domingo - 17/01/2021 - 05:20h

Tutela de urgência e liminar

Justiça, decisão judicial, sentença,Por Odemirton Filho 

Em regra, quando as pessoas procuram a Justiça é porque estão envolvidas em um conflito que, amigavelmente, não conseguiram resolver, quando se tratar de relações privadas.

Assim, por exemplo, quando alguém não paga o que deve, comete uma ofensa contra a honra do outro, causa um prejuízo patrimonial, e não repara por vontade própria o dano, é preciso que a pessoa que se encontra prejudicada “entre com um processo”.

Temos, desse modo, um autor que entra com uma ação e um réu que se defende do pedido do autor.

É normal que quando alguém ajuíze uma ação deseje que o problema seja logo resolvido, isto é, que o juiz julgue o mais rápido possível o seu processo.

Entretanto, todo processo, seja de natureza civil ou criminal, tem um procedimento a ser seguido.

Do ajuizamento da ação até a sentença do juiz existe um tempo, que pode ser longo, sem esquecer dos vários recursos que podem ser interpostos perante os Tribunais.

Contudo, diante da urgência de certos casos, como esperar o tempo da justiça? A morosidade, sem dúvida, é causa de injustiça e, muitas vezes, de impunidade.

Por isso, existem no processo civil as chamadas tutelas provisórias, que são as tutelas de urgências e a tutela da evidência, concedidas pelo juiz antes de prolatar a sentença.

No momento, discorreremos sobre as chamadas tutelas de urgência, que podem ser de duas espécies: a tutela cautelar e a tutela antecipada.

Expliquemos para o bom entendimento do leitor que não é da área jurídica.

Na tutela cautelar o juiz protege um direito para assegurar o resultado final do processo. Ex. o juiz determina que se resguarde os bens do casal para que o marido ou a mulher não se desfaça dos bens até a sentença do divórcio.

Já na tutela antecipada, o juiz concede, imediatamente, o que o autor pede. Ex. fixa os alimentos provisórios para que o pai comece logo a pagar a pensão ao filho, sem ter que esperar a sentença, na qual fixará os alimentos definitivos.

É oportuno trazer à baila, ainda, um exemplo atual e, principalmente, um alerta nesses tempos de pandemia. Imagine que uma pessoa que esteja acometida da Covid-19 necessite de uma UTI, diante da gravidade do seu quadro de saúde. Mesmo que o magistrado defira a tutela de urgência a medida concedida será inócua se não houver leitos disponíveis.

Ou seja, houve o reconhecimento e a concessão do direito, contudo não há como efetivá-lo por insuficiência de atendimento médico-hospitalar. Assim, é mais do que prudente que cada um faça a sua parte, usando máscaras, higienizando as mãos e mantendo o distanciamento social. Medidas que os profissionais da saúde estão cansados de recomendar.

Existe, também, a conhecida “liminar” que significa no início, na entrada, sendo concedida, geralmente, antes do réu ser citado para se defender daquilo que foi pedido pelo autor.

Em resumo: toda vez que o cidadão precisar que o juiz resolva, de imediato, um problema, o advogado do autor normalmente requer ao magistrado uma tutela de urgência com pedido liminar.

Por fim, cabe ressaltar, que as tutelas de urgência apresentam várias questões jurídicas, mas, para os fins aqui pretendidos, espera-se que se tenha compreendido um pouco sobre o tema.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e Oficial de Justiça 

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Categoria(s): Artigo
domingo - 10/01/2021 - 09:42h

Um alpendre e uma rede

A red hammock hangs in the shade of a porch in summer.

Por Odemirton Filho

Não, não se trata de uma resenha do livro da escritora alencarina Rachel de Queiroz, Um alpendre, uma rede, um açude. Apenas tomei por empréstimo parte do título para compor esta crônica.

Na verdade, quero resgatar sentimentos de um tempo passado que, volta e meia, invade-me a alma e o coração.

Uma casa com alpendre, como se sabe, é um convite para se jogar conversa fora, seja em uma fazenda ou numa praia.

Em um alpendre se fala sobre tudo e, principalmente, da vida alheia, só escapando quem voa alto. Em outros tempos, do alpendre da casa de Tibau, ouvia-se: “olhe a tapioca, o grude”.  Tomava-se um café acompanhado de um pedaço de bolo de leite. Ou fofo.

Na minha época de menino o alpendre da casa ficava lotado de adultos e crianças. Não tínhamos medo de dormir fora da casa. Muitos preferiam dormir sentindo o vento frio da madrugada e tendo a lua com lamparina.

Na infância falávamos sobre histórias de casas mal-assombradas, contos de pescador (se sentir cheiro de melancia, não entre no mar, tem tubarão por perto). Demorávamos a dormir. Ninguém queria “pegar” no sono e ser motivo de chacota. Corria-se o risco de ter o rosto pintado com uma pasta de dente.

Os mais traquinos armavam a rede de modo que quem fosse se deitar levasse uma queda. O riso era geral. Aquele que caiu, por vezes, levantava-se “brabo”, doido para “ir nas orelhas” de quem fez a brincadeira de mau gosto.

Já adolescentes, quando voltávamos das festas de madrugada, ficávamos resenhando. Quem “descolou” ou quem somente encheu a cara. Alguns chegavam bêbados e, com o balanço da rede, vomitavam pra valer.

Mas é claro que um alpendre tem os seus momentos de calmaria. A rede é um convite à leitura. Um cochilo. Sim, eu sei caro leitor, a rede também é um convite para o aconchego dos casais.

Pois é. Um alpendre e uma rede oferecem agradáveis momentos. E boas, boas lembranças.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 03/01/2021 - 15:02h

Unido ao mar de Tibau

Por Odemirton Filho

Desde que me entendo por gente, antes de entrar no mar, faço o sinal da cruz. É uma forma de pedir proteção a Deus. Questão de fé, diga-se.

Na minha infância e adolescência, em Tibau, neste período de veraneio, costumava diariamente ir à praia. Com mais uma ruma de meninos passávamos horas e horas “torrando no sol”.Quando chegava em casa minha mãe passava em meu corpo uma pomada branca, com cheiro forte, que, no momento, não lembro o nome.

Mas o que eu quero dizer é que o mar sempre me fascinou. Além de sua beleza, o mar me traz paz, lava-me a alma, principalmente, o mar de Tibau que molhava a minha infância e juventude.

Como se sabe é comum que barcos de pesca fiquem ancorados a uma certa distância da praia. Com alguns tios e primos nadávamos até lá, subíamos no barco e ficávamos por um bom tempo, dando mergulhos e mais mergulhos.

Quando era maré alta, na lua cheia, tomávamos banho de tardezinha. O mar ficava mais revolto do que nos outros dias. Quanto mais a gente nadava, mais o mar nos “puxava” pra dentro.

Peguei “jacaré” e tomei muito “caldo” no mar de Tibau. Até tentei ser surfista, mas não tinha jeito para a coisa.

No velho Jeep Willys azul do meu pai íamos do “arrombado”, na praia de Tremembé, à Barra, lá em Maria Lúcia, em Grossos. Passávamos, ainda, no restaurante de Marcos Porto pra tomar um refrigerante, que ficava na praia de Areias Alvas.

Parávamos de praia em praia para dar um mergulho. Depois chupávamos um picolé, daqueles “d´água do rio”. Chega escorria pelas mãos. Era que bom que só.

Creio que neste ano que se inicia um banho de mar seja bom para recarregar as baterias. Dizem que afasta o mau-olhado. Quem sabe, até nos ajudará a ficar livre do coronavírus.

Se eu for, antes de entrar no mar, claro que farei o sinal da cruz. Talvez, até faça como Clarice Lispector:  “Com as mãos em concha, mergulharei nas águas e trarei um pouco do mar até minha boca. Beberei o mar (de Tibau) e me unirei a ele”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/12/2020 - 07:50h

Continuemos a sonhar, apesar de 2020!

Por Odemirton Filho

O ano de 2020 entrará para a história. Um ano sofrido. Estamos, sem dúvida, sendo protagonistas de uma página dolorida da humanidade.

A constante higiene das mãos, o uso de máscaras e o distanciamento social parecem ser coisa de filmes de ficção. Um simples aperto de mão e um abraço tornaram-se um risco.

Entretanto, é uma realidade nua e crua. Infelizmente, parte da população comporta-se como se a pandemia tivesse acabado. E não acabou.

Os Centros de Pesquisa mundo afora correm contra o tempo em busca de uma vacina segura e eficaz. Para variar os países ricos saíram à frente. Todos querem a vida de antes, não o chamado “novo normal”.

