, portanto, que o minguado pão dos anúncios não chegasse para todos eles, não ao menos a ponto de suprir as suas necessidades prioritárias. Eram eles, por ordem cronológica: a centenária Tribuna Mondronguense, o popular Diário do Oeste, o Clarim Exato, a Folha da Tarde e o caçula Correio Expresso. Sem contarmos as publicações hebdomadárias. Não muito depois os dois últimos fechariam as portas.

A duras penas, tentando conter a debandada de anunciantes, os outros três veículos fizeram mais demissões e continuaram no ramo de forma heroica. Mas era só uma questão de tempo até que ruíssem absolutamente. A situação se tornava insustentável a cada mês. Salários em atraso, divergências rescisórias e ações na Justiça do Trabalho eram uma constante no cotidiano dessas empresas de notícias.

Ainda assim, decerto por brio e vaidade, ser jornalista, membro da imprensa em Mondrongo era qualquer coisa fascinante, honrosa, uma espécie de profissional popstar entre as demais atividades de baixo coturno. Até mesmo os fotógrafos (alguns não passavam de meros apertadores de botões, hoje em dia promovidos a repórteres fotográficos) andavam por aí muito anchos portando as suas máquinas com filmes em preto e branco penduradas no pescoço. Ser jornalista nesta cidade, então, era um must. Certos indivíduos, segundo as más línguas, necessitavam dormir de beliche, pois embaixo só cabia o sujeito, enquanto o ego do cara ficava na parte de cima.

Essa história de beliche — vamos logo dar nomes aos bois — foi uma boutade que se tornou famosa oriunda da verve do poeta e jornalista Moacir Alexandrino Neto, em referência à soberba e empáfia de um seu colega de redação no Diário do Oeste. O nome do “homenageado”, que por sinal já foi estudar a geologia dos campos-santos, conforme consta no Dom Casmurro, é Mauro Mosca.

O triste fim de Mauro Mosca se deu da seguinte forma: uma noite, ao ser abordado por dois sujeitos que lhe queriam tomar o relógio e a carteira no sifilítico Beco das Frutas, onde ele frequentava uma casa de tolerância, Mosca se negou a entregar os pertences e um dos marginais lhe abriu a barriga com uma faca peixeira. O agressor largou a arma no local do crime e fugiu com o comparsa levando o relógio e a carteira. Mauro Mosca era tão vaidoso quanto o amigo Reginaldo Marinho, primo da enfermeira Laura Gondim, esposa de Jaime Peçanha, ela que faz um trisal com o marido e o primo. Isto nos lembra Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado.

Após conseguir vender a sua pequena biblioteca a um sebo do Centro, localizado na Praça do Relógio, o jornalista e escritor Jaime Peçanha decidiu bater à porta dos demais órgãos da imprensa escrita em busca de trabalho. Até mesmo a função de revisor de textos, que representaria um retorno às suas origens, era bem-vinda. Todavia ele não conseguiu nada. Não estavam contratando ninguém.

Alguns anos depois, exatamente nesta ordem, o Diário do Oeste e a Tribuna Mondronguense jogaram a toalha, faliram de vez. Hoje em dia, quiçá por milagre, mantém-se em circulação, com cinquenta ou cem exemplares impressos, apenas o Clarim Exato, que sempre viveu pendurado nas tetas do erário municipal ou do estado.

Por sua vez, contudo, pois é preciso também que se registre, a Tribuna Mondronguense não sucumbiu completamente, segue perseverando no universo virtual por meio de uma plataforma eletrônica. Isto é, o pulso jornalístico da centenária folha ainda pulsa através da Internet, com módica audiência e uma equipe de três funcionários.

A Tribuna, que por um século e meio pertenceu a vários donos, funcionando ininterruptamente, hoje em dia (o que significa dizer quarenta anos) está sob o comando de um ramo político da tradicional e poderosa família Albuquerque Azevedo, oligarquia esta que dominou Mondrongo e o estado de Santa Luzia por décadas a fio, alternando-se no poder com admirável e imbatível competência.

Nas últimas eleições do município, porém, exibindo claros sinais de cansaço, a senhora Rosana Albuquerque Azevedo, forte candidata da família oligárquica à Prefeitura, foi constrangedoramente derrotada nas urnas pelo jovem e palavroso prefeito Wallace Batista, que se vendeu ao longo da campanha como opção de renovação e revitalização administrativa para o município de Mondrongo.

Durante a disputa, verdade seja dita, Rosana Albuquerque Azevedo, que já havia sido governadora e eleita para comandar esta cidade em três mandatos, subestimou o adversário Wallace Batista. No fim das contas, após longas décadas de domínio, a oligarquia caiu.

O Diário do Oeste, leia-se o imóvel, acabou sendo vendido. A maior parte do dinheiro, segundo comentários dos seus antigos empregados, foi destinada ao pagamento de dívidas trabalhistas. O novo proprietário demoliu o histórico prédio e no local foi erguido um gigantesco galpão metálico para acolher materiais e maquinários de uma grande loja do segmento elétrico e da construção civil.

O ex-dono do Diário do Oeste, jornalista que escandalizou a sociedade mondronguense com a sua metralhadora giratória, era o neurastênico senhor Orlando Quaresma. Esse homem, tanto para o bem quanto para o mal, por meio do seu tratamento de choque datilografado em sua barulhenta máquina de escrever, chacoalhou o jornalismo republicano e bem-comportado de Mondrongo. Uma coisa ninguém podia lhe negar: o sujeito tinha colhões, tinha coragem para descer o malho, baixar o cacete em gregos e troianos, poderosos e mequetrefes da política e da sociedade mondronguenses. Nem a “santa” Igreja Católica escapou à sua fúria iconoclasta.

Dificilmente um empresário ou comerciante se negava a divulgar seu negócio nas páginas do Diário. Pois Orlando Quaresma não era apenas respeitado. Era, sobretudo, temido. Ninguém, ou quase ninguém, ousava contrariá-lo. Em 2020, quando ele morreu acometido pela peste pandêmica, estava com setenta e oito anos de idade. Toda sorte de encômios e louvações pipocou nas redes sociais.

Orlando Quaresma foi sepultado no Cemitério São Sebastião. Sobre o esquife estava a bandeira da Academia Mondronguense de Letras. Quaresma não só conquistou desafetos como também admiradores. Era a maior estrela do jornalismo local, senão do estado.

Poucas vezes neste país, ainda que no microcosmo de Mondrongo, um homem de imprensa atingiu um patamar de credibilidade e renome tão elevado. Vereadores governistas e da oposição ocuparam a tribuna para render homenagens ao ilustre falecido. Songamonga, o midiático prefeito Wallace Batista, diga-se que numa atitude justa e oportuna, decretou três dias de luto oficial no município.

É oportuno também frisar que Orlando Quaresma não possuía uma escrita bonita, elegante. Não. Seu texto não continha um pingo de poesia. Sua força, talvez a sua graça, estava justamente na secura e dureza com que escrevia. Era, mal comparando, um João Cabral de Melo Neto do jornalismo. Sua coluna no Diário do Oeste parecia “uma faca só lâmina”, como no poema do bardo pernambucano.

Eis, enfim, uma pequena história da imprensa local. Os jornais antigos estão aqui representados pela Tribuna Mondronguense, reduzida à sua versão eletrônica, e pelo Clarim Exato, este ainda na modalidade impressa com os seus cinquenta ou cem exemplares. O resto são portais, sites, blogues e redes sociais.

