Por Marcos Ferreira
Algumas vezes eu te ofendi com palavras duras e afiadas como um disco de diamante. Sim, eu te maldisse em momentos incontáveis. Pisei nos teus calos, cuspi no teu chão com revolta e desprezo. Eu tinha (talvez ainda possua) vários motivos para te cobrir de impropérios. Nossa relação nunca foi fácil. Na verdade, a bem da verdade, vivemos um amor às avessas, um amor entre a ternura e o desgosto. Esperei de ti um mínimo afago, contudo só recebi pancadas, desdém, escárnio.
Ainda assim não me considero vítima de coisa alguma. Percorri os sombrios abismos de teu coração de olhos bem abertos. Eu sempre soube que, a qualquer momento, tu me cravarias uma faca nas costas. Jamais me enganaste. Não foi por inocência ou descuido que caí nos teus charcos, nos teus pântanos de mutismo, desprezo, descaso. Muitos me alertaram: toma cuidado com ela! É ardilosa.
Volta e meia alguém me dizia algo desse tipo a teu respeito. Todavia eu tinha plena consciência de onde estava pisando. Ou sendo pisado. Exatamente. Talvez eu tenha sido espezinhado mais do que pisei. Houve até um tempo, imagine só, em que eu te dediquei versos ingênuos, honestos, piegas. Por sua vez, claro, não deste a mínima para aqueles poemas açucarados, tão repletos de poeticidade quanto uma bigorna. Sim. Durante determinado tempo te levei a sério e te bendisse.
O tempo foi passando, e minha frustração ofertou espaço a um sentimento revoltoso. Fui me cansando de viver a teus pés, mendigando atenção, reconhecimento. Nada disso me foi oferecido. Quebrei a cara, perdi o encanto e me tornei um sujeito amargo e pouco receptivo à “vida em rebanho”, como diria Antonio Alvino. Bem lá no fundo, porém, guardei alguns resquícios de empatia por ti.
Embalde. Nossa relação de amor e ódio jamais nos permitiu viver outra coisa exceto uma tácita inveja um do outro. Apequenamos todas as nossas conquistas, fizemos pouco-caso de nossas vitórias, desdenhamos de tudo de positivo e admirável que possuíamos. Eu, mergulhado no ressentimento. Tu, cega de inveja dos meus pequenos sucessos neste ringue das palavras supostamente artísticas. Não nos respeitamos. Só dissimulamos, fingimos o tempo inteiro não nos enxergarmos.
Hoje, enfim, em nome de tudo que poderíamos ter sido e que não fomos, quero te propor uma trégua, levanto uma bandeira branca para simbolizar um armistício entre nós. Que tal? Imagino que nenhum dos lados tem nada a perder com isso. Até porque, na minha opinião, já perdemos muito tempo e muitas coisas durante todo esse arraigado e não discutido mal-estar entre nós. Tu sabes disso.
Estou farto desse bangue-bangue sem chumbo nem cheiro de pólvora. Quero novamente andar entre as tuas ruas, becos, avenidas e vielas sem me sentir uma espécie de escavadeira de tuas pedras e do teu asfalto. Até te perdoo (momentaneamente) por tantas árvores que foram ceifadas bem debaixo do teu nariz. E o que dizer do nosso poluído e agonizante rio? Tu fizeste muitas concessões a elementos caça-níqueis, a grileiros urbanos. Hoje se apoderaram de ti como de uma messalina.
Enquanto isso, diante deste velho notebook, eu também tento me vender por homem de letras. Ao menos um escriba dominical, arremedo de cronista com excesso de ego e pouco talento. De resto, portanto, ergo uma bandeira branca em nome de uma paz que já deveríamos ter adquirido desde o tempo em que éramos jovens e cheios de esperança no futuro desta cidade sem honra nem glória.
Marcos Ferreira é escritor













































