Por Marcos Ferreira
Semana passada, talvez na terça-feira, um rapaz de minha rua, residente bem perto de minha casa (somente dois números distante de meu domicílio) disse-me que precisava que eu o ensinasse a escrever poesia. Sim. Fiquei impactado, quase sem voz. Custei uns dois segundos a quebrar o silêncio. Eu me encontrava nesse instante com uma pequena enxada limpando uma ilhazinha teimosa de capim que surgiu ao pé de minha calçada.
Ele ia passando de bicicleta e, além de me saudar de modo simpático, comentou a respeito da persistência do mato que brota entre as pedras do calçamento. Depois, sem mais rodeios, desferiu o pedido repentino. Nunca pensei que Raimundo Soares, vamos chamá-lo assim, tivesse interesse em tipo algum de assunto.
Conheço tal cidadão há um punhado de anos e se trata de alguém reservado, a ponto de durante esses anos todos apenas interagir comigo me dando um bom-dia, um boa-tarde ou um boa-noite. Precisei lhe confessar, sendo deveras honesto, que não esperava dele essa espécie de desejo. Nos finais de semana, do fim da tarde até determinado horário da noite, o avisto na sua calçada com uma caixa de som ouvindo suas músicas preferidas e tomando umas garrafinhas de cerveja. O som fica regulado em volume alto, como se Raimundo desejasse que os demais vizinhos usufruíssem de sua preferência musical. Por vezes bebe até ficar embriagado.
A mãe chega e pede que baixe os decibéis e pare a bebedeira. Embora alcoolizado, nunca o vi se exaltar, irritar-se com nada. Baixa o volume momentaneamente, mas, quando a mãe volta para dentro de casa, dá mais uma aumentada no volume. Na ocasião em que manifestou seu desejo, o de aprender a escrever poesia, estava absolutamente sóbrio. Eu é que fiquei um pouco entontecido diante do pedido do rapaz. Não sei como descobriu que lido com essa coisa de literatura, embora ultimamente eu tenha me dedicado mais à prosa do que a compor versos. Entretanto, para minha surpresa, Raimundo tem conhecimento do meu exercício no campo da versificação. Acrescentou que almejava escrever poesia rimada. Para a minha sorte, não falou acerca de métrica, algo assim mais complexo quanto um soneto, por exemplo.
Considero improvável, levando-se em conta o gênero de música que ele ouve durante horas a fio, que o aspirante a poeta adquira “inspiração” da noite para o dia. Pois a trilha sonora que exibe na calçada é uma coisa escatológica do ponto de vista poético. Trata-se (questão de gosto é diferente de questão de mau gosto) de uma categoria de canções da pior qualidade. Disse-lhe, então, que poesia vai além, e é extremamente irrelevante, de rima ou mesmo de métrica.
Existem por aí vários poemas sem poesia. Autores que aprenderam a rimar e metrificar, contudo publicam poemas de uma pobreza biafriana. Isto é, trazem a lume, ocupam os espaços em jornais e blogues, com versos de uma saúde ruinzinha, sem uma essência literária que alcance os nossos corações de maneira apaixonante, com um sentimento encantatório.
Claro que isso não é nenhuma receita pronta. Um poeta não irrompe do nada, tem que ter leitura. Há indivíduos que se queixam de ser poetas que possuem mais vida literária do que literatura. Não sou professor de coisa alguma, ainda menos de poesia. Não raro escrevo determinadas páginas sem poeticidade. Ao menos possuo discernimento para saber quando devo mandar um ou outro poema para a lixeira, deletar da telinha fluorescente do computador. O nome disso é autocrítica. Sei, obviamente, que a gente não nasce pronto. Alguém como Raimundo, apesar do tipo de música que consome rotineiramente, pode, a depender da perseverança e estudo do gênero, tornar-se um poeta meritório, que bote no bolso certos autores desta urbe.