Até hoje, portanto, o pulso ainda pulsa.

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Marcos Ferreira é escritor

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 12/06/2022 - 03:24h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4

O elo inquebrável

Por Marcos Ferreira

Com vinte e oito anos de idade, completamente avessa à ideia de ser mãe, Laura Gondim é uma mulher não só de um rostinho bonito, com seus grandes olhos claros, esverdeados, com negro e curto cabelo sempre muito bem tratado, mas também uma “pequenina boneca de carne”, como diz a canção do Vicente Celestino. É, ainda, uma barata de academia, pois puxa ferro quase que diariamente.beijos, dedos, desenho, amor, carinho,

Além do cuidado com a alimentação, ela consome alguns suplementos vitamínicos. Embora baixinha, medindo menos de um metro e sessenta, Laura possui um corpo escultórico, de fato invejável, em especial uma bunda que, se não chega a isso, beira a perfeição.

Muito mais do que um corpo modelar, seja dito, ela é dona de uma personalidade insubordinável, cativante e manipuladora. Tanto que faz Jaime e o primo Reginaldo de gato e sapato. Não é de maneira alguma inclinada a leituras, implica com os livros de Jaime mais por pirraça, todavia é inteligente, de uma perspicácia e de um senso de humor cortantes como poucas vezes encontramos por aí.

Ambos estavam ligeiramente extenuados, mas logo o seu vigor físico se renovaria. Depois que terminaram o sexo — pois era apenas isso que eles faziam: sexo puro e simples, ardente e depravado —, Jaime e Laura se aquietaram sobre a cama. Ficaram em silêncio por cerca de um minuto, cada qual pensando com os seus botões. Ele arrumou o travesseiro sob a cabeça e cruzou os dedos embaixo da nuca.

Parte do lençol lhe ocultava os órgãos genitais. Laura, porém, que havia acendido um dos cigarros de Jaime, tinha o corpo nu, inteiramente exposto, a vulva de negros pentelhos contrastando com sua pele branca ao extremo. Encontravam-se um pouco suados, mas não fazia calor. O clima era agradável naquele final de manhã de setembro.

Alheios à repercussão do atentado aos Estados Unidos, que gerou vários tsunamis de informações e repercussões na mídia do Brasil e do mundo inteiro, o insólito casal, adepto de um triângulo promíscuo que envolvia o repórter político Reginaldo Marinho, primo legítimo de Laura, só estava preocupado naquele momento com o destino profissional e financeiro de Jaime. Especialmente Laura.

Ela, enfermeira do Hospital Regional Tancredo Neves, parecia esperar que Jaime tirasse da manga uma carta salvadora, um milagroso coelho da cartola, alguma opção de trabalho fixo que pudesse se equiparar ou melhorar o orçamento deles. O ramo de imprensa em Mondrongo, como em toda parte, em particular a mídia impressa, estava ruim das pernas havia bastante tempo. A Tribuna Mondronguense se via às vascas da morte financeira.

O Diário do Oeste, outrora campeão de audiência no município e região, também agonizava e, a exemplo da Tribuna, já fizera algumas demissões. Por essa época começava o advento da Internet, o fenômeno dos blogues, sites e portais se estabelecendo. A debacle era iminente. Os anunciantes escasseavam.

— E então, Jaime, o que você pretende fazer?

— Não sei. Ainda estou assimilando o golpe.

— Fico pensando se essa demissão repentina não está relacionada às suas críticas ao prefeito. Sabemos que você às vezes pega pesado através da literatura, e aquele rapazinho tem fama de perseguidor. Pode ter se mancomunado com o diretor Alberto Cardoso. Não duvido nada desse prefeito songamonga. Quem quiser que o compre por justo e correto. Você viu o que ele aprontou com o próprio vice, puxou o tapete do cara e deixou o sujeito chupando o dedo. Depois teve aquele espetáculo midiático que ele estrelou na maternidade do Tancredo Neves: filmou parcialmente a sala de parto no momento em que uma mulher dava à luz e postou nas redes sociais.

— Não creio que Wallace Batista tenha nada a ver com isso. Falo no tocante à minha demissão. No mais eu sei que ele não é flor que se cheire. A Tribuna Mondronguense faz oposição aberta a ele. Será muita conspiração, coisa de romance policial, se ele e Alberto Cardoso tiverem reunido seus “podres poderes” para me demitir, juntando o útil ao agradável.

Prefiro acreditar, sendo bem racional, que minha demissão foi acelerada pela animosidade que Alberto Cardoso tem contra mim e também devido às condições do meio jornalístico, que são mesmo precárias.

Quase dez centímetros mais alto que Reginaldo, que mede pouco mais de um metro e setenta, Jaime não possui feições tão belas quanto as do primo de Laura, no entanto é um indivíduo mais culto e bem-dotado sexualmente. Vantagem esta que decerto empata o jogo entre quatro paredes comandado por Laura.

— Vamos lá! Me mostre o que você tem aí.

— Eu gostaria que terminasse com Reginaldo.

— De novo esse assunto?! Ficará como está!

— Antes eu não me importava. Mas agora…

— Agora você tem que pensar é em trabalho, em arrumar outro emprego. Não vou ficar com um homem dentro de casa sem fazer nada.

— Já está me mandando para a rua também?

— Não. Só lhe recordando que há prioridades.

— Tenho algumas coisas em mente. Planos.

— Por acaso eles envolvem algum dinheiro?

— Eu decidi que vou vender os meus livros.

— Que livros?! Essas velharias das estantes?

— Sim. Você não é louca para se livrar deles?

— Não posso negar. Mas não valem muita coisa.

— Qualquer dinheiro a esta hora é bem-vindo.

— Está bem. Tem minha completa aprovação.

— Lógico. Nunca gostou da presença deles.

— Nem eles da minha. Atacam minha rinite.

Fumante esporádica, ela compartilhou o cigarro com ele. Cruzou a perna direita, cobrindo a pequena região de pelos pubianos. A seguir descruzou a perna, manteve uma toda aberta e o joelho recurvo. Acariciou a si mesma e se ergueu, apoiando o tronco nos cotovelos e antebraços. Olhou Jaime de cima abaixo com um ar risonho, um risinho que ele conhecia bem, e então o apalpou por cima do lençol:

— Eu quero de novo. Você também quer?

— Claro! Com você eu sempre quero mais.

— Eu não posso lhe trocar por Reginaldo.

— Contudo insiste em ficar com nós dois.

— É que vocês me fazem sentir completa.

Laura bateu o martelo e nem Jaime nem Reginaldo tinham coragem de quebrar aquele elo mágico. O osculatório recomeçou. A felação foi avidamente retribuída, Laura voltou a ser sorvida com igual ardor como da primeira etapa da transa. Ficaram nesse estremecer de carnes, incursões linguais e termos chulos por mais alguns minutos. Até que ela gemeu no ouvido dele, após novos orgasmos:

— Agora eu quero tudinho na minha boca!

Logo, então, ele satisfez a vontade dela.

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 05/06/2022 - 03:34h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 3

Entre quatro paredesTriângulo amoroso

Por Marcos Ferreira

Algumas pessoas são frias como o próprio gelo. Ou, como também se costuma dizer, têm sangue de barata. Ou sangue nenhum.