E mais: o fechamento das atividades não essenciais quase quebrou a economia mundial.

Em países como o nosso as consequências serão maiores. A desigualdade social aumentará. Dizem os economistas que levaremos anos para que haja a recuperação da economia. Ou seja, o que estava ruim, ficou pior.

No Brasil, em particular, tudo igual. Ineficiência dos serviços públicos e escândalos de corrupção aqui e ali. Sem falar nos constantes aumentos de preços.

As eleições foram como sempre. As velhas promessas. O povo nas ruas. A polarização entre a direita e a esquerda. Até a vacina contra a Covid-19 tornou-se uma disputa político-ideológica. Não há um pingo de bom senso.

Sim, estamos terminando o ano aos trancos e barrancos.

Contudo, apesar dos pesares, é preciso agradecer. Estamos vivos e com saúde. O resto a gente corre atrás.

Adeus 2020!

Um feliz ano novo, caro leitor. Continuemos a sonhar com dias melhores em 2021.

“Os sonhos não envelhecem”, como diz uma antiga e bela canção.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Política
  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 20/12/2020 - 10:32h

O Natal na casa de meus avós

Por Odemirton Filho

Na noite em que se comemora o Natal, com os meus pais, minhas irmãs, tios e primos íamos à casa dos meus avós. Éramos recebidos com enorme carinho e alegria.

A residência ficava lotada. Meninos e meninas de todas as idades. Os que já eram adolescentes não queriam conversa com os menores. Só falavam em namoro.Já as crianças ficavam correndo pra lá e pra cá, brincando, numa verdadeira festa.

Os adultos, sentados à mesa, conversavam. Talvez sobre as dificuldades do ano que estava perto de terminar. De vez em quando reclamavam da zoada que fazíamos e para que não sujássemos a roupa nova.

Nem escutávamos. Queríamos era brincar e aproveitar o momento.

Antes da ceia, os nossos pais distribuíam os presentes. E, claro, o amigo secreto. Aquele momento de palavras bonitas, choros e risadas.

Sempre tinha um tio ou tia que gostava de fazer um discurso. Minha avó, evangélica, conduzia a oração. Meu avô devia ficar pensando em seus ideais comunistas. Ficávamos doidos para que aquela ladainha acabasse logo.

Depois, a hora da ceia. Comida à vontade, para todos os gostos. Os mais gulosos faziam uma verdadeira “serra” no prato. Ficávamos “tirando onda” uns com os outros.

Até as primas comiam muito, não tinha essa de emagrecer. Se você vacilasse ficava sem comer o peru. Às vezes, sobrava a farofa. Não dava nem pra fazer um “RO”.

Era, sem dúvida, uma das melhores noites de minha infância. Esperava o ano todo pelo Natal.

Hoje, sem a presença de meus avós, a casa da rua 06 de Janeiro está vazia e em silêncio. Tios e primos se reúnem com as suas famílias. A vida, como é natural, cuidou de nos afastar.

Se o leitor viveu momentos como esses, talvez boas lembranças tocaram o seu coração e a sua alma.

Para mim, daquelas noites de Natal, restaram saudades. Muitas. Das grandes.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 13/12/2020 - 09:36h

O Cine Pax

Por Odemirton Filho

Era uma ruma de meninos. Amigos de infância e primos. Sorriso de orelha a orelha. O vesperal, lá pelas quatro ou cinco horas da tarde, animava as nossas tardes de domingo.

Cine Pax funcionou até o ano de 2008, num período que durou quase 65 anos (Foto: autor não identificado)

Ir ao Cine Pax era uma diversão. Em um tempo em que não existia celular, nem muito menos Netflix, não existia nada melhor do que ver Bruce Lee e suas artes marciais. Na minha época de juventude o auge eram os filmes de Rambo e Rocky Balboa.

Sentávamos nas cadeiras de madeira, sem nenhum conforto. Mas ruim mesmo era quando o chiclete que estava na cadeira “grudava” na bermuda ou na camisa, dava um trabalho danado pra sair.

O “lanterninha” passava entre os corredores para ver se tinha algum menino traquino ou um casal de namorados mais afoito no “escurinho do cinema”.

Havia, também, no meu tempo de menino, o Cine Cid e o Cine Caiçara. Contudo, sei lá por qual motivo, gostava mesmo era do Pax. A imagem da tela não era grande coisa, mas era o que tínhamos.

Ao sair do cinema achávamos que éramos lutadores de caratê, dando “golpes” nos garajaus das plantas ou uns nos outros.

Já adolescentes, à noite, tentávamos assistir aos filmes para adultos. Porém, o funcionário que ficava à porta não permitia. Quem tinha amizade com ele, às vezes, conseguia acesso. Para minha tristeza não o conhecia.

Lembro-me que, por muitos anos, algumas pessoas ficavam com uns carrinhos na lateral do cinema vendendo revistas novas e usadas. Revistas proibidas para menores de dezoito, em quadrinhos e livrinhos de “bang bang”.

O Cine Pax fechou as suas portas em 2008, às vésperas de completar 65 anos (inaugurado dia 23 de janeiro de 1943). Hoje, ainda continua de pé a sua imponente fachada. Pelo menos isso.

Creio que o leitor, assim como eu, deve ter algo guardado na memória que faz lembrar bons momentos.

Era tempo bom.  Né não?

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Leia também reportagem especial – clicando AQUI – assinada por Luíza Gurgel para o Jornal de Fato, que conta a história dos cinemas em Mossoró.

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 06/12/2020 - 08:14h

Saudade do Potiba

Por Odemirton Filho

Um domingo desses senti uma vontade danada de assistir ao Potiba. De ver em campo os times do Potiguar e do Baraúnas. Da arquibancada cheia. Da resenha antes e depois do jogo.

O Estádio de Futebol Manoel Leonardo Nogueira, o Nogueirão, em dia de Potiba quase sempre recebia um bom público.

Antes de iniciar a partida, e após um gol, “pipocavam” os fogos de artifícios. O velho Nogueirão, literalmente, estremecia.

Clássico entre Potiguar e Baraúnas é o confronto sempre marcante no Nogueirão em Mossoró (Foto: Wilson Moreno)

Com um rádio de pilha no pé do ouvido, cada lance, na voz dos narradores, era uma emoção. Como em toda e qualquer torcida havia aquelas figuras humanas que fazem parte da magia do futebol. E, claro, ver jogando Cícero Ramalho e Júnior Xavier, craques.

O futebol de Mossoró fazia parte de nossas vidas. Durante o jogo era comum se ouvir o xingamento contra o árbitro, a reclamação pelo esquema de jogo do técnico, as ofensas contra os jogadores e a torcida adversária. Não tinha essa de briga entre as torcidas, pelo menos em tempos passados.

Como era bom assistir ao jogo tomando uma cerveja. No intervalo da partida descíamos para “merendar” um cachorro-quente com um refrigerante ou um espetinho de “gato”. Não era fácil ser atendido. Uma zoada. Das grandes.

Infelizmente, li que o Nogueirão foi interditado. De novo. Mais uma vez. Sei lá quantas vezes.

Os nossos representantes no futebol já não disputam em pé de igualdade com outros times. O Baraúnas, pelo que sei, no momento não participa mais de campeonatos. O Potiguar, ainda de pé, somente aqui ou acolá consegue formar um elenco competitivo.

O futebol de Mossoró há tempos vem numa peleja medonha pra sobreviver. Os bons tempos ficaram apenas no cantinho da recordação, como diria o querido Olismar Lima.

Que falta faz ouvir a galera da arquibancada do Nogueirão gritar pelos seus times do coração. O meu é vermelho, do Potiguar, “time macho”.

Mas sinto falta, até mesmo, de ouvir a torcida do Baraúnas:

“Solte o leão”!

Odemirton Filho é Bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/11/2020 - 08:54h

O Pavilhão Vitória

Por Odemirton Filho

Tomar um café e jogar conversa fora é um dos bons prazeres da vida. Para quem gosta, conhecer e frequentar cafeterias é sempre um momento agradável.

Em Mossoró, atualmente, existem várias cafeterias, para todos os gostos e bolsos.

Pavilhão Vitória ficava na Praça Rodolfo Fernandes, sendo ponto de encontro durante muitos anos (Fotomontagem BCS)

Porém, na Mossoró do passado, existia o Pavilhão Vitória, localizado na praça do antigo Cine Pax (Praça Rodolfo Fernandes). Dizem, os que frequentaram, que era ponto de encontro, antes ou depois de assistir ao vesperal.