Isso tudo vai depender de obstinação, de sensibilidade e aproximação dos bons e tantos poetas que existem no Brasil e no mundo. Não me anuncio como um poeta consumado, sempre temos muito o que absorver nesse tatame das letras, entrementes, perdoem a imodéstia, já possuo alguma bagagem. Respondi a Raimundo que não me nego a lhe dar alguns palpites no tocante a essa temática, no entanto frisei que não sou mestre nessa categoria versífica. Decerto também aprenderei alguma coisa com ele. Porque sempre é possível aprender no processo de ensinar.
Marcos Ferreira é escritor
























A vida surpreende. Isso é que é surpresa! Mais surpresa, ainda, é que a gente, sem querer, julga! Não quero com isso dizer que vai brotar desse personagem, um grande poeta. Mas fiquei curiosa! Peço que nos atualize quanto ao progresso ou falta de jeito dessa pessoa! Que ele sabe escolher um professor, a mim não resta dúvida! Sucesso na interação!
Querida Bernadete,
Você é muito especial. Cada comentário seu é carregado de motivação e sensibilidade. Muito obrigado.
Abraços.
Ainda bem que seu vizinho escolheu um professor de alto nível, quem sabe você consiga mudar o gosto musical dele, boa sorte na missão!
Prezado Naerton,
Muito bom contar com sua presença aqui no espaço reservado à opinião dos leitores. Uma semana com muita saúde e paz para você e sua família.
Forte abraço.
Caro Marcos Ferreira; tornei-me leitor de seus escritos à partir da visita semanal a este caderno, quando adquiri um exemplar de seu livro de poesias ‘A hora Azul do Silêncio’, no qual fui fisgado pela desenvoltura com que você desfia suas inquietudes existencialistas ao elaborar versos que conduzem a uma livro que não se conclui em si mesmo. Digo isto porque ‘A Hora Azul do Silêncio’ traz um delicioso gosto de ‘queromais’. Me identifiquei, já de inicio, na apresentação, onde o poeta nos presenteia com uma crônica sobre um simples vagalume para narrar os caminhos que o pensamento percorre em sua mente para, num exercício de simplificação dos problemas humanos, indagar ‘porque não nasci um simples vaga-lume?’. São vários dos textos que me despertaram atenção. Semeadura, Catarse, Soneto do Amor Perdido, Ausência, Delito… entre tantos, são versos contundentes que arranham. Contudo, semo ferir, mas potencializando a cicatrização de antigos rasgos sentimentais. E quando se pensa um poeta que perdeu a fé, finaliza, brilhantemente, com PRECE.
‘Raimundo’ estará bem encaminhado em sua mão.
Caro escritor Júlio Rosado,
Como você escreve bem e sabe dizer as coisas de maneira tão bonita. Grato por sua leitura e comentário.
Abraço fraterno.
Boa Noite, meu querido Marcos!
No meu simples ofício observei que, ao ministramos algum ensino ou técnica, durante a dinâmica do compartilhamento, há um retorno em forma de aprendizado. Você já inspirou nessa pessoa um desejo de escrever poesia, isso é lindo, levando-se em conta o gosto musical não muito apurado do mesmo. Poesia é sensibilidade! Boa sorte nesta empreitada! Saudades!
Amiga e minha eterna professora Simone Martins. Saudades de você. Muito bom nos reencontrarmos aqui neste espaço de opinião e cultura do BCS – Blog Carlos Santos. Desejo uma semana abençoada para vocês, muita saúde e paz. Abraços.
Boa tarde, poeta. Só agora pude ler a sua instigante e eclética crônica; meu celular tinha dado várias paradas cardíacas….e ressuscitou agorinha… Achei legal o tema. Trouxe à tona uma citação do honroso, LedoI Ivo, que a poesia é a única coisa que depois de sabida continua secreta.
Forte abraço, amigo!
Meu dileto poeta Francisco Nolasco, você é gente do meu coração. Sempre seus comentários vêm enriquecidos por interessantes citações de autores de relevo de nossas letras. Desta vez você nos traz o mestre Ledo Ivo. Muito bom. Saúde e paz para você e sua família.
Abraços.
Parafraseando texto de um filme: “Nem todo mundo pode se tornar um grande poeta, mas um grande poeta pode vir de qualquer lugar” Abraços coro poeta e escritor.