Após cerca de quinze minutos, quando Laura e Reginaldo Marinho deixaram o quarto e foram à sala, depararam com Jaime numa cadeira da área frontal, de perna cruzada, semblante imperturbável e fumando. Os amantes, sem demonstrar o menor embaraço, somente se entreolharam e ocuparam outras cadeiras da área.

Reginaldo, que é primo legítimo de Laura, também acendeu um cigarro, comentou qualquer coisa acerca do tempo chuvoso, e Laura foi quem indagou ao marido há quanto tempo ele havia chegado. Porque estivesse fatigado, Jaime descruzou a perna e cruzou a outra, lançou a nuvem de fumo para cima e respondeu calmamente:

­— O bastante para ver vocês na minha cama.

— Que história é essa de minha cama?! — reagiu a mulher num tom menos amistoso, como se houvesse recebido um insulto. — Você não tem nada aqui, Jaime, exceto aquele notebook caduco e uma estante de livros velhos que só servem para juntar poeira, pois você nunca limpa nenhum. Estão aí de enfeite, ocupando espaço. Acho que você fica esperando que eu cuide daquela tralha, mas não faço. E tem mais: quando você me conheceu, já sabia da minha relação com o Reginaldo.

— Sim, eu sabia. Porém me casei com você.

— Casou coisa nenhuma! Apenas botar uma aliança no meu dedo não configura um matrimônio. Você me conheceu viúva, sem filhos, independente, dona do meu próprio nariz e desta casa. Apenas trouxe as suas roupas amarfanhadas para cá e mais alguns objetos. E deixamos bem claro, quando você falou em casamento, que eu e Reginaldo continuaríamos com nossa relação, com ou sem você.

— Foi isso aí, Jaime, você concordou com o nosso triângulo amoroso. Perdoem se a piada é ruim — interveio Reginaldo lançando a fumacinha pelo nariz e pela boca, atingindo o pequeno bigode ruivo, um tanto amarelecido pela ação prolongada da nicotina. — Até fizemos um ménage à trois algumas vezes, e você não reclamou de nada. Lembra? Naqueles começos, pelo contrário, mostrou-se bem à vontade.

Depois gamou na minha prima e inventou essa história de casamento. Deveríamos ter ficado como estávamos, sem compromisso, sem esse formalismo de marido e mulher. Bom, não discutam isso agora, na minha presença. Estou de saída. Preciso ir ao jornal, pois tenho um bocado de trabalho em atraso e o editor está no meu pé.

Jaime se curvou para a frente, bateu a cinza do cigarro no pequeno cinzeiro sobre a mesa de centro, e exibiu a sombra de um sorriso:

— Não sei se você ainda tem emprego na Tribuna — falou com a mesma serenidade com que avistou a esposa com o primo dela na cama. — Fui demitido esta manhã por Alberto Cardoso. Alegou que a empresa está no vermelho e que terá que realizar alguns cortes, reduzir pessoal em todos os setores. Claro que a redação entra na valsa. Quando eu estava saindo, portanto, ele me pediu que mandasse você entrar. Das duas, uma: ou vai lhe botar no olho da rua ou pretende lhe encarregar de fazer o meu trabalho. Seja por troca de editoria ou por acúmulo de função.

O outro deu um pinote, cofiando o bigodinho:

— Troca de editoria, Jaime?! Duvido muito! Você, assim como ele, sabe que eu não entendo bulhufas a respeito desse seu mundinho vaidoso da cultura. Se for isso, meu chapa, estou ferrado. Meu negócio é falar dos políticos, contra ou a favor, conforme me ordenam fazer. Especialmente contra. Se é para desancar o presidente da Câmara, então eu baixo o cacete no infeliz, faço a caveira do bacana sem dó nem piedade.

Por outro lado, se me mandam elogiar certo deputado situacionista, aí eu babo os ovos do cara. Modéstia à parte, sou bom nesse métier. Estou há quase dez anos ininterruptos no campo minado da política e não me sinto apto para outra atividade. O mais provável, portanto, é que Alberto Cardoso também queira me demitir.

— Não sofra por antecipação, Reginaldo — falou Laura. — Você é casado com a irmã dele e tem duas crianças pequenas com ela. Além disso, é um dos funcionários mais antigos do jornal, embora seu salário não seja tão compatível. Você tinha menos de vinte anos quando começou a trabalhar na Tribuna.

Foi por essa época que nós começamos a transar. Pouco depois me casei com o falecido Evandro Guimarães, rapaz bom, motorista de carreta. Ele só tinha vinte e nove anos quando bateu noutro caminhão em uma estrada do Pernambuco. Pelo menos me deixou esta casa.

Após dois pigarros, Jaime se manifestou:

— Quanto a mim, porém, está sem jeito. Já assinei os papéis e agora espero receber os meus direitos rescisórios. É isto. Não sou cunhado do mandachuva, não procriei com nenhuma irmã dele. É possível, Reginaldo, que a sua cabeça não role. Já eu tenho que me virar, arrumar outra coisa para fazer ou outro jornal. Posso tentar uma vaga de revisor no Diário do Oeste. Ouvi dizer que o velho Fernando Nonato está prestes a se aposentar.

Além disso, enquanto não consigo assinatura na carteira, restam os livros dos autores locais. O que não falta neste município de Mondrongo, como costumo dizer, é gente querendo se tornar escritor. Até a promoter Lourdes Ramos, nova imortal da Academia Mondronguense de Letras, lançou uma biografia criminosa acerca da vida sacerdotal e política do bispo Dom Adriano Santana.

Reginaldo Marinho se levantou de repente, tirou o telefone do bolso e consultou as horas. Em seguida atochou o restinho da guimba no cinzeiro e avisou aos demais que estava indo embora para enfrentar Alberto Cardoso na Tribuna Mondronguense. Faltava uma meia hora para as onze. Ele teria tempo suficiente de se encontrar com o diretor administrativo e saber quais eram as suas intenções.

De calça jeans e tênis, abotoou mais dois botões da camisa azul-claro de mangas longas. Tais mangas estavam dobradas na metade dos antebraços. Realinhou também o colarinho e penteou o liso e farto cabelo com as pontas dos dedos. Estava ali um sujeito caucasiano, bem-apessoado, cerca de um metro e setenta, orçando pelos trinta anos, idade próxima à de Jaime, que está com trinta e dois.

Reginaldo deu um leve beijinho no rosto de Laura. Antes de realmente sair, por enxergar no Peçanha não meramente um colega de redação, mas também um amigo e integrante do tal “triângulo amoroso”, estirou o braço para Jaime e trocaram um aperto de mão. Mão esta, ressalte-se, vinda direto de mais um coito com a esposa terceirizada de Jaime. Este, por ter sido Reginaldo quem lhe apresentara Laura e contribuíra para que ela e Jaime ficassem juntos, não nutria raiva alguma contra o primo incestuoso da mulher. Não conseguia sentir nem mesmo ciúmes do homem que fornicava com aquela a quem ele, apesar da relação promíscua, tinha por esposa.

— Boa sorte com o Alberto — falou Jaime.

— Obrigado, meu caro. Vou lá enfrentar a fera.

Jaime acrescentou com o vestígio de sorriso:

— Acho realmente que ele vai livrar o seu pescoço.

Reginaldo respondeu com uma pitada de ironia:

— Afinal de contas durmo com a irmã caçula dele.

— Dê notícias — disse Laura, de braços cruzados.

— Claro! Assim que eu puder — prometeu.