Segundo consta, o Pavilhão Vitória foi construído por volta dos anos 40 pelo Padre Mota, numa homenagem à vitória das nações aliadas sobre a Alemanha. Por lá se vendiam cafés, bebidas, doces e lanches. Existia até mesmo uma charutaria.

Creio que se conversava sobre tudo e se comentava o dia a dia da cidade. Talvez se falasse sobre a vida alheia. Tudo não muito diferente dos dias de hoje.

Pelas redondezas do Pavilhão Vitória existiam também o Bar Suez, a Sorveteria Oásis (com o famoso sorvete de abacate com mel), o Restaurante Umuarama, além de outros estabelecimentos.

Em tempos mais recentes existia, também, a lanchonete de Fenelon, onde se vendia o bolo Luiz Felipe acompanhado de uma “bananada”. Não podia faltar um cachorro-quente pra ser degustado com garfo e faca, como todo mossoroense da gema.

Ainda sinto o sabor do suco de maracujá e dos pastéis da lanchonete de Silvério, que ficava ao lado da Padaria Merçalba, do meu pai.

Pois é. O Pavilhão Vitória faz parte da história de Mossoró, com um dos seus recantos e encantos. Era um dos antigos imóveis que o “progresso” demoliu. Ainda bem que o fotógrafo Manuelito nos deixou o registro daquele ponto de encontro.

Como se sabe, cada prédio antigo da cidade que vem a ruir, perde-se um pouco de nossa identidade. Vai-se um pouco de cada um de nós.

O Pavilhão Vitória “não foi do meu tempo”. Os poucos fatos que aqui narrei foram contados pelo meu velho pai e proseando aqui e ali nas cafeterias da cidade.

Cabe, aos que lá frequentaram, reconstruir e manter viva as suas inúmeras histórias.

Por fim, permita-me parafrasear parte da coluna do articulista Mário Sabino, em O Antagonista:

Não há nada de triste ou depressivo no que escrevi. Sinto-me à vontade e alegre compartilhando impressões e sentimentos do que entrando na cacofonia (sons desagradáveis) da política. Pode não ser exatamente útil, mas quem sabe alguns temas abordados por mim lhe toquem a alma.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 22/11/2020 - 12:38h

O ‘Menino’ e a ‘Rosa’

Por Odemirton Filho

As campanhas eleitorais em Mossoró sempre se caracterizaram pelo seu acirramento. O clima político sempre foi quente, fazendo justiça as altas temperaturas da terra de Santa Luzia.

A disputa para o cargo de prefeito deste ano entrará para a história dos pleitos eleitorais.

Allyson venceu a favorita Rosalba numa disputa em que outras concorrentes se voltaram contra ele (Fotomontagem Agora RN)

De um lado, a experiência e a continuidade de um projeto político que há tempos domina o cenário político da cidade, tendo à frente Rosalba Ciarlini, que já administrou o município por quatro vezes, tendo sido senadora e governadora do Estado.

“É a Rosa!”, gritam, entusiasmados, os seus eleitores.

Doutro lado, um jovem deputado estadual, Allyson Bezerra, que, para muitos, de forma surpreendente, conquistou o primeiro mandato em 2018. De origem humilde, sem carregar o sobrenome da tradicional família de Mossoró, enfrentou em pé de igualdade a franca favorita.

“É o Menino!”, como chamam os seus correligionários.

Os demais candidatos a prefeito não conseguiram empolgar os eleitores e obtiveram votações inexpressivas.

Assim, a campanha eleitoral, como se sabe, ficou polarizada entre o Menino e a Rosa.

Em uma época em que as redes sociais são o palco da disputa político-eleitoral, os contendores travaram uma luta medonha à cata do voto.

Acusações de parte a parte que visavam a desqualificar o opositor fizeram parte do mundo real e, principalmente, virtual.

Tudo, é claro, com o objetivo de exaltar as qualidades de seu candidato e descontruir o adversário.

Além disso, várias pesquisas de intenções de votos foram publicadas. Para todos os gostos. Desacreditar a pesquisa na qual o seu candidato estava em desvantagem foi a estratégia adotada no decorrer de toda a campanha.

Para os partidários do Menino e da Rosa somente as pesquisas que os colocava em vantagem estavam corretas.

Alguns institutos de pesquisa, diante de erros graves, perderam a credibilidade. Sabe-se que números contraditórios podem influenciar o eleitor que “não quer votar pra perder”.

Contudo, o mais incrível foram as aglomerações em tempos de pandemia. O eleitor foi às ruas, lotando os comícios, carreatas e passeatas. Parecia que o coronavírus “estava em férias”.

O discurso adotado pela Rosa consistiu em apontar a inexperiência do Menino para administrar um município do porte de Mossoró. Argumentava que era preciso maturidade e experiência para gerir o destino da capital do Oeste potiguar.

“A Rosa tinha feito e iria fazer muito mais”. Aliava a sua fala o fato de ter recebido uma “herança maldita” do seu antecessor.

Já o Menino se apresentou como o “novo”, aquele que venceria uma família que há décadas mandava e desmandava na cidade. Conseguiu atrair a simpatia da maioria dos eleitores, prometendo uma administração diferente e moderna.

O Menino levou bordoadas de todos os lados. Era o “inimigo” comum a ser abatido.

Na reta final da campanha, a troca de acusações se acentuou. A militância dos candidatos ficou com os ânimos à flor da pele.

Não se acreditava na derrota da Rosa, mesmo diante da maioria das pesquisas que indicava a vitória do Menino.

A Rosa perder as eleições em Mossoró sendo candidata? Que conversa é essa?! Ela ganharia, nem que fosse por poucos votos. Vamos apostar?

O resultado das urnas, contudo, apresentou um quadro que, para muitos, parecia impossível de acontecer.

A Rosa não era imbatível. Apesar de toda a sua experiência político-administrativa e inegável carisma não conseguiu se reeleger.

O Menino, com apenas 28 anos de idade e o seu chapéu de vaqueiro, venceu a eleição.

O “impossível”, às vezes, acontece.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Artigo / Eleições 2020 / Política
domingo - 15/11/2020 - 10:24h

Eleições e vida real

Por Odemirton Filho

A campanha eleitoral, pelo menos onde não haverá segundo turno, terminou. Hoje após a eleição e conhecido o resultado das urnas, a vida voltará ao seu curso normal.

Nesses dias vivemos numa verdadeira festa. Passeatas, carreatas, comícios. Até aglomerações, em tempo de pandemia, aconteceram.

Alguns eleitores não podem ouvir a famosa “lambada” que saem pelas ruas dançando, segurando as bandeiras e vestindo as cores de seus candidatos.  Literalmente brigam pelos seus políticos.

“Lutarei por saúde, educação, segurança, emprego e renda”. Esse foi o discurso da maioria dos candidatos. No geral, nenhuma novidade.

Há tempos que escutamos a mesma ladainha. Prometem “mundos e fundos”. Vamos renovar. Reconstruir. Continuar o trabalho.

Entretanto, voltemos à vida real. Das contas no final do mês.

Falta de empregos, escolas deterioradas, ruas sem saneamento e pavimentação e saúde deficiente continuarão a fazer parte do cotidiano de nossas cidades. Sem falar nas “visitas” que a Polícia costuma fazer a alguns envolvidos em corrupção.

Daqui a dois anos teremos, de novo, a festa das campanhas e as eleições gerais. E mais uma vez a promessa de um país melhor.

Creio que o leitor também está cansado da conversa fiada de sempre.

De toda forma, a Constituição Federal diz que todo o poder emana do povo que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

Sendo assim, vamos às urnas. Sempre é bom lembrar que somos responsáveis pelo que acontecerá em nossa cidade em razão de nossas escolhas.

Enfim, por causa da Covid-19 o pleito de hoje será diferente. Que eleição seja realizada com os cuidados necessários.

E em paz.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Eleições 2020 / Política
  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 08/11/2020 - 11:24h

Reta final da campanha e compra de votos

Por Odemirton Filho

Não é novidade que as campanhas eleitorais no Brasil sempre foram marcadas pelo abuso de poder econômico, pelo abuso de poder político e, principalmente, pela compra de votos.

É certo que com o passar do tempo a legislação eleitoral foi sendo aperfeiçoada e a fiscalização mais rigorosa.