Quando Reginaldo saiu, Laura avisou a Jaime:

— Agora eu vou tomar um banho. Depois, tim-tim por tim-tim, me explique essa história da sua demissão e o que espera conseguir daqui por diante. Mas a conversa vai ser no quarto, na cama. Quero você daquele jeitinho.

Decorrido algum tempo Laura e Jaime pegavam fogo sobre os lençóis limpos que ela substituíra. Ele, ao contrário de Reginaldo, custava a atingir o clímax. Enquanto isso, em meio a gemidos e contorcionismos, ela extravasava, dizia expressões chulas e tinha múltiplos orgasmos. Algo que não conseguia com o primo.

Entre quatro paredes, então, eles se entendiam.

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 29/05/2022 - 08:10h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 2

MALDITA TRINDADE

Por Marcos Ferreira

Um ano e oito meses antes, naquela manhã que tinha tudo para ser mais uma como outra qualquer, entre o barulho de algumas máquinas de datilografar e a fumaça de cigarros, Jaime Peçanha se encontrava na redação da Tribuna Mondronguense, onde já trabalhava há três anos. De repente, o choque medonho.demissao-justa-causa

Era o ano de 2001, precisamente uma terça-feira, cerca de nove horas e treze minutos do dia 11 de setembro. Jaime e outros colegas de redação assistiam, pela tevê da sala, à colisão dos dois aviões contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, na ilha de Manhattan, em Nova York. Um terceiro aparelho atingiu o Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos EUA, em Washington D.C.), enquanto outro caiu em uma área deserta no estado da Pensilvânia. “Meu Deus do Céu!”, monologaram alguns amigos de Jaime, estarrecidos. Jaime, todavia, não disse palavra, abismado. Daí a pouco Margareth, a funcionária da recepção, tocou no ombro de Jaime:

— Alberto, o diretor, está chamando você.

— Obrigado. Já estou indo — respondeu.

Ao longo daqueles três anos em que atuava na Tribuna Mondronguense como repórter e editor de cultura, Jaime nunca se dera bem com o diretor administrativo Alberto Cardoso. Sem motivo aparente, Alberto desenvolvera e nutria contra Jaime uma animosidade e antipatia que o repórter não fazia ideia do porquê ou origem. Jaime iniciara sua trajetória na Tribuna como revisor e copidesque, função esta que, posteriormente, o habilitou a também escrever matérias culturais para o Mondronguense. Devido a essa antipatia gratuita do senhor diretor administrativo, no fim das contas Jaime trabalhou durante cerca de um ano e meio como repórter, porém com a carteira ainda assinada apenas como revisor de textos, atualização postergada por Alberto.

Essas e outras fizeram com que o clima entre o editor de cultura e o diretor financeiro só piorasse com o passar do tempo. Uma rixa tácita e nem sempre velada se estabeleceu entre os dois. Até que naquela manhã de 11 de setembro de 2001, logo após o atentado terrorista contra os Estados Unidos, Jaime Peçanha foi chamado ao gabinete de Alberto Cardoso. Com indisfarçável regozijo, Alberto demitiu Jaime categoricamente, sem justa causa. O diretor financeiro apenas alegou que a empresa estava em apuros e que, dali em diante, iniciaria uma redução de pessoal.

Tipo vermelho e jovem, menos de quarenta anos de idade, contudo com os cabelos quase totalmente grisalhos, Alberto Cardoso era um homem de temperamento comedido, quiçá frio, e não menos educado. Apesar daquela má vontade em relação a Jaime, que parecia algo até patológico, era respeitoso com ele.

— Sente-se aí, Jaime. O que tenho para lhe dizer é um pouco chato e naturalmente terei que lhe apresentar algumas justificativas. Pois você, a exemplo de outros desta empresa de notícias, desempenha suas funções com responsabilidade e competência. O que lhe direi agora também terei que expor a mais algumas pessoas. Portanto, se não se importar, eu gostaria que você sentasse para me ouvir.

— Resuma. Ouvirei mesmo em pé — disse.

— Se prefere assim… Você está demitido!

— Tudo bem. Acho até que demorou muito.

— Fique sabendo que isso não é nada pessoal.

— Ah, claro que não! É porque eu mereço.

— A empresa precisa fazer alguns cortes.

— Ok. Onde assino? Essa conversa é inútil.

Jaime Peçanha assinou a demissão em três vias e deixou a sala sem apertar a mão do diretor Alberto Cardoso, que ficou com o braço estendido por alguns segundos e, de rosto um tanto mais vermelho pelo constrangimento, recolheu a mão e baixou a cabeça. Ao fim e ao cabo, entretanto, como era da vontade dele há um bom tempo, Alberto conseguira ver o enfezado Jaime Peçanha pelas costas.

— Por favor, peça ao Reginaldo que entre.

— Não o vi por aqui — respondeu Jaime.

No jornal e no mundo todo não se falava noutra coisa, exceto o atentado terrorista contra os Estados Unidos. Na cabeça de Jaime, porém, isso não se fixava. O que lhe martelava no juízo era chegar em casa naquela manhã e comunicar a Laura, sua esposa, que fora demitido do Mondronguense “por insubordinação mental”, feito ele vez por outra costumava vaticinar como razão de sua previsível dispensa. Então, com a cabeça quente, cheia de aborrecimentos e apreensões, rumou para sua residência no grande Alto de São Manoel, mais precisamente no Conjunto Walfredo Gurgel, à Rua Padre Mota, número 3521. Ali ele teria outra surpresa desagradável.

Ele não tinha o hábito de chegar naquele horário, antes das onze horas. No mais das vezes só aparecia para o almoço (e nem sempre) após o meio-dia. Jaime tirou o pequeno molho de chaves do bolso da calça e abriu o portão. A porta da frente estava aberta. Silencioso, entrou à procura da esposa. Encontrou-a no quarto, sobre a cama, toda nua, com o Reginaldo Marinho, repórter de política da Tribuna, também por inteiro despido em cima dela, ambos se comendo danadamente.

Antes de ser visto, Jaime deu meia-volta.

Marcos Ferreira é escritor

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – (Capítulo 1 – Prólogo).

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 22/05/2022 - 08:46h

A Hora Azul do Silêncio

Por Odemirton Filho 

Li, de um fôlego, o livro A Hora Azul do Silêncio, do escritor mossoroense Marcos Ferreira. Eu tinha lido tempos atrás a obra física e, recentemente, reli a obra, de modo virtual. É um livro de uma leitura leve, faz um bem danado à alma. De vez em quando passeio por suas páginas. A hora azul do silêncio de Marcos Ferreira no Kindle - Amazon - Maio de 2022

“Estremeço à tua passagem, e meu olhar de chumbo se afunda na ilusão movediça do teu colo de aromas”.

São textos líricos, tecidos no calor da inspiração do autor. Ele nos brinda com escritos simples e, ao mesmo tempo, profundos; somente os literatos conseguem fazê-los.

“Ontem eu voltei à rua dos meus tempos de criança”…

Em cada poema, desnuda-se um pouco de sua alma inquieta, por vezes, solitária. No “Nosso Blog”, o escritor nos entrega, aos domingos, um pouco de seu talento. Quando não o faz, sentimos a sua falta.

Já o conhecia através de seus escritos. Entretanto, quando começou a fazer parte do nosso time de colaboradores, a minha admiração e respeito aumentaram. Natália, a sua noiva, foi minha aluna na faculdade de Direito, é pessoa do bem.

Eu tenho a honra de dividir este espaço com Inácio Augusto de Almeida, François Silvestre, Honório de Medeiros, além de outros colaboradores que, aqui ou acolá, presenteiam-nos com seus textos. Marcos Ferreira “chegou chegando” para reforçar o plantel. Aprendo com eles.

Contudo, voltemos ao livro.

“Obrigado, meu Deus, pela canção do vento, pelo sol, pela noite e pelo temporal (…) Obrigado, meu Deus, por toda a poesia que tens me demonstrado a cada santo dia”.

Vou parando por aqui; deixarei o leitor se deleitar com a leitura do livro.

Ah, na última sexta-feira (20), finalzinho da tarde, eu e Rocha Neto fomos à casa de Marcos Ferreira. O editor deste Blog, Carlos Santos, justificou a sua ausência.

Foi uma tarde agradável, regada a boa prosa, risos, café, bolachas e guloseimas. Rocha Neto contou muitas, muitas histórias, fruto de sua memória privilegiada.

Obrigado, poeta. Valeu!

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica / Cultura
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domingo - 15/05/2022 - 04:00h

Café novinho na casa velha

Por Marcos Ferreira

Acordo a esta hora (pouco mais de meia-noite) e não tenho expectativa alguma de retomar o sono. Parece que as substâncias prescritas pelo Dr. Dirceu Lopes se foram na “festa de espumas” de que nos fala Vinicius num de seus sonetos. É isso, dei uma baita mijada e acho que os antipsicóticos foram juntos. Até mesmo o Rivotril e o Haloperidol. Este último escalado para combater minha psicose (medo) de ir ao banheiro à noite (pois meu banheiro é fora da casa) e topar com um leão.xícaras, café

Imaginem uma coisa dessas! Doido é doido! Agora, já com as mãos devidamente lavadas, penso naquela turma do Canal BCS (Blog Carlos Santos) e no miolo de pote que alguns de nós volta e meia engordamos sobre tomarmos um café novinho nesta casa velha. Odemirton Filho promete trazer bolachas da padaria Meçalba, Carlos Santos (ex-homem dos suspensórios) empenha outras iguarias.

Por último, para a minha honra e felicidade, quem vem se balançando para visitar este humilde domicílio é ninguém mais, ninguém menos que o senhor Rocha Neto. Exato! O homem do irresistível Prato de Ouro. Imaginem vocês eu aqui em casa com uma trinca dessas de reputados extratos da sociedade mossoroense.

Primeiramente, para não passar maior embaraço, eu terei que adquirir (sem ter de onde tirar) uma grana para comprar um jogo de cadeiras X com a clássica mesinha de centro.

Para fechar o quarteto, já contanto com as cadeiras X e duas de plástico que possuo, não poderia faltar o leitor Amorim, a quem só conheço por meio das suas (dele) interações enquanto leitor comentarista. Depois disso é torcer que não seja uma tarde de chuva, tendo em vista que este meu cafofo possui duas amplas áreas de chuva — uma entre a sala única e a cozinha e outra situada num quarto.

Nesta casa velha, então, com banheiro externo e teto chuvar, piso e paredes no estilo queijo suíço, tomaríamos um café novinho e de alta qualidade sob a testemunha pendular das picumãs e ao som do passaredo no quintal.

Temos ainda minha gatinha Pitucha, que no último dia 6 completou quatro meses, a assistir a tudo ressabiada, com uma ou mais pulgas atrás da orelha. Sim, vez por outra Pitucha usa das garras da patinha traseira para se coçar. Talvez seja meramente cacoete.

Outro ilustre leitor que me faria falta aqui, passando a formar um quinteto, seria o amigo e gramático (dos bons!) João Bezerra de Castro, patrimônio intelectual e afetivo que me foi presenteado pelo poeta Francisco Nolasco. A propósito, em data recente, Francisco Nolasco apareceu-me para uma rápida visita. Não podia se demorar, pois ele alegou ter deixado o menino no fogo e o leite chorando.

Nesta minha pequena cafeteira (Nolasco é testemunha) produz-se um dos melhores cafés de Mossoró. A casa é estiolada, mas a rubiácea é um luxo. De quebra, escuta-se, baixinho, um pouco de blues. Se a visita não curte blues, escuta assim mesmo.

Posso até oferecer um pouco de Chopin, Korsakov, Stravinski, Dvorak, embora, assim como o poeta Aluísio Barros em relação aos seus galos tenores, eu já tenha sido acusado de torturar meus vizinhos com esses “sons esquisitos”.

Outrora esta casa, em condições menos depauperadas, já contou com uma mesa tomada por ilustres extratos da sociedade moscovita. Desde médicos, juízes, engenheiros, músicos, jornalistas, artistas de um modo geral, políticos, sindicalistas e até um ex-vice-prefeito sangue bom, além, claro, de muitos espécimes da fauna literária. Mas, como o tempo contra tudo atenta, essa nata picou a mula.

Alguns, decorridos uma porção de anos, voltaram a me frequentar, e aqui eu os recebi e recebo com efusiva bonomia e bem-querença. Outros mais seguem carrancudos, de cara fechada, trocando de calçada quando me encontram no passeio público, entretanto lhes devoto compreensão.

São os extraviados, passam longe deste endereço periférico, contudo não os posso julgar. São pessoas de bem, tipos de coração admirável e com qualidades que não me cabe passar uma borracha.

Bom, agora é hora de jogar a toalha. O segundo Rivotril está mostrando sua força. É uma temeridade seguir redigindo. Perdoem os eventuais equívocos de ortografia, sintaxe e digitação. Meus reflexos de revisor foram para o brejo. Como eu disse outro dia ao João Bezerra de Castro, um revisor não pode se dar ao luxo de ler palavras, tem que ler silabadas. Os dedos tropeçam. As pálpebras me pesam.

Que venha o café novinho na casa velha!

Marcos Ferreira é escritor

Leia também: A hora azul da escrita de Marcos Ferreira.

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Categoria(s): Crônica
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quinta-feira - 12/05/2022 - 08:30h
Amazon

A hora azul da escrita de Marcos Ferreira

A hora azul do silêncio de Marcos Ferreira no Kindle - Amazon - Maio de 2022Meu querido amigo, escritor e poeta Marcos Ferreia, você é universal e cibernético.

A Amazon Brasil jogou seu clássico “A hora azul do silêncio” no acervo do Kindle (sistema móvel e virtual de leitura de livros e-book) e eu logo o adquiri.

Já o tinha em celulose, que se diga.

Orgulho de ti, também por estar no nosso time de colaboradores no Canal BCS (Blog Carlos Santos).

Abraços e um beijo!

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e Youtube AQUI.

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Categoria(s): Cultura / Gerais
domingo - 08/05/2022 - 04:10h

Quinze anos do Canal BCS

15Por Marcos Ferreira

No Blog do Carlos Santos

Encontramos toda a nata

Dos intelectos maiores

Desta terrinha insensata

Pela qual, apesar disso,

A gente briga e se mata.

Então se deu terça-feira,

Em muito recente data,

Quinze anos deste Blog

Do qual digo sem cascata

Sentir orgulho de ser

Desta casa humilde prata.

Marcos Ferreira é escritor

Leia também: Quinze anos do Blog Carlos Santos.