Contudo, infelizmente, essa prática ainda faz parte do cotidiano eleitoral. Na reta final da campanha a compra de votos acontece. Com força. Há um batalhão de pessoas que visita as casas dos eleitores numa verdadeira romaria.Doa-se tudo ao eleitor: telhas; tijolos; próteses dentárias; remédios; o pagamento da conta de água e luz; carteira de habilitação e cadeiras de rodas são alguns exemplos. E o eleitor não se faz de rogado. Pede até enxoval para casar.

Para alguns eleitores é a oportunidade de conseguir alguma coisa, pois, passada a eleição, o político “some”, conforme gostam de dizer. E é mentira?

Porém, que fique claro: pratica o crime eleitoral tanto quem compra, como quem vende o voto.

Hoje, como tudo é filmado e gravado pelos aparelhos de celular, os cuidados estão sendo redobrados, mas dificilmente impedirá a compra de votos. E nesta última semana de campanha eleitoral o “bicho” vai pegar.

É claro que existem candidatos que fazem sua campanha jogando limpo, não se pode deixar de reconhecer.

Entretanto, aqui ou acolá, consegue-se “fisgar” um candidato mais afoito e “graúdo”. Após um demorado processo judicial, alguns têm o mandato cassado em razão do abuso de poder e da compra de votos.

Pois é. Nessa reta final da campanha, a onça-pintada, o peixe-garoupa e o lobo-guará andarão de mãos dadas, pra lá e pra cá, à caça de votos.

É uma triste realidade.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Artigo / Eleições 2020 / Política
domingo - 25/10/2020 - 11:52h

Candidatura coletiva nas eleições 2020

Por Odemirton Filho

As eleições no Brasil sempre foram realizadas escolhendo-se um candidato para determinado cargo eletivo. Vota-se, assim, em um candidato a prefeito e um candidato a vereador.

Ou seja, para votar sempre se levou em conta, pelo menos em tese, a pessoa do candidato, as suas qualidades e o trabalho que realizou ou que pretende realizar no cargo para o qual concorre.

Entretanto, ultimamente, uma nova figura eleitoral tem ocupado espaço, embora de forma tímida, no cenário eleitoral brasileiro.

Trata-se da candidatura coletiva.  Expliquemos.Um grupo de pessoas se reúne apresentando uma candidatura coletiva, elaborando propostas e divulgando a candidatura, conjuntamente.

No Brasil temos, como exemplo, a Bancada Ativista, um movimento político fundado em 2016, que atua elegendo pessoas que possuam pautas em comum. Nas eleições de 2018 promoveram um mandato coletivo para a Assembleia Legislativa do estado de São Paulo.

O grupo nasceu através de integrantes de movimentos sociais que buscavam maior diversificação na representação política.

Esse tipo de candidatura é comum na formação de chapas proporcionais, isto é, na eleição para deputados e vereadores. Contudo, nada impede que haja uma candidatura coletiva para o Poder Executivo.

Nas eleições deste ano, o PSOL lançou a primeira candidatura coletiva a Prefeitura de Natal. A Coletiva do SOL, como foi denominada, é formada por Nevinha Valentim, Danniel Morais, Liliana Lincka e Sol Victor. Sendo que Nevinha Valentim e Danniel Morais requereram o registro para prefeito e vice, respectivamente.

Seria uma forma de compartilhar o mandato através de várias pessoas, com iguais responsabilidades. As decisões do mandato seriam construídas em conjunto.

Desse modo, o detentor do mandato agirá de acordo com as diretrizes do grupo que o ajudou.  Com isso, os projetos de lei que forem apresentados na Câmara Municipal serão discutidos e elaborados por todos os membros, mas, claro, proposto pelo vereador individualmente.

Até mesmo o salário a ser recebido poderá ser dividido entre o grupo, sendo alguns membros nomeados como assessores parlamentares.

Entretanto, esclareça-se, que a Justiça Eleitoral não permite a candidatura coletiva formalmente. Não há norma regulando o assunto. Dessa forma, seria um acordo entre algumas pessoas, mas sem qualquer respaldo na legislação eleitoral. O mandato eletivo é um ato pessoal.

“A candidatura é individual, o mandato é personalíssimo e candidaturas coletivas não fazem parte do ordenamento jurídico”, diz o Tribunal Superior Eleitoral.

Na verdade, aquele que requereu o registro de candidatura é, para todos os fins, o candidato. O seu nome e foto é que estarão na urna eletrônica e, caso eleito, assumirá o mandato individualmente.

Existe em tramitação na Câmara dos Deputados uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC n.379/17) que trata sobre o assunto. Como justificativa afirma-se que:

“No momento em que o País enfrenta grave crise ético-política, consideramos necessário rever nosso sistema eleitoral e representativo, com vistas a ampliar a participação da sociedade nas decisões políticas.

“Por essa razão, propomos a discussão de novo modelo para o ordenamento jurídico-constitucional brasileiro, a fim de instituir a possibilidade de os mandatos, no âmbito do Poder Legislativo, serem individuais ou coletivos”.

Vamos ver se a candidatura coletiva cairá nas graças do eleitor e, principalmente, se cumprirá o compromisso firmado entre os membros do grupo, caso eleita.

Portanto, a candidatura coletiva começa a aparecer nas campanhas eleitorais Brasil afora. Parece estranho, mas é uma nova forma de se fazer política.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Artigo
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 18/10/2020 - 06:40h

Sobre o futuro ministro, o STF e o dinheiro na cueca

Por Odemirton Filho

Nos últimos dias o cenário jurídico e político brasileiro tem sido movimentado. A indicação do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, vem sendo alvo de críticas por parte da imprensa, diante de algumas inconsistências no currículo do candidato.

O escolhido pelo presidente da República é o desembargador federal Kassio Nunes Marques. Entretanto, parte dos Bolsonaristas esperava um nome alinhado à direita, conservador na moral e nos bons costumes ou, ainda, “terrivelmente” evangélico.

Mas, na verdade, o que importa é que o futuro ministro, se tiver o nome aprovado pelo Senado Federal, cumpra o seu papel. Qual? Agir como guardião da Constituição Federal.

No último dia 05 a Constituição aniversariou. Fez trinta e dois anos. De lá para cá o seu texto tem sofrido interpretações de todo tipo. Há decisões para todos os gostos. E desgostos.

Diante disso, faço minhas as palavras do professor Lenio Streck: “eu espero, só posso esperar, aquilo que espero de todo juiz: o de, acima de tudo, respeitar a Constituição”.  É pedir demais?

Por outro lado, a decisão do ministro Marco Aurélio do STF, determinando a soltura do traficante André Oliveira Macedo, o “André do rap”, causou uma celeuma entre os seus pares que, por maioria, e ratificando a decisão do presidente da Corte, Luiz Fux, decretarem novamente a prisão do acusado.

O parágrafo único do Art. 316 do Código de Processo Penal diz textualmente que decretada a prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade de sua manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal.

O ministro Marco Aurélio afirma que decidiu de acordo com o que diz norma. Mas, diante do caso concreto, foi correta a soltura? A maioria dos ministros entendeu que não. Isto é, mais uma vez ficamos à mercê da interpretação jurídica.

Por fim, o senador da República Chico Rodrigues, em uma operação da Polícia Federal que apura atos de corrupção foi encontrado com dinheiro na cueca.

Ou seja, o nobre senador parece que estava com dinheiro sujo. Literalmente sujo.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 11/10/2020 - 09:52h

Deepfake (falsificação profunda) e campanha eleitoral

Por Odemirton Filho

Nos últimos tempos as redes sociais têm sido o palco para o embate político-eleitoral. As ruas não são mais o centro da disputa. Pelo menos, nas grandes cidades, os comícios já não arregimentam multidões.

Deepfake com o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula joga humor, mas às vezes simula algo original (Reprodução)

É no mundo da internet que os candidatos e seus partidários disputam simpatizantes para as suas ideias e o voto do eleitor. Entretanto, as fake news ganharam força. As notícias falsas são compartilhadas em uma velocidade que é difícil conter.

Todavia, uma nova modalidade de desinformação vem ganhando espaço. São as deepfake, ou seja – a falsificação profunda – conforme tradução livre.

A falsificação profunda significa uma forma de propagação da desinformação, através de vídeos, no quais a imagem e o áudio são adulterados. Isto é, tem-se um vídeo e é possível editar a imagem e a voz de determinada pessoa, manipulando a verdade.

Com isso, através dessa fraude, se criam mensagens e imagens falsas de um determinado candidato, por exemplo.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), explicando o tema, diz que “a tecnologia utiliza a inteligência artificial para criar vídeos falsos que parecem verdadeiros. Assim, a deepfake pode ser considerada uma nova forma de desinformação”.