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Categoria(s): Poesia
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domingo - 10/04/2022 - 06:52h

Mais um 10 de Abril na cacunda

Por Marcos Ferreira

Pensei em gazear este domingo, em não dar as caras. Seria, além de satisfatório para alguns leitores, ainda que não para todos, algo bastante plausível da minha parte. Afinal de contas, embora isto não interesse a ninguém, muito menos à distinta e respeitável categoria dos colunistas sociais, hoje é o dia dos meus anos. Exatamente. É mais um 10 de abril na minha cacunda, uma data por inteiro obscura e desimportante no calendário sociocultural deste município e estado elefantino.velas, aniversário, soprando velas,

Não maldigo o esquecimento dos colunistas. Não sou mesmo colunável. Aqui, por exemplo, ao contrário do tratamento dispensado a outros poetas e prosadores, realizam uma feira de livros há uns vinte anos e nunquinha me convidaram. Decerto porque não me consideram escritor, ou não conseguem me perdoar por eu ter sido premiado num bom número de concursos literários de âmbito nacional.

Entendo que isto soa imodesto, presunçoso e tudo o mais. No entanto, doa a quem doer, ache ruim quem quiser, não estou contando nenhuma lorota, nem expondo méritos e conquistas que não obtive. Por muito menos gregos e troianos, borra-papéis e literômanos são paparicados e ovacionados na terra de Santa Luzia. Há quase duas décadas, pois, salvo exceções, certo comerciante de livros e egos posa de abnegado e amante da arte literária. Competência, seja dito, ele tem de sobra.

O rapaz é articulado, arregimentou as igrejinhas e panelinhas e há muito goza da boa reputação que construiu junto a patrocinadores, governos municipal e estadual. É trabalhador, sabe captar os recursos entre o cipoal burocrático. Tem lucro no negócio, nada mais justo, porém afeta total desprendimento, abnegação, amor aos livros, anseio puro e simples de instigar leitores e autores locais.

Bem, agora é tarde para o referido convite, senhor dono da feira. Prossiga com o seu boicote ao meu nome, continue ignorando a minha existência e desempenho enquanto literato neste município. Hoje, para o seu incômodo, eu lhe dou de presente esta pequenina bronca com um enorme atraso. A mim cogitei presentear com outro soneto. Todavia, pensando melhor, não vou “colecionar mais um soneto”. Não me animo a metrificar nem rimar, não obstante a simetria destes parágrafos.

Acho que esta crônica, com alguns traços de acerto de contas, e ferina que nem faca de dois gumes, já equivale a um presente para mim nesta data que um dia haverá de ser lembrada e referida. Isso, contudo, só bem depois que eu vestir o meu ordinário traje de pínus e ir estudar a geologia do São Sebastião. Pois não espero, sobretudo das mãos desses feirantes de livros, receber flores em vida.

“Entre o mofo, a poeira, o cansaço e a alegria”, como escrevi num alexandrino em homenagem a Raimundo Soares de Brito e a Vingt-un Rosado, quando ainda eram vivos, beberico uma caneca do meu café escoteiro. Não abro mão da rubiácea. Esta é uma manhã de pardais, rolinhas, bem-te-vis e céu azul. Há pouco também tomei meus remedinhos controlados, embora recentemente um atencioso leitor me tenha sugerido diminuir a posologia. Meu psiquiatra, por enquanto, discorda.

Estou mais velho, sim, e menos tolerante com determinadas sabotagens. Ao contrário de antigamente, tempo que parece que foi ontem, não tenho mais saco nem estômago para seguir engolindo sapos. Isto não quer dizer, porém, que me tornei um bárbaro, um tipo incivil, misantropo. Não. Nem oito nem oitenta. Reconheço, entretanto, que faço uso da minha sociabilidade com maior parcimônia.

Sei que alguns amigos (a esta hora não são muitos) vão me telefonar após lerem esta crônica ranheta a fim de me oferecer os parabéns por meu natalício. Destaco que pouca gente sabe deste evento galáctico. Minha data de nascença, eu que vim à luz no extinto Hospital da Caridade, não consta nas redes sociais. Serão (os parabéns) todos bem-vindos, agradecerei a cada um honesta e alegremente. Convidá-los-ei para “um café qualquer dia” e nenhum se sentirá menos querido.

No mais, tirando a hipertensão, a bipolaridade, os estados maníaco-depressivos, o arsenal de antipsicóticos e meus atuais oitenta quilos (antes eram setenta), estou ótimo, esbanjando saúde e simpatia. Não sei por que não me deram, nessas votações que ocorreram recentemente, o prêmio de “homem mais simpático do ano”. É assim que me sinto sempre que se aproxima a data do meu aniversário.

De repente, como num transe divino, meu espírito converge para o bom humor e a concórdia. Sou tomado por súbita e excepcional empatia para com os meus semelhantes, em particular os intelectuais desta província, os homens de imprensa, de letras e da cultura. Essa fauna de alinhados e nobres senhoras e senhores me suscita uma enorme admiração. Hoje, se eu pudesse, a cada um deles presentearia com um panegírico entusiástico, quiçá um impecável soneto em decassílabos heroicos.

Vida longa aos nossos intelectuais e leitores!

Sinto que devo, melhor avaliando, conceber uma obra de grande estatura em homenagem à minha querida terra e conterrâneos, adotivos e os forasteiros. Mossoró e seus habitantes mais do que merecem um presente dessa magnitude. Afinal de contas, estufando o peito de orgulho, admito que isto aqui é um país. Trata-se, no mínimo, da Capital Brasileira da Cultura. Não é pouca bosta, não.

Assim, querido povo de Mossoró, já sei (através da literatura, em especial por meio de um romance parrudo, corpulento) como imortalizar esta cidade, e projetar o nome de Mossoró para o Brasil, quem sabe além fronteiras brasilianas. Um povo nobre feito este, com políticos honestíssimos e que, historicamente, sempre valorizaram e lutaram de maneira incansável por nossa cultura, é digno de todas as honras e aplausos. Tais políticos, a propósito, ganharão capítulos exclusivos.

Agora me deem licença. Hoje não quero fazer mais nada. Sequer escrever. Vou apenas brincar um pouco na rede com Pitucha, minha gatinha, que na última quarta-feira completou três meses de vida. À noite, ao voltar da casa de Natália, acessarei a Netflix (coisa que o amigo Elias Epaminondas compartilhou comigo). Então verei um filmezinho bacana. Será outro momento relax do meu dia.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/04/2022 - 09:20h

Respeito aos suicidas

Por Marcos Ferreira

Talvez pareça apologia à desistência, à prostração, à vitória da morte perante a vida, mas não se trata disso. O que venho lhe pedir é cuidado, respeito aos suicidas. Inclusive para com aqueles que se encontram em uma espécie de stand-by, só aguardando a hora H, o último ato neste imprevisível plano terreno. Peço respeito sobretudo da sua parte, a você que pensa e diz que depressão é frescura, preguiça, moleza e até falha de caráter dos suicidas em potencial.

depressão, angústia, psiquiatria, cabeça -2Não provoque, não zombe, não faça pouco-caso dos suicidas nem dos indivíduos à beira do abismo. Não diga que o mundo é justo e maravilhoso apenas porque você vive confortável, ou acha que vive. Nem todos que se lamentam, que deixam escapar que estão infelizes, podem ser tachados de molengas, de mortos nas calças, fracos, pelo fato de que fulano ou cicrano vive feliz com sua miséria feito pinto no lixo. Ou se, porventura, sua vidinha está de bom tamanho e você não deseja outra coisa exceto ganhar mais dinheiro. Não. Dinheiro não é tudo, embora alguns indivíduos práticos e objetivos creiam que seja cem por cento.

Outra coisa que preciso dizer: estou de saco cheio dessa literatura caduca, fatalista, preconceituosa, que diz que os suicidas não herdarão o reino dos Céus. Para o diabo o reino dos Céus e esses escritores jurássicos, ancestrais avoengos de Matusalém, que até os dias de hoje, por meio de suas fantastiquices, trovejam maldições sobre os suicidas ao afirmarem que a estes está reservado o fogo do Inferno. Dane-se, pois, essa literatura aterradora e inverossímil.

Não classifique como covarde, mesmo que secretamente, aquele que puxou o gatilho contra si próprio, botou a corda no pescoço, abriu os pulsos, tomou veneno ou se atirou da janela de um edifício, por exemplo. Não faça isso. Não menospreze ou desdenhe das feridas invisíveis do espírito alheio, da mente enferma.

Depois, num cúmulo de hipocrisia e descaramento, não vá dizer nas redes sociais que o triste fim do Policarpo da vez lhe é motivo de tristeza, que lamenta muito, que alguém (só não você) tinha que ter notado, previsto a tragédia anunciada ou sugerida, que algo deveria ter sido feito e coisa e tal. É bom ter semancol.

— Era uma pessoa tão boa — outros dirão.

Quem é que pode afirmar que Deus deixa todos aqueles que abreviam as suas próprias vidas a cargo de Lúcifer, para que o suposto anjo caído os castigue ad aeternum? Ninguém. Se Cristo voltar, entretanto, e disser que é dessa forma, com entrevista à CNN e à Rede Globo, aí eu darei a mão à palmatória, caio de joelhos e peço perdão enquanto criatura de pouca fé. Mas, tem que ser o Salvador, o Homem de Nazaré. Não aceito outro emissário do Altíssimo.

Já com os suicidas considerados involuntários, acidentais, digamos assim, a coisa é bastante branda, tolerante e misericordiosa. Exatamente. A esses se reserva um lugarzinho especial no Paraíso, na mansão, segundo o rebanho, do Todo-Poderoso.

É quando o sujeito se suicida sem querer, enchendo a cara, o bucho e a cabeça de álcool, tomando todas, e provoca um desastre de trânsito. E nem importa se ao morrer o indivíduo tira a vida de pessoas que não tinham nada a ver com a referida farra e bebedeira de quem causou o sinistro. Não. Se a morte for sob efeito de álcool, matando a si e a terceiros, o Éden está garantido.

— Foi uma fatalidade — argumentam logo.

Às vezes, contrariando os avanços da medicina, nem os modernos psicofármacos são páreos para impedir a viagem precoce de um espírito atormentado. Por mais competente que seja o médico e que se diga que Deus está no controle, no comando. Isso é frase oca, clichê, lugar-comum. Até porque, segundo a lenda, existe o tal do livre-arbítrio, no qual Jeová supostamente não mete o bedelho. Ou seja, cada um que se vire, pois Deus não está nem aí para ninguém.

O Setembro Amarelo é o movimento emblemático de prevenção e combate ao suicídio, entretanto o calendário todo é que deveria ser amarelo. Pois não acontecem autoextermínios somente em setembro. Sem contar as ocorrências que ficam no plano das tentativas, com autolesões ou automutilações.

Uma estatística da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que uma em cada cem mortes ocorre por suicídio. Todos os anos, ainda segundo a OMS, mais pessoas morrem em consequência disso do que devido, por exemplo, a malária, HIV, câncer de mama, ou guerras e homicídios. A taxa de autocídio é maior entre os homens.

Viver, por mais difícil que isto seja para certos elementos em certas fases da existência, sempre deve valer a pena. O problema é quando a promessa de alívio ante alguns tormentos existenciais ou psicológicos vence a nossa resiliência e capacidade de autopreservação. Aí a derrota para a Moça da Foice é praticamente certa. Imploro, todavia, que nada do que estou dizendo signifique uma fagulha de estímulo para quem quer que seja se render e entregar os pontos.

Apesar da Aids, da Covid, da sífilis e de tantos políticos escrotos, ninguém jamais deve abrir mão da inestimável dádiva que é viver, por pior que seja o problema e quem o possua. De um jeito ou de outro, entretanto, muita gente já partiu antes da suposta hora determinada pelo Criador.

Em 1961, com um Prêmio Nobel de literatura e uma condição financeira boa, Ernest Hemingway se matou com um tiro de espingarda. Virginia Woolf encheu o casaco com pedras e se afogou no rio Ouse. O romancista português Camilo Castelo Branco foi outro que tirou a própria vida. O japonês Yukio Mishima também deu cabo de si mesmo.

Na Holanda, sem nunca ter conseguido vender um quadro enquanto vivo, o conturbado pintor Vincent van Gogh, cujas telas hoje custam vários milhões, também teria se suicidado. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a insuperável sonetista portuguesa Florbela Espanca, na terceira tentativa, pôs um ponto final em sua história neste mundo. No Brasil, entre outros, para continuarmos com os escritores, mataram-se Raul Pompéia, Pedro Nava e Torquato Neto.

Entendo que o suicídio, assim como outras coisas, é contagiante, influente. Então, de forma lamentável, um puxa o outro, tal qual uma conversa puxa uma segunda, uma terceira e daí se segue. Dito isto, claro, evidencio o meu cuidado de não promover ou romantizar gesto tão extremo e irreparável. Não antecipemos, pois, como no soneto de Olavo Bilac, “a extrema curva do caminho extremo”.

E quanto a você, que lança pedrinhas contra os suicidas, consumados quanto em fase de execução, vê se arruma outra categoria para escarnecer. Deixe que a Moça da Foice, dentro de sua agenda infalível, cumpra essa tarefa ordinária.

Hoje, enquanto você acompanha este depoimento, alguém por aí está matando a si mesmo. São dezenas, infelizmente. E isso independe de religião, incredulidade, orientação sexual ou poder aquisitivo.

Muitos sucumbem após longos anos de luta, meia dúzia de psiquiatras e diversos tipos de antipsicóticos. Viver se torna um fardo, tudo perde a graça e o sentido, nada mais importa ou prepondera. Assim, sem lançar pedras nem provocações, respeite os suicidas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 13/03/2022 - 07:42h

Paisagem mossoroense

Por Marcos Ferreira

Ontem, cerca de meio-dia, lá estava ela no canteiro da João da Escóssia, logradouro este que se tornou uma espécie de Quinta Avenida de Mossoró. Mulher jovem e franzina, orçando pelos vinte anos, pele clara, olhos grandes e tristes; vestígios de uma adolescência pobre ainda perceptíveis no rosto assustadiço. Além desses aspectos, do cabelo curto e do corpo longilíneo, exibia a barriga de uns sete meses de gestação. Talvez até já saiba o sexo da criança, ou das crianças.

Avenida João da Escóssia, que corta o bairro Nova Betânia em Mossoró (Foto: Prefeitura de Mossoró/Divulgação)

Avenida João da Escóssia, que corta o bairro Nova Betânia em Mossoró (Foto: Prefeitura de Mossoró/Divulgação/arquivo)

A exemplo de outros que se arriscam no comércio itinerante daquela rua, ela vendia garrafinhas de água mineral no semáforo. Tinha ali do lado, à pouca sombra de uma árvore, um recipiente de isopor. Por estar sozinha, é possível que seja mais uma futura mãe solteira. Considerei-a novata naquele modelo de “empreendedorismo”, como apregoa a política criminosa do Grande Percevejo.