Imagine o uso dessa falsidade em tempos de eleições? Quantas mensagens inverídicas podem ser repassadas?

Sobre o tema, o professor Diogo Rais afirma:

“Importante refletir sobre o impacto das deepfakes em ambiente eleitoral e, especialmente, com relação a pronunciamentos importantes em vésperas de eleições, podendo inclusive impossibilitar o candidato ofendido de esclarecer os fatos a seus eleitores ou de conseguir esclarecer o fato, por não haver tempo hábil de que o vídeo-resposta se propague e tenha a mesma escalabilidade do vídeo falso”.

Além disso, é possível a edição de áudios, adulterando uma voz, fazendo-a quase idêntica ao do candidato que se quer prejudicar, causando-lhe enormes prejuízos eleitorais.

De se ressaltar que, conforme a legislação eleitoral, a livre manifestação do pensamento do eleitor identificado ou identificável na internet somente é passível de limitação quando ofender à honra ou a imagem de candidatos, partidos ou coligações, ou divulgar fatos sabidamente inverídicos.

Ademais, segundo a Resolução que trata da propaganda eleitoral (n. 23.610/19), com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, as ordens judiciais de remoção de conteúdo divulgado na internet serão limitadas às hipóteses em que, mediante decisão fundamentada, sejam constatadas violações às regras eleitorais ou ofensas a direitos de pessoas que participam do processo eleitoral.

O presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, em recente entrevista, afirmou:

“Eu tenho a teoria de que a integridade vem antes da ideologia. Portanto, em primeiro lugar, as pessoas têm o dever de serem corretas, honestas. No enfrentamento da corrupção, eu mesmo digo que não tem corrupção de direita ou de esquerda, porque a integridade vem antes dessas escolhas ideológicas”.

E acrescenta:

“E evidentemente isso vale também para campanhas fraudulentas. Uma das campanhas que o TSE pretende fazer é justamente para pessoas não disseminarem notícias fraudulentas ou notícias sem checar a autenticidade”.

Como se percebe, a Justiça Eleitoral tem se esforçado para coibir à desinformação no processo eleitoral. Contudo, diante da imensidão do mundo virtual e da rapidez do que é compartilhado, torna-se uma tarefa complexa.

Assim, espera-se que os atores do processo eleitoral, partidos políticos, candidatos e eleitores, conduzam-se dentro das regras do jogo, evitando-se o compartilhamento de fake news e/ou deepfakes.

Difícil? Sem dúvida. O jogo, infelizmente, sempre foi desleal.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 04/10/2020 - 07:28h

Elegibilidade e inelegibilidade

Por Odemirton Filho

Para que o cidadão possa se candidatar a um cargo eletivo é necessário, segundo a Constituição Federal, preencher as condições de elegibilidade. (Art. 14, § 3º).

São condições de elegibilidade: a nacionalidade brasileira; o pleno exercício dos direitos políticos; o alistamento eleitoral; o domicílio eleitoral na circunscrição; a filiação partidária e a idade mínima para o cargo que se pretende disputar.Em um ano de eleição é comum se indagar se determinada pessoa poderá se candidatar, seja porque tem algum parentesco com o prefeito ou porque tem alguma condenação que o impeça de disputar a eleição.

Entende-se como elegibilidade o direito público subjetivo atribuído ao cidadão de disputar cargo público eletivo.

Por outro lado, a inelegibilidade é o impedimento temporário da capacidade eleitoral passiva do cidadão, isto é, do direito de ser votado, em razão do seu enquadramento em alguma das hipóteses previstas na Constituição Federal ou na Lei Complementar (LC) nº 64/1990.

Esclareça-se, entretanto, que o cidadão não poderá ser votado, mas poderá votar.

Ao contrário, quando se diz que o cidadão está com os seus direitos políticos suspensos, significa que não poderá ser votado e votar por um determinado prazo (por exemplo, aquele foi condenado pela prática de um crime, após todos os recursos, enquanto durar o cumprimento da pena).

Desse modo, além de preencher as condições de elegibilidade é preciso que o candidato não incorra em nenhuma das hipóteses de inelegibilidade, previstas na Constituição Federal ou na LC 64/90.

Vejamos alguns exemplos de inelegibilidade.

A Constituição Federal diz que são inelegíveis, no território de jurisdição do titular, o cônjuge e os parentes consangüíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República, de Governador de Estado ou Território, do Distrito Federal, de Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição. (Art. 14, § 7º).

Parentes por consanguinidade são os avós, pais, filhos, irmãos, tios, por exemplo. Já os parentes por afinidade seriam o sogro e a sogra, genro, nora e cunhados.

A regra diz que parentes até o segundo grau, ou seja, avós, pais, filhos e irmãos do prefeito são inelegíveis, bem como o sogro e a sogra, genro, nora e cunhado, além do cônjuge, claro.

O irmão ou cunhado do prefeito, se não for titular de mandato eletivo (vereador), não poderá ser candidato. Entretanto, se o prefeito ainda não foi reeleito e renunciar ao mandato no prazo exigido poderá o seu parente se candidatar.

O primo do prefeito é parente em quarto grau e, por isso, não há impedimento à candidatura. Já o cunhado do prefeito não poderá ser candidato, pois é parente afim em segundo grau.

Ademais, o cidadão que se enquadrar em uma das hipóteses de inelegibilidade da Lei Complementar 64/90, com trânsito em julgado (não cabe mais recurso) ou julgamento por órgão colegiado (Tribunal), também estará inelegível para disputar qualquer cargo eletivo, bem como os inalistáveis (estrangeiros) e os analfabetos.

Há, desse modo, inúmeras hipóteses de inelegibilidades que, somente diante do caso concreto, a Justiça Eleitoral poderá se manifestar, aplicando a norma.

As condições de elegibilidade e as causas de inelegibilidade devem ser aferidas no momento da formalização do pedido de registro da candidatura, ressalvadas as alterações, fáticas ou jurídicas, supervenientes (posterior) ao registro que afastem a inelegibilidade. (Art. 11, § 10, da Lei n. 9.504/97).

Acrescente-se que é cabível a Ação de Impugnação de Registro de Candidatura (AIRC) para se discutir a ausência de uma condição de elegibilidade ou a ocorrência de uma hipótese de inelegibilidade, podendo ser proposta pelo Ministério Público Eleitoral, coligações, partidos políticos e candidatos.

Por fim, o candidato cujo pedido de registro esteja sub judice (em julgamento) ou que, protocolado no prazo legal, ainda não tenha sido apreciado pela Justiça Eleitoral poderá efetuar todos os atos relativos à sua campanha eleitoral, inclusive utilizar o horário eleitoral gratuito, para sua propaganda, na rádio e na televisão, conforme a Resolução n. 23.610/19 do Tribunal Superior Eleitoral.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 27/09/2020 - 08:20h

A propaganda eleitoral vai começar (prepare-se!)

Por Odemirton Filho

“Denomina-se propaganda eleitoral a elaborada por partidos políticos e candidatos com a finalidade de captar votos do eleitorado para investidura em cargo público-eletivo”. (José Jairo Gomes)

Os candidatos, a partir de hoje, podem colocar o “bloco” nas ruas. Mais uma vez é hora de ouvir as propostas dos candidatos a prefeito e a vereador.

A propaganda eleitoral é disciplinada pela Lei das Eleições (n. 9.504/97) e pela Resolução n. 23.610/19 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Vale dizer que independe da obtenção de licença municipal e de autorização da Justiça Eleitoral a veiculação de propaganda eleitoral pela distribuição de folhetos, adesivos, volantes e outros impressos, os quais devem ser editados sob a responsabilidade do partido, Coligação ou candidato.

Além disso, a realização de qualquer ato de propaganda partidária ou eleitoral, em recinto aberto ou fechado, não depende de licença da polícia.

Nos veículos é proibido colar propaganda eleitoral, salvo adesivos microperfurados até a extensão total do para-brisa traseiro e, em outras posições, adesivos que não excedam a 0,5m (meio metro quadrado).

Também é permitida a colocação de mesas para distribuição de material de campanha e a utilização de bandeiras ao longo das vias públicas, desde que móveis e que não dificultem o bom andamento do trânsito de pessoas e veículos.

Por falar em trânsito, cabe lembrar que o Código de Trânsito não deixa de valer no período da campanha. Assim, nas carreatas, dirigir sem o cinto de segurança, pilotar sem o capacete e sob a influência de álcool continuam a ser infração.

Passeatas e comícios poderão ser realizados. Contudo, em tempos de pandemia (ainda não acabou, mas alguns acham que sim), as normas sanitárias devem ser observadas, de acordo com as determinações das autoridades de Saúde.