Fico pensando no que leva uma tão jovem mulher em estado interessante (grávida) a se submeter a tal expediente, exposta a uma temperatura e condições tão adversas. Naquela fase, àquela altura da gravidez, fosse outra sua a realidade familiar e, sobretudo, econômica, ela estaria em casa, resguardada.

Fui e voltei da residência de Natália, minha noiva, e nem na ida como na volta presenciei nenhum gentil motorista abaixar um vidro e adquirir uma daquelas garrafinhas d’água.

Eu, cujo transporte é uma moto, também não comprei. Mas aquilo (vai o lugar-comum) ficou martelando na minha cabeça. Quilômetros depois, pensei que poderia ter pegado uma garrafa, embora não fosse cômodo levá-la, posto que não tinha uma sacola, ainda menos uma mochila. Dar algum dinheiro a ela, como dei a alguns pedintes no semáforo, poderia constrangê-la, quiçá ofendê-la.

Não. De modo algum. Aquela futura mãe não estava ali a pedinchar. Não era mendiga. Não ao menos àquele instante. Digo isto porque, infelizmente, conheço um rapaz que fazia malabarismos com bastões de fogo no semáforo e hoje vive mendigando.

Decerto porque o preço do querosene (dos combustíveis, enfim) tornou-se absurdo. Já a moça tentava, através daquele “empreendedorismo” de centavos, obter recurso para si e para a vida, ou vidas, que carrega em seu ventre.

Preciso retornar à João da Escóssia e comprar a água da buchudinha. Senão não ficarei em paz com minha consciência. Sei que as coisas estão difíceis para a maior parte dos brasileiros, todavia (cada qual dentro das suas posses) podemos fazer algo mais pelas pessoas que se encontram, a exemplo daquela gestante, em condições tão vulneráveis. Amoleçamos os nossos corações empedernidos.

Sinto falta das entidades e pessoas caridosas de Mossoró. Em dezembro, ao contrário dos outros meses, existe toda uma publicidade das ações dos bons samaritanos. Ora não vejo, por exemplo, distribuição de cestas básicas em parte alguma desta urbe. Será que os necessitados só têm fome no período natalino? Ou, de maneira mais específica, na véspera da noite de Natal? Penso que essa caridade datada e ostentatória fere e desaponta o mais ilustre aniversariante do dia 25 de dezembro.

Pois é, o rapaz que fazia malabarismos com bastões de fogo agora pede esmolas nos sinais de trânsito, em meio a vários outros miseráveis. Trocou os bastões incendidos por um tosco cartaz de papelão com uma mensagem de súplica. É um moreno pequenino, trejeitoso, iletrado, de vinte e poucos anos, possivelmente oriundo de outra cidade nordestina. Criatura sem eira nem beira, como se diz.

Apesar disso, da lástima social e familiar, pois ele vive sozinho na terra de Santa Luzia, o malabarista é simpático, sempre propenso a sorrir. Sim, agradece os trocadinhos que recebe de mão piedosa com um grande sorriso, umas breves palavras que nunca compreendo e uma pequena mesura com a cabeça. Não tem onde morar. Algumas noites, quando não chove, o que é comum por aqui, ele dorme em bancos de praça, ao relento, ou sob marquises de lojas, nas calçadas do Centro.

Dói saber que certos indivíduos que se julgam ricos, ou que de fato o são, não raro tratam tais pessoas desprotegidas feito esse rapazinho malabarista com grosseria, hostilidade, intolerância, apenas em virtude de o pobre coitado lhes “importunar” com pedidos de auxílio. Aliás, a grosseria, a hostilidade e a intolerância parecem ser características dessas pessoas que imaginam ter o rei na barriga.

A intolerância, sobretudo esta, é mais exercitada e encontrável em nosso meio do que supomos. É algo que não atinge unicamente os mais precisados e desprotegidos. Vejam, acaso não saibam, o que ocorreu esta semana com o poeta Aluísio Barros, professor de literatura aposentado da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Aluísio foi objeto de denúncia à Polícia Ambiental porque seus galos têm o inadmissível hábito de cantar. Até parece piada, mas só parece.

Aluísio Barros se defendeu no Facebook:

“Imagine que o vizinho do outro lado da rua denunciou à Ambiental os meus galos por cumprirem o seu papel natural de fazer nascer a manhã. Vão prender os galos? Ou vão silenciá-los com chumbo, veneno ou pólvora? PS.: não sei o que fazer. Não sou bruto: sou poeta”. Enquanto isso, salvo exceções, existem pessoas que todos os dias estupram nossos ouvidos com músicas de péssima qualidade.

No meu caso, diferentemente do que ocorre com o vizinho intolerante de Aluísio, o canto dos galos é canção de alta voltagem poética. Gosto de ouvi-los, próximos ou distantes, a qualquer hora do dia ou madrugada, quando me encontro a escrever ao som dos pássaros, do coaxar dos sapos ou da sinfônica dos grilos. Há ainda os cães que latem ao redor, os gatos que se amam sem pudor nem discrição, dando notícia de sua inconfundível libido para quem quiser escutar e achar ruim.

Que tempos são estes, torno a indagar, em que cuspidores de microfone, que se vendem por astros e estrelas, seguem agredindo os nossos ouvidos com dejetos sonoros, estelionato musical comerciado por arte? Já os galos do poeta Aluísio Barros agora sofrem censura, têm o seu direito de cantar ameaçado. A intolerância mostra as garras e a poesia gregoriana dos galos virou caso de polícia.

Ofereço minha solidariedade a Aluísio, sobretudo aos seus cantores emplumados. Onde já se viu uma coisa dessas, senhoras e senhores? Galos sob o iminente risco de prisão, de serem banidos para longe do seu dono ou serem abatidos tão somente por desempenharem sua legítima função de cantar. Só mesmo no inacreditável País de Mossoró, cujo povo pacato e acolhedor repeliu o temido bando do fora da lei Lampião e, segundo a lenda, enterrou o cangaceiro Jararaca ainda vivo.

Torço que o vizinho incomodado do poeta amoleça o coração, e retire a queixa contra as referidas aves. Ao invés de perseguir esses bichos, proponho que ofereça alguma fraternidade aos cidadãos que procuram de algum modo sobreviver nos semáforos da João da Escóssia e de outros pontos da nossa província. Querer proibir que um galo cante é uma intolerância tão injustificável quanto ridícula.

Marcos Ferreira é escritor

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terça-feira - 08/03/2022 - 12:28h
Soneto

Adoráveis mulheres

mulheresPor Marcos Ferreira

Um brinde respeitoso e fraternal

A todas as mulheres deste mundo.

Principalmente àquelas que o iracundo

Putin já tem causado tanto mal.

 

Que Deus, ante a esta data especial,

Proteja tais mulheres com profundo

Cuidado até de um tipo nauseabundo,

Um certo deputado Arthur do Val.

 

Que a todas dediquemos muito amor

Em vez de só machismo e lhes impor

As guerras, o fuzil e a baioneta.

 

Brindemos, seja em prosa ou poesia,

Pois hoje, oito de março, é o grande dia

Do ser mais adorável do planeta.

*Nossa homenagem às mulheres, com o soneto do nosso colaborador dominical, escritor Marcos Ferreira, no Dia Internacional da Mulher.

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Categoria(s): Poesia
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