É bom ressaltar que nas árvores e nos jardins localizados em áreas públicas, bem como em muros, cercas e tapumes divisórios, não é permitida a colocação de propaganda eleitoral de qualquer natureza, mesmo que não lhes cause danos.

Não será possível, na campanha eleitoral, a confecção, utilização, distribuição por comitê, candidato, ou com a sua autorização, de camisetas, chaveiros, bonés, canetas, brindes, cestas básicas ou quaisquer outros bens ou materiais que possam proporcionar vantagem ao eleitor.

Caso ocorra, responderá o candidato infrator, conforme o caso, pela prática de captação ilícita de sufrágio (a velha compra de votos). Qualquer vantagem. Um milheiro de tijolo, de telha, cimento, cestas básicas, o pagamento da conta de luz, uma carteira de habilitação etc. Não esqueça que quem vende o voto, também, pratica o crime.

Nesse sentido, o TSE já decidiu:

(…) “O ilícito descrito no art. 41-A da Lei nº 9.504/97 se consubstancia com a oferta, a doação, a promessa ou a entrega de benefícios de qualquer natureza, pelo candidato, ao eleitor, em troca de voto, que, comprovado por meio de acervo probatório robusto, acarreta a cominação de sanção pecuniária e a cassação do registro ou do diploma”. (Ac. de 9.5.2019 no REspe nº 40898, rel. Min. Edson Fachin.)

Em relação à propaganda eleitoral na internet é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato, assegurado o direito de resposta, sendo permitido, ainda, a manifestação por outros meios de comunicação interpessoal mediante mensagem eletrônica.

Os candidatos devem redobrar o cuidado para que não haja a divulgação e o compartilhamento de fake news, pois, certamente, será um ponto que a Justiça Eleitoral ficará de olhos bem abertos.

Tanto é que a utilização, na propaganda eleitoral, de qualquer modalidade de conteúdo, inclusive veiculado por terceiros, pressupõe que o candidato, o partido ou a coligação tenha verificado a presença de elementos que permitam concluir, com razoável segurança, pela fidedignidade da informação, sob pena de eventual responsabilidade penal.

O abuso de poder, em uma de suas modalidades – econômico, político e pelos meios de comunicação – mesmo que antes do início do período da campanha eleitoral, poderá ser objeto da Ação de Investigação Judicial, com as sanções previstas.

Acrescente-se, ainda, que a propaganda no rádio e na televisão começará a ser veiculada a partir do dia 09 (nove) de outubro se estendendo até o dia 12 (doze) de novembro.

Enfim, prepare-se. Aguardemos as “novidades” da propaganda eleitoral.

Sabe aquelas promessas de melhorias na saúde, na educação, o saneamento e a pavimentação da sua rua?

Pois é. Deverá ser nesse sentido. Como sempre.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 20/09/2020 - 06:12h

O Velho Alcaide e a campanha eleitoral de 1992

Laíre Rosado, Frederico Rosado, Sandra Rosado, Dix-huit e Vingt em 1992 (Foto: arquivo)

Por Odemirton Filho

Segundo a história, o alcaide era o governador de uma cidade ou vila fortificada durante a Idade Média. Posteriormente, o título designou vários cargos administrativos e, em alguns países, a denominação é atribuída a autoridade máxima de um município.

Mossoró, de igual modo, teve o seu alcaide, como Jerônimo Dix-Huit Rosado Maia, às vezes, denominava-se.

Dix-huit foi eleito prefeito de Mossoró em 1972, 1982 e 1992. Porém, antes de ser prefeito, elegeu-se em 1947 deputado à Assembleia Constituinte do Rio Grande do Norte. No pleito de outubro de 1950 se elegeu deputado federal e em 1958 foi eleito senador.

Lembro-me da campanha de 1992, na qual o Velho Alcaide, então com oitenta anos, disputou a prefeitura contra o candidato da prefeita Rosalba Ciarlini, Luiz Pinto, que era o vice-prefeito, o advogado Paulo Linhares e o professor Luiz Carlos Martins.

Em 1992, estando Dix-huit com idade avançada para aguentar o ritmo de uma campanha eleitoral, não se acreditava em sua vitória. A campanha foi difícil. Uma luta renhida para vencer o pleito.

Em Mossoró de outros tempos, como em qualquer cidade do interior, os ânimos ficavam exaltados. Os comícios, passeatas e carreatas sempre fizeram parte das campanhas eleitorais.

“Curiar” o comício do adversário era costume pra ver onde tinha mais gente. A vigília na véspera da eleição “varava” a madrugada, “pastorando” os correligionários do outro candidato. Talvez em algumas cidades ainda seja assim.

Se o comício era grande, realizava-se no largo do “Jumbo”, atual Ginásio de Esportes Pedro Ciarlini Neto, e no largo da Cobal. Muitas vezes, é claro, depois da tradicional descida do grande alto de São Manoel.

À época eram permitidos os showmícios. Assim, para atrair multidões, os candidatos traziam cantores ou bandas de renome nacional. Uma verdadeira festa. E das boas. Bebida à vontade.

Certa vez, ouvi um discurso do Velho Alcaide. Um orador de primeira. Disse na ocasião que se pudesse, traria algodão para cobrir o chão de Mossoró, para pisar e não machucar a terra que tanto amava. A multidão presente ao comício foi ao delírio.

São conhecidas as suas frases. Gostava de dizer que o que sentia por Mossoró não era amor, não era paixão, era obsessão. E que quem não faz um pouco mais por sua terra, não fará nada pela terra de ninguém.

Naquela campanha, percorrer os bairros e a ruas de Mossoró não era tarefa fácil. Os seus correligionários tinham que se desdobrar, diante da natural dificuldade do candidato a prefeito.

Por outro lado, a campanha eleitoral de Luiz Pinto era só alegria. “É o pinto, é o pinto”, dizia a letra da música. As pesquisas divulgadas, internamente, davam como certa a vitória do candidato da prefeita.

Prego batido, ponta virada, pensavam os seus eleitores.

Que nada! Abertas as urnas, o velho mostrou toda a sua força, conforme mostra o resultado abaixo:

Eleições de 1992 (Fonte: Blog Carlos Santos):

– Dix-huit Rosado (PDT) – 37.188 (47,79%);
– Luiz Pinto (PFL) – 32.795 (42,15%);
– Luiz Carlos Martins (PT)– 6.557 (8,43%);
– Paulo Linhares (PSB) – 1.273 (1,64%);
– Brancos – 5.669 (6,49%);
– Nulos – 3.913 (4,48%);
– Maioria pró-Dix-huit Rosado – 4.393 (5,64%).

Daquela época, ainda ecoam na mente as músicas que embalavam a passeata, ao passar, de madrugada, próximo à minha casa, rumo ao comício da vitória. 

“É o velho, é o velho”, gritavam entusiasmados os seus eleitores. Não era para menos.

Foi, sem dúvida, a coroação de uma carreira política vitoriosa.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 13/09/2020 - 08:58h

O que vale a pena

Por Odemirton Filho

Tudo vale a pena, se alma não é pequena”.

(Fernando Pessoa)

 

Caminhavam na areia com a brisa tocando os seus rostos, como se fosse um beijo suave. Diariamente, à tardinha, gostavam de andar na beira da praia, com o mar molhando os pés.

Há anos tinham largado a cidade grande. Mudaram-se para a comunidade-praia e desfrutavam a paz do local. Buscavam sossego, pois já estavam aposentados.

A rotina raramente mudava. O marido acordava cedo, o sol nunca o encontrou dormindo, como diria Rui Barbosa. Preparava um café coado e tapiocas. A mulher se levantava um pouco mais tarde. Conversavam sentados à mesa, sem pressa. Depois cumpriam as tarefas da casa e faziam o almoço.

Algumas vezes, pela manhã, esperavam uma jangada vindo do alto mar e compravam peixes, já eram conhecidos dos pescadores e moradores da pequena localidade. As compras da casa eram realizadas na mercearia de Zé de Niel, que ficava próximo, ainda no sistema da “caderneta”.

Antes do almoço o marido gostava de tomar uma “pra lavar”.  Depois, deitavam-se nas redes e iam curtir a “sesta”. No meio da tarde tomavam um “pingado”, acompanhado com pães e bolo.

À noite, após o jantar, deitavam-se juntos no alpendre com o vento balançando a rede, embalando os momentos mais íntimos.

Tinham um filho e dois netos que os visitavam uma vez por ano, nas férias, pois moravam longe, lá pelas bandas do sul do país. Para não ficarem incomunicáveis possuíam um telefone celular.  Assistiam a televisão, de vez em quando, para verem o noticiário.

Liam muito. Sobretudo, os romances, contos e as crônicas do bruxo do Cosme Velho. A sós, conversavam sobre a vida. Lamentavam-se. Eram para ter dançado mais. Viajado mais.

Entretanto, a correria do dia a dia e o trabalho fizeram com que consumissem boa parte da vida. O tempo passou depressa. Os anos avançaram e olhavam para trás, com saudade, principalmente, daquilo que não viveram. Agora, já não tinham o viço da mocidade.

Somente o tempo nos faz amadurecer. Os valores da vida são repensados. Valeu a pena correr tanto em busca de bens materiais? Perguntavam-se. Vivemos tempos da economia do desejo, não da necessidade.

Infelizmente, ou felizmente, ninguém transfere sua experiência ao outro. Erros e acertos precisam fazer parte da vida de cada um. Se pudessem voltariam no tempo e viveriam de outra forma. Mais leves. Mais soltos.

Final da tarde. Era hora de ir à praia, caminhar na areia e sentir a brisa. Juntos, viram o pôr do sol refletir sobre as águas do mar.

Descobriram que nunca é tarde para viver o que vale a pena.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 06/09/2020 - 09:34h

O Touro e o Capim

Por Odemirton Filho

“Não sei por quantos votos, mas vamos ganhar a eleição”. (Aluízio Alves)

Diz o jornalista Zuenir Ventura, em seu livro “1968: O ano que não terminou”, que naquele ano o mundo pegou fogo. Foi um ano que incendiou corações e mentes, explodiu em canções, filmes, passeatas, revoluções e guerras.

Toinho: vitória apertada (Foto: arquivo)

No “país” de Mossoró não foi diferente. Em 1968 a disputa eleitoral a prefeitura entre Jerônimo Vingt-un Rosado Maia e Antônio Rodrigues de Carvalho “pegou fogo”.

De um lado, Vingt- un Rosado (vinte e um em francês), homem das letras e de família tradicional na política. No jogo do bicho, o número vinte e um é o do “touro”, daí o surgimento do apelido na campanha eleitoral.

Já Antônio Rodrigues de Carvalho era do sítio Capim Grosso, município de Upanema, por isso o chamaram, naquele pleito, “Toinho do Capim”.

Vamos aos fatos, de acordo com as reminiscências de Aluízio Alves.

Segundo Aluízio, Mota Neto, político de Mossoró, o procurou, pois queria impor uma derrota aos Rosados na campanha eleitoral, achando que Antônio Rodrigues de Carvalho era o candidato certo.

Aluízio não se opusera, porém quis consultar as “senadoras”, um grupo de mulheres de Mossoró que dava sustentação ao seu projeto político. Elas insistiam que o nome deveria ser do próprio sistema, com preferência por Cid Duarte, rebento do senador Duarte Filho.

O candidato foi Toinho, que já tinha sido eleito em 1957 à prefeitura, com apoio dos Rosados.

Duarte ficou longe da campanha. Numa carta a Aluízio assumiu essa posição e avisou que votaria em Vingt-un.

No início da campanha tudo caminhava para a vitória do “Touro”. As pesquisas encomendadas pelo grupo de Aluízio apontavam que o “Capim” perderia por número esmagador.

Entretanto, o grupo do “capim” foi à luta. As “senadoras” organizaram uma passeata de 72 horas no “Caminhão da Esperança”, com parada de meia em meia hora, na quais o “cigano feiticeiro” pudesse discursar.

Sob o sol escaldante de Mossoró, Aluízio começou a maratona eleitoral. No decorrer das 72 horas muitos fatos ocorreram. Assim, era comum que, ao término das aulas, os estudantes e professores seguissem a passeata.

As empregadas domésticas foram convidadas a participar, largando as cozinhas e as casas, trazendo nas mãos uma colher como símbolo de identificação, às vezes, gritando o nome de suas patroas.

A passeata, também, passou pelo comércio de Mossoró, fazendo com que parte dos comerciantes fechasse as lojas, pois clientes e empregados começaram a segui-la.

Ou seja, uma multidão começou a acompanhar a passeata no decorrer das 72 horas. Algumas pessoas carregavam um ramo verde nas mãos. Uma “floresta ambulante”, lembra Aluízio.

Alves, de igual, modo percorreu parte da zona rural do município de Mossoró, até a divisa com o Ceará, levando o nome de seu candidato.

Começara a virada.

Após uma desgastante campanha eleitoral, fechadas as urnas, era o momento de aguardar a contagem dos votos.

Quando começou a apuração o “touro” saiu à frente. As urnas sendo apuradas e Vingt-un ganhando. Alguns de seus correligionários, no calor, apostavam dinheiro na vitória e soltavam fogos de artifícios.

Contudo, Aluízio acalmava os eleitores do “capim” que estavam desolados com a perspectiva da derrota. As nossas urnas vão chegar, dizia.

E chegaram.

No final da apuração, Antônio Rodrigues de Carvalho, “Toinho do capim”, ganhou a eleição para prefeito de Mossoró por 98 votos de maioria sobre Vingt-un Rosado, o “ Touro”.

Foi uma festa. Das grandes. “É o capim, meu filho”!

Há, ainda, um “causo” hilário, contou-me meu pai.

Vingt-un, com sua comitiva, em andanças na campanha eleitoral pelos lados da cidade de Baraúna, foi visitar a bodega que pertencia a uma pessoa da região, conhecida por “Priminho”. O vereador Expedido Bolão, seu correligionário, era o guia nessas visitas.

Lá estando, sentou-se à mesa e começou a comer o que o dono do estabelecimento lhe oferecia.

“Priminho” estava feliz da vida, pensava que venderia muito, pois era uma ruma de gente que acompanhava o candidato. “Mais um “queijim”, Dr. Vingt-un”“Aceito, é bom”. E o “Touro” continuava a comer.

Lá pra tantas Vingt-un se levantou e, pensando que o lanche era uma cortesia de “priminho”, apertou a sua mão, agradeceu e foi embora sem pagar.

Eleições de 1968 (Fonte:  Vingt-un Rosado, Coleção Mossoroense):

– Antônio Rodrigues (Aena 2/verde) – 11.132 votos;
– Vingt-un Rosado (Arena 1/vermelho) – 11.034 votos;
– Maioria – 98 votos a favor de Antônio Rodrigues.

“Priminho”, cabisbaixo por causa do prejuízo, chamou uma das pessoas que acompanhava Vingt-un e implorou, quase chorando: “por favor, nunca mais traga esse “touro” aqui”.

Se é verdade, não sei, mas é mais uma das muitas histórias que ilustraram aquela memorável campanha.

Pois é. Realmente 1968 foi um ano atípico em todo o mundo. E dizem, cá por estas bandas, que a disputa entre o “touro” e o “capim” foi a mais bela campanha eleitoral que Mossoró já viu.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 30/08/2020 - 07:38h

Uma pré-campanha imprescindível, mas com cautela

Por Odemirton Filho

“A veiculação de expressões e frases com clara intenção de promover a reeleição de candidato, mas sem pedido explícito de votos, não encontra vedação na norma”. (Min. Tarcísio Vieira, TSE – REsp n. 2564 ).

A pré-campanha eleitoral se encontra a todo vapor. As redes sociais estão repletas de pretensos candidatos, todos se apresentando aos eleitores com largos sorrisos e, claro, promessas de mudança.

Por força da Emenda Constitucional n. 107/2020, a propaganda eleitoral começará, inclusive na internet, a partir do dia 27 de setembro e as eleições acontecerão, em primeiro turno, no dia 15 de novembro e o segundo turno, onde houver, em 29 de novembro.Destaque-se, porém, que no caso de as condições sanitárias de um Estado ou Município não permitirem a realização das eleições nas datas previstas, o Congresso Nacional, por provocação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), instruída com manifestação da autoridade sanitária nacional, e após parecer da Comissão Mista, poderá editar decreto legislativo a fim de designar novas datas para a realização do pleito, observada como data-limite o dia 27 de dezembro de 2020, e caberá ao Tribunal Superior Eleitoral dispor sobre as medidas necessárias à conclusão do processo eleitoral.

O fato é que neste período de pré-campanha eleitoral o futuro candidato pode fazer quase tudo. Ou seja, pode fazer menção à pretensa candidatura, exaltar as suas qualidades pessoais, inclusive com a exposição de plataformas e projetos políticos que pretende realizar, além de outros atos que podem ser realizados.

É comum ver alguns pré-candidatos nas redes sociais, o que não é vedado, conforme entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), abaixo descrito:

“Propaganda antecipada. Art. 36-A da Lei 9.504/97. Facebook. Fotos com o número e sigla do partido. Divulgação. Pré-candidatura. Possibilidade. Pedido explícito de voto. Ausência. Mera divulgação de fotos em rede social de pessoas junto ao pré-candidato, portando cartazes com o número e a sigla do partido por meio do qual viria a se candidatar, configura apenas divulgação de pré-candidatura, o que é admitido pela norma de regência e encontra amparo no vigente entendimento do Tribunal Superior Eleitoral acerca do tema”. (Min. Jorge Mussi, Respe. 13969).

Entretanto, não se pode pedir votos de forma explícita. Assim, expressões como: “conto com o seu voto”, entre outras, podem ser consideradas propaganda irregular, diante da análise do caso concreto.

Em razão disso, o período de pré-campanha eleitoral tem papel relevante, pois parcela dos pré-candidatos não é conhecida dos eleitores.

Desse modo, para que haja a massificação do seu nome, o pretenso candidato pode usar as redes sociais, apresentando o seu nome e propostas.

Com a diminuição do período de campanha eleitoral é preciso focar nas redes sociais, dando visibilidade ao futuro candidato e, para isso, a pré-campanha é de fundamental importância. “Quem é coxo parte cedo”, diz o ditado popular.

Como se sabe, as eleições atualmente são decididas, ou tem como palco principal, as redes sociais. Quem não souber usá-las, provavelmente, não conseguirá se fazer conhecido, dificultando a sua (re)eleição.

É bom lembrar que a campanha eleitoral deste ano não será como as outras. A depender da situação sanitária que estaremos enfrentando, poucos comícios serão realizados e, talvez, com algumas restrições.

Como as aglomerações não deverão ser permitidas, o corpo a corpo, importante para o contato entre o candidato e o eleitor, será feito de forma comedida.

Por consequência, as redes sociais, a propaganda eleitoral no rádio e na televisão e as carreatas deverão ser os meios mais usados pelos candidatos em busca do voto do eleitor.

Cabe esclarecer que os atos de propaganda eleitoral não poderão ser limitados pela legislação municipal ou pela Justiça Eleitoral, salvo se a decisão estiver fundamentada em prévio parecer técnico emitido por autoridade sanitária estadual ou nacional.

Portanto, o atual período de pré-campanha eleitoral se revela imprescindível para o futuro candidato, contudo, deverá se comportar com cautela, a fim de não infringir à legislação eleitoral.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 23/08/2020 - 11:25h

Chuvas e enchentes do rio Mossoró

Por Odemirton Filho

“Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva”. (José Lins do Rego)

Em 1985, há exatos trinta e cinco anos, presenciei uma das enchentes do rio Mossoró. À época parte do centro da cidade ficou alagado.

Com alguns amigos de infância percorri todas as ruas com o nível da água atingindo a cintura. Foi a diversão daqueles dias. Não estávamos preocupados se iríamos adoecer. Às escondidas dos nossos pais passávamos a maior parte do dia vendo aquela enxurrada d´água. 

Não se falava na tricomitização do rio ou, se falavam, não sabíamos de que se tratava.

As águas avançavam na rua lateral, entre as lojas Riachuelo e o Cine Pax, hoje lojas Marisa. Para nós as consequências da enchente e os transtornos não interessavam. Os prejuízos para o comércio local foram, certamente, imensos, mas estávamos preocupados com as sessões de filmes do Cine Pax.

Não estávamos sozinhos. Dezenas de pessoas percorriam as ruas alagadas, fosse por curiosidade ou para salvar objetos e mercadorias das lojas que ficavam nos arredores.

Sob a chuva torrencial, saíamos a andar, sem pensar em raios ou trovões. A infância, como se sabe, não conhece o medo.  Aproveitávamos cada uma das bicas das casas e dos prédios. A água gelada quando batia doía nos “couros”. As mãos e os pés ficavam “engiados”. Tempo bom.

Dávamos voltas e mais voltas no quarteirão do antigo Banco do Estado do Rio Grande do Norte (BANDERN) e onde ficava a padaria que pertencia ao meu pai. Ao final da tarde, com o chão encharcado, ficávamos na padaria comendo pão e bolacha “sete capas”, ouvindo a conversa dos mais velhos sobre as chuvas.

De tanto brincar sob a chuva era natural que ficássemos resfriados. Mas, naquele tempo, qual criança não queria ficar doente para beber guaraná e comer bolacha “creme craque”? Era um santo remédio.

Hoje em dia, aqui ou acolá, quando cai um “toró” d´água, lembro-me de 1985. Bate uma saudade danada.

Da enchente? Claro que não.

Dos banhos de chuva que alegravam e molhavam a infância.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/08/2020 - 09:46h

O Cigano Feiticeiro e o Homem do Carneiro Verde

Por Odemirton Filho

“Pau dos Ferros, o cigano chegou”. (Aluízio Alves, em discurso)

As campanhas eleitorais de Aluízio Alves, nos idos de 1960, são memoráveis, conforme aqueles que viram e ouviram o “cigano feiticeiro”. Por onde ele passava arregimentava multidões. Era a Cruzada da Esperança.

Mas por que o apelido de “cigano”? Porque, segundo o próprio Aluízio, o seu adversário afirmou que Aluízio passava o dia pelas estradas, não almoçava nem jantava na casa de líderes políticos que o apoiavam e, se dormia, era nas estradas. Aluízio, então, adotou a alcunha e, depois, acrescentou o “feiticeiro”, de acordo com uma música composta para ele.

Assim, em quase toda cidade, havia aqueles eleitores que acompanhava o “cigano feiticeiro”, como todo partidário apaixonado por política e pelo seu líder.Em Mossoró não poderia ser diferente. Seu Pedro, conhecido como “o homem do carneiro verde”, era um desses fiéis eleitores. Todos os dias o carneiro ficava amarrado ao tronco de um pé de castanhola que fazia sombra na frente da residência.

Ali o carneiro ficava à exposição das pessoas. O animal recebia um banho de verde da marca xadrez e ficava preso em um cabresto, quando acompanhava as caminhadas e as passeatas de Aluízio Alves.

Era comum, quando chegava a Mossoró, Aluízio Alves ir à casa do “homem do carneiro verde”, que ficava na rua Felipe Camarão, para tomar um café e prosear sobre política.

À noite havia o grande comício na praça do Codó, a qual ficava lotada até altas horas da madrugada. O povo ia aos comícios segurando nas mãos um lenço verde ou um galho de árvore. As músicas da campanha, “Marcha da esperança”, “Frevo da Gentinha”, entre outras, eram entoadas pelos adultos e crianças.

Em seu livro, O que eu não esqueci, Aluízio Alves nos conta que: “os comícios e passeatas atravessavam a noite e a madrugada. No começo, de 20 horas até 6 horas da manhã. (…) Dia e noites inteiras, o povo cantando e famílias esperando nas estradas, para receber um lenço que eu atirava de cima do caminhão da esperança”.

E acrescenta o cigano feiticeiro:

“Foi a primeira vez na história da República que a campanha política deixou de ser um encontro de chefes e os ajuntamentos da cidade, para invadir todos os bairros, os sítios, o povo nas estradas só para receber um cumprimento ou um lenço” (…)

Não era nascido à época. Aliás, lembro-me somente a partir da campanha eleitoral de 1982. Infelizmente não cheguei a conhecer Seu Pedro e o famoso “carneiro verde”. Assim, perdoe-me o leitor eventuais omissões e erros na narrativa.

Para escrever esta crônica me socorri da leitura das reminiscências de Aluízio Alves e do amigo Rocha Neto, do Restaurante Prato de Ouro, que me passou valorosas informações.

Me disse Rocha Neto que “nos comícios todos ficavam esperando pela grande preleção política do gênio chamado Aluízio Alves, que era tão amado e odiado pelos que habitavam a terra de Santa Luzia”.

Enfim, “o homem do carneiro verde”, sem dúvida, faz parte da história das campanhas eleitorais de Mossoró. E Aluízio Alves, “o cigano feiticeiro”? Foi um dos grandes líderes políticos do Estado, admire-se ou não a sua trajetória política e de homem público.

Ah, e “veio do sertão lá do Cabugi”. . .

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

* Fotos cedidas pela página Relembrando Mossoró (Lindomarcos Faustino)

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Categoria(s): Crônica